PROJECT SHADOWCHASER II (1994)

Também conhecido como NIGHT SIEGE: PROJECT SHADOWCHASER II e novamente dirigido pelo John Eyers. À primeira vista, parece repetir a mesma fórmula do primeiro filme, que comentei aqui outro dia, aquela mistura descarada entre DURO DE MATAR e O EXTERMINADOR DO FUTURO. O que na verdade, não vamos nos enganar… Realmente repete a mesma fórmula. Mas reduzir o filme a um simples exercício de cópia seria ignorar aquilo que ele realmente é, mais um produto típico do cinema direto para vídeo dos anos 1990 que encontra sua identidade nos exageros e numa relação honesta com seus próprios limites. Mas sim, mantém a espinha dorsal do original, apesar de trocar qualquer resquício de ambição narrativa por um conceito ainda mais enxuto. 

Quem conhece, sabe. O primeiro é mais pitoresco, com aquela trama absurda cheio de comédia involuntária e um herói improvável na pele de Martin Kove. Já a trama por aqui neste segundo filme existe apenas como pretexto. Temos um espaço fechado, agora deslocado pra um cenário ainda mais simbólico e paranoico, uma instalação nuclear; terroristas invandindo, chantageando Washington com um missel nucelar e novamente um herói improvável (um zelador, que era a ideia original do primeiro filme). O líder dos terrorisstas mais uma veze é um sujeito praticamente indestrutível, com Frank Zagarino retornando, agora não mais como Romulus, mas simplesmente como “o Androide”, que deixa de carregar qualquer verniz mitológico ou existencial e passa a funcionar como uma força bruta, quase abstrata, uma presença destinada exclusivamente a avançar, atirar e resistir. E tirar a camisa pra mostrar o peitoral na primeira oportunidade…

E nessa lógica de ser mais objetiva e direta é que PROJECT SHADOWCHASER II revela sua verdadeira vocação. O filme não tenta desenvolver ideias, apenas quer colocar seus personagens em movimento. As explosões são maiores, o número de corpos aumenta e a encenação da violência é mais espalhafatosa do que no primeiro capítulo, com várias cenas de luta com uma pegada de kickboxer movie, que tava em voga no período. Eyres filma tudo com uma urgência nervosa, e o resultado é um espetáculo de destruição contínua, com explosões, tiros e squibs disputando espaço na tela com os atores.

Essa entrega total ao excesso flerta, em vários momentos, com a autoparódia. O filme é até ambientado durante o Natal e não hesita em transformar símbolos de inocência em alvos, como um papai noel sendo metralhado no ataque inicial dos terroristas, deixando claro que nenhum detalhe é sagrado demais para escapar da carnificina. Existe algo de quase satírico nessas escolhas, como se o diretor estivesse rindo do próprio absurdo da situação enquanto empurra as situações.

Por outro lado, essa simplicidade radical tem seu preço. De vez em quando o filme se aproveita daquela espinha dorsal do primeiro filme e que serve de base por aqui e… Digamos que a sensação de déja vu é inevitável. Diversas situações, resoluções e até o confronto final ecoam de certa forma o filme anterior. A maneira como o Androide é derrotado reforça essa impressão de reciclagem, como se o roteiro estivesse menos interessado em reinventar soluções e mais preocupado em cumprir uma checklist de expectativas do gênero. Expõe uma certa preguiça criativa, mas não chega a comprometer o ritmo e a diversão. Por exemplo, o confronto final entre o zelador e o ciborgue já é recheado de chutes altos ao estilo Van Damme em câmera lenta. Bem mais épico que Martin Kove vs Zagarino no primeiro.

E talvez a maior contradição de PROJECT SHADOWCHASER II esteja justamente no tratamento dado ao seu vilão. Apesar de ser apresentado como uma máquina, o aspecto ciborgue é quase irrelevante. Se não fossem alguns diálogos expositivos e breves planos em ponto de vista digitalizado, nada o diferenciaria de um mercenário musculoso qualquer. Inclusive os chutes do zelador causam o mesmo dano que em um homem normal… Isso esvazia qualquer leitura mais filosófica sobre a relação entre homem e máquina, tão cara às obras que o filme imita. Aqui, a tecnologia não simboliza ameaça ou desumanização, é apenas um detalhe estético.

Ainda assim, seria injusto cobrar profundidade de um filme que nunca se propôs a isso. PROJECT SHADOWCHASER II funciona porque entende seu lugar. Ele é direto, bem fotografado, explora bem os cenários industriais cheios de vapor. É montado com certa precisão e sustentado por uma trilha sonora funcional, que sabe quando acelerar e quando dar espaço ao impacto visual. Bryan Genesse é quem faz o nosso herói por aqui, o herói improvável. Um ex-atleta decadente reduzido à função de zelador do local, que curiosamente luta kickboxer, e que incorpora até bem essa lógica do cinema de ação B, um sujeito comum que, pressionado pelas circunstâncias, revela coragem e habilidades extraordinárias.

Mas sejamos claros por aqui. Ele não é um Martin Kove. É, acho que é isso, falta um elemento Martin Kove por aqui… A trama ainda envolve uma cientista do laboratório dentro da instalação e seu filho adolescente que possuem alguma ligação com o zelador. Mas, não vale a pena comentar por aqui, acho que já deu pra ter uma noção do que é o filme.

PROJECT SHADOWCHASER II até pode ser menos interessante como narrativa e mais revelador como produto de uma época. Um cinema feito sem pudor, preocupado antes em entregar espetáculo do que coerência. Filmes pra compor prateleiras de locadora, e que encontra no excesso sua forma mais sincera de expressão. Pode não avançar muito além do que o primeiro filme já havia estabelecido, mas compensa isso com ação e muito barulho. E a convicção quase admirável de que, às vezes, tudo o que um filme precisa fazer é divertir com uma boa dose de chute na cara.

PROJETO MORTAL (1992)

Acho curioso que ao mesmo tempo em que eu faço um post como o anterior, apontando obras clássicas do cinema mudo e cinema de vanguarda como grandes filmes que ando assistindo, logo na sequência, no post seguinte, eu trago um filmeco vagabundo de ação dos anos 90. Um pouco de salada, um pouco de droga… Mas é isso, mantendo o espírito do blog, como sempre foi ao longo desses quase vinte anos, aos trancos e barrancos. Estamos aí, e agora quero falar de PROJETO MORTAL (Project: Shadowchaser), do diretor John Eyres.

À primeira vista, PROJETO MORTAL se anuncia com uma honestidade quase comovente na sua mistura de DURO DE MATAR com O EXTERMINADOR DO FUTURO. E, surpreendentemente, entrega exatamente isso, sem ironia, sem vergonha e sem a menor pretensão de ser algo além de um sci-fi de ação direto, eficiente e marcado pelo espírito do VHS dos anos 90. O filme surge num momento em que o mercado direct-to-video fervilhava, alimentado por produções que entendiam perfeitamente o que o público queria. Ação sem frescuras, constante e barulhento, com ritmo acelerado, personagens arquetípicos e, se possível, algum conceito de leve, que não interfira na diversão…

Nesse caso, o conceito de Eyres foi dar o tal toque sci-fi pra uma trama que tinha como ideia original no roteiro ser apenas um clone mais direto de DURO DE MATAR. No plot, terroristas tomariam um arranha-céu e um zelador do prédio seria o sujeito que tentaria salvar o dia. Interessado em capitalizar a crescente demanda do mercado por ficção científica, o diretor pediu que o seu roteirista, Stephen Lister, adicionasse um toque futurista à história.

Então agora a trama se passa num futuro próximo. E um grupo terrorista toma um hospital localizado num arranha-céu. Ok, nada de muito novo por aqui… Mas a primeira peculiaridade da trama é que o líder do grupo, Romulus, é um ciborgue criado pelo próprio governo, interpretado com presença física, frieza, uma cabeleira platinada e sempre com o abdômen trincado à mostra, por Frank Zagarino. Aliás, o filme abre com uma sequência maravilhosa, minimalista, atmosférica, com Romulus massacrando os cientistas que estavam alí no seu ofício e foge, enquanto a câmera de Eyres filma o corpo de Zagarindo quase de forma fetichista e a trilha tecno-gótico do tema pulsante de Gary Pinder toma conta durante os créditos iniciais.

Enfim, o plano dessa rapaziada envolve sequestrar a filha do presidente dos Estados Unidos, interpretada por Meg Foster, que seja lá qual for o motivo, está no hospital. Além de exigir um resgate de 50 milhões de dólares, valor que hoje parece modesto, mas que nos anos 90 ainda era um dinheirão. Sobretudo se você for um ciborgue.

Para lidar com a crise, o FBI, liderado pelo grande Paul Koslo, toma uma decisão tipicamente absurda. Descongelar o arquiteto do prédio, que por acaso está mantido em prisão criogênica, e que não faço ideia do crime que cometeu, um ano antes de Sylvester Stallone e Wesley Snipes em O DEMOLIDOR. A polícia do futuro, com toda a tecnologia disponível, resolve que a melhor ideia é chamar um arquiteto… E essa nem é a segunda peculiaridade do filme, ainda mais bizarra, o lapso de genialidade que de vez em quando encontramos em filmes desse tipo.

Essa segunda peculiaridade genial é que, por um erro burocrático, quem eles acordam é um tal de Desilva, um ex-jogador de futebol americano condenado por homicídio culposo, interpretado por por ninguém menos que Martin Kove. Com uma barba mais fake que a do Gusttavo Lima e numa deliciosa inversão de expectativa para quem o associa automaticamente ao vilão de KARATE KID. E a coisa só melhora. Por sorte, ninguém sabe que descongelaram o cara errado e Desilva, que não é bobo e não quer voltar pro freezer, resolve fingir ser o tal arquiteto. Acaba mergulhado na missão suicida de invadir o local, tornando-se um herói relutante à força das circunstâncias.

Levando em conta que estamos tratando aqui de um filme B, produzido para o mercado de vídeo, com suas limitações orçamentárias, até que o diretor John Eyres conduz tudo com habilidade e uma urgência quase imprudente. Não é que tenha uma abundância absurda de tiroteios, explosões e confrontos (embora tenha uma boa dose disso tudo), mas é um filme que tenta manter o público interessado pelas situações criadas a partir dessa fórmula, dessa estrutura de DURO DE MATAR com aquele ritmo que não dá muito tempo pra respiros. A construção de personagens é quase mínima, o filme não quer que você tenha muito tempo pra refletir demais sobre motivações, tá mais interessado em empurrar a trama pra frente. E nisso ele é competente.

E temos os lampejos de humor. A maioria das vezes involuntários, mas também os assumidos, sobretudo com o personagem de Kove, que é um sujeito engraçado sendo esse cara errado no filme certo, que acaba aceitando a posição que se encontra. E adota uma postura meio resignada, meio cínica, sempre com um sorrisinho no rosto, mesmo diante do perigo.

E quando resolve falar a verdade, os caras do FBI já não tem muita escolha. É o que tem pra hoje… O riso vem dessa fricção, um sujeito comum, meio bruto, meio cínico, jogado numa narrativa que espera dele um heroísmo que ele, à princípio, não tem interesse. Ele definitivamente não é um John McClane (o Bruce Willis em DURO DE MATAR). E é essa falta de vergonha na cara que torna o personagem tão simpático e cômico. E tem uma química ainda mais hilária com a Meg Foster, que tá ótima por aqui.

Já o Zagarino é o completo oposto. Um achado como Romulus, seu ciborgue, embora raramente “mostre” sua natureza mecânica de forma explícita, convence pela presença e pela sensação de ameaça contínua. Claro, o sujeito não é um Schwarzenegger e de vez em quando tive que segurar o riso pela sua performance robótica. Mas funciona na maior parte do tempo. As sequências perto do final em que persegue Kove e Foster pelos corredores desse escritório transformado em hospital pro filme demonstram sua imponência.

Curiosamente, o fato de o filme evitar grandes revelações visuais, sem exoesqueletos metálicos ou efeitos extravagantes, acaba reforçando o caráter quase abstrato do personagem, a de que Romulus é uma força criada pelo homem que escapa ao controle. Mas quanto a isso, o filme ainda tem umas reviravoltas, que envolvem o personagem de Joss Ackland (o vilão de MÁQUINA MORTÍFERA 2), que é o cabeça por trás do projeto que criou Romulus…

De qualquer forma, é por aqui que PROJETO MORTAL começa a revelar algo além do entretenimento. Por trás do espetáculo B, existe um comentário, talvez involuntário, sobre o estado das coisas no mundo moderno e que reflete a realidade. Desilva não é quem dizem que ele é, mas precisa agir como se fosse para sobreviver. Romulus, por sua vez, é uma criação artificial que encarna o poder, a eficiência e a violência do próprio sistema que o gerou. O fato é que ambos são produtos de erros administrativos, decisões apressadas de estruturas burocráticas falhas e da mentira sustentada no improviso. Ou seja, desde 1992 os governos não mudaram nada… Se tivessem assistido a PROJETO MORTAL, quem sabe?

Mas é algo que fica nas entrelinhas. Não vou dizer nem que um filme desse tenha “camadas”, mas é algo a se refletir no meio dos tiroteios e explosões. Até porque é só um exemplar bem executado de cinema de ação B, confortável em sua condição e consciente de seus limites. Não tenta ser mais inteligente do que é, nem mais profundo do que precisa. E tecnicamente, o filme até que surpreende. A ação é bem pensada dentro daquilo que se propuseram a fazer aqui, apesar do Romulus ser o ciborgue com a pior mira que já vi na minha vida, o que transforma alguns momentos numa mistura de “esses caras têm noção do que estão filmando?” com aquele humor involuntário que já mencionei. O uso de maquetes e efeitos práticos é sólido, e o aproveitamento de locações, incluindo cenários reutilizados de ALIEN³, revela uma certa criatividade de quem sabe fazer muito com pouco. Não é a toa que Eyres é muitas vezes apontado como um herdeiro do estilo Albert Pyun de filmar. A fotografia é limpa, a montagem às vezes é tosca, mas o filme todo tem uma energia boa.

A sequências do confronto final entre Kove e Zagarino poderia render mais como clímax? Poderia, mas não vou julgar. Até porque logo depois temos Kove pendurado num helicóptero na frente de um chroma key tosco que é uma belezura. E com direito a uma aparição final do ciborgue que me surpreendeu. Enfim, há filmes muito piores, mais preguiçosos dentro da mesma linhagem. Enquanto PROJETO MORTAL pulsa com mais vontade, do vilão carismático ao herói improvisado, do conceito absurdo à execução que é de uma sinceridade que me pega. Não surpreende que o filme tenha gerado várias continuações, mesmo que não tenham qualquer ligação com este aqui.

REPO MAN – A ONDA PUNK (1984)

No fim dos anos 1970, cineastas ingleses já haviam levado a estética anárquica do punk para a tela grande, em obras como THE GREAT ROCK ‘N’ ROLL SWINDLE (1980), de Julien Temple, e JUBILEE (1978), de Derek Jarman. No cinema americano, porém, o punk se mantém sobretudo como um refluxo subterrâneo e sobrevive como movimento underground, raramente alcançando o circuito comercial, ficando cercado pela aura de fenômeno “cult”. De vez em quando, um filme marginal ganhava certa visibilidade, mas eram trabalhos mais diferentões e provocativos que permaneciam na condição de vanguarda, exibidos em sessões de meia-noite e salas de arte, locais pra quem buscava algo além do conforto narrativo.

Esse cenário começa a se alterar quando um jovem diretor inglês, Alex Cox, vai para os Estados Unidos estudar cinema e, em seguida, realiza alguns filmes cujo sucesso crítico e repercussão cult acabam por trazer o punk americano para o radar. Os dois primeiros longa-metragens de Cox, em especial, configuram uma espécie de manifesto. REPO MAN e SID AND NANCY (a biografia de Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols) fazem do diretor uma figura a ser levada a sério. Se SID AND NANCY conquista mais diretamente os críticos, REPO MAN encarna o ethos punk como uma abordagem revisionista dos gêneros clássicos do cinema americano. O resultado é um filme que, mesmo lançado quando o movimento punk já havia perdido grande parte de sua espontaneidade histórica, consegue reativar algo de sua energia corrosiva.

REPO MAN abre nas rodovias desérticas, com uma cena que é ao mesmo tempo bizarra e cômica. Um carro é parado por um policial rodoviário e, ao abrir o porta-malas, o policial é envolvido por um brilho inexplicável. Num instante o sujeito é evaporado, restando apenas suas botas fumegantes no asfalto. O carro e seu motorista excêntrico seguem viagem, como se o absurdo fosse apenas mais um acontecimento banal na paisagem americana.

A partir daí, o filme acompanha a trajetória de um jovem punk (Emilio Estevez), desempregado, sem horizonte claro, cercado por amigos tão perdidos quanto ele. Anarquistas niilistas, desajustados por escolha e por falta de opção. Há, no entanto, em Estevez, uma fissura, um desejo por “algo mais” que o coloca num território ambíguo entre a rendição ao caos e a busca por algum tipo de sentido.

Por acaso, ele acaba ajudando um homem (Harry Dean Stanton) a levar um carro e descobre depois que esse sujeito é um repo man, alguém que ganha a vida retomando veículos de proprietários inadimplentes. É um trabalho perigoso e moralmente nebuloso. A princípio, Estevez enxerga os repo men como ladrões com crachá. Ainda assim, decide se juntar ao grupo. Sob a tutela do personagem de Stanton, ele aprende não apenas as manhas do ofício, mas também um “código” e até uma espécie de filosofia do repo man, um conjunto de regras e crenças meio cínicas, meio espirituosas, que funcionam como uma ética possível. Ao mesmo tempo, ele descobre que há uma firma rival competindo pelos mesmos carros, levando sua nova rotina a um permanente estado de conflito.

No meio disso tudo, Estevez conhece uma garota que, aparentemente, trabalha para uma organização dedicada a investigar presenças alienígenas na Terra. É também nesse momento que surge um alerta, qualquer repo man que conseguir recuperar um carro em particular (o mesmo veículo da cena inicial) receberá uma recompensa considerável. O filme então entrelaça o microcosmo dos repo men, o submundo punk, uma paranoia alienígena e a mitologia americana, criando um mosaico em que tudo parece conspirar para testar o que resta de identidade do pobre protagonista.

REPO MAN é um filme sobre esse rapaz e sua a necessidade de autodefinição e propósito. Na forma como Estevez percebe seu lugar precário no mundo. Ele oscila entre o conformismo desesperançado e uma recusa ainda incompleta da anarquia total. Ao contrário de seus amigos punks, não se entregou por inteiro ao vazio ou à destruição como único gesto autêntico, ele ainda alimenta a expectativa de algo diferente. É um inconformado cansado de tudo e justamente por isso se agarra ao credo de Stanton. Para o repo man, viver é entrar continuamente em situações intensas, quase como uma forma de rebelião contra a apatia anestesiante da sociedade.

