CIDADÃO KANE (1941)

Esta é uma daquelas resenhas que são meio que impossíveis de escrever, ou se escreve no piloto automático só jogando o óbvio. O que eu poderia dizer sobre CIDADÃO KANE (Citizen Kane), o clássico de Orson Welles, que já não tenha sido dito? Mas, depois de fazer uma revisão, me propus a deixar umas palavras aqui no blog. Só por diversão. Vamos ver o que sai…

Até porque mais do que uma simples obra cinematográfica, isso aqui deixou um legado, um feito imponente que mudou a arte e o ofício da produção cinematográfica. Não que tenha inventado o cinema moderno, ou algo parecido, como muita gente acredita, mas certamente mostrou algumas possibilidades, tanto técnicas quanto de linguagem, tanto narrativa quanto formais, que não haviam sido devidamente exploradas como Welles fez por aqui. Talvez nenhum outro filme na história tenha sido tão analisado, discutido, debatido e reverenciado. Inúmeros textos e livros foram escritos sobre o que Welles foi capaz de realizar. E embora eu pessoalmente prefira algumas outras obras do homem – diria que hoje meu favorito é SOBERBA (The Magnificent Ambersons) – ainda fico impressionado com CIDADÃO KANE toda vez que paro pra rever.

Se alguém, por acaso, ainda não viu, o filme relata a vida do magnata da imprensa Charles Foster Kane. A base de tudo tem como pretexto as últimas palavras do homem no seu leito de morte, “Rosebud“, e se desenvolve pelas inúmeras tentativas em descobrir o significado dessa palavra, com entrevistas aos amigos, associados comerciais e ex-esposas… O filme salta entre vários momentos da vida do personagem, sua infância, uma juventude promissora em que ele inicia um jornal sensacionalista, o crescimento de seu império empresarial e sua ascensão ao poder, seus casamentos, uma carreira política fracassada e a construção posterior e decadência de sua propriedade, Xanadu.

Obviamente muito há que se destacar pela maneira inovadora que Welles e seu diretor de fotografia, Gregg Toland, trabalham o visual, os espaços e a ação da câmera, incluindo o uso de foco em profundidade e tomadas em ângulo baixo, revelando tetos que anteriormente não eram mostrados nos filmes; a incrível trilha sonora de Bernard Herrmann, o uso de som e técnicas de montagem de rádio, e assim por diante. Há também o excelente trabalho de edição de Robert Wise, que se tornaria um grande diretor futuramente. Mas nada que seja o equivalente à invenção da roda. Só que realmente impressionam pela maneira perfeita como fazem.

Mas se tem algo de inovador em CIDADÃO KANE, algo que realmente possa ter chacoalhado com as bases do cinema enquanto linguagem, seriam alguns detalhes colocados na estrutura narrativa. Welles se juntou ao roteirista Herman J. Mankiewicz para criar um conto complexo, multifacetado e não linear, entrelaçando entrevistas, flashbacks, noticiários, manchetes, o que já seria até aqui algo pouco visto até aquele momento. Mas aí veio o toque de gênio: o filme é narrado a partir de histórias de múltiplos pontos de vista, utilizando narradores diferentes, em diferentes períodos ao longo das vidas dos personagens, com diferente versões das mesmas histórias. Obviamente não sou eu que tô descobrindo isso, os teóricos franceses já apontavam pra essas coisas há décadas, mas aqui está a grande inovação que CIDADÃO KANE traz, que faz o filme ter um alcance épico, quase mítico, tanto para a narrativa em si, quanto para a história do cinema.

É notório que o filme foi inspirado na vida do magnata da mídia William Randolph Hearst, que ficou tão enfurecido com o resultado que tentou destruir as cópias. Apesar de Welles não esconder muito a referência de Hearst, ele não foi a única inspiração para Kane, que é uma mistura de figuras públicas conhecidas, principalmente empresários e importantes magnatas da imprensa, o que transformou o diretor em persona non grata e consequentemente aquilo que todos sabem: Welles precisava mendigar pra conseguir levar adiante seus projetos, nunca mais conseguiu total liberdade criativa e muito menos o mesmo orçamento que teve aqui. Mas como um gênio maldito que era, conseguiu se virar e continuar a fazer filmes tão bons e até melhores que CIDADÃO KANE.

Nem mesmo sucesso financeiro o filme conseguiu fazer na época e acabou num limbo durante um bom tempo, até que os críticos ajudaram a revivê-lo e ser lembrado como o clássico que é desde os anos 50 e 60, sempre figurando em posições privilegiadas nas listas de melhores filmes de todos os tempos. Pessoalmente, não acho que seja pra tanto, não tá nem no meu top 100 pessoal atual (talvez entre agora com essa revisão, quem sabe?), mas faz total sentido essa adoração por CIDADÃO KANE ao longo das décadas. É realmente um filmaço pra se rever sempre.

THE BLACK CAT (1934)

Venha, Vitus, somos homens ou somos crianças? De que servem todos esses gestos melodramáticos? Você diz que sua alma foi morta e que esteve morto todos esses anos. E eu? Não morremos ambos aqui em Marmorus há quinze anos? Não somos igualmente vítimas da guerra do que aqueles cujos corpos foram despedaçados? Não somos ambos os mortos vivos?

THE BLACK CAT era uma ideia que circulava pela Universal há algum tempo quando finalmente Edgar G. Ulmer e Peter Ruric criaram um roteiro que foi considerado aceitável e receberam sinal verde. O filme foi lançado no meio de 1934 e recebeu críticas não muito agradáveis dos especialistas, mas o público não se importou e acabou se tornando o maior sucesso da Universal naquele ano.

Um detalhe óbvio contribuiu pra isso: o fato de ser o primeiro filme a reunir os dois grandes ícones do horror da Universal, Boris Karloff e Bela Lugosi, que ainda estavam quentes no período após o sucesso de FRANKENSTEIN e DRÁCULA.

Mas não foi só isso. O orçamento de THE BLACK CAT era modesto em comparação com alguns dos outros primeiros filmes de terror da Universal, mas Ulmer sempre foi um diretor rápido e eficiente e tirou o máximo proveito do orçamento entregando um belo filme de horror. Tinha o nome atrativo do escritor e poeta Edgar Allan Poe recebendo destaque na publicidade do filme, mesmo que a história filmada não tenha lá grandes conexões com nada que Poe tenha escrito (embora capture um pouco do seu espírito). E para além de tudo, o filme ainda apresenta várias delícias sinistras e inesperadas para uma produção de 1934, incluindo tortura, necrofilia, culto satânico e a mansão do vilão mais modernista que o cinema tinha visto até então.

E aí acabou que THE BLACK CAT é essa uma obra única, original e bem controversa daquele período que precisava ter mais reconhecimento nos dias de hoje, merece ser visto especialmente pra quem curte o horror da universal e que ainda não assistiu aos exemplares fora do ciclo dos monstros clássicos. Um filme que representa os altos padrões de ousadia que a Universal conseguia alcançar antes do Código Hays ser firmemente estabelecido e a censura impedir que mais filmes como esse fossem feito por algumas décadas.

Na trama, um jovem casal americano, Peter Alison (David Manners) e sua esposa Joan (Julie Bishop),viajam pelo centro da Europa no Orient Express quando conhecem um distinto psiquiatra húngaro, Dr. Vitus Werdegast (Bela Lugosi), que está retornando à região – após uma ausência de muitos – anos para visitar um amigo… Que talvez não seja tão amigo assim.

Werdegast lhes conta que durante a Primeira Guerra Mundial ele se tornou prisioneiro depois que a fortaleza austro-húngara de Marmorus fora entregue ao inimigo, uma traição que custou a vida de milhares de homens. E ele acredita que o responsável por tal traição foi justamente seu “amigo”, Hjalmar Poelzig (Boris Karloff). Ele também culpa Poelzig pelas mortes de sua esposa e filha. Ou seja, Werdegast anda bem chateado nessa sua jornada…

Durante o trajeto, o ônibus em que Peter e Joan Alison e o Dr. Werdegast estão viajando sofre um acidente em uma estrada montanhosa durante uma chuva e o motorista acaba morrendo. Os passageiros sobrevivem, apesar de Joan ter se machucado, e seguem a pé até a casa de Poelzig, agora um renomado arquiteto e cuja mansão ultra-modernista foi construída sobre as ruínas da fortaleza de Marmorus, local que agora ele e Werdegast se envolverão num jogo perigoso, tendo Joan como aposta.

Basicamente, essa é toda a trama. Bem simples, uma hora de duração, mas THE BLACK CAT é o tipo de filme que menos se importa com a história e se baseia mais nos climas, na atmosfera, nas ideias absurdas, no visual impressionante dos cenários e nas atuações brilhantes. Todos esses elementos estão presentes em quantidade suficiente para cativar o público e garantir que ninguém fique choramingando.

Karloff conseguiu o papel mais interessante e sinistro por aqui, mas Lugosi tem uma performance tão soberba e mais cheia de nuances que não há perigo de ser ofuscado pelo rival. Embora a realidade dessa rivalidade provavelmente seja menos interessante do que era divulgado, sempre havia fundo de verdade. Lugosi teve muito sucesso com DRÁCULA, mas foi rapidamente ultrapassado por Karloff com FRANKENSTEIN, num papel que Lugosi notoriamente recusou. O fato de Karloff frequentemente receber papéis mais atrativos, enquanto Lugosi era frequentemente relegado a personagens secundários, só ajudou a alimentar as chamas da (alegada) animosidade entre os dois. O que torna THE BLACK CAT ainda mais fascinante. E ambos estão maravilhosos, no auge de suas performances.

Karloff está perfeito como o arquiteto satanista. Com sua tez pálida, características faciais angulares e olhar morto, ele se parece mais com um cadáver ambulante do que com um homem vivo. Embora comumente seja ensinado que não se deve julgar um livro pela capa, sua aparência reflete suas ações malignas. A postura erudita de Poelzig disfarça suas intenções sinistras.

Já Lugosi exibe uma certa versatilidade como o atormentado psiquiatra. Aparentemente seu personagem foi suavizado para tornar suas ações mais heroicas em contraste com Poelzig, mesmo que sua natureza seja tão sombria quanto a do seu rival. Mas fica a impressão de que mesmo amargurado por anos de encarceramento Werdegast teria perdido muito, mas não a sua humanidade. E Lugosi consegue transmitir essa dualidade com muito talento.

Os outros atores nem valem muito a pena ficar mencionando. Num determinado momento, o jovem Peter tenta se entrosar com Poelzig. O arquiteto desdenhoso pergunta a ele: “Você joga xadrez?”. O americano faz piada sobre jogar uma boa partida de pôquer e Poelzig responde com impaciência distante: “Bem, se não se importa, acho que vamos continuar com nosso jogo.” O que também poderia ser traduzido como “parceiro, se liga que estamos roubando a cena aqui, e você tá estragando o momento.

Mas também há muitas coisas para se admirar em THE BLACK CAT que vão além da presença desses gigantes do horror. A direção de arte, por exemplo. Que sacada brilhante ao mesmo tempo bizarra transformar “a velha casa sombria gótica” habitual do folclore dos contos de terror em um palácio modernista Art Déco! O visual da casa e dos interiores se mostra muito mais estranho e ameaçador do que os clichês visuais góticos. Sabe-se que Ulmer começou sua carreira no cinema como diretor de arte, e é o brilho e a extravagância decadente dos visuais que tornam isto aqui um dos grandes marcos do horror no período.

As imagens impressionantes proporcionam o acompanhamento perfeito para os temas ultrajantes, decadentes e bizarros com os quais o roteiro está repleto. Praticamente todo mal, perversão e forma de loucura que os roteiristas (e o público) puderam imaginar estão aqui, desde necrofilia até satanismo. Hjalmar Poelzig tem uma sala onde mantém sua coleção de cadáveres perfeitamente preservados, incluindo o da esposa do Dr. Werdegast. É uma ideia chocante, tornada ainda mais assustadora pela forma como é apresentada e que deve ter causado muita impressão para o público da época.

Detalhes como a acariciada de Poelzig numa estátua enquanto o jovem casal se beija ao fundo (acima) é um de tantos momentos em que uma sexualidade sombria e demente emerge. Há o olhar intenso e ardente que Poelzig fixa em Joan, que fica mais assustador quando ele revela que seu interesse é principalmente “espiritual” (ou seja, ele quer desmembrá-la em um rito luciferiano entre acólitos de smoking).

E há a maneira lasciva como o bom doutor amarra seu adversário a um suporte no final do filme, arrancando a camisa de Poelzig com fúria (Lugosi parece possuído ao sibilar: “Já viu um animal sendo esfolado vivo? É o que vou fazer com você!”). A reação quase indiferente de Karloff com o peito nu, como se ele estivesse silenciosamente aguardando uma dor que irá saborear, vende todo o ato como algum tipo de ritual bizarro e sádico, uma conclusão lógica da Missa Negra da noite que havia dado errado alguns minutos antes.

Edgar G. Ulmer não sabia na época, mas essa seria a primeira e última vez em sua carreira em que teria um orçamento generoso e os recursos de um grande estúdio lhe apoiando. Seu caso amoroso e subsequente casamento com a esposa do sobrinho do chefe da Universal, Carl Laemmle, o baniria para o mundo dos estúdios Poverty Row (as pequenas produtoras de filmes B de orçamento minúsculo da época). Mais tarde, Ulmer acabou se tornando um dos queridinho subestimados dos teóricos do autorismo no cinema, e seus filmes de baixo orçamento são levados muito a sério. O que acho justo. E este aqui é provavelmente seu melhor trabalho.

BLACK SAMURAI (1977)

Um dos principais atrativos de BLACK SAMURAI, de Al Adamson, é a atuação sempre leve e saltitante de Jim Kelly, o Bruce Lee da Blaxploitation, que parece estar sempre em movimento, não só quando enfrenta seus adversário. O sujeito já tinha demonstrado uma certa classe e um ar cool desde sua estreia, em OPERAÇÃO DRAGÃO, e é bacana vê-lo mantendo seu estilo em todas as circunstâncias, mesmo num produto classe B, de orçamento risível, como este aqui.

Aliás, BLACK SAMURAI foi o primeiro de dois filmes que Kelly fez sob o comando de Adamson. O outro foi DEATH DIMENSION, lançado do ano seguinte. E o sujeito tá ótimo por lá também.

BLACK SAMURAI é um filme que se assiste com um certo prazer e que, apesar das aparências, não exige tanta indulgência especial para isso, sobretudo se você já for um aficcionado por tralhas cinematográficas do tipo “tão ruim que é bom“.

O filme começa meio morno, com uma perseguição meio lenta demais, uns bandidos liderados por Chavez (Roberto Contreras) a mando do ignóbil Janicot (Bill Roy), feiticeiro, traficante de escravos, traficante de drogas, e sei lá mais o quê, que estão atrás da jovem Toki Konuma (Essie Lin Chia), filha de um político influente. Conseguem captura-la. Depois, vem a exposição do herói jogando tênis, com o diretor seguindo a bola de um lado para o outro com sua câmera, sempre com um leve atraso…

Ai, ai, ai, é isso mesmo BLACK SAMURAI?” Pensa-se rapidamente com uma ansiedade apertando a garganta ao ver tanta motivação cinematográfica e planos/contra-planos laboriosos nos primeiros quinze minutos… Mas então, de repente, as coisas melhoram: Robert Sand (Jim Kelly) faz alguns movimentos de treinamento com a espada e o nunchaku diante da câmera antes de trabalhar sua respiração e mover seus músculos flexíveis quando, de repente, um anão aponta uma arma para ele e diz: “pena que os punhos não sejam tão rápidos quanto as balas, né?“. E a negação chega mais rápido do que o esperado, causando surpresa no agressor e alegria no público.

O filme se transforma numa série de cenas de ação intercaladas com alguns trechos de diálogos, umas festinhas de feitiçaria, uma ceninha de striptease, tudo isso em um clima descontraído, um festival de golpes a todo instante e um enredo desconexo e altamente improvável que, no fim das contas, quase ninguém se importa.

Porque afinal, o que se trata BLACK SAMURAIS? É muito simples: é a história desse agente secreto da Dragon (não me pergunte o que é isso), Robert Sand, lidando com a organização do feiticeiro/traficante de drogas/cafetão Janicot, que sequestrou sua namoradinha, a tal Toki, que, como disse, é filha de um político decidido a combater o tráfico de drogas. Sand precisa investigar e correr contra o tempo para salvar sua garota utilizando seu carro com apetrechos de agente da Dragon e outras parafernálias, o que gera uma série de lutas principalmente desarmadas, apesar do uso de algumas armas de fogo em alguns momentos.

Al Adamson claramente mira no nicho do subgênero Spy, filmes de James Bond (o carro “armado” e os gadgets do agente) e no de Bruce Lee (múltiplas lutas, presença de um Jim Kelly com uma agilidade que impressiona), sem esquecer o público negro, surfando na onda da Blaxploitation. O filme atira pra todo lado ao mesmo tempo, com o objetivo de ir o mais longe possível. O coquetel é improvável, poderia ter sido totalmente indigesto, mas até que é bem-sucedido, trazendo até mesmo uma leve embriaguez, mas sem as dores de cabeça, prova de que a mistura dos diferentes ingredientes é perfeita pra quem curte uma boa tralha.

