A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 (1988)

Apesar de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985) continuar firme como um dos grandes filme de zumbis dos anos 80, sua primeira continuação sempre carregou uma fama um bocado ingrata. A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 (Return of the Living Dead: Part II) nasceu cercado de desconfianças, rejeição e chacota, muito por não contar com Dan O’Bannon e por trocar o equilíbrio perfeito entre horror gráfico e humor ácido por algo mais cartunesco, um tom de comédia mais infantilizado. Ainda assim, revendo hoje depois de mais de trinta anos, sinto que o filme mereça uma reavaliação menos raivosa.

Uma continuação que nunca quis ser continuação

Foi dirigido por Ken Wiederhorn (já comentei filme dele aqui, UMA CASA NA COLINA, com o Michael Madsen), gosto de algumas coisas dele e, embora tenha feito um nome com filmes de horror – bom, pelo menos para os entusiastas do gênero que o conhecem – o sujeito nunca escondeu sua pouca afeição pelo gênero horror. Há uma entrevista com ele de 2013 que abre com o entrevistador surpreso por saber que ele não curte tanto filme de terror. E o sujeito responde:

Não é que eu não goste, é só que não era algo que eu queria fazer quando comecei. Aqui funciona assim: quando uma porta se abre, você atravessa. Mesmo que isso signifique fazer um filme num gênero pelo qual você não tem um interesse particular. Então, não posso dizer que eu tenha um interesse profundo por horror, mas foi o que eu consegui fazer. É o que é.

E assim, dos sete filmes que tem no currículo, quatro são de horror e o CASA NA COLINA, que é um thriller, quase flerta com o gênero. Os outros dois são comédia. Que aliás, nos traz de volta a A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2, que considerei como horror, mas também é uma comédia e que no projeto inicial nem era sequer uma continuação de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS. O roteiro já tinha uma pegada de comédia de horror, mas era independente, sobre um garoto e zumbis. Até que os produtores enxergaram ali uma chance de manter vivo o filme de Dan O’Bannon como franquia.

Daí que provavelmente vêm os remendos que surgem aqui, personagens reciclados com a sensação constante de déjà vu, reforçada pela volta de James Karen e Thom Mathews (acima), agora como Ed e Joey, basicamente versões reembaladas de Frank e Freddy do primeiro filme. É estranho, mas também faz parte do charme torto do filme. Há uma cena em que Mathews chega a comentar que está com sensação de que tudo aqui aconteceu antes. E num outro momento eles recriam o diálogo:

Cuidado com a língua, garoto, se você gosta deste emprego
Gostar deste emprego?!

O mesmo filme… Só que para outra idade

A trama tem suas diferenças, mas é quase um replay do filme original. Um daqueles cilindros que guarda os zumbis meio mumificados se perde, crianças curiosas descobrem e começam a futucar, o gás vaza perto de um cemitério, os mortos ressuscitam, militares entram em cena… Um monte de coisa parecida com o original. A grande diferença está talvez no círculo de personagens centrais. Saem de cena os punks, entra a fantasia suburbana infantil. Jesse, o protagonista mirim, ocupa o centro da história, e o filme se alinha mais a uma lógica de “criança enfrentando seus pesadelos” do que o niilismo desesperado do primeiro longa. Não por acaso, o terror aqui nunca pesa de verdade. A violência existe, os zumbis comem cérebros, mas tudo é filtrado por um humor exagerado, com uma pegada de matinê.

E aí que mora alguns pontos de discussão, o fato desta PARTE 2 abandonar um horror mais pesado em favor de um humor mais bobo, da comédia. Uma mistura que funcionava tão bem no filme de 1985 aqui há um possível e relativo desequilibro. Digo como uma possibilidade e relativizando porque existe gosto pra tudo, tem gente que adora isso aqui e muita gente detesta a maneira como humor desse filme se integra ao horror.

Mas é fato que as piadas por aqui são mais escancaradas, o tom é mais infantilizado, e muitas cenas flertam com o pastelão. De que lado eu fico no meio desse entrave? Eu acho que na maior parte do tempo funciona, especialmente se já tiver em mente que a proposta do filme é essa. Pra mim, diverte. Há bons momentos com gags que misturam violência num estilo cartunesco, como a da cabeça decapitada do zumbi mordendo o dedo de um dos personagens, ou a cena em que Suzanne Snyder soca um zumbi até ele virar um chafariz de gosma verde.

A ovelha negra da família

Agora, é evidente que nem tudo vai funcionar. Num bom dia talvez eu abra um sorriso pro zumbi imitando o Michael Jackson no clip de THRILLER no final… Mas às vezes o humor por aqui só soa preguiçoso mesmo. E o tom infantil, a falta de risco dramático esvazia qualquer tensão real que o filme poderia ter. E mesmo assim não é nada absurdo que estrague a experiência. O clima de horror leve, meio bobo, acho que funciona bem como porta de entrada pro subgênero. Inclusive, lembro de assistir quando criança, tenho quase certeza que foi o primeiro filme de zumbi que vi na vida, passava na TV aberta em plena tarde…

Acho injusto que tenha fracassado nos cinemas, foi massacrado pela crítica e jamais ganhou o status cult que outros filmes ruins, ou excêntricos, conquistaram. Mas revisto hoje, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 é melhor do que sua reputação indica. Não é um grande filme, mas é um bastardo da franquia. Um corpo estranho que diverte mais do que deveria, especialmente se visto sem a sombra sufocante do original. Os efeitos práticos são divertidos, os zumbis animatrônicos são um barato. Ken Wiederhorn até pode não estar muito inspirado com a câmera por aqui. Mas a fotografia pelo menos é de Robert Elswit, futuro colaborador de Paul Thomas Anderson, vencedor do Oscar por SANGUE NEGRO. O sujeito dá ao filme um visual muito acima da média para uma continuação descartável dos anos 80.

Nunca vai superar e nem chega perto do primeiro. Até porque o original, como já disse, é um dos melhores filmes de zumbi dos anos 80, então acho que é compreensível. No entanto, como toda ovelha negra decente, ele sobrevive quando abandonamos a má vontade e o encaramos pelo que realmente é: um filme errado, curioso e melhor acabado do que muitos cadáveres dos anos 80. Já nos anos 90, teve A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 (1993), do grande Brian Yuzna, e em 2005, já na era direct to video, vieram RETURN OF THE LIVING DEAD: NECROPOLIS e RETURN OF THE LIVING DEAD: RAVE TO THE GRAVE. Esses dois últimos nunca vi, mas tem cara de bomba…

REPO MAN – A ONDA PUNK (1984)

No fim dos anos 1970, cineastas ingleses já haviam levado a estética anárquica do punk para a tela grande, em obras como THE GREAT ROCK ‘N’ ROLL SWINDLE (1980), de Julien Temple, e JUBILEE (1978), de Derek Jarman. No cinema americano, porém, o punk se mantém sobretudo como um refluxo subterrâneo e sobrevive como movimento underground, raramente alcançando o circuito comercial, ficando cercado pela aura de fenômeno “cult”. De vez em quando, um filme marginal ganhava certa visibilidade, mas eram trabalhos mais diferentões e provocativos que permaneciam na condição de vanguarda, exibidos em sessões de meia-noite e salas de arte, locais pra quem buscava algo além do conforto narrativo.

Esse cenário começa a se alterar quando um jovem diretor inglês, Alex Cox, vai para os Estados Unidos estudar cinema e, em seguida, realiza alguns filmes cujo sucesso crítico e repercussão cult acabam por trazer o punk americano para o radar. Os dois primeiros longa-metragens de Cox, em especial, configuram uma espécie de manifesto. REPO MAN e SID AND NANCY (a biografia de Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols) fazem do diretor uma figura a ser levada a sério. Se SID AND NANCY conquista mais diretamente os críticos, REPO MAN encarna o ethos punk como uma abordagem revisionista dos gêneros clássicos do cinema americano. O resultado é um filme que, mesmo lançado quando o movimento punk já havia perdido grande parte de sua espontaneidade histórica, consegue reativar algo de sua energia corrosiva.

REPO MAN abre nas rodovias desérticas, com uma cena que é ao mesmo tempo bizarra e cômica. Um carro é parado por um policial rodoviário e, ao abrir o porta-malas, o policial é envolvido por um brilho inexplicável. Num instante o sujeito é evaporado, restando apenas suas botas fumegantes no asfalto. O carro e seu motorista excêntrico seguem viagem, como se o absurdo fosse apenas mais um acontecimento banal na paisagem americana.

A partir daí, o filme acompanha a trajetória de um jovem punk (Emilio Estevez), desempregado, sem horizonte claro, cercado por amigos tão perdidos quanto ele. Anarquistas niilistas, desajustados por escolha e por falta de opção. Há, no entanto, em Estevez, uma fissura, um desejo por “algo mais” que o coloca num território ambíguo entre a rendição ao caos e a busca por algum tipo de sentido.

Por acaso, ele acaba ajudando um homem (Harry Dean Stanton) a levar um carro e descobre depois que esse sujeito é um repo man, alguém que ganha a vida retomando veículos de proprietários inadimplentes. É um trabalho perigoso e moralmente nebuloso. A princípio, Estevez enxerga os repo men como ladrões com crachá. Ainda assim, decide se juntar ao grupo. Sob a tutela do personagem de Stanton, ele aprende não apenas as manhas do ofício, mas também um “código” e até uma espécie de filosofia do repo man, um conjunto de regras e crenças meio cínicas, meio espirituosas, que funcionam como uma ética possível. Ao mesmo tempo, ele descobre que há uma firma rival competindo pelos mesmos carros, levando sua nova rotina a um permanente estado de conflito.

No meio disso tudo, Estevez conhece uma garota que, aparentemente, trabalha para uma organização dedicada a investigar presenças alienígenas na Terra. É também nesse momento que surge um alerta, qualquer repo man que conseguir recuperar um carro em particular (o mesmo veículo da cena inicial) receberá uma recompensa considerável. O filme então entrelaça o microcosmo dos repo men, o submundo punk, uma paranoia alienígena e a mitologia americana, criando um mosaico em que tudo parece conspirar para testar o que resta de identidade do pobre protagonista.

REPO MAN é um filme sobre esse rapaz e sua a necessidade de autodefinição e propósito. Na forma como Estevez percebe seu lugar precário no mundo. Ele oscila entre o conformismo desesperançado e uma recusa ainda incompleta da anarquia total. Ao contrário de seus amigos punks, não se entregou por inteiro ao vazio ou à destruição como único gesto autêntico, ele ainda alimenta a expectativa de algo diferente. É um inconformado cansado de tudo e justamente por isso se agarra ao credo de Stanton. Para o repo man, viver é entrar continuamente em situações intensas, quase como uma forma de rebelião contra a apatia anestesiante da sociedade.

Cox aplica o ethos punk, seu humor corrosivo, sua recusa das formas tradicionais de autoridade, sua estética do improviso, à obsessão americana pela mobilidade veicular. O filme emerge, assim, como um híbrido singular de anarquia cômica, crítica social contundente e um tipo de existencialismo psicodélico sobre rodas. O paradoxo é que, num filme sobre carros e deslocamentos pela cidade, as jornadas são curtas e os percursos raramente levam a algum lugar efetivo.

Nessa paisagem de frustração e fuga, é irônico que o personagem do mecânico falastrão (Tracey Walter) surja como a figura mais razoavelmente equilibrada do filme, ao menos tanto quanto Cox permite. É ele quem articula um tipo de “consciência cósmica” de segunda mão, uma filosofia improvisada que soa ao mesmo tempo ridícula e estranhamente lúcida. Sua presença funciona como um comentário sobre a própria busca por sentido desses personagens. De certa forma, ele encarna uma sabedoria marginal, precária, mas ainda assim mais honesta do que os discursos oficiais que apenas maquiam a frustração generalizada.

Mas REPO MAN não faz muitos julgamentos com esse material humano. O filme os observa como um animal desorientado tentando extrair algum sabor da experiência, mesmo que pela via da confusão e do risco. A ilusão de significado, aqui, condensa-se na busca por experiências intensas, como se a intensidade, por si só, bastasse para legitimar a existência. Quando tudo parece esvaziado de valor, o choque, seja ele físico, emocional ou metafísico, vira substituto de transcendência. Não admira que os verdadeiros derrotados sejam justamente os hippies, os pais do personagem de Estevez, reduzidos a um ciclo de chapação passiva e doação automática de dinheiro a televangelistas. Sua antiga utopia se corrompeu em torpor espiritual e consumo de esperança enlatada.

Para Cox, os punks não chegam à anarquia por um simples impulso de destruição, mas por um desejo quase desesperado de sentir-se vivos. O filme mostra que a solução é a anestesia, a insensibilidade crescente, a vida reduzida a um piloto automático social. Nesse contexto, a “consciência cósmica” do mecânico é uma piada, mas também um sintoma, mesmo as formas mais precárias de espiritualidade ou filosofia parecem preferíveis ao vazio completo. Essa tensão culmina em um final psicodélico, o carro fluorescente sobrevoando a cidade, uma espécie de ascensão nonsense, quase mística, que ao mesmo tempo zomba e flerta com a ideia de transcendência. A exaustão emocional e existencial desses sujeitos é evidente, e o fim dessa energia parece próximo, já que não há um “significado” convencional ao qual possam se agarrar em busca de consolo.