Cox aplica o ethos punk, seu humor corrosivo, sua recusa das formas tradicionais de autoridade, sua estética do improviso, à obsessão americana pela mobilidade veicular. O filme emerge, assim, como um híbrido singular de anarquia cômica, crítica social contundente e um tipo de existencialismo psicodélico sobre rodas. O paradoxo é que, num filme sobre carros e deslocamentos pela cidade, as jornadas são curtas e os percursos raramente levam a algum lugar efetivo.

Nessa paisagem de frustração e fuga, é irônico que o personagem do mecânico falastrão (Tracey Walter) surja como a figura mais razoavelmente equilibrada do filme, ao menos tanto quanto Cox permite. É ele quem articula um tipo de “consciência cósmica” de segunda mão, uma filosofia improvisada que soa ao mesmo tempo ridícula e estranhamente lúcida. Sua presença funciona como um comentário sobre a própria busca por sentido desses personagens. De certa forma, ele encarna uma sabedoria marginal, precária, mas ainda assim mais honesta do que os discursos oficiais que apenas maquiam a frustração generalizada.

Mas REPO MAN não faz muitos julgamentos com esse material humano. O filme os observa como um animal desorientado tentando extrair algum sabor da experiência, mesmo que pela via da confusão e do risco. A ilusão de significado, aqui, condensa-se na busca por experiências intensas, como se a intensidade, por si só, bastasse para legitimar a existência. Quando tudo parece esvaziado de valor, o choque, seja ele físico, emocional ou metafísico, vira substituto de transcendência. Não admira que os verdadeiros derrotados sejam justamente os hippies, os pais do personagem de Estevez, reduzidos a um ciclo de chapação passiva e doação automática de dinheiro a televangelistas. Sua antiga utopia se corrompeu em torpor espiritual e consumo de esperança enlatada.

Para Cox, os punks não chegam à anarquia por um simples impulso de destruição, mas por um desejo quase desesperado de sentir-se vivos. O filme mostra que a solução é a anestesia, a insensibilidade crescente, a vida reduzida a um piloto automático social. Nesse contexto, a “consciência cósmica” do mecânico é uma piada, mas também um sintoma, mesmo as formas mais precárias de espiritualidade ou filosofia parecem preferíveis ao vazio completo. Essa tensão culmina em um final psicodélico, o carro fluorescente sobrevoando a cidade, uma espécie de ascensão nonsense, quase mística, que ao mesmo tempo zomba e flerta com a ideia de transcendência. A exaustão emocional e existencial desses sujeitos é evidente, e o fim dessa energia parece próximo, já que não há um “significado” convencional ao qual possam se agarrar em busca de consolo.

Assim, embora Cox ecoe a condenação ativa que o movimento punk dirige à sociedade moderna (ao consumo, à hipocrisia, à moral pasteurizada), ele tampouco encontra refúgio na anarquia vazia que o próprio punk, às vezes, celebra. Os repo men são retratados como pseudo-filósofos insones, estimulados quimicamente, sempre à beira do colapso, tentando racionalizar um mundo que não oferece respostas. O interesse de Cox está menos em propor uma saída e mais em explorar o paradoxo entre o desespero e o desejo de fuga. E é nesse limiar, onde a fuga ainda não é puro escapismo e o desespero ainda não se converteu em resignação, que surge uma espécie de última faísca de esperança para esses indivíduos em ruína.

Cox retornaria a esse mesmo território emocional e filosófico em SID AND NANCY, agora deslocando a discussão para um contexto histórico mais concreto. Se em REPO MAN o punk é um horizonte de sensação e desorientação metafísica, em SID AND NANCY ele aparece como tragédia anunciada de uma geração que buscou na destruição uma forma de autenticidade.

LE PRIX DU DANGER (1983)

Apesar de todas as semelhanças que LE PRIX DU DANGER possui com THE RUNNING MAN (1987), filme que comentei no post anterior, Yves Boisset e seu produtor, Norbert Saada, se apropriaram de um conto do autor de ficção científica Robert Sheckley, ou seja, um material que não possui relação com as origens do filme de Arnold Schwarzenegger. Boisset chegou a processar a Twentieth Century Fox por plágio por conta do filme hollywodiano, mas não deu em nada porque como sabemos não foi uma refilmagem disfarçada nem um plágio, foi inspirado em um conto de Stephen King (sob o pseudônimo Richard Bachman). Portanto, ambos os filmes tinham seus próprios romances de origem, mas com histórias próximas entre si. Os autores que se entendam…

Mas as similaridades param na descrição da sinopse, no ponto de partida. LE PRIX DU DANGER se passa num futuro indefinido, onde um programa de televisão faz enorme sucesso, Le Prix du Danger, apresentado pelo carismático apresentador Frédéric Mallaire (Michel Piccoli), que coloca em cena um candidato perseguido por caçadores, que devem abatê-lo antes que ele cruze a linha de chegada. François Jacquemard (Gérard Lanvin), um desempregado, aceita o desafio. Mas, ao perceber que o jogo é manipulado, ele decide jogar segundo suas próprias regras.

A maneira como Boisset conduz as coisas e as opções estéticas já distanciam absurdamente LE PRIX DU DANGER de THE RUNNING MAN. Por exemplo a crítica à sociedade do espetáculo é muito mais contundente e sem sutilezas por aqui. Boisset declararia mais tarde, em entrevista, que “Não há regra nem lei que permita limitar a estupidez na televisão.” Pode-se imaginar que ele já tivesse isso em mente ao filmar LE PRIX DU DANGER, tamanha a intensidade com que empurra todos os limites. O programa de TV no centro do filme é extremamente radical, transformando seu candidato em um alvo humano para caçadores e em objeto de obsessão mórbida para o público. Vemos nas ruas o frenesi selvagem das multidões, e no estúdio, a excitação de Mallaire, que apresenta com cinismo essa cerimônia macabra.

No papel, Piccoli contribui muito para tornar tudo mais assustador, com seus gestos, empolgação e falas. Sempre vestido com ternos brancos impecáveis, que contrastam com a “televisão lixo” que ele conduz, o personagem é um dos pontos fortes do filme. Aparentemente teria irritado vários apresentadores franceses do período, que provavelmente se sentiram pessoalmente atingidos ou perceberam a crítica profunda e visionária do filme.

Mallaire não é o único alvo da crítica de Boisset. Atrás dele está o frio Antoine Chirex, diretor da emissora, interpretado por Bruno Cremer. Suas falas são arrepiantes, descrevendo o programa, que segundo ele reduz a criminalidade, como uma “iniciativa de saúde pública”. Um homem para quem a morte é irrelevante, e que, ao saber que um dos caçadores morreu eletrocutado, simplesmente diz: “Vamos acionar o seguro.

Boisset não poupa ninguém. Nem os rostos públicos da televisão, nem os homens por trás das câmeras e muito menos o público, que se aglomera nas ruas durante a caçada para se deleitar com o massacre iminente. Sem uma plateia sedenta por sangue, não haveria programa sórdido. Boisset é lúcido em sua análise sobre a cadeia de responsabilidades e sobre por que a televisão nunca se limitará em sua própria estupidez. Nem mesmo os candidatos, que marcham para a morte são poupados, são vítimas voluntárias de um sistema que eles mesmos sustentam.

Exceto por Jacquemard, o herói aos olhos da câmera de Boisset, pois, como em outros filmes do diretor, é aquele que se recusa a aceitar a mentira. Já relutante desde o início a participar do programa, ele se transforma por completo ao descobrir que o jogo é manipulado. Seu sonho de riqueza dá lugar a um desejo de revelar a verdade e sabotar a engrenagem bem azeitada do espetáculo. Lanvin era um ator desconhecido, em ascensão, e encontrou nesse papel o ponto alto de sua carreira, que, ao longo do tempo, não corresponderia às promessas dos anos 80. Sua energia e postura tornam o personagem crível. Sua pureza em meio à corrupção e sua ação física possibilitam sequências de ação mais intensas. O jovem Lanvin está à altura dos brilhantes veteranos Cremer e Piccoli, o que fortalece o equilíbrio da crítica feita por LE PRIX DU DANGER.

Mas a maior força do filme está, sem dúvida, em seu caráter visionário. O que era uma ficção especulativa em 1983 se tornou, anos depois, quase uma previsão sobre a televisão. Os abusos da produção televisiva, com a ascensão da reality TV, deram razão a Boisset. Obviamente não temos caçadas humanas ao vivo, mas os limites da estupidez televisiva foram, de fato, empurrados muito além, tornando o discurso de LE PRIX DU DANGER ainda mais relevante hoje.

O filme não envelheceu, suas escolhas artísticas o favorecem. Boisset evitou tentar inventar “objetos do futuro”, diferente de tantos filmes de ficção, para não deixar o filme datado e mais excêntrico. O que não teria problema também, pessoalmente eu adoro filmes datados, mas vai de acordo com o tom do que Boisset faz aqui.

Boisset tem uma carreira marcada mais pelo polar, o cinema policial francês, mas LE PRIX DU DANGER é um exemplo típico de seu cinema, mesmo se aventurando num gênero raro para ele, e para o cinema francês, ao entregar uma visão assustadora e pessimista da humanidade. O filme, que evidentemente recebeu pouca promoção na TV, é sua última grande realização. E não deixa de ser uma obra indispensável.

O SOBREVIVENTE (1987)

Quando o produtor (e futuro diretor de VELOZES E FURIOSOS) Rob Cohen leu a história de um sujeito chamado Richard Bachman, intitulada The Running Man, ele adorou e rapidamente comprou os direitos para o cinema. O que Cohen não sabia na época era que “Richard Bachman” era na verdade um pseudônimo usado por Stephen King. Mesmo depois que o segredo foi revelado, King pediu que o nome Bachman fosse mantido nos créditos do filme. Não sei qual nome vai aparecer nos créditos da nova versão que o Edgar Wright dirigiu, mas aproveitando que vamos ter um novo THE RUNNING MAN em breve, resolvi rever esse clássico da minha infância, que não assisita há mais de vinte anos. Mas lembro até hoje do VHS que meu pai tinha gravado da Globo e que eu assistia exaustivamente no fim dos anos 80.

Essa nostalgia pega forte, apesar de, revendo hoje, reconhecer os problemas que o filme possui, mas que são facilmente superados pelas qualidades, o grau de divertimento que proporciona e pelo tom sem vergonha de ser o que é: um filme que troca o tom sombrio e desesperado do material original pra ser um produto de ação cafona, colorido e autoconsciente típico do cinema americano dos anos 80. 

Não deixa de abordar, no entanto, alguns assuntos que inevitavelmente ecoa na trama, que se passa num futuro distópico, onde o governo controla a população com propaganda e programas de TV violentos. Um policial desse governo, Ben Richards (Arnold Schwarzenegger) é injustamente acusado de um massacre. Para recuperar sua liberdade, ele é forçado a participar de um reality show mortal chamado The Running Man, no qual criminosos devem sobreviver sendo caçados por assassinos brutais conhecidos como Stalkers. À medida que o jogo avança, ele se torna não apenas um símbolo de resistência, mas também uma ameaça real ao sistema opressor.

O filme chegou aos cinemas em 1987, apenas alguns meses depois de ROBOCOP, do Verhoeven. Ambas as histórias tratam de absurdos violentos, mas estranhamente plausíveis, em futuros distópicos. Os criadores de ROBOCOP usaram a oportunidade para fazer uma crítica social contundente e bem sucedida. Já os responsáveis por THE RUNNING MAN não tentaram a mesma abordagem, pelo menos não além de alguns toques bem genéricos, e focaram apenas em fazer um filme de ação oitentista. Considerando todo o exagero envolvido, foi sem dúvida a escolha certa. Afinal, é difícil levar a sério qualquer comentário social quando temos em cena, por exemplo, um cantor de ópera gordinho, usando uma roupa feita de luzinhas de Natal, que dirige um buggy saído de MAD MAX 2 e dispara raios pelas mãos.

Mas já volto a falar dele.

O fato é que qualquer profundidade além de todo espetáculo exagerado de ação oitentista é um bônus. E com os talentos envolvidos aqui, esse tipo de playground com liberdade para exagerar o quanto quiserem, fazem com que coisas especiais aconteçam.

Os trinta minutos iniciais que formam o primeiro ato do filme trazem drama suficiente para sustentar a história e algumas subtramas simples, e passam tão rápido e de forma tão leve que nem dá pra percerber o tempo passar. Tem tiroteios, uma cabeça explode, tem aquelas tecnologias futuristas meio ridículas, tudo isso distrai o suficiente até chegar no que interessa. É como o aquecimento antes do jogo, tecnicamente necessário, mas fácil de ignorar quando os destaques ainda não começaram. É o equilíbrio perfeito entre superficialidade e substância.

Isso também deixa claro o que esperar do nosso herói, absolutamente nada complicado. THE RUNNING MAN é, facilmente, um dos papéis menos exigentes de Schwarzenegger. Basicamente, ele só precisa correr, atirar, grunhir e soltar uma enxurrada de frases de efeito ridiculamente boas, sem precisar mostrar quase nenhuma emoção. Contei talvez uns três momentos no filme inteiro em que ele tenta mostrar alguma sinceridade emocional, e só comprei um deles. E tudo bem, porque Schwarzenegger à vontade, focado no físico, é Schwarzenegger divertido.

E falando em diversão…

A graça da maioria dos filmes de ação dos anos 80 está nos heróis, mas no caso de THE RUNNING MAN, apesar do herói de Schwarza ser icônico e ter as melhores tiradas, são os vilões que roubam a cena. Começando pelo rei do exagero, o apresentador de vários game show da vida real na televisão americana, Richard Dawson, que como o apresentador Damon Killian, interpreta uma versão ainda mais extravagante e mais maligna de si mesmo. Ele domina o público como se tivesse feito isso a vida toda (até porque realmente fez) e quando chega a hora de ser cruel, ele o faz com uma segurança e sutileza deliciosas. Killian é um vilão que dá gosto de odiar, e quando chega a hora de ele pagar pelas crueldade é muito satisfatório.

Dawson, claro, não poderia enfrentar Schwarzenegger numa luta justa, e é por isso que temos o grupo de Stalkers. Todos são caricaturas exageradas, saídas direto de uma HQ maluca, e são um show à parte em THE RUNNING MAN. Temo Buzzsaw (Bernard Gus Rethwisch), um brutamontes numa moto com uma motosserra industrial que faria o Leatherface pensar duas vezes antes de encará-lo. Ou talvez você prefira o Sub Zero (Professor Toru Tanaka), cujo taco de hóquei também serve como foice afiada. A leda Jim Brown se apresenta como Fireball, que usa lança-chamas e voa com um jetpack. E temos Dynamo (Erland Van Lidth), o já mencionado cantor de ópera gordinho usando luzinhas de Natal, que dirige um buggy futurista e solta raios pelas mãos.

Coloque qualquer um desses malucos contra o Schwarzenegger usando um macacão amarelo e pronto, temos um clássico dos anos 80 que eu posso rever a qualquer hora e vou me divertir como se tivesse oito anos. E não posso deixar de mencionar o Capitão Freedom de Jesse Ventura, que acaba participando da ação no modo “fake news”, e é o stalker mais celebrado pela base de fãs do show. E ainda apresenta um programa diário de ginástica aeróbica! Ah, os anos 80.

A trilha sonora de Harold Faltermeyer é bem boa e contribui bastante pra nostalgia. A melodia começa a tocar e as memórias de infância começam a surgir. Mas vários roqueiros aqui têm falas e interpretam membros da resistência. Dá pra escolher entre Mick Fleetwood (do Fleetwood Mac) ou Dweezil Zappa (filho de Frank). E, há ainda as coreografias das dançarinas de palco durante o programa The Running Man, criadas pela Paula Abdul. Com uma produção dessas, quem precisa de crítica social mais afiada, não é?  E o mais legal é que todo o clima e a essência de THE RUNNING MAN remete mais a um rip-off italiano de baixo orçamento (como I GUERRIERI DELL’ANNO 2072, do Lucio Fulci, ou ENDGAME, de Joe D’Amato) do que uma superprodução de Hollywood. E só posso dizer que isso é um baita elogio.

No fim das contas, THE RUNNING MAN pode não ser um grande filme, nem mesmo um exemplo refinado de sci-fi distópico, mas tem charme, um ritmo divertido e carrega, mesmo que diluído, ecos de um comentário social sobre a manipulação midiática e a desumanização em nome do espetáculo. E isso basta. Adicione uma ótima participação de Maria Conchita Alonso e Yaphet Kotto e você tem bons momentos de pura diversão esperando para serem aproveitados.

Notas sobre filmes recentes

A partir de anotações do meu Letterboxd.

MICKEY 17 (2025, Bong Joon Ho)

A premissa de MICKEY 17 me chamou a atenção de imediato, desde que saíram as primeiras notícias, trailer, etc… Um operário descartável, o tal Mickey 17, em uma missão de colonização espacial, condenado a morrer repetidas vezes e ser substituído por clones que preservam todas as suas memórias. É um ponto de partida cheio de possibilidades filosóficas e existenciais. Bong Joon Ho, como de costume, usa esse enredo para dar continuidade a algumas reflexões que já vêm atravessando sua filmografia, como desigualdade, exploração, relações de poder, de maneira bastante evidente. O que pesa mais pra mim é a execução, que nem sempre encontra o mesmo nível de frescor ou impacto de seus melhores trabalhos.

Pra falar a verdade, achei bem chatinho, sobretudo quando perde algumas boas oportunidades. Por exemplo, quando surge em cena o Mickey 18 e a narrativa flerta com a ideia de tensão e dualidade entre essas duas versões do mesmo ser. Só que esse conflito, que poderia ser o coração do longa, é tratado de maneira superficial, sem mergulhar de fato no que significa coexistir com a própria cópia, com a própria consciência duplicada. O filme não se interessa muito em desenvolver isso, o que é uma pena. Ainda assim, o resultado não deixa de ter seus momentos. O projeto é visualmente instigante, tem passagens divertidas e uma atmosfera curiosa, mas é Robert Pattinson quem realmente sustenta a experiência. Seu trabalho no papel duplo é o que injeta vida e carisma na trama, evitando que ela se perca de vez na própria repetição. Mas o filme fica nesse meio-termo, uma boa premissa, uma execução irregular, mas uma atuação central que vale a visita.

