ALDRICH – PARTE 4: 1967– 1970

OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen, 1967)
Foi bom rever depois de tantos anos, sobretudo nesse contexto de maratona do Aldrich. Não é a obra-prima que eu lembrava, é um filme bem falho – em ritmo, tom em alguns momentos, decupagem – mas não dá pra deixar de citá-lo como o filme por excelência do subgênero Men on a Mission na Segunda Guerra, com seu elenco de machões fodões dos anos 60, que obviamente tem seu valor como entretenimento. E até por isso é bem provável que os críticos americanos na época não tenham entendido muito a abordagem de Aldrich e rotularam o filme como fascista, excessivamente violento, cínico. Ao contrário de ATTACK!, que é mais austero, OS DOZE CONDENADOS nunca esconde seu status de entretenimento espetacular.

Mas há muito a se pensar aqui, o filme apresenta a ideia de que a guerra não é nobre, é suja. E os motivos podem não parecer mais tão puros e honrados como eram antes. Claro que pelo tom, pela ação e atos de heroísmo, os sacrifícios dos personagens, pode-se passar batido o teor anti-guerra. Por outro lado, a atitude anti-autoritária e anti-militar exibida, uma história de criminosos condenados (que é algo tão aldrichiano) forçados a realizar um ataque contra o alto comando alemão não esconde suas reais intenções, especialmente como alegoria do Vietnam…

No mais, as atuações são notáveis e o caráter não convencional dos personagens lhes confere um carisma sem precedentes para a época, estabelecendo um novo tipo de herói, com o John Cassavetes em destaque como um rebelde individualista; Jim Brown como um soldado negro em busca de respeito – e seu ato final cheio de simbolismo; e, é claro, Charles Bronson e Lee Marvin, dois dos maiores atores de todos os tempos dividindo a tela, impecáveis.

A LENDA DE LYLAH CLARE (The Legend of Lylah Clare, 1968)
Um diretor de cinema arrogante e autoritário (Peter Finch) planeja filmar uma cinebiografia de uma estrela de Hollywood renomada (Kim Novak), mas que havia falecido uns anos antes. E contrata uma atriz desconhecida (também Kim Novak), que é sósia da personagem, para interpretar o papel principal.

Mais uma fábula ácida de Aldrich sobre Hollywood, só que agora me parece mais direcionado ao contexto do studio system daquele período, no fim dos anos 60, com todas as mudanças que estavam acontecendo no surgimento da Nova Hollywood… Só que o olhar melancólico e melodramático para os indivíduos que habitam esse universo aqui não chega a ser tão bom quanto THE BIG KNIFE. Sequer chega ao nível do camp divertido… É um dos filmes do Aldrich que menos gostei de descobrir nessa peregrinação. Até curto o Peter Finch e Kim Novak aqui, mas o filme se arrasta com longas sequências de conversas monótonas com ausência de qualquer coisa remotamente interessante acontecendo na tela na maior parte do tempo, com raras exceções.

Pelo menos tem um dos finais mais inesperados, absurdos, originais, ousados e geniais da história do cinema americano! Sério, não vou contar o que acontece, é preciso ver para crer…

TRIÂNGULO FEMININO (The Killing of Sister George, 1968)
Com o sucesso de OS DOZE CONDENADOS, Aldrich comprou seu próprio estúdio e embarcou num breve período independente, cujos dois primeiros filmes foram sérias apostas artísticas. O primeiro foi o filme acima, que não curto muito. E o outro foi este aqui, que é melhor, aborda questões mais ousadas, notório pela forma como trata lesbianismo, incluindo uma sequência perto do final que deve ter escandalizado os puritanos da época… Não à toa, foi um dos primeiros filmes a receber a classificação X sob o novo código. Antes de X se tornar sinônimo de pornografia. A trama é sobre uma atriz de novela na Inglaterra (Beryl Reid), cujo mundo começa a desmoronar quando teme que seu personagem será retirado da série, o que abala sobretudo o relacionamento com Childie (Susannah York), sua companheira bem mais jovem. Enfim, ainda não acho que Aldrich esteja na sua melhor forma como narrador nesses dois filmes pós-DOZE CONDENADOS. O sujeito já foi mais vistoso com a câmera e por aqui é tudo muito teatral (é preciso destacar pelo menos que os atores estão ótimos) e um bocado monótono, mas sem dúvida não dá pra negar que o homem continuava a ser um dos diretores mais provocadores e subversivos do cinema americano daquele período.

ASSIM NASCEM OS HERÓIS (Too Late the Hero, 1970)
OS DOZE CONDENADOS é um clássico absoluto do Aldrich, um de seus trabalhos mais famosos, além de ter um dos elencos mais fodas da história. Mas dentre seus men on a mission, meu favorito é este menos conhecido ASSIM NASCEM OS HERÓIS. Até tem algumas semelhanças com OS DOZE CONDENADOS, com um pelotão formado para uma missão suicida durante a segunda guerra, só que aqui a trama se passa numa ilha dominada por japoneses.

O negócio é que tudo é mais bem resolvido, mais direto, mais cínico, violento e até mais divertido que o filme de 67. Há uma situação tensa que se estabelece a partir da metade que é de tirar o fôlego, com os soldados em fuga e se escondendo na selva, e os japoneses na cola, um drama de sobrevivência conduzido com habilidade pelo Aldrich. Cliff Robertson tá longe de ser um Lee Marvin ou Charles Bronson, mas o filme compensa com quem realmente rouba o filme pra si, que é o grande Michael Caine, fazendo uma figura moralmente ambígua e que é também um dos personagens mais fascinantes da filmografia do Aldrich.

ALDRICH – PARTE 2: 1956-1959

FOLHAS MORTAS (Autumn Leaves, 1956)
A carreira de Aldrich possui algumas inserções, em meio a tantos filmes masculinos, de exemplares que exploram o universo feminino com protagonistas fortes. FOLHAS MORTAS foi o primeiro, um drama que começa como um estudo sobre solidão antes que a datilógrafa interpretada por Joan Crawford receba a proposta de casamento de um homem muito mais jovem (Cliff Robertson), desencadeando a segunda metade do filme impregnada de confusão edipiana e neuroses esquizofrênicas. Aldrich, com uma câmera inventiva, eleva um conto de desejo feminino a uma obsessão histérica e tensão hitchcockiana. Não é perfeito, acho que esse material renderia mais nas mãos de um Sam Fuller (sobretudo como as coisas se desenrolam no desfecho), mas é bom pra ver como Aldrich evoluiria em relação a esse universo feminino em filmes futuros. E as atuações de Crawford e Robertson são tão boas que até passo pano pra alguns detalhes…

MORTE SEM GLÓRIA (Attack, 1956)
Eu nunca tinha visto, então estava esperando uma aventura de guerra escapista e divertida, como tantas outras do período, e o Aldrich vai lá e entrega um dos melhores e mais amargos manifestos anti-guerra produzido em Hollywood durante os anos 50, transcende até o drama de guerra convencional. Na verdade, acho que já dá pra perceber até aqui que nada em Aldrich é convencional, tudo é mais complexo e humano. 

A produção não teve a habitual cooperação do exército dos EUA, que não gostou da representação de seus oficiais no filme, então Aldrich foi forçado a realizá-lo com um orçamento pequeno em pouco mais de um mês de filmagens. Acabou sendo uma lição pro diretor, ainda que tivesse que aprendê-la outras vezes, constantemente se vendo em conflito com algumas cabeças de estúdio que não gostavam dos temas que ele escolhia filmar. Ao londo da carreira, Aldrich encontraria a incompetência nos estúdios da mesma maneira que a retrata o exército americano em MORTE SEM GRÓRIA – guardando as devidas proporções – e sofreu por isso, perdendo sua própria companhia de produção em mais de uma ocasião. Mas continuou lutando e encontrou sucesso ao parecer seguir as regras enquanto na verdade as desmantelava – quer blockbuster popular mais ácido e cínico do que OS DOZE CONDENADOS? Seu ataque à complacência, incompetência e corrupção em MORTE SEM GRÓRIA é tão forte quanto o de Kubrick em GLÓRIA FEITA DE SANGUE e eu diria até mais afiado e menos sentimental. Um filme que diz tanto sobre o exército americano e a ineficiência da hierarquia militar quanto da própria visão desprezível do diretor em relação a figuras de autoridade. Vale destacar as atuações maravilhosas de Jack Palance – SPOILER expressivo até fazendo papel de cadáver FIM DO SPOILER – e Lee Marvin que consegue engolir o cenário nos poucos momentos que aparece. E tem algumas das cenas de batalhas mais violentas do período.

A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO (Ten Seconds to Hell, 1959)
Um rascunho de OS DOZE CONDENADOS, com o conceito fatalista de “grupo de homens em missão” que depois seria expandido para o filme de 1967, com orçamento maior, astros mais famosos e mais ação… Mas Aldrich costumava ser o primeiro a descer a lenha em A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO, sobretudo na maneira como o retalharam no corte final, tirando mais de meia hora de uma introdução que daria mais sentido para os personagens agirem como agem. Muitos dos próprios admiradores de Aldrich admitem que é um trabalho falho. Nunca tinha assistido, só conhecia essa reputação desfavorável, mas apesar de não ser mesmo dos meus favoritos do diretor, achei excelente… Pode não cumprir a empolgação prometida no título, mas captura um lugar, um tempo, um estado de espírito com uma precisão quase documental, a Berlim pós-guerra, que era um terreno baldio de prédios destruídos por bombas, pobreza extrema, cidadãos desmoralizados e o mercado negro à todo vapor. E é nesse cenário que Aldrich traz à vida um melodrama existencial sombrio que fascina em vários níveis, desde o contraste nos estilos de atuação entre Jack Palance e Jeff Chandler (que estão geniais) até a excelente cinematografia em preto e branco de Ernest Laszlo. As sequências dos desarmamentos de bombas são verdadeiras aulas de tensão.

COLINAS DA IRA (The Angry Hills, 1959)
Das poucas coisas que salva por aqui, é uma ceninha em que Mitchum e mais um sujeito vão para um bar na Grécia e assistem a uma dançarina exótica de topless. Isso mesmo, em 1959 temos um filme do Aldrich, estrelado pelo Mitchum, com uma mulher de seios à mostra… Cheguei a fazer um post por aqui de tão surpreso que fiquei na época que assisti pela primeira vez. Depois fiquei sabendo que o Aldrich nem filmou a cena, mas o produtor Raymond Stross. A cena foi incluída apenas em algumas versões. Provável que na época nem tenham visto a moça de topless… Na verdade, havia muito pouco que Aldrich gostava em COLINAS DA IRA. Ele teve sérios conflitos com a Columbia Pictures por causa de um trabalho anterior, THE GARMENT JUNGLE, no qual fora demitido e substituído por Vincent Sherman, que recebeu o crédito de direção. Isso levou Aldrich a buscar uma maior liberdade artística na Inglaterra, onde fez o belo thriller de desarmamento de bombas que comentei acima. E logo depois iniciou essa nova empreitada, um thriller de espionagem em tempos de guerra, baseado num romance de Leon Uris, ambientado entre partisans gregos e informantes da Gestapo. Parecia um projeto ideal para Aldrich e também tinha o que parecia ser o herói perfeito nos moldes do diretor, o maior ator de todos os tempo, Robert Mitchum.

Mas no fim, o que prometia ser um exemplar emocionante, acabou resultando em algo enfadonho, com uma trama cheia de escolhas erradas, triângulos amorosos aborrecidos e um final totalmente insatisfatório… Há pouca coisa pra se aproveitar nessa aventura. Óbvio que os seios da dançarina exótica, como já disse, é um destaque e que surpreende não pela nudez em si, mas por ser quase um ato simbólico de ousadia e subversão pro tipo de produto de estúdio que é COLINAS DA IRA. Pena que foi logo no pior filme do Aldrich que vi até agora.

Parte 3 em breve.

UM HOMEM A MAIS (1967) E A MATERIALIDADE DO CINEMA DE AÇÃO

Texto de Gabriel Lisboa

Se tem algo que adoro são histórias da arqueologia cinematográfica e de pérolas que ganham uma segunda chance. A restituição à vida de filmes tidos como perdidos ou até então apenas em cópias péssimas e por isso sem chances de ser devidamente apreciados (PELOS CAMINHOS DO INFERNO, COMBOIO DO MEDO), ou ainda aqueles que ganham valor justamente por ser uma cápsula do tempo, aberta depois de décadas para revelar todo o aroma de uma época (MIAMI CONNECTION, NEW YORK NINJA). UM HOMEM A MAIS de 1967 dirigido por Costa-Gavras é um forte candidato a merecer esse reconhecimento tardio. O mais impressionante filme de ação que ninguém viu!

Nunca lançado em mídia física, o filme recebeu só em 2021 um lançamento em Blu-ray pela empresa Arte Editions e é a única versão disponível na Amazon americana. Ou seja, aparentemente nenhuma Arrow, Eureka ou Criterion ainda lançou o filme. Antes disso, o filme só foi reexibido em 35mm a partir de uma restauração feita em 2016, sob a supervisão de Costa-Gavras. O filme no IMDB aparece nomeado em português como TROPA DE CHOQUE: UM HOMEM A MAIS, sendo o primeiro retirado do inglês SHOCK TROOPS e o segundo do título do original UN HOMME DE TROP. Como o filme trata de um grupo de guerrilheiros maquisards (maquis significa literalmente “arbusto”) da Resistência francesa, não faz sentido chamar o filme de Tropa de Choque, termo que designa praticamente o inverso: a tropa de ataque mais bem equipada e treinada de um exército. A Resistência tem como programa ser o estorvo; obrigar a Alemanha a tirar um destacamento do front principal para caçar meia dúzia de rebeldes no meio das montanhas.