Entre sequências sem pé nem cabeça (como a da mochila-foguete, ou a quantidade de anões que vão surgindo ao longo da trama), artifícios de roteiro que não enganam ninguém, cenários às vezes dignos de uma peça de teatro amador, uma filmagem às vezes relaxada, BLACK SAMURAI funciona e é bom de seguir. Rápido, simpático, Jim Kelly arrasta o espectador consigo, sem se preocupar muito com realismo, vagando pelos cenários toscos e indo de surpresa em surpresa, já que o filme, longe de ser totalmente previsível, muitas vezes não é de todo por falta de rigor no roteiro…

Enfim, se BLACK SAMURAI está longe de ser isento de defeitos, e isso é bem óbvio em se tratando de Al Adamson, mas muitas vezes esses defeitos lhe conferem um charme quase infantil, um espírito troncho das história em quadrinhos mais tronchas que existe o que torna tudo muito divertido.

UM HOMEM A MAIS (1967) E A MATERIALIDADE DO CINEMA DE AÇÃO

Texto de Gabriel Lisboa

Se tem algo que adoro são histórias da arqueologia cinematográfica e de pérolas que ganham uma segunda chance. A restituição à vida de filmes tidos como perdidos ou até então apenas em cópias péssimas e por isso sem chances de ser devidamente apreciados (PELOS CAMINHOS DO INFERNO, COMBOIO DO MEDO), ou ainda aqueles que ganham valor justamente por ser uma cápsula do tempo, aberta depois de décadas para revelar todo o aroma de uma época (MIAMI CONNECTION, NEW YORK NINJA). UM HOMEM A MAIS de 1967 dirigido por Costa-Gavras é um forte candidato a merecer esse reconhecimento tardio. O mais impressionante filme de ação que ninguém viu!

Nunca lançado em mídia física, o filme recebeu só em 2021 um lançamento em Blu-ray pela empresa Arte Editions e é a única versão disponível na Amazon americana. Ou seja, aparentemente nenhuma Arrow, Eureka ou Criterion ainda lançou o filme. Antes disso, o filme só foi reexibido em 35mm a partir de uma restauração feita em 2016, sob a supervisão de Costa-Gavras. O filme no IMDB aparece nomeado em português como TROPA DE CHOQUE: UM HOMEM A MAIS, sendo o primeiro retirado do inglês SHOCK TROOPS e o segundo do título do original UN HOMME DE TROP. Como o filme trata de um grupo de guerrilheiros maquisards (maquis significa literalmente “arbusto”) da Resistência francesa, não faz sentido chamar o filme de Tropa de Choque, termo que designa praticamente o inverso: a tropa de ataque mais bem equipada e treinada de um exército. A Resistência tem como programa ser o estorvo; obrigar a Alemanha a tirar um destacamento do front principal para caçar meia dúzia de rebeldes no meio das montanhas.

Assim sendo, vamos chamar aqui o filme de UM HOMEM A MAIS do original, que de fato, também não é tão adequado. Esse homem a mais é interpretado por Michel Piccoli, mais conhecido pelos filmes que fez com Luis Buñel e por A COMILANÇA. Michel, cujo nome no filme não sabemos, é o 13° homem liberado de uma prisão nazista, quando na verdade apenas doze homens condenados à morte estavam nas contas do grupo de resgate liderado por Cazal, interpretado por Bruno Cremer (COMBOIO DO MEDO, mais um ponto de contato e as semelhanças não param por aqui!). A trama do filme parece que seguirá como linha principal saber se o homem será ou não digno de confiança. Porém, esse estudo de personagem ou suspense, acaba sendo uma história até que bem secundária já que o filme nunca fica nessa investigação. Cazal e seu bando estão em constante movimento para sobreviver, missão atrás de missão. E talvez esse frenesi seja ao mesmo tempo o ponto fraco e forte do filme.

Antes de entrar na análise do filme em si e para apresentar o raciocínio que sustentará a análise, preciso entrar no mérito da comparação. O filme é uma coprodução ítalo-francesa e tem o nome de Harry Saltzman envolvido no projeto; o cara responsável por produzir os filmes de James Bond no período. No mesmo ano de 1967 foi lançado, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES, um bom e divertido filme do espião, porém um pouco datado. Não só pelas caricaturas e yellow-face envolvendo japoneses, mas em termos de ação, o filme é repleto de takes de retroprojeção durantes as perseguições de carro e de helicóptero. Há de fato uma luta muito boa entre Connery e Peter Maivia, wrestler samoano, num escritório. Mesmo que com cenas icônicas, um senso real de materialidade da ação era algo esparso nessa fase com Connery. Consigo lembrar de cabeça de mais duas boas lutas nesse sentido: Bond contra Red Grant e a luta no elevador de OS DIAMANTES SÃO ETERNOS. A coisa muda um pouco na fase Moore, mas a ação começa a se deslocar da trama para evidentes stunts de dublês, como a luta em cima de um avião em 007 contra Octopussy. Inclusive algumas dessas cenas incríveis como a do carro em espiral de Com 007 VIVA E DEIXE MORRER tem essa materialidade subtraída com o efeito sonoro de um apito que mata o take transformando tudo num desenho animado (a stunt é tão bem executada que essa artificialidade é reforçada).

O que UM HOMEM A MAIS realiza então é a mais improvável das adições. Tem o orçamento de James Bond, o ritmo de um ESTRADA DA FÚRIA, a verborragia de um Kevin Smith, somados a câmera presente e materialista de A BATALHA DE ARGEL, trazendo também certo peso e dialética desse filme. E quando digo materialista me refiro a dois pontos principais: primeiro é o caráter essencial da câmera in loco, colada ao corpo dos homens ou agarrada a tanques e caminhões, invariavelmente fruto de um único take, ou seja, é uma imagem imprevisível (até certo ponto). É o completo oposto das imagens em retroprojeção feitas em estúdio, onde se faz de novo e igual (ou o mais próximo possível se formos para o lado purista em que todo take é único). Aliado a isso, para compor esse materialismo, também depreendo aquilo que o crítico André Bazin chamava de montagem proibida, ou seja, quando é importante ou indispensável que dois pontos de interesse de uma cena, ação e reação, apareçam numa mesma tomada, sem cortes (caso contrário o efeito desejado se perde porque o público percebe que há uma trucagem). Há uma cena em que os guerrilheiros estão aprendendo a atirar com uma bazuca, dentro de uma cabana, até que ela dispara por acidente. Num primeiro plano vemos a centelha e fumaça que saem da traseira da arma e mais ao fundo através de uma janela, uma árvore que explode com o tiro da bazuca, tudo em um único quadro. O plano seguinte repete a explosão do lado de fora, que quase atinge alguns atores.

O ponto aqui não é apenas (não serei hipócrita) se regozijar com uma época mais irresponsável do cinema. Até que ponto essa cena opera em dois sentidos simultâneos que não se anulam: ficamos chocados tanto na diegese, pelos soldados dentro do filme, mas mais ainda imaginando como aquilo foi feito? Ou é um momento que apenas te tira do filme? Creio que o já citado ESTRADA DA FÚRIA cria sim uma certa materialidade, porém, ao mesmo tempo, não deixa de sobrepor a ela um verniz de color-grading, fumaças, areia e texturas de pós-produção para justamente esconder essa condição de veracidade, para que o público se deslumbre com os feitos e efeitos práticos, mas sem nunca abandonar o caráter imaginativo da cena. Como se o CGI fosse um alento inconsciente contra o real demais. Há dezenas de pequenos momentos assim em UM HOMEM A MAIS, é claro, menos escandalosos, que não precisam acontecer (e em filmes B não acontecem, pensando num segundo take). Os tiros “furam” as portas, janelas são quebradas e tinteiros são arremessados contra as paredes manchando-as de preto. Fr.7

Um segundo grande momento, talvez o mais genial do filme, é o que o bando foge em um caminhão por uma estrada montanhosa, perseguidos pelos nazistas. O motorista é baleado. Michel Piccoli então sai da parte de trás para tentar assumir o volante do moribundo. Outros vem ao seu auxílio. O velho que acompanha/é prisioneiro do grupo, quase cai do banco de carona. E nisso a câmera se afasta. Numa tomada aérea sem cortes, percebemos que paralelamente a estrada dos nossos heróis corre outra estrada mais abaixo com um caminhão cheio de nazistas. Mas não, é ainda pior! A câmera recua ainda mais e percebemos que é a mesma estrada, que logo mais a frente fará uma curva sinuosa para descer a montanha. Morrem pela curva ou pelos nazistas!

E até aqui não falei da minha sequência favorita! Vou ser breve porque para ela caberia outro texto inteiro. Ela divide-se em três cenas: primeiro a rendição da polícia entreguista, o assalto de um banco/correio e o tiroteio no meio de uma praça contra um atirador solitário; um jovem reacionário. O plano em que Cremer atravessa a praça com a câmera lhe seguindo num plano aberto que parece saído de NASCIDO PARA MATAR. Então, o atirador atinge um dos maquisards antes de ser baleado. Os dois feridos são colocados na traseira de um caminhão. Lado a lado. Centelhas de ódio. A mãe do garoto aparece. Um médico diz que não há o que fazer. A coisa moral a se fazer é matar o garoto ali mesmo ou levá-lo prisioneiro? Tem menos direitos que o também ferido maquisard? O caminhão parte com os dois. Outro jovem pula no caminhão querendo entrar para a Resistência. Seu pai, aparece aos berros e correndo. Cortamos para Cremer. Voltamos para os fundos do caminhão. O pai continua a repreender o garoto (“Sabia que você não daria em nada”, “Pense na sua mãe!”) mas agora lhe entrega uma arma embrulhada num tecido e a cena ganha um caráter até irônico que não se resolve.

Há uma porção de momentos assim. Não ficamos dois minutos sem um diálogo! O que de fato é muito cansativo, ainda mais para quem segue o filme com legendas e não quer desgrudar os olhos da mise-en-scène. Costa-Gavras também coloca em prática vários truques visuais e raccords pelo simples prazer de vê-los funcionar, como um Iñarritu que irrita tanto alguns críticos com sua proeza técnica injustificada. Porém, se as escolhas da operação da linguagem cinematográfica devem ser motivadas então Costas-Gavras acerta em cheio, por que qual seria o tema aqui senão a impossibilidade da contemplação? De como é inviável parar e pensar sobre a (i)moralidade de cada decisão? É 1940 e os nazistas tomaram a França. Uma titubeada significa a morte. Enquanto os Maquisards assaltam o banco/correio, Cazal diz ao bancário que ele assinará um recibo pelo valor que eles estão roubando, “Do que vale a sua assinatura?” diz o engravatado, “É só mostrá-la quando a França estiver livre”. O acerto de contas ficará para depois. Não há tempo para se preocupar com aparências ou revigorar o ânimo dos rendidos. Mas se uma viúva der mole, ninguém é de ferro.

Disse que Michel Piccoli é aquele estranho que os protagonistas não devem confiar, mas como estes carregam o peso de ser o compasso moral do filme (e da Guerra) há esse embate entre a empatia e o pragmatismo. Há vários filmes em que esse tipo de personagem dá falsas pistas de amizade e acaba por se mostrar, de fato, um traidor. Piccoli não chega a tanto, mas é ele o catalisador para caos que leva a morte de vários guerrilheiros e a quase falha completa do plano sobre o qual gira o último ato. Piccoli encarna o pacifista, aquele que não crê que não seja possível resolver as coisas com o diálogo. Porém, se num dia ele é poupado de uma execução por um dos guerrilheiros, que por compaixão, desobedece a uma ordem do QG, no seguinte é capturado com dois cabeças do grupo Maquis por nazistas que se deleitam com os detalhes do enforcamento que carregarão em breve. Uma amostra de que em si qualquer ato de violência é injustificado, mas que talvez seja necessário praticar o imponderável para, paradoxalmente, evitá-lo*. Picolli termina o filme fugindo dos alemães, descendo pelas vigas de uma ponte como um covarde quando comparado aos colegas, mais preocupados com a missão do que com a própria vida. Nem que seja levando um único nazista para vala consigo. O último plano do filme, mais um desbunde, mostra Picolli, e sem dublês, agarrado ao aço a centenas de metros do chão, enquanto a câmera num take aéreo, toma distância, saindo de seu rosto até congelar (freeze-frame) num plano geral da ponte toda. Fr. 17

*Aqui faço um desvio que daria em outro texto, mas o que estou especulando é que seria mais “fácil” fazer um filme antibélico como GLÓRIA FEITA DE SANGUE ou PLATOON do que ao retratar Segunda Grande Guerra. E o curioso é que de um dos períodos mais abomináveis da história, têm-se os nazistas como vilões no sentido mais óbvio e unidimensional possível e dessa forma nasce o men-on-a-mission, filmes “leves” de aventura hollywoodianos, com a vantagem de ser impraticável problematizar o outro, como quando dos algozes indígenas e mexicanos, por exemplo, nos filmes de cowboy. Também de 1967, OS DOZE CONDENADOS, e os fãs do filme que me perdoem o sacrilégio, tem como segundo ato todo praticamente uma Loucademia de Polícia 3. E digo isso não como um demérito, mas só para informar o tom dominante desses filmes. E para amarrar tudo, também desse filão, O COMANDO 10 DE NAVARONE é um filme que por acaso se passa durante a Segunda Guerra, tão mais próximo de um filme de James Bond que além de Harry Saltzman também na produção (como em Um Homem a Mais) e Guy Hamilton na direção conta com Robert Shaw, Richard Kiel e Barbara Bach na frente das câmeras.

ALGUMAS DESCOBERTAS E REVISÕES

STEAMBOAT ROUND THE BEND (1935); de John Ford

Nunca tinha visto esse do Ford. O filme já seria uma maravilha de qualquer maneira, uma comédia cheia de personagens fascinantes e uma trama encantadora, mas aí vem o final, uma corrida maluca de barcos engraçadíssima e cheia de simbolismos – para ganhar velocidade, os tripulantes do barco jogam todas as estátuas de cera do museu no forno, figuras representativas da história americana, porque todos os símbolos e mitos devem ser eventualmente destruídos para progredir. Um dos momentos mais divertidos e geniais da carreira de Ford. E mais uma bela parceria com o ator Will Rogers.

O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES (1936); de John Ford

Mais um Ford que vejo pela primeira vez. Baseado numa história real, o filme conta a fascinante aventura do Dr. Mudd (Warner Baxter), que numa certa noite teria sido melhor não ter ajudado a tratar a perna de um homem. Acontece que o homem é John Wilkes Booth, que havia acabado de assassinar o presidente Lincoln. No dia seguinte os Yankees decidem prender todos os homens que haviam entrado em contato com o fugitivo. Após um julgamento unilateral, o Dr. Mudd escapa por pouco da forca, mas é transferido para uma ilha prisão cujas águas que cercam o local são infestadas por tubarões. Na segunda parte do filme temos uma tentativa de fuga e a possibilidade de redenção desse personagem tipicamente fordiano. Baxter provavelmente tem a melhor atuação da carreira e o filme é lindamente fotografado por Bert Glennon, que continuaria a trabalhar com Ford. A trama tem várias alternâncias de tom nessa jornada, tudo se desenrola muito rapidamente, mas ainda há alguns ótimos momentos visuais fordianos, como toda a sequência da fuga; ou o fechamento lento das portas em Fort Jefferson enquanto um corneteiro entoa o toque de recolher no centro da tela; ou o véu que desce sobre o rosto de Lincoln – uma expressão puramente visual do fechamento emocionante de um capítulo da história americana e que sempre interessou muito à Ford. Poético em sua simplicidade.

CLUB HAVANA (1945); de Edgar G. ULmer

Peter Bogdanovich: Bem, e Club Havana (1945)?
Edgar G. Ulmer: Adorei fazer – Adorei! Não tinha roteiro – de novo, fiz um Rossellini. Era um filme que eu não ia realizar; quem ia trabalhar nele eram Russell Rouse e Clarence Greene. Fromkess tinha contratado uma equipe inteira e tudo o mais, mas jogou o roteiro fora uma semana antes de começarmos a filmar. Ele me chamou e disse: “Ok, você diz que consegue fazer as coisas – filme sem roteiro – invente-o”. Assim arranjei alguns atores. Eu só dispunha de uma página – um esboço. Schüfftan também trabalhou nesse filme pra mim. Realmente me diverti com esse – todo o filme foi filmado num só set. Conseguimos um sucesso musical e tanto com aquilo: foi a primeira vez que se usou “Tico-tico”.

PB: Qual era o desafio? Apenas fazer alguma coisa?
EGU: Não! Fazer algo especial – fazer Grand Hotel (1932) num só lugar.

PB: Club Havana foi o Grand Hotel da PRC?
EGU: Sim.

Coisa linda isso aqui. No decorrer de uma hora, num único ambiente, dramas, mistérios, paixões humanas são resolvidos em meio as músicas “Bésame mucho” de Consuelo Velázquez e “Tico-Tico, no Fubá” de Zequínha de Abreu, enquanto Ulmer conduz tudo com a sua maestria habitual.

CURVA DO DESTINO (DETOUR, 1945); de Edgar G. Ulmer

Mais um filme do Ulmer. Já fazia uns vinte anos que não revia e a única coisa que eu lembrava era da personagem de Ann Savage, excelente como uma das mais devastadoras femme fatales do cinema noir. O filme continua uma belezura, filmado em seis dias, com orçamento risível, mas transbordando de pulsão criativa, uma intensidade absurda e sequências icônicas. Ficção pulp em sua forma mais visceral.