IN THE LOST LANDS (2025, Paul W.S. Anderson)

O filme carrega um pouco de uma vibe “Albert Pyun com orçamento”, o que por si só já desperta certa curiosidade. Ao mesmo tempo, há uma sensação de um certo desespero em colocar muitos elementos na mesma panela: temos pós-apocalipse, monstros, western, bruxaria, crítica religiosa… tudo misturado em uma salada de referências que, no fim, não consegue ser realmente satisfatória em nenhuma dessas frentes. O visual estilizado e hiper artificial até funciona em alguns momentos. Dá pra perceber o cuidado de Paul W.S. Anderson em manter-se fiel à sua própria lógica estética, aquele exagero que sempre marcou sua carreira. Algumas sequências de ação, inclusive, são criativas e mostram flashes do diretor que sabe brincar bem com ritmo, espaços e cenários, como fez nos seus melhores filmes, como RESIDENT EVIL 5: RETRIBUIÇÃO. O problema é que, desta vez, ele resolve insistir em focar no contar uma história. E é justamente aí que desmorona.

Anderson sempre é mais eficiente quando deixa o enredo em segundo plano, preferindo mergulhar em adaptações livres de videogames (no caso de IN THE LOST LANDS é baseado num livro de George R. R. Martin) e explorar seu senso de espacialidade aliado à ação pura. Era nesse território que conseguia se destacar, ainda que de maneira irregular. Aqui, no entanto, a narrativa ocupa o centro das atenções… E a história que ele quer contar simplesmente não tem força para sustentar o espetáculo. O resultado é um filme que tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo, mas que acaba não sendo memorável em nenhuma delas.

HAVOC (2025, Gareth Evans)

A abertura de HAVOC já deixa uma impressão muito errada: uma perseguição entre carros e caminhão feita praticamente toda em CGI, que até funcionaria bem como missão num GTA, mas que para um filme dessa estirpe soa artificial e esvazia o impacto logo de cara. Confesso que demorei a voltar pro filme de verdade depois disso, principalmente porque o roteiro despeja uma quantidade absurda de personagens, dificultando criar qualquer vínculo. No começo, a experiência acaba sendo mais cansativa do que envolvente. Ainda assim, havia algum interesse em acompanhar Tom Hardy mergulhando nesse inferno urbano de corrupção, violência e máfia. O ator segura a marra e traz intensidade mesmo quando o filme parece se perder no meio de tanta subtrama.

Só que é lá pela metade, com a sequência da pancadaria na boate, que HAVOC finalmente lembra quem é seu diretor. É nesse momento que Gareth Evans, o mesmo de THE RAID e MERANTAU, entrega a brutalidade que o consagrou: lutas insanas, coreografadas com precisão e um senso de impacto físico raro no cinema de ação atual. Do meio em diante, dá pra assistir com bem mais boa vontade. O problema é que o roteiro insiste em floreios desnecessários, cheio de personagens descartáveis e complicações que só enfraquecem uma trama que poderia ser muito mais direta. O que realmente funciona está na fisicalidade pura, na câmera que não desvia do choque dos corpos e na violência estilizada, e era nesse terreno que Evans deveria ter cravado o pé.

Mas, claro, estamos falando de uma produção pré-formatada da Netflix, onde até diretores de peso precisam se ajustar às amarras de um produto pensado para consumo rápido. Sem contar que o filme teve vários problemas de produção, que por si só precisaria de um post pra relatar, mas podem ir atrás se quiserem saber mais, que a coisa aqui foi complicada. Acaba que HAVOC não chega a ser um desastre, mas também não está à altura do que Evans já mostrou ser capaz de fazer.

A WORKING MAN (2025, David Ayer)

Jason Statham faz em A WORKING MAN aquilo que já virou sua marca registrada: distribuir sopapos com a eficiência de quem nasceu para esse tipo de papel. E, ao lado de David Ayer, ele encontrou um parceiro que entende exatamente essa necessidade. Assim como em THE BEEKEEPER, do ano passado, o resultado é um filme de ação genérico, previsível e conduzido no piloto automático, mas que entrega o básico com competência. A diferença é que, enquanto THE BEEKEEPER me pareceu mais redondo, neste aqui algumas escolhas soam mais pobres. Certas situações e diálogos beiram o constrangedor, e não surpreende descobrir que o roteiro foi escrito em parceria com Sylvester Stallone, que há tempos já não tem o mesmo faro narrativo de outrora. A trama é daquelas que você sente que já viu mil vezes, sem surpresas ou grandes viradas, o que não é necessariamente um problema se o resultado final fosse mais divertido. E infelizmente não é.

SINNERS (2025, Ryan Coogler)

Este aqui foi a grande decepção do ano pra mim, até o momento. E sim, eu sei que eu sou minoria, mas todo mundo elogiou e o hype foi lá em cima. Mas definitivamente não consegui entrar na onda. Até começa bem, dando a entender que viria algo interessante, mas logo se perde nas piores escolhas narrativas, levando a história pra um caminho que não me diz nada, introduzindo personagens demais, situações soltas que vão se acumulando e não levam a lugar nenhum, e demora uma eternidade pra finalmente algo acontecer. E quando acontece, tirando uma cena ou outra, achei bem meia boca. E nesse ponto, percebi que já não tava me importando com nada nem ninguém da história. E em vez de torcer pelos personagens, a sensação era de querer que tudo acabasse logo.

Com tanta enrolação e tão pouco desenvolvimento, o suspense se perde, a tensão é quase nula, a ação é limitada e o impacto desaparece completamente. O pano de fundo tem uma reflexão nobre sobre questões raciais, que acho relevante, mas não posso passar pano pra algo que não gosto apenas pelas suas boas intenções temáticas. Uma condecendência que os cinéfilos atuais parecem não conseguir evitar… O lance com a música é bacana, e aquele plano sequência em que o passado, presente e o futuro se fundem, é a melhor coisa de SINNERS. Mas é muito pouco.

SUPERMAN (2025, James Gunn)

Vamos lá, mais um filme que não gostei. Só não digo que foi uma decepção porque eu realmente não pensei que fosse ser bom mesmo. Acho que James Gunn tentou, mas não deu muito certo. O novo SUPERMAN parece mais um rascunho de um bom filme do que uma obra finalizada. A sensação é de que havia ali uma ideia promissora, mas ninguém se preocupou em revisar, lapidar, pensar melhor nas escolhas narrativas e o resultado é aquela impressão de que foi tudo jogado na tela, “ah, vai assim mesmo”. Muita gente tem saído satisfeita só por ver o herói de volta aos cinemas em uma versão que se esforça em ser mais leve. Fico feliz por quem gostou. Mas, no fundo, esse “gostável” também denuncia uma questão que me incomoda muito no cinema atual. Virou o padrão de Hollywood filmes que entregam o básico para agradar, sem arriscar de verdade ou construir algo memorável. Pelo menos essa é a minha impressão…

Mas, no meio disso tudo, quem realmente conquista é Krypto, o supercão. Ele aparece quase como um respiro, roubando a cena sempre que entra em quadro. Não à toa, saí com a sensação de que preferiria ver um longa só dele, provavelmente seria mais divertido.

THE FANTASTIC FOUR: FIRST STEPS (2025, Matt Shakman)

Mais um filme de herói. Esse melhorzinho… Mas é aquilo, o filme acaba, os créditos sobem e logo bate aquela constatação incômoda de algo totalmente descartável. Você assiste, consome, joga fora, e no dia seguinte já mal lembra de nada. Não deixa marca, não gera conversa, não gruda na memória. Sendo justo, enquanto está acontecendo na tela até dá pra se deixar levar. O visual retrô-futurista tem um charme especial e realmente encanta, trazendo uma identidade que ajuda a diferenciar um pouco do mar de produções genéricas da Marvel. Algumas sequências de aventura são bem construídas e, mesmo dentro da previsibilidade, conseguem divertir. Os personagens, pelo menos, têm um certo carisma, dá pra se preocupar com eles em alguns momentos, o que já é mais do que muita produção recente conseguiu entregar.

Só acho que não é nada de extraordinário, não é o evento que vai resgatar a Marvel do buraco criativo em que se enfiou. É, no máximo, um entretenimento simpático de Sessão da Tarde, que cumpre sua função na hora, mas que dificilmente vai ser lembrado como a grande salvação do estúdio.

SMILE 2 (2024, Parker Finn)

Falando agora de horror. SMILE 2 consegue elevar a proposta do primeiro filme a um novo patamar. Se antes o conceito da maldição já funcionava bem como premissa de horror psicológico, aqui Parker Finn expande a ideia de forma mais ousada, explorando não só o medo em si, mas também o que ele representa dentro de um contexto maior. Daí que um dos pontos mais interessantes é a decisão de levar a maldição para o universo de uma cantora pop, alguém constantemente sob os holofotes, mas carregando traumas e inseguranças pessoais. Essa escolha transforma a narrativa em algo que dialoga com o culto da celebridade e o peso sufocante de ser uma estrela em um mundo que exige perfeição e… Sorrisos. O horror, portanto, não está apenas nos sustos ou na entidade maligna, mas também na pressão de viver em função da imagem, da performance e da expectativa alheia.

Vale destacar ótima atuação de Naomi Scott, que consegue equilibrar vulnerabilidade e força de maneira convincente, conduzindo o espectador por essa espiral de terror íntimo e coletivo. O maior mérito, no entanto, tá na direção de Finn. Enquanto no primeiro SMILE ele ainda parecia preso a certos clichês do gênero, aqui mostra evolução, apostando em escolhas visuais mais ousadas pra construir momentos de tensão. Há estilo, personalidade, e isso faz toda diferença.

FINAL DESTINATION BLOODLINES (2025, Zach Lipovsky e Adam B. Stein)

Consegue ser uma variação divertida dentro do conceito que a franquia já estabeleceu há mais de duas décadas. A trama é direta ao ponto, sem enrolação, a duração curta ajuda bastante e, claro, as mortes continuam sendo o grande chamariz, inventivas, engraçadas e com aquele toque macabro que sempre garantiu a identidade da série. De quebra, ainda temos uma bela homenagem, talvez até uma despedida digna, a Tony Todd, um verdadeiro ícone do horror que marca presença em seus últimos momentos de tela. Só isso já acrescenta bastante peso emocional ao filme.

É claro que não está livre de problemas. O elenco, de maneira geral, não chega a impressionar, e a protagonista em especial é bem fraca. O personagem do tatuador, pelo menos, rende boas risadas. O filme não tenta reinventar nada, e nem precisa. Ele joga seguro, entrega exatamente o que os fãs da franquia esperam e aproveita o carinho que o público do gênero ainda tem por essa fórmula de horror e tragédia cômica. Pode não ser memorável, mas cumpre sua função: divertir e lembrar por que PREMONIÇÃO continua sendo uma das sagas mais queridas do horror pop.

MISSION IMPOSSIBLE – THE FINAL RECKONING (2025, Christopher McQuarrie)

Algumas coisas boas inevitavelmente chegam ao fim, e às vezes com uma certa melancolia. Eu lembro bem do Ronald de 12 anos, lá em 96 ou 97, completamente hipnotizado pelo primeiro MISSÃO: IMPOSSÍVEL. O filme juntava duas paixões que já me fascinavam: ação e Brian De Palma (sim, eu já sabia quem era o homem naquela idade). De lá pra cá, acompanhei cada novo capítulo com a mesma empolgação e continuo achando que essa é uma das melhores franquias de ação das últimas décadas. Agora, em 2025, chega provavelmente o último, e é estranho pensar em se despedir de algo que sempre esteve por perto.

E aqui surgem dois motivos pra melancolia. O primeiro é perceber que THE FINAL RECKONING representa também o fim de um certo tipo de blockbuster que Hollywood já não sabe mais fazer, salvo raras exceções. O segundo é notar que essa própria despedida não chega a ser grandiosa: embora termine com estilo e dignidade, o filme está distante dos melhores momentos da franquia. É um mastodonte de quase três horas, cheio de excessos, quando poderia ser algo mais enxuto e sublime.

Mas que fique claro, THE FINAL RECKONING está longe de ser ruim. Pelo contrário, se comparado ao que o cinema de ação americano tem produzido recentemente, é quase uma joia. No meio de tanta verborragia, de uma trama que se complica sem necessidade e de alguns tropeços de ritmo, o que realmente importa continua lá: as cenas de ação insanas e Tom Cruise. O sujeito é a alma da franquia. Impressiona não apenas por assumir acrobacias absurdas, mas por ter moldado a identidade de MISSÃO: IMPOSSÍVEL. Ele deu a Ethan Hunt uma mistura rara de intensidade física e vulnerabilidade emocional: não é só o herói invencível, é alguém que sofre, hesita, mas mergulha de cabeça (às vezes literalmente) nas situações mais impossíveis. E claro, tem a dedicação física que virou sua marca registrada. Cada novo filme passou a ser esperado não apenas pela trama, mas pela pergunta: “qual será a loucura que o Tom Cruise vai fazer agora?” Escalar o Burj Khalifa, segurar-se num avião decolando, pular de moto de um penhasco… tudo isso virou parte do mito.

Foi assim que ele transformou Missão: Impossível em um cinema de ação de altíssimo nível, capaz de abrigar diretores muito diferentes (De Palma, Woo, Abrams, Bird, McQuarrie) sem perder consistência. Sua obstinação, carisma e entrega física fizeram da série algo único no gênero. E em THE FINAL RECKONING isso continua presente. A sequência do mergulho no submarino, por exemplo, é absurda, uma das melhores de toda a franquia e uma das coisas mais tensas que vi recentemente. Por um momento, parecia um filme do Tony Scott. Sim, como último capítulo de uma série que eu acompanhei de perto, eu esperava algo mais cuidadoso. O clímax, por exemplo, é um espetáculo, mas quase repete o final de FALLOUT. Ainda assim, é um belo filme. Não dá pra exigir muito mais de Hollywood em 2025. O que entregaram já foi suficiente para fechar a franquia com dignidade. E, no meio disso tudo, Tom Cruise prova mais uma vez que é ele quem faz as coisas acontecerem e ainda nos presenteia com algumas das melhores sequências de ação recente. Isso, convenhamos, já é bastante coisa.

EDDINGTON (2025, Ari Aster)

Depois daquela coisa horrorosa chamada BEAU IS AFRAID, Ari Aster parece se reencontrar de alguma forma em EDDINGTON. Não é um filme perfeito, mas pelo menos é divertido de assistir. Há um prazer imediato em acompanhar o que acontece na tela, desde a construção do clima, algumas situações, até o banho de sangue que fecha a trama. Nesse sentido, a experiência de cinema é satisfatória, Aster mostra que ainda sabe orquestrar imagens e provocar reações no público. O problema é quando o filme tenta se levar mais a sério. EDDINGTON toca em temas importantes, ligados a um período histórico recente, mas nunca encontra a nuance necessária para realmente confrontá-los. A impressão é de que havia a intenção de criar um comentário mais profundo, mas isso não se traduz em algo consistente. O resultado é uma obra que, embora envolvente em sua superfície, não sustenta a própria ambição e auto-importância.

Quem ajuda bastante a manter o interesse é Joaquin Phoenix, mais uma vez impecável. Sua atuação é curiosa e dá densidade até às passagens mais arrastadas. Só que nem mesmo ele consegue salvar a sensação de que, no fim, estamos diante de um “grande nada” embalado em duas horas e meia. Os últimos 10 ou 15 minutos, em particular, estão entre as coisas mais desnecessárias do cinema recente, prova de que Aster realmente não sabe a hora de encerrar um filme. Talvez esse seja o maior problema de parte da geração atual de diretores autores, a falta de autocrítica. Existe uma ânsia desmedida de transformar cada ideia em tratados definitivos sobre tudo, como se a ambição artística fosse suficiente para sustentar a obra. EDDINGTON tinha potencial para ser uma obra-prima relevante, capaz de refletir seu tempo de forma contundente. Mas, ao não abraçar de verdade o que é, um western moderno, thriller político/policial com a pandemia e protestos pós-George Floyd como pano de fundo que descamba pra violência, pra um horror intenso, acaba preso na própria grandiloquência. Ainda assim, acho o saldo positivo. É um bom filme, só não entrega a grandeza que insiste em prometer.

F1 (2025, Joseph Kosinski)

As sequências de corrida de F1 são um espetáculo sensorial, com imersão rara, quase hipnótica. Só o design de som já é suficiente pra colocar a gente em transe. Houve momentos em que me arrependi de não ter visto no cinema, porque claramente esse é o tipo de experiência que ganha muito na tela grande. Mas esse arrependimento passa rápido quando penso no resto do filme que envolve essas cenas. Na primeira hora, até dá a impressão de que a coisa vai driblar alguns clichês. O personagem de Brad Pitt funciona bem como fio condutor e segura o interesse. Só que, com suas duas horas e meia, o roteiro não demora a cair na previsibilidade e na mesmice de sempre. A narrativa perde fôlego, convida ao sono… E aí só mesmo as corridas conseguem despertar de novo a atenção.

Ainda assim, é preciso elogiar Joseph Kosinski. Se no drama ele não escapa do lugar-comum, no quesito ação vem mostrando evolução. Ele sabe mexer com a adrenalina do público, e é nisso que F1 encontra sua força. Um filme decente, que entrega bons momentos. Mas nunca, jamais, será um DIAS DE TROVÃO.

BALLERINA (2025, Len Wiseman)

Esse me surpreendeu. Confesso que estava com o pé atrás e enrolei bastante pra assistir. Com tantos atrasos no lançamento e a notícia de refilmagens comandadas por Chad Stahelski (diretor dos JOHN WICK), achei que seria só mais uma decepção. Mas, no fim, não foi. A trama pode soar genérica, e definitivamente não carrega o peso filosófico dos filmes da série principal. Ainda assim, há pontos interessantes. Ana de Armas tem uma presença física marcante, mesmo que o roteiro não lhe ofereça grandes oportunidades de aprofundar a personagem. Como a narrativa é mais direta, praticamente costurando um set piece de ação ao outro dentro de uma história simples de vingança, ela acaba funcionando como uma versão feminina do Wick: não tão complexa, mas igualmente sombria, atormentada e com um toque de fragilidade que cai muito bem.

E falando em ação, que é o que realmente importa aqui, algumas sequências estão no mesmo nível da franquia principal, o que já é muita coisa, considerando que JOHN WICK é uma das melhores séries de ação do século. Por aqui a ação é farta e de qualidade. Destaco a cena explosiva na loja de armas, o embate no restaurante do vilarejo (com direito a Ana enfrentando Daniel Bernhardt) e, claro, o insano duelo com o lança-chamas no clímax, que consegue ser tão absurdo quanto visualmente belo. Deus abençoe Stahelski por ter consertado as cagadas deixadas por Len Wiseman. Mas fica a dica, Chad, da próxima vez, entrega o projeto pra um cineasta de verdade e poupa o trabalho de refilmar tudo. Sugestões não faltam: Gareth Evans, Timo Tjahjanto, Kensuke Sonomura, Veronica Ngô…

Quanto ao Keanu Reeves e à participação do próprio John Wick, honestamente, não acho que fosse necessária. Mas já que está lá, acaba elevando alguns momentos a outro patamar.