Assim sendo, vamos chamar aqui o filme de UM HOMEM A MAIS do original, que de fato, também não é tão adequado. Esse homem a mais é interpretado por Michel Piccoli, mais conhecido pelos filmes que fez com Luis Buñel e por A COMILANÇA. Michel, cujo nome no filme não sabemos, é o 13° homem liberado de uma prisão nazista, quando na verdade apenas doze homens condenados à morte estavam nas contas do grupo de resgate liderado por Cazal, interpretado por Bruno Cremer (COMBOIO DO MEDO, mais um ponto de contato e as semelhanças não param por aqui!). A trama do filme parece que seguirá como linha principal saber se o homem será ou não digno de confiança. Porém, esse estudo de personagem ou suspense, acaba sendo uma história até que bem secundária já que o filme nunca fica nessa investigação. Cazal e seu bando estão em constante movimento para sobreviver, missão atrás de missão. E talvez esse frenesi seja ao mesmo tempo o ponto fraco e forte do filme.

Antes de entrar na análise do filme em si e para apresentar o raciocínio que sustentará a análise, preciso entrar no mérito da comparação. O filme é uma coprodução ítalo-francesa e tem o nome de Harry Saltzman envolvido no projeto; o cara responsável por produzir os filmes de James Bond no período. No mesmo ano de 1967 foi lançado, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES, um bom e divertido filme do espião, porém um pouco datado. Não só pelas caricaturas e yellow-face envolvendo japoneses, mas em termos de ação, o filme é repleto de takes de retroprojeção durantes as perseguições de carro e de helicóptero. Há de fato uma luta muito boa entre Connery e Peter Maivia, wrestler samoano, num escritório. Mesmo que com cenas icônicas, um senso real de materialidade da ação era algo esparso nessa fase com Connery. Consigo lembrar de cabeça de mais duas boas lutas nesse sentido: Bond contra Red Grant e a luta no elevador de OS DIAMANTES SÃO ETERNOS. A coisa muda um pouco na fase Moore, mas a ação começa a se deslocar da trama para evidentes stunts de dublês, como a luta em cima de um avião em 007 contra Octopussy. Inclusive algumas dessas cenas incríveis como a do carro em espiral de Com 007 VIVA E DEIXE MORRER tem essa materialidade subtraída com o efeito sonoro de um apito que mata o take transformando tudo num desenho animado (a stunt é tão bem executada que essa artificialidade é reforçada).

O que UM HOMEM A MAIS realiza então é a mais improvável das adições. Tem o orçamento de James Bond, o ritmo de um ESTRADA DA FÚRIA, a verborragia de um Kevin Smith, somados a câmera presente e materialista de A BATALHA DE ARGEL, trazendo também certo peso e dialética desse filme. E quando digo materialista me refiro a dois pontos principais: primeiro é o caráter essencial da câmera in loco, colada ao corpo dos homens ou agarrada a tanques e caminhões, invariavelmente fruto de um único take, ou seja, é uma imagem imprevisível (até certo ponto). É o completo oposto das imagens em retroprojeção feitas em estúdio, onde se faz de novo e igual (ou o mais próximo possível se formos para o lado purista em que todo take é único). Aliado a isso, para compor esse materialismo, também depreendo aquilo que o crítico André Bazin chamava de montagem proibida, ou seja, quando é importante ou indispensável que dois pontos de interesse de uma cena, ação e reação, apareçam numa mesma tomada, sem cortes (caso contrário o efeito desejado se perde porque o público percebe que há uma trucagem). Há uma cena em que os guerrilheiros estão aprendendo a atirar com uma bazuca, dentro de uma cabana, até que ela dispara por acidente. Num primeiro plano vemos a centelha e fumaça que saem da traseira da arma e mais ao fundo através de uma janela, uma árvore que explode com o tiro da bazuca, tudo em um único quadro. O plano seguinte repete a explosão do lado de fora, que quase atinge alguns atores.

O ponto aqui não é apenas (não serei hipócrita) se regozijar com uma época mais irresponsável do cinema. Até que ponto essa cena opera em dois sentidos simultâneos que não se anulam: ficamos chocados tanto na diegese, pelos soldados dentro do filme, mas mais ainda imaginando como aquilo foi feito? Ou é um momento que apenas te tira do filme? Creio que o já citado ESTRADA DA FÚRIA cria sim uma certa materialidade, porém, ao mesmo tempo, não deixa de sobrepor a ela um verniz de color-grading, fumaças, areia e texturas de pós-produção para justamente esconder essa condição de veracidade, para que o público se deslumbre com os feitos e efeitos práticos, mas sem nunca abandonar o caráter imaginativo da cena. Como se o CGI fosse um alento inconsciente contra o real demais. Há dezenas de pequenos momentos assim em UM HOMEM A MAIS, é claro, menos escandalosos, que não precisam acontecer (e em filmes B não acontecem, pensando num segundo take). Os tiros “furam” as portas, janelas são quebradas e tinteiros são arremessados contra as paredes manchando-as de preto. Fr.7

Um segundo grande momento, talvez o mais genial do filme, é o que o bando foge em um caminhão por uma estrada montanhosa, perseguidos pelos nazistas. O motorista é baleado. Michel Piccoli então sai da parte de trás para tentar assumir o volante do moribundo. Outros vem ao seu auxílio. O velho que acompanha/é prisioneiro do grupo, quase cai do banco de carona. E nisso a câmera se afasta. Numa tomada aérea sem cortes, percebemos que paralelamente a estrada dos nossos heróis corre outra estrada mais abaixo com um caminhão cheio de nazistas. Mas não, é ainda pior! A câmera recua ainda mais e percebemos que é a mesma estrada, que logo mais a frente fará uma curva sinuosa para descer a montanha. Morrem pela curva ou pelos nazistas!

E até aqui não falei da minha sequência favorita! Vou ser breve porque para ela caberia outro texto inteiro. Ela divide-se em três cenas: primeiro a rendição da polícia entreguista, o assalto de um banco/correio e o tiroteio no meio de uma praça contra um atirador solitário; um jovem reacionário. O plano em que Cremer atravessa a praça com a câmera lhe seguindo num plano aberto que parece saído de NASCIDO PARA MATAR. Então, o atirador atinge um dos maquisards antes de ser baleado. Os dois feridos são colocados na traseira de um caminhão. Lado a lado. Centelhas de ódio. A mãe do garoto aparece. Um médico diz que não há o que fazer. A coisa moral a se fazer é matar o garoto ali mesmo ou levá-lo prisioneiro? Tem menos direitos que o também ferido maquisard? O caminhão parte com os dois. Outro jovem pula no caminhão querendo entrar para a Resistência. Seu pai, aparece aos berros e correndo. Cortamos para Cremer. Voltamos para os fundos do caminhão. O pai continua a repreender o garoto (“Sabia que você não daria em nada”, “Pense na sua mãe!”) mas agora lhe entrega uma arma embrulhada num tecido e a cena ganha um caráter até irônico que não se resolve.

Há uma porção de momentos assim. Não ficamos dois minutos sem um diálogo! O que de fato é muito cansativo, ainda mais para quem segue o filme com legendas e não quer desgrudar os olhos da mise-en-scène. Costa-Gavras também coloca em prática vários truques visuais e raccords pelo simples prazer de vê-los funcionar, como um Iñarritu que irrita tanto alguns críticos com sua proeza técnica injustificada. Porém, se as escolhas da operação da linguagem cinematográfica devem ser motivadas então Costas-Gavras acerta em cheio, por que qual seria o tema aqui senão a impossibilidade da contemplação? De como é inviável parar e pensar sobre a (i)moralidade de cada decisão? É 1940 e os nazistas tomaram a França. Uma titubeada significa a morte. Enquanto os Maquisards assaltam o banco/correio, Cazal diz ao bancário que ele assinará um recibo pelo valor que eles estão roubando, “Do que vale a sua assinatura?” diz o engravatado, “É só mostrá-la quando a França estiver livre”. O acerto de contas ficará para depois. Não há tempo para se preocupar com aparências ou revigorar o ânimo dos rendidos. Mas se uma viúva der mole, ninguém é de ferro.

Disse que Michel Piccoli é aquele estranho que os protagonistas não devem confiar, mas como estes carregam o peso de ser o compasso moral do filme (e da Guerra) há esse embate entre a empatia e o pragmatismo. Há vários filmes em que esse tipo de personagem dá falsas pistas de amizade e acaba por se mostrar, de fato, um traidor. Piccoli não chega a tanto, mas é ele o catalisador para caos que leva a morte de vários guerrilheiros e a quase falha completa do plano sobre o qual gira o último ato. Piccoli encarna o pacifista, aquele que não crê que não seja possível resolver as coisas com o diálogo. Porém, se num dia ele é poupado de uma execução por um dos guerrilheiros, que por compaixão, desobedece a uma ordem do QG, no seguinte é capturado com dois cabeças do grupo Maquis por nazistas que se deleitam com os detalhes do enforcamento que carregarão em breve. Uma amostra de que em si qualquer ato de violência é injustificado, mas que talvez seja necessário praticar o imponderável para, paradoxalmente, evitá-lo*. Picolli termina o filme fugindo dos alemães, descendo pelas vigas de uma ponte como um covarde quando comparado aos colegas, mais preocupados com a missão do que com a própria vida. Nem que seja levando um único nazista para vala consigo. O último plano do filme, mais um desbunde, mostra Picolli, e sem dublês, agarrado ao aço a centenas de metros do chão, enquanto a câmera num take aéreo, toma distância, saindo de seu rosto até congelar (freeze-frame) num plano geral da ponte toda. Fr. 17

*Aqui faço um desvio que daria em outro texto, mas o que estou especulando é que seria mais “fácil” fazer um filme antibélico como GLÓRIA FEITA DE SANGUE ou PLATOON do que ao retratar Segunda Grande Guerra. E o curioso é que de um dos períodos mais abomináveis da história, têm-se os nazistas como vilões no sentido mais óbvio e unidimensional possível e dessa forma nasce o men-on-a-mission, filmes “leves” de aventura hollywoodianos, com a vantagem de ser impraticável problematizar o outro, como quando dos algozes indígenas e mexicanos, por exemplo, nos filmes de cowboy. Também de 1967, OS DOZE CONDENADOS, e os fãs do filme que me perdoem o sacrilégio, tem como segundo ato todo praticamente uma Loucademia de Polícia 3. E digo isso não como um demérito, mas só para informar o tom dominante desses filmes. E para amarrar tudo, também desse filão, O COMANDO 10 DE NAVARONE é um filme que por acaso se passa durante a Segunda Guerra, tão mais próximo de um filme de James Bond que além de Harry Saltzman também na produção (como em Um Homem a Mais) e Guy Hamilton na direção conta com Robert Shaw, Richard Kiel e Barbara Bach na frente das câmeras.

MAIS HOWARD HAWKS

LEVADA DA BRECA (Bringing Up Baby1938)
David Huxley (Cary Grant) está esperando para conseguir um osso de dinossauro que precisa para sua coleção de museu. Através de uma série de circunstâncias estranhas, ele conhece Susan Vance (Katherine Hepburn), e a dupla tem uma série de desventuras cada uma mais louca que a outra, o que inclui um leopardo chamado Baby. Delícia rever isso aqui. No primeiro filme que trabalham juntos, Hawks coloca Cary Grant usando apenas um robe feminino, gritando “Because I just went GAY all of a sudden!”. Maravilhoso! É praticamente um filme experimental transgressor, não é possível que exista algo até aquele momento com tanta intensidade, energia, que teste os limites extremos do humor. Hawks conduz um autêntico pandemônio, uma narrativa caótica de situações cada vez mais insanas, onde só o exagero surreal impera, sem nunca tirar o foco dos personagens principais, que estão geniais até no overacting. É, ao mesmo tempo, divertido, engraçado e enervante, tenso… Se eu fosse o personagem de Grant nesse filme, já teria cometido um assassinato.

PARAÍSO INFERNAL (Only Angels Have Wings, 1939)
Merecia um texto maior… Em um porto comercial remoto da América do Sul, o gerente de uma empresa de frete aéreo é forçado a arriscar a vida de seus pilotos para ganhar um contrato importante ao mesmo tempo que uma dançarina americana itinerante para na cidade e balança o seu coração. É como se tudo o que Hawks tivesse feito até este momento da carreira, todos os temas que explorou de forma obsessiva, todos os personagens que criou, todos os diálogos, situações, intrigas, dilemas, TUDO fosse um ensaio pra transcender em PARAÍSO INFERNAL da maneira mais sublime e cristalina possível. É um filme que define toda a obra de Hawks e não teria como ser mais perfeito que isso.

JEJUM DE AMOR (His Girl Friday, 1940)
Adaptação da peça The Front Page, do Ben Hecht, por Howard Hawks. Existem diversas adaptações da coisa, inclusive já havia sido filmado em 1931, por Lewis Milestone. Billy Wilder chegou a fazer nos anos 70, com Lemmon e Matthau e até o Ted Kotcheff fez a sua versão com Burt Reynnolds e Christopher Reeve nos anos 80. Mas diferentemente de todas essas versões Hawks e seus roteiristas trocam o papel do repórter por uma mulher (Rosalind Russell), tornando o “embate” entre ela e seu editor (Grant) muito mais hawksiano. Na trama, uma jornalista ex-esposa do editor de jornal, visita seu escritório para informá-lo de que está noiva e que se casará novamente no dia seguinte. O editor não quer deixar isso acontecer e inicia uma sucessão de loucuras para convencê-la a voltar ao seu antigo emprego como funcionária dele, ou como esposa novamente… O filme não é tão intenso e surreal quanto LEVADA DA BRECA, mas é tão divertido quanto, e possui sua dose de insanidade, diálogos frenéticos se sobrepondo, uma loucura… Grande destaque para Russell, que tá maravilhosa, e Cary Grant, mais uma vez provando que é um gênio da comédia. Um detalhe que acho curioso é que toda a trama girar em torno do sujeito que tá no corredor da morte, enquanto tentam criar notícia em cima disso, o que dá aos personagens um verniz desagradável que a natureza do filme meio que encobre. Na superfície, é uma comédia romântica num universo de jornalistas, mas por baixo esconde algo mais dramático e grave. A cena que uma mulher se joga pela janela é um bom exemplo de como Hawks consegue trabalhar com maestria humor e tragédia ao mesmo tempo.