Assim, embora Cox ecoe a condenação ativa que o movimento punk dirige à sociedade moderna (ao consumo, à hipocrisia, à moral pasteurizada), ele tampouco encontra refúgio na anarquia vazia que o próprio punk, às vezes, celebra. Os repo men são retratados como pseudo-filósofos insones, estimulados quimicamente, sempre à beira do colapso, tentando racionalizar um mundo que não oferece respostas. O interesse de Cox está menos em propor uma saída e mais em explorar o paradoxo entre o desespero e o desejo de fuga. E é nesse limiar, onde a fuga ainda não é puro escapismo e o desespero ainda não se converteu em resignação, que surge uma espécie de última faísca de esperança para esses indivíduos em ruína.

Cox retornaria a esse mesmo território emocional e filosófico em SID AND NANCY, agora deslocando a discussão para um contexto histórico mais concreto. Se em REPO MAN o punk é um horizonte de sensação e desorientação metafísica, em SID AND NANCY ele aparece como tragédia anunciada de uma geração que buscou na destruição uma forma de autenticidade.

ALDRICH – FINAL: 1977 – 1981

O ÚLTIMO BRILHO DO CREPÚSCULO (Twilight’s Last Gleaming, 1977)
O próprio Aldrich considerava isso aqui um de seus trabalhos favoritos, apesar do fracasso comercial, provavelmente porque o sujeito não media esforços para refletir todo o desencanto que assombrava a sociedade americana, com um climão político extremamente pessimista. O filme se passa ao longo de um dia, quando um general idealista (Burt Lancaster) assume o controle de uma base de mísseis nucleares e chantageia o presidente dos EUA, interpretado por um fenomenal Charles Durning, para revelar ao povo americano as mentiras do governo sobre o envolvimento dos EUA no Vietnã. O que se segue são 146 minutos de uma aula de tensão implacável do início ao fim, com um domínio preciso de Aldrich, fazendo um uso excepcional de split-screen, e com um elenco afiado que inclui Richard Widmark, Paul Winfield, Burt Young, Melvyn Douglas, Joseph Cotten e uma participação pequena, mas intensa, do grande William Smith.

THE CHOIRBOYS (1977)
É meio que o M.A.S.H. do Aldrich, com estrutura de esquetes e sem uma trama tão definida, só que acompanhando policiais no seu trabalho diário em situações, digamos, cômicas, e por isso talvez um precursor dos LOUCADEMIA DE POLÍCIA. Só não digo que é o pai desses filmes, porque tá mais pro tio reacionário do churrasco… Mas é um filme que era ofensivo num período que o público entendia a ironia da coisa, da sátira e da crítica da sociedade que o filme faz. A sorte é que hoje continua sendo um trabalho pouco visto e conhecido do Aldrich, se fosse descoberto por um certo público cinéfilo de redes sociais, formado quase predominantemente por jegues, seria taxado de um monte de coisa (um filme homofóbico, misógino, racista, etc). Pelo gênero em si, nem acho o filme exatamente engraçado, ele é mais curioso, gera um certo fascínio pelo absurdo e pelas viradas mais trágicas que acontecem lá pro final. Mas é um filmaço.

O RABINO E O PISTOLEIRO (The Frisco Kid, 1979)
O penúltimo filme de Aldrich é um buddy movie de comédia e faroeste com boa química entre Gene Wilder e Harrison Ford e um ou outro momento engraçado. O rabino Avram (Wilder) chega à Filadélfia vindo da Polônia a caminho de São Francisco, onde será o novo rabino de uma congregação. Inocente e inexperiente, é enganado por golpistas. É acolhido por um estranho, Tommy (Ford), que é um ladrão de bancos, e acabam tendo muitas aventuras durante a jornada. Pela trama até poderia render algo melhor, mas o filme não ajuda muito… Longo, enfadonho, a maioria das piadas e situações não tem lá muita graça. Só não vou dizer que o Aldrich tava cansado em final de carreira porque ele ainda lançou um petardo daqueles como canto de cisne, que é o GAROTAS DURAS NA QUEDA aí embaixo. Por aqui, não sei realmente dizer o que aconteceu, mas o resultado tá bem abaixo do esperado…

GAROTAS DURAS NA QUEDA (…All the Marbles, 1981)
Um dos meus favoritos do diretor, um de seus trabalhos mais bonitos. Road movie que acompanha Peter Falk como Harry, o empresário de uma dupla de atletas de “luta livre”, Iris (Vicki Frederick) e Molly (Laurene Landon), enquanto viajam pelos Estados Unidos tentando ganhar a vida. Uma dureza danada, um universo de violência, amoral, sujo e de chantagens, mas que Aldrich consegue extrair uma ternura absurda, uma riqueza de espírito que jorra da tela. O papel de Harry foi originalmente escrito para Paul Newman, mas acho que o sujeito não teria se adequado tão bem quanto Falk, cujo ar de desleixo e presença física o torna perfeito. Como muitos dos personagens mais interessantes de Falk, Harry é moralmente nebuloso e nem sempre encontra o equilíbrio entre ajudar sua equipe e explorá-la. Mas apesar de suas ocasionais falhas éticas, o coração de Harry está no lugar certo, e ele e Iris e Molly compartilham um dos relacionamentos mais bonitos que já vi. Alguns dos melhores momentos ocorrem no carro velho e precário de Harry, enquanto os três planejam o que vão comer, quanto cigarro ainda falta, possíveis jogadas de marketing, truques, e sonham por uma vida melhor que não seja uma extensão do ringue, onde levam cacetadas o tempo todo… Foi o último filme de Aldrich (ele já tava planejando uma continuação deste aqui). Deu tempo de deixar mais uma obra-prima.

Fim da maratona.

ALDRICH – PARTE 5: 1971– 1975

Provavelmente a minha fase favorita da filmografia do homem.

RESGATE DE UMA VIDA (The Grissom Gang, 1971)
A “síndrome de Estocolmo”, sob a ótica nada sutil de Aldrich. Uma moça rica é sequestrada e mantida como refém. Ao longo do tempo (provavelmente um par de anos), ela se apaixona pelo seu algoz, um sujeito doente vivido pelo Scott Wilson. Foi um fracasso na época do seu lançamento comercial e pelo que pude perceber é bem achincalhado até hoje mesmo pelos admiradores do Aldrich. Tem seus defensores ferrenhos, e agora finalmente posso me juntar a eles. Não que se trate de uma obra-prima, mas é o tipo de coisa que eu adoro, ainda mais que o filme tem aquele aspecto de filme de gangster vagabundo do Roger Corman dos anos 70. Mas é desses filmes que precisa de um pouco mais atenção pra aproveitar suas riquezas. Ele até aparenta tentar pegar uma carona no sucesso de um BONNIE & CLYDE, de Arthur Penn, e de certa forma o faz, mas também te leva a alguns lugares interessantes nessa trama simples de sequestro durante a lei seca nos EUA, que se desdobra pra um estudo de psicopatia muito interessante – e Scott Wilson tem um bom papel nisso. Há bastante força nessas imagens, nas performances e em como Aldrich trabalha esse tipo de material. O trecho final revela um aspecto mais sentimental do cinema do diretor. Transmite um belo espírito libertário na qual as instituições personificadas pelo pai da garota (enojado com a filha agora ‘impura’) não valem mais que os próprios sequestradores, a família Grissom, que ao menos têm o mérito de mostrar sua monstruosidade à luz do dia, embora paradoxalmente tenham representado a única unidade familiar relativamente coesa do filme.

A VINGANÇA DE ULZANA (Ulzana’s Raid, 1972)
Esse ainda me faltava assistir e, caramba, que petardo! Um dos melhores faroestes revisionistas dos anos 70 sem dúvida alguma. A trama é um jogo de gato e rato entre Apaches e a cavalaria americana que se desenrola na paisagem árida do Arizona, mas toda pontuada por episódios de violência gráfica que devem ter feito Sam Peckinpah orgulhoso e claramente uma alegoria mais confrontadora sobre o Vietnã, sobre hipocrisias e atrocidades coloniais. Aldrich tá implacável na representação da violência por aqui. Há uma sequência onde uma mãe e um filho atravessam um terreno hostil com um único guarda como proteção. Os apaches atacam. O guarda executa a mulher com um tiro na testa sem pensar duas vezes e foge, mas acaba tirando a própria vida com uma bala na cabeça quando seu cavalo cai. O clichê “é melhor morrer do que cair nas mãos dos índios” é levado às últimas consequências de forma explícita. E o sangue jorra como nunca. “É assim que eles são”, diz o aliado Apache da cavalaria sobre a violência de sua tribo. No entanto, o filme não faz muitas concessões ao atribuir a barbárie em nenhum dos lados, nem encontra espaço para heroísmo. É um filme sobre a estupidez humana e a inevitabilidade sinuosa da morte.

Foi a terceira parceria entre Aldrich e Burt Lancaster, que tá excepcional aqui, como não poderia ser diferente.

O IMPERADOR DO NORTE (Emperor of the North, 1973)
“You ain’t stoppin’ at this hotel, kid. My hotel! The stars at night – I put ‘em there. And I know the presidents – all of ‘em. And I go where I damn well please. Even the chairman of the New York Central can’t do it better. My road, kid, and I don’t give lessons and I don’t take partners. Your ass don’t ride this train!” (Number One)

A filmografia do Aldrich nos anos setenta é uma coisa impressionante e este filme aqui é um dos melhores. Provavelmente o filme do diretor que mais vezes assisti na vida (sim, mais até que OS DOZE CONDENADOS). E tem uma das tramas mais cascas-grossas do período: durante a época da depressão, Lee Marvin interpreta Number One, o mais famoso vagabundo caronista clandestino de trens do país; do outro lado temos Ernest Borgnine, o mais sádico e durão condutor que já existiu e que não hesita em colocar pra fora qualquer um que queira viajar sem comprar um ticket, seja na base da martelada na cabeça, no uso de correntes e os mais diversos recursos que vem a calhar, mesmo que o pobre coitado caia nos trilhos e termine partido ao meio. O confronto entre esses dois obviamente será inevitável. E quando finalmente ocorre, é como duas nuvens carregadas que se chocam, causando estrondos ensurdecedores!

Belo filme, cinematograficamente potente, tem ótima recriação do clima da época, os traços da miséria, os programas de rádio, as roupas velhas e rasgadas, um sentimento que parece saído de um livro de John Steinbeck e Jack London, mas sem perder tempo com estudos sociológicos do período em questão (embora as classes estejam obviamente demarcadas nas duas figuras centrais). O IMPERADOR DO NORTE é um filme solto, mais em clima de aventura do que um recorte fiel e chato da depressão americana, e se desenvolve mais em cima do duelo físico e psicológico desses gigantes do cinema americano. Obra-prima.

GOLPE BAIXO (The Longest Yard, 1974)
Na visão de Aldrich, o sistema e suas hierarquias sociais, militares, judiciárias são tão podres que até os degenerados tornam-se heróis. Foi assim em OS DOZE CONDENADOS e é também por aqui. Burt Reynolds (numa das minhas atuações favoritas do sujeito) é um ex jogador de futebol americano que por conta de algumas travessuras acaba preso. Agora, precisa reunir um time de futebol formado pelos prisioneiros da penitenciária para jogar contra o time dos guardas. Ao mesmo tempo em que sua alma é colocada à prova, ele promete uma chance aos seus companheiros de quebrar uns dentes dos sádicos adversários, na longa sequência do jogo de futebol, que é também das mais belas e divertidas alegorias anti-sistema do período. Mais “aldrichiano” que isso é impossível…

CRIME E PAIXÃO (Hustle, 1975)
Eu sempre achei engraçado que a capa do DVD deste filme mostra um carro explodindo, promete um filme de ação deflagrador e tal. Até que um dia decidi assistir e minha sensação se resumia a: “Que diabos é isso? Onde está o velho Burt em ação? Cadê os tiros? As explosões?” Pois é, o filme não tem nada disso, e achei uma porcaria. Deve ter mais de dez anos atrás que vi pela primeira vez…

Fazendo agora essa retrospectiva de Aldrich estava até ansioso para revisitar CRIME E PAIXÃO com outros olhos, já preparado. E aí, meus amigos, não deu outra: é uma maravilha! Um desses filmes que é difícil explicar sua existência. Me deixou até desnorteado… Porque ele realmente tinha todos os ingredientes para ser mais um filme policial com investigação, perseguições e tiroteios, no estilo de OPERAÇÃO FRANÇA e PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL, e o diretor certo para isso, um dos grandes nomes do gênero ao lado de Don Siegel, Sam Peckinpah e alguns outros da época. Mas aí, Aldrich resolveu simplesmente pegar tudo isso e transformar em um estudo anti-clímax sobre indivíduos emocionalmente feridos, fragmentados, e jogar a narrativa para um campo mais abstrato. Até existe um enredo definido, uma trama a ser seguida, mas meio que tudo que envolve a investigação da morte de uma jovem é cada vez menos importante dentro das intenções de Aldrich; entra algo mais amplo em jogo, o filme meio que se constrói a partir de uma série de eventos ou circunstâncias que têm o efeito de destruir moralmente os personagens.

Eu não sei o que Aldrich estava passando naquele momento (os EUA eu sei que estavam em um estado de espírito caótico, cheio de crises, o desfecho do Vietnã, Watergate, etc.), mas o fato é que o sujeito fez o seu filme mais amargo, com um Burt Reynolds complexo, dividido entre o dever, embora seja um policial amoral com um código de ética que não vale nada, e o seu relacionamento com a prostituta de alta classe de Catherine Deneuve, com todas as implicações psicológicas que um homem pode ter nessa situação. Filme fortíssimo, um tanto cruel e que carrega um estado de melancolia que poucos filmes policiais dos anos 70 possuem.