Pra uma produção que enfrentou tantos problemas nos bastidores, BALLERINA é bem sólido e bem acima do esperado.

THE SHROUDS (2024, David Cronenberg)

“Her body was… The world. The meaning and the purpose of the world”

O que ainda me atrai no cinema de Cronenberg é esse universo tão particular que parece inesgotável. São mais de 50 anos trabalhando os mesmos temas – corpo, tecnologia, paranoia, desejo – e, mesmo assim, a cada novo filme ele encontra formas de se renovar. Aqui, ele transforma o luto em espetáculo tecnológico. Vincent Cassel vive Karsh, um empresário que cria a GraveTech, um sistema que permite às famílias monitorarem a decomposição dos corpos de seus entes queridos dentro dos túmulos. Quando um desses cemitérios é violado, Karsh mergulha em uma investigação paranoica que logo esbarra em conspirações. É o terreno perfeito para Cronenberg levar sua obsessão pelo corpo a outro nível.

Dá pra reclamar que o filme se entrega demais a explicações, diluindo parte do mistério e da ambiguidade, elementos que sempre fizeram parte do charme da sua filmografia. Mas, honestamente, estamos falando de um diretor com mais de 80 anos, em fim de carreira, que não precisa provar mais nada pra ninguém. Então ele já começa a abrir as pernas pro Saïd Ben Saïd pra poder continuar tendo financiamento. Não é o melhor dos mundos, mas é o que tem pra hoje. E ainda assim, não deixa de ser hipnotizante de alguma forma, o modo que Cronenberg conduz as coisas sempre me fascina.

THE FANTASTIC FOUR (1994)

Os detalhes dessa história variam de fonte para fonte, mas a essência é a mesma: na metade dos anos 1980, o produtor alemão Bernd Eichinger, da Constantin Film, comprou da Marvel Comics uma opção de dez anos sobre os direitos do Quarteto Fantástico, por um valor de 250 mil dólares. Por volta de 1993, porém, esses direitos estavam prestes a expirar e, caso nenhum filme fosse concluído até uma data limite, eles simplesmente voltariam para a Marvel, sem custo algum. Então surge a pergunta: pra onde você corre quando precisa fazer um filme de super-herói em poucas semanas, com um orçamento de apenas um milhão de dólares e nada mais?

Ora, você vai até Roger Corman, é claro!

Depois que Corman fez sua mágica de sempre, com o filme produzido, dirigido por um de seus pupilos, Oley Sassone, os direitos foram oficialmente renovados. A Marvel, no entanto, não ficou nada satisfeita com o resultado do filme e, para evitar que aquilo prejudicasse a marca, comprou discretamente as poucas cópias e o negativo, impedindo assim qualquer possibilidade de lançamento nos cinemas ou em vídeo (embora alguém da indústria tenha conseguido fazer uma cópia ilícita em VHS antes disso).

Nem Roger Corman, nem o diretor Oley Sassone, tampouco o elenco ou a equipe foram consultados ou informados dessa decisão. Existiam planos reais para um pequeno lançamento nos cinemas, inclusive material de marketing e um trailer havia sido produzido com esse objetivo. Há rumores de que a Marvel mandou destruir todas as cópias e o negativo do filme.

Pouco mais de dez anos depois finalmente surgiria um filme do Quarteto Fantástico nas telas, com muito mais de tudo: grande elenco, orçamento maior, efeitos especiais bem feitos, enredo mais ambicioso, e maiores expectativas. E o resultado foi aquela porcaria de 2005 dirigido por Tim Story. Enquanto isso, cópias de baixa qualidade (feitas a partir da tal fita VHS pirata) de THE FANTASTIC FOUR começaram a circular e chegar ao olhar do público. E a dúvida se o ocultado filme de 1994 era realmente tão ruim assim pode finalmente ser respondida.

E a resposta não é tão simples quanto um “sim” ou “não”. Sim, o orçamento é visivelmente apertado. Sim, é um filme exageradamente cafona, mal interpretado e com caracterizações duvidosas. Até os efeitos especiais, talvez surpreendessem alguém nos anos 50, mas na década de 90 já estavam fora de moda há um bom tempo.

No entanto, há algo estranhamente irresistível no conjunto da obra, em todos esses elementos toscos reunidos aqui, que lhe dá uma cara de quadrinho B anacrônico, que lembra aqueles seriados de aventura dos anos 40, que faz a gente se perguntar por que ele nunca chegou a ser lançado e um BATMAN & ROBIN, do Joel Schumacher, foi. O que quero dizer é o seguinte: se você analisa o filme pelo que ele realmente é (uma produção de baixíssimo orçamento assinada por Roger Corman, com tudo o que isso representa, com toda a alma de um filme B vagabundo dos anos 90) e não pelas expectativas de uma adaptação grandiosa de um clássico da Marvel como o Quarteto Fantástico, o resultado até que é bem divertido.

Um dos prováveis motivos pelos quais THE FANTASTIC FOUR não teve muito sucesso e foi retirado de cena é simples: o elenco não tinha apelo comercial. As faces mais “conhecidas” por aqui vinham de produções feitas para a TV, lançamentos direto para vídeo ou do limbo das estrelas decadentes dos anos 80, como Jay Underwood, de O GAROTO QUE PODIA VOAR (1986), que vive Johnny Storm; George Gaynes, famoso pela franquia LOUCADEMIA DE POLÍCIA, aparece por aqui como um professor qualquer.

Nos demais papéis, temos o pouco lembrado Alex Hyde-White como Reed Richards, Michael Bailey Smith como Ben Grimm, Rebecca Staab como Sue Storm e Joseph Culp interpretando Victor Von Doom. Nenhum nome de peso para atrair o grande público e, convenhamos, nada que desperte curiosidade nem entre os fãs de carteirinha dos personagens.

É basicamente um filme de origem. Começamos com dois jovens gênios universitários, Reed Richards e Victor Von Doom, tentando canalizar a energia de uma entidade misteriosa chamada Colossus, que apareceu no espaço acima da Terra. Como esperado, tudo dá errado: Doom aparentemente morre eletrocutado, e Richards vê sua carreira desmoronar. Dez anos depois, Reed está pilotando uma nave espacial numa nova tentativa de capturar a tal energia, agora acompanhado por Susan, Johnny e Ben.

Mas quando um vilão chamado The Jeweller, uma espécie de leprechaun dos esgotos, decide sabotar a missão trocando uma peça vital, a nave explode, os tripulantes são engolidos por um psicodelismo visual, atingidos por imagens de 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, ou de algumas inserções de filmes experimentais do Stan Brakhage, e caem de volta à Terra.

Curiosamente, ninguém se machuca no acidente. Mas logo percebem que adquiriram poderes estranhos e indesejados. Reed estica o corpo, Sue fica invisível… Você já sabe como é. Só entenda que aqui tudo é feito da forma mais barata e tosca possível. Mas digo isso com um certo carinho. No fim, eles aceitam suas novas condições e decidem usá-las para enfrentar a ameaça que ronda Nova York: o sombrio e misterioso Doom. É uma trama simples, básica, e até fiel ao espírito dos quadrinhos, pelo menos no papel.

Se você já viu algum filme do Roger Corman e, se chegou até aqui, espero sinceramente que sim, sabe o que esperar: orçamento mínimo perceptível, estética camp por todos os lados e um certo charme meio vagabundo que torna tudo meio irresistível. Mas dá pra entender por que a Marvel (ou quem quer que estivesse com os direitos na época) não quis lançar isso oficialmente. Agora, destruir todas as cópias para evitar que o público veja? Aí já é demais. Confesso que isso até me faz sentir uma certa empatia pelo filme.

Mas veja bem, não vou passar pano. É o tipo de filme perfeito para uma bad movie night entre amigos, com direito a risadas, comentários sarcásticos e algum inebriante. As atuações são, na maior parte do tempo, desastrosas, em certos momentos parece que estão fazendo de propósito. Reed tem um carisma exagerado, enquanto Johnny compensa isso, porque é insuportavelmente hiperativo. Sue Richards é praticamente uma planta em cena. A grande (e única) surpresa vem do Coisa, que carrega um arco dramático bem definido, com conflitos internos e uma certa humanidade que, ironicamente, falta nos outros personagens. Sua relação com a escultora cega Alicia Masters é mal desenvolvida por aqui, mas tenta abordar o dilema entre a aparência monstruosa e a sensibilidade emocional. Em meio a tanta tosqueira, é curioso perceber que justamente o personagem mais “duro” é quem transmite emoções mais sinceras.

O filme tem seus momentos. A maquiagem do Coisa, por exemplo, lembra (de forma positiva) os trajes com expressões faciais de animatronics das Tartarugas Ninja dos anos 90. Há momentos engraçados, e até empolgantes, se você estiver com a expectativa bem baixa e muito bom humor, as duas cenas de luta em que eles derrotam um grupo armado é um destaque, com direito à pernas e braços de Reed se esticando pra socar ou fazer bandidos tropeçarem, ou o Coisa distribuindo socos à vontade. E quando Jhonny finalmente se tranforma no Tocha Humana, a coisa é tão deplorável e ridícula que é impossível resistir.

Enfim, eu gosto dessas tralhas. Filmes de super-herói feitos com troco de pão não aparecem todo dia, e THE FANTASTIC FOUR de vez em quando aparece como minha dose favorita de diversão fajuta com superpoderes. Agora que já desenterrei esse clássico alternativo, acho que tô pronto para encarar a nova versão que está nos cinemas. Não deve chegar nem perto desse aqui em termos de charme acidental, mas… quem sabe? Sem pressa, não sei quando verei. Mas vou com o coração aberto.

LADO A LADO COM O INIMIGO (2005)

Se tem uma palavra que descreve boa parte dos desempenhos do ícone do cinema de ação Steven Seagal à partir desse período, meados dos anos 2000, é “preguiçosa”. Estático, frases curtas, às vezes dublado, e com muita, mas MUITA MESMO, utilização de dublês de corpo. Até em sequências de diálogos, em contraplanos, dá pra perceber que quando o seu personagem está de costas é um dublê que está ali. Mas não tem jeito, claro que eu adoro ver essas tralhas dessa sua fase Direct to Video. Não tem como um fã de bagaceira não se divertir com Seagal na sua fase gorducha. E esse estilo dele já virou marca registrada. O filme pode ser uma porcaria, ou pode ser uma maravi… Não, nenhum filme dele desse período chega a tanto, mas temos alguns muito bons. De qualquer forma, independente do resultado da obra, quero ver o Seagal fazendo essa performance preguiçosa de sempre mesmo. Foda-se.

Mas para ser honesto com nosso querido Seagal, há uma sequência em especial aqui em LADO A LADO COM O INIMIGO (Submerged), de Anthony Hickox, que vale a pena destacar. Uma das minhas favoritas do filme, boa de forma legítima. E, mais, Seagal participa dela ATIVAMENTE. É justamente a sequência de ação final, que começa numa tensa sequência numa ópera, passa para uma perseguição de carros em alta velocidade pelas ruas de “Montevideo” (a produção foi rodada na Bulgaria), até colidir com um helicóptero que o vilão estava prestes a escapar e que logo depois adentra um recinto onde Seagal troca tiros com vários capangas, com direito a uma luta rápida com um grandalhão, que ele finaliza estourando os miolos do sujeito à queima-roupa.

O diretor Hickox também demonstra aqui seu ótimo olhar pra ação, algo que é sua especialidade, e dá um gostinho de como seria o resultado deste filme se ele fosse BOM, utilizando bem a figura de Seagal, de forma cool e badass… Pena que num geral não foi bem isso que aconteceu.

Hickox já tinha vivido dias melhores até ser escalado pra dirigir LADO A LADO COM O INIMIGO – tirando as continuações de WARLOCK e HELLRAISER que trabalhou, nunca chegou a dirigir muitas produções do mainstream, só que dentro do ciclo independente de ação e horror tem uma filmografia bem respeitável e que vale a pena conhecer. Este aqui era um projeto originalmente concebido como uma espécie de filme de monstro em um submarino, com criaturas subaquáticas à solta, até que Steven Seagal entrou a bordo e resolveu meter o dedão. O filme virou outra coisa, totalmente diferente do planejado, como veremos a seguir. Seagal mudou todo o roteiro e também começou a assumir o controle do filme, gerando problemas com outros atores e até com o próprio Hickox.

Hickox, que também é ator, fazendo aqui uma participação hitchcockiana.

O que é uma pena, porque eu pagaria pra ver essa espécie de THE THING do Seagal. E gostaria de ver também uma parceria do sujeito com um diretor do calibre de Hickox, mas que não gerasse dor de cabeça entre eles, que o resultado pudesse sair minimamente como planejado sem a interferência do astro de rabinho de cavalo (que aliás, aqui ele devia tá sem muita grana, seu cabelo tá mal cuidado pra cacete, com um mullets duro, uma coisa horrorosa). Mas com o ego que esse filho da puta tem, seria pedir demais que tudo acontecesse de forma tranquila e agradável aos envolvidos. O ego era inflado mesmo nesse período de, digamos, “decadência”, quando só fazia produções direct to video, já acima do peso e com muita preguiça de filmar qualquer coisa…

Mas pra não dizer que tudo está perdido, é preciso deixar registrado que eu gosto dessa tralha aqui do jeito que saiu. A história é bizarra, tem muita ação, tem cientista maluco, tem Vinnie Jones e Gary Daniels, tem filtros carregados e edição afetada dos anos 2000 tentando imitar o Tony Scott de DOMINO e CHAMAS DA VINGANÇA. Não tem monstros subaquáticos… Mas tudo bem. A capa do filme é Steven Seagal com uma arma! E um submarino! Esses caras sabem o que nós, fãs indiscriminados de cinema de ação de baixa qualidade desejamos! Enfim, dá pra se divertir com isso aqui. Sobretudo se você não estiver num dia muito exigente e quiser apenas 90 e poucos minutos de um filminho que entra fácil na categoria “é ruim, mas é bom“.

Apesar do título original (Submerged) e a arte da capa apontarem para um thriller ambientado em um submarino (antes de ver o filme eu pensava em algo como MARÉ VERMELHA ou CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO, ou no mínimo uma variação de A FORÇA EM ALERTA, só trocando o navio de guerra por um submarino), a trama me parece mais inspirada no clássico thriller político dos anos 60 SOB O DOMÍNIO DO MAL, de John Frankenheimer, com a ideia de um cientista que cria dispositivos para controlar a mente de indivíduos.

Mas é uma inspiração bem superficial… O filme, na verdade, se passa praticamente no Uruguai, sabe-se lá porquê, onde um drone enviado pela embaixada dos Estados Unidos descobre uma base militar escondida dentro de uma represa. Os soldados que comandam o local ficam um pouco assustados ao saber que os americanos descobriram sobre a base, mas o misterioso Dr. Lehder (Nick Brimble) não se preocupa: ele pressiona alguns botões em seu telefone celular e de repente os agentes secretos na embaixada americana abatem todos os presentes antes de atirar em suas próprias cabeças. O sujeito, na real, está criando um exército de soldados controlados mentalmente em seu laboratório. E as suas cobaias são equipes americanas que são enviadas para eliminá-lo e acabam caindo em emboscadas. É o que acontece com a equipe de Gary Daniels, logo no começo do filme.

Depois dessas missões malfadadas, só lhes resta uma última solução. E quem é a única pessoa que os militares, desesperados para parar Lehder, acreditam que pode destruir os esquemas malignos do cientista? Entra em cena Steven Seagal. Câmera lenta, guitarras elétricas ressoando na trilha sonora, vestido de preto, é claro, pra esconder um pouco a barriga, e algemado! O velho clichê: o sujeito é um ex-agente mega-ultra-hiper treinado em todo tipo de combate, mas por conta de alguma operação mal sucedida, acabou atrás das grades. Não só ele, mas todo o seu time. Mas aí o governo faz uma daquelas ofertas únicas na vida: se Seagal e sua equipe de mercenários – o que inclui o grande Vinnie Jones – conseguirem derrubar o cientista, todos receberão indultos completos e cem mil dólares cada. É óbvio que eles aceitam.

Não demora muito pra Seagal e sua turma atacarem ao laboratório subterrâneo, eliminando muitos bandidos, resgatando prisioneiros, explodindo o local… Mas o astuto Lehder já se foi. A próxima parada é roubar um submarino de fuga. Então é agora que o filme se transforma num thriller de submarino, certo? Bem, mais ou menos. A gente presume, por tudo que já mencionei, que a maior parte de LADO A LADO COM O INIMIGO seria Seagal se esgueirando dentro de um submarino, gotas de suor se acumulando em seu queixo enquanto troca tiros e socos com bandidos que estão sob controle mental e, sei lá, eventualmente assumem o comando e agora Seagal precisa salvar a tripulação.

Não acontece nada disso. Depois de uns quinze minutos de filme dentro do veículo de guerra, por “problemas técnicos” a turma do Seagal pula fora do submarino, que acaba explodido. E nunca mais um submarino aparece de novo. Mas pelo menos deu tempo de ter uma luta entre Seagal e Gary Daniels, que depois de capturado pelo cientista passa a ter a mente controlada. Quero dizer, é mais ou menos uma luta. Numa entrevista há alguns anos, Daniels diz que a peleja com Seagal foi originalmente concebida para ser mais longa e vistosa pelo coordenador de dublês. Só que Seagal resolveu assumir a coreografia no dia da filmagem e, preguiçoso pra caralho, tornou a luta muito mais curta e unilateral (óbvio que só o Seagal bate). Mas, ok, ver esses dois astros do cinema de ação juntos, numa ceninha de luta, numa tralha como essa, já me deixou feliz.