SARGENTO YORK (Sergeant York, 1941)
Num geral, parece menos uma obra com a assinatura de Hawks e mais um filme de John Ford. O herói Hawksiano morre no anonimato, às vezes em missões suicidas, nos confins de uma floresta na América do Sul. O herói Fordiano que é uma figura mais imponente, alçado ao status de mito histórico da América (os grandes coronéis, Wyatt Earp, Lincoln!, etc…). O protagonista de SARGENTO YORK, pacifista religioso que vira herói de guerra interpretado por Gary Cooper, tá mais pra segunda categoria. Mas isso pouco importa, porque o que temos é um belo filme biográfico, indiscutivelmente um dos mais surpreendentes trabalhos do Hawks em termos visuais e técnicos. Gary Cooper tem um dos melhores desempenhos da carreira e, como sempre, Hawks consegue criar um espetáculo na sequência que se passa no campo de batalha. O roteiro tem vários nomes responsáveis, mas de acordo com Hawks, quem realmente escreveu foi John Huston.

BOLA DE FOGO (Ball of Fire, 1941)
Gary Cooper não era exatamente conhecido por comédias, mas nas mãos de Hawks ele prova que pode nos fazer rir – não no nível de um Cary Grant, mas tudo bem – interpretando um sujeito no meio do caos hawksiano. O roteiro, que teve participação de Billy Wilder, faz uma brincadeira genial com os diálogos e o idioma inglês e coloca Cooper como um jovem professor de gramática que trabalha com um grupo de acadêmicos para criar uma enciclopédia. A confusão começa quando ele se depara com uma cantora de boate tagarela (Barbara Stanwyck) fugindo da polícia por conta do namorado gângster e, ao usá-la para pesquisas das gírias modernas, ele se apaixona por essa distinta senhorita. Pode não ser a melhor comédia de Hawks, mas é bem fácil de agradar. Ajuda muito termos um dos melhores elencos que Hawks já reuniu, a química entre os dois protagonistas e a direção magistral de Hawks.

AIR FORCE (1943)
Como entusiasta da aviação, Hawks acabou realizando algumas coisas relacionadas ao tema, o que inclui alguns de seus melhores trabalhos, como THE DAWN PATROL, que já comentei aqui no blog, e a obra-prima suprema PARAÍSO INFERNAL ali em cima. E também este petardo aqui, menos conhecido, que se passa na Segunda Guerra Mundial e se concentra na tripulação de um bombardeiro que chega ao Havaí no momento em que o ataque a Pearl Harbor está acontecendo.

Muita coisa a se destacar por aqui, as sequências dentro do avião são as melhores, seja com a tripulação jogando conversa fora, numa naturalidade pouco convencional pra época, seja em sequências de batalhas angustiantes que até hoje impressionam (e que provavelmente influenciaram George Lucas na hora de filmar algumas sequências de STAR WARS). O filme não tem nenhum grande astro – apesar de ótimos atores, como John Garfield, Gig Young, o velho Harry Carey – e nenhum personagem se sobressai demais, o que torna isso aqui um exemplar clássico do “filme de grupo hawksiano”. Vencedor do Oscar de edição.

UMA AVENTURA NA MARTINICA (To have and Have Not, 1944)
“Posso fazer um filme com o pior livro que você já escreveu”, disse Hawks ao próprio Ernest Hemingway, quando comprou os direitos pra produzir isto aqui. E fez realmente um trabalho belíssimo. Na trama, o capitão de um barco de frete da Martinica se envolve com agentes clandestinos da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e também com uma mulher misteriosa que aparece no local. Para além de ser lembrado principalmente pelo romance real e fumegante que rolou entre Bogart e Bacall (ambos sublimes aqui), o filme acaba sendo um thriller em tempos de guerra dos mais divertidos do diretor. Eu já tinha visto a versão que o Don Siegel fez dessa mesma história, estrelada pelo Audie Murphy, e que é um dos mais fracos do Siegel. Cheguei a comentar aqui no blog há alguns anos. Não preciso nem dizer o quanto esta versão do Hawks é melhor…

Ah, e Walter Brennan, na sua quarta colaboração com Hawks, tá genial como sempre.

À BEIRA DO ABISMO (The Big Sleep, 1946)
Seguindo o sucesso de UMA AVENTURA NA MARTINICA, Hawks se reuniu novamente com o casal Bogart e Bacall para criar um dos filmes definitivos do cinema noir. Bogart é o detetive particular Phillip Marlowe que se envolve em uma teia de chantagem e assassinato difícil de descrever… Já se tornou um clássico à parte a histórias de que Hawks se viu obrigado a ligar para o próprio autor do romance que deu origem, Raymond Chandler, para perguntar sobre algum ponto-chave da trama e o autor também não fazer a menor ideia de como responder. Mas isso acaba não importando muito de tão imerso que ficamos durante a investigação de Marlowe, sua atitude cínica e espertinha, e claro no romance entre ele e a personagem de Bacall. Um Hawks obrigatório, nota-se sua importância e influência, apesar de nesta revisão eu perceber como não tá entre os meus favoritos do diretor. Não é culpa do filme, que é uma maravilha, mas o Hawks é que tem várias obras-primas à frente…

RIO VERMELHO (Red River, 1948)
De alguma forma, BARBARY COAST, como disse em outro post, é o primeiro faroeste de Hawks, apesar de pouco convencional na iconografia e ambientação. O sujeito só faria um western puro mesmo aqui em RIO VERMELHO. Gênero que ele demorou mais de duas décadas para adentrar e acabou se destacando no restante da carreira. John Wayne, trabalhando com Hawks pela primeira vez, usa maquiagem pesada e tem aqui uma de suas melhores atuações da vida como Tom Dunson, um fazendeiro obstinado que luta com seu filho adotivo, Matt Garth (Montgomery Clift) e seus subordinados durante uma viagem de transporte de gado. O comportamento tirânico de Tom leva a um motim e uma amarga rivalidade entre ele e o filho. É aquela coisa, no universo hawksiano, é o grupo que importa. O personagem de Wayne tentou quebrar essa regra e se ferrou…

A construção que Wayne faz de seu personagem é tão profunda, um processo de transformação de herói à vilão tão genial, que depois de ver o seu desempenho, John Ford chegou a dizer “I never knew the big son of a bitch could act.”

O filme é lembrado também pelo notável subtexto gay entre Matt e o caubói Cherry Valance (John Ireland). “There are only two things more beautiful than a good gun”, diz Cherry para Matt, “a Swiss watch or a woman from anywhere. Ever had a good… Swiss watch?”

Um filme mais emocional e psicologicamente complexo do que a média dos westerns realizados no período. Um clássico absoluto e provavelmente a obra-prima máxima de Hawks. É outro filme que eu gostaria de escrever mais, mas acho que nem tenho capacidade de externar toda minha admiração.

A CANÇÃO PROMETIDA (A Song is Born, 1949)
Remake “copia e cola” de BOLA DE FOGO, que o próprio Hawks tinha feito sete anos antes, reformulado como um musical, substituindo os acadêmicos compiladores de enciclopédia por professores de música. A ideia é muito boa e os números musicais são ótimos (tem participação até de Louis Armstrong) e obviamente não deixa de ser divertido. O material original de Billy Wilder é bem fácil de agradar. Mas lá pelas tantas já tinha perdido o interesse… Não sei se porque revi BOLA DE FOGO há pouco tempo, ou se é perceptível que Hawks não tava muito inspirado, refazendo os mesmos enquadramentos, as mesmas situações, os mesmos diálogos, tudo de novo com outros atores… E convenhamos que Danny Keye e Viriginia Mayo não são Gary Cooper e Barbara Stanwyck. Mas ainda assim vale a pena. Nem que seja pra ver as primeiras cores do cinema de Hawks.

A NOIVA ERA ELE (I Was a Male War Bride, 1949)
Antes de QUANTO MAIS QUENTE MELHOR, de Billy Wilder, Hawks fez esse clássico crossdressing com Cary Grant. Ele vive um capitão do exército francês que se casa com uma tenente americana (Ann Sheridan) na Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial. Quando tentam embarcar para os Estados Unidos, descobrem que ele deve acompanhá-la sob os termos do War Bride Act, ou seja, como a “esposa” dela, fazendo com que, em determinado momento, Grant tenha que usar uma peruca, saia e voz em falsete. Grant pode não ser muito convincente como francês ou como mulher, mas é justamente por isso que é hilário, enquanto Hawks prova mais uma vez por que foi um dos principais mestres da Screwball comedy.

E por hoje chega.

5 HAWKS MENOS CONHECIDOS

20th CENTURY (1934)
Depois se dedicar a uns filmes de guerra, crime, dramas românticos, que até possuíam um tom de humor em alguns momentos, finalmente Hawks faz sua primeira comédia pura no cinema sonoro. Na trama, um temperamental produtor da Broadway (John Barrymore) toma sob sua guarda uma atriz iniciante (Carole Lombard) e se apaixona por ela. Mas a vida hiper controlada faz com que ela fuja e se torne uma das maiores estrela de cinema. Agora, todos a bordo de um mesmo trem, ele tenta reconquistá-la, o que não vai ser fácil. Hawks não decepciona, repleto de cenas impagáveis e com dois protagonistas inspirados e realmente engraçados (Barrymore sobretudo está inacreditável, entrega uma das grandes performances cômicas do período, genial até nos excessos), é uma grande festa para fãs de screwball comedies, em especial por se tratar de um dos pontos de partida do gênero e ser dirigido por um dos seus maiores mestres.

BARBARY COAST (1935)
Uma moça (Miriam Hopkins) chega do leste e descobre que o seu noivo, que lhe esperava, foi morto. Ela acaba tendo que trabalhar na casa de jogos de Luis Chamalis (Edward G. Robinson), um local turbulento da São Francisco na década de 1850. Quando ela se apaixona por um minerador poeta (Joel McCrea), as coisas começam a se complicar, porque Chamalis não vai entregá-la tão fácil… De alguma maneira, este aqui é o primeiro Western do Hawks, ainda que fora do tradicional. No centro da trama temos mais uma variação habitual do diretor no drama romântico com uma forte figura feminina dividindo as atenções de dois homens. Mas aqui me peguei mais interessado na paisagem, numa São Francisco submersa em névoa, e nas subtramas, a do jornal local, os vigilantes, os personagens secundários, como o do grande Walter Brennan… Segundo filme do Edward G. Robinson com Hawks. Ótimo como sempre.

CEILING ZERO (1936)
O cotidiano perigoso, e muitas vezes trágico, de alguns pilotos veteranos de guerra que estão trabalhando em uma companhia aérea é o tema central desse filme mais rotineiro do Hawks, apesar de ser bom de acompanhar, com os personagens hawksianos que estamos acostumados a ver, com os temas habituais do diretor. Mas tirando um ou outro momento mais inspirado, como a sequência do pouso às cegas – uma aula de tensão e atuação do elenco – o restante me parece conduzido no piloto automático, muito numa zona de conforto de Hawks. O suficiente pra fazer um bom filme, divertido, mas não para um GRANDE filme. O que tá bom também, normal para um diretor desse calibre, com uma filmografia longa. Nem todos precisam ser obras-primas. Minha única reclamação é que justamente os dois trabalhos que Hawks fez com James Cagney (este aqui e THE CROWD ROARS) resultaram em filmes menores… Essa parceria merecia ter rendido pelo menos algo do nível de PARAÍSO INFERNAL, RIO VERMELHO, HATARI! RIO BRAVO…

THE ROAD TO GLORY (1936)
A história da vida nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial através de um regimento francês. No centro da trama, à medida que os homens são mortos e substituídos, um tenente (Fredric March) torna-se cada vez mais sombrio e seu rival pelo carinho de uma enfermeira (June Lang) é o seu próprio capitão (Warner Baxter). É muito louco ver a filmografia de um diretor como a do Hawks, um sujeito tão autoral, em ordem cronológica e num curto espaço de tempo (este aqui era o décimo quinto assistido em menos de duas semanas)… Corre-se o risco de tudo parecer uma repetição de si mesmo. O que de certa forma é, mas não num mau sentido, porque é a obsessão por certos temas que faz a assinatura do cara ser tão pessoal. Aqui, é mais um filme sobre um grupo de homens lidando com a morte durante uma guerra (THE DAWN PATROL, TODAY WE LIVE), novamente temos dois homens apaixonados pela mesma mulher (TIGER SHARK, BARBARY COAST, TODAY WE LIVE, CEILING ZERO), de novo um deles fica cego (TODAY WE LIVE) e parte para uma missão suicida, um último sacrifício (praticamente todos os filmes que citei)… Mas é só tomar cuidado, que dá pra fugir dessa armadilha. Foi um prazer ver filme a filme do Hawks e sim, perceber suas “repetições”. Este aqui é um sólido filme de guerra, cuja direção de Hawks e o elenco entregam até mais do que era de se esperar do roteiro de William Faulkner. A subtrama romântica nem tem tanta força quando uma boa parte do filme vemos um grupo de personagens hawksianos tentando sobreviver em trincheiras sujas ou em meio à explosões e balas. Enfim, mais um grande filme do diretor. Esse recomendo muito mesmo.