THE BLUE GARDENIA (1953); de Fritz Lang

Lang dizia que os seus filmes conseguiam permanecer atuais porque tratavam de temas universais, que não ficavam datados. THE BLUE GARDENIA pode não ser dos seus melhores trabalhos, mas é um bom exemplo que se encaixa nessa descrição; aborda uns tropos cabeludos como abuso sexual em situações em que a mulher se encontra embriagada e as consequências de um possível assassinato em legítima defesa, tudo filmado com a inteligência e maestria habitual do alemão…

Mas a habilidade de Lang aflora sobretudo na primeira metade, na maneira como conduz diálogos casuais, interações entre as personagens (o trio feminino central é maravilhoso, Lang deveria ter feito mais filmes sobre esse universo) e os indícios da angústia que está por vir. A tensão aumenta ainda mais quando o assassinato entra em cena. Uma pena que dá uma caída na reta final, com um desfecho bem bobo, provavelmente por imposição do estúdio, mas que não apaga o belo filme que vem antes.

MOST DANGEROUS MAN ALIVE (1961); de Allan Dwan

A premissa lembra uma história de origem de algum super-herói clássico, com o protagonista ganhando “super poderes” à partir da exposição da radiação de um teste de bomba atômica, mas ao invés de um herói padrão, o sujeito tá fadado a um destino mais apocalíptico. O roteiro é meio amalucado e é incrível como Dwan se mantém fiel ao seu estilo, filma bem pra burro, sem firula, simples, seco, com uma economia de fazer inveja, mas ao mesmo tempo criativo. Sempre existe um ou mais momentos de gênio, tudo com orçamento minúsculo, e extrai ao máximo dos personagens/atores, sobretudo quando estão envoltos por sombras.

WITCH HUNTER (1994); de Paul Schrader

Dos poucos filmes do Schrader que ainda me faltava. Produção pra TV, da HBO, sequência de um outro filmeco com o mesmo personagem, o detetive particular Phil Lovecraft (Fred Ward no primeiro e Dennis Hopper neste aqui), a trama é basicamente um (neo) noir, mas que se passa numa Hollywood de universo alternativo nos anos 1950, onde a bruxaria e magia é uma realidade comum e as autoridades são contra seu uso. Uma comissão é formada por um senador republicano (Eric Bogosian) pra descobrir usuários de magia, enquanto o tal detetive Lovecraft investiga o assassinato de um executivo de estúdio. Difícil não pensar no Macarthismo, na paranoia anti-comunista do período, mas seriam coisas que tornariam o filme mais profundo do que realmente é… A trama é no máximo divertida, acompanhar Dennis Hopper pagando de detetive nunca é tempo jogado fora, e tem seus momentos mais imaginativos pra mostrar esse universo de magia, cujos elementos mais memoráveis são os efeitos especiais, um CGI arcaico mas que tem seu charme pra um filme de TV dos anos 90. Filminho bacana e só. 

E tem uma participação bem legal do Julian Sands (RIP).

ALLUDA MAJAKA! (1995); de  E.V.V. Satyanarayana

Olha a que ponto cheguei com o vício em cinema indiano… Este é o tal filme que possui a famigerada cena que virou meme no youtube nos anos 2000, quando se brincava muito com os exageros dos filmes de ação indianos, onde um sujeito desliza com um cavalo por debaixo de um caminhão… E acreditem, talvez isso nem seja a coisa mais absurda que tenha por aqui. ALLUDA MAJAKA! é um festival de sandices, um masala insano, muito divertido e com o Chiranjeevi inspirado, fazendo o papel mais safado que já vi, dando tapa na bunda das moças, tirando o biquini delas dentro de um lago, e com muita energia nas partes dramáticas, nas danças e nas sequências de luta, que são ótimas. A trama perde um pouco a força na segunda metade, com uma brincadeira de disfarces e uma enrolação com as situações e o excesso de personagens, mas a presença de Chiranjeevi mantém as coisas vivas por todo tempo que fosse necessário… O sujeito é um fenômeno e já demonstrava perfil de herói telugo das massas há mais tempo do que eu imaginava.

FEDERAL PROTECTION (2002); de Anthony Hickox

Perdemos o grande diretor Anthony Hickox recentemente. E aí fui rever isso aqui. A trama não é particularmente emocionante, mas homem sabia como revestir tudo numa lógica neonoir pulp que eu não resisto, bem divertida de acompanhar, nem que para isso tenha que sacrificar a história central inicial – mafioso em proteção federal após ser testemunha contra seus antigos companheiros corre o risco de ser descoberto – pra criar um plot dentro do filme com a personagem da Dina Meyer, que acaba roubando a cena pra si – a sequência no quarto do hotel, com ela vestida de dominatrix e perfurando a testa de um sujeito com o salto do sapato é um dos ápices do cinema de Hickox. Desses momentos geniais que vez ou outra aparecem em pequenos thrillers B, sobretudo se forem dirigidos por um mestre do calibre de Hickox (uma pena que poucos vão realmente alçá-lo a essa condição). No mais, temos a figura de Armand Assante pagando de fodão, boas sequências de ação e tiroteios e um humor que beira o absurdo de vez em quando. R.I.P. Hickox.

CAÇADO (2003); de William Friedkin

Revi isso aqui pra gravar um episódio do Cine Poeira (que já está no ar, inclusive). De vez em quando acontece dessas, um diretor veterano precisa chegar e mostrar como fazer as coisas direito. Não sou do tipo ranzinza nostálgico reclamão (confesso que já fui), mas no início dos anos 2000 o cinema de ação em Hollywood andava bem capenga. E aí o Friedkin chega com CAÇADO e mostra como se faz. Não que não tivéssemos bons filmes de ação no período, mas Friedkin desafia e subverte as tendências dos anos 2000, em 90 minutos cria um exercício minimalista, basicamente uma caçada humana, sem excessos, sem gordura, pontuada por alguns dos combates de facas dos mais violentos e bem filmados da história do cinema. Sério, os enquadramentos de Tommy Lee Jones e Benício Del Toro (um dueto excepcional aqui) com uma câmera nervosa e a forma como tudo é montado é praticamente uma aula de cinema. Basta ver CAÇADO pra perceber a diferença entre o verdadeiro corte cinematográfico e a punhalada de video clip que tomou conta dos filmes de ação em Hollywood no período. Filmaço demais! O último filme gigante de um dos maiores diretores americanos que tivemos. 

A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985)

Após o sucesso do clássico de 1968 A NOITE DOS MORTOS VIVOS, os seus co-criadores, George Romero e o roteirista John Russo, tiveram diferentes ideias para prosseguir explorando esse universo de zombie movie que se abriu e seguiram seus próprios caminhos. Romero continuou fazendo seus filmes e uma década depois resolveu retornar ao tema quando fez mais uma de suas obras-primas, DAWN OF THE DEAD (1978). Já Russo começou a trabalhar na adaptação de um romance que ele mesmo havia escrito chamado “O Retorno dos Mortos-Vivos“, que aparentemente estava mais próximo de uma continuação do filme de 68 do que o próprio Romero em seu novo filme de zumbi. Deu-se início então ao projeto A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (The Return of the Living Dead).

Um produtor independente, Tom Fox, comprou o roteiro de Russo e ofereceu a Tobe Hooper, que rejeitou. De recusas a recusas, acabou parando nas mãos de Dan O’Bannon, que havia trabalhado majoritariamente como roteirista (ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO, DEAD AND BURIED, BLUE THUNDER) e nunca havia dirigido um filme antes. Mas seguiu em frente, fazendo algumas alterações no roteiro.

Para O’Bannon, não fazia muito sentido comandar o projeto da maneira como o script havia sido pensado. Ele sentia que era uma tentativa muito séria de fazer uma sequência de A NOITE DOS MORTOS VIVOS e não queria se intrometer tão diretamente no território de Romero, que já estava estabelecido àquela altura (inclusive lançando neste mesmo ano de 85 a terceira parte da sua série, o maravilhoso O DIA DOS MORTOS). Então O’Bannon reescreveu o roteiro para que tudo tivesse uma abordagem mais cômica do material de Russo e a história ocorresse em um universo fictício onde A NOITE DOS MORTOS VIVOS seria um filme “baseado em fatos reais”

Ou seja, na trama é suposto que o filme do Romero teria sido baseado em um evento no qual o exército americano teria lacrado todas as evidências dos acontecimentos que ocorreram na época e as enviou para alguma instalação de armazenamento de cadáveres. Mas por conta de algum erro de logística, os containers foram parar num pequeno depósito de suprimentos médicos na periferia de Louisville, Kentucky, onde permaneceu por volta de vinte anos, considerados perdidos.

Isso tudo é contado ao novo funcionário do local, Freddy (Thom Mathews), pelo já veterano Frank (James Karen). “Você viu aquele filme A NOITE DOS MORTOS VIVOS?” ele pergunta ao jovem colega de trabalho, antes de explicar que o filme foi baseado no tal incidente real. Ele lhe informa que o tal experimento médico do Exército que foi enviado por engano está armazenado exatamente no porão sob seus pés. Freddy fica cético até que descem as escadas e Frank mostra a ele vários cadáveres armazenados em cilindros fechados. Um desses containers acaba vazando um gás fétido que deixa a dupla inconsciente. Quando acordam e sobem as escadas, percebem que o gás reanimou todo o tipo de cadáver do local, de corpos humanos que seriam vendidos para faculdades de medicina à borboletas pregadas por alfinetes e cachorros espantalhos divididos ao meio… Urgh!

Em pânico, eles ligam para o chefe, Burt (Clu Gulager). Quando um dos cadáveres que estava armazenado numa sala refrigerada os ataca e, mesmo depois de esquartejado se recusa a morrer, eles o transportam para o necrotério ao lado, na esperança de que o agente funerário (Don Calfa) os deixe usar o crematório. Só que a fumaça e as cinzas são ejetadas pela chaminé e para as nuvens, causando imediatamente uma chuva em um cemitério próximo, onde os amigos punks de Freddy (incluindo a scream queen Linnea Quigley, na icônica Trash) estão farreando.

A água da chuva infectada penetra no solo e rapidamente reanima os mortos, que abrem caminho para a superfície. Os punks então se dispersam, alguns encontrando refúgio no necrotério onde os primeiros paramédicos que chegam ao local informam a Frank e Freddy (ambos agora moribundos por causa do gás) que seus sintomas são consistentes com rigor-mortis. Logo, ao estilo de Howard Hawks, os sobreviventes devem se barricar no local para se proteger da horda de mortos vivos famintos que os rodeia.

Mesmo com a ideia de O’Bannon de se afastar, é inevitável que o filme acabe sendo uma valiosa peça complementar ao trabalho de Romero. Não tem muito pra onde fugir… Mas ainda assim é um trabalho independente, cheio de elementos próprios que, como uma comédia de desespero, merece ser considerado um ponto alto no panteão do cinema de terror oitentista; seu tom provou ser suficiente e distinto para inspirar outros filmes e teve várias sequências que, por sua vez, buscaram, sem o mesmo sucesso que este aqui, explorar a comédia no puro terror visceral.

A interação entre os personagens é uma das coisas que mais me fascina e se mantém tão bem depois de todos esses anos. Os adultos representados no filme por Gulager, Karen e Calfa são escolhas certeiras. A atuação de Karen, sobretudo, é absurda desde os momentos iniciais, quando se apresenta como uma figura cômica, até a sua contínua agonia à medida que seu personagem piora progressivamente. Gulager também tá perfeito, serve como o alicerce de todo o filme, e sua presença não deixa o espectador tirar os olhos da tela.

Mas quem mais me surpreende é Don Calfa como o agente funerário Ernie Kaltenbrunner. A persona básica de Calfa na tela dá a impressão de que ele vai funcionar como uma espécie de alívio cômico, mas ele inesperadamente se revela o mais sensato e engenhoso de todos. Rouba o filme pra si, e fico surpreso por ele nunca ter se tornado mais famoso.

O outro grupo no filme consiste na gangue passando o tempo no cemitério nas proximidades esperando pelo amigo Freddy. É realmente um conjunto único, com alguns personagens exibindo peculiaridades bem variadas. Linnea Quigley como Trash é possivelmente a figura mais representativa do filme. Ao longo dos anos, sempre que pensava em A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (e fazia décadas que eu não assistia) a imagem de Quigley dançando em cima de um túmulo era a primeira que habitava meus pensamentos. Obviamente que ela estar completamente nua na tela ajudou bastante nisso…

Mas cada um dos atores mais jovens deixa uma impressão favorável, especialmente Thom Matthews como Freddy. A interação dele com o velho Karen é maravilhosa, os dois gritando loucamente: “Cuidado com a língua, garoto, se você gosta deste emprego“, “Gostar deste emprego?!” sempre foi uma das minhas partes favoritas do filme, então fiquei feliz em ver como tudo isso ainda funciona. Os dois atores retornaram para a sequência, O RETORNO DOS MORTOS VIVOS PARTE II (1988), mas em personagens diferentes. Preciso rever esse aí também, não lembro absolutamente nada.

Existem momentos em que o baixo orçamento começa a aparecer, a forma como algumas sequências externas são encenadas e a sensação no final de que talvez algumas coisas não tenham sido filmadas quando a produção terminou. Mas o tom cômico impassível continua incrível, a alfinetada crítica às atitudes do governo também tá lá muito bem inserida no meios das camadas, juntamente com os momentos de horror, de tensão, a violência gráfica e o tom geral apropriadamente desagradável (“Eu te amo… e você tem que me deixar comer o seu CÉREEEBRO!!“). A sequência em que os zumbis chamam por reforços policiais e pedem mais ambulâncias para terem mais cérebros pra devorar tá dentre as situações mais significativas do conceito “humor & horror andando de mãos dadas” na história do cinema.

Como disse antes, O’Bannon teve que enfrentar a visão de Romero quando o sombrio e nada cômico DIA DOS MORTOS foi lançado no mesmo ano que A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, quase na mesma época, causando antagonismo e a competição entre os fãs que O’Bannon sempre evitou. Em retrospecto, foi considerado um sinal dos tempos que justamente o filme cômico de O’Bannon teve melhor desempenho de bilheteria do que o filme mais sério e aterrorizante de Romero. Sem entrar no mérito das comparações, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS é uma das comédias de terror mais engenhosas e cativantes que eu me lembrava de ter visto. E agora, revendo depois de uns trinta anos, confirma que se trata de uma pequena obra-prima e um dos filmes mais divertidos do gênero nos anos 80.

RAVANASURA (2023)

Texto de Luiz Campos

Desde que comecei a ver masalas, especialmente os feitos no cinema telugu, eu me acostumei com heróis invencíveis, com habilidades inacreditáveis, enfrentando inimigos que, em boa parte, são tão desafiadores quanto os minions de um vilão de tokusatsu. Mas esses filmes também tem um senso moral muito esquisito, frequentemente misóginos e esses mesmos heróis também costumam apresentar traços bem tóxicos. E é totalmente o caso desse filme aqui. Aliás, é facilmente o mais problemático que vi de Tollywood.

Em RAVANASURA, filme deste ano, 2023, dirigido por Sudheer Varma, baseado no filme bengali VINCI DAS, e estrelando o “Mass Maharaja” Ravi Teja – também pode ser visto nos divertidos WALTAIR VEERAYA e DHAMAKA, que podem ser conferidos na Netflix – que aqui vive Ravindra, um advogado júnior atabalhoado que trabalha no escritório de uma respeitada advogada, Kanaka Mahalakshmi (Faria Abdullah), que fora sua namorada na faculdade. Após a prisão de um figurão da indústria farmacêutica (Sampath Raj), a filha deste, Harika (Megha Akash) decide buscar o escritório da advogada para provar sua inocência, que nega o caso. Mas Ravindra, porém, se apaixona à primeira vista pela moça e decide ajudá-la a limpar a barra do pai, mesmo com todas as evidências apontando para uma clara condenação do réu. Mas talvez Ravindra não seja o bufão que aparenta ser a princípio, e sabe mais sobre o ocorrido do que pode parecer a princípio.

RAVANASURA segue os moldes tradicionais desse tipo de filme: tem dança, drama, comédia, ação, um pouco de romance. Mas o que torna este aqui um exemplar particularmente fascinante é que, bicho, quando quer, o filme é mau. Muito, MUITO mau. Pra quem já viu um punhado de clássicos exploitation, a violência e o uso do sexo em RAVANASURA é até bem baunilha, não tem, por exemplo, nenhuma nudez. Mas não deixa de ser chocante que o cinema popular de algum país vá tão longe em coisas tão tabus em 2023. Mas se eu disser que essa crueldade do filme não é uma das coisas que mais me encantaram eu estaria sendo hipócrita. Por mais canhestro que seja, RAVANASURA também é um filme muito, mas muito intrigante.

O personagem do Ravi Teja – que, cabe dizer, está em estado de graça – é um dos mais brutais que vejo em anos. Ao acompanhar sua jornada eu me lembrava de figuras como o Tomás Milian em ALMOST HUMAN, um sujeito capaz dos atos mais baixos, só que com o intelecto do Diabolik do filme do Mario Bava. Não posso deixar de mencionar que a trama pega elementos da franquia MISSÃO: IMPOSSÍVEL para usar na parte policial, com máscaras, identidades forjadas, e ainda culmina com uma set piece que é roubada do JOHN WICK: PARABELLUM. Mas poxa, se é pra copiar, copie dos melhores mesmo.