O resto do filme já entra o terceiro ato, que se resume numa longa sequência de tensão e ação, que é legitimamente boa, como já mencionei no início do texto. E no fim das contas, LADO A LADO COM O INIMIGO acaba se saindo bem, um filme bacana por seus próprios méritos. É rápido, bobo, tem o diferencial de não se levar tão a sério, o que ajuda bastante. Os limites do orçamento são evidentes (apesar de ser um dos mais altos tanto pro Seagal quanto pro Hickox no período), principalmente nos efeitos digitais. Hickox usa todos os truques de edição que era modinha nos anos 2000 para tentar manter as coisas em um ritmo frenético, apesar da imobilidade impressionante de Seagal. Muitos cortes rápidos que pontuam de vez em quando para dar ao espectador a sensação dos personagens sob o efeito do controle mental (o que gera algumas imagens bem esquisitas), além de colocar o público nesse submundo confuso de agentes duplos, alianças duvidosas e missões explosivas. Embora todo esse efeito pode apenas nos dar uma dor de cabeça daquelas…

Mas tudo isso até que confere um charme na produção. Dá pra rir e tirar sarro dos seus absurdos, do seu lado tosco e mal feito, das atuações péssimas (o elenco ainda conta com William Hope, P.H. Moriarty e, no lado feminino, Christine Adams e Alison King), do roteiro bagunçado e que não faz o menor sentido em alguns momentos, mas dá também para admirar e se divertir quando o filme apresenta coisas boas, como a participação de Vinnie Jones na segunda metade do filme, as boas sequências de ação do último ato, quando Hickox consegue impor seu talento de mestre da ação… Enfim, pode ser um filme que não agrade a todos, mas não deixa de ser uma dessas experiências únicas que o cinema de ação de baixo orçamento tem pra oferecer.

AVATAR (2009)

Só tinha assistido AVATAR uma única vez nos cinemas na época do lançamento, no final de 2009. Então, agora que finalmente vamos ter a tão aguardada continuação resolvi rever. Naquela época não saí do cinema com a mesma empolgação de algumas pessoas. Tinha curtido, mas considerei o filme o “menos bom” do Cameron. Como eu adoro tudo que o cara fez, obviamente não queria dizer que eu não tivesse gostado. Ao contrário. Inclusive cheguei a elogiar bem o filme aqui no blog na época (quando ainda atualizava no blogspot e o blog se chamava Dementia 13). Depois da revisão de agora, continuo com a opinião de que se trata do mais “fraco” do diretor (aliás, eu cheguei a revisitar toda a filmografia do Cameron este ano), mas essa revisão de AVATAR só confirma a minha admiração pelo filme. Muito mais que a primeira vez que vi.

Não vou entrar muito na questão técnica “revolucionária” do filme. Quero falar da experiência de rever a obra. Até porquê esse ponto já foi tratado à exaustão na época do lançamento, em como Cameron sempre se propõe a profundas alterações no aspecto técnico da sétima arte, e trabalha quase como um engenheiro desenvolvendo novas tecnologias para poder filmar (motivo pelo qual o segundo filme demorou tanto para ser produzido). Utilizou, portanto, tecnologia de ponta para renderizar esse universo, personagens e imagens num 3D que realmente encheu os olhos lá em 2009… Passado mais de uma década, o legado de AVATAR está aí, para o bem e para o mal, nos efeitos especiais, sobretudo no cinema blockbuster americano. A coisa ficou tão saturada que ver AVATAR pela primeira vez hoje talvez nem tenha tanto impacto de caráter de surpresa e inovação.

No entanto, e mais importante, o filme ainda deve ter impacto de caráter poético visual. Porque, afinal, o mundo criado por Cameron continua um negócio simplesmente espetacular, de uma exuberância quase subversiva. Nesse sentido AVATAR funciona muito até hoje.

Tá tudo tão intacto que até mesmo as ressalvas de 2009 as tenho em alguma medida: os diálogos piegas, o enredo pouco sutil, tudo é mastigadinho e vários personagens são o cúmulo do arquétipo e estereótipo que remete a uma porção de filmes, obras literárias, quadrinhos na qual o protagonista se bandeia para o lado do “selvagem”. Reciclar obras alheias e fazer essa mistura de referências nem é um problema pra mim, mas discorrer tudo isso numa longa e desnecessária duração que não traz nenhuma novidade narrativa também me leva a considerar AVATAR um nível abaixo do restante da filmografia de Cameron…

E, no entanto, tudo isso fica ofuscado pelas qualidades do filme. Foi uma experiência fascinante estar envolvido novamente pela exuberância de AVATAR; em como num nível mais superficial continua sendo uma ótima aventura de ficção realmente empolgante, com momentos de tirar o fôlego; e como ainda fico maravilhado com um cineasta que dirige bem, que tem total domínio do espetáculo, e deposita tanta paixão e energia para a criar esse universo, com esse esplendor visual imponente, para contar essa história com tanto amor… Cameron pode não ser o mais original dos diretores, mas sabe como elaborar um grande evento cinematográfico autoral que não sacrifica o prazer do entretenimento. Vamos torcer para que Cameron não tenha perdido isso…

Alguns momentos continuam notáveis. A batalha final, por exemplo, eu nunca me esqueci, com aquele plano do cavalo em chamas, ou o clímax que rola o confronto entre o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e Jake (o protagonista do filme, vivido por Sam Worthington). Mas não lembrava como a sequência da destruição da Árvores das Almas é tão poderosa. Um espetáculo visual sem precedentes, com o coronel comandando a destruição em uma das naves, tomando uma caneca de café quentinho, assistindo a gigantesca árvore indo abaixo e uma raça inteira alienígena, os Na’vi, fugindo desesperada. Stephen Lang, aliás, é uma das melhores coisas do filme. Apesar do clichê de militar truculento, é um vilão fantástico, entregando algumas pérolas na sua performance, genuinamente ameaçador.

Sobre alguns temas, a abordagem política do filme é sentida de forma palpável, sem muita sutileza: o retrato sombrio da ganância corporativa; preocupação com a natureza; mostra-nos o homem que procura alargar o seu campo de ação e riqueza, e as catástrofes que daí advêm, já que é incapaz de respeitar os ambientes que o acolhem. Tudo bem óbvio, mas que funciona. Há também uma boa reflexão sobre gameficação. E embora haja um exotismo na representação dos Na’vi que permanece até hoje, acredito que eles possuem mais texturas, com uma cultura e uma ideia real sobre as coisas, que eu já não lembrava. O que deixa tudo mais interessante.

E é um bom presságio para as sequências de AVATAR. Uma expansão de mundo com um senso de detalhes não apenas de quem são os Na’vi, mas de como todo esse ecossistema funciona, sua flora e fauna e a curiosa ciência que governa o planeta Pandora. A obsessão do diretor serve bem à AVATAR; ele tenta expandir tanto esse universo, criando desde um pequeno inseto até o seu aparelho respiratório, que dá até pra ignorar a fórmula genérica e clichê de sua narrativa. Quero dizer, eu consegui ignorar, por isso achei o filme tão fascinante nessa revisão. Mas não tenho dúvidas de que muitas pessoas vão acabar achando AVATAR tão ruim quanto naquela época, ou até pior, numa revisão.

Enfim, essa foi uma maneira – mais longa do que eu tinha planejado – de dizer que estou bastante animado com a sequência, em retornar ao universo tão vívido criado por Cameron, agora em AVATAR: O CAMINHO DA ÁGUA. Recomendo uma revisão deste aqui, caso estejam interessados em ver a continuação e também estavam na mesma situação que eu, que só havia assistido na época do lançamento. Reafirmo que sempre gostei de AVATAR, mas acabei descobrindo um filme bem melhor do que lembrava nessa revisão. Ainda que esteja no final da fila da filmografia do diretor. Tudo bem, o sujeito até hoje não errou e tem várias obras-primas no currículo. Talvez AVATAR: O CAMINHO DA ÁGUA também seja. Vamos descobrir em breve.

2020 – TEXAS GLADIATORS (1982)

Revi esse belo exemplar de cinema pós-apocalíptico italiano dirigido pelo Joe D’Amato. Faz tempo que não posto nada do homem por aqui… Lá por volta de 2008, 2009, eu tava devorando os filmes dele, depois segui em frente e agora me bateu vontade de rever umas coisas. Sobretudo este 2020 – TEXAS GLADIATORS (Anno 2020 – I gladiatori del futuro), porque eu não tinha achado grandes coisas na época e acabou eclipsado pelo ENDGAME, outro filme do gênero que o D’Amato dirigiu na mesma época e que achei bem melhor. Agora já não sei. Este aqui é realmente divertido.

Um detalhe que só fui descobrir por agora é que 2020 – TEXAS GLADIATORS tem um co-diretor. Aparentemente, D’Amato convidou o ator e roteirista George Eastman (Luigi Montefiori) para dirigir junto com ele e o sujeito aceitou… Bem, mais ou menos.

De acordo com Eastman: “Eu dirigi esse filme a pedido de Massaccesi“. Aristides Massaccesi, para quem não sabe, é o nome verdadeiro de Joe D’Amato. “Sua produtora havia comprado o ‘pacote’ pronto (atores com contratos, datas fixas para as filmagens, roteiro já escrito, orçamento) de outra produtora, que desistiu de produzir por considerar impossível fazer um filme desse tipo com financiamento tão baixo. Massaccesi achou que conseguiria (…). O cronograma de filmagem já havia sido definido (vinte dias) e não poderia ser estendido um único dia a menos que alguém estivesse disposto a colocar dinheiro a mais. Ele me ligou e me perguntou se eu estaria disposto a ajudá-lo a dirigir o filme: recusei a oferta dizendo que só faria se fosse sozinho, sem ele.” (do livro Spaghetti Nightmares)

Para resumir, depois de alguma negociação, ficou meio definido que Eastman iria se preocupar com a parte dramática da trama (e também meteria o dedo no roteiro) enquanto D’Amato filmaria a ação. Os créditos de direção ficaram sob o pseudônimo de Kevin Mancuso e o fato de 2020 – TEXAS GLADIATORS ser 80% só sequências de ação deve ter feito muita gente pensar que se tratava de um filme do D’Amato. Mas, pronto, Eastman já está devidamente considerado como diretor do filme. Até o IMDb já atualizou a informação.

2020 – TEXAS GLADIATORS começa apresentando uma espécie de vigilantes futuristas, acho que são chamados de Rangers em algum momento. Esse grupo de bravos homens majoritariamente barbudos, suados e sem camisa patrulham o deserto pós-apocalíptico do Texas é composto por sujeitos de nomes como Nisus, Jab, Catch Dog, Halakron e Red Wolfe.

Logo no início eles interrompem um bando de maníacos que atacam um grupo pacífico de colonos religiosos. Todos os maníacos são mortos sem piedade e os colonos restantes são resgatados. Esses vigilantes possuem um código de honra muito bem definido, e o objetivo fica claro: restaurar a justiça nesse futuro desolador por qualquer meio necessário.

No entanto, Catch Dog (Daniel Stephen) vê uma das vítimas escondida, chamado Maida (Sabrina Siani, de CONQUEST, do Lucio Fulci), e decide estuprá-la enquanto os outros estão ocupados. Mas acaba interrompido por Nisus (o grande Al Cliver, de ZOMBIE 2, também do Fulci) e recebe uma surra. Catch Dog é expulso dos Rangers e forçado ao exílio.

Maida, embora grata pela ajuda de Nisus, questiona seus métodos violentos: se a ação deles consiste em apenas matar bandidos e assassinos, isso não os torna assassinos também? Esta observação coloca uma pulga atrás da orelha de Nisus. Ele resolve abandonar o grupo e se estabelece com Maida numa comunidade que vive dentro de uma usina. Os anos se passam, Nisus se torna um pilar e ajuda a comunidade a restaurar a energia do local. Ele e Maida até têm uma filha juntos, formando uma família.

Mas aí entra em cena o vilão do filme, um bastardo fascista chamado Bolson… Ops, quero dizer, Black One (Donald O’Brien), que invade a comunidade com seus guerreiros futuristas de elite. Um bando de motoqueiros punks também está apoiando Black One, liderados pelo ex-colega de Nisus, Catch Dog. Eles subjugam a comunidade após uma batalha épica e violenta e Black One assume o poder.

O destino é cruel com Nisus e agora cabe a Maida reunir o velho grupo de Rangers pelas terras devastadas para contra atacar Black One, salvar a comunidade e ter paz de volta.

É legal perceber que 2020 – TEXAS GLADIATORS não só um clone genérico de MAD MAX 2 e FUGA DE NOVA YORK como muitos dos filmes italianos pós-apocalípticos tendem a ser. Na real, de certa forma é um filme mais conceitual, pode acreditar. E que tem o western em seu design estrutural, com todos os seus arquétipos e sua mitologia. Se tivessem pegado esse mesmo roteiro e filmado nos anos 60, com cowboys e cavalos no lugar de motoqueiros punks com roupa de couro renderia um belo Spaghetti Western. Não é a toa o “Texas” no título internacional do filme…

Há uma sequência num saloon que parece tirada de algum filme do Demofilo Fidani ou Sergio Garrone, envolvendo um jogo de roleta russa inspirada em O FRANCO ATIRADOR e que termina numa briga generalizada, com vidros e cadeiras quebradas. Uma maravilha. Mais tarde, o grupo remanescente dos Rangers encontrar um grupo de nativos americanos que são representados visualmente da forma mais estereotipada possível, também descrito como italianos fantasiados de índios. Há uma sequência de cerco num desfiladeiro, e até uma ceninha de trabalho escravo em uma mina onde Black One coloca os prisioneiros bem típico de prisão de faroeste…

Visualmente, o 2020 – TEXAS GLADIATORS é competente, não muito chamativo. Mas consegue camuflar o seu baixo orçamento, reaproveitando mesmo cenário (não duvido que 80% do filme seja filmado na mesma usina), figurinos bacanas (sobretudo a de uma mulher guerreira que usa um traje altamente impraticável que deixa seus seios expostos), uma boa quantidade de extras e dublês, além de ter uma dose enorme de ação.

Nenhuma delas realmente especial, mas destacaria toda a sequência do primeiro ataque do exército de Black One à comunidade, defendida com unhas e dentes pelos ocupantes ao estilo Forte Apache, mais um elemento de western. Num geral, D’Amato sabe criar um espetáculo de ação com pouco recurso. Tudo é genérico, mas ao mesmo tempo eficaz e preenche bem o tempo quando o expectador só quer um bocado de diversão.

Quem já assistiu a mais de dez filmes de baixo orçamento italiano dos anos 80, com certeza já se deparou com quase todo mundo que importa no elenco de 2020 – TEXAS GLADIATORS. Com destaque para o grande Donald O’Brien, figurinha típica do cinema popular italiano e que já tinha feito outros trabalhos com D’Amato. Seus papéis de vilão sempre são memoráveis, até mesmo quando aparece pouco como é o caso deste aqui. Mas seu Black One é um bom registro. Al Cliver sempre competente, assim como todos do grupo de Rangers. Só gente boa: Harrison Muller, o grande Peter Hooten, e Hal Yamanouchi. Mas a alma do filme é a bela Sabrina Siani, com uma caracterização bem interessante.

2020 – TEXAS GLADIATORS é, em última análise, realmente representativo de quão criativo era o cinema italiano… Bem, nem sempre. Mas existem vários exemplos de produções de orçamento risível que conseguem de alguma forma resultar em filmes fascinantes. Especialmente quando se trata de Joe D’Amato, que podia pegar uma “produção inteira” num pacote fechado e na hora de mostrar serviço eram profissionais, astutos e criativos o suficiente para criar um filme divertido. Filmes que tinham suas pretensões muito bem definidas, que eram pensados apenas para ganhar um dinheiro rápido e não para ganhar um Oscar. E acho que aqui é um bom caso disso… Muita ação, um belo conceito e cheio de bizarrices. Não tem como errar.

CRIMES DO FUTURO (2022)

Existem certos diretores que eu simplesmente acho que nunca mais vão conseguir trabalhar ou financiamento pra filmar. E a carreira acabou… Sou um cara pessimista por natureza. Coppola, De Palma, Verhoeven, Paul Schrader, Abel Ferrara, Michael Mann, Clint Eastwood agora que perdeu o contrato com a Warner, e muitos outros. Alguns desses até tem filmado com certa frequência, mas sempre acho que o último filme que lançaram será realmente o último. Com o Cronenberg foi esse mesmo receio.

Depois de uns 8 anos sem filmar, já tinha perdido as esperanças. Mas eis que em 2022 tivemos a alegria de ver um novo Cronenberg. CRIMES DO FUTURO (Crimes of the Future), que também é o nome de seu segundo longa, lá atrás, em 1970. O que dá a impressão de um encerramento de ciclo… Mas não só por isso, mas sobretudo pela própria proposta do filme, que parece uma auto-reflexão do seu cinema, um retorno a todos os seus grandes temas conceituais e visuais. É quase um resumo de sua obra. Um filme de Cronenberg definitivo. É fascinante, é bizarro, é uma coisa linda…

Não é perfeito. Tá longe dos seus melhores trabalhos, mas tudo bem. Não deixa de ser maravilhoso poder ver esse mestre, um dos meus diretores favoritos, ainda com criatividade deflagradora, fazendo o que quer, fazendo seu cinema sem concessões e interferências.

Estamos, portanto, num terreno familiar – principalmente pra quem costuma revisitar os filmes do homem com mais frequência, e no meu caso fiz uma maratona completa dos longas do diretor no início deste ano – mas ao mesmo tempo mergulhamos numa atmosfera cheia de frescor e autenticidade.

Num futuro próximo, a raça humana evoluiu em certos aspectos fisiológicos anormais, como a perda da sensação de dor e desaparecimento de infecções, doenças, enquanto alguns indivíduos experimentam até mesmo o crescimento de novos órgãos no interior de seus corpos. Dando origem à pessoas que utilizam essa capacidade de modificação corporal como forma de expressão artística.

O que de certa forma é a base do body horror que o Cronenberg abordou ao longo da carreira. E é o que me faz acreditar que Saul Tenser (Viggo Mortensen) seja uma espécie de alter ego do próprio Cronenberg. Saul é um um famoso artista performático que, em colaboração com sua parceira, Caprice (Lea Seydoux), fazem apresentações ao público de remoção de seus novos órgãos, depois de serem tatuados internamente.

Mas não nos apeguemos muito à trama. CRIMES DO FUTURO é mais uma jornada por esse mundo estranho, experimentando o ambiente doentio do lugar, sentindo sua realidade, tecnologias e organizações estranhas que vamos encontrando no caminho. Como o recém formado Órgão de Registro Nacional, que tenta catalogar os novos órgãos que crescem nas pessoas (onde trabalha a personagem da Kristen Stewart). Ou a figura de Lang, um sujeito que convence Saul a usar o corpo de seu filho morto em uma apresentação de autópsia ao vivo, porque o sujeito acredita que o hábito de seu filho de comer plástico foi uma mutação natural que marca um próximo estágio da evolução humana. O próprio Tenser tem seus segredos como informante de um detetive, um oficial da New Vice, que investiga esse universo de mutações… Ou algo do tipo. Sei lá.

Nesse universo, a busca da emoção se dá através de experiências extremas, resumidas na frase “cirurgia é o novo sexo“: incisões, mutilações, enxertos, autópsias… CRIMES DO FUTURO é um mergulho nas entranhas do corpo, que pode ser visto como uma consequência transumanista de VIDEODROME e EXISTENZ, cujos conceitos estabelecidos a partir do vídeo e da realidade virtual são substituídos pela arte contemporânea. O novo “Long live the new flesh” é bem mais palpável e a cirurgia é, de fato, o novo sexo.