COME AND GET IT (1936), co-direção de William Wyler
Um lenhador ambicioso abandona a mulher que ama para se casar com a filha de um milionário, mas anos depois se apaixona pela filha da sua antiga paixão. Só que agora vai ter que disputar o amor dela com o próprio filho. Concordo com o próprio Hawks que diz, numa entrevista com Peter Bogdanovich, que a história é meio boba, mas é desses exemplares que mostram que um grande diretor pode dar vida até num material desse nível. Os primeiros vinte minutos são Hawks puro: grupo de homens focados num trabalho específico (no caso, lenhadores), sequências semi documentais da profissão (como em TIGER SHARK) e uma sequência de bar que termina numa briga generalizada com o humor hawksiano típico… Depois a trama dá uma caída, ainda sobra a velha situação dos dois homens apaixonados pela mesma mulher. A variação aqui é a que mencionei: os dois sujeitos são pai e filho. No final, percebe-se a mudança de tom, ritmo, cadência, já era o William Wyler quem dirigia (Hawks se demitiu, de saco cheio do produtor Sam Goldwyn, mas uns 80% do filme é dele). Filme irregular, mas bem assistível e com ótimas atuações de Frances Farmer (em papel duplo) e do bom e velho Walter Brennan, na sua segunda colaboração com Hawks, e que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante

MAIS HAWKS

A essa altura, na maratona Howard Hawks que me propus a fazer, já foram 26 filmes conferidos. A velocidade com a qual tenho assistido aos filmes é muito maior do que o tempo que tenho pra parar e postar individualmente sobre cada filme, como no post anterior. Então, vamos de mini reviews mesmo, porque aí dá pra cobrir tudo aos poucos. Aqui vão mais cinco filmes do homem.

THE CRIMINAL CODE (1930)
Depois que um jovem comete um assassinato bêbado, defendendo uma garota, ele é processado por um ambicioso promotor (Walter Huston) e condenado a dez anos. Seis anos depois, esse mesmo promotor se torna o diretor da prisão e oferece ao jovem um emprego como motorista. O rapaz se mantém íntegro no local, mas às vésperas de sua liberdade condicional, um companheiro de cela o arrasta de volta ao mundo da violência, e ele enfrenta escolhas difíceis de fazer… O único problema do filme é a forçada história de amor que surge no final entre o jovem e a filha do promotor, que quase coloca tudo a perder. Mas no geral ainda é um drama prisional bem forte, um olhar duro sobre o efeito que o sistema de justiça criminal pode ter sobre os homens apanhados por ele. Hawks explora mais as possibilidades do cinema sonoro, testando o que fazer com isso. A abertura do filme, com dois detetives tendo um desacordo prolongado sobre as regras de um jogo de cartas a caminho da cena do crime e a capacidade de Huston de transformar um simples “Yeah?” em uma espécie de mantra é algo para se contemplar. Hawks conta uma história muito mais dependente de diálogos e o resultado é bem sólido. Ajuda muito ter um ator do calibre de Huston num desempenho magnífico.

Boris Karloff, num papel pré-Frankenstein, tem pelo menos uma cena memorável, a do assassinato do delator, que aproveita muito bem a sua fisicalidade e expressão corporal. A forma como se move pelas salas com uma graça pesada e aterrorizante é o tipo de coisa que eu não duvido que possa ter influenciado na hora de escalarem Karloff como o famoso monstro no ano seguinte.

SCARFACE (1932)
Esse aqui merecia um texto mais longo. Mas fica pra depois. Por enquanto, a gente ressalta que se trata da primeira obra-prima de Hawks. A trama é obviamente inspirada em Al Capone e é um trabalho definitivo sobre a ascensão e queda de um mafioso com fome de poder. O filme ficou famoso na época por causa da controvérsia e pela violência nessa escalada de poder do protagonista, mas resistiu bem ao teste do tempo (mesmo depois de algumas revisões, apesar de que fazia uns bons anos que não revia), por causa do forte roteiro, as ótimas atuações do elenco, sobretudo um Paul Muni explosivo, e a direção – já magistral a essa altura – de Hawks. Um filme de gangster essencial.

THE CROWD ROARS (1932)
Um famoso campeão de automobilismo (James Cagney) retorna à sua cidade natal para competir em uma corrida local e descobre que seu irmão mais novo tem aspirações de se tornar um campeão de corrida, ao mesmo tempo em que tem que lidar com uma relação amorosa complicada. É outro trabalho do Hawks que tem uma subtrama de amor cego que me tira um pouco do filme (lembram de FAZIL que comentei no outro post?). Mas, no fim das contas, é um filme de 70 minutos que não consegue se aprofundar em muita coisa, acaba sendo divertido de se ver, em especial pelas sequências muito bem feitas de corridas de carro, que tem um senso de tensão e tragédia muito forte. Primeiro filme que Hawks utiliza Cagney, que tá excelente como sempre.

TIGER SHARK (1932)
Esse aqui é um filmaço do Hawks que eu não conhecia. A trama é sobre um pescador de atum português que se casa com uma mulher cujo coração fica dividido entre ele e o seu primeiro imediato no barco. Junto com THE DAWN PATROL, provavelmente é o filme mais puro do Hawks deste período, tem muito dos seus temas habituais, os tipos de personagens e os tipos de valores que ele respeita. Uma colônia unida de homens no trabalho, arriscando a vida, tendo se acostumado com despedidas sem saber se voltam. As sequências de pesca, semi documentais, são tão boas quanto as sequências de ação que Hawks fazia até aquele momento. Mas a alma do filme é o grande Edward G. Robinson interpretando o pescador português maneta, num desempenho magnífico.

TODAY WE LIVE (1933)
Sem dúvida um belo filme. Só demora um bocado pra chegar lá. Começa como um melodraminha bobo, sobre uma moça (Joan Crawford) que se apaixona por um piloto de caça (Gary Cooper) durante a primeira guerra mundial, mas que é dado como morto, então ela vai pra guerra como enfermeira – ou algo do tipo – e se casa com o melhor amigo do seu irmão, até que descobre que o piloto, na verdade, está vivo… Enfim, uma confusão. No entanto, essa traminha de alguma forma ganha força e eventualmente se transforma em um sólido drama romântico com alguns temas habituais do Hawks: um triângulo amoroso em meio à guerra, missões que envolvem sacrifício, homens disputando pra ver quem tem o pau maior… Coisas do tipo.

Sabe-se que a personagem de Crawford foi empurrada à força na trama, os produtores a tinham sob contrato e pediram a Hawks para incluí-la (o roteiro foi escrito por William Faulkner e não tinha a sua personagem). Ela tá até bem, mas as coisas nem sempre acontecem de maneira orgânica (a forma como se apaixona pelo personagem de Cooper é muito esquisita). O filme fica realmente interessante quando os dois homens que disputam seu coração começam a se desafiar, colocando suas vidas em risco além das linhas inimigas. As cenas de ação, tanto pelo ar, quanto pela água, são de encher os olhos. Hawks voltaria a trabalhar com Gary Cooper algumas vezes ainda…

PATRULHA DA MADRUGADA (1930)

Se querem mais Hawks, teremos mais Hawks. PATRULHA DA MADRUGADA (The Dawn Patrol) foi o segundo filme sonoro do diretor (o primeiro, THE AIR CIRCUS, se perdeu). É também uma amostra fascinante do estágio de sua carreira em que não havia ainda chegado no ápice, tava aperfeiçoando seu estilo, mas já tava chegando bem perto disso. Os temas que seriam sua obsessão já começam a cristalizar melhor aqui e podemos ver em embrião as maneiras pelas quais ele abordaria esses temas repetidas vezes.

No final de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, o 59º Esquadrão do Royal Flying Corps passa por maus bocados. Seu comandante, Major Brand (Neil Hamilton, o comissário Gordon da série do Batman dos anos 60), se vê tendo que enviar jovens pilotos inexperientes direto para o meio da batalha e, inevitavelmente, muitos não sobrevivem nem mesmo à primeira missão. O estresse piora para o sujeito, já que ele próprio, como comandante, não pode voar em missões de combate e o resultado é o sentimento de um carrasco enviando homens para seu destino final.

Major Brand entra em conflito sobretudo com seu subordinado Capitão Courtney (Richard Barthelmess). Supostamente tem havido rixa entre eles desde um incidente envolvendo uma mulher em Paris, mas como o gentil ajudante do esquadrão aponta para um dos pilotos, a realidade é que eles são amigos muito próximos. Eles simplesmente acham mais fácil lidar com uma situação difícil desabafando um com o outro. A guerra avança e Major Brand é promovido. O capitão Courtney, que sempre zombou dos oficiais de escritório que enviam homens para o combate, agora se vê desempenhando exatamente esse papel.

Uma interpretação simplista seria que o filme é um comentário sobre a futilidade da guerra, mas isso não seria característico de Hawks e, de qualquer forma, o próprio filme deixa bastante claro que essa não é a intenção. Na verdade, o filme enfatiza que o perigo e a morte são sempre os inimigos e estão enraizados na vida desses homens. O filme simpatiza com os alemães que são retratados como adversários honrados e heróicos e isso é mais uma indicação de que o inimigo não é o soldado do lado oposto. O inimigo é a própria morte. Em uma cena, um aviador alemão capturado é trazido à base. Logo lhe oferecem uma bebida e não demora para estar farreando alegremente com os aviadores britânicos. Ele não é um inimigo; ele é um homem que enfrenta os mesmos perigos que os pilotos britânicos enfrentam.

De certa forma há um equilíbrio entre o sentimento anti-guerra com uma aceitação existencial mais estóica do dever e amor pelo trabalho, pela missão, ação, destruição, mesmo quando não existe muita esperança, conscientes do sacrifício. Hawks sempre foi fascinado pelo comportamento de homens confrontados com o perigo iminente e a morte. Fascinado pela maneira como grupos de homens lidavam com a morte.

Além disso, PATRULHA DA MADRUGADA nos oferece o tipo de configuração que ele usaria repetidamente, como em sua obra-prima posterior, PARAÍSO INFERNAL (Only Angel Have Wings), na forma como os homens do 59º Esquadrão parecem estranhamente isolados. Nunca vemos os oficiais superiores que dão as ordens ao comandante do esquadrão, temos poucas cenas e eventos em outros locais, praticamente todo o filme se passa no escritório do comandante, na sala de recreação do esquadrão e no ar onde acontecem as violentas batalhas. Ao isolar esse grupo de homens do mundo exterior, Hawks é capaz de se concentrar nos próprios homens e na maneira de se relacionar uns com os outros.

E os homens do 59º Esquadrão aprenderam, no clássico estilo hawksiano, que a única forma de enfrentar a morte é rindo na cara dela.

As cenas de batalhas aéreas são um destaque à parte, tão boas que foram até reutilizadas no remake de 1938, com Errol Flynn e David Niven. A assinatura de Hawks também é aparente aqui. O que importa para o diretor não é a ação, mas a maneira como os homens reagem a ela e, em várias ocasiões, Hawks mostra as aeronaves decolando e corta imediatamente para o comandante do esquadrão esperando ansiosamente pelo som das aeronaves retornando. Não precisamos ver a luta; é o custo emocional que importa. No entanto, quando as cenas de luta aérea são mostradas, o resultado é um espetáculo de ação que impressionam até hoje.

Richard Barthelmess tem uma performance taciturna e discreta que captura perfeitamente o espírito do obstinado herói Hawksiano. Douglas Fairbanks Jr é um tanto expansivo, mas se dá bem. Agora, Neil Hamilton, esse é um caso perdido. Seu desempenho destoa completamente do restante com folgas, hum mau sentido, exagerado ao estilo do cinema mudo, que Hawks evitava.

O roteiro de PATRULHA DA MADRUGADA ganhou o Oscar, creditado a John Monk Saunders, que havia escrito outro clássico de guerra e aviação, ASAS (27), também conhecido como o primeiro filme a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Mas dá pra perceber que Hawks teve peso sobre a história e dá até pra dizer o que realmente tem o dedo dele – sequências dos pilotos em bebedeira, a farra, a cantoria, a cena com o aviador alemão capturado… Coisas que se tornariam constantes no cinema de Hawks. E que vale a pena conhecer aqui em seu estágio inicial.

NA SOLIDÃO DO DESEJO (1968)

John Flynn é desses diretores subestimados que de vez em quando se faz necessário lembrar a existência, até porque foi dos maiores diretores americanos, especialmente no cinema de gênero, e embora tenha havido um esforço ao longo dos últimos quinze anos de um revisionismo da sua obra, infelizmente nunca terá o mesmo prestígio que um, digamos, Sam Peckinpah, apesar de estarem praticamente no mesmo nível.

Flynn morreu em 2007, mas deixou uma filmografia cheia de obras fascinantes como A QUADRILHA (The Outfit, 73), com Robert Duvall, inspirado na mesma fonte que gerou À QUEIMA ROUPA (66), de John Booman, e O TROCO (99), com o Mel Gibson; a obra-prima A OUTRA FACE DA VIOLÊNCIA (Rolling Thunder, 77), drama psicológico e criminal, desconcertante, com dois atores magníficos: William Devane e Tommy Lee Jones; e A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 87) uma pequena e inesperada joia do cinema policial de ação oitentista com outra dupla espetacular: James Woods e Brian Dennehy. Sem contar CONDENAÇÃO BRUTAL, com Sylvester Stallone, FÚRIA MORTAL, disparado o melhor filme de Steven Seagal, entre outras coisas…

E temos esta belezinha aqui, NA SOLIDÃO DO DESEJO (The Sergeant), seu primeiro trabalho, que revi esta semana, um drama austero, barra-pesada e doloroso sobre um oficial do exército, gay reprimido, com um Rod Steiger em plena forma.