É uma pena que o filme tenha um dos roteiros mais frouxos que já vi. Tem reviravoltas ótimas, vários puxões de tapete, mas a quantidade de inconsistências, de coincidências, é absurda, e olha que eu sou um baita fã do Boyapati Srinu, dos celerados VINAYA VIDHEYA RAMA – que pode ser visto no Prime Video – e AKHANDA. Como eu imaginava, em algum momento o filme vai tentar limpar a barra do protagonista com seu backstory, mas francamente, essa tentativa de higienizá-lo é inútil, porque ele já perdeu a simpatia de boa parte do seu público quase uma hora antes  –  diga-se de passagem, RAVANASURA foi fracasso de público e crítica nas bandas de lá. Teria sido inclusive mais congruente se o filme levasse a radicalidade das suas ações até o final, sem quaisquer justificativas pros seus maiores excessos.

Algumas atuações também deixam a desejar. Por exemplo Sushanth, que interpreta o Saketh, um dos personagens mais importantes pro desenrolar da trama, deixa a peteca cair em alguns momentos, e os personagens secundários como um todo são mais uma vez jogados pra escanteio pro foco ser todo no Teja, que inclusive produziu essa insânia. O promissor personagem do policial que investiga o crime, Jairam Singh (Javaram), também rende menos do que merecia. Parece-me que o ego desses grandes astros acaba impedindo que o mundo construído ao redor de si consiga se desenvolver independente dos mesmos. As mulheres, então, nem se fala, parece até que o diretor Sudheer Varma – ou talvez os roteiristas da versão original, não o assisti para saber -, que também escreve o roteiro, se baseou em algum fórum redpill do 4chan. Ele inclui no filme uma subtrama envolvendo uma namorada do Ravindra e a mulher só tá ali pra ser bonita e usada de refém. Ela não tem qualquer backstory, personalidade. Mesmo a advogada Kanaka também será abandonada no decorrer do plot depois de uma revelação chocante.

Mas a elas não cabe o destino mais cruel. Eu não quero entrar em detalhes aqui pra não estragar o filme, mas como disse antes, eu pensei que nunca veria um astro fazer certas coisas que o “Marajá das Massas” (Marajá do Campari?) faz aqui. Por um lado, o personagem se torna particularmente rico, especialmente levando em conta os tempos em que vivemos. Eu também tinha lido no Letterboxd comentários sobre como o filme retrata violência sexual, e consigo entender porque tanta gente rejeitou o filme, ele realmente pode dar gatilhos em algumas pessoas. Contudo, não dá pra negar que o filme também é, à sua maneira, um filme político. A questão da indústria farmacêutica na Índia, das relações escusas dessa elite com políticos, policiais e até mesmo o crime para permitir a comercialização de remédios que são proibidos em países desenvolvidos aparece aqui, e podemos perceber que existe muito mais em comum entre o Brasil e a Índia do que pode parecer a princípio. O filme em algum momento faz alusão ao CORINGA de 2019, do Todd Phillips, mas de boa, aquele palhaço zé bunda incel não tá com absolutamente nada se comparado ao que o Ravindra faz aqui. Claro que estamos falando de um filme popular feito parcialmente sob a inspiração da mitologia hindu, a mesma que é propagada por Narendra Modi, o atual primeiro-ministro indiano de extrema-direita. É bem legal ver a utilização de Ravana*, um dos mais notórios personagens da Ramayana, livro canônico do hinduísmo, como um vingador amoral, em uma espécie de guerra sagrada contra a burguesia.

É muito curioso que este que é um dos filmes mais sangue ruim do ano não sofra do mal contemporâneo dos filmes pensados menos como cinema e mais como conteúdo. Todo mundo envolvido tá claramente dando o seu máximo. A trilha sonora várias vezes me remeteu a fragmentos de trilhas de faroestes spaghetti, com uma música tema realmente vibrante. Os números musicais também são bons, e todos inseridos de maneira orgânica na trama, que é sempre mais interessante do que quando, do nada, o filme sai de Mumbai, Tamil Nadu ou Telangana para a Austrália, Veneza ou Suíça. Visualmente, também, o filme é bem bonito, contando com Vijay Kartik Kannan na direção de fotografia, que trabalhou em DOCTOR (na Netflix) e JAILER (um dos maiores hits do momento em Kollywood) do Nelson Dilipkumar e pelas cenas interiores do ótimo KAATHUVAAKULA RENDU KAADHAL do ano passado. Os destaques ficam para o plano sequência na delegacia e a cena em que o Ravi Teja sai no braço com o Sushanth em um corredor. Essa cena, em específico, tem uma breve referência visual ao Ravana inserida no meio do confronto que fiquei muito feliz de ter reparado, depois de tantas outras que passaram batido por mim anteriormente.

Em suma, um filme feito para quem gosta de masalas, mas sente nostalgia pela bad vibe do cinema exploitation setentista, com tudo de fascinante e terrível que isso implica. Umberto Lenzi, quem diria, ainda vive.

P.S: Antes que me esqueça, o filme pode ser conferido no Prime Video e conta com legendas em português, o que é um milagre em se tratando do seu catálogo de filmes indianos.

*O nome do filme se traduz como “O Demônio Ravana”, personagem do épico hindu Ramayana, que tem dez cabeças.

DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS (1966)

O diretor Terence Fisher foi responsável por alguns dos filmes de horror mais fundamentais do final dos anos 1950, todos produzidos pelo estúdio britânico Hammer Films. Três, sobretudo, A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN, DRÁCULA – O VAMPIRO DA NOITE e A MÚMIA, foram reinterpretações em cores vibrantes de personagens clássicos trazidos às telas pela Universal nos anos 30. Todos se tornaram franquias com um universo gigante a ser explorado pelos amantes do horror. Aqui no blog, inclusive, já comentei, por exemplo, sobre os dois primeiros filmes do vampiro mais famoso e, aproveitando que fiz uma revisão, chegou a hora de falar do terceiro exemplar, DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS (Dracula – Prince of Darkness), que trouxe de volta Christopher Lee no papel do personagem título, que o transformou num astro do gênero.

Aliás, todos esses filmes transformaram tanto Lee quanto Peter Cushing, outro gigante da Hammer, em ícones incontestáveis do horror. Só que mesmo após o grande sucesso de DRÁCULA – O VAMPIRO DA NOITE, Lee acabou recusando por muito tempo reprisar o papel do príncipe dos vampiros. Um segundo filme veio em 1960, AS NOIVAS DO VAMPIRO, sem a presença do ator. Somente seis anos depois, Fisher e a Hammer finalmente puderam fazer uma sequência oficial contando com a presença do seu astro, que é este DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS.

No entanto, esse retorno não foi isento de pontos de contenda.

O que aconteceu antes das câmeras começarem a rodar é uma questão em debate, mas o resultado está ali para todos verem e, mais enfaticamente, não ouvirem: Christopher Lee pode até ter retornado como Drácula, mas ele não diz uma palavra sequer durante todo o filme.

Há quem diga que a Hammer optou por não dar nenhuma fala ao personagem como forma de reduzir um pouco o salário de Christopher Lee (já que pra tê-lo convencido de retornar deve ter custado uma nota). Por outro lado, Lee afirmou que achou o diálogo, originalmente escrito para ele, estúpido demais e simplesmente se recusou a entregar qualquer fala. No fim, porém, a razão pouco importa. Fica apenas essa sensação estranha. Lee com sua presença imponente e ameaçadora, que funciona na maior parte do tempo, mas “sem voz”, com a sensação de que falta alguma coisa…

DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS começa com uma recapitulação do final do filme original de 58, para contextualizar a suposta morte de Drácula, com uma narração desnecessária para explicar o que, de outra forma, parece bem óbvio visualmente. Não é nenhum grande spoiler dizer que Drácula é derrotado e se desintegra em cinzas sob a luz do sol. Iniciam-se os créditos iniciais.

Fãs de terror, Drácula, Lee, enfim, ficam emocionados com a ideia do retorno de Christopher Lee como Drácula por aqui, mas, ironicamente, a maior parte do que há de melhor em DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS acontece antes mesmo de Lee aparecer. Como no flashback inicial nos lembra, Drácula foi reduzido a um monte de cinzas, então como ele poderia retornar?

O roteiro leva metade do filme para estabelecer isso, e Terence Fisher faz um trabalho soberbo ao dar vida e essa visão na tela. Na verdade, pode-se dizer que, em última instância, é Fisher quem é o verdadeiro astro da obra, pois este é um filme que absolutamente sobrevive ou fracassa com base na sua capacidade de contar uma história, ainda que com algumas falhas, e manter o interesse do público. A construção lenta à medida que as vítimas são colocadas nos seus devidos lugares para trazer o retorno de Drácula é brilhantemente realizada e culmina em uma das cenas mais memoráveis da história das adaptações de Drácula para o cinema: a ressurreição do vampiro.

Mas antes, o filme mostra que mesmo passado os anos na região o medo do vampirismo ainda prevalece, mesmo com Drácula morto. Aí temos a entrada de dois casais de turistas, que chegam ao local e acabam parando no castelo de Dracula, ainda que sejam fortemente avisados contra isso por um padre. Eles até tentam seguir o aviso, mas acabam em uma carruagem, com a intenção de ir para outro destino, enquanto os cavalos têm suas próprias vontades e levam apressadamente os casais para o castelo.

Eles adentram o local, onde as hospitalidades aparentemente estão prontas e esperando por eles. Um servo logo entra e explica aos curiosos – alguns deles aterrorizados – que seu falecido mestre deixou instruções para que o castelo estivesse sempre pronto para receber hóspedes. Os dois casais jantam e são conduzidos aos seus quartos para a noite que se aproxima. Um dos homens logo deixa o quarto para seguir o servo que puxa um grande baú por um corredor, sem saber que ele desempenha um papel especial na tentativa de trazer seu mestre de volta à forma física. E pra isso, muito sangue tem que rolar. Resultando na tal cena da ressurreição de Dracula.

Não apenas o efeito visual da própria ressurreição é maravilhoso mesmo após tantas décadas, mas a antecipação que é criada, enquanto o assecla de Drácula (Philip Latham) coloca tudo em posição, é um golpe de mestre do suspense. Não se pode evitar de ficar na ponta da cadeira, esperando que aconteça. Isso é o gênio de Terence Fisher em ação, e ele merece todo o elogio possível, ainda que esteja esquecido e não venha recebido hoje em dia. O cara foi um dos maiores do gênero.

Desta vez, os realizadores criaram uma sequência que buscava minar a ideia do vampiro mais sedutor e elegante, alinhado com a liberação sexual, que enfatizava o papel crescente dos filmes de terror como alegorias morais, à medida que a sociedade britânica entrava na agitação juvenil dos anos 1960. Ainda que os temas morais em evolução do filme oscilem entre o liberal e o reacionário…

Dracula transforma, por exemplo uma mulher moralmente correta em uma serva de sua vontade. A Igreja, por sua vez, representa as forças da repressão civilizada, talvez necessárias para livrar o mundo do horror sexual anárquico da contaminação vampírica. No entanto, o filme não celebra esses puritanos religiosos, retrata-os como hipócritas morais. De fato, a destruição da vampira feminina é sugerida por Fisher como um substituto sexual violento também semelhante a um estupro coletivo.

Essa ambiguidade em relação à moralidade e imoralidade sexual perpassa todo o filme e acrescenta considerável profundidade e textura à história à medida que evoluem no estilo característico de Fisher, especialmente em termos de cor.

Cenas isoladas têm uma elegância pictórica, e há uma interessante construção de cores para sugerir a paixão crescente em meio à tentativa de mantê-la suprimida e até erradicada. Começa com cores terrosas, e os arredores do castelo do Drácula são devidamente invernais e ameaçadores, apesar da pretensa hospitalidade inicialmente encontrada ali. No entanto, e talvez de maneira incomum, os interiores do castelo são banhados por um calor dourado sensual, cativante e perigoso.

Essa sensação de calor é mantida intacta na transferência e complementa os subtons sexuais animalísticos do filme, culminando em um vermelho infernal enquanto Drácula observa tudo de cima.

Os vínculos entre cor e paixão são essenciais para a sensibilidade de Fisher, que utiliza de muito estilo para sugerir a natureza febril de uma existência sexual vampírica. O fato de ele consistentemente alcançar isso com tanta intensidade estética e alucinatória é um testemunho de suas habilidades de criador de imagens.

DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS marca também o ponto em que a Hammer começa a brincar de forma mais descompromissada com a mitologia dos vampiros. O método pelo qual Drácula é ressuscitado é fascinante e muito bem feito, mas de forma alguma é tradicional pra época. E como é óbvio que queremos que Drácula volte à vida para causar estragos novamente – além de ser tão bem executado – nem nos importamos com esse aspecto. Temos também a ideia semi-tradicional de que um vampiro não pode atravessar água corrente, que aqui acaba se transformando em “um vampiro imediatamente se afogará sob água corrente“. Acaba sendo um pouco demais, muito conveniente à mitologia que resulta num desfecho bem fraco.

No fim das contas, o que isso implica é uma certa variedade de preguiça que, uma vez empregada, a Hammer usaria repetidamente nos anos seguintes sempre que fosse mais conveniente do que trabalhar com a mitologia já estabelecida. Como matar um vampiro? A resposta, para a Hammer, é “o que for mais conveniente para o diretor e o roteirista na época“.

Não vou nem comentar também sobre o fato de que, dada a aversão do vampiro à cruz, conforme aderido pela Hammer, por que Drácula sequer tentaria invadir uma abadia? Simplesmente não ligo. Eu não me importo em quase nada com essas “liberdades”. Exceto quando resulta em sequências realmente ruins (como a do desfecho, com a água corrente).

Até porque num geral DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS se mantém como uma continuação muito boa para DRÁCULA – O VAMPIRO DA NOITE. E a direção de Terence Fisher é simplesmente boa demais para ser ignorada, e a cena da ressurreição, repito, realmente é uma das mais memoráveis ​​do filme, e ter Christopher Lee como Drácula, independente se ele fala, ou fica em silêncio, ou rosna ou grita, é sempre obrigatório.

Resumindo, se você gosta de filmes de vampiros de alguma forma e especialmente dos filmes da Hammer, DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS definitivamente vale uma hora e meia do seu tempo. Sim, ele brinca livremente com as regras, mas os resultados são sólidos no geral, e tem alguns momentos clássicos que realmente fazem valer a pena todo o resto.

007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (1971)

Já faz um tempinho que não posto algo sobre o agente secreto mais famoso do cinema, mas quem ainda não leu, ao longo dos anos venho escrevendo sobre cada filme em ordem cronológica. E agora chegou a vez do sétimo filme oficial da franquia, 007- OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (Diamonds are Forever), de Guy Hamilton, que traz algumas peculiaridades interessantes.

A começar pelo momento borracharia do blog, já que este aqui é o primeiro e único, dentre todos os filmes do espião, em que aparecem certos atributos femininos na tela, mesmo que em um único frame, que eu fiz questão de capturar pra deixar aqui registrado:

Pronto. Feito o registro, vamos ao contexto. Até 1967, com o lançamento de COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES, Sean Connery estava desencantado com o papel de James Bond, que o tornou famoso, não queria ficar marcado pelo personagem, buscar novos desafios e blá, blá, blá… Sem Connery, os produtores consideraram vários substitutos até optarem pelo modelo australiano sem experiência em atuação, George Lazenby. O resultado foi o último filme do espião que comentei aqui no blog: 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, que é um caso controverso até hoje. Eu acho um dos melhores da série, uma autêntica obra de arte na franquia Bond.

Enfim, o problema é que Lazenby, devido aos mais diversos motivos, como descrevi no texto sobre o filme, acabou deixando a série. Com ele fora de cena, os produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli voltaram à caça e cortejaram um americano, o ator John Gavin (o namorado de Marion Crane [Janet Leigh] no clássico de Alfred Hitchcock, PSICOSE), mas nunca desistiram de Connery, que aos 45 do segundo tempo acabou recebendo uma oferta boa demais para recusar. Tradução: muito dinheiro.

O retorno de Connery à série resulta, como disse, em um filme peculiar. Digamos que tá mais próximo do espírito das paródias futuras de Austin Powers do que qualquer outro filme de Bond realizado até aquele momento. É um filme meio bobo demais comparado às entradas britânicas… Não me refiro nem aos exageros acrobáticos que aos poucos foram sendo inseridos na série e já se apresentava em algum nível em SÓ SE VIVE DUAS VEZES. Falo da maneira sem vergonha de abraçar um tom mais avacalhado mesmo de tratar as coisas. E talvez por causa do desejo inicial de contratar Gavin, o filme também é mais “americanizado”, com locações nos EUA, em Las Vegas… E aí DIAMANTES SÃO ETERNOS acabou dividindo a base de fãs de 007. Há uns puristas que não gostam, há quem ame… E há público como eu, que acha divertido se abordado da maneira certa.