Cronenberg já havia abordado os desvios e a possível evolução da sexualidade com sua obra-prima, CRASH, mas aqui ele explora outros caminhos, mais viscerais e sombrios. Até porque é no interior do corpo que se fixará a beleza. Literalmente a “beleza interior”.

Surpreende ver o quanto desse mundo é coerente e como aceitamos todas as aberrações da coisa de boa. Acreditamos nesses personagens, nessas invenções sórdidas, e mergulhamos de cabeça no ritmo estranho e lento, nos longos diálogos e falatórios inusitados, nas situações improváveis – da ejaculação precoce na prática do “sexo velho” ao zíper para acesso direto aos órgãos. Ainda é preciso talento para nos fazer aceitar tão rapidamente esse tipo de coisa sem parecer bizarrices fúteis, afetadas e vazias.

Mas aqui, às vésperas de ser octogenário, Cronenberg demonstra mais uma vez que não perdeu o brilho. Menos rítmico e mais teórico, algo que já se via nos seus filmes anteriores, mas ainda capaz de nos encantar com suas obsessões, principalmente por se tratar a um retorno ao body horror, e criar imagens que causam desconforto. Só espero que não fique tanto tempo sem filmar de novo. Mas se for realmente seu último trabalho, fechou com chave de ouro.

O SUPER-HOMEM ATÔMICO (1975)

Uma das bobagens mais divertidas que vi nos últimos dias foi esse O SUPER-HOMEM ATÔMICO (The Inframan ou The Super Inframan), uma prova de que nem só os japoneses sabiam fazer Tokusatsus autênticos. A tradição pode até ser dos japoneses, que em meados dos anos 70 estavam fazendo sucesso com esse tipo de material, filmes e seriados de ficção científica povoados por super-heróis, monstros e muitos efeitos especiais, mas os chineses tentaram demonstrar que um estúdio de Hong Kong – no caso deste aqui foi ninguém menos que a rapaziada da Shaw Brothers – também poderia se sair bem… E deu muito certo.

Na trama, a Terra foi invadida por uma variedade de monstros coloridos, liderados por uma tal princesa Elzebub. Essas criaturas podem ter vindo do espaço sideral, mas os cientistas acreditam na possibilidades de serem indivíduos que viveram aqui na Terra mesmo antes da última Idade do Gelo, vinte milhões de anos atrás. Mas isso pouco importa… O que vale mesmo é que os monstros causam o terror por aqui.

Felizmente a Terra não está sem esperança, pois um cientista tem trabalhado por um bom tempo num projeto chamado Inframan, que consiste numa espécie de homem biônico, que terá superpoderes incríveis e será páreo para qualquer monstro. Um dos assistentes do cientista, Rayma (Danny Lee, um dos protagonistas de THE KILLER, do John Woo), é o escolhido para se tornar o Inframan!

Os monstros tentam sabotar o laboratório de qualquer jeito. Sequestraram um dos assistentes do cientista e o transforma em uma espécie de zumbi. Isso dá aos monstros um aliado dentro do próprio laboratório secreto onde está o projeto Inframan. As coisas ficam ainda piores quando a filha do cientista também é sequestrada pelos monstros. E apenas Inframan pode salvá-los.

E aí, O SUPER-HOMEM ATÔMICO é ação praticamente ininterrupta e pancadaria até o fim. E, claro, com direito à muito kung fu, já que estamos num Tokusatsu made in Hong Kong. Há muitos lasers, explosões, perseguições, os monstros podem de repente ficar gigantescos, assim como o Inframan também pode, sem qualquer tipo de satisfação ao espectador. O tipo de filme que possui todos os elementos pra agradar o seu público. O visual dos monstros são bregas, com trajes de borracha, mas adoráveis. Os efeitos especiais são datados, mas são extremamente bem feitos para o período. E os vários cenários onde a trama e as batalhas se passam são perfeitos pro tipo de filme que temos aqui.

O diretor Shan Hua mantém o clima leve e a ação rolando solta. Não é o tipo de obra que faz grandes exigências aos atores, mas dá pra perceber que o elenco pegou o espírito da coisa. A atuação pode não ser sensacional, mas é enérgica. Destaque para um certo coadjuvante chamado Bruce Le (último frame acima), que é um dos principais nomes da Brucesploitation.

O resultado final de O SUPER-HOMEM ATÔMICO é uma mistura fascinante e divertida do espetáculo que a Shaw Brothers sabia proporcionar com a bobagem de filmes de monstros japoneses que fizeram a cabeça da molecada na TV dos anos 70 e 80. Vale uma conferida.

STORM TROOPER (1998)

Não, STORM TROOPER não é um rip-off de STAR WARS protagonizados pelos soldadinhos de armadura branca com a pontaria ruim da famosa franquia de George Lucas. Mas é um filme que eu não tinha assistido ainda do Jim Wynorski, figurinha carimbada aqui no blog e que, pra quem já conhece o cara, sabe que se trata de um mestre das picaretagens cinematográficas. Portanto, STORM TROOPER é sim um rip-off, mas de outra coisa bem diferente. É uma versão pobre de O EXTERMINADOR DO FUTURO e com ecos em ROBOCOP. Uhuu!

Vejamos: sujeito é um ciborgue, com porte físico grandalhão, com uma roupa de motoqueiro e pilotando uma motoca como no filme de James Cameron; no final, descobre-se que ele foi projetado para ser um policial perfeito, soltando todas diretrizes do policial do futuro do filme do Verhoeven; depois de uma explosão, ele surge com partes do esqueleto metálico por baixo da pele… É, não tem como não perceber de onde STORM TROOPER tava tirando uma casquinha.

E como um bom exemplar de Wynorski, o filme é essa mistura muito louca de sci-fi com filme de cerco, daqueles que personagens ficam encurralados num cenário e precisam lutar pra sobreviver (até porque esse tipo de coisa é bem mais barata de produzir), além de um drama pesado sobre perda, redenção e abuso doméstico inserido na trama pra dar um tom mais sério, com profundidade existencial.

STORM TROOPER começa com uma fuga, duas pessoas, um homem e uma mulher, escapam de um laboratório secreto do governo americano. Na troca de tiros pelos canais de tubulação – um desses cenários típicos que amamos nesse tipo de filme – um deles, a mulher, acaba alvejada e capturada e o outro (John Laughlin) consegue escapulir, com a rapaziada do governo na cola tentando pegá-lo em algumas tentativas insanas, perseguições de carro, caminhão, etc…

Mas o filme tem uma outra história paralela a essa. Um drama de uma dona de casa (Carol Alt) que vive um relacionamento abusivo com seu marido policial, vivido com entusiasmo ameaçador por Tim Abell, um habitual de Wynorski e do outro diretor parceiro dessa turma, Fred Olen Ray. Em determinado momento, durante uma discussão, essa pobre dona de casa, cansada da vida que leva, mata o seu marido com um tiro pelas costas.

E é neste ponto que as vidas do sujeito em fuga e a da dona de casa deprimida se encontram. E, obviamente, não demora muito, pessoas começam a aparecer no local em busca do fugitivo, que acaba se revelando nada mais, nada menos, que um ciborgue! E ele é muito bom em matar pessoas, então alguns mercenários barra pesada, liderados pelo Rick Hill (o protagonista do clássico DEATHSTALKER) são chamados pra resolver o caso. E aí STORM TROOPER começa realmente a arrebentar a boca do balão.

Parece tudo muito legal, mas vamos com calma. STORM TROOPER não é lá desses filmes que eu poderia dizer que é particularmente “bom”. Na verdade, é relativo. Como sempre, nesse universo do B movie americano dos anos 90, os filmes transcendem adjetivos de “bons” ou “ruins” para se tornarem experiências únicas… É evidente que o baixo custo geral da produção prejudica o filme e o impede de ser um espetáculo de ação do nível de um John Woo ou James Cameron, mas Wynorski faz o que pode dentro de suas limitações. E dentro de suas limitações, o cara é mestre.

Temos uma certa quantidade de efeitos pirotécnicos, ou seja, explosões, e os efeitos especiais práticos de maquiagem, embora pobres, são muito efetivos. Nada de CGI, é óbvio, tudo na base da criatividade e mão na massa. Em termos de ação, STORM TROOPER é bem movimentado. O filme entra de vez em quando em seus momentos de respiro, com alguns diálogos que demoram mais do que deveria, várias cenas burocráticas de politicagem entre militares, mas boa parte do tempo temos pessoas na tela atirando freneticamente enquanto o ciborgue do Laughin vai exterminando um a um com tiros, facadas e pescoços quebrados. Se a câmera de Wynorski não é virtuosa, ao menos tudo isso é filmado sem frescura.

E não poderia faltar, na boa e velha tradição de Wynorski, a utilização de imagens de outros filmes pra dar aquela economizada no orçamento. E desta vez o diretor utilizou stock footage de uma cena com um caminhão explodindo de um filme seu mesmo, 976-EVIL 2, de1991.

Mas o que realmente chama a atenção na grande maioria dos filmes do Wynorski é o elenco bacana que ele costuma reunir em suas produções. E aqui não é diferente. Claro, o destaque é Rick Hill, que não aparece tanto quanto deveria, mas rouba a cena e foi divertido vê-lo fazendo um papel badass depois de passar minha infância inteira vendo e revendo DEATHSTALKER num VHS original que eu tinha em casa. Conto mais sobre isso aqui. O cara é um canastrão de primeira linha, mas sempre vai ter a minha consideração. Além de várias figuras já citadas, ainda temos por aqui alguns habituais do cinema B, como Melissa Brasselle, Ross Hagen, Jay Richardson, Arthur Roberts, John Terlesky e, pasmem, Zach Galligan (o protagonista de GREMLINS) e o grande Corey Feldman, de tapa-olho, ao estilo Snake Plissken em FUGA DE NY.

Realmente a melhor coisa de STORM TROOPER é o elenco. É aquilo, se não posso dizer que é um filme particularmente bom, poder ver essa turma reunida é sempre um prazer.

Uma coisa que não curto muito em alguns filmes do Wynorski é quando ele trata o material a sério demais, costumam ser dos seus trabalhos mais problemáticos. Evidente que num currículo prolífico como o seu, com mais de cem filmes, eu acabo adorando vários dos exemplares sérios do homem. No entanto, eu acho que ele se sai bem melhor quando faz as coisas no deboche, mais puxado para o humor. E STORM TROOPER é muito mais sério do que poderia e isso atrapalha um pouco também o andamento das coisas. Melhora em vários momentos quando temos Hill e Feldman na tela; algumas ceninhas mais sarcásticas ali e aqui, como o desfecho, com a transformação cartunesca da personagem principal, que é algo maravilhoso. E a cena que Alt toma banho enquanto seu marido morto ainda está na banheira também é uma das melhores do filme, bem a essência do que poderia ter mais por aqui.

Aliás, por ser um filme do Wynorski, senti um pouco a falta de mais pele na tela. É dos poucos filmes do diretor nesse período que não mostra um topless sequer… Não que isso seja realmente necessário. Mas pra quem acompanha mais de perto a filmografia do diretor, cria-se certas expectativas com seu autorismo… Hahaha!

Mas tudo bem, entre pontos negativos e positivos, STORM TROOPER acaba se saindo de forma bem satisfatória. Pode ser sério demais, dramático demais, burocrático em alguns momentos e faltar uns peitinhos na tela, mas tem bastante ação, tiros, explosões (mesmo que de outro filme, mas inserido aqui na edição), ciborgues ao estilo O EXTERMINADOR DO FUTURO, e várias sequências bem divertidas envolvendo Rick Hill e Corey Feldman de tapa-olho. Fica evidente que Nenhum envolvido aqui estava pretendendo ganhar um Oscar. E não vejo outras intenções a não ser divertir o espectador por uns 80 minutos… Tá de bom tamanho.

THE JOURNEY: ABSOLUTION (1997)

David DeCoteau é desses diretores de gênero de baixo orçamento, surgidos nos anos 80, que recomendo conhecer. É da mesma linhagem que um Jim Wynorski e Fred Olen Ray, que filmam em grande quantidade, com poucos recursos e entregam aquilo que os amantes de um filme B almejam: boas doses de violência e mulheres nuas em filmes curtos e despretenciosos cheio de atores legais… E com relativa qualidade.

O que torna DeCoteau especial é que ele é gay, então mesmo que seus filmes sejam realizados para um público hétero, não vão faltar muitas cenas de homens suados semi nus desfilando na tela. Em 1997, o sujeito lançou seu filme mais “ambicioso”, LEATHER JACKET LOVE STORY, um projeto autoral, em preto e branco, de temática gay, que passou em festivais de filmes independentes no período e que parece ser bem interessante. Sobretudo vindo de um diretor de tranqueiras como o DeCoteau. Nem Olen Ray e Wynorski fizeram algo do gênero…

De todo modo, naquele mesmo ano, DeCoteau volta a abraçar suas raízes ordinárias e lança também THE JOURNEY: ABSOLUTION, que é mais coerente com a sua obra. Enquanto LEATHER JACKET LOVE STORY rodava festivais, no mercado de vídeo chegava esse trabalho de contrato para a EGM Films do produtor John Eyres, uma ficção científica das mais vagabundas. A trama se se passa num futuro cuja maior parte da Terra havia sido destruída por um asteróide. Na trama, acompanhamos uma pequena colônia militar, na Nova América, que conseguiu sobreviver no Ártico, povoada basicamente por homens de pouca roupa que passam seus dias se exercitando.

Quando soldados começam a desaparecer misteriosamente nessa colônia, as autoridades enviam Ryan Murphy (Mario Lopez) para investigar tais desaparecimentos e o líder tirânico do local, o sargento Bradley (vivido pelo grande Richard Grieco). Enquanto testemunha cerimônias bizarras e técnicas de treinamento brutais, Murphy percebe que soldados desaparecidos é apenas o começo de uma conspiração que vai além do nosso mundo, envolvendo invasão alienígena e etc…

Sim, a trama parece promissora, mas não se apeguem muito a isso…

O que realmente temos em THE JOURNEY: ABSOLUTION é Mario Lopez e seus companheiros de quarto correndo pra lá e pra cá pelo cenário, pulando, abraçando e brigando em roupas íntimas. Afinal, como disse, é um filme dirigido pelo Decoteau, então obviamente a coisa vai dar a impressão de estarmos assistindo a um comercial de cuecas da Calvin Klein.

Eventualmente umas amiguinhas aparecem pra agradar ambos os públicos…

Lopez tem um rosto reconhecível, fez algum sucesso na televisão, mas se ele tava achando que esse tipo de material iria ajudar a dar um gás na carreira, acho que se enganou. Aqui ele até se esforça como herói, mas não consegue exatamente passar a ideia de fodão badass. Porém, para o tipo de produção que temos aqui, ele funciona como o herói solitário tentando investigar o local enquanto tem que lidar com um bando de rapazes desconfiados da sua presença. E para o propósito de DeCoteau de filmar jovens de corpos esculturais sem camiseta, o cara serviu bem.

Enquanto isso, o grande Richard Grieco engole o cenário com uma atuação maravilhosa, expansiva, suando, cospindo e gritando profusamente, até que os vasos sanguíneos em sua testa ameaçam se libertar, como ele “odeia ianques e retardados“. Isso quando não está cheirando roupas íntimas…

Grieco é um baita ator, uma dessas figuras do cinema B americano subestimadíssima, que nunca teve o merecido reconhecimento. E aqui mostra um bocado do que é capaz, parece estar se divertindo muito. É absurdamente ridículo, do jeito que a gente gosta.

E temos a personagem de Jaime Pressly, cuja aparição com a outra amiguinha da imagem lá de cima são as únicas presenças femininas do filme. Elas surgem meio que do nada nesse universo de homens pra dar uma alegrada no público que não quer ver só nádegas masculinas… O que inclui uma cena de sexo, típica de um Cine Privé, protagonizada por Pressly e Lopez.

O IMDB informa que THE JOURNEY: ABSOLUTION foi produzido com um orçamento de US $1,7 milhão. Vão me desculpar, mas já vi filmes com orçamentos menores com resultados bem mais interessantes. A coisa aqui parece que foi filmada com 1/3 desse orçamento. Basta observar as sequências com efeitos especiais, explosões digitais, é tudo muito tosco. Deve ser algum esquema de lavagem de dinheiro… Ou talvez Jaime Pressly cobrou bem caro pra ficar à vontade nas ceninhas acima. Nunca saberemos.

Não é exatamente um filme de ação, mas temos alguns momentos bacanas, com uns tiros e lutas. São escassas, concentradas mais no último ato e nada especiais também, mas até que são dignas e filmadas sem frescura.

E é isso por hoje. Não tenho lá muito o que falar de THE JOURNEY: ABSOLUTION, mas recomendo. Não é um filme exatamente bom, o roteiro, no fim das contas é um fiapo e não se sustenta por muito tempo, o ritmo acaba prejudicado e é meio chatão em alguns momentos, mas pode agradar os amigos que curtem uma boa e velha tralha de baixo orçamento dos anos 90. Ou pra quem quer ver moços musculosos em roupas íntimas, malhando e ficando suados. Então, não é de todo ruim… É medíocre, exagerado, ridículo, mas também tem seus momentos de humor involuntário e com Grieco em estado de graça.

PROGENY: O INTRUSO (1998)

Essa semana vi esse pequeno filme do produtor/diretor Brian Yuzna que não tinha assistido ainda. Boa descoberta. O Yuzna é um cara que respeito e sempre que paro pra ver umas coisas dele, saio no mínimo agraciado com uma boa diversão.

Depois de produzir alguns trabalhos de Stuart Gordon, como o clássico oitentista RE-ANIMATOR e FROM BEYOND, Yuzna rapidamente conquistou uma reputação como cineasta com seu petardo SOCIETY, de 1989 (no Brasil: SOCIEDADE DOS AMIGOS DO DIABO). O sujeito, ao longo da carreira, conseguiu criar um universo original e certo senso de eficiência no horror, com algumas belezinhas nos anos 90, como O DENTISTA, NATAL SANGRENTO 4: A INICIAÇÃO e as continuações de RE-ANIMATOR. Rapidamente se tornou uma figura cult, embora alguns de seus filmes sofressem com um orçamento limitado que o impedia de prosperar como um Carpenter, Craven, Romero, Tobe Hooper… E um desses trabalhos que sofre com isso é justamente PROGENY: O INVASOR, uma fita de baixíssimo orçamento sobre abdução alienígena, que não tem nada de original, mas que se destaca pela forma na qual Yuzna conduz as coisas, pelo elenco afiado e, bom, por não tentar ficar inventando a roda e deixar de ser aquilo que é: um bom horror sci-fi noventista.