Próximo post, vem a derradeira parte desta peregrinação pelo cinema de Robert Aldrich.

A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985)

Após o sucesso do clássico de 1968 A NOITE DOS MORTOS VIVOS, os seus co-criadores, George Romero e o roteirista John Russo, tiveram diferentes ideias para prosseguir explorando esse universo de zombie movie que se abriu e seguiram seus próprios caminhos. Romero continuou fazendo seus filmes e uma década depois resolveu retornar ao tema quando fez mais uma de suas obras-primas, DAWN OF THE DEAD (1978). Já Russo começou a trabalhar na adaptação de um romance que ele mesmo havia escrito chamado “O Retorno dos Mortos-Vivos“, que aparentemente estava mais próximo de uma continuação do filme de 68 do que o próprio Romero em seu novo filme de zumbi. Deu-se início então ao projeto A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (The Return of the Living Dead).

Um produtor independente, Tom Fox, comprou o roteiro de Russo e ofereceu a Tobe Hooper, que rejeitou. De recusas a recusas, acabou parando nas mãos de Dan O’Bannon, que havia trabalhado majoritariamente como roteirista (ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO, DEAD AND BURIED, BLUE THUNDER) e nunca havia dirigido um filme antes. Mas seguiu em frente, fazendo algumas alterações no roteiro.

Para O’Bannon, não fazia muito sentido comandar o projeto da maneira como o script havia sido pensado. Ele sentia que era uma tentativa muito séria de fazer uma sequência de A NOITE DOS MORTOS VIVOS e não queria se intrometer tão diretamente no território de Romero, que já estava estabelecido àquela altura (inclusive lançando neste mesmo ano de 85 a terceira parte da sua série, o maravilhoso O DIA DOS MORTOS). Então O’Bannon reescreveu o roteiro para que tudo tivesse uma abordagem mais cômica do material de Russo e a história ocorresse em um universo fictício onde A NOITE DOS MORTOS VIVOS seria um filme “baseado em fatos reais”

Ou seja, na trama é suposto que o filme do Romero teria sido baseado em um evento no qual o exército americano teria lacrado todas as evidências dos acontecimentos que ocorreram na época e as enviou para alguma instalação de armazenamento de cadáveres. Mas por conta de algum erro de logística, os containers foram parar num pequeno depósito de suprimentos médicos na periferia de Louisville, Kentucky, onde permaneceu por volta de vinte anos, considerados perdidos.

Isso tudo é contado ao novo funcionário do local, Freddy (Thom Mathews), pelo já veterano Frank (James Karen). “Você viu aquele filme A NOITE DOS MORTOS VIVOS?” ele pergunta ao jovem colega de trabalho, antes de explicar que o filme foi baseado no tal incidente real. Ele lhe informa que o tal experimento médico do Exército que foi enviado por engano está armazenado exatamente no porão sob seus pés. Freddy fica cético até que descem as escadas e Frank mostra a ele vários cadáveres armazenados em cilindros fechados. Um desses containers acaba vazando um gás fétido que deixa a dupla inconsciente. Quando acordam e sobem as escadas, percebem que o gás reanimou todo o tipo de cadáver do local, de corpos humanos que seriam vendidos para faculdades de medicina à borboletas pregadas por alfinetes e cachorros espantalhos divididos ao meio… Urgh!

Em pânico, eles ligam para o chefe, Burt (Clu Gulager). Quando um dos cadáveres que estava armazenado numa sala refrigerada os ataca e, mesmo depois de esquartejado se recusa a morrer, eles o transportam para o necrotério ao lado, na esperança de que o agente funerário (Don Calfa) os deixe usar o crematório. Só que a fumaça e as cinzas são ejetadas pela chaminé e para as nuvens, causando imediatamente uma chuva em um cemitério próximo, onde os amigos punks de Freddy (incluindo a scream queen Linnea Quigley, na icônica Trash) estão farreando.

A água da chuva infectada penetra no solo e rapidamente reanima os mortos, que abrem caminho para a superfície. Os punks então se dispersam, alguns encontrando refúgio no necrotério onde os primeiros paramédicos que chegam ao local informam a Frank e Freddy (ambos agora moribundos por causa do gás) que seus sintomas são consistentes com rigor-mortis. Logo, ao estilo de Howard Hawks, os sobreviventes devem se barricar no local para se proteger da horda de mortos vivos famintos que os rodeia.

Mesmo com a ideia de O’Bannon de se afastar, é inevitável que o filme acabe sendo uma valiosa peça complementar ao trabalho de Romero. Não tem muito pra onde fugir… Mas ainda assim é um trabalho independente, cheio de elementos próprios que, como uma comédia de desespero, merece ser considerado um ponto alto no panteão do cinema de terror oitentista; seu tom provou ser suficiente e distinto para inspirar outros filmes e teve várias sequências que, por sua vez, buscaram, sem o mesmo sucesso que este aqui, explorar a comédia no puro terror visceral.

A interação entre os personagens é uma das coisas que mais me fascina e se mantém tão bem depois de todos esses anos. Os adultos representados no filme por Gulager, Karen e Calfa são escolhas certeiras. A atuação de Karen, sobretudo, é absurda desde os momentos iniciais, quando se apresenta como uma figura cômica, até a sua contínua agonia à medida que seu personagem piora progressivamente. Gulager também tá perfeito, serve como o alicerce de todo o filme, e sua presença não deixa o espectador tirar os olhos da tela.

Mas quem mais me surpreende é Don Calfa como o agente funerário Ernie Kaltenbrunner. A persona básica de Calfa na tela dá a impressão de que ele vai funcionar como uma espécie de alívio cômico, mas ele inesperadamente se revela o mais sensato e engenhoso de todos. Rouba o filme pra si, e fico surpreso por ele nunca ter se tornado mais famoso.

O outro grupo no filme consiste na gangue passando o tempo no cemitério nas proximidades esperando pelo amigo Freddy. É realmente um conjunto único, com alguns personagens exibindo peculiaridades bem variadas. Linnea Quigley como Trash é possivelmente a figura mais representativa do filme. Ao longo dos anos, sempre que pensava em A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (e fazia décadas que eu não assistia) a imagem de Quigley dançando em cima de um túmulo era a primeira que habitava meus pensamentos. Obviamente que ela estar completamente nua na tela ajudou bastante nisso…

Mas cada um dos atores mais jovens deixa uma impressão favorável, especialmente Thom Matthews como Freddy. A interação dele com o velho Karen é maravilhosa, os dois gritando loucamente: “Cuidado com a língua, garoto, se você gosta deste emprego“, “Gostar deste emprego?!” sempre foi uma das minhas partes favoritas do filme, então fiquei feliz em ver como tudo isso ainda funciona. Os dois atores retornaram para a sequência, O RETORNO DOS MORTOS VIVOS PARTE II (1988), mas em personagens diferentes. Preciso rever esse aí também, não lembro absolutamente nada.

Existem momentos em que o baixo orçamento começa a aparecer, a forma como algumas sequências externas são encenadas e a sensação no final de que talvez algumas coisas não tenham sido filmadas quando a produção terminou. Mas o tom cômico impassível continua incrível, a alfinetada crítica às atitudes do governo também tá lá muito bem inserida no meios das camadas, juntamente com os momentos de horror, de tensão, a violência gráfica e o tom geral apropriadamente desagradável (“Eu te amo… e você tem que me deixar comer o seu CÉREEEBRO!!“). A sequência em que os zumbis chamam por reforços policiais e pedem mais ambulâncias para terem mais cérebros pra devorar tá dentre as situações mais significativas do conceito “humor & horror andando de mãos dadas” na história do cinema.

Como disse antes, O’Bannon teve que enfrentar a visão de Romero quando o sombrio e nada cômico DIA DOS MORTOS foi lançado no mesmo ano que A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, quase na mesma época, causando antagonismo e a competição entre os fãs que O’Bannon sempre evitou. Em retrospecto, foi considerado um sinal dos tempos que justamente o filme cômico de O’Bannon teve melhor desempenho de bilheteria do que o filme mais sério e aterrorizante de Romero. Sem entrar no mérito das comparações, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS é uma das comédias de terror mais engenhosas e cativantes que eu me lembrava de ter visto. E agora, revendo depois de uns trinta anos, confirma que se trata de uma pequena obra-prima e um dos filmes mais divertidos do gênero nos anos 80.

HOWARD HAWKS: FINAL

HATARI! (1962)
Hawks no seu modo tardio descontraído pós ONDE COMEÇA O INFERNO. Muito pouco a título de enredo, trama, não há antagonistas, apenas um amontoado de situações com o senso de aventura fenomenal do diretor, seu humor típico e a dinâmica entre os personagens. Um bando de marmanjos na África, à serviço de um zoológico, enchendo a cara e contando prosa, um rinoceronte ensandecido, três filhotes de elefante assanhados e uma italiana que chega pra balançar o coração do Duke. Como dizia o Carlão Reichenbach: a aventura maior do cinema.

O ESPORTE FAVORITO DOS HOMENS (Man’s Favorite Sport?, 1964)
Um renomado especialista em pesca, vivido por Rock Hudson, que sem o conhecimento de seus amigos, colegas de trabalho ou chefe, nunca lançou uma linha de pesca em sua vida. Um dia, ele cruza o caminho de uma garota irritante (Paula Prentiss) que acaba de persuadir seu chefe a inscrevê-lo em um torneio anual de pesca. A confusão está armada. Não é a comédia perfeita do diretor, mas há muito o que gostar em seu próprio jeito. Engraçado, leve, romântico e, afinal, quantos filmes de Hawks temos um urso andando de motoca? Uma despedida divertida, a última Screwball Comedy de um dos maiores mestres do gênero.

RED LINE 7000 (1975)
O filme gira em torno de corredores da Stock Car e todo um universo que os rodeia, as paixões, desilusões, relações, num turbulento retrato sobre indivíduos do mundo das corridas profissionais. Acho foda que Hawks já na reta final da carreira fez esse petardo esquisito, que mesmo sendo um filme tão hawksiano, parece mais um filme do Roger Corman produzido pela AIP. É troncho, uma grande novela da globo, tem alguns dos piores diálogos da filmografia do diretor, o próprio Hawks detestava, mas ao mesmo tempo é um dos filmes mais verdadeiros, humanos e com mais força emocional que o sujeito já fez. Lindo, o tipo de obra-prima imperfeita que eu não resisto…

EL DORADO (1966)
Hawks se reuniu novamente com John Wayne para este “remake espiritual” de seu clássico ONDE COMEÇA O INFERNO. É tipo um “copia, mas faz diferente“. O Duke faz um pistoleiro que se junta a seu velho amigo, o xerife bêbado de Robert Mitchum, para ajudar uma família de fazendeiros a lutar contra um rival que tenta roubar suas terras. James Caan também tá aqui, depois de trabalhar com o diretor em RED LINE 7000. Hawks cria mais uma mistura especializada de emoção, ação e boas risadas, apresentando os dois dos veteranos da era de ouro de Hollywood, Wayne e Mitchum, em estado de graça, entregando desempenhos divertidos de ver, embora o filme no geral não chegue no mesmo nível de seus melhores trabalhos.

RIO LOBO (1970)
Último filme que Hawks dirigiu. Após a Guerra Civil, o personagem de John Wayne procura o traidor cuja deslealdade causou a derrota da unidade de sua unidade e a perda de um amigo próximo. Durante a jornada, acaba se envolvendo numa aventura cheia de ameaças e figuras hawksianas. Embora não seja dos seus melhores westerns e colaborações com o Duke – o filme já nasce anacrônico para o período e com a trama cansada (Hawks recria pela terceira vez a mesma situação de ONDE COMEÇA O INFERNO e EL DORADO, encerrando a carreira numa espécie de trilogia com estes outros dois) – não deixa de ser divertido e ter seus momentos. Uma bela despedida de um dos maiores diretores que Hollywood já teve.

Acima, o último plano do último filme de Hawks. Fim da maratona.

HAWKS NOS ANOS 50

Depois de um pequeno descanso fora da cidade, longe de computador, voltamos à programação normal:

O RIO DA AVENTURA (The Big Sky, 1952)
Tenho quase certeza de que quando o Carlão Reichenbach falava da exuberância da aventura de Hawks, ele tava pensando em O RIO DA AVENTURA. O filme é basicamente um grupo de homens descendo um rio num barco, encarando perigos naturais, trocando tiros com índios, há cenas de homens puxando o barco com uma corda contra correnteza, fazendo catapulta com árvore para lançar um cervo morto do alto de uma montanha, praticamente remete a um filme do Herzog, muito antes do Herzog! Obviamente surgem também as subtramas hawksianas. A maior parte do interesse do filme está na relação entre Kirk Douglas e Dewey Martin, que traz um pouco a dinâmica entre Victor McLaglen e Robert Armstrong no filme mudo do diretor A GIRL IN EVERY PORT (1928), que comentei aqui no primeiro post que fiz dessa série. Belissimamente fotografado, O RIO DA AVENTURA tem todo um senso de épico, de uma aventura grandiosa, que é boa de acompanhar… Só achei mais longo do que precisava.