O filme começa com muita energia, com um 007 enfurecido espancando diversos contatos (incluindo a moça que ele puxa o biquini do registro lá de cima), enquanto ele tenta encontrar o esconderijo de Blofeld. Lembremos que o vilão consegue escapar de Bond nos dois filmes anteriores…

Na trama, Bond é chamado para investigar uma operação de contrabando de diamantes e descobre um enredo muito mais sinistro envolvendo o seu arqui-inimigo Blofeld. Mais uma vez determinado a conquistar o mundo, Blofeld desenvolveu um satélite a laser, com acessórios formados por centenas de diamantes, que aumentam o seu potencial devastador… E aí somos apresentados a um trabalho de espionagem, com Bond atuando sob disfarce e tudo mais. No entanto, como disse, a coisa é tão avacalhada que é provável que você nem se lembre disso depois que o filme termina.

Isso porque fizeram questão de enterrar todo esse trabalho cuidadoso mais sério do primeiro terço do filme sob uma montanha de fanfarronice a partir do momento em que a trama vai pra Las Vegas, com um humor cafona e lasers do espaço sideral. E tá tudo bem…

O roteiro desajeitado – uma mistura do romance original de Fleming (a parte séria do contrabando de diamantes), cultura pop e uma adição completamente desajeitada de Blofeld (ele não fez parte da história original) – são coisas muito menos importante para a experiência geral de DIAMANTES SÃO ETERNOS, do que a sensação de aventura sem vergonha que é o que realmente importa. E felizmente para os produtores (e o futuro da franquia James Bond), era esse tipo de material que salvaria a série do fracasso.

O tom caricato se estende ao próprio Blofeld em si, anteriormente interpretado por Donald Pleasence e Telly Savalas. Embora a interpretação de Pleasence seja mais lembrada por sua aparência distintiva de cabeça raspada e cicatriz no rosto, o sujeito não teve muito a fazer no papel e, na verdade, foi uma substituição de última hora para um ator alemão que ficou doente durante as filmagens. Savalas, em A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, é formidável e talvez o melhor dos Blofelds adaptados pra tela grande. Aqui temos Charles Gray, efeminado e maravilhosamente maldoso, mas raramente representando uma ameaça real à James Bond.

O auge do caricato chega quando Blofeld se disfarça de mulher – é uma cena divertida que Gray claramente aprecia, mas que faz seu personagem se tornar tão cômico que é impossível levá-lo a sério como vilão… Vale lembrar que Gray já havia trabalhado em outro filme da série, numa rápida participação em SÓ SE VIVE DUAS VEZES.

Agora, quem rouba a cena e eleva consideravelmente a qualidade de DIAMANTES SÃO ETERNOS é a dupla Bruce Glover e Putter Smith, como os assassinos Mr. Wint e Mr. Kidd. Mais lembrados por interpretar um casal gay, que são apresentados se livrando de um contato no deserto apenas para sair de mãos dadas juntos no pôr do sol. Glover e Smith dominam cada momento que têm na tela, mesmo quando estão apenas em segundo plano. Eles transformam o que facilmente poderia ter sido um papel de dupla clichê em algo muito mais forte, dando aos personagens potencialmente bobos um ar real de ameaça maquiavélica, ao mesmo tempo em que estão em sintonia com o tom debochado e fanfarrão do próprio filme. Eles são um prazer de assistir do primeiro ao último momento, e suas atuações garantem que Wint e Kidd estejam ao lado de Oddjob e Jaws como os maiores capangas na franquia James Bond.

Nenhum filme de 007 está completo sem as belas bond girls, e DIAMANTES SÃO ETERNOS certamente tem sua parcela de beleza na forma, sobretudo, de Jill St. John no papel de Tiffany Case, que é uma das primeiras mulheres de Bond a realmente se qualificar como uma protagonista ativa – atrevida, durona e determinada – que ainda precisa ser resgatada de vez em quando, mas está longe de ser um mero enfeite. Lana Wood também se destaca em seu pequeno papel como a inesquecível Plenty O’Toole (“of course you are”). A cena que ela é jogada do quarto de hotel de Bond para uma piscina apenas de calcinha pelos capangas de Tiffany é engraçada. E vale destacar que um dos capangas é ninguém menos que Sid Haig.

Quanto ao espião, Connery interpreta o papel com sagacidade, causando uma impressão melhor do que a sua versão entediada de SÓ SE VIVE DUAS VEZES. E é realmente o grande elemento que o público precisava para fazer do filme um sucesso, o Bond original, raíz. Lembremos, por exemplo, da aura cool de Connery estático no meio da tela antes que percebamos que ele está em cima de um elevador, que começa a subir pegando o público de surpresa. Ainda é uma imagem forte do ator no papel que deu tanta vida até aquele momento.

Mas no fim das contas, é evidente que, apesar de uma boa atuação, no geral Connery já não tinha o mesmo vigor, simplesmente não é mais o mesmo 007. Ao mesmo tempo também deixa claro que é possível interpretar o personagem de maneiras diferentes. Assim como o próprio filme, temos um Bond menos cínico e mais fanfarrão, no qual o seu trabalho de espionagem importa cada vez menos (por mais que esteja presente) e importa mais os absurdos cartunescos e cômicos desse universo.

Connery voltaria ao papel apenas mais uma vez como 007, em NUNCA MAIS OUTRA VEZ, um filme não oficial da série que, devido a alguns processos judiciais, conseguiu ser realizado como uma refilmagem de CHANTAGEM ATÔMICA (o que expliquei também no texto deste filme).

Fico imaginando apenas como o filme teria sido se Lazenby tivesse continuado o papel… Suponho que teria lidado com a perda climática que 007 sofreu no final de A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE e, como tal, teria sido provavelmente uma história de vingança mais sombria e dura. No entanto, recebemos o caricato em vez disso – perde-se na densidade, ganha-se na diversão. E, repito, tá tudo bem.

O diretor Guy Hamilton (que já havia realizado o melhor filme da franquia até o momento, GOLDFINGER, e ainda dirigiria os próximos dois depois deste aqui) mantém o ritmo do filme bem rápido, sempre em movimento, não há grandes set pieces de ação, mas sempre colocando Bond em situações cômicas e divertidas de acompanhar. Ajuda muito toda a aparência do filme, sempre muito competente, graças ao trabalho habilidoso do diretor de fotografia Ted Moore e o designer de produção de Ken Adam (o esconderijo penthouse de Blofeld é uma maravilha). E é preciso destacar o trabalho de John Barry na trilha sonora, juntamente com a canção-título, interpretada por Shirley Bassey, que é uma das minhas favoritas da série.

Onde acho que o filme falha é justamente no departamento de ação. O que pra um filme de 007 é algo a se considerar. A luta de Bond num elevador e alguns stunts em alta velocidade em Las Vegas é o máximo que dá pra destacar por aqui. E são realmente boas. O restante não tem muita graça… A fuga pelo deserto no carro lunar tinha potencial, tá no clima brincalhão demais, em sintonia com o filme, mas a execução é medíocre. E, ok, a sequência que Bond apanha das duas garotas, Bambi e Thumper, é clássica. Dos poucos momentos que eu mantive vivo na memória mesmo depois de mais de vinte anos sem assistir a isso aqui. Mas provavelmente foi por outros motivos, além da luta em si, se é que me entendem…

Mas o pior de tudo é o clímax a bordo da plataforma de perfuração de petróleo de Blofeld, uma bagunça mal executada, uma miscelânea de cenas jogadas e montadas de qualquer jeito, longe dos grand finale que os filmes do espião tinham até então. Até que gosto de uns efeitos especiais mais toscos que temos lá pelas tantas, o trabalho óptico pobre que mostra os resultados do satélite a laser de Blofeld e que poderiam estar em uma das aventuras de Fu Manchu de Christopher Lee dirigido pelo Jess Franco.

De qualquer maneira, um filme que transcende a ação. É preciso ressaltar isso. Não importa se a trama seja boba e desleixada e a aventura sem vergonha… A real é que DIAMANTES SÃO ETERNOS não vai encabeçar a lista de “Os Melhores Filmes de Bond” de qualquer fã sério, nem é provável que chegue sequer à metade superior. Mas ele ainda é divertido por toda a sua fanfarronice, Pelo retorno de Sean Connery no papel pela última vez num filme oficial e obviamente pela de assassinos gays que são das melhores coisas disso aqui. Temos exemplares melhores, ok, mas ainda é bom demais para dar algumas risadas.

15 ANOS NA TELA… E UMA HOMENAGEM À FRIEDKIN

Uau, já passou mais um ano depois desse post. Parece que foi ontem… Mas estamos aí, mais uma vez. Chegamos ao número quinze! É algo a se comemorar, então aqui vai um top 15 atual dos meus filmes favoritos do coração (que já vai ter relativa diferença do que postei ano passado, porque minhas listas de favoritos mudam constantemente e ano que vem já vai ser diferente).

15. O PODEROSO CHEFÃO – PARTE II
(The Godfather: Part II, 1974), de Francis F. Coppola

14. DURO DE MATAR (Die Hard, 1988), de John McTiernan

13. CASSINO (Casino, 1995), de Martin Scorsese

12. FERVURA MÁXIMA (Hard Boiled, 1992), de John Woo

11. 08. CRASH – ESTRANHOS PRAZERES
(Crash, 1996), de David Cronenberg

10. A ESTRADA PERDIDA (Lost Highway, 1997), de David Lynch

09. ERA UMA VEZ NA AMÉRICA
(Once Upon a Time in América, 1984), de Sergio Leone

08. O FRANCO ATIRADOR (The Deer Hunter, 1978), de Michael Cimino

07. MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA
(The Wild Bunch, 1969), de Sam Peckinpah

06. O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III
(The Godfather: Part III, 1990), de Francis F. Coppola

05. TAXI DRIVER (1976), de Martin Scorsese

04. APOCALYPSE NOW (1979), de Francis F. Coppola

03. O PORTAL DO PARAÍSO (Heaven’s Gate, 1980), de Michael Cimino

02. TRÊS HOMENS EM CONFLITO
(The Good, the Bad and the Ugly, 1966), de Sergio Leone

01. FOGO CONTRA FOGO (Heat, 1995), de Michael Mann


WILLIAM FRIEDKIN

Mas não vamos comemorar tanto assim. Eu ainda não sei nem o que expressar, mas ontem foi-se um dos maiores. Friedkin é um desses diretores de cabeceira, um dos responsáveis por eu amar tanto cinema. E tem pelo menos 5 obras-primas perfeitas que poderiam estar aí em cima (e se não estão é mero detalhe), os quais listo aqui em ordem de preferência:

5. O EXORCISTA (The Exorcist, 1973)

4. OPERAÇÃO FRANÇA (The French Connection, 1971) – REVIEW AQUI

3. PARCEIROS DA NOITE (Cruising, 1980)

2. O COMBOIO DO MEDO (Sorcerer, 1977)

1. VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (To Live and Die in L.A., 1985)

Vou ver se faço uma retrospectiva completa do homem aqui no blog. Vida longa à Bill Friedkin.

O HOMEM PUMA (1980)

Eu já gostava de O HOMEM PUMA (The Pumaman, L’uomo puma), de Alberto De Martino, sem sequer ter assistido. Tô nem aí… Vejam esse poster (abaixo), o tal herói, o Pumaman, voando à frente da Estrela da Morte de STAR WARS! Tem como dar errado? Na verdade, depois de finalmente assistir, descobri que tem. E muito. O filme não tem absolutamente nada dessa vibe que o poster queria transmitir.

E não tem a Estrela da Morte. 😢

Mesmo assim eu continuei gostando de O HOMEM PUMA, só que agora pelos motivos errados, obviamente.

Considerando que SUPERMAN, de Richard Donner, foi lançado em 78, é fácil pensar que os italianos produziriam um filme como O HOMEM PUMA na esperança de tentar lucrar com o sucesso do clássico seminal de Donner na seara dos filmes de super-heróis, assim como outros países também o fizeram no período (lembro agora do SUPERSONIC MAN [79], de Juan Piquer Simón, que também saiu em VHS no Brasil). De fato, a Itália era conhecida por produzir imitações de franquias mais bem-sucedidas. Isso não é exatamente uma novidade e aqui no blog já dei vários exemplos disso.

Então vamos à trama d’O HOMEM PUMA, que é a seguinte: milhares de anos atrás, seres alienígenas visitaram os astecas e foram reverenciados como deuses. Eventualmente, alguns desses seres se relacionaram com humanos e geraram um filho, que recebeu incríveis poderes, que alegam ser semelhantes aos de um puma, embora muitos desses poderes não tenham nada a ver com pumas. Aumento de agilidade, força e habilidade de enxergar no escuro até fazem algum sentido. Mas quando o sujeito começa a voar e atravessar objetos sólidos dá pra perceber que os caras não tavam nem aí pra nada…

Nem mesmo sua roupa tem a ver com puma. Se olharmos para o Pantera Negra da Marvel, por exemplo, parece algo que combina com o tema de pantera. A roupa do Pumaman, no entanto, consiste em uma camisa preta com um rosto dourado no peito, uma capa preta e vermelha, calças caqui e um par de botas. Nada disso traz à mente o animal pelo qual ele é nomeado.

Enfim… O primeiro Pumaman recebeu a missão de usar esses poderes para proteger a humanidade. Seus descendentes também herdariam seu poder e continuariam a missão de seus antepassados. Seja lá por qual motivo, o povo asteca também recebeu dos visitantes uma grande máscara dourada que seria capaz de controlar a mente das pessoas.

Já nos tempos modernos, em Londres, jovens são jogados pela janela dos prédios pelos capangas do Dr. Kobras (o inigualável Donald Pleasence), que está desesperado para encontrar e matar o mais recente descendente da linhagem do Pumaman. E aparentemente jogar pessoas aleatórias pela janela é a melhor maneira de determinar se a pessoa é ou não é um super-herói…

O Professor de Antropologia Tony Farms (Walter George Alton) é o atual Pumaman, apesar dele não ter consciência disso. Até que um sacerdote asteca chamado Vadinho (Miguel Ángel Fuentes, de FITZCARRALDO) tenta lhe convencer que ele é o lendário Pumaman e lhe dá um cinto que permite que ele acesse seus poderes.

Claro, antes há toda uma discussão filosófica entre eles, um auto descobrimento, não é fácil reconhecer que você é o escolhido para proteger a humanidade. Mas não demora muito, Farms se vê voando toscamente e enfrentando o Dr. Kobras, que, aliás, já possui a máscara dourada mencionada anteriormente e planeja usá-la para conquistar o mundo.

A partir daí, somos apresentados a um festival de absurdos e bizarrices no que há de melhor – ou pior, depende do seu ponto de vista – do cinema tosco, do cinema péssimo, do cinema do “tão ruim que é bom” que os italianos sabiam bem como fazer. Os efeitos especiais, por exemplo, são tão horríveis até para a época que chego a me questionar por que eles se deram ao trabalho de fazer. Mas basta o Pumaman começar a voar que eu agradeço aos realizadores, em especial à falta de competência – e até de noção mesmo – do diretor Alberto De Martino, por não desistirem. É simplesmente uma das coisas mais ridículas e engraçadas que já colocaram em película.

Os diálogos de O HOMEM PUMA parecem escritos por uma inteligência artificial que não entende como os humanos se comportam ou comunicam entre si. A trilha sonora é uma das piores escolhas auditivas que já fizeram, não combina em nada com o tom do filme, se é que possui algum tom definido….

Algumas atuações são simplesmente constrangedoras, com destaque para Fuentes como Vadinho, que tem a mesma entonação emocional que uma porta. Em contrapartida, Donald Pleasence não precisa de esforço algum pra nos fazer sorrir. Fica bem evidente que o sujeito aceitou o trabalho pra cumprir tabela e arrancar um cheque dos produtores, mas até fazendo um papel de vilão no piloto automático demonstra porque ele foi dos grandes.

O elenco ainda tem a bela Sydne Rome, que interpreta o principal interesse amoroso do Pumaman e que está sendo controlada mentalmente pelo Dr. Kobras. Ela já teve atuações melhores, adoro ela em QUE? (1972), do Polanski. Aqui é apenas um rosto bonito sem muita expressão.

O pior do filme – ou melhor, dependendo mais uma vez do seu ponto de vista – é o desempenho do próprio Pumaman, o tal Walter George Alton. O ator é simplesmente desprovido de qualquer carisma e não consegue o suficiente pra fazer com que nos importemos com seu personagem. Sem contar que é estranho um ator caucasiano escolhido para interpretar um homem descendente dos astecas, mas esse tipo de coisa eu nem me importo. O que realmente me importo, e retomo aqui o assunto, é o seu ato de voar. Ah, isso sim eu me importo. Repito, é uma das coisas mais ridículas que eu já vi na vida e é preciso reforçar isso.

Enfim, O HOMEM PUMA é daqueles exemplares especialmente recomendado pra quem gosta de assistir a filmes de baixa qualidade, baixo orçamento, baixo tudo… Para dar boas risadas da incompetência alheia, se divertir às custas de efeitos especiais baratos, atuações terríveis e a natureza sem sentido do roteiro e tudo que deu errado na produção. Ou seja, para pessoas que sabem apreciar um legítimo filme ruim.

A PROVA DO LEÃO (1965)

O ator Cornel Wilde é um caso interessante. Talentoso pra caramba e desejando encontrar papéis mais interessantes em produções ousadas dentro de Hollywood, ele funda sua própria produtora em 1950 para ter mais liberdade. Depois disso, pra se tornar diretor foi um pulo, em 1955, com um filme chamado ÓDIO ENTRE IRMÃOS (Storm Fear).