Até aquele momento, no entanto, Flynn havia sido assistente do diretor Robert Wise, mas seu talento em filmar ação de alta qualidade, que é algo realmente fantástico na sua obra, deve ter surgido atuando como assistente de John Sturges no clássico FUGINDO DO INFERNO. Quando Wise montou uma pequena produtora para realizar filmes de baixo orçamento e que daria a oportunidade para que outros pudessem dirigir, Flynn foi convidado a tomar à frente no primeiro projeto, a adaptação de um romance de Dennis Murphy chamado The Sergeant (cujo roteiro foi escrito pelo próprio Murphy). Portanto, os filmes de ação teriam que esperar e calhou do primeiro filme do homem ser esse dramalhão.

Conhecemos então o personagem de Steiger em NA SOLIDÃO DO DESEJO, o sargento Callan, um veterano de guerra um bocado arrogante, mas dedicado e condecorado, que assume um posto numa base americana de fornecimento de combustível na França em 1952. No local, o sujeito se depara com a falta de disciplina dos homens sob às ordens do capitão Loring (Frank Latimore), que tem uma queda por uma bebidinha, e percebe a barca furada que se meteu. Callan faz o tipo sargento linha-dura e resolve transformar a base num modelo de eficiência e disciplina – embora a tropa preguiçosa se ressinta do sujeito por seus esforços.

Mas é na figura de um dos seus comandados, o jovem e bonito soldado Tom Swanson (John Phillip Law), que Callan vê um alento e, aos poucos, sua aproximação e atração física pelo rapaz abala-lhe as estruturas, desperta-lhe a possibilidade de algo aprazível e afável, mas intocável, e por isso confuso e melancólico, até chegar num ponto que o torna incapaz de resistir ao desejo. O que acaba por ser sua ruína. O filme, que abre mostrando Callan enfrentando com firmeza e heroísmo os maus bocados de uma guerra, agora revela o que ele não conseguiria encarar: um amor não retribuído.

Apesar do talento de Flynn na condução das coisas por aqui – e o sujeito REALMENTE demonstra habilidade, numa mise en scène magistral, na forma como filma cada plano e o mais importante, como filma as trocas de olhares, acho que poucos diretores filmam os olhos tão bem quanto Flynn – talvez seja mesmo Rod Steiger o grande responsável pela força que emana de NA SOLIDÃO DO DESEJO. O filme foi laçado um ano depois de NO CALOR DA NOITE, de Norman Jewison, no qual Steiger tinha recebido o Oscar de melhor ator, mas é curioso perceber que ele consegue aqui uma performance ainda mais absurda, poderosa e corajosa. O sujeito está simplesmente arrebatador.

É quase um trabalho co-autoral de Steiger na parada, já que tudo no filme nasce dele: seu corpo, sua voz, seus gestos… Seu olhar. Quando perguntado numa entrevista como havia convencido Steiger em trabalhar num filme desses, vivendo um personagem homossexual, Flynn diz que foi o próprio ator que procurou fazer o papel. Já John Phillip Law parece se sair melhor em obras menos sérias e mais físicas, como DANGER: DIABOLIK, de Mario Bava, e A MORTE ANDA À CAVALO, de Giulio Petroni, mas não tenho do que reclamar dele por aqui, tem uma atuação bem digna. Da mesma forma o seu par romântico na trama – e que se torna uma das pedras no sapato de Callan – a bela francesa Ludmila Mikael. Todo o elenco de apoio é muito bom, mas o problema de falar de elenco nesse filme é que TODOS são ofuscados pelo desempenho de Steiger. Aí fica difícil…

Mas enfim, NA SOLIDÃO DO DESEJO é uma das maiores histórias de amor não correspondido do cinema, um filme amargo, mas também tão intenso e devastador e um grande filme de estreia para um diretor tão talentoso como John Flynn. E de certa forma vai de encontro à essência do cinema que o sujeito desenvolveu a partir dalí. Uma obra com temas delicados filmada por um dos mais casca-grossas dentre os diretores enxergados na tradição fiel do “cinema físico” de Hawks, Fuller, Ray, Botticher, Ulmer, e talvez o mais fundamental de todos, Don Siegel, mas que revela também um olhar sensível, na qual a poesia que versa sobre a solidão, que Flynn viria a abordar depois em outros filmes, já era um conceito que estava intrinsecamente ligado à raiz romântica da sua maneira de filmar.

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DA 5 BLOODS (2020)

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Quando comecei a assistir DA 5 BLOOD, novo petardo de Spike Lee, me veio logo à mente seu filme anterior, aquela maravilha chamada BLACKKKLANSMAN, que termina mostrando imagens reais das cenas lamentáveis em Charlottesville, com aquele bando de lixo humano, também conhecidos como supremacistas brancos, fazendo passeatas, carregando tochas, causando repugnância só de olhar. Spike fez questão de mostrar a tragédia que ocorreu naqueles dias quando um desses nazistas avançou de carro pra cima de um grupo manifestante anti-racista, deixando 28 pessoas feridas e tirando a vida de uma jovem que lutava por igualdade racial…

DA 5 BLOODS meio que começa onde BLACKKKLANSMAN termina, fazendo um apanhado histórico com outra colagem de imagens de arquivo, de ativistas reais em luta anti-racismo, mostrando figuras importantes deste contexto, soldados negros na guerra do Vietnã e, pronto, já pensei comigo “a pedrada vai ser da pesada!”.

São trabalhos bem diferentes como obras estéticas e filmes de gênero, mas ambos possuem a mesma energia, a mesma raiva do racismo sistêmico. É tanta raiva que dá a impressão de que poderia ter sido filmado nas últimas semanas, pós assassinato de George Floyd e tudo o que rolou como consequência, de tanta sintonia com a realidade. É claro que esse racismo sistêmico sempre existiu, e por isso Spike Lee realiza filmes tão diretos, que tocam na ferida. Ainda assim, ele não poderia prever que seu filme seria lançado num momento tão preciso, tão pontual…

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Pra quem não sabe, Spike Lee e o roteirista Kevin Willmott (que havia trabalhado também em BLACKKKLANSMAN), reformularam um roteiro já existente que provavelmente não tinha muito a ver com a carga temática que resultou em DA 5 BLOODS. O roteiro era intitulado THE LAST TOUR e havia sido escrito em 2013 pela dupla Danny Bilson e Paul DeMeo.

Esses caras começaram nos anos 80 com filmecos B cult de ficção científica, como o clássico TRANCERS, de Charles Band, antes de partirem pra coisas mais mainstream, como THE ROCKETEER, de Joe Johnston, para a Disney, e o seriado de TV baseado no personagem de HQ, THE FLASH. Bilson e DeMeo tinham afinidade com cenários de guerra, fizeram ZONE TROOPERS de 1986, que mistura ataque alienígena com combatentes da Segunda Guerra (com Tim Thomerson no elenco), e o spin-off do jogo de video game THE COMPANY OF HEROES, de 2013, um direct to video de guerra com Tom Sizemore e Vinnie Jones.

Ou seja, tudo indica que o roteiro que fornece a base de DA 5 BLOODS era mais voltado para a ação/guerra escapista. A trama, de forma superficial, até deve ter se mantido intacta: Quatro veteranos da guerra do Vietnã retornam ao local nos dias atuais alegando que precisam recuperar os restos mortais de um amigo morto em combate que fora enterrado no campo de batalha. No entanto, há uma segunda razão: recuperar um tesouro, uma caixa de ouro da CIA que eles encontraram de um acidente de avião em 1971 e que também se encontra enterrado no local.

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Este “roteiro base” acabou sendo o último trabalho de DeMeo, falecido em 2018, mas que recebeu um reconhecimento especial nos créditos finais de DA 5 BLOODS. E é bacana essa homenagem porque mesmo com todas as alterações, os realizadores não negam as raízes do filme, essa premissa de filme B da Cannon dos anos 80, e mantém as impressões digitais de Bilson e DeMeo por toda parte. Mas aí entra Spike Lee, com seus personagens, texturas, temas particulares e inquietação política estridente, explorando a experiência do soldado negro no Vietnã, rastreando a fúria do ativismo negro dos anos 60 até o advento da Black Lives Matter e a Era Trump, cuja presença é sentida aqui. Então, obviamente a coisa muda de figura. E esse “a mais” de Spike casa perfeitamente com a urgência que a história transmite.

Então temos aqui quatro veteranos negros, que são Otis (Clarke Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr), Eddie (Norm Lewis) e Paul (Delroy Lindo) os habitantes principais dessa jornada. Mas embora não tenha um protagonista definido, é Paul quem se torna o centro emocional do filme, especialmente pelo desempenho soberbo de Delroy Lindo, que se destaca sobre os demais. E, claro, em se tratando de Spike Lee o personagem acaba tendo nuances bem mais profundas. Paul é uma das figuras mais complexas do cinema de Lee: negro, conservador, apoiador de Trump, paranóico, procurando confrontos em todos os lugares, uma bomba-relógio prestes a explodir antes mesmo de começar a vomitar sobre imigrantes, fake news e “construção do muro”, além de outros termos depreciativos ao povo vietnamita.

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Todos os quatro sujeitos são assombrados pela morte do amigo e líder da unidade, “Stormin ‘Norman” (Chadwick Boseman, que também está perfeito), o tal morto em ação, logo após recuperar e enterrar o ouro. Mas Paul é o único que não conseguiu seguir em frente durante todos esses anos. Isso se estende a seu relacionamento fraturado com seu filho David (Jonathan Majors), que nunca ganhou nada além de escárnio desdenhoso do pai. Apesar de não haver muito afeto entre eles, David aparece inesperadamente em Saigon, preocupado com o pai, e insiste em acompanhar os quatro velhos na jornada.

Através de Tien (Y Lan), uma ex-prostituta que Otis conheceu durante sua primeira passagem no local, eles se encontram com Desroche (Jean Reno), um lavador de dinheiro francês que concorda em converter o ouro pra eles. Com um mapa fornecido pelo guia Vinh (o astro de cinema de ação oriental Johnny Tri Nguyen), os quatro veteranos voltam para as selvas do Vietnã com Paul ostentando um chapéu vermelho “Make America Great Again” para o desdém de todos.

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A jornada começa com um lento passeio de barco acompanhado pela “Cavalgada das Valquírias“, de Wagner, que não é a primeira referência de APOCALYPSE NOW ao longo da narrativa. Um banner gigante do poster do filme de Coppola aparece em destaque na tela em uma boate em Saigon, onde as placas de neon do McDonalds, Pizza Hut e KFC ilustram como as coisas mudaram nos quase 50 anos desde a última vez que lá estiveram. Ao longo da trama há também uma óbvia referência ao O TESOURO DE SIERRA MADRE com o clássico tema da ganância que corrompe a alma diante do Ouro e no final ainda evoca um cenário que remete a Samuel Fuller em CAPACETE DE AÇO. Nos diálogos, os personagens aproveitam para zombar dos filmes de guerra dos anos 80 como RAMBO II e BRADDOCK, com aquele “Walker, Texas Ranger”, como se refere uma das figuras.

E sobre a ação, acho que Spike Lee nunca filmou sequências de batalhas, tiroteios, explosões, de forma tão bem orquestrada… Não assisti ao MILAGRE EM STA. ANNA, filme de guerra que Spike lançou em 2008, então não sei como são as sequências de ação por lá. Mas o único outro filme que pode ser classificado do gênero que o sujeito realizou foi a refilmagem de OLDBOY, que é uma lástima, muito ruim mesmo. Então, por enquanto bato o martelo que em DA 5 BLOODS estão as melhores sequências de ação que o homem já fez.

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Lee também corre alguns riscos com algumas escolhas, como as alternancias do formato das janelas ou como ter os atores Lindo, Peters, Lewis e Whitlock interpretando seus personagens nos flashbacks, sem rejuvenecê-los ou usar outros atores mais jovens. O que causa uma certa confusão no início, mas logo depois me parece funcionar perfeitamente. Já vi muita gente reclamando dessa opção, mas achei interessante como são apresentados em uma espécie de fluxo de consciência, é como rememorar o passado e ver a si mesmo do jeito que é agora, envelhecido, mesmo pensando em eventos que ocorreram há 40, 50 anos… Mas também porque acaba colocando os quatro velhos nas sombras para dar destaque em Boseman, o único personagem que não teve a oportunidade de envelhecer…

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Em alguns momentos DA 5 BLOODS não consegue equilibrar muito bem o material de Bilson/DeMeo com o que foi escrito por Lee e Willmott. E acaba propenso a alguns artifícios difíceis de engolir, como a sequência da descoberta do ouro. E o trio de ativistas que entram em zonas de guerra para encontrar e desarmar minas terrestres poderia ter sido limado do roteiro sem prejudicar praticamente nada na trama (mesmo um dos atores sendo o grande Paul Walter Hauser)… Mas depois de um certo “ponto de virada”, o filme fica mais pesado, mais carregado de ação, violência, o personagem de Lindo vai ficando mais “possuído” e o discurso de Spike cada vez mais ácido. A impressão no fim das contas é a de um filme poderosíssimo, com uma ressonância surpreendente das coisas que estão acontecendo agora. Então qualquer eventual falha fica fácil de ignorar. Ajuda muito também uma trilha sonora só com clássicos de Marvin Gaye…

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Para finalizar, é preciso detacar mais uma vez Lindo, que apresenta o melhor desempenho de sua carreira, absolutamente fascinante (num dos momentos mais intensos do filme, o sujeito faz um monólogo olhando direto pra câmera que é uma cacetada!). Como disse, é um personagem muito complexo. Li em algum lugar que aparentemente Lindo havia pedido a Spike para que seu personagem não fosse trumpista… Eu entendo o ator fazer um pedido desses, “estar na pele” de uma pessoa que apoia o Trump deve ser algo asqueroso, repugnante… Seria o mesmo que pedir pra qualquer ator brasileiro com o mínimo de caráter interpretar um apoiador do Bolsonaro. O cara deve se sentir nojento… Mas é o seu trabalho. Se tem que ser feito, que faça bem feito. E Lindo o faz com perfeição. É justamente o fato de apoiar Trump um dos detalhes que torna o personagem dele tão forte, desprezível mas ao mesmo tempo comovente. A fonte de sua agonia começa no Vietnã e retornar e encarar de perto os seus demônios não é fácil. Mas não esperem uma redenção romântica ao estilo de Hollywood. Ao mesmo tempo que Spike Lee é direto no discurso, ele subverte todas as expectativas. Por isso DA 5 BLOOD é mais uma “pedrada”. O impacto é forte mesmo que o discurso de Spike esgote-se na sua própria militância. Mas no momento em que vivemos, é preciso militar e esgotar esse tipo de discurso, nem que seja à marretada!