O INVENTOR DA MOCIDADE (Monkey Business, 1952)
Hawks volta ao Screwball comedy e um pouco ao seu clássico LEVADA DA BRECA, com Cary Grant mais uma vez interpretando um professor confuso lidando com percalços profissionais e românticos. Ele é um químico cujo chimpanzé de laboratório descobre uma poção da juventude, causando complicações para ele, sua esposa (Ginger Rogers), a secretária do laboratório (Marilyn Monroe) e seu chefe (Charles Coburn). Embora não seja tão bom quanto LEVADA DA BRECA, que é a obra-prima do Hawks no gênero, na minha opinião, ainda é extremamente divertido à sua maneira. Grant e Rogers, sozinhos ou juntos, sob o efeito da poção de rejuvenescimento em performances físicas incríveis, é simplesmente antológico. A abertura, com o próprio Hawks pedindo a Grant pra esperar mais um pouco pra entrar em cena, é um desses toques de mestre, que já me faz abrir um sorriso logo de cara, e que permanece até o fim.

OS HOMENS PREFEREM AS LOURAS (Gentlemen Prefer Blondes, 1953)
Divertida adaptação de um clássico da Broadway, sobre duas dançarinas (Marilyn Monroe e Jane Russell) que embarcam para Paris, onde a personagem de Monroe deve se casar com um jovem milionário. No caminho, elas conhecem um detetive particular contratado pelo pai do noivo para investigar se a moça está interessada apenas na fortuna. O filme todo é uma fantasia exagerada bem agradável sobre desejo de libertação feminina e homens como meros objetos. Algumas situações são realmente engraçadas e com números musicais muito bons. E é difícil desgrudar os olhos da dupla principal…

TERRA DOS FARAÓS (Land of the Pharaohs, 1955)
No antigo Egito, o faraó está obcecado em adquirir ouro e planeja levar tudo consigo para a “segunda vida”. Para isso, ele conta com a ajuda de um arquiteto cujo povo é escravizado no Egito. O acordo: construir uma tumba à prova de roubo, cheio de armadilhas secretas, e o seu povo será libertado. Durante os anos em que a pirâmide está sendo construída, uma princesa se torna a segunda esposa do faraó, que não tá muito a fim de deixar o sujeito levar seu tesouro com ele quando morrer… Primeiro e único filme que Hawks filma em CinemaScope. Fritz Lang dizia que o formato só servia pra filmar serpentes e funerais, então Hawks filmou uma serpente e um funeral por aqui. Mas ele não curtiu o resultado, disse, na entrevista com o Bogdanovich, que a tela larga tirava muito a atenção do público… Na verdade, Hawks não gosta de quase nada de TERRA DOS FARAÓS, fora algumas cenas isoladas. Bom, problema é dele. Na minha opinião, o que temos aqui é um dos trabalhos visuais mais poderosos de Hawks, que me ganha mesmo com a trama estranhamente estagnada, mas que consegue ser ao mesmo tempo atrativa e fascinante. Talvez seja um filme menor na obra geral de Hawks, um filme bizarro, nota-se claramente que o diretor tá fora de sua zona de conforto. Mas como filme de gênero, é uma pequena joia que merecia mais reconhecimento.

ONDE COMEÇA O INFERNO (Rio Bravo, 1959)
John Wayne, como o xerife, recusa a ajuda de “amadores bem-intencionados” (como resposta para MATAR OU MORRER, onde Gary Cooper mendiga ajuda o filme inteiro) e fica com um bêbado (Dean Martin), um jovem inexperiente (Rick Nelson) e um velho aleijado (Walter Brennan) para enfrentar um exército de bandidos – além, é claro, da clássica mulher Hawksiana em Angie Dickinson. No autêntico estilo de Hawks, com seus temas recorrentes de camaradagem masculina e profissionalismo em primeiro plano, a aliança improvável dá conta do recado. Hawks abandona um enredo definido e a abordagem épica de seu outro grande western, RIO VERMELHO, para um cenário mais confinado, uma história mais aberta, na qual vão se acumulando situações e arcos dramáticos (o estudo de alcoolismo que faz com o personagem de Martin é notável). São quatro anos que separam TERRA DOS FARAÓS de ONDE COMEÇA O INFERNO. Durante esse hiato, Hawks repensou seu cinema e o modo de o fazê-lo. E quando retornou, o resultado foi esta obra-prima, um filme testamento, um western definitivo e um dos trabalhos mais divertidos de sua carreira.

MAIS HOWARD HAWKS

LEVADA DA BRECA (Bringing Up Baby1938)
David Huxley (Cary Grant) está esperando para conseguir um osso de dinossauro que precisa para sua coleção de museu. Através de uma série de circunstâncias estranhas, ele conhece Susan Vance (Katherine Hepburn), e a dupla tem uma série de desventuras cada uma mais louca que a outra, o que inclui um leopardo chamado Baby. Delícia rever isso aqui. No primeiro filme que trabalham juntos, Hawks coloca Cary Grant usando apenas um robe feminino, gritando “Because I just went GAY all of a sudden!”. Maravilhoso! É praticamente um filme experimental transgressor, não é possível que exista algo até aquele momento com tanta intensidade, energia, que teste os limites extremos do humor. Hawks conduz um autêntico pandemônio, uma narrativa caótica de situações cada vez mais insanas, onde só o exagero surreal impera, sem nunca tirar o foco dos personagens principais, que estão geniais até no overacting. É, ao mesmo tempo, divertido, engraçado e enervante, tenso… Se eu fosse o personagem de Grant nesse filme, já teria cometido um assassinato.

PARAÍSO INFERNAL (Only Angels Have Wings, 1939)
Merecia um texto maior… Em um porto comercial remoto da América do Sul, o gerente de uma empresa de frete aéreo é forçado a arriscar a vida de seus pilotos para ganhar um contrato importante ao mesmo tempo que uma dançarina americana itinerante para na cidade e balança o seu coração. É como se tudo o que Hawks tivesse feito até este momento da carreira, todos os temas que explorou de forma obsessiva, todos os personagens que criou, todos os diálogos, situações, intrigas, dilemas, TUDO fosse um ensaio pra transcender em PARAÍSO INFERNAL da maneira mais sublime e cristalina possível. É um filme que define toda a obra de Hawks e não teria como ser mais perfeito que isso.

JEJUM DE AMOR (His Girl Friday, 1940)
Adaptação da peça The Front Page, do Ben Hecht, por Howard Hawks. Existem diversas adaptações da coisa, inclusive já havia sido filmado em 1931, por Lewis Milestone. Billy Wilder chegou a fazer nos anos 70, com Lemmon e Matthau e até o Ted Kotcheff fez a sua versão com Burt Reynnolds e Christopher Reeve nos anos 80. Mas diferentemente de todas essas versões Hawks e seus roteiristas trocam o papel do repórter por uma mulher (Rosalind Russell), tornando o “embate” entre ela e seu editor (Grant) muito mais hawksiano. Na trama, uma jornalista ex-esposa do editor de jornal, visita seu escritório para informá-lo de que está noiva e que se casará novamente no dia seguinte. O editor não quer deixar isso acontecer e inicia uma sucessão de loucuras para convencê-la a voltar ao seu antigo emprego como funcionária dele, ou como esposa novamente… O filme não é tão intenso e surreal quanto LEVADA DA BRECA, mas é tão divertido quanto, e possui sua dose de insanidade, diálogos frenéticos se sobrepondo, uma loucura… Grande destaque para Russell, que tá maravilhosa, e Cary Grant, mais uma vez provando que é um gênio da comédia. Um detalhe que acho curioso é que toda a trama girar em torno do sujeito que tá no corredor da morte, enquanto tentam criar notícia em cima disso, o que dá aos personagens um verniz desagradável que a natureza do filme meio que encobre. Na superfície, é uma comédia romântica num universo de jornalistas, mas por baixo esconde algo mais dramático e grave. A cena que uma mulher se joga pela janela é um bom exemplo de como Hawks consegue trabalhar com maestria humor e tragédia ao mesmo tempo.

SARGENTO YORK (Sergeant York, 1941)
Num geral, parece menos uma obra com a assinatura de Hawks e mais um filme de John Ford. O herói Hawksiano morre no anonimato, às vezes em missões suicidas, nos confins de uma floresta na América do Sul. O herói Fordiano que é uma figura mais imponente, alçado ao status de mito histórico da América (os grandes coronéis, Wyatt Earp, Lincoln!, etc…). O protagonista de SARGENTO YORK, pacifista religioso que vira herói de guerra interpretado por Gary Cooper, tá mais pra segunda categoria. Mas isso pouco importa, porque o que temos é um belo filme biográfico, indiscutivelmente um dos mais surpreendentes trabalhos do Hawks em termos visuais e técnicos. Gary Cooper tem um dos melhores desempenhos da carreira e, como sempre, Hawks consegue criar um espetáculo na sequência que se passa no campo de batalha. O roteiro tem vários nomes responsáveis, mas de acordo com Hawks, quem realmente escreveu foi John Huston.

BOLA DE FOGO (Ball of Fire, 1941)
Gary Cooper não era exatamente conhecido por comédias, mas nas mãos de Hawks ele prova que pode nos fazer rir – não no nível de um Cary Grant, mas tudo bem – interpretando um sujeito no meio do caos hawksiano. O roteiro, que teve participação de Billy Wilder, faz uma brincadeira genial com os diálogos e o idioma inglês e coloca Cooper como um jovem professor de gramática que trabalha com um grupo de acadêmicos para criar uma enciclopédia. A confusão começa quando ele se depara com uma cantora de boate tagarela (Barbara Stanwyck) fugindo da polícia por conta do namorado gângster e, ao usá-la para pesquisas das gírias modernas, ele se apaixona por essa distinta senhorita. Pode não ser a melhor comédia de Hawks, mas é bem fácil de agradar. Ajuda muito termos um dos melhores elencos que Hawks já reuniu, a química entre os dois protagonistas e a direção magistral de Hawks.

AIR FORCE (1943)
Como entusiasta da aviação, Hawks acabou realizando algumas coisas relacionadas ao tema, o que inclui alguns de seus melhores trabalhos, como THE DAWN PATROL, que já comentei aqui no blog, e a obra-prima suprema PARAÍSO INFERNAL ali em cima. E também este petardo aqui, menos conhecido, que se passa na Segunda Guerra Mundial e se concentra na tripulação de um bombardeiro que chega ao Havaí no momento em que o ataque a Pearl Harbor está acontecendo.

Muita coisa a se destacar por aqui, as sequências dentro do avião são as melhores, seja com a tripulação jogando conversa fora, numa naturalidade pouco convencional pra época, seja em sequências de batalhas angustiantes que até hoje impressionam (e que provavelmente influenciaram George Lucas na hora de filmar algumas sequências de STAR WARS). O filme não tem nenhum grande astro – apesar de ótimos atores, como John Garfield, Gig Young, o velho Harry Carey – e nenhum personagem se sobressai demais, o que torna isso aqui um exemplar clássico do “filme de grupo hawksiano”. Vencedor do Oscar de edição.

UMA AVENTURA NA MARTINICA (To have and Have Not, 1944)
“Posso fazer um filme com o pior livro que você já escreveu”, disse Hawks ao próprio Ernest Hemingway, quando comprou os direitos pra produzir isto aqui. E fez realmente um trabalho belíssimo. Na trama, o capitão de um barco de frete da Martinica se envolve com agentes clandestinos da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e também com uma mulher misteriosa que aparece no local. Para além de ser lembrado principalmente pelo romance real e fumegante que rolou entre Bogart e Bacall (ambos sublimes aqui), o filme acaba sendo um thriller em tempos de guerra dos mais divertidos do diretor. Eu já tinha visto a versão que o Don Siegel fez dessa mesma história, estrelada pelo Audie Murphy, e que é um dos mais fracos do Siegel. Cheguei a comentar aqui no blog há alguns anos. Não preciso nem dizer o quanto esta versão do Hawks é melhor…

Ah, e Walter Brennan, na sua quarta colaboração com Hawks, tá genial como sempre.

À BEIRA DO ABISMO (The Big Sleep, 1946)
Seguindo o sucesso de UMA AVENTURA NA MARTINICA, Hawks se reuniu novamente com o casal Bogart e Bacall para criar um dos filmes definitivos do cinema noir. Bogart é o detetive particular Phillip Marlowe que se envolve em uma teia de chantagem e assassinato difícil de descrever… Já se tornou um clássico à parte a histórias de que Hawks se viu obrigado a ligar para o próprio autor do romance que deu origem, Raymond Chandler, para perguntar sobre algum ponto-chave da trama e o autor também não fazer a menor ideia de como responder. Mas isso acaba não importando muito de tão imerso que ficamos durante a investigação de Marlowe, sua atitude cínica e espertinha, e claro no romance entre ele e a personagem de Bacall. Um Hawks obrigatório, nota-se sua importância e influência, apesar de nesta revisão eu perceber como não tá entre os meus favoritos do diretor. Não é culpa do filme, que é uma maravilha, mas o Hawks é que tem várias obras-primas à frente…

RIO VERMELHO (Red River, 1948)
De alguma forma, BARBARY COAST, como disse em outro post, é o primeiro faroeste de Hawks, apesar de pouco convencional na iconografia e ambientação. O sujeito só faria um western puro mesmo aqui em RIO VERMELHO. Gênero que ele demorou mais de duas décadas para adentrar e acabou se destacando no restante da carreira. John Wayne, trabalhando com Hawks pela primeira vez, usa maquiagem pesada e tem aqui uma de suas melhores atuações da vida como Tom Dunson, um fazendeiro obstinado que luta com seu filho adotivo, Matt Garth (Montgomery Clift) e seus subordinados durante uma viagem de transporte de gado. O comportamento tirânico de Tom leva a um motim e uma amarga rivalidade entre ele e o filho. É aquela coisa, no universo hawksiano, é o grupo que importa. O personagem de Wayne tentou quebrar essa regra e se ferrou…

A construção que Wayne faz de seu personagem é tão profunda, um processo de transformação de herói à vilão tão genial, que depois de ver o seu desempenho, John Ford chegou a dizer “I never knew the big son of a bitch could act.”