Mais uma vez Yuzna se reúne com o já citado parceiro de longa data, Stuart Gordon, que aqui atua como roteirista, junto com Aubrey Solomon, fazendo um belo trabalho de pesquisa, estudando casos “reais” de abdução, para chegar num enredo rigoroso e personagens mais, digamos, realistas. Temos, portanto, muitos elementos habituais deste tipo de evento (luzes estranhas no meio da noite, perda da noção de tempo durante o fenômeno, paranóia e crises de identidade, etc.), de forma que a história às vezes remete muito ao livro Communion, de Whitley Streiber (e à sua adaptação pra cinema, que tem o título no Brasil de ESTRANHOS VISITANTES), considerado uma autêntica bíblia da ufologia.

Além disso, PROGENY adiciona uma pegada de O BEBÊ DE ROSEMARY misturado com ARQUIVO X na trama, deixando as coisas ainda mais interessantes. Devo dizer que o filme não é lá uma obra-prima, mas armado com todo esse trabalho de pesquisa, as influências, mais o talento natural de Gordon/Yuzna, o resultado não é nada mau. PROGENY é redondinho e bem escrito, demonstra hábil na arte de detalhar a degradação de um casal em crise, personagens oprimidos por eventos estranhos, diante do horror e do inexplicável, e que funciona também como boa alegoria do casal diante do “horror” do primeiro filho.

O filme começa quando o cirurgião Craig Barton (Arnold Vosloo) faz amor com sua esposa Sherry (Jillian McWhirter) e uma luz azul ofuscante surge do nada e clareia o aposento. O casal recupera a consciência duas horas depois, sem nenhuma memória do que aconteceu. Craig então começa a sofrer de insônia, problemas de comportamento, agressividade… Sherry fica grávida e começa a sentir dores estranhas no abdômen. Em sessões de hipnose o casal relembra o que aconteceu naquela noite e a revelação não vai ser das melhores para eles. Mas para o público, é só alegria, já que se trata de abduções, nave espacial, alienígenas cheios de tentáculos roçando no corpo nu de Sherry e, obviamente, o que cresce na barriga da mulher é puro terror.

Yuzna faz umas escolhas interessantes, abraça a narrativa, no drama e paranoia dos protagonistas, sendo mais comedido do que o normal em cenas de choque e violência, deixando a atmosfera tomar conta e a tensão aumentar. E faz com que as sequências mais apelativas, com um bocado de gore, quando chega a hora, se mostrem mais imprevisíveis e especiais. Um bom exemplo é a sequência do flashback de Sherry, que mostra o que rolou durante aquelas duas horas, dentro da nave alienígena, um dos momentos mais angustiantes do filme. Assim como o final, quando a coisa descamba de vez pra uma violência mais gráfica, com tripas e sangue rolando na tela. E tudo muito bem feito. Os efeitos especiais de PROGENY são bastante satisfatórios, na maior parte do tempo, para uma produção de orçamento tão curto. O visual dos aliens pode decepcionar, mas é curioso como Yuzna faz a coisa dar certo de alguma maneira. Cortesia também do grande mestre Screaming Mad George, que já havia realizado os efeitos especiais de outros filmes do diretor.

Yuzna também aproveita para apoiar as câmeras no seu elenco, que é de qualidade. Vosloo ficou marcado interpretando o papel título em A MÚMIA, de 99, sempre demonstrou talento fazendo outros vilões, como em O ALVO, mas aqui prova que conseguia carregar um filme como protagonista e se sai muito bem. McWhirter acaba se destacando mais, num papel corajoso, com muitas sequências de nudez, e bastante expressividade corporal. Em várias entrevistas ela conta como foi difícil, tanto físico e emocional, o seu trabalho por aqui. O resultado na tela é fascinante.

Outras figuras aparecem por aqui pra acalentar o coração dos fãs de cinema B, como o grande Brad Dourif em papel pequeno, como um especialista em ufologia, que vale a pena acompanhar; e Wilford Brimley, que é sempre divertido.

Longe de ser dos melhores filmes de Yuzna, PROGENY teve lançamento limitadíssimo nos cinemas em poucos países, após circular em alguns festivais especializados no gênero. No fim, acabou tendo lançamento no mercado em vídeo, com até relativo sucesso. Hoje anda esquecido, mas foi um prazer redescobrir essa jóia. Boas referências, belo clima, boas atuações. Mais do que se vê em muitos filmes de horror lançados nos últimos anos. PROGENY é certamente um dos trabalhos obrigatórios para conhecer mais do diretor.

CARNOSAUR (1993)

Depois do sucesso de PARQUE DOS DINOSSAUROS, de Steven Spielberg, em 1993, era evidente que algum produtor espertinho entraria na modinha dos filmes de dinossauros. E por que não? Roger Corman, que não é chamado de rei dos B Movies à toa, antes mesmo de saber se a coisa ia vingar colocou CARNOSAUR em produção ao mesmo tempo em que Spielberg fazia o seu blockbuster. Com um décimo do orçamento, é claro. O filme acabou sendo lançado antes até que o seu “primo rico”…

Na trama, um conglomerado secreto de agências governamentais dá à Dra. Jane Tiptree (Diane Ladd) financiamento e equipamentos para seus experimentos de biotecnologia. Mal sabem eles que ela usou seu gênio do mal e recursos do governo para criar uma nova raça de predadores, misturando genes de galinhas com os de lagartos pré-históricos. Seu plano é exterminar a humanidade com uma nova raça de dinossauros bio-projetados. A coisa só melhora, atingindo alto nível de absurdo: ela criou um vírus que infecta apenas mulheres, fazendo com que fiquem grávidas dando à luz a embriões de dinossauros. Seu plano diabólico é fazer com que todas as mulheres na Terra sejam infectadas, deixando a raça humana morrer enquanto os dinossauros assumiriam o controle.

Quando misteriosamente um caminhão de galinhas transporta um bebê dinossauro do tipo Velociraptor para fora do laboratório, a coisa dá-se início… Em outro cenário, num canteiro de obras, conhecemos o herói da trama, o vigia noturno Doc Smith (Raphael Sbarge), que é adepto a um goró e anda tendo alguns problemas com hippies abraçadores de árvores que invadem o local para se acorrentarem às máquinas, seja lá por qual motivo. Enquanto isso, corpos estraçalhados vão surgindo e o vírus vai infectando as mulheres da região.

Quando os dinossauros começam a estourar seus ventres, o governo dos EUA entra em cena pra tomar uma atitude: matar todas as mulheres infectadas, à la THE CRAZIES, de George A. Romero… Uma garota chamada Thrush (Jennifer Runyon), ligada aos manifestantes hippies, acaba se infectando. E por estar envolvida com nosso amigo Doc, ele resolve adentrar no laboratório secreto para encontrar um antídoto antes que ela dê à luz a um dinossauro. E antes também que as forças do governo exterminem todas as mulheres infectadas.

Para escrever esse roteiro maluco, Corman escalou Adam Simon, diretor de uma de suas produções, MORTE CEREBRAL (1990), a partir do romance Carnosaur, do autor de ficção científica australiano John Brosnan, que não gostou muito do resultado, mas viu a procura pelo seu pequeno romance aumentar de forma considerável no período… Mas realmente, quem já assistiu ou pelo menos chegou até a este ponto do texto já matou que isso aqui não é nenhum PARQUE DOS DINOSSAUROS, nem tinha a pretensão de ser outra coisa além de um filme de monstro de baixo orçamento que consegue incluir tudo o que precisamos para ter um bocado de diversão. Dinossauros, violência e personagens peculiares e agradáveis de assistir.

Há algumas figuras aqui que se destacam até mais do que os dinossauros, como Diane Ladd. Sobretudo perto do final quando ela começa a se tornar poética e monologar sobre a grandeza da Terra e a natureza horrível da humanidade… Sua personagem é totalmente ridícula, mas ela consegue fazer o apreciador de uma boa tralha a não desgrudar os olhos da tela. E o curioso é que enquanto Ladd fazia este filme de dinossauros de baixo orçamento, sua filha, Laura Dern, era uma das estrelas de PARQUE DOS DINOSSAUROS. Que fase… Ned Bellamy não é um ator muito conhecido, mas também tem uma participação engraçadíssima por aqui, como diretor do conglomerado. No elenco, ainda temos Clint Howard interpretando o estranho da cidade local, o seu papel habitual. E qualquer filme em que Clint Howard tem a cabeça arrancada por um dinossauro já vale uma olhada.

Não querendo fazer nenhum tipo de comparação entre as duas produções, mas ao contrário de PARQUE DOS DINOSSAUROS, em vez de ver uma infinidade de espécies diferentes, em CARNOSAUR somos apresentados a apenas dois tipos de dinossauros, Raptors e um T-Rex. Se você só pode escolher apenas duas espécies, essas são definitivamente as escolhas certeiras. E ambos são confeccionados por meio do uso de efeitos especiais práticos, bonecos animatrônicos, miniaturas, etc… Claro, eles nunca parecem particularmente convincentes, as pessoas ficaram mal acostumadas com os dinossauros de Spielberg, mas a coisa aqui realmente funciona.

Todos os dinossauros são visualmente honestos, bem projetados, há só o pequeno detalhe de fazê-los se moverem… Hahaha! São um bocado rígidos e desajeitados. O tiranossauro é perfeito, até que ele começa a se mover. Mas não me interpretem mal, não são efeitos amadores. Você nunca vê zíperes, cordas, orifícios ou outras falhas, e os dinossauros nunca parecem estar “flutuando” ou algo parecido. O grande John Beuchler ficou responsável pela coisa e, apesar do orçamento, cumpre o que promete.

Já as cenas de violência, essas sim, merecem destaque… CARNOSAUR tem uma boa dose de gore e não tem receio algum de matar personagens. Na verdade, fiquei bastante surpreso com algumas das mortes. O filme se dá ao trabalho de apresentar figuras para logo em seguida armar para serem dilacerados por uma das criaturas. A sequência que o grupo hippie, acorrentado nos tratores no campo de obra, acaba devorado por um Raptor, sem poder fugir e se defender, é um dos momentos mais sublimes do filme, com direito a membros arrancados e muito sangue… E quando começam a mostrar mulheres dando à luz a dinossauros, o resultado pode ser bem nojento. Talvez seja o filme com mais violência gráfica que o Corman produziu.

Adam Simon, além de ter escrito o roteiro, faz um trabalho decente também na cadeira de diretor. Não é um sujeito brilhante, mas sabe exatamente o que é preciso colocar na tela para alegrar o coração dos fãs de B Movies, e tenta manter o ritmo rápido e agitado o suficiente para tornar CARNOSAUR realmente divertido. Um momento ou outro que a coisa fica enrolada, como a sequência da revelação da Dr. Triptree, montada com ações paralelas, um pouco longa demais. Mas no geral, CARNOSAUR é essa belezura do baixo orçamento. Não tenta copiar PARQUE DOS DINOSSAUROS, até porque seus realizadores nem o tinham como referência, a não ser a ideia de que era preciso entrar na onda dos filmes de dinossauro, e fizeram com muita personalidade. E, claro, com um óbvio objetivo de ganhar alguma grana. Você pode até não ficar emocionado com efeitos especiais espetaculares de dinossauros em CGI, mas certamente vai sair satisfeito com o que Corman e sua trupe fizeram aqui. Que é ser basicamente um filme de dinossauros mastigando humanos.

E até que o que filme teve relativo sucesso, recebeu alguns comentários de críticos “sérios”, como Gene Siskel, a dupla de Roger Ebert no programa Siskel & Ebert, e se tornou uma referência no circuito de exibição de “meia-noite” nos anos 90. E para expandir ainda mais seu universo, acabou ganhando duas continuações nos anos seguintes que também valem uma conferida.

FORÇA SINISTRA (1985)

Eu não assistia a FORÇA SINISTRA (Lifeforce), de Tobe Hooper, por anos e anos e praticamente a única coisa que me recordava era… Bom, se você já assistiu a este filme alguma vez na sua vida, vai saber exatemente o que é. Se não viu, vai saber no momento em que botar os olhos… Mas vamos ser adultos por aqui. Ano passado eu revi para gravar um episódio do Cine Poeira e desde então tenho aceitado o fato de que se trata não apenas de um dos meus sci-fi‘s favoritos, mas de um dos meus filmes favoritos da vida. Estou realmente convencido disso. É a obra-prima de Tobe Hooper, uma das produções mais caprichadas da Cannon Films e revi mais uma vez agora para tirar a prova e saber se eu não estava ficando doido. Bem, talvez eu esteja, mas pelo menos não tenho dúvidas. Realmente se trata de um dos grandes fimes da história do cinema, na minha opinião.

A história da produção de FORÇA SINISTRA começa com um romance cujo título é The Space Vampire, publicado em 1976, escrito por Colin Wilson (escritor, filósofo e especialista em sobrenatural). Com um conceito interessante, obviamente atraiu a atenção de Hollywood no período e o livro rapidamente se transforma em um projeto de filme. Eu não li o romance, mas tenho informações que dizem que não é o material mais fácil de se adaptar. Um terço da história se passa no espaço e o resto na terra onde acontece uma caça aos vampiros espaciais, tudo narrado por formulações filosóficas… Do tipo que acho que seria necessário um Kubrick ou um Tarkovsky para levar adiante tal feito.

Mas, como sabemos, de vez em quando os executivos de Hollywood são muito insistentes. Algum estúdio realmente comprou os direitos do livro, deixando o trabalho dos futuros roteiristas num difícil desafio de adaptar. Calhou, em algum momento, à Dan O’Bannon e Don Jakoby o afazer. Ao longo do tempo, como era de se esperar, o livro foi passando de mãos em mãos entre os estúdios até parar com os nossos guerreiros da Cannon Films, que realmente tocaram o projeto adiante, em meados dos anos 80. Naquele período, ninguém menos que o diretor de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, o inigualável Tobe Hooper, acabara de ser contatado pelo estúdio. O sujeito estava numa fase estranha e a polêmica que cercou as filmagens de POLTERGEIST (ainda seu maior sucesso comercial) fez a carreira de Hooper estagnar. Esteve associado por um tempo ao projeto de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, que acabaria sendo dirigido pelo já citado Dan O’Bannon, mas foi com a Cannon que Hooper voltou às atividades sob um contrato para três filmes, sendo que um deles obrigatoriamente deveria ser O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2.

Mas antes, jogaram no colo de Hooper o famigerado projeto de FORÇA SINISTRA. Com um orçamento absurdo de US$ 25 milhões de dólares, que era coisa pra burro na época, foi a produção mais cara da Cannon até então. Uma mistura de ficção científica e horror, que não esconde lá suas ambições de tentar aproveitar o sucesso de um filme como ALIEN – O 8º PASSAGEIRO, de Ridley Scott e roteiro de quem? Mais uma vez o nosso amigo Dan O’Bannon. Mas basta assistir ao filme para perceber que a visão e o autorismo de Tobe Hooper se sobressaem. Fica evidente que o homem está feliz em reencontrar as câmeras depois de três anos sem filmar, criando um espetáculo visual/sensorial único, demonstrando maestria na condução de sequências grandiosas, mostrando a seus detratores que ele era capaz de administrar um grande orçamento e efeitos especiais. Que era capaz de fazer um filme especial.

E esse filme, meus caros, é FORÇA SINISTRA.

Na trama, enquanto investigava o cometa Halley, que passava perto da Terra em 1986, a tripulação americana/britânica da espaçonave Churchill, comandada pelo coronel Tom Carlsen (Steve Railsback), descobre uma nave misteriosa escondida na cauda do cometa. Um grupo da tripulação decide se aventurar dentro da nave e descobre coisas magníficas do imaginário sci-fi, como morcegos gigantes mumificados, bem como três sarcófagos de vidro nos quais estão dois homens e uma mulher (Mathilda May), que são levados a bordo do Churchill.

Logo depois, toda a comunicação com a nave é perdida e é enviado um outro ônibus espacial para investigar. Eles descobrem um Churchill destruído por dentro por conta de um incêndio, mas os três corpos misteriosos ainda estão intactos. Eles são trazidos à terra, em Londres, para ser mais exato. Quando esses corpos despertam, inicia-se um verdadeiro apocalipse na cidade. Descobrimos que o Col. Carlsen não morreu. Ele voltou à Terra em uma cápsula de fuga com sua própria história sobre o que aconteceu, mas mesmo que ele possa dar algumas respostas, já não se sabe se vão ser capazes de evitar a destruição em massa que está ocorrendo em Londres.

De certa maneira, apesar da trama parecer simples, a forma como as coisas transcorrem deixa uma impressão de bagunça narrativa. O roteiro de O’Bannon e Jakoby é tão errático em como está estruturado, que é difícil entender o quão coerente isso poderia parecer nas páginas do script. Mas ao mesmo tempo, é tudo o que você deseja em um filme desse tipo – tem cenas no espaço sideral, temos zumbis-vampiros, temos caos e explosões enormes. Tem até uma garota nua andando por aí matando pessoas! Que é, obviamente “aquilo” que eu lembrava antes de rever… É uma trama totalmente dispersa, mas tratada por Tobe Hooper de forma tão fascinante, que não há como negar que ele definitivamente sabe como tirar vantagem do material, da escala monumental do apocalipse instaurado e, claro, do conceito de uma garota nua por aí a matar pessoas.

Mathilda May passa 99% de seu tempo na tela completamente nua. Apesar disso, não posso dizer que a nudez é gratuita. A maioria dessas cenas são tiradas diretamente do livro e da essência dessas criaturas, esses vampiros espaciais que se alimentam das forças vitais humana, sendo o sexo um desses elementos. Portanto, o teor sexual não foi adicionado apenas para apimentar o filme. Embora, é claro, os atributos físicos de Mathilda May certamente ajudaram a vender o filme…

Ainda sobre o elenco, uma das questões que atingiu a produção foi a recusa consecutiva de vários atores renomados que, normalmente, não são tão criteriosos nas escolhas de seus papeis (como Christopher Lee e Klaus Kinski). Hooper então recorre a Steve Railsback, que está muito bem no seu personagem. Aparentemente, houve uma tentativa consciente de fazer o seu Col. Carlsen morrer ainda na nave espacial, Churchill, fazendo um filme sem personagem principal, o que só aumentaria a sensação de desorientação que podemos sentir às vezes. É até meio estranho, portanto, vê-lo retornando ao filme depois… Mas acho que perceberam a enrascada que teriam sem uma figura central.