O filme tem distribuição da Netflix e desde o dia 12 deste mês tá disponível na grade de lá. Não deixem de ver. E vejam mais Spike Lee. O cara tem MUITO filme foda pra ser visto e revisto.

BLU-RAY REVIEW: VÁ E VEJA (1985); CPC UMES FILMES

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VÁ E VEJA (Idi i Smotri) acabou de sair do forno, agora em novembro, numa versão em Blu-Ray pela CPC UMES Filmes. A distribuidora já havia lançado o filme em DVD há alguns anos, numa belíssima edição, mas agora é possível sentir o poder devastador de VÁ E VEJA em alta definição. É provável que essa obra-prima perturbadora do diretor Elem Klimov seja o filme de guerra – ou anti-guerra – mais expressivo já feito. Acima de tudo, é um olhar que combina imagens surreais com uma enxurrada ininterrupta de barbárie, que mostra o pior lado que a natureza humana tem a oferecer.

Na trama, seguimos as andanças de Florya (Aleksei Kravchenko), um adolescente que quer se juntar à frota de resistência anti-nazista em 1944 na Bielorrússia e acaba sendo testemunha de todo tipo de atrocidade que uma guerra pode proporcionar. Na primeira hora, no entanto, VÁ E VEJA é um filme onírico, à beira do surrealismo, a maior parte do tempo se passa numa floresta filmada como um mundo paralelo, onde o jovem Florya emerge ainda ingênuo e inocente dessa visão da natureza. Existe até uma certa dose de humor na energia desse garoto, sempre pronto para lutar. Mas acaba deixado para trás quando as tropas partem para o combate.

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Gradualmente, VÁ E VEJA vai descendo às profundezas. A menina que acompanha Florya percebe de relance um amontoado de cadáveres fuzilados e ocultos da vista de Florya; fazem a travessia de um lamaçal que definitivamente enterrará a ingenuidade do garoto, mergulhando-o em outra realidade; vem à seguir a cena da vaca (na qual munições reais foram utilizadas e que passavam a dez centímetros da cabeça do ator). E finalmente, estamos mergulhados no inferno total. A segunda parte de VÁ E VEJA é uma jornada exaustiva, radical, quase sem diálogos, que nega o tipo de delírio visual da primeira parte: Flyora será confrontado com a crueldade humana, testemunha de várias abominações, incluindo o massacre de homens, mulheres e crianças.

Em nenhum momento Klimov apela para uma violência gráfica na tela, mas a encenação e as imagens que surgem a partir daí são brutais. E Flyora se afunda cada vez mais num estado de letargia e descrença do mundo que se decompõe diante dos olhos. (enfatizados pelos closes expressionistas em seu rosto devastado e agora envelhecido).

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Não é tarefa das mais fáceis colocar em palavras o nível de tensão que VÁ E VEJA proporciona em seu ápice. E o choque vem tanto das situações que o filme mostra como também pelo trabalho formal de Klimov, quase uma anomalia artística que surge num filme cheio de momentos pesados e aterradores. Mise en scène, direção dos atores (magníficos, frequentemente atuando com os olhos voltados diretamente para a câmera), o uso da música, a criação de uma atmosfera angustiante, tudo incrível… E deve ter sido desses trabalhos extremamente difíceis emocionalmente de elaborar, realizar, decupar… Acabou sendo o último filme do diretor, que morreu em 2003.

Truffaut é habitualmente citado (Roger Ebert, por exemplo) dizendo que não seria possível fazer um filme “anti-guerra”, porque a energia e senso de aventura acabam fazendo as batalhas parecerem divertidas. Não sei se acredito que Truffaut tenha dito isso exatamente com esse significado, mas caso seja verdade, se tivesse vivido mais um pouquinho para ver VÁ E VEJA, é bem provável que mudasse de opinião. Até porque o filme não se concentra no campo de batalha, tem mais intenção de retratar a vida de pessoas comuns confrontadas pela guerra. Só que o faz com uma maestria, brutalidade e intensidade rara. Uma obra perfeita em todos os sentidos.

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Embora VÁ E VEJA tenha ganhado popularidade nas últimas décadas, não dá pra deixar de mencionar também o filme A ASCENÇÃO (77), que comentei aqui recentemente, outro filme de guerra soviético essencial, dirigido por Larisa Shapitko – que era esposa Klimov, falecida em 79. É uma obra-prima que merece ser redescoberta. Foi lançado em DVD pela A CPC UMES filmes há poucos meses. Agora, VÁ E VEJA chega ao Brasil em outro patamar e pode ser contemplado em alta resolução, em Blu-Ray. Já se encontra disponível nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora.

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DVD REVIEW: A ASCENSÃO (1977); CPC UMES FILMES

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Dos lançamentos recentes da CPC UMES Filmes, um dos que mais me impressionou foi sem dúvida alguma este A ASCENSÃO. Um filme de guerra poderosíssimo e transcendental, dirigido por Larisa Shepitko, cheio de referências bíblicas e filosóficas que o coloca num outro patamar e acabou levando o Urso de Ouro no Festival de Berlim, em 1977.

Adaptado do romance ‘Sotnikov’, do escritor bielorrusso Vassil Bykov, A ASCENSÃO se passa no inverno gelado que assola a URSS durante a Segunda Guerra Mundial. Dois soldados russos partem numa missão em busca de comida para permitir que um grupo composto por soldados, mas também crianças e mulheres em fuga, tenha chance de sobreviver. Ameaçados pelas tropas alemãs que cruzam a região e enfrentam o frio e a neve, eles tentam avançar pelos campos para encontrar alguma aldeia vizinha que possa fornecer algo.

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Um deles, Sotnikov (Boris Plotnikov), é baleado por um atirador alemão e prefere se matar do que ser capturado, mas é salvo por seu companheiro, Rybak (Vladimir Gostyukhin) às custas de um esforço sobre-humano, se rastejando pela neve; acabam encontrando abrigo na cabana de uma mulher com seus três filhos. Mas são descobertos pelos soldados nazistas e levados para serem interrogados por uma autoridade alemã (Anatoliy Solonitsyn, de STALKER). Se Sotnikov está pronto para morrer, mesmo sob tortura, Rybak parece disposto a qualquer coisa para salvar sua pele.

Depois de uma primeira parte mais tensa, praticamente um filme de sobrevivência, no qual quase acabamos sentindo a neve grudando nas nossas roupas, a segunda metade de A ASCENSÃO é uma parábola bíblica óbvia: Sotnikov se torna uma espécie de figura de Cristo, pronto para se sacrificar em nome de suas crenças, sempre discursando falas espirituais, enquanto Rybak, um verdadeiro Judas, está pronto para trair os seus para escapar ileso.

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Mas apesar de todo o conteúdo filosófico do filme, é impossível não destacar a força das imagens de Shepitko. Filma com o mesmo vigor tanto a busca pela sobrevivência dos personagens nas paisagens desoladas de neve quanto a jornada de exaustão física e tensão psicológica que Sotnikov precisa percorrer depois de capturado.

Escolhas morais (em vários níveis), senso de sacrifício, resistência e covardia (as diferentes sequências em que Rybak imagina sua fuga suicida), e um domínio visual absurdo fazem de A ASCENSÃO uma obra-prima escondida no cinema soviético. E Shepitko é definitivamente uma cineasta digna do panteão da cinematografia russa, que deixou para trás algumas pepitas para se redescobrir com urgência. Uma pena que morreu tão jovem, aos 41 anos, num acidente de automóvel em 1979. Era esposa do diretor Elem Klimov, que realizou alguns anos mais tarde outra obra-prima sobre os horrores da guerra na URSS: VÁ E VEJA, que curiosamente será lançado em Blu-Ray pela CPC UMES filmes ainda este ano.

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A ASCENSÃO já se encontra disponível em DVD nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora. Versão produzida a partir de matriz restaurada em 2018, com altíssima qualidade de som e imagem. Então tá valendo muito a pena. E como sempre, com tradução e legendas direto do russo. Não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar por dentro das novidades, especialmente do cinema soviético, e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

FUGA PARA ATHENA (1979)

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FUGA PARA ATHENA (Escape to Athena) é um típico produto de sua época, especialmente em termos de tom. É característico como as experiências de guerra, naquela altura no cinema, ficaram tão filtradas até o entretenimento em sua forma mais pura que começa a se assemelhar a um pastiche e repleto de humor e ação. É o tipo de filme em que os nazistas são rotineiramente filmados em cima de telhados ou torres para permitir que o dublê realize um mergulho quando alvejado e dê às sequências de ação um pouco mais de emoção.

Mas se há uma coisa legal que posso dizer logo de cara sobre FUGA PARA ATHENA é o elenco fantástico, que é outro ponto característico desse tipo de filme nesse período. Temos aqui Roger Moore, David Niven, Telly Savalas, Claudia Cardinale, Sonny Bono, Elliott Gould e Richard Rountree – ou seja, James Bond, Shaft, Kojak, etc – o que deixa essa aventura de guerra e comédia ainda mais divertida.

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O cenário é um campo nazista de prisioneiros em uma ilha grega em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. É um campo de concentração diferente. Sua finalidade é um trabalho de escavação em busca dos tesouros arqueológicos do local. O saque deve ser enviado para Berlim, mas o comandante do campo, major Otto Hecht (Moore), é um trambiqueiro que faz alguns desvios com alguns dos itens mais valiosos. Personagem ambíguo e fascinante, antes da guerra Hecht era um traficante de antiguidades e está espoliando seus comandantes em Berlim da mesma forma que enrolava seus clientes pré-guerra. Não deixa de ser um patriota, desde que isso não interfira em seus planos de enriquecer a si mesmo.

Em outros aspectos, no entanto, é um sujeito decente. Não tem lá muito interesse ideológico e trata com respeito e dignidade os prisioneiros que utiliza para desenterrar os tesouros arqueológicos, alguns bastante adequados para seus propósitos, incluindo o arqueólogo Professor Blake (David Niven). Mas essa sua falta de fervor nazista o coloca em desacordo com o comandante da SS na ilha, um desses oficiais alemães brutais e cruéis.

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O filme mostra ainda a chegada de dois prisioneiros peculiares, duas figuras americanas  capturadas no local: Dottie del Mar (Stefanie Powers), uma nadadora campeã, cantora e dançarina, cujas habilidades de natação serão úteis para a Hecht na procura de possíveis tesouros afundados no mar. E Charlie Dane (Gould), um comediante que não tem qualquer utilidade, mas Hecht acaba por simpatizar pelo sujeito, em parte porque compartilha uma paixão pelo jazz americano.

Enquanto isso, a resistência grega está ativa na ilha. Seu líder é um monge destituído chamado Zeno (Savalas). Sua namorada, Eleana (Cardinale), dirige o bordel local que é na realidade o centro de coleta de informações da resistência. Com uma iminente invasão dos aliados, Zeno tem ordens para assumir o controle da ilha e destruir as instalações nazistas, incluindo algumas bases secretas, que contém mísseis e representam uma grande ameaça para uma frota invasora.

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Para assumir a ilha, Zeno contará com a ajuda de alguns prisioneiros, ganhando suas cooperações prometendo que saquem o mosteiro da região e seus tesouros bizantinos. Este aspecto da operação é particularmente forte para Charlie, e também para o cozinheiro italiano do acampamento Bruno Rotelli (Bono) e Nat Judson (Roundtree), um soldado americano baaaadaaasss. A dificuldade potencial é que os planos da Resistência também exigirão a ajuda do Major Hecht, que não gosta da ideia de traição, mas acaba sendo favorável à persuasão, especialmente por estar apaixonado por Dottie.

Os produtores de FUGA PARA ATHENA dispunham de muito dinheiro para brincar e o diretor George P. Cosmatos (RAMBO II e COBRA), que veio com a ideia original, aproveitou bastante dos recursos que tinha em mãos. As cenas de ação não são nada espetaculares, mas a utilização dos cenários como palco para tiroteios e explosões, incluindo o mosteiro em que se passa a ação final, construído especificamente para o filme (e completamente explodido ao final), são suficientes para manter os fãs do gênero felizes. Há também uma perseguição de motocicleta pelas ruas estreitas de uma aldeia que é muito bem elaborada.