O filme é lembrado também pelo notável subtexto gay entre Matt e o caubói Cherry Valance (John Ireland). “There are only two things more beautiful than a good gun”, diz Cherry para Matt, “a Swiss watch or a woman from anywhere. Ever had a good… Swiss watch?”

Um filme mais emocional e psicologicamente complexo do que a média dos westerns realizados no período. Um clássico absoluto e provavelmente a obra-prima máxima de Hawks. É outro filme que eu gostaria de escrever mais, mas acho que nem tenho capacidade de externar toda minha admiração.

A CANÇÃO PROMETIDA (A Song is Born, 1949)
Remake “copia e cola” de BOLA DE FOGO, que o próprio Hawks tinha feito sete anos antes, reformulado como um musical, substituindo os acadêmicos compiladores de enciclopédia por professores de música. A ideia é muito boa e os números musicais são ótimos (tem participação até de Louis Armstrong) e obviamente não deixa de ser divertido. O material original de Billy Wilder é bem fácil de agradar. Mas lá pelas tantas já tinha perdido o interesse… Não sei se porque revi BOLA DE FOGO há pouco tempo, ou se é perceptível que Hawks não tava muito inspirado, refazendo os mesmos enquadramentos, as mesmas situações, os mesmos diálogos, tudo de novo com outros atores… E convenhamos que Danny Keye e Viriginia Mayo não são Gary Cooper e Barbara Stanwyck. Mas ainda assim vale a pena. Nem que seja pra ver as primeiras cores do cinema de Hawks.

A NOIVA ERA ELE (I Was a Male War Bride, 1949)
Antes de QUANTO MAIS QUENTE MELHOR, de Billy Wilder, Hawks fez esse clássico crossdressing com Cary Grant. Ele vive um capitão do exército francês que se casa com uma tenente americana (Ann Sheridan) na Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial. Quando tentam embarcar para os Estados Unidos, descobrem que ele deve acompanhá-la sob os termos do War Bride Act, ou seja, como a “esposa” dela, fazendo com que, em determinado momento, Grant tenha que usar uma peruca, saia e voz em falsete. Grant pode não ser muito convincente como francês ou como mulher, mas é justamente por isso que é hilário, enquanto Hawks prova mais uma vez por que foi um dos principais mestres da Screwball comedy.

E por hoje chega.

5 HAWKS MENOS CONHECIDOS

20th CENTURY (1934)
Depois se dedicar a uns filmes de guerra, crime, dramas românticos, que até possuíam um tom de humor em alguns momentos, finalmente Hawks faz sua primeira comédia pura no cinema sonoro. Na trama, um temperamental produtor da Broadway (John Barrymore) toma sob sua guarda uma atriz iniciante (Carole Lombard) e se apaixona por ela. Mas a vida hiper controlada faz com que ela fuja e se torne uma das maiores estrela de cinema. Agora, todos a bordo de um mesmo trem, ele tenta reconquistá-la, o que não vai ser fácil. Hawks não decepciona, repleto de cenas impagáveis e com dois protagonistas inspirados e realmente engraçados (Barrymore sobretudo está inacreditável, entrega uma das grandes performances cômicas do período, genial até nos excessos), é uma grande festa para fãs de screwball comedies, em especial por se tratar de um dos pontos de partida do gênero e ser dirigido por um dos seus maiores mestres.

BARBARY COAST (1935)
Uma moça (Miriam Hopkins) chega do leste e descobre que o seu noivo, que lhe esperava, foi morto. Ela acaba tendo que trabalhar na casa de jogos de Luis Chamalis (Edward G. Robinson), um local turbulento da São Francisco na década de 1850. Quando ela se apaixona por um minerador poeta (Joel McCrea), as coisas começam a se complicar, porque Chamalis não vai entregá-la tão fácil… De alguma maneira, este aqui é o primeiro Western do Hawks, ainda que fora do tradicional. No centro da trama temos mais uma variação habitual do diretor no drama romântico com uma forte figura feminina dividindo as atenções de dois homens. Mas aqui me peguei mais interessado na paisagem, numa São Francisco submersa em névoa, e nas subtramas, a do jornal local, os vigilantes, os personagens secundários, como o do grande Walter Brennan… Segundo filme do Edward G. Robinson com Hawks. Ótimo como sempre.

CEILING ZERO (1936)
O cotidiano perigoso, e muitas vezes trágico, de alguns pilotos veteranos de guerra que estão trabalhando em uma companhia aérea é o tema central desse filme mais rotineiro do Hawks, apesar de ser bom de acompanhar, com os personagens hawksianos que estamos acostumados a ver, com os temas habituais do diretor. Mas tirando um ou outro momento mais inspirado, como a sequência do pouso às cegas – uma aula de tensão e atuação do elenco – o restante me parece conduzido no piloto automático, muito numa zona de conforto de Hawks. O suficiente pra fazer um bom filme, divertido, mas não para um GRANDE filme. O que tá bom também, normal para um diretor desse calibre, com uma filmografia longa. Nem todos precisam ser obras-primas. Minha única reclamação é que justamente os dois trabalhos que Hawks fez com James Cagney (este aqui e THE CROWD ROARS) resultaram em filmes menores… Essa parceria merecia ter rendido pelo menos algo do nível de PARAÍSO INFERNAL, RIO VERMELHO, HATARI! RIO BRAVO…

THE ROAD TO GLORY (1936)
A história da vida nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial através de um regimento francês. No centro da trama, à medida que os homens são mortos e substituídos, um tenente (Fredric March) torna-se cada vez mais sombrio e seu rival pelo carinho de uma enfermeira (June Lang) é o seu próprio capitão (Warner Baxter). É muito louco ver a filmografia de um diretor como a do Hawks, um sujeito tão autoral, em ordem cronológica e num curto espaço de tempo (este aqui era o décimo quinto assistido em menos de duas semanas)… Corre-se o risco de tudo parecer uma repetição de si mesmo. O que de certa forma é, mas não num mau sentido, porque é a obsessão por certos temas que faz a assinatura do cara ser tão pessoal. Aqui, é mais um filme sobre um grupo de homens lidando com a morte durante uma guerra (THE DAWN PATROL, TODAY WE LIVE), novamente temos dois homens apaixonados pela mesma mulher (TIGER SHARK, BARBARY COAST, TODAY WE LIVE, CEILING ZERO), de novo um deles fica cego (TODAY WE LIVE) e parte para uma missão suicida, um último sacrifício (praticamente todos os filmes que citei)… Mas é só tomar cuidado, que dá pra fugir dessa armadilha. Foi um prazer ver filme a filme do Hawks e sim, perceber suas “repetições”. Este aqui é um sólido filme de guerra, cuja direção de Hawks e o elenco entregam até mais do que era de se esperar do roteiro de William Faulkner. A subtrama romântica nem tem tanta força quando uma boa parte do filme vemos um grupo de personagens hawksianos tentando sobreviver em trincheiras sujas ou em meio à explosões e balas. Enfim, mais um grande filme do diretor. Esse recomendo muito mesmo.

COME AND GET IT (1936), co-direção de William Wyler
Um lenhador ambicioso abandona a mulher que ama para se casar com a filha de um milionário, mas anos depois se apaixona pela filha da sua antiga paixão. Só que agora vai ter que disputar o amor dela com o próprio filho. Concordo com o próprio Hawks que diz, numa entrevista com Peter Bogdanovich, que a história é meio boba, mas é desses exemplares que mostram que um grande diretor pode dar vida até num material desse nível. Os primeiros vinte minutos são Hawks puro: grupo de homens focados num trabalho específico (no caso, lenhadores), sequências semi documentais da profissão (como em TIGER SHARK) e uma sequência de bar que termina numa briga generalizada com o humor hawksiano típico… Depois a trama dá uma caída, ainda sobra a velha situação dos dois homens apaixonados pela mesma mulher. A variação aqui é a que mencionei: os dois sujeitos são pai e filho. No final, percebe-se a mudança de tom, ritmo, cadência, já era o William Wyler quem dirigia (Hawks se demitiu, de saco cheio do produtor Sam Goldwyn, mas uns 80% do filme é dele). Filme irregular, mas bem assistível e com ótimas atuações de Frances Farmer (em papel duplo) e do bom e velho Walter Brennan, na sua segunda colaboração com Hawks, e que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante

HOWARD HAWKS – FASE MUDA

Iniciei este ano de 2023 assistindo aos filmes do diretor Howard Hawks em ordem cronológica. Se vou conseguir ir até o fim da filmografia do homem, aí é outra história. Mas pelo menos já vi todos os filmes da fase muda. Quero dizer, os filmes que ainda existem dessa fase, porque alguns trabalhos do Hawks estão perdidos. Mas vamos lá.

FIG LEAVES (1926)
Como disse, todo o trabalho do Hawks anterior a FIG LEAVES se perdeu, então esse aqui é o seu “primeiro” filme. A história gira em torno de Adam, um encanador, que tem um casamento feliz com Eve, uma dona de casa obcecada por guarda-roupas, até que ela acidentalmente conhece um designer de moda. Por sugestão de sua vizinha, que tem seus próprios planos secretos com Adam, Eve secretamente se torna uma modelo durante o dia, sabendo que seu marido desaprovaria… Fruto da época, hoje seria impossível de fazer pela visão machista. Hawks disse pro Bogdanovich em entrevista que até pode-se zombar das mulheres, contanto que não ofenda ninguém, ou algo do tipo, o que daria um belo cancelamento ao diretor. Mas consegui me divertir com as várias situações engraçadas sobre o casal protagonista e seus problemas matrimoniais. A sacada de começar o filme levando as questões de “hoje” a um período pré-histórico, de Adão e Eva, é um toque de mestre.

THE CRADLE SNATCHERS (1927)
Já dava pra perceber desde cedo o quanto Hawks levava jeito para o humor e a trama deste aqui é um prato cheio pra isso: para curar seus maridos paqueradores de se relacionarem com outras garotas, três esposas combinam com três universitários a flertarem entre si em uma festa. Durante um ensaio da festa, chegam os três maridos, acompanhados de suas amigas melindrosas, gerando as complicações cômicas que se espera. Só é uma pena que este filme esteja incompleto. E o que sobrou, só consegui ver em imagens de condições muito precárias no youtube. Mas valeu a pena pra conhecer.

PAID TO LOVE (1927)
Hawks podia ter esperado mais uns anos e feito esse filme com som. É uma comédia que pede demais as falas dos atores e poderia estar até melhor rankeado na filmografia do homem. A trama é sobre um banqueiro americano que vai para um pequeno país dos Bálcãs procurando investir o dinheiro de seu banco e fortalecer a fraca economia do país para maximizar o retorno de seu investimento. Para esse fim, ele faz amizade com o rei do país e eles bolam um esquema para casar o príncipe herdeiro (o que ajudaria a fechar o negócio), mas algo que não é particularmente atraente para o príncipe – até que ele vê a bela atriz de cabaré que os velhos escolheram para ele se casar. É mais outro belo exemplar que prova o talento de Hawks pra um certo tipo de humor, com tensões sexuais, e bom olho para composições, câmera e metáforas visuais. Impossível não citar a cena que o primo (William Powell) do príncipe descasca uma banana assistindo a protagonista a se despir. Mostra já um diretor mais sofisticado daquele que realizou FIG LEAVES no ano anterior.

A GIRL IN EVERY PORT (1928)
Dois marinheiros com uma rivalidade em perseguir mulheres tornam-se amigos. Quando um deles decide finalmente estabelecer um relacionamento mais sério, acaba colocando em risco a amizade entre eles. A resolução do filme envolve esses dois homens considerando sua amizade mais importante do que o afeto de uma mulher. Dois homens que aprenderam a se amar através das pelejas e pelo trabalho a bordo de um veleiro e que descobrem que sempre podem contar um com o outro. Achei ousado. Pensem como quiserem, mas muito antes de RIO VERMELHO Hawks já tava abordando amizades diferenciadas entre homens. E é um filme bem bonito, muito bem feito, com vários momentos que arrancam fácil um sorriso do público. Victor McLaglen tá excelente e Louise Brooks é realmente o diabo vestido de mulher… E que mulher! Enfim, uma pequena joia divertida do início da carreira de Hawks. O melhor filme dessa lista.

FAZIL (1928)
Um príncipe árabe nascido e criado no deserto e uma bela francesa de Paris se apaixonam e se casam, mas as enormes diferenças em suas origens e culturas entre suas duas sociedades colocam tensões em seu casamento que podem ser irreparáveis. Talvez o filme mais bem dirigido pelo Hawks até aqui, com algumas composições bonitonas e trabalho de câmera realmente apurado. A sequência que mostra o harém de Fazil é digna de antologia – além de provavelmente ter deixado alguns senhores de 1928 bastante, digamos, animados. Sobre a história, o próprio Hawks dizia que não gostava e não tinha interesse em fazer, mas deu um jeito de tornar a coisa assistível, apesar das atitudes da protagonista e esse conto de amor cego exagerado me deixarem um pouco irritado.