Quando chegou à meia-idade e passou a se preocupar menos com seu status de astro é que a carreira de diretor de Wilde realmente decola na década de 60, com o que pode ser considerado uma trilogia sobre a natureza autodestrutiva dos homens. Primeiro explorada de forma primitiva em A PROVA DO LEÃO (The Naked Prey); de forma moderna no filmaço de guerra DESEMBARQUE SANGRENTO (Beach Red, 1967); e por último de forma alarmante na ficção científica pós-apocalíptica NO BLADE OF GRASS (1970).

A PROVA DO LEÃO, portanto, inicia esse ciclo e se revela uma verdadeira obra-prima do cinema de aventura do período. Embora sua trama evoque o grande clássico de caçada humana THE MOST DANGEROUS GAME (1932), sua estética e violência inédita e extrema para a época anunciam especialmente grandes obras futuras do gênero de sobrevivência, como WALKABOUT (1970), de Nicolas Roeg, e até CANNIBAL HOLOCAUST (1980), de Ruggero Deodato. E é bem óbvio que deve ter servido de inspiração pra filmes como APOCALYPTO (2007), de Mel Gibson, quase um remake mascarado deste aqui.

A PROVA DO LEÃO se baseia numa aventura real, vivida pelo lendário John Colter (que participou da mítica expedição de Lewis e Clark, uma das maiores desbravadas pelo território americano), mas ficou mais conhecido por ter sido capturado e fugido de uma tribo indígena, os Blackfoot. Depois de matarem seu companheiro, os índios o soltaram nu na floresta para persegui-lo, e uma semana depois, exausto e deixando vários cadáveres de Blackfoot pelo caminho, ele conseguiu retornar à civilização são e salvo, e a lenda de seu feito pôde se espalhar.

Cornel Wilde retoma esse argumento e o transpõe para a África, mais precisamente para a Rodésia (hoje Zimbábue), na era colonial. Cornel Wilde (cujo nome nunca é revelado, creditado apenas como “man“) guia um safári patrocinado por um ricaço amante da caça (Gert Van den Bergh) em busca de marfim. Desde o início, a tensão se instala com a atitude imbecil do caçador. Matando por prazer sádico (um diálogo destaca que ele mata elefantes mesmo que não tenham presas de marfim apenas pelo esporte), ele também demonstra um profundo desprezo pelos nativos ao se recusar a cumprir um ritual de oferenda ao chefe de uma tribo ao atravessar seu território, para a grande consternação do personagem de Wilde, que demonstra ser mais respeitoso.

Daí vem o castigo. Não demora muito, a tribo ofendida os ataca, captura e os leva para sua aldeia. Lá, diante de nossos olhos perplexos, desenrola-se uma sequência impressionante de barbárie, de sacrifícios humanos e torturas sádicas, onde os ocidentais pagam caro por seu desprezo inicial. Fico imaginando o público da época reagindo a essas cenas…

O único que não sofre a mesma fatalidade é o personagem de Wilde, que havia demonstrado respeito e acabam lhe reservando um destino completamente diferente. Despido e humilhado, ele é solto nu na savana. Lhe dão alguma distância de vantagem e, a partir daí, passa a ser perseguido por um bando de caçadores da tribo.

A PROVA DO LEÃO adota um estilo naturalista para ilustrar essa longa caçada humana que dura o restante do filme. Ao filmar em locações reais, foge da superficialidade das recriações em estúdio que eram comuns na época e, em vez disso, nos leva a uma savana aberta, sob um sol escaldante, onde a escassez de água se iguala à falta de lugares para se esconder. Esse visual oferece aos caçadores uma vantagem, não têm dificuldade em seguir os rastros de Wilde até porque, à princípio, ele se mantém à vista no horizonte, por mais distante que esteja.

Assim, temos uma sensação de perigo constante, um sentimento reforçado pela ausência de trilha sonora tradicional, exceto pelos cantos e ritmos tribais que percorrem todo o filme, sinônimo de ameaça iminente. Para sobreviver a esse desafio, Wilde terá que assimilar e aplicar a única regra que importa nesses lugares: a lei dos mais fortes. Durante toda a sua jornada somos bombardeados por várias imagens de arquivo mostrando confrontos de animais de uma brutalidade impressionante, enfatizando esse fato por meio de associação de ideias.

E Wilde luta. A perseguição é angustiante, e em vários momentos os confrontos sangrentos são inevitáveis. O diretor sempre ousa numa abordagem crua, enquanto o personagem encara seus caçadores e os mata, um a um, sem qualquer remorso, se banhando do sangue dos seus inimigos, ilustrando bem essa perda de humanidade e a predominância dos instintos básicos. Ainda estou impressionado com o quão A PROVA DO LEÃO é visceral nesse sentido e como deve ter sido o impacto no público da época.

Antigo campeão esportivo (que quase participou das Olimpíadas de 1936 na esgrima antes de desistir por um papel no teatro), Cornel Wilde, já com mais de cinquenta anos aqui, exibe uma forma física que nem nos meus 25 anos eu conseguia ter; tem aqui uma atuação muito expressiva e determinada, passando por todas as emoções em um filme que praticamente desprovido de diálogos na maior parte do tempo.

Essa lei do mais forte e a loucura dos homens ressurgem na última parte de A PROVA DO LEÃO com a aparição de traficantes de escravos, em mais uma sequência brutal. No entanto, Wilde deixa uma centelha de esperança nesse pico de violência por meio do relacionamento afetuoso entre ele e uma criança nativa que salvou, o que revela uma possibilidade de aproximação entre os povos, baseados não na força, mas na compreensão mútua.

Até então, Wilde evita completamente qualquer tipo de maniqueísmo. Coloca o herói e seus perseguidores em pé de igualdade em seus instintos de sobrevivência e motivações. Aqueles que não respeitaram as leis da natureza (os traficantes de escravos, o caçador racista) são mais estereotipados, enquanto os demais personagens são retratados de forma minimalista, existindo através de suas ações. E o respeito mútuo entre os oponentes ainda é evidente em uma breve saudação final, mostrando que o personagem de Wilde se mostrou digno do desafio mortal lançado a ele.

Eu já deveria ter assistido A PROVA DO LEÃO antes, mas agora que finalmente vi, só posso dizer que valeu a pena. É forte, ousado, retrata uma violência que é difícil de se deparar no cinema americano do período, além de ser um dos grandes filmes de aventura já feitos. Altamente recomendado.

INDIANA JONES – DO PIOR AO MELHOR

Tá nos cinemas um quinto filme do arqueólogo mais famoso do cinema. Quem diria que em pleno 2023 teríamos mais uma aventura de Indiana Jones e estrelado pelo Harrison Ford no auge dos seus aproximados 80 anos… Eu não sei direito o que pensar sobre isso. Mas já que fizeram um novo filme, INDIANA JONES E A RELÍQUIA DO DESTINO, de James Mangold, o primeiro sem a direção do Spielberg, só me resta torcer pra ser bom… Sim, eu ainda não assisti, mas resolvi fazer esse post rankeando os quatro filmes anteriores em ordem da minha preferência pessoal. Do pior ao melhor.

Os filmes ainda estão frescos na minha memória por conta de uma maratona que fiz do Spielberg há poucos anos e rever a franquia de Indiana Jones, um dos principais clássicos da minha infância, é sempre mágico. Bem, quase todos…

4. INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (2008)

É, esse aqui obviamente tem seu lugar garantido no último lugar. É um projeto que tem cheiro de mofo… Lembro de ter curtido em algum nível quando vi no cinema, mas na revisão caiu muito. Os primeiros 20 minutos são os mais próximos que se consegue chegar na essência da trilogia original. Depois, apesar de uma ou outra boa sequência de ação, o filme só afunda cada vez mais num roteiro sofrível e muitas, mas MUITAS mesmo, escolhas erradas (principalmente tudo o que envolve o Shia LaBeouf) até chegar no final constrangedor, quem tem muito a cara de ter sido ideia do George Lucas… Não vou dizer que é uma bomba completa. Se tiver passando na TV dá pra ver umas partes sem pretensão, de boa. Num bom dia talvez até dê pra se divertir. Mas em comparação com os filmes anteriores, não passa de uma aventurazinha sem brilho.

3. INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (1984)

Curioso que no meu mundo distorcido de criança sempre achei O TEMPLO DA PERDIÇÃO o melhor da série. Se me perguntassem há cinco anos atrás, eu não teria dúvida em apontar isso. Mas agora, depois da revisão, pela primeira vez senti inferior aos outros dois restantes… É bem provável que a estrutura de playground de ação não me encante tanto mais quanto a do filme anterior, por exemplo, mais definido conceitualmente na sua ideia de pastiche de matinê. Mas, quero deixar bem claro que este aqui continua maravilhoso. Quero dizer, eu ainda curto um bom “playground de ação”. heheh!

É notório que se trata de um filme mais sombrio que os outros, mas é notável um diretor no auge, com tanto poder e controle em mãos, tanta responsabilidade, e mesmo assim poder se divertir com seu cinema. Você praticamente sente Spielberg rindo fora da tela enquanto dirige aqueles primeiros 20 minutos, que são geniais, inspirado em James Bond; filmando aquela sequência de jantar, servindo cérebro de macaco para a futura esposa, Kate Capshaw; e utilizando os melhores cenários de toda a série para Harrison Ford pular, correr, escapar, trocar socos com bandidos (a perseguição de carrinhos de mineração e a sequência da ponte no clímax ainda impressionam)… Não tem nada mais “spielberguiano” do que o próprio Spielberg filmando como uma criança que brinca com seus bonecos de ação.

2. INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989)

É o que fecha a trilogia inicial e ao mesmo tempo meio que retorna às bases do primeiro filme, com toda a carga de inspiração nos seriados de matinês que Spielberg/Lucas assistiam na infância – uma volta até para um terreno mais seguro depois de O TEMPLO DA PERDIÇÃO – e acrescenta ainda mais elementos que interessam a Spielberg, sobretudo na dinâmica emocional e problemática do relacionamento pai/filho, que é um desses princípios fundamentais do cinema do homem. Provável que seja o filme mais “spielberguiano” da franquia, ainda que não seja – por MUITO pouco – o meu favorito.

Mas não deixa de ser perfeito. O ritmo é frenético, a quantidade de ação é absurda, tem duas das minhas sequências de ação favoritas da série – quando Indy e seu pai fogem de um dirigível até culminar na cena em que o pai derruba um avião com os pássaros, e toda sequência do tanque de guerra no final. Acho que é o filme que mais remete a Buster Keaton em termos de construção de ação na série; e o humor funciona lindamente. Enfim, uma maravilha.

1. OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)

Ah! Onde tudo começou… A obsessão de Spielberg por seriados e filmes de sua juventude ganha uma representação em seu próprio cinema. São as aventuras indianas de Fritz Lang, é James Bond, Humphrey Bogart, Westerns e ódio pelos nazistas, tudo misturado para criar um clássico oitentista que, pra mim, que cresceu assistindo isso aqui até perder as contas, virou sinônimo de tudo o que determina um filme de aventura na sua essência. No quesito “ação”, Spielberg é demonstra ser um dos grandes mestres. Sequências como a que Indy recupera a arca sozinho de dentro de um caminhão, encarando um comboio de nazistas, é digna de antologia di cinema de ação dos anos 80. Mas o grande trunfo deste filme (e da trilogia inicial) é o seu senso de humor, o fato do projeto não se levar muito a sério em momento algum e em conseguir transformar esse pastiche de matinê numa obra-prima.

Acredito que não há a menor possibilidade do quinto filme chegar no mesmo nível disso aqui… Mas tudo bem. Se for divertido já tá de bom tamanho.

PIRANHA (1978)

Na esteira de TUBARÃO, de Spielberg, a segunda metade dos anos 70 viu uma série de imitadores classe B invadirem os cinemas com filmes de animais selvagens assassinos, tanto pela água quanto por terra. PIRANHA é um desses exemplares, mas que possui um toque especial. Por que? Pra começar é produzido pelo Roger Corman. Querem outra boa razão? A direção é do Joe Dante. Ponto. Impossível não ser a melhor dessas “variações” do período.

Dante já havia se aventurado na direção antes, mas em parceria com outros pupilos do Corman, e trabalhava mais como editor para a New World Pictures, a produtora de Corman, quando foi escolhido para dirigir PIRANHA, desta vez sozinho. Sem muito dinheiro ou tempo, que era o habitual nas produções de Corman, Dante elaborou um pequeno e tenso thriller drive-in habilmente reforçado com um elenco regular de TV e filmes B. Um roteiro decente (que teve envolvimento de John Sayles, o que é mais um motivo pra esse filme ser especial), servindo de amplos elementos que os amantes desse tipo de material adora (umas pessoas com pouca roupa e um bocado de sangue), com uma pitada de reflexão social, mas sem se levar à sério, deixando o absurdo que é tudo isso aqui reinar de forma plena, o que certamente ajuda bastante.

Maggie (Heather Menzies) é uma espécie de rastreadora que é contratada para encontrar um jovem casal que desapareceu no interior. O eremita misantropo Paul Grogan (Bradford Dillman) relutantemente se oferece para ajudá-la depois que o jipe da moça quebra no meio do nada. Na jornada que se segue, Maggie e Paul encontra o casal, ou pelo menos o que possivelmente sobrou, um esqueleto que pode pertencer a um deles.

Logo no início do filme, nos é mostrado que o casal havia invadido uma instalação de pesquisa aparentemente deserta e encontrou uma piscina convidativa, então decidiram dar um mergulho. Infelizmente a piscina estava cheia de piranhas!

E não eram piranhas normais. São super piranhas mutantes criadas naquele centro de pesquisa. A instalação pertencia aos militares dos EUA e as piranhas foram planejadas como uma arma biológica para uso durante a Guerra do Vietnã. A guerra acabou e o projeto foi encerrado… Oficialmente. Extraoficialmente, no entanto, um cientista, Dr. Hoak (o grande Kevin McCarthy), ficou pra trás e continuou sua pesquisa com as piranhas, que agora podem viver em água doce ou salgada.

Se as piranhas entrarem no rio próximo, vão acabar alcançando o mar e se tornarão uma ameaça global. Mas isso não deve acontecer, já que estão presas à piscina. A menos que alguém a esvazie soltando as piranhas no rio… E é exatamente isso que Maggie faz inadvertidamente.

Maggie, Paul e o Dr. Hoak agora têm que tentar desfazer o desastre.

Primeiro problema. O acampamento de verão nas margens do rio, onde centenas de crianças vão pra lá se divertir nadando, brincando na água, lugar comandado pelo sempre genial Paul Bartel… Não vale a pena pensar no que aconteceria se as piranhas se soltassem entre centenas de crianças, mas o acampamento é exatamente para onde essas piranhas estão indo. E a filha de Grogan está no local.

Segundo problema. O próximo passo no roteiro das piranhas será o novo resort construído por um consórcio liderado pelo empresário pilantra Buck Gardner (Dick Miller). Haverá carnificina quando as piranhas chegarem.

Sem transporte por terra, a única maneira do trio chegar ao acampamento de verão a tempo é de jangada. Descer um rio infestado de super piranhas será um desafio. Maggie e Paul também enfrentam o problema de que os militares estão determinados a encobrir o fiasco. E a Dra. Mengers (a musa do horror gótico italiano Barbara Steele), que foi enviada para investigar o caso, também não vê porquê o fato de algumas centenas de pessoas serem comidas por piranhas deveria atrapalhar pesquisas científicas “vitais”. Os militares dos EUA precisam de maneiras novas e criativas de matar pessoas, não é?

Produção dos anos 70, o cinismo sobre o governo e as forças armadas dos EUA estavam no auge e o filme não mede esforços pra ridicularizar figuras do tipo pelo uso irresponsável da ciência e dos experimentos genéticos, mesmo que num tom mais satírico. Os cientistas também não se saem muito bem na fita por aqui. O Dr. Hoak é um cara legal, mas não consegue ver nenhum problema moral em seu trabalho.

Sobre a produção, PIRANHA até que foi um filme caro para os padrões de Roger Corman, o que significa também que foi um filme bem barato para os padrões de qualquer outro estúdio. Mas as produções de Corman sempre conseguiram superar suas limitações orçamentárias, o sujeito tinha o dom de contratar pessoas que podiam obter bons resultados com muito pouco dinheiro. Não preciso falar muito de Joe Dante que foi mestre nisso. Mas os efeitos especiais, por exemplo, foram alcançados de forma bastante simples. As piranhas são apenas fantoches de pau. Mas parecem bastante convincentes. A cena em que eles atacam a jangada é bem eficaz e genuinamente tensa. As cenas subaquáticas são todas bem feitas.

Há até um bocado de gore de vez em quando e a contagem de corpos é alta. Essas piranhas estavam realmente com fome. E em nenhum momento você pensa que um filme desse vai nos mostrar crianças sendo comidas por peixes carnívoros assassinos. Quero dizer, não há como isso acontecer, certo? Maggie e Paul chegarão ao acampamento de verão a tempo de evitar tais horrores. Não vão? Bom, é nessas horas que você percebe porque o Roger Corman e Joe Dante são dois caras fodas e ousados, com mais colhões do que 100% dos diretores/produtores/estúdios que fazem cinema hoje em Hollywood.