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O aspecto do filme que provavelmente seja mais problemático é a comédia, que de vez em quando ameaça sobressair demais. Gould e Powers parecem estar envolvidos em um filme totalmente separado daquele em que Savalas e Roger Moore estão fazendo. Se isso realmente é um problema depende de quanta tolerância você tem para os momentos cômicos exagerados. A mim, não incomoda tanto, embora reconheça que saia um pouco do tom de vez em quando…

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Uma das coisas que gosto em FUGA PARA ATHENA é a ideia de colocar Roger Moore como um comandante nazista, algo que não estava esperando e que, a princípio, o coloca como um dos vilões da história. O próprio ator já declarou que se sentiu deslocado no papel… Como dizem, um miscasting (aparente escolha transversal de algum integrante do elenco). Para quem cresceu vendo o sujeito interpretar James Bond, soa meio estranho, mas destaco a ousadia. Pessoalmente, gostaria de vê-lo tendo mais a fazer nesta aventura, mas não tenho do que reclamar quando quem acaba dominando o filme é o grande Telly Savalas, que transforma Zeno num personagem muito forte, dramático, mas com um toque de humor irônico.

FUGA PARA ATHENA é bem divertido. Como disse antes, um pastiche ao tratar da guerra, em que aprendemos que nem todos os soldados alemães eram nazistas, porque até James Bond poderia ser um oficial alemão desde que ajudasse o Kojak a salvar o dia. Para quem sabe apreciar esse tipo de ficção da história, é uma boa pedida.

QUANDO VOAM AS CEGONHAS (1959); CPC UMES FILMES

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Já tinha visto QUANDO VOAM AS CEGONHAS no DVD que a Continental lançou na década passada. Não lembro direito da qualidade dessa versão – como sabemos qualidade nunca foi o forte dessa pífia distribuidora – mesmo assim, lembro de ficar extremamente impressionado com as imagens que o diretor Mikhail Kalatozov e o seu fotógrafo, Sergey Urusevsky, conceberam. Um deslumbrante exercício estético em preto e branco de encher os olhos. Toda essa impressão se confirmou agora com a revisão do filme lançado em DVD, com imagem restaurada, pela CPC UMES FILMES, na sua incrível série Cinema Soviético. 

QUANDO VOAM AS CEGONHAS foi a coroação do cinema soviético no período e um dos melhores filmes anti-guerra já feitos. Trata-se de uma experiência emocionalmente devastadora, contando a história de amor envolvendo o jovem Boris, que se une ao exército soviético num rompante de patriotismo, deixando para trás a sua bela namorada Veronika. O filme detalha minuciosamente a maneira como a guerra separa os dois pombinhos, tornando-se um dos primeiros filmes soviéticos a realmente lidar com os efeitos negativos da Segunda Guerra Mundial.

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Dois pontos chamam a atenção em QUANDO VOAM AS CEGONHAS. Primeiro, o coração do filme é Tatiana Samoylova, que dá vida à Veronika, numa atuação hipnotizante e emocionalmente forte. Uma das grandes performances do período. Sobrinha-neta do famoso e influente ator e professor de teatro Constantin Stanislavski, cujo método de atuação inspirou dezenas de grandes atores como Marlon Brando, Jack Nicholson, Paul Newman e muitos outros, é bem provável que Samoylova tenha usado seus ensinamentos. Demonstrando grande talento e uma beleza ímpar, foi convidada para trabalhar em Hollywood e em outros lugares fora da União Soviética depois de QUANDO VOAM AS CEGONHAS, mas foi forçada a recusar essas ofertas por conta da situação política daquele contexto. Infelizmente, seu único outro grande papel foi na aclamada adaptação soviética de 1967 de Anna Karenina.

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Outro ponto marcante de QUANDO VOAM AS CEGONHAS é o visual impactante, que já mencionei, o deslumbre das imagens, um trabalho extremamente ousado e inventivo em termos de direção e cinematografia, com uso de câmeras na mão, composições viscerais e utilização dos espaços e profundidade de campo. É dessas obras reveladoras sobre como as possibilidades ilimitadas no manuseio de uma câmera, da edição, da luz e sombras, essa matéria prima que chamamos de CINEMA, têm a capacidade de transcender a própria natureza do filme…

Não existe um plano sequer em QUANDO VOAM AS CEGONHAS que seja imperfeito ou desnecessário. Há uma sequência, no entanto, que é uma das minhas favoritas, quando Veronika corre em direção à uma estação de trem e Kalatosov faz desse simples ato um dos momentos mais imaginativos do filme, com uma câmera chacoalhando, um trabalho de câmera genial que cria um efeito ofegante, permitindo que nos sintamos exatamente como Veronika se sente. É simplesmente absurdo.

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Não é toa que digo que foi a coroação do cinema soviético. QUANDO VOAM AS CEGONHAS recebeu a Palma de Ouro no festiva de Cannes, em 1958, desbancando filmes como MEU TIO, de Jacques Tati, e NO LIMIAR DA VIDA, de Ingmar Bergman. E apesar de não ter vencido como melhor atriz, Samoylova recebeu uma menção especial por sua atuação.

Kalatosov também é conhecido por outra obra deslumbrante chamada EU SOU CUBA, um filme todo encadeado com alguns dos mais belos planos da história do cinema. Também foi lançado aqui no Brasil numa edição vagabunda pela Continental. Nada que a CPC UMES FILMES não possa consertar com uma edição caprichada, da mesma forma que temos agora esta de QUANDO VOAM AS CEGONHAS, uma obra-prima do cinema soviético indispensável a qualquer indivíduo interessado por cinema de verdade.

O filme pode ser encontrando na loja virtual da distribuidora e em várias lojas do gênero e livrarias. E não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar sabendo das novidades, especialmente do cinema soviético, e os seus próximos lançamentos em DVD e no cinema.

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O DESTINO DE UM HOMEM (1959); CPC UMES FILMES

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Baseado num romance de Mikhail Sholokhov, O DESTINO DE UM HOMEM narra a odisseia amarga de um soldado soviético na Segunda Guerra Mundial. Andrei Sokolov (interpretado pelo próprio diretor, Sergei Bondarchuk), é um simples carpinteiro que deixa sua esposa, um filho e duas filhas, para atuar na guerra como caminhoneiro, prevendo que voltaria em breve. Seu destino, no entanto, não corresponde às suas previsões e ele acaba caindo nas mãos dos nazistas. A história é contada num longo flashback, numa narrativa que contempla vários anos em que vemos o sujeito comendo o pão que o Diabo amassou, pulando de um campo de concentração a outro, tratado brutalmente pelos alemães e forçado a trabalhos desumanos.

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Há vários pontos fortes para elogiar no filme de Bondarchuk, os vários “blocos” que estruturam o filme guardam momentos interessantes, de situações carregadas de sentimento à instantes de pura tensão. Mas uma coisa que me impressiona em tudo isso é como esses soviéticos filmam bem pra cacete. O olhar expressionista do diretor não fica nada a dever de seus “conterrâneos” do período, como Grigori Chukhrai, em A BALADA DE UM SOLDADO, ou Mikhail Kalatozov, com QUANDO VOAM AS CEGONHAS, que são filmes que tiveram maior projeção internacional na época, especialmente pelo cinema formalmente inventivo que praticavam. O DESTINO DE UM HOMEM também chama a atenção nesses quesitos, seja pela estética, com um imaginário preto-e-branco poético na maior parte do tempo, ou seja pelo trabalho de câmera e montagem espetaculares. A sequência que antecede a prisão de Andrei, com o sujeito dirigindo seu caminhão num campo aberto em meio a um bombardeio nazista, por exemplo, é simplesmente arrebatador, desses momentos que provam que, pelo menos no formalismo, na técnica, os soviéticos eram insuperáveis e estavam muito à frente de grande parte do cinema de Hollywood do período.

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Alguns anos depois, Bondarchuk dirigiria WATERLOO, produção internacional sob a batuta de Dino De Laurentiis, com Rod Steiger no papel de Napolão Bonaparte… Acho que vale a pena ir atrás.

O DESTINO DE UM HOMEM é um belíssimo filme de guerra, humano e tocante que merece ser visto e admirado. E foi lançado em DVD recentemente no Brasil pela CPC UMES FILMES numa ótima edição, com imagem restaurada. Vale a pena uma visitada na loja online da distribuidora para adquirir este e várias outras obras sensacionais do acervo da distribuidora, repleta de preciosidades soviéticas. E curta também a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar por dentro das novidades e futuros lançamentos.

DVD REVIEW: A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE (2014); A2 FILMES

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Tsui Hark é desses monumentos do cinema asiático que eu ainda estou descobrindo aos poucos. De uma filmografia de mais de quarenta obras devo ter visto cerca de uma dúzia. É pouco, mas suficiente pra dizer que o homem é um dos diretores mais interessantes em atividade, mesmo que seu trabalho atual não seja do mesmo nível de algumas coisas que fez nos anos 80 e 90. De todo modo, é um nome obrigatório a ser seguido. Por isso, imaginem a minha felicidade quando a A2 Filmes anunciou o lançamento em DVD de um dos melhores trabalhos recentes do sujeito, o espetáculo de guerra A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE

Trata-se de um épico chinês de ação e aventura que não economiza na panfletagem e glorificação do exército chinês, no heroísmo grandiloquente presente ao longo de um conto que celebra a criação das lendas, dos mitos e de como essas histórias permanecem vivas de gerações em gerações.

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O filme começa nos tempos atuais, quando um jovem chinês relembra a famosa Batalha na Montanha do Tigre enquanto viaja de Nova York até à China. História que deve ter sido contada e recontada pelos seus avós incontáveis vezes, e agora nos é mostrada como uma fábula de guerra repleta de exageros e prováveis impossibilidades. O que significa um intencional excesso de bravura visual por parte dos heróis numa overdose de tiros e explosões filmado como espetáculo vertiginoso.

A narrativa, portanto, volta no tempo, logo após a segunda guerra mundial. Os japoneses, rendidos, deixam a China, certos locais se transformam numa terra de ninguém, na qual bandidos enriquecem, juntam arsenais e estocam comida em bases militares de difícil acesso, enquanto pequenos vilarejos são dizimados pela miséria e fome. Na trama, um pequeno grupo do exército de libertação chinês resolve colocar um ponto final na nessa situação, encarando um gigantesco grupo de foras-da-lei, liderados pelo misterioso The Hawk (um irreconhecível Tony Leung carregado de maquiagem), que se esconde numa base secreta praticamente inacessível na famigerada Montanha do Tigre.

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Um dos grandes méritos de Hark sempre foi trabalhar bem o drama e aqui até consegue balancear a emoção da aventura com a tragédia dos soldados diante de uma terra arrasada, diante de um povo que sofre de fome, doenças e perdas. Mas a verdadeira razão para se apreciar uma obra como A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE é mesmo o espetáculo de ação que nos é proporcionado, com o máximo de eventos que podemos imaginar num cenário de guerra nas montanhas geladas da China: escaladas perigosas, avalanches, o fator homem vs natureza, perseguições de esqui, batalhas épicas e até uma sequência impressionante de um dos heróis encarando um imenso tigre feito de uma computação gráfica muito bem feita.

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Se levarmos em consideração ainda que o filme foi rodado em 3D, aí que a coisa vira um carnaval de fragmentos de explosões, sangue e balas em excesso sendo atirados em direção ao público, o que acaba dando um charme a mais. É o espetáculo de ação com seus exageros deliciosos e muito bem orquestrado que a gente sempre espera do Hark.

No final, o diretor escancara de vez suas intensões por trás de um filme de guerra patriótico, oferecendo uma reflexão sobre a criação das fábulas, das histórias contadas pelos antigos, histórias que o tempo, a distância ou mesmo a vontade de transmitir valores se transformaram em lendas, muitas vezes completamente malucas ou inacreditáveis, como a narrada em A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE, que até é inspirada em eventos reais, mas extremamente agradáveis de ouvir por toda a mitologia que as cercam​​.

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Recomendado aos fãs de um bom festival eletrizante e barulhento de ação, A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE já se encontra no acervo da A2 Filmes, através do selo Flashstar, e pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo. O filme também se encontra disponível para ser assistido hoje mesmo em plataformas digitais como NOW e Looke. E curta a página de facebook da A2 Filmes para ficar por dentro das novidades.

THE CUT-THROATS (1969)

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Mais um trabalho do diretor John Hayes, aquele de SWEET TRASH, que postei aqui logo no início do ano. O sujeito é simplesmente um mestre esquecido do exploitation americano. THE CUT THROATS é o filme da vez, um thriller fuleiro, mas muito divertido, de II Guerra Mundial. O plot básico, a princípio, se passa nos últimos dias da guerra numa versão de OS DOZE CONDENADOS da putaria: Um grupo de soldados americanos é reunido para uma missão suicida numa base nazista para roubar os planos de guerra do alemães.

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O filme não enrola muito pra começar, embora logo no início tenha uma sequência totalmente gratuita de um alemão estuprando uma moça que vaga pelo campo, que de tão desnecessária já torna a situação, no mínimo, curiosa. Até porque o “campo” parece mais algum fundo de estúdio na Califórnia… E até onde eu entendo de história, os nazistas não chegaram tão longe… Haha! Mas o planejamento e a execução da missão acontece bem cedo. Os soldados americanos atacam a base e fazem a limpa, eliminam praticamente todos os nazistas no local. Fácil. Só que estamos num exploitation do Hayes, então a missão ou os tais planos de guerra são as coisas que menos importa.