Vou continuar vendo mais uns filmes do Hawks, agora já no período sonoro. E talvez coloque mais impressões por aqui.

A NOITE DAS VAMPIRAS e o humor macabro de Rubens Mello

O querido ator e diretor guarulhense Rubens Mello está finalizando seu primeiro longa-metragem, uma mistura de horror com comédia deliciosamente chamada A NOITE DAS VAMPIRAS.

Sinopse: Justine é uma jovem que foi criada por pais adotivos. Em sua vida adulta, tornou-se uma atriz que faz muito sucesso em comerciais de TV. Em certo momento, recebe um convite para conhecer sua família biológica. O encontro se dá às vésperas de uma festa, que acontece anualmente, para celebrar o sucesso do açougue gerido pela sua família. Mas, o que era para ser apenas uma reaproximação com sua verdadeira família, torna-se algo sinistro e bizarro, onde coisas absurdas e engraçadas acontecem, levando Justine a conhecer o verdadeiro segredo do sucesso dos negócios da família.

Continue lendo

PYTHON: A COBRA ASSASSINA (2000)

Às vezes eu me pergunto o que tô fazendo com a minha vida. Poderia estar postando sobre um filme noir, um western do John Ford, até mesmo um horror italiano de um Mario Bava ou filmes de ação dos anos 90 estrelados por algum action hero icônico da época. Mas não, tô escrevendo sobre um filme de uma cobra gigante feita de CGI tosco dos anos 2000…

Tudo bem, vamos lá… Aproveitando o sucesso de ANACONDA, na segunda metade dos anos 90, e o surgimento de filmes como KING COBRA (1999) que tinha vendido à beça no mercado, dando início a uma demanda por filmes de cobras gigantes, PYTHON: A COBRA ASSASSINA (Python), de Richard Clabaugh (que diz que a sua inspiração, na verdade, foi O ATAQUE DOS VERMES MALDITOS), foi um dos primeiros exemplares da interminável onda de filmes do gênero, com cobras e crocodilos gigantes à solta, que surgiram nesse período.

E é um dos melhores que já vi. O que não significa que seja bom… Mas confesso que PYTHON tem peculiaridades suficientes pra me fazer sorrir no fim da sessão.

Primeiro, é um filme que não é chato. Tem sempre coisas acontecendo, sub-tramas e mini-histórias que não deixam o ritmo cair, pelo menos em boa parte de projeção. Além disso, PYTHON tem algo que a grande maioria dessas tralhas não tem: senso de humor. Daí faz até algum sentido Clabaugh dizer que O ATAQUE DOS VERMES MALDITOS tenha sido sua inspiração… É quase uma tentativa falha de combinar uma trama de horror com comédia em alguns momentos. Embora no fim das contas acabe mesmo sendo uma comédia involuntária durante o tempo todo.

Olha, pra mim funciona em algum nível. Deu pra dar boas risadas com algumas coisas… E, convenhamos, quem procura um filme sobre uma cobra gigante comendo ou matando pessoas não dá pra exigir muito. Dar risadas já é estar no lucro.

Na trama, quando um avião militar – que transporta um projeto ultrassecreto do governo – cai perto da pequena cidade de Ruby, ninguém parece se importar muito, apesar do misterioso fato de que o piloto e o outro tripulante a bordo morrerem por estarem cobertos com ácido. Então, quando esse tal projeto do governo, que é um híbrido genético de uma cobra atingindo 30 metros de comprimento, começa sua matança no local, a polícia acredita que um serial killer está à solta, matando suas vítimas com ácido. Incluindo o casal de lésbicas, as primeiras vítimas, que transam numa barraca na floresta, desconstruindo um pouco a habitual sequência de sexo ao ar livre do casal “homem e mulher” tradicional desse tipo de filme…

A polícia começa a ter um suspeito, John Cooper (Frayne Rosanoff), um praticante de BMX e aventureiro que voltou à cidade para ajudar seu irmão a administrar a fábrica de plástico de sua familia.

Entra em cena algumas figuras legais que deixam o filme mais divertido. Casper Van Dien com um bigodinho canalha é o líder da equipe mais atrapalhada de soldados que já vi e que tem a missão de capturar ou destruir o perigoso animal.

Temos também a presença (com muito mais tempo de tela que eu esperava) do Robert Englund, fazendo o cientista que é o expert sobre a cobra gigante e não quer que ela seja morta, porque é um experimento muito valioso e tal, blá, blá, blá, a mesma história que já vimos em um milhão de filmes. De qualquer forma, Englund em cena sempre abrilhanta qualquer situação.

A performance mais engraçada é de Scott Williamson como um corretor de imóveis babaca. Ele rouba o filme inteiro. Há uma sequência particularmente ótima em que ele tenta transar com a Jenny McCarthy mostrando uma casa à venda pra ela, mas é interrompido ironicamente pela cobra… Outro que merece destaque é o policial vivido por William Zabka, que tem dor de cotovelo por ter perdido a namoradinha para o protagonista da trama (e que rememora seu tempo de Cobra Kai lutando contra o protagonista no meio da rua, numa das cenas mais sem noção de PYTHON). Ah, e o piloto do avião na sequência de abertura é o grande Ed Lauter.

Sério, acho que nem o Quentin Tarantino poderia ter escolhido um elenco melhor para um filme de cobra assassina gigante em CGI.

Aliás, sobre a cobra em si, ou seja, os efeitos especiais em CGI da cobra gigante, como já devem ter notado nas imagens que coloquei aqui no post, podem até não ser dos melhores resultados, não ter o nível de um PARQUE DOS DINOSSAUROS… Mas não há nada de errado nisso. Pelo contrário, para o período que em que PYTHON foi produzido e com o orçamento claramente risível, não dá pra ficar esperando algo melhor. E ainda há o charme a mais que esse tipo de tosquice visual acrescenta. Já o trabalho com efeitos especiais práticos, de maquiagem, em especial as vítimas derretidas pelo ácido da cobra, são muito bons.

E é isso. PYTHON é a prova de que com o elenco certo, um bocado de bom humor, roteiro que tenta de alguma maneira criar personagens e desconstruir alguns elementos tradicionais, e com uma cobra gigante feita em CGI tosco, qualquer coisa pode funcionar… Claro, como disse, ainda não dá pra considerar isso aqui um “bom filme”. E em especial o último terço da narrativa, justamente o confronto final dos heróis com a cobra gigante, a coisa meio que desanda de vez. Mas ainda é o tipo de porcaria que me diverte.

E no fim das contas, não me arrependo por não estar escrevendo sobre um noir dos anos 40, ou um western do Ford…

FORÇA CRUEL (1982)

Por trás de um título nacional meio genérico como FORÇA CRUEL (Raw Force) esconde-se uma pequena preciosidade do cinema exploitation americano-filipino oitentista que precisa urgentemente ser redescoberto. Na verdade, tenho certeza que todos vocês já, no mínimo, ouviram falar ou leram sobre esse petardo. Se não, agora é a hora. E não se preocupem, podem acusar o filme de qualquer coisa, mas genérico é algo que ele não é.

Na trama, um grupo de praticantes de artes marciais embarca numa aventura num pequeno cruzeiro pelo Pacífico, pros lados das Filipinas, que promete ser, digamos, muito agradável. A começar pelo capitão da embarcação ser interpretado por ninguém menos que Cameron Mitchell.

Exibições de artes marciais, uma paradinha na cidade pra compras, bar de striptease, bordéis e uma festinha em alto mar cheia de moças de topless são alguns atrativos. O básico de um bom cinema de exploração. Mas um dos principais destaques desse passeio é visitar uma tal Ilha do Guerreiro, que dizem ser local sagrado, onde grandes mestres das artes marciais estão enterrados. Só alegria.

Outra atividade local é ser um ponto de operação de tráfico de mulheres em troca de pedras de jade entre um sujeito com bigodinho de Hitler – e seus capangas motoqueiros nazistas – com uma ordem de monges canibais que acredita ter o poder de ressuscitar os mortos ao comerem carne das jovens.

Eventualmente, toda essa rapaziada acaba na Ilha do Guerreiro, onde acontece uma batalha envolvendo os turistas das artes marciais, os traficantes nazistas de mulheres, os monges canibais e até os zumbis guerreiros que estavam enterrados ali e que ganharam vida novamente…

Sim, FORÇA CRUEL é tão bom que parece uma produção do Roger Corman ou dirigido pelo mestre do cinema grindhouse filipino Cirio H. Santiago.

Mas essa impressão tem força sobretudo pela presença de atores como Vic Diaz, que tá em quase tudo que o Cirio H. Santiago fez, e Jillian Kesner, que estrelou o clássico FIRECRACKER, que comentei por aqui há um tempinho. No entanto, FORÇA CRUEL não tem nada de Cirio nem do Corman (exceto por algumas imagens de arquivos das paisagens filipinas que a New World Pictures, do Corman, forneceu para esta produção), mas pra quem espera encontrar uma série de elementos típicos do cinema de exploração filipino que esses caras faziam nesse período, numa trama que só serve a este pretexto, o diretor estreante Edward Murphy nos entrega tudo particularmente bem.

Um monte de coisa bizarra tá incluída no cardápio como podem ter notado na sinopse. É até difícil listar a quantidade de absurdos; e mesmo sendo um filme que não necessariamente brilha por sua coerência narrativa, sabe trabalhar os elementos que agradam o seu público específico. E o essencial: com um ritmo que nunca diminui. Uma verdadeira metralhadora dos ingredientes do cinema grindhouse, com a total negligência assumida por um realizador que sabe muito bem que o seu filme não é uma obra-prima.

Mas é quase lá, dependendo do seu bom gosto pra cinema.

Tudo é realmente pensado para deixar as coisas boas que o cinema de exploração tem a nos oferecer. E, o melhor, com humor, sem se levar muito à sério – basta a longa sequência da festinha no barco, que tem o tom das melhores comédias oitentistas, cheia de personagens e situações cômicas pra gerar boas risadas – mas sem nunca tentar parecer um filme bobo. É tudo bem consciente, bem escrito… Er… “Bem escrito” é uma expressão forte, mas tudo funciona tão bem…

Até teria sido fácil tentar fazer uma espécie de autoparódia de, sei lá, filmes de artes marciais em ilhas exóticas. Mas paródias são geralmente muito menos divertidas da coisa real, consciente, que é o que temos em FORÇA CRUEL. Existe uma linha tênue entre maluquice e estupidez, e Edward Murphy é um maluco de primeira linha. O filme inteiro é uma coleção de momentos genuínos de humor, com diálogos que são autênticas pérolas, várias situações com um toque de comédia involuntária, tudo misturado a instantes absurdos de violência e gente pelada. E é o que torna isso aqui simplesmente mágico.

No quesito ação, temos MUITAS sequências de pancadaria, que são decentes até certo ponto. As pessoas lutam em todo lugar – clubes de striptease, cemitérios, barcos – você escolhe. A parte do ataque à embarcação, logo depois da festinha, é bem divertida, tem até alguma coreografia e certa criatividade, é uma das melhores do filme, com destaque para a sequência que uma moça completamente nua está amarrada numa cama, num quarto apertado, enquanto rola uma pancadaria à sua volta.

A ação que acontece no cemitério, já na tal ilha, é outro petardo dentro do filme, cheia de momentos notáveis. E, claro, a ação final, quando os zumbis samurais, ninjas e guerreiros de todas as espécies pintados de cinza aparecem pra dar trabalho para os nossos heróis fecha o filme lá em cima, com chave de ouro. É tudo muito doido, mas que faz valer a experiência de assistir algo único como FORÇA CRUEL.

Temos um elenco divertido para apreciar. Um monte de gente que não conheço, mas que parecem estar se divertindo; temos a já citada Jillian Kesner, que é boa de porrada… Mas nada se compara com o grande Cameron Mitchell marcando presença bem mais que o habitual nesse período, mostrando todo seu entusiasmo, claramente embriagado em todas as cenas que aparece. O grande Vic Diaz também se destaca como monge malvado. E por ser um monge malvado ele ri muito. Por quê? Não faço a menor ideia, mas toda vez que ele faz isso é fantástico. E Ralph Lombardi tá bem engraçado como o Hitler fake, com seu terno branco, sotaque ruim e o olho trêmulo sequestrando mulheres filipinas nuas…

Sem grandes arcos dramáticos, redenções, estudos sociais, filosóficos, psicológicos, contextos políticos… FORÇA CRUEL é apenas uma bagunça majestosa em forma de filme. Quero dizer, é uma obra que apenas joga tudo o que é possível no liquidificador e o resultado é fascinante, um épico do mau gosto cinematográfico que funciona lindamente para paladares finos que apreciam cinema exploitation. Só faltou uns robôs, alienígenas e vampiros saltitantes.

Obviamente FORÇA CRUEL não é recomendável ao cinéfilo brioche que só assiste Truffaut e Bergman… Mas os apreciadores de uma tralha vão aproveitar este festival de nudez, violência e várias bobagens que ele proporciona. O único problema grave é que o filme termina com um letreiro dizendo que teria uma continuação. nunca aconteceu, o que é uma pena…

AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (1984)

Just Jaeckin é um diretor francês que pode não ter o nome reconhecido imediatamente pela grande maioria, mas é preciso considerá-lo, em alguns nichos, com uma certa importância por conta de alguns trabalhos que realizou na década de 70. E tenho certeza que vocês vão concordar comigo mesmo nunca tendo ouvido falar o nome dele antes. Pois bem, o sujeito é ninguém menos que o diretor do clássico do Cine Privé EMMANUELE (1974), com a Sylvia Kristel. Precisa dizer mais alguma coisa?