A atuações são bem decentes. Bradford Dillman é um bom tipo de herói ranzinza que nunca quis ser herói, mas a necessidade o força a isso. Heather Menzies também convence no seu papel e Barbara Steele está deliciosamente má. Não tem como não rir de caras como Paul Bartel e o maravilhoso Dick Miller, que exagera de forma divertida.

PIRANHA é o que se propõe a ser. É uma imitação barata de TUBARÃO que oferece emoções e horrores eficazes, e é extremamente divertido nesse sentido, além de trazer as reflexões habituais e clichês desse tipo de filme – experimentos científicos irresponsáveis, consequências ambientais, a ganância da indústria do turismo, que coloca em risco a vida das pessoas em prol do lucro… Clássico.

Teve uma continuação, PIRANHA II: THE SPAWNING, que é erroneamente atribuído a James Cameron como seu primeiro filme. A maior parte do trabalho foi realizada, na verdade, por Ovidio G. Assonitis, o produtor do filme. Segundo consta, Cameron trabalhou nos efeitos especiais, reescreveu o roteiro, criou storyboards, fez a aferição de locações e filmou por quatro dias. No entanto, Assonitis questionava continuamente as decisões de Cameron, que demonstrou que não seria o pau mandado que o produtor esperava (mesmo num filme chamado PIRANHA II), e o demitiu no quinto dia de filmagem. Não se sabe ao certo o que restou do trabalho de Cameron, mas é notório que Assonitis reescreveu muita coisa e adicionou as doses de nudez que não estava no script originalmente.

Mas já tô me prolongando demais. O fato é que essa continuação não chega aos pés do filme de Joe Dante. Fica a recomendação pra quem não viu ainda PIRANHA (ufa, terminei o texto sem fazer nenhuma piadinha infame com o título do filme…).

OPERAÇÃO DRAGÃO (1973)

OPERAÇÃO DRAGÃO (Enter the Dragon) é um clássico e sobre isso eu não discuto. Sua influência no cinema de artes marciais no mundo todo é evidente. Mas eu sempre brinco dizendo que infelizmente foi logo este filme que se tornou um marco para Hollywood. “Não tinha outros filmes melhores não?” Na verdade, tinha. Existem um milhão de exemplares melhores do período que poderiam ter despertado esse “movimento”. Mas isso é só uma provocação boba. Eu amo OPERAÇÃO DRAGÃO e quero deixar isso bem claro, mesmo com suas falhas. E existe uma infinidade de coisas pra se apreciar aqui e que justificam seu status cult. A principal delas, é óbvio, a presença de um tal Bruce Lee como protagonista.

A história toda foi mais ou menos assim: em 1973, Bruce Lee já era um astro na Ásia, consequência feliz de sua, digamos, incapacidade de se destacar nos Estados Unidos (muita gente esquece que Lee era americano). Limitado à televisão com o seriado O BESOURO VERDE, afastado de um projeto que lhe era querido (a série KUNG FU, cujo papel principal foi dado a David Carradine), considerado “muito chinês” para os papeis que tentava nos EUA no fim dos anos 60… Enfim, Lee se refugiou em Hong Kong e deu início a carreira que conhecemos.

Depois de três filmes, percebendo a oportunidade que perderam, a Warner o chamou de volta para propor uma co-produção com a Golden Harvest, a produtora que o havia acolhido. O filme foi este aqui, OPERAÇÃO DRAGÃO, dirigido por Robert Clouse. Bruce Lee finalmente tinha a chance de conquistar o mercado americano, mesmo compartilhando os holofotes com John Saxon e o estreante Jim Kelly. Teve até carta branca pra cuidar das lutas e coreografias, ou seja, o coração do filme. Até mesmo sua filosofia de combate seria explorada, como por exemplo na sequência inicial, quando luta com um de seus aprendizes (um jovem Sammo Hung) e lhe passa alguns ensinamentos, da mesma forma com um garotinho logo depois… O filme é todo Bruce Lee na sua essência.

Mas aí veio a tragédia. Somado ao fato de que Bruce Lee morreu pouco antes do lançamento de OPERAÇÃO DRAGÃO, sua consagração não apenas como astro do cinema de artes marciais, mas como ícone da cultura pop mundial, ficou garantida. Assim como o sucesso do próprio filme.

Com todos os recursos à disposição, aproveitando a sinergia entre as equipes americana e de Hong Kong, OPERAÇÃO DRAGÃO foi a produção mais “profissional” da curta carreira de Bruce Lee como astro. Mesmo sendo no geral um filme com alma de B Movie, com pegada de história em quadrinhos, um filme de artes marciais com estrutura de James Bond, com uma pitada de blaxploitation… E por aí vai.

Na trama, que todos vocês já conhecem, Bruce Lee interpreta um agente chamado… Lee! Ele é contratado por uma agência de inteligência internacional para descobrir as atividades ilegais do Sr. Han, que patrocina uma competição de artes marciais numa ilha particular que usa como fachada para recrutar agentes para trabalhar no seu império das drogas e tráfico de mulheres.

Ao mesmo tempo, Lee tem outras questões pessoais para resolver na ilha do Sr. Han, já que capangas do vilão foram responsáveis pela morte da irmã do protagonista. Na sua jornada, Lee se junta a Roper (John Saxon) e Williams (Jim Kelly) para quebrar a cara de todo mundo no torneio, ter sua vingança e acabar com os esquemas da quadrilha do Sr. Han.

E é isso, basicamente. Um filme simples, uma trama excêntrica com personagens maneiros e com um bocado de pancadaria, cujo principal objetivo é divertir o seu público. Mas que de alguma forma se tornou um clássico. Bruce Lee esperava, a longo prazo, fazer filmes mais complexos, algo que inicialmente queria infundir já em JOGO DA MORTE, o filme seguinte, que Lee só filmou cerca de 25% e foi finalizado sem ele. Mas o sucesso do filme não exigia algo mais elaborado. Bastava a presença de Lee na tela, fazendo seus movimentos, que o público já estava hipnotizado.

OPERAÇÃO DRAGÃO também é interessante como fantasia estereotipada sobre esse herói não branco, algo que já era perceptível em filmes anteriores de Lee, sobretudo pelo seu jingoísmo, o nacionalismo antinipônico em FÚRIA DO DRAGÃO, ou do confronto contra a supremacia americana em O VÔO DO DRAGÃO, com o massacre de Chuck Norris no Coliseu, um símbolo ocidental. Quase se poderia considerar um ato político a arrancada de pelos no peito de Norris por parte de Lee… E aqui a coisa vai na mesma direção, desde o comportamento sóbrio e puro de Lee, em comparação com os seus amigos americanos (que não hesitam em se fartar de tudo que Sr. Han tem pra lhes oferecer), até a humilhação pra cima de mais um lutador ocidental, vivido por Bob Wall.

Agora a parte negativa. O principal problema de OPERAÇÃO DRAGÃO pra mim é o ritmo e o contraste entre as duas metades de projeção. É um filme que acaba praticamente sofrendo de dupla personalidade. A primeira hora foca mais na trama de espionagem, apresenta esse universo, personagens, que não deixa de ter seu fascínio de um modo geral, mas que ao mesmo tempo é um convite ao sono. Principalmente depois de rever tantas vezes, já acostumado com a história, percebe-se o peso narrativo. O Sr. Han mostrando suas dependências, e os setores de fabricação de droga, à Roper é um troço bem arrastado…

Claro, o arco com o Jim Kelly continua uma maravilha, o rapaz demonstrava porque foi considerado o Bruce Lee da Blaxpoitation – guardando as devidas proporções. E eu até gosto muito da traminha pulp de espionagem que temos aqui, mas só depois de passar um bom período de marasmo, conduzido com um ritmo bem caído, que o filme se transforma num exemplar de ação completo, com os últimos 40 minutos envolvendo Lee e a turma “do bem” numa pancadaria contra uma ilha inteira de bandidos.

Outro problema, que na verdade não é bem um problema, é algo que, pessoalmente, acho que tira um pouco a chance que o filme teria de ser ainda melhor, é o fato de que em OPERAÇÃO DRAGÃO o personagem de Bruce Lee é bom demais na porrada. E não tem ninguém que esteja no mesmo nível. Não só aqui, mas em qualquer filme que isso aconteça é algo que não curto. Perde um pouco a graça. Óbvio que é legal vê-lo esmurrando um exército inteiro de capangas, mas não vai ser uma salinha de espelhos ou lâminas no lugar da mão que vai te ajudar a derrotar o herói… No fim das contas, o personagem de Lee não tem páreo e derrota todos nessa sua jornada com uma facilidade quase frustrante.

Só não chega a ser realmente frustrante porque aí entra o trabalho do Robert Clouse, que tava muito inspirado quando filmou OPERAÇÃO DRAGÃO, e consegue entregar uma boa dose de cenas de pancadaria e do uso da imagem icônica de Bruce Lee como artista marcial. Há duas cenas de destaque: primeiro, na base do vilão, depois de se esgueirar pelos seus esconderijos, temos a luta (parcialmente em câmera lenta) de Lee sozinho contra uma horda de agressores (incluindo um jovem Jackie Chan) surgindo de todos os lados do quadro. É um deleite ver Bruce Lee no centro da tela a mover e desferir seus golpes, com seu momento nunchaku… Um clássico.

Pra quem não sabia, esse moço levando porrada do Bruce Lee é o Jackie Chan.

E depois no duelo final com o Sr. Han. Sei que já reclamei que o vilão final não é páreo para o herói, mas, nossa, ainda causa impacto o uso dos espelhos e a maneira como Clouse conduz essa surra toda. Tudo bem, Bruce Lee levas uns cortes. Passa o dedo na ferida, lambe, outro momento icônico… No fim das contas é isso que importa. A imagem cristalizada de Bruce Lee fazendo poses que se tornariam objeto de culto no imaginário pop. Todo o restante é secundário, exceto a partitura de Lalo Schiffrin sempre muito elegante. E claro, a presença de John Saxon, um ator que adoro e que tá ótimo aqui (apesar de não ser ligado ao gênero, o sujeito tinha background em artes marciais), Jim Kelly mostrando potencial, um jovem Bolo Yeung quebrando a espinha de um adversário, entre outras figuras do cinema popular de Hong Kong. Mas OPERAÇÃO DRAGÃO é Bruce Lee até o talo e não seria a mesma coisa sem ele.

Assim, quando o vilão é eliminado e os créditos finais começam a rolar, OPERAÇÃO DRAGÃO não deixa dúvidas dos motivos de seu sucesso, de ter sido repetidamente copiado pelo cinema de artes marciais nas décadas seguintes, sobretudo em Hollywood, tentando recriar a sua magia original mesmo que, como disse na abertura do texto, existam filmes muito melhores nessa mesma época. Em 2023 o filme completa 50 anos e continua uma sessão obrigatória de tempos em tempos.

6 MELHORES FILMES DE AÇÃO DE 2023… POR ENQUANTO

Este ano tem surpreendido no quesito ação e eu posso provar. Aos fãs do gênero, corram pra ver essas recomendações, porque 2023 ainda promete algumas surpresas pro segundo semestre.

6. PATHAAN , de Siddharth Anand
Esse era um dos filmes de ação que eu mais aguardava este ano. Mas acabei gostando mais do filme anterior do Anand, WAR (2019), que recomendo fortemente pra quem quiser adentrar no mundo mágico do cinema de ação da Índia. Agora, PATHAAN é puro suco do blockbuster genérico de Bollywood, mas que demonstra que até nesse tipo de produto os indianos conseguem fazer um troço hipnótico visualmente e extremamente divertido. O filme é uma montanha russa explosiva, cheia de ação que qualquer indivíduo interessado em MISSÃO: IMPOSSÍVEL, 007, VELOZES E FURIOSOS, Michael Bay, vai aproveitar bem e sair da sessão com um sorriso no rosto.

O astro de Bollywood Shah Rukh Khan tá sensacional aqui como herói da parada, consegue ser tão carismático quanto badass; o vilão de John Abraham é muito bom; Deepika Padukone é maravilhosa em todos os sentidos; e a ação, de um modo geral, é insana, com destaque pra sequência da apresentação do personagem do SRK – um tiroteio frenético com direito a um helicóptero fazendo manobras radicais dentro de um hangar – e a do trem, um festival de pancadaria, balas e explosões que sozinha já paga o ingresso… Uma das melhores do ano. Genérico ou não, o Siddharth Anand demonstra porque é um dos diretores mais interessantes a ser seguido no cinema Hindi. Tem disponível no Prime.

5. RESGATE 2 (Extraction 2), de Sam Hargrave
Assisti há poucos dias, assim que entrou na Netflix. Posso estar ainda momentaneamente empolgado com este filme, mas foi uma experiência de ação daquelas, com toda a carga de adrenalina que os apreciadores do gênero merecem. A trama é simplória, o final é um pouco decepcionante (em comparação com as outras sequências de ação do filme) e é um crime ter o Daniel Bernhardt como capanga do vilão e não aproveitá-lo da forma correta – ou seja, pelo menos uma sequência de pancadaria digna. Tirando isso, puta filme. Em termos de AÇÃO, com esses dois filmes no currículo, acho que não é exagero colocar esse Sam Hargrave entre os grandes diretores do gênero na atualidade em Hollywood. Trabalho de câmera fantástico e a sequência da prisão/perseguição/fuga no trem tá entre as mais espetaculares do ano (outra sequência de trem…). Não tô nem aí se o Chris Hemsworth quer se aposentar, segurem o homem pra um terceiro!

4. WALTAIR VEERAYYA, de Bobby Kolli
Pra quem já tá acostumado com o cinema indiano, isso aqui é um típico masala com suas megalomanias na trama, reviravoltas, humor, nas músicas e na ação hiper exagerada. Ou seja, uma delícia do início ao fim. Mas o que torna WALTAIR VEERAYYA um troço mágico é a performance do “megastar” Chiranjeevi, um dos maiores ícones do cinema Telugo, que faz o personagem título e oferece aqui uma das figuras mais incríveis do cinema indiano recente.

Provavelmente alguns de vocês já viram no YouTube uma sequência de ação meme de um filme indiano dos anos 90 em que um sujeito desliza com um cavalo por baixo de um caminhão… Aquele sujeito é ninguém mais ninguém menos que Chiranjeevi! O sujeito é gênio. Podem ir que a diversão é garantida com WALTAIR VEERAYYA. Fica a dica de mais um filmaço indiano pra vocês conhecerem. Disponível na Netflix.

3. THUNIVU, de H. Vinoth
Sim, mais um filme indiano. Uma produção tamil. THUNIVU começa como um thriller de ação de assalto a banco e se transforma num drama de consciência financeira e análise social do mundo dos bancos. Tudo ligado no 220, num ritmo frenético de tirar o fôlego que mistura excelentes doses de ação com uma escrita socialmente consciente e boas reviravoltas nos seus 146 minutos. Mas o que realmente faz disso aqui um grande filme é a presença do astro do cinema tamil Ajith Kumar como protagonista, que domina o espetáculo quando tá em cena e constrói um dos melhores personagens do ano. Com todo respeito, nenhuma performance dos indicados a melhor ator do Oscar deste ano chega aos pés deste homem. É ver para crer e espero que alguns de vocês vejam esse filmaço! O filme tá na Netflix.

2. FAST X, de Louis Leterrier
Apesar de nunca ter escrito sobre os filmes, já devo ter pelo menos mencionado por aqui que amo a série VELOZES E FURIOSOS. E este décimo exemplar é uma delícia! Uma coisa que adoro é como tudo aqui é basicamente uma consequência de FAST FIVE, que é o meu favorito da série, então foi legal ver como eles amarraram tudo. Mas de certa forma é um FAST & FURIOUS que quebra um bocado as expectativas, diferente do que ficamos acostumados a ver nos últimos filmes. É o começo de uma suposta trilogia que vai fechar a franquia, com uma abordagem narrativa distinta, uma outra cadência, o filme espalha os personagens em blocos e mantém mistérios e surpresas para serem resolvidas nos próximos episódios… Ao mesmo tempo tá tudo ali num alto nível de diversão, na figura mítica de Dom Toretto e sua ideia de família que, como conceito, é imortal pra franquia tanto de forma figurativa quanto literal. Um dos personagem novos resume bem num momento expositivo no início do filme: “É como uma seita com carros”.

Até a ação é peculiar. Tirando a sequência de Roma, que tem um grau de destruição mais grandioso, os próprios set pieces de FAST X me parecem dar um passo atrás em escala épica, indo contra o crescendo que havia nos últimos filmes – um submarino no 8, ir para o espaço no 9 – a coisa aqui retorna às acrobacias dos carros, mas sem deixar de desafiar as leis da física, obviamente… O que é bom, porque o Leterrier tá bem longe de ser um Justin Lin, F. Gary Gray ou James Wan. Mas até que o francês consegue mandar bem na medida do possível nessa “escala menor”, com pancadarias, tiroteios e perseguições, até chegar num clímax mais espetacular que é realmente muito bom e entrega o nível de adrenalina esperado. E nisso tudo as atenções acabam indo pra outro elemento do filme que é simplesmente fodástico, que é a composição de Jason Momoa, psicótico, afetado, maravilhoso em cada frame. Tem vários personagens que se destacam aqui em algum momento, mas nada se compara a Momoa. Disparado o melhor vilão de toda a franquia. Enfim, eu achei divertido pra caramba. Já ansioso pelo(s) próximo(s) capítulo(s).