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O fato é que a base também é ocupada por um grupo de moças sapecas que fazem a alegria da moçada. E a narrativa acaba se construindo em blocos de situações dos soldados e seus envolvimentos sexuais com as mulheres, desde um show burlesco até as mais variadas possibilidades dentro de aposentos, numa noite bem agitada.

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Outra coisa que faz THE CUT THROATS andar é que o plano do líder do grupo americano não é exatamente o que ele contou a seu time. Planos de guerra? Porra nenhuma! o sujeito está realmente atrás é de uma fortuna em jóias roubadas e ouro que os nazistas acumularam durante a guerra. E ele não está muito interessado em compartilhar seus ganhos com qualquer um, nem mesmo com seus companheiros de guerra. Continue lendo

DVD REVIEW: O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO (1956); CPC UMES FILMES

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Grigoriy Chukhray ganharia certa fama internacional em 1959 pelo clássico A BALADA DE UM SOLDADO, seu segundo trabalho. Mas já na sua estreia, com O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO, demonstra um talento ímpar pelos lados do cinema soviético, não apenas como esteta – suas composições visuais são simplesmente extraordinárias – mas também como alguém que entende de emoções humanas. O filme é sobre um romance envolvente e ideologicamente complicado entre duas figuras divididas pela guerra civil russa: uma atiradora de elite do exército vermelho, Maria (Izolda Izvitskaya), e um oficial do exército branco, o tenente aristocrata Vadim (Oleg Strizhenov), que fora capturado pelos primeiros.

Baseado nos escritos de Boris Lavrenyev, o “quadragésimo primeiro” do título refere-se ao número das vítimas deflagradas pelo rifle de Maria. Na verdade, ela matou quarenta e errou o tiro seguinte… Na trama, ela faz parte de unidade derrotada do Exército Vermelho, que vaga em retirada do deserto de Karakum onde, em determinado momento, captura Vadim, que por um acaso sobrevive à tal quadragésima primeira bala de Maria.

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Vadim é um prisioneiro importante. Carrega uma mensagem oral secreta destinada a um general do Exército Branco, então os Vermelhos o mantêm vivo, colocando-o sob a guarda de Maria. Quando finalmente chegam ao Mar de Aral, Maria e outros dois soldados são confiados para levar Vadim num pequeno barco até a sede em Kazaly. Mas o tempo tormentoso vira o barco e apenas Maria e Vadim sobrevivem, náufragos em uma ilha deserta. E o que seria uma situação de extremo desespero, acaba possibilitando o desabrochar do afeto mútuo e proibido que os consumia ao longo da jornada.

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Uma situação que os aproxima, não como inimigos, mas como duas almas apaixonadas, num parágrafo cintilante de uma vida de guerra e violência. Eles compartilham o tempo mais felizes de suas vidas na ilha, apesar da disparidade ideológica que vem à tona em alguns momentos, algo que os coloca em conflito e que devem ajustar e reconciliar por causa do amor.

Considerando o período em que O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO foi realizado, é interessante perceber como Chukhray vai um bocado contra a lógica da propaganda soviética vigente, humanizando a imagem de um oficial do Exército Branco, inspirando o público à simpatizar seu afeto genuíno por uma guerreira do exército vermelho. O desfecho até pode ser entendido como uma façanha heroica da lealdade aos Bolcheviques, quando um barco se aproxima para resgatá-los e Maria toma uma atitude espontânea que elimina qualquer possibilidade de final feliz quando a verdadeira identidade do barco é revelada. Mas não dá para descartar a ideia do fator prejudicial que é seguir um código radical com fanatismo. Na verdade, ao invés de escolher lados, o objeto de repúdio de Chukhray é a própria guerra, um ato diabólico disfarçado de patriotismo com resultados desastrosos.

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O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO foi lançado em DVD no Brasil, numa versão remasterizada belíssima, pela distribuidora CPC UMES filmes e está disponível para compra em sua loja virtual e nas melhores casas do ramo. A mesma distribuidora já lançou por aqui A VIDA É MARAVILHOSA, também do mesmo diretor, e já comentado aqui no blog. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos. Um acervo obrigatório que vale a pena comprar.

DVD REVIEW: ALEXANDER NEVSKY (1938); CPC UMES FILMES

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Um dos filmes mais importantes do acervo da CPC UMES Filmes é, sem dúvida alguma, ALEXANDER NEVSKY, dirigido por um dos maiores patrimônios que o cinema já criou, o diretor russo Sergei Eisenstein. Embora o filme tenha sido inicialmente concebido como propaganda de guerra, acabou que seu conteúdo foi ofuscado pela técnica, com Eisenstein aproveitando algumas de suas habilidades inovadoras para criar uma das mais surpreendentes obras-primas do período e realizar uma das mais incríveis sequências de batalhas já filmadas.

Na época, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o então líder soviético Joseph Stalin queria que fosse produzido um filme como ferramenta de propaganda a fim de alertar os cidadãos soviéticos para a crescente ameaça alemã. ALEXANDER NEVSKY surgiu com tais propósitos e conta a história do príncipe Alexander Vasilievich Nevsky, que levou os russos a lutar contra o imperialismo teutônico germânico. O ano era 1242, e os Teutons já haviam conquistado uma grande parte do Império Russo, com ataques rápidos e pegando cidades de surpresa. A cidade de Pskov e toda a Rússia ocidental se renderam aos impotentes Teutons, que então colocaram seus olhos em Novgorod, o epítome do progresso da pátria russa no período.

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Os laços entre os alemães do século XIII e a Alemanha nazista do início do século XX são claros, razão pela qual Stalin acabou proibindo ALEXANDER NEVSKY de ver a luz do dia após ter assinado o pacto de não agressão com Hitler. Pacto que foi quebrado em 1941 e Stalin acabou voltando para sua ideia original de apresentar o filme como propaganda de guerra. Era óbvio o quão poderoso o filme era, não só em termos de caracterização dos alemães como animais cruéis e invasores a serem combatidos com violência, que jogam crianças em fogueiras para serem queimadas vivas, mas também em seu impacto geral como obra cinematográfica. Eisenstein era incapaz de fazer um filme que fosse apenas uma mensagem política e acabou criando uma verdadeira obra de arte.

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Grande parte das atenções de ALEXANDER NEVSKY se concentram na extraordinária sequência de 30 minutos da Batalha do Gelo, na qual o exército de Alexander enfrenta os alemães em um lago congelado. Segundo Eisenstein, em seu livro O sentido do Filme, que eu considero obrigatório, é nesta cena que “o aspecto audiovisual de Alexander Nevsky atinge sua fusão mais completa“. A batalha é um exemplo incrível de encenação, arquitetura da ação e como a combinação de imagem e música pode despertar emoções profundas. As composições visuais são cuidadosamente colocadas em compatibilidade com as notas musicais do compositor Sergei Prokofiev e o resultado é simplesmente magistral em todos os sentidos.

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Em ALEXANDER NEVSKY, Eisenstein demonstra que ele poderia trazer sua visão de autor mesmo trabalhando dentro dos rígidos códigos do estalinismo. Embora ele tenha sido posteriormente humilhado e exilado. Eisenstein prova aqui que o seu brilho não podia ser esquecido tão cedo. E ainda hoje seu trabalho técnico impecável impressiona. É por isso que o filme faz parte do catálogo da CPC UMES Filmes e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página deles no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

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BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO (1988)

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Voltando ao Gene Hackman casca-grossa dos anos 80. Recapitulando, já falamos aqui de DE VOLTA PARA O INFERNO, ENTREGA MORTAL e O ALVO DA MORTE. Ainda vou comentar mais uns três ou quatro, mas por enquanto vamos de BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO.

Curioso é que em 2001 tivemos um filme – mediano, pelo que me lembre – chamado ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS, dirigido por John Moore, no qual Gene Hackman é um almirante que mantém comunicação com o personagem de Owen Wilson ajudando-o a encarar os desafios de estar sozinho literalmente em território inimigo numa guerra. Já este BAT*21, de Peter Markle (VEIA DE CAMPEÃO), é o Hackman quem passa uma situação difícil, vivendo um tenente coronel na Guerra do Vietnã que tem o seu avião abatido por um míssil e acaba sendo o único sobrevivente numa região repleta de soldados vietcongues.

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Hackman é Hambleton, um especialista em armas que tem informações que os vietcongues desejam, e eles sabem que o sujeito está vivo em suas florestas após abaterem seu avião. A coisa esquenta ainda mais, pois Hambleton sabe também que a área em que ele se encontra está prestes a ser bombardeada pelos americanos e por isso precisa sair dali urgentemente. Trabalhando com um piloto de reconhecimento da Força Aérea que sobrevoa o local, o capitão Bartholomew Clark (Danny Glover), eles mapeiam uma rota de fuga antes que seja capturado ou que vá pelos ares…

Baseado num livro de William C. Anderson, a partir de uma história verídica (embora um bocado diferente, já que na época das filmagens o fato ainda era classificado como confidencial), BAT*21 é eficiente ao mostrar um tenente coronel, cuja participação em guerra se dá mais em planejamentos atrás de uma mesa do que combatendo em campo, encalhado no meio da selva rodeado de inimigos. Ajuda muito, portanto, um ator de peso como Hackman em convencer a transformação do seu personagem, que acaba forçado a se defender – e a matar – para manter a pele intacta.

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E esse talvez seja o ponto mais notável de BAT*21, que não é um filme de guerra com ação exagerada e que nunca tenta glorificar soldados americanos no Vietnã. Em vez disso, mostra uma aventura de perspectiva mais humana, o que acaba sendo bem mais contundente quando se trata de perdas de vidas, do ato de matar, e como esse tratamento torna alguns momentos bem mais brutais. Como toda a sequência em que os vietcongs capturam dois pilotos de helicópteros que tinham objetivo de resgatar Hambleton. Mas quando os tiros precisam comer solto, o diretor Peter Markle manda bem em criar um espetáculo explosivo, classudo e truculento. Continue lendo

DE VOLTA PARA O INFERNO (Uncommon Valor, 1983)

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Daqueles filmes que você para e dá aquela refletida… “Por que raios eu não assisti essa merda antes?”  DE VOLTA PARA O INFERNO é o típico de filme de ação/guerra dos anos 8o que eu já deveria ter visto e não sei porque ainda não o tinha feito. Possui uma história sólida, relevante, pessimista de um certo ponto de vista, ao mesmo tempo em que todos os elementos divertidos e exagerados que me fazem sorrir em filmes do tipo se materializam por aqui. É dirigido pelo Ted Kotcheff, um casca-grossa com muito talento e sensibilidade, e reúne alguns dos atores mais badasses do cinema testosterona oitentista! Entre eles o grande Gene Hackman encabeçando o elenco.

Em uma narrativa ao estilo “men in a mission“, DE VOLTA PARA O INFERNO centra-se em um coronel dos Estados Unidos aposentado, Jason Rhodes (Hackman), que acredita que seu filho, Frank, um soldado que esteve em ação no Vietnã, ainda está vivo e mantido prisioneiro no Laos, mesmo passados dez anos do fim da guerra. Depois de conseguir financiamento de um magnata do petróleo (Robert Stack), cujo filho também desapareceu na mesma guerra, Rhodes recruta um grupo de ex-militares e velhos companheiros de guerra de seu filho para retornar à região em busca do pobre rapaz, além de outros americanos vivendo em cativeiro. A equipe inclui Fred Ward, Randall “Tex” Cobb, Reb Brown (o Capitão América dos anos 70), o grande Tim Thomerson e Patrick Swayze, num de seus primeiros papeis para cinema. Se esse não é um dos elencos com um dos mais altos níveis de truculência desse período, então eu já não sei mais nada da vida.

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A primeira metade do filme é a reunião do grupo e o treinamento para colocar esses veteranos em forma antes de partir para a ação. Serve também para que o público se identifique com os personagens, com suas habilidades e trabalhe a química entre eles. Mas também pra mostrar o quão fodido é a vida de alguns indivíduos no pós-guerra, um bando de outsiders atormentados sem a mínima capacidade de se encaixar num convívio social decente. E vêem nessa oportunidade de retornar ao campo de batalha uma maneira de tentarem se reencontrar e dar sentido às suas vidas.

Dessa forma, DE VOLTA PARA O INFERNO serve de expansão ao universo do trabalho anterior de Kotcheff, um dos melhores filmes que existe na vida, que também trata de traumas do Vietnã, FIRST BLOOD, mais conhecido no Brasil como RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR, também conhecido como a obra-prima de Sylvester Stallone. Aliás, recomendo muito este texto sobre RAMBO, do amigo Lázaro Cassar, para o Action News. 

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A segunda metade do filme é tiro, porrada e bomba, como diz minha mulher… Mas sem a previsibilidade habitual. Por exemplo, todo o planejamento para a ação de resgate termina numa furada e grande parte da missão acaba acontecendo na base do improviso – o armamento de Rhodes é confiscado pela polícia local e precisa arranjar armas velhas no mercado negro; os helicópteros de resgate não estão onde deveriam e acabam roubando de uma base militar Vietcong; um dos personagens é mordido por uma cobra ao adentrar um túnel que dá no campo de concentração… E por aí vai. Quando a ação começa pra valer é de arregaçar! Kotcheff manda muito bem  em criar um espetáculo de balas e explosões, com domínio de ritmo, de coreografia e de exageros típicos do cinema de ação/guerra oitentista. A ação final é ao mesmo tempo frenética, divertida, classuda e sem frescuras, mas também melancólica… Como em OS STE SAMURAIS, de Kurosawa, ou SETE HOMENS E UM DESTINO, de john Sturges, o filme não tem muito receio em terminar com algumas baixas de personagens importantes. Personagens que passamos metade do filme criando uma relação… Continue lendo