Enfim, essa semana assisti ao seu último filme, AS AVENTURAS DE GWENDOLINE NO PARAÍSO (The Perils of Gwendoline in the Land of the Yik Yak ou The Perils of Gwendoline ou apenas Gwendoline,1984), uma aventura que eu já desconfiava que seria excêntrica e sexy por tudo que já li, pelas imagens que vi, pelo diretor e até pela fonte de inspiração da obra… E, olha, todas as expectativas foram atendidas.

A tal inspiração de GWENDOLINE é nas histórias em quadrinhos de John Willie, um artista e fotógrafo pioneiro do erotismo fetichista, editor de uma revista chamada Bizarre, também sobre o tema… Isso lá pela década de 40 e 50. Foi nessa publicação que ele apresentou essa personagem Sweet Gwendoline, a protagonista desse filme aqui. Uma personagem ingênua e virginal, do tipo ‘donzela em perigo’ cujas roupas estão sempre rasgadas, sempre sendo salva por um machão, mas que passa por uma jornada de descobertas de todo o tipo, até encontrar sua força interior para resolver as coisas.

GWENDOLINE é, de certa maneira, mais uma variação das aventuras ao estilo INDIANA JONES E OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA, como tantos outros que surgiram no período – coisas do mesmo tipo de TUDO POR UMA ESMERALDA (1984) e ALLAN QUARTERMAIN E AS MINAS DO REI SALOMÃO (1985). Bom, pelo menos é assim que começa o filme… Somos apresentados a Gwendoline, que ganhou vida na beldade Tawny Kitaen, e sua fiel amiga Beth (atriz e diretora Zabou Breitman). Elas chegam num porto em algum lugar do mar da China, dentro de uma caixa de madeira, sem passaportes ou dinheiro, e não demora muito Gwendoline é sequestrada por gângsters.

Eles querem algo dela, provavelmente vendê-la como escrava branca, mas não falam inglês, então ela não tem ideia do que eles querem. Mas ela fica lá amarrada, amordaçada, algo que vai acontecer algumas vezes durante o filme pra nos lembrarmos das origens fetichistas de John Willie. Então, Willard (Brent Huff, um sujeito que é a cara do Charlton Heston) quebra a janela, mata todos os bandidos – com direito à uma luta com um clone de Bruce Lee – e salva a nossa protagonista. Mas foi apenas sorte dela. Na verdade, Willard tinha algum dinheiro pra cobrar dos gangsters. Resgatar mulheres não é bem a sua linha.

Willard, à princípio, aparenta o típico herói americano de queixo quadrado que você encontraria em histórias em quadrinhos e seriados clássicos de matinê. A diferença é que ele é um filho da puta completo, mercenário e egoísta sem nenhum tipo de pureza heroica. É apenas um aventureiro implacável que não pensa em ninguém além de si mesmo.

No entanto, ele acabou se deparando com essas duas jovens indefesas. Willard não quer nada com elas, já está comprometido com o submundo local. Gwendoline quer procurar o pai caçador de borboletas que está desaparecido, e com muito esforço encontra um jeito de subornar Willard para ajudá-las a se aventurar em Yik Yak, uma terra praticamente desconhecida, que poucos se aventuraram, mas é onde o pai de Gwendoline desapareceu.

Já no início dessa jornada, eles descobrem, através de um colega do velho, que ele havia sido sacrificado por uma tribo selvagem para apaziguar antigos espíritos. Willard parece pronto para desistir, mas Gwendoline quer continuar a jornada e pegar a borboleta mais rara que existe em homenagem ao seu pai.

O que acontece a partir daí, na verdade, além de uma aventura tradicional cheia de perigos, com piratas, tribos canibais, animais famintos, etc, é que também se torna uma jornada de descobertas interiores da jovem Gwendoline mais do que qualquer outra coisa. O contato dela com Willard desperta sentimentos inexplorados e o filme sublinha suas transformações, sobretudo nas questões sexuais, no relacionamento com Willard, mesmo com a dose constante de um humor bem abobalhado que o material propõe.

Uma cena em especial é a que Willard, conduzindo as duas moças pela selva, convence-as a tirarem as camisas e usar o pano para pegar água durante uma tempestade. É uma sequência tola, completamente desnecessária e gratuita, mas é engraçada e destaca o tipo de homem que Willard é e quão frágil é nossa heroína, cegamente atraída pelo sujeito, mas que, em última análise, faz parte do processo de transformação que ela passa no decorrer da aventura até se tornar praticamente uma “guerreira amazona”. E cito as guerreiras amazonas por um motivo especial que já falo a seguir.

Uma coisa que ajuda muito no andamento do filme até aqui são as locações. Jaeckin não é bem um diretor com muita energia na câmera e, obviamente, não consegue obter o melhor de seus atores, que atuam quase de modo cartunesco – o que também contribui para o tom de história em quadrinhos que GWENDOLINE possui. Agora, os cenários são ótimos. Exóticos, com paisagens lindamente filmadas, permitem que as três figuras se movam sem nunca deixar o filme chato. Isso tanto nas locações naturais quanto em estúdio. O plano inicial do filme demonstra bem isso e de cara percebe-se também que é uma produção com um orçamento acima da média.

Orçamento que se confirma logo depois, quando o trio escapa da mesma tribo que selou o destino do pai de Gwendoline e desce para uma enorme fissura num deserto. Aqui o filme transcende para outra coisa.

Os três personagens principais são tragados para dentro de um novo universo, até então totalmente desconhecido tanto para eles quanto para quem estava assistindo. O filme não dá qualquer pista para a chegada desse mundo paralelo, um império subterrâneo de guerreiras amazonas (aqui estão elas) governado por uma rainha má (Bernadette LaFont).

A partir daqui GWENDOLINE é quase uma obra-prima. O filme vira um espetáculo sensorial de cenários futuristas repleto de dispositivos de tortura, povoado por mulheres seminuas, com adereços fetichistas, bem condizente com o material que o filme adapta. Uma loucura. A cena da corrida de bigas, por exemplo, puxadas por moças é um toque fascinante (e tenho certeza que é uma espécie de homenagem a BEN HUR e o fato do Willard ser a cara do Charlton Heston, como já disse antes). O grande lance desse local é que fica dentro de uma caverna acima de um antigo vulcão que, segundo a lenda, um dia entrará em erupção e um tesouro em diamantes embutido em seu núcleo se perderá.

E dessa vez é Gwendoline que precisa lutar para salvar o dia. Sua transformação está completa e também percebe-se que sua paixão por Willard já está bem resolvida. Agora é entrar numa arena com outras guerreiras e lutar até morte. Enfim, o tipo de coisa que eu recomendo uma conferida, não adianta eu ficar descrevendo. E por mais louco que pareça esse híbrido de aventura excêntrica com cinema erótico, GWENDOLINE acaba rendendo algo muito divertido pelo seu caráter singular. Não existe nada parecido com isso aqui.

No elenco, destaque para a nossa Gwendoline, Tawny Kitaen (mais conhecida por ser a musa dos clipes do Whitesnake, ela foi casada com o David Coverdale), que está definitivamente em seu auge físico. E a câmera a ama tanto quanto ela ama a câmera. Tá certo que o roteiro não seja muito desafiador, mas ela lida bem com as coisas, tem presença na tela. Infelizmente faleceu no ano passado. Brent Huff é um herói galã o suficiente para que você possa entender por que Gwendoline se apaixona por ele e é interessante ver as reviravoltas que o relacionamento deles leva à medida que o filme se desenrola e a jornada de descobertas da jovem Gwendoline vai evoluindo. Zabou Breitman tá mais como alívio cômico, num filme que já tem um humor carregado por natureza, mas ela se sai bem, é encantadora.

Só posso dizer que realmente valeu a pena parar e finalmente conferir GWENDOLINE. É pura diversão do início ao fim. Na verdade, mais ao fim, quando a coisa realmente se torna uma experiência especial, surtada e única. O filme nunca é tão explícito quanto os trabalhos anteriores de Jaeckin, mas se mantém fiel à natureza sádica e fetichista do seu cinema e da obra de John Willie. E não deixa de funcionar nesse lado mais picante, em provocar com um grau de erotismo.

Mas o que é ainda mais prazeroso em GWENDOLINE é o fato do filme ser descaradamente bobo. Talvez nem fosse bem isso que Jaeckin havia pretendido com a ideia de ser um INDIANA JONES erótico. Ele poderia ter feito algo mais sério, mais artístico, mas acabou saindo essa bobagem, que é algo bem mais duradouro, uma comédia de aventura camp, praticamente uma história em quadrinhos filmada, que é muito mais agradável do que qualquer outra coisa.

ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN (1948)

Em 1948, os filmes de terror da Universal estavam saindo de moda e, depois de reunir seus monstros de várias maneiras em filmes como A CASA DE FRANKENSTEIN ou A CASA DO DRÁCULA, o estúdio decidiu injetar um pouco de energia na série colocando sua dupla de comediantes Abbott e Costello para interagir com os montros em ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN (Abbott and Costello Meets Frankentein). O resultado até que acabou sendo um grande sucesso. A dupla de comediantes repetiram a fórmula em filmes subsequentes, encontrando outros personagens do universo do horror, como o Homem Invisível ou a Múmia, embora para esses monstros, estas seriam as últimas vezes que apareciam em suas encarnações clássicas. Mas apesar de serem filmes de comédias, não deixou de ser uma despedida em grande estilo…

Chick (Bud Abbott) e Wilbur (Lou Costello) são carregadores de estações ferroviárias na Flórida que um dia recebem uma ligação de Londres. É Larry Talbot (Lon Chaney Jr) – quem está familiarizado com o horror da universal sabe que se trata também do Lobisomem – que implora para que eles não entreguem num museu local algumas caixas grandes que receberam. Quando Talbot está prestes a explicar os motivos, acaba vendo a lua cheia e… Bom, já é tarde demais. Wilbur desliga, e naquela noite a dupla entrega as caixas de qualquer maneira, conforme ordenado pelo proprietário, que afirma que elas contêm os corpos do Conde Drácula (Bela Lugosi) e do Monstro de Frankenstein (Glenn Strange)…

O que segue a partir daí é uma série de esquetes divertidas. O Drácula ameaçador de Lugosi tem planos para colocar o cérebro de Wilbur dentro da cabeça do Monstro de Frankenstein, o que leva a uma noite de caos e muita correria. As piadas são boas, tanto visuais quanto verbais, o segredo era manter os Monstros sempre assustadores e os dois personagens centrais sempre assustados. Na maior parte do tempo, temos Wilbur apavorado com as figuras se aproximando dele, ele chamando “Chick!” e os vilões recuando e desaparecendo antes que Chick os avistasse. É a luta eterna entre os crédulos e os céticos, com o pobre Chick nunca acreditando nos acontecimentos sobrenaturais porque nunca os vê acontecendo, enquanto Wilbur, é claro, se borrando de medo por ver os monstros toda hora.

É um tipo de humor até bastante repetitivo, algo de cartunesco, mas as reações exageradas da dupla são ideais para esse tipo de comédia misturada com o horror, especialmente quando temos os atores desempenhando seus papéis de monstros ao máximo, especialmente Lugosi, que repete aqui pela última vez o personagem que o imortalizou.

FRANKENHOOKER (1990)

bscap0178

FRANKENHOOKER é um dos filmes mais dementes do Frank Henenlotter, o mesmo gênio do cinema de horror/comédia de baixo orçamento que realizou a trilogia BASKET CASE e BRAIN DAMAGE, só pra ter uma noção do nível de insanidade que é isso aqui. Só fui assistir agora, era o único filme de “ficção” do Henenlotter que não tinha visto ainda (agora tenho que ver os documentários, que parecem muito bons),  mas trata-se de uma obra que ganhou, desde seu lançamento em 1990, um status cult, graças à ideia maluca de ressignificar o mito de Frankenstein às avessas, cujo “monstro” trazido à vida é formado por membros de prostitutas que explodiram ao fumar um super crack, tudo embalado no humor escrachado títpico do diretor!