Com as filmagens feitas na Inglaterra, Hooper acabou tendo outras escolhas interessantes para completar seu elenco, apesar de Chris Lee e Klaus Kinski serem insubstituíveis. Mas o cinema inglês está cheio de atores secundários de qualidade, como Peter Firth, Frank Finlay, Michael Gothard e Aubrey Morris, que entregam ótimos momentos por aqui. Sem esquecer um quase desconhecido Patrick Stewart, que viria a ser o futuro Jean-Luc Picard da série Star Trek: The Next Generation e o professor Xavier dos X-MEN.

O papel dos vampiros espaciais também apresentou algumas questões, sobretudo para escolher o papel feminino, já que a maioria das atrizes anglo-saxãs recusou a proposta, pela grande parcela de cenas de nudez. Foi, portanto, Mathilda May, uma francesa, que herdou o papel, mostrando verdadeiro talento, apesar de uma presença quase silenciosa, mas numa performance muito, digamos, física.

Uma das coisas mais legais de FORÇA SINISTRA é o fato de toda a ação na Terra se passar em Londres e arredores. E o filme tem mesmo uma atmosfera da tradição do horror/sci-fi britânico, acho que seria o mais próximo de algo produzido pela Hammer Films se eles ainda existissem nos anos 80. Não há indícios de que foi dirigido por um sujeito do Texas ou produzido por uma dupla de primos israelenses malucos. Desde os atores e diálogos, o tom levemente melodramático das situações, o estilo visual com movimentos de câmera mais contidos, o ritmo menos apressado. Talvez seja esse o motivo do fiasco? O filme não querer ser mais um épico sci-fi americano exagerado, mas sim um épico sci-fi britânico exagerado e de muito bom gosto? O fato é que o filme foi um grande fracasso quando lançado, uma indicação real de que a fórmula da Cannon realmente não funcionaria em uma escala de blockbuster.

Mas pelo menos cada centavo gasto do gordo orçamento é visível na tela, desde os incríveis efeitos visuais de John Dykstra até um monte de coisas legais com animatrônicos, algumas cenas de violência, cenários incríveis, tanto em miniaturas quanto em escala gigantesca. O final é um dos melhores que existe, de uma intensidade impressionante e belas imagens de puro horror. A enorme nave espacial pairando sobre Londres atraindo as almas de todas as pessoas que estão infectadas através de um enorme feixe azul. Ao mesmo tempo, a infecção está se espalhando e transforma cada indivíduo na cidade em um monstro/vampiro/zumbi; cenas dessas criaturas em massa acabando com Londres, pontos de referência sendo feitos em pedaços, uma atmosfera de loucura destrutiva e, no meio disso tudo, uma cena de sexo alucinante entre Railsback e Mathilda May em uma igreja no meio do feixe azul. Tobe Hooper era foda…

FORÇA SINISTRA era o filme que deveria ter revivido a carreira de Hooper, o que não aconteceu, comercialmente falando. Mas, como já mencionei, isso aqui foi um fracasso. Hoje tem ganhado seus fãs, incluindo o autor desse blog. Hooper acabou cumprindo seu contrato com a Cannon, entregando os dois filmes que ele ainda devia ao estúdio: INVASORES DE MARTE e a maravilha que é O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2. Ou seja, o sujeito continuou em atividade, entregando ainda alguns dos mais belos exemplares do horror americano nas décadas seguintes, como COMBUSTÃO ESPONTANEA e THE MANGLER (esse eu sei que muita gente odeia, mas foda-se, não é mesmo?), construindo uma carreira fascinante e se consolidando como um dos maiores mestres do gênero.

Não deixem de conferir o episódio do Cine Poeira, onde eu, Luiz e Osvaldo conversamos sobre FORÇA SINISTRA (é só clicar aqui) e separem um tempinho para ler meu manifesto no Apoia-se. Precisamos da contribuição de vocês para mais posts como este e com mais frequência. É só clicar no botão abaixo:

MIRACLE MILE (1988)

Se você ainda não assistiu a MIRACLE MILE, de Steve De Jarnatt, é provável que tenha, quando for conferir, a mesma reação que eu tive há poucos dias quando assisti pela primeira vez: “por que, raios, eu nunca tinha visto isso antes?!?!“. Me senti a última pessoa do planeta a ter contato com a obra, sobretudo por se tratar de um filmaço, um petardo oitentista incrível, daqueles que não dá para acreditar que não seja mais comentado e celebrado, embora hoje não deixe de ter um certo status cult. Mas, enfim, os filmes estão aí para serem vistos e redescobertos, mesmo que se chegue beeeem atrasado para as atividades.

Desse diretor, Steve De Jarnatt, só conhecia seu filme anterior, CHERRY 2000, e que dedicou praticamente toda a carreira em séries de televisão. No meio disso, De Jarnatt escreveu essa maravilha em forma de pesadelo cinematográfico que pode ser definido como um romance que se desenrola na contagem regressiva para o apocalipse! Na trama, enquanto passeia por um museu em Los Angeles, Harry (Anthony Edwards) e Julie (Mare Winninghan) se cruzam várias vezes, começam a conversar e logo a atração mútua entre os dois corações solitários fica evidente. Tendo combinado um encontro após a meia-noite com Julie, quando termina seu turno de garçonete em um restaurante 24 horas em Miracle Mile, o bairro de Los Angeles, Harry decide tirar uma soneca até dar a hora de sair. Mas seu alarme não toca e ele está super atrasado. Julie já desistiu de esperar e foi para casa. Ele tenta ligar pra ela de uma cabine telefônica fora da lanchonete, mas não tem resposta. Enquanto ele se afasta, o telefone toca e ele volta para atender. Acreditando que Harry seja outra pessoa, a voz de um homem perturbado o informa que ele está em um silo na Dakota do Norte, de onde mísseis nucleares serão lançados em menos de uma hora e que a aniquilação mundial está por vir…

Após essa conversa telefônica, Harry adentra a lanchonete e conta o que acabou de ouvir para os clientes da madrugada e planta uma semente que rapidamente se transforma em um pesadelo. A partir daí, o senso de urgência cresce em MIRACLE MILE num ritmo cada vez maior conforme se desenrola a jornada de Harry contra o tempo para localizar e colocar Julie em segurança, numa sucessão de situações peculiares e personagens duvidosos à espreita nas ruas pela noite de Los Angeles.

Com a tensão crescente, impulsionada pela trilha sonora de Tangerine Dream, MIRACLE MILE é o tipo de filme consegue saltar livremente entre gêneros, explorando o romance, a comédia absurda típica de um John Landis e em especial o horror intrínseco em sua premissa, provavelmente porque nunca deixa de levar o apocalipse a sério e o desastre iminente nos parece muito intimista o tempo todo. Enquanto a maioria dos filmes que gira em torno da aniquilação nuclear parece mais épico e crítico em relação às políticas que permitem que tal possibilidade aconteça, na capacidade da humanidade para a destruição e estupidez em uma escala global, MIRACLE MILE acaba focando mais nas relações pessoais que dão sentido à vida.

Os personagens do filme estão constantemente afirmando a necessidade de encontrar, proteger ou pelo menos se reconciliar com seus entes queridos em face da catástrofe. A própria ideia central do filme é ver Harry arriscando sua vida repetidamente na esperança de se reunir com Julie e salvá-la. Mas se MIRACLE MILE é um filme com coração, também é marcado por explosões de violência e situações pesadas, do tipo que surge da urgência e do desespero. Há uma sequência perturbadora onde, após uma série de contratempos, dois personagens se abraçam e um pergunta ao outro: “este é o seu sangue ou o meu?”, com uma inocência estranha que apenas ressalta a natureza horrível da situação. Os mesmos personagens tentam subir uma escada rolante que está descendo, e essa imagem, a princípio um tanto cômica, é aterradora e parece uma metáfora apropriada para o que as pessoas em Miracle Mile estão fazendo – tentando inutilmente seguir numa direção sem ter a noção de que não vão a lugar algum. Dentro de instantes, tudo pode acabar…

Anthony Edwards e Mare Winningham estão perfeitos, cativantes, tem química na tela e o filme investe o tempo suficiente para estabelecer a trama romântica no início e fazer o espectador ser tomado pelo desejo de vê-los se saindo bem dessa situação, embora o destino conspire implacavelmente para separar os dois. Quase todos os outros personagens da história aparecem apenas brevemente, mas há momentos memoráveis com várias figuras legais que vão surgindo na trama e compondo um bela galeria, como Edward Bunker (o Mister Blue de CÃES DE ALUGUEL), Robert DoQui (o chefe de polícia de ROBOCOP), o veterano John Agar, Mykelti Williamson, que faz um vendedor de toca-fitas roubados que Harry faz amizade, e até o piloto de helicóptero gay vivido pelo grande Brian Thompson, que Harry recruta para levá-lo para fora da cidade, mas apenas com a condição de levar seu namorado junto.

Os momentos finais de MIRACLE MILE são de tirar o fôlego – reconfortantes e dolorosos ao mesmo tempo – e permanece único em sua capacidade de evocar totalmente o terror do apocalipse sem nunca zombar do poder do amor… Filmaço. Saiu em alguma das caixas de Cinema Sci-Fi da Versátil pra quem quiser conferir.

PLANETA DOS MACACOS (2001)

Recentemente, antes de ficar quase dois meses sem postar nada por aqui (esses últimos meses de 2020 estão fodas), me aventurei a peregrinar a série de filmes PLANETA DOS MACACOS. Escrevi sobre os cinco filmes clássicos, mas fiquei devendo os mais recentes que foram surgindo ao longo das décadas… Nos últimos anos até apareceu uma nova trilogia, cujo último filme eu nem cheguei a ver. Mas dessas refilmagens/reimaginações/continuações, o que eu realmente aprecio, apesar da fama ruim que possui, é o PLANETA DOS MACACOS de 2001, dirigido pelo Tim Burton.

A história não é exatamente igual a do original de 1968. Tim Burton chamou de “reimaginação” da mesma história (lembrando que o original é baseado no romance La Planète des Singes, de Pierre Boulle). Neste PLANETA DOS MACACOS também temos um astronauta americano caindo num estranho planeta onde humanos são a sub-espécie escravizada por uma população de macacos tiranos e militarizados. A nave de Leo Davidson (Mark Wahlberg) cai no planeta depois de sair de uma tempestade magnética durante uma busca mal sucedida a um simpático chimpanzé utilizado como cobaia em missão de reconhecimento. Com a sua experiência “avançada”, Davidson será o líder de uma revolução contra os símios, tendo como aliados um grupo de humanos primitivos, mas que já falam um bom e velho inglês para se comunicar, diferente dos humanos dos primeiros filmes originais. Há também dois macacos “progressistas” na luta pela igualdade entre as espécies. Um deles interpretado pelo grande Cary-Hiroyuki Tagawa, o Yoshida, vilão de MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS.

O elenco, aliás, é um dos principais destaques do filme: Helena Bonham Carter, Paul Giamatti, Michael Clarke Duncan, Kris Kristofferson, até Charlton Heston, o astro do filme original, aparece. Desta vez maquiado de macaco. Quem rouba a atenção de todos, no entanto, é Tim Roth como General Thade, um chimpanzé militar sádico, comandante do exército que quer ter controle sobre a civilização dos macacos, numa atuação entre o exagero e a expressividade aterradora que eu curto bastante.

Wahlberg é tecnicamente o protagonista de PLANETA DOS MACACOS, mas além desse baita elenco povoando o filme, as verdadeiras estrelas aqui são as maravilhosas criações de Rick Baker, um dos maiores maquiadores de Hollywood. E até hoje, passados praticamente vinte anos do lançamento, o resultado por aqui ainda é de impressionar. Ao contrário do original, os movimentos dos personagens macacos, seus maneirismos e até expressões faciais são muito mais parecidos com os de símios reais. Lembro que foi bastante divulgado na época que o treinamento corporal dos atores para recriarem os movimentos de macacos foi um trabalho árduo. Mas o resultado na tela chama a atenção. Especialmente porque Burton se preocupa bastante em explorar detalhes cotidianos dos símios, que é uma das melhores coisas do filme.

Uma coisa que PLANETA DOS MACACOS de 1968 conseguiu, além de marcar toda uma época e dar início a uma franquia lucrativa com mais quatro filmes e duas séries de TV, foi de trazer à tona idéias pertinentes sobre o estado das coisas daquela época (ameaça nuclear, política, racismo). Visto por esse lado, essa versão de Tim Burton até tenta lançar um olhar sobre algumas destas questões, em especial sobre igualdades e o militarismo da era Bush, ou seja sobre a estupidez do militarismo; e nesse sentido, PLANETA DOS MACACOS não deixa de ser um filme político. Mas ao mesmo tempo não me parece muito interessado em se aprofundar em nada disso. Acaba se saindo mais como um divertido filme de ação/sci-fi, extremamente bem feito e com Burton dirigindo com consciência da responsabilidade que tem em mãos.

Quero dizer, o sujeito era um dos diretores mais interessantes de Hollywood na época e fica evidente do início ao fim a pressão que colocaram pra cima dele com essa “reimaginação”. Na própria mecânica do filme, na sua incapacidade de ousar, percebe-se que Burton não teve muito espaço para imprimir traço reconhecível do seu estilo, buscando respeitar o material original e não ferir os sentimentos das fanzocas da saga. PLANETA DOS MACACOS poderia ter sido dirigido por qualquer diretor competente do período que o produto final não seria muito diferente. Não tô dizendo que o filme é totalmente genérico, a mão do diretor para o tipo de aventura que ele cria aqui até carrega um bocado de sua assinatura, mas acredito que está bem longe do autorismo do sujeito que apropriou-se do universo de Batman e deu-lhe toda uma identidade pessoal. Esse Tim Burton, e o de ED WOOD, EDWARD MÃOS DE TESOURA, MARTE ATACA, A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA, é que não parece estar aqui.

Sinto um pouco disso no quesito “ação”, que resume-se basicamente a um corre-corre que não chega a empolgar muito. A batalha final e todo o ato que se desenrola a partir dali já desperta maior interesse… Chega a lembrar o Burton de antes. Mas, tirando esses detalhes de autorismo, o trabalho de Burton como artesão de estúdio é impecável, feito na medida para respeitar o filme de 68. Mas fico imaginando o que um Paul Verhoeven faria com esse material. Com certeza ia rolar uma “aproximação” mais íntima entre Wahlberg e a Bonham Carter de macaca que ia arregalar uns olhos. Seria genial. Por aqui, só um flerte distante, o máximo que Burton conseguiu…

De qualquer forma, é uma pena que boa parte do público não tenha curtido essa versão. É um filme divertido, mas que a rapaziada não embarcou, em especial pelo desfecho surpresa, que é tão bom quanto o do original (sem o mesmo impacto, claro). Lembro que me surpreendeu muito na época e me deu esperanças de que tivessem continuações a partir dalí, mesmo dirigidas pelo Burton… Frustrante que nunca tenha rolado. Esse PLANETA DOS MACACOS acabou sendo seu último grande filme na minha opinião. Sei que nem todo mundo pensa assim, mas a partir daqui foi só ladeira abaixo. Não consigo gostar de quase nada que ele dirigiu depois, e o que gosto é com certa distância, com ressalvas (SWEENEY TODD, O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES e SOMBRAS DA NOITE). Já vi e revi vários e não me descem.

Mas PLANETA DOS MACACOS valeu a pena. Valeu na tela grande, na época do lançamento, pelas maquiagens, efeitos especiais, o elenco fantasiado de macacos e um senso de aventura bem legal, e valeu a pena rever agora pela primeira vez depois de tantos anos.

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (1973)

Último filme da franquia clássica. Aqui a coisa dá uma derrapada, meio que despiroca… Num mau sentido.

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS se passa no máximo poucas décadas depois de A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS. Nesse intervalo, a Terra foi dizimada por um holocausto nuclear, mas não vemos isso acontecer. Fuén! Uma decepção para os fãs que sempre quiseram ver como a estátua da liberdade foi parar naquele estado do primeiro filme… Os macacos evoluíram num tempo récorde: já falam e raciocínam normalmente, algo que deveria acontecer em milênios, e temos até uma raça de humanos mutantes pós-nucleares que vivem sob as ruínas de LA.

Mas a falta de lógica temporal é o menor dos problemas de A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS. A história é ruim, os personagens, com exceção de um ou outro, parecem cansados da própria série; tudo parece desenrolar às pressas, com um ritmo desconjuntado, acaba não tendo nada muito marcante… O clímax é o mais sem graça possível (tanto a batalha final entre humanos e macacos quanto o duelo de Caesar contra um desafeto em cima de uma árvore).

Na trama, Caesar (novamente Roddy McDowall) lidera uma pacífica comunidade mista de macacos e humanos, mas seu modo de vida está ameaçado tanto por dentro quanto por fora da comunidade. Não apenas o General Aldo (Claude Akins) e seu exército de gorilas estão conspirando para derrubar Caesar, mas o governador Kolp (Severn Darden), que lidera a tal raça de mutante, decide atacar o acampamento.

Caesar quer conhecer mais sobre seu passado, sobre seus pais, então resolve fazer uma jornada com MacDonald (Austin Stoker) – não o mesmo MacDonald do último filme, mas o irmão do personagem, porque Hari Rhodes não retornou para o seu papel – e um orangotango chamado Virgil (um dos poucos personagens que salva), até as ruínas de Los Angeles onde estão os arquivos gravados dos depoimentos de Cornelius e Zira lá do terceiro filme. O problema é que dão de cara com os mutantes que vivem lá e desencadeia uma guerra.

Isso é basicamente o que temos de interessante no enredo. O resto é pura embromação. A maior parte do filme é bastante pálida. Há uma cena na qual o filho de Caesar é assassinado pelo general Aldo e não senti absolutamente nada pelo moleque… O filme não constrói nada de interessante sobre o personagem. Não constrói nada também sobre as motivações para o conflito entre macacos e o que resta dos humanos.

Fica evidente logo de cara que a Fox já não parecia muito interessada na franquia (apesar de TODOS os filmes da série terem sido sucessos comerciais) e reduziu consideravelmente o orçamento. Os realizadores tiveram que suar para criar algo. A grande batalha do título se resume nuns gatos pinga… Quero dizer, macacos pingados atirando de um lado para outro contra uns humanos que avançam leeeeentamente de carros, motos e um ônibus escolar em direção à comunidade, tudo filmado sem tensão e emoção alguma. E olha que o diretor é o mesmo J. Lee Thompson do filme anterior, cuja batalha final é épica!

Enfim, um balde de água fria depois de revisitar os outros filmes e ser surpreendido positivamente… E o que é aquele final, com a estátua de Caesar escorrendo uma lágrima? Decepcionado com o capítulo final da série, talvez? Até eu quase chorei de tão constrangedor… Nem John Huston fantasiado de macaco salva alguma coisa. Um fim amargo para uma série que ainda me fascina.