1. JOHN WICK 4: BABA YAGA (John Wick: Chapter 4, 2023), de Chad Stahelski
Pra fechar essa relação, replico basicamente a mesma coisa que disse quando assisti a essa obra-prima moderna da ação, na época do lançamento. BABA YAGA veio pra coroar a grandeza de tudo que envolve JOHN WICK como cinema, como personagem, como universo, como narrativa e estética de filme de ação. Os dois primeiros atos são, em grande parte, mais do mesmo. O que não é de forma alguma algo negativo, pois o mais do mesmo em JOHN WICK é muito bom, com alguns momentos geniais: tudo que envolve a participação de Scott Adkins, por exemplo, que tá brilhante aqui. Donnie Yen, Sanada, Mark Zaror, Bill Skarsgård, Clancy Brown, Ian McShane, Lance Reddick (RIP), Laurence Fishburne… Baita elenco e estão todos ótimos. Keanu Reeves nem preciso mencionar, o sujeito é uma força da natureza.

Mas aí vem aquele terceiro ato… O arco do triunfo; a homenagem à THE WARRIORS; Paint It Black; o plano sequência com a câmera no alto, digna de um Brian De Palma, acompanhando John Wick por cômodos numa casa abandonada, tocando o terror com uma arma que cospe fogo, literalmente; a escadaria da Basílica de Sacré Cœur… O que temos aqui é simplesmente algumas das sequências de ação das mais absurdas colocadas num filme de estúdio hollywoodiano. Neste momento, não tenho dúvidas em apontar que Chad Stahelski é o principal nome do gênero na atualidade. E só posso dizer que é um grande momento para ser fã de filmes de ação.

ATUALIZAÇÃO DO AVISO…

Uma pequena atualização sobre o aviso deste post. Uma boa notícia: resolvi voltar atrás da minha decisão de não renovar o domínio do blog. Renovei. Pronto. Portanto, por pelo menos mais um ano, o blog continua no mesmíssimo endereço atual. Ano que vem eu analiso como isso aqui vai estar e repenso se mantenho ou se deixo expirar… Mas por enquanto continuamos. De qualquer maneira, coloquei aqui do lado no menu (pra quem estiver acessando de um computador) ou lá embaixo de tudo (pra quem estiver no celular), um “módulo” de doações. Quem curte aqui o conteúdo que faço e quiser contribuir com o blog, com o pagamento do domínio, ou nem que seja pra eu comprar um cafezinho, esteja à vontade. Se preferirem, podem fazer um pix (ronaldperrone@gmail.com). Vai ser bem-vindo. Afinal, isso aqui não deixa de ser trabalho e um dos motivos que às vezes dá um desânimo é que esse trabalho não é remunerado.

Gostaria também de agradecer aos camaradas que comentaram naquele post, a intenção nunca foi de “fechar” o blog, mas só dizer que não ia renovar o domínio (e que o endereço voltaria a ser o mesmo de uns anos atrás). Mas os comentários me deram uma animada e desde então até passei a escrever mais em pouco tempo, já teve dois posts e já vem um terceiro aí até o fim de semana. Valeu, rapaziada!

O PRÍNCIPE DA CIDADE (1981)

Tava em dúvida de qual filme assistiria para homenagear o grande Treat Williams, que faleceu recentemente. O cara tem várias bagaceiras deliciosas no final dos anos 90, muita coisa que eu ainda não vi, mas tem também algumas pérolas mais sérias na carreira, que é o que acabei optando… Revi então essa obra-prima do mestre Sidney Lumet, que já fazia uns bons anos que não assistia.

Entre os muitos filmes do final dos anos 70 e início dos 80, quando diretores famosos se tornaram mais extravagantes em produções, orçamentos e abordagem em geral, O PRÍNCIPE DA CIDADE (Prince of the City), com suas duas horas e quarenta e sete minutos, pode ser o mais “simplificado” de todos. O que não é surpresa alguma considerando que Lumet, com seu estilo nada exibicionista, não parece o tipo de diretor que se “descontrolaria”, como Friedkin, Cimino ou Coppola.

Apesar disso, embora O PRÍNCIPE DA CIDADE possa ter sido uma tentativa de retornar ao sucesso que Lumet alcançou com SERPICO oito anos antes, é também um dos seus projetos mais ambiciosos. Um filme épico sobre corrupção policial, dentro de seu estilo visual mais simples, e que parece uma tentativa de examinar o quanto de informação ele poderia empacotar em uma narrativa, o quanto as pessoas realmente poderiam processar toda essa carga de informação.

Mas vamos à trama, que é baseada no caso real do policial de Nova York Robert Leuci. O PRÍNCIPE DA CIDADE conta a história do detetive Daniel Ciello (Treat Williams) do Departamento de Polícia de Nova York, da Unidade de Investigação Especial, uma equipe de investigadores de narcóticos que praticamente não presta contas a ninguém, sendo considerados verdadeiros “príncipes da cidade” aos olhos de todos. Depois que Danny se envolve em algumas ações questionáveis, ele começa a ter discussões com um grupo de assuntos internos e concorda em ajudá-los a expor os casos de corrupção dentro da Força Policial com a única condição de não denunciar nenhum de seus parceiros. O que eles aceitam.

No entanto, à medida que os anos vão passando, Ciello se vê cada vez mais afundado nisso, uma situação que já durou e ainda vai durar muito mais do que ele jamais imaginou e da qual talvez ele nunca consiga sair. E mais pessoas acabam sendo envolvidas, os interesses lá do alto escalão vão transformando e o sujeito começa a perceber que manter essa promessa de nunca denunciar seus parceiros pode ser quase impossível.

A partir disso, a única coisa que posso indicar é que deixem um bloco de anotações do lado na hora de assistir para ir escrevendo detalhes de nomes, eventos, relacionamentos de Ciello com seus parceiros, suas decisões, suas interações, o que precisa acontecer com ele e assim por diante… Definitivamente não é uma obra de narrativa simples. O roteiro de Jay Presson Allen e do próprio Lumet nunca nos oferece uma cena sequer que explique as coisas com mais clareza, não temos nenhuma fala mais expositiva do protagonista que revela exatamente o porquê dele ter aceitado estar nessa posição.

Um policial que certamente não é puro, mas que acredita que pode fazer tudo funcionar em seus próprios termos enquanto lida com algum tipo de culpa que nem ele consegue admitir para si mesmo. Muito menos para os outros. Mas é impossível pra ele saber totalmente o quão grande é a máquina contra a qual se vê enfrentando e suas esperanças iniciais de resolver tudo rapidamente desmoronam debaixo dele, assim como acontece com a cadeira em que ele se senta durante sua primeira visita aos Assuntos Internos.

Tudo funciona no interior do personagem, que passamos em algum momento ter uma noção dos seus sentimentos. Nada 100% claro, mas como quase tudo é mostrado do ponto de vista de Ciello, a gente chega em algumas conclusões sobre suas motivações.

E o desempenho do Treat Williams é fundamental pra percebermos tudo isso. Olhando pra carreira do cara, nunca foi lá um gigante da atuação. E Lumet certamente conseguiria um outro ator de peso para viver Ciello, como um Pacino, De Niro (que esteve cotado numa época em que o De Palma esteve ligado ao projeto) ou Mickey Rourke, sei lá… Mas calhou de ser o Williams e o sujeito entregou a atuação de uma vida. Seu carisma como um desses príncipes é evidente; seu desespero é palpável e sua crença sincera de que ele pode fazer tudo funcionar é o verdadeiro sustento de suas ações durante todo o filme. Contracenando com ele, temos alguns bons nomes no elenco, em destaque para Jerry Orbach. Bob Balaban, James Tolkan e Lance Henriksen também marcam presença.

Como mencionei, em uma fase inicial da pré-produção, O PRÍNCIPE DA CIDADE poderia ter sido dirigido por Brian De Palma e é fácil imaginar como seria um filme completamente diferente, mais exuberante visualmente, mais formalista… Não entro no mérito do que seria melhor ou pior, até porque eu adoro o estilo de ambos. Mas a direção seca e naturalista do Lumet tá perfeita aqui, o modo como retrata uma Nova York suja, cinza, chuvosa e decrépita, um mestre mais preocupado na condução de um monumento em forma de filme do que em questões visuais, com foco maior nessa narrativa complexa de 167 minutos, que faz sentir o peso da duração para dar uma ideia de como tudo é avassalador para o personagem central.

E é interessante a habilidade de Lumet em explorar diferentes ângulos sobre a mesma coisa. Tanto O PRÍNCIPE DA CIDADE quanto SERPICO giram em torno de um detetive de Nova York que luta contra a corrupção policial, enfrentando grandes custos pessoais. A diferença crucial aqui é nas motivações: enquanto o personagem de Al Pacino é impulsionado por seus princípios, Ciello é moralmente ambíguo. E essa ambiguidade permeia toda a essência de O PRÍNCIPE DA CIDADE, que se torna uma exploração bem mais ampla e novelesca, que evita respostas fáceis, do que SERPICO, que acabou se tornando bem mais famoso na filmografia do diretor.

O PRÍNCIPE DA CIDADE até tem muitos admiradores, mas definitivamente nunca foi um dos títulos mais populares de Lumet. O que é uma pena porque acho um dos filmes mais puros do homem, tanto para o bem quanto para o mal. Não é uma experiência fácil de assistir, acho que deixei isso bem evidente durante todo o texto… Mas prefiro admirar um filme que se recusa em fornecer as coisas de “mão beijada”. E Lumet faz exatamente isso com O PRÍNCIPE DA CIDADE. Quase nos força a descobrir as coisas por nós mesmos, até que todo esse um volume imenso de coisas, nomes, situações acontecendo começam a fazer sentido, a ter um efeito em determinado ponto, e o filme alcança seu poder máximo por meio de sua densidade. E, no fim das contas, se torna essa obra-prima que é.

RIP Treat Williams.

CORRENTES DO INFERNO (1983)

A carreira da Linda Blair certamente tomou um rumo interessante após O EXORCISTA. Filmecos de terror, aproveitando sua imagem da garotinha endemoniada do clássico de William Friedkin, mas também participou de vários exploitation barra pesada. Já comentei, por exemplo, aqui no blog sobre RUAS SELVAGENS (1984). E agora me deparei com ela fazendo a personagem central nesse petardo do cinema de mulheres em penitenciárias, os famigerados WIP (Women in Prison), CHAINED HEAT, que no Brasil tem o título genial de CORRENTES DO INFERNO, dirigido por um tal Paul Nicholas, e certamente é um dos principais representantes do gênero nos anos 80.

Carol (Blair) é condenada por homicídio culposo em um atropelamento e é enviada para a prisão por dezoito meses. Embora a novata tenha sido “adotada” pela detenta durona Val (Sharon Hughes), todos os outros indivíduos que povoam o local parecem determinados a tornar a experiência de Carol na prisão um verdadeiro inferno.

A líder da gangue de branquelas, Ericka (Sybil Danning no auge da beleza – preciso dizer mais alguma coisa?), está interessada em Carol, mas depois de uma proposta durante um banho coletivo – sequência tão icônica do cinema de exploração que mesmo antes de ver o filme eu já conhecia – Carol a rejeita e começa uma jornada difícil para nossa pequena ex-menina possuída.

Somos apresentados à Capitã Taylor, interpretada pela grande Stella Stevens, em um papel fora do seu habitual, mas que desempenha perfeitamente. Ela está envolvida em uma busca pelo poder supremo contra o diretor Bacman, interpretado por John Vernon. Bacman provavelmente é o maior pilantra de todos. Você precisa ver seu escritório na prisão para acreditar! Ele leva as jovens bonitas da prisão para a sua jacuzzi particular (sim, isso mesmo, em seu escritório), dá a elas todas as drogas que querem e as filma fazendo striptease, entre outras coisas dentro da jacuzzi. Olha, no departamento sexo e nudez, CORRENTES DO INFERNO não tá pra brincadeira. A sequência que a musa Monique Gabrielle faz um strip pro Vernon sob as lentes de sua filmadora logo no início é um dos pontos altos do filme…

Há um sério problema de tráfico de drogas ocorrendo na prisão, e Bacman quer chegar ao fundo disso – afinal, ele ainda é o diretor do local. Sua “informante” (Gabrielle) que vemos no início do filme é morta por Ericka e suas cúmplices, todas em conluio no tráfico com a Capitã Taylor e seu amante traiçoeiro Lester, interpretado por ninguém menos que Henry Silva. Sim, o elenco é só surpresas das boas!

No entanto, Lester está secretamente envolvido com Ericka sem que Taylor saiba. Enquanto tudo isso se desenrola, a líder da gangue de mulheres negras, Dutchess, interpretada pela musa da blaxploitation Tamara Dobson, de CLEOPATRA JONES, busca vingança pelo assassinato bruto e violento de uma de suas amigas. Há um nível surpreendente de cenas brutais e sangrentas nessa obra, devo alertá-los.

Mais caos se desenrola quando Ericka e Dutchess lutam com correntes no pátio. Depois que Carol, (lembram dela? é a protagonista interpretada pela Blair) é estuprada por Bacman, a maré começa a mudar na prisão. Taylor quer o cargo mais alto, então ela e sua guarda-costas durona afogam Bacman em sua jacuzzi durante suas “brincadeiras”, agora com Val, a amiga de Carol, que estava ali com o objetivo de… Ah, nem lembro mais, mas acho que era uma tentativa de roubar as filmagens das câmeras do diretor que serviriam como prova de que ele estuprou a protagonista. Mas pra manter o assassinato em segredo, Val acaba brutalmente espancada até a morte.

Para garantir sua promoção, Taylor promete às autoridades que encontrará o assassino da pobre Val, plantando evidências em Ericka. Quando o porrete ensanguentado usado em Val é encontrada na cama de Ericka, as detentas decidem que já tiveram o bastante. E como todo bom e velho filme de prisão de mulheres só fica completo depois de uma revolta sangrenta no final, cá estamos.

Não tem como errar com CORRENTES DO INFERNO. Há tanta coisa acontecendo que eu deixei alguns desenvolvimentos da trama de fora dessa descrição toda. É praticamente um seriado de dez capítulos condensados em 90 minutos. Quase todo mundo nesse filme aparece sem roupa em algum momento – o que é esperado se Sybil Danning está envolvida – é corrupto, trafica drogas, é espancado ou espanca alguém de forma bruta.

A atuação num geral é boa, apesar da temática que envolve vários “temas” do cinema de exploração, tudo bastante exagerado, com Stella Stevens especialmente saboreando suas maldades. Linda Blair cumpre bem o que lhe é proposto, tem seu arco de transformação, se torna durona no final, o que é um alívio depois de todas as suas tribulações durante o filme. Ainda temos Robert Miano no papel mais abjeto e repulsivo do filme, o guarda estuprador. Os penteados são puro suco dos anos 80 e a música é inconfundivelmente datados, o que aumenta o fator de nostalgia geral.

Se alguém aí é adepto ou curiosso sobre o subgênero W.I.P. e não assistiu ainda a CORRENTES DO INFERNO, dê uma olhada. É um clássico, uma jornada frenética pelo mundo do cinema de exploração em seu melhor estilo intransigente. Teve três continuações, sem qualquer ligação com este primeiro, a não ser pelos títulos e por se passarem em prisões femininas…

UM AVISO AOS FREQUENTADORES QUE RESTAM…

Os cinco ou seis leitores que ainda frequentam este recinto já devem ter notado o abandono generalizado, a falta de novos posts, o descaso com o meu comprometimento cinéfilo. Eu peço desculpas. Realmente tem me faltado ânimo e tempo para dedicar o tanto que eu queria para este espaço. Enfim, já disse isso algumas muitas vezes nos últimos anos, não vou repetir tudo de novo. Até porque a ideia não é fechar o blog ou algo do tipo. A qualquer momento eu posso retomar a escrita. Nem que seja pra manter o acervo de textos, fruto de um trabalho de mais de 15 anos, isso aqui vai continuar existindo.

No entanto…

…Eu não pretendo renovar o domínio do blog. Não faz muito sentido mais pra mim ficar pagando por algo que nem tenho utilizado direito. O que significa que em pouco menos de um mês o endereço http://www.blogviciofrenetico.com vai deixar de existir. E o que vai acontecer a partir daí, eu não sei. Sério. Não faço a menor ideia. Até deixo a dúvida para os leitores, caso alguém saiba, deixe um comentário aí para elucidar. Na melhor das hipóteses, o que eu imagino que vá acontecer é voltar o domínio anterior e o blog continuar intacto e seguindo seu curso como sempre (só que cheio de anúncios chatos que o domínio pago tirava). Então, se quiserem atualizar as urls, é bem provável que mês que vem o blog passe a ser acessado pelo endereço antigo: http://www.blogviciofrenetico.wordpress.com.

Reforço, como fiz recentemente, que ainda continuo ativo, falando dos filmes que assisto, mas em modo mais “rápido e rasteiro” nas redes sociais, sobretudo no LETTERBOXD e no INSTAGRAM. Não faço textos tão bonitos quanto os que tem aqui, mas pra quem curte o meu trabalho “crítico” dá pra compensar um pouco a falta de um blog.

Tá dado o recado.

Até!