Quando o filme começa, Elizabeth Shelley (Patty Mullen) está animada para dar ao pai o seu presente de aniversário, um cortador de grama poderoso, turbinado e com controle remoto construído pelo seu noivo, Jeffrey Franken (James Lorinz), um jovem gênio eletricista – que curte realizar experiências medicinais como hobbie. Elizabeth aperta o botão no controle para fazer uma demonstração aos convidados na festinha de aniversário do querido pai e antes que você perceba, ela é triturada como uma salada de repolho pela máquina…

maxresdefault

O tempo passa e, lidando com sua própria dor, Jeffrey começa a formular um plano para trazer de volta sua amada noiva. Usando seus conhecimentos de eletricidade e medicina, o sujeito desenha, durante os créditos de abertura, o que é a gênese do renascimento de Elizabeth. Uma das poucas coisas que sobrou da moça no acidente foi sua cabeça, que o rapaz mantém num líquido rosa na garagem de sua casa, que serve também de laboratório. O que Jeffrey precisa agora é de um corpo…

E a bizarrice se intensifica. Para dar uma estimulada no cérebro e fluir seus sucos criativos, Jeffrey cutuca seu crânio com uma furadeira elétrica e quando as sinapses inspiradoras começam a disparar, ele descobre que a melhor maneira de reconstruir sua namorada é, obviamente, contratar prostitutas e escolher as melhores partes de cada e remontar sua amada. Então ele vai até Nova York e inicia o processo de seleção no típico cenário que Henelotter adora filmar: as ruas sujas e escuras de uma NY decrépita e de atmosfera decadente como vimos no primeiro BASKET CASE.

bscap0093bscap0100

Depois de conhecer algumas amáveis ​​damas da noite e tentar convencê-las a ajudá-lo, Jeffrey acaba apresentado ao cafetão delas, um sujeito parrudo chamado Zorro (Joseph Gonzalez), que negocia todo o esquema dentro de um banheiro de boate lotado de crackudos. No fim,  Zorro permite que Jeffrey faça uma reuniãozinha com algumas de suas melhores mulheres numa espelunca de hotel…

É quando rola a sequência mais inacreditável de FRANKENHOOKER. Várias garotas semi nuas, com o pobre Jeffrey fantasiado de médico, analisando a massa corpórea das moças, medindo a espessura das coxas, o formato dos mamilos, os moldes das bundas, o comprimento das pernas e braços, enfim, cada centimetro que possa encaixar no quebra-cabeça que vai ser montar o corpo perfeito para sua Elizabeth. E as prostitutas sem entender direito o que está acontecendo…

bscap0115bscap0122bscap0124bscap0125bscap0127bscap0128

Até que elas encontram uma sacola gigante de crack que Jeffrey havia manipulado para deixá-las mais à vontade, mas que acabou resultando numa droga tão podersa que os efeitos colaterais são bem graves… Basicamente faz o usuário explodir, simples assim. A pessoa fuma a pedra e BUM! Explode. E é o que acontece, um espetáculo de corpos de prostitutas explodindo, ao som do que Jeffrey se refere à “música do demônio”, com direito ao Zorro arrombando a porta e sendo nocauteado por uma perna que voa na sua cara… Um grande momento de garbo e elegâncio do cinema de Frank Henelotter.

No fim, depois de todos os corpos explodidos, e membros femininos espalhados pra tudo quanté lado, Jeffrey reúne todas as partes que ele precisa usar e as leva para casa onde finalmente constrói um novo corpo para Elizabeth, anexado à sua cabeça decepada. Uma esperada tempestade chega bem à tempo e o corpo reconstruído recebe a voltagem necessária para reviver. Mas o resultado não sai exatamente como Jeffrey esperava…

bscap0134bscap0141bscap0163bscap0167

Grotesco e engraçado, FRANKENHOOKER é, assim como os outros filmes do diretor, um paradoxo, ao mesmo tempo inteligente e completamente idiota. Mas no fim das contas, Henelotter faz aqui algumas interessantes reflexões, um conto moral sobre a desilusão na idealização romantica que as pessoas comumente fazem da pessoa amada. E Jeffrey sabe que ao ressuscitar Elizabeth nada seria como era antes, mas ao menos ele idealiza uma alma gêmea que possa amar como no passado… Mas não é exatamente isso o que acontece à princípio. E o filme vai mais além, porque o sujeito ainda fica obcecado com uma construção detalhadamente perfeita do corpo, o que não deixa de ser uma análise curiosa sobre a ditadura da beleza. No desfecho, Jeffrey acaba provando do seu próprio remédio e definitivamente “ganhando” um corpo perfeito.

Henenlotter, um verdadeiro fã do universo do B-Movie dilui essas ideias no tom desinibido do filme e nas muitas homenagens que ele faz (FRANKENSTEIN, é claro, mas também para O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER e coisas do tipo) e nas suas próprias compulsões estéticas. No entanto, a restrição orçamentária acaba sendo um obstáculo à sua liberdade de ação e os efeitos especiais são os primeiros a sofrer.

b95fbb30856ee1a3738450872be5840596474732_hqbscap0215

Mas aí que tá a graça da coisa. Até porque FRANKENHOOKER é o tipo de filme que o próprio realizador não faz questão que levemos tudo à sério. Portanto, esse aspecto dos “defeitos” especiais não é exatamente uma falha, pelo contrário, acaba fornecendo um charme a mais, especialmente na tal cena com as prostitutas explodindo, que é o tipo de sequência que exige muita trucagem e pirotecnia, onde o resultado tosco fica mais evidente… E mesmo assim, Henenlotter consegue deixar tudo lindo, com muito mais alma do que qualquer esforço gerado por computador.

No que diz respeito às atuações, a coisa deve ser encarada com o mesmo espírito. Ninguém aqui vai ganhar nenhum prêmio importante, nenhum mérito artístico por suas performances, e os atores sabem disso, mas até que funcionam bem para o que é exigido. Vale destacar, por exemplo, o desempenho adorável de Patty Mullen, em especial depois de ser ressuscitada, com toda expressão facial e corporal que a personagem requer.

bscap0207bscap0184

Aparentemente, Bill Murray é um grande fã de FRANKENHOOKER, que foi citado na capa do DVD do filme, lançado em 2006, dizendo “Se você for assistir só a um filme este ano, que seja FRANKENHOOKER”. Não seria uma escolha ruim… E, bom, para quem já está familiarizado com o trabalho de Frank Henenlotter, já sabe exatamente o que esperar disso aqui. Mas se você não essa familiaridade acho que este post deve dar conta. Recomendo também aos fãs do universo de Frankenstein para apreciarem a mais uma possibilidade de expansão desse universo tão vasto criado por Mary Shelley e que aqui é acrescentado alguns ingredientes que nunca decepcionam: muito sangue, nudez e motivos para boas risadas.

DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL (1973)

WS9a3Cu

Um dos poucos filmes que a atriz Edwige Fenech fez com o diretor Sergio Martino que não era um giallo foi este DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL (Giovannona Coscialunga disonorata con onore).

A história começa quando um juiz está pescando e encontra o rio onde ele esperava largar a linha completamente poluído. Algumas pesquisas rápidas apontam para uma fábrica de queijos administrada pelo Comendador La Noce (o grande Gigi Ballista). Para evitar acusações e ter o bom nome de sua empresa manchado aos olhos do público, La Noce tenta descobrir como ele poderia entrar nas boas graças de um político local e impedir que alguma desgraça lhe aconteça. Seu assistente, o Sr. Albertini (Pippo Franco), descobre que o tal político tem uma fraqueza: o sujeito gosta de dormir com mulheres casadas.

GzSw4An

As ideias começam a pipocar na cabeça de La Noce e ele imagina que, como sua própria esposa não é exatamente a coisa mais atraente da cidade, nem sua estrita educação católica romana a tornaria uma candidata ideal para esse empreendimento, mesmo que ela tivesse a melhor das aparências, ele resolve contratar uma prostituta.

É aí que entra em cena a bela Cocò (Fenech) – uma adorável dama da noite que La Noce contrata para fingir ser sua esposa e jogar para cima do calcanhar de aquiles do político. Ela aceita o trabalho e parece perfeita para o que é necessário, mas obviamente as coisas não vão sair exatamente conforme o planejado, como toda boa comédia italiana, e logo todos, incluindo o cafetão de Cocò, acabam caindo em maus lençóis…

juMnFwn

GJebURy

DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL Tem boa direção do Sergio Martino, mais conhecido por filmes de horror, giallo e ação, mas que era pau pra toda obra… Quero dizer, para todos os gêneros populares do cinema italiano. O sujeito possui, portanto, algumas boas comédias no currículo. Este aqui é particularmente muito bem filmado, os cenários e paisagens são bem utilizados, mas obviamente o que Martino tem de melhor para apontar suas câmeras é o charme e beleza de sua atriz principal. Stelvio Massi (notório diretor de polizieschi, os filmes policiais italianos) foi o diretor de fotografia por aqui e fez um ótimo trabalho enquadrando tudo muito bem, com algumas composições visuais bastante impressionantes… Especialmente essa aqui abaixo, um dos grandes enquadramentos da história do cinema:

O4hNqTV

Apesar da imagem acima, o filme não explora tanto a pele de suas atrizes como em outras comédias sexy italianas do mesmo período. Mas há alguns momentos mais calientes por aqui, porque é isso que é a verdadeira atração para quem vai parar e assistir a um filme desses… Mesmo que esses momentos sejam utilizadas mais em contextos de humor. E no que diz respeito ao valor cômico do filme, há várias situações divertidas, mas tudo bem leve, dentro dos padrões do humor popular italiano, talvez ligeiramente acima da média, na melhor das hipóteses. O grande atrativo é mesmo Fenech.

aaktiAB

Quanto às performances, Fenech não tem muito o que fazer aqui, exceto ficar em pé e com boa aparência – e ela o faz muito bem, mesmo que nada no filme a exija particularmente como atriz, o que ela já demonstrou em várias ocasiões talento para tal. Mas aqui não é tão necessário. O desempenho de Pippo Franco é que acaba se destacando, mostrando um talento especial para o timing cômico e a comédia física e, embora o filme não seja tão forte quanto, por exemplo, NO TEMPO DO CINTO DE CASTIDADE (Quel gran pezzo della Ubalda tutta nuda e tutta calda, 1972), outra parceria entre Fenech e Pippo, o desempenho por aqui do sujeito é bem mais interessante.

Embora DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL não apele para um grande público e não seja nenhum clássico marcante do cinema europeu, aqueles que gostam de comédias italianas ou que apreciam o considerável garbo, elegância e presença de tela de Edwige Fenech (seja vestida ou não) vão acabar apreciando um bocado.

PARASITA (2019)

EItgqtzWsAE2xNd

Vi PARASITA já faz um tempinho, mas como o filme tá estreando nos cinemas pelo Brasil acho que vale a pena fazer uns comentários. Até porque é um dos grandes filmes de 2019. E também porque adoro o trabalho do Bong Joon-ho, esse diretor coreano que possui o talento de aproximar como poucos o riso, o cômico, ao grito de horror. E é exatamente o que acontece por aqui em PARASITA, que levou a Palma de Ouro em Cannes deste ano e que proporciona ao mesmo tempo um prazer extraordinário e um profundo mal-estar. O tipo de filme que você se sente tanto revigorado (pelo poder cinematográfico de Bong) quanto nocauteado (pela acidez como aborda o lado podre da sociedade).

E Cannes parece ter confirmado um certo apreço por filmes que retratam famílias à margem, como no vencedor do ano passado, ASSUNTO DE FAMÍLIA (Shoplifters), de Hirokazu Koreeda. Em PARASITA temos um pai, mãe, filha e filho, que vivem juntos em certa harmonia, mas em condições miseráveis, no subsolo de um edifício, no qual a única janela se abre para um beco sujo onde os bêbados usam para mijar. O filho acaba contratado como professor particular de inglês por uma família rica (que vive em uma bela casa, grande, arquitetura moderna, com vista para a cidade), falsificando um diploma. Em seguida, organiza para que sua irmã seja contratada como terapeuta de educação artística. Ela arruma um jeito de fazer o motorista dessa família ser demitido para que seu pai seja contratado no lugar. E o pai reserva o mesmo destino à fiel governanta, para que sua esposa seja contratada…

EItgqt3XkAEn6bxEIe6R-PXUAA8UBg

Em determinado momento, quando a família está sozinha nesta casa, desfrutando de uma viagem de seus chefes, apossam-se de boa comida, fartura, bebida e conforto. Ficam totalmente bêbados e sentimentais… E é quando começamos a sentir Bong brincando de fazer suspense, revelando a verdadeira face de PARASITA. É quando a sátira transcende e toma uma forma mais obscura e aterradora. Quase um filme de horror sobre luta de classes, sem qualquer tipo de condescendência. E o mais incrível, sem perder o humor.

Não há espaço para “vilões” e “mocinhos” no olhar de Bong. Os chefes ricos têm seus defeitos, seus lados doentios e ridículos. Mas também são pessoas boas e atenciosas. Quanto à família pobre de golpistas, existe uma sinceridade e um desespero que faz seus membros lutarem para sair da situação que se encontram. Mas ao mesmo tempo, são isso mesmo: golpistas. A única solução que encontram para sair do subterrâneo é a farsa. Mas PARASITA não é filme de ficar fazendo julgamentos moralistas pra cima dos personagens, que os utiliza em prol de uma inteligente sátira sobre as classes da sociedade. Que é curiosamente cômica, mas não deixa de causar um abalo perturbador.

EItgquOXYAIrWjv

Para finalizar, um elogio. Fiel ao diretor desde MEMÓRIAS DE UM ASSASSINO, Song Kang-ho, que faz o papel do pai da família golpista, confirma mais uma vez que é um dos grandes atores da atualidade.

DVD REVIEW: A PRISIONEIRA DO CÁUCASO (1966); CPC UMES FILMES

Kavkazskaya.plennitsa.04

Acabo de ver A PRISIONEIRA DO CÁUCASO, que a CPC UMES Filmes lançou recentemente no mercado em DVD. Já previa que ia gostar logo de cara quando vi o nome do diretor, o russo Leonid Gayday, que já citei por aqui quando comentei sobre BRAÇO DE DIAMANTE, também lançado pela distribuidora na sua série de filmes soviéticos. E não deu outra. Trata-se de mais uma comédia deliciosa e irreverente do diretor, fazendo jus ao grande sucesso na época de seu lançamento, ultrapassando a marca de setenta milhões de ingressos vendidos.

Mesmo repleto de um humor que se escora em elementos regionais, A PRISIONEIRA DO CÁUCASO é um filme fácil e acessível no melhor sentido das palavras, mesmo para um olhar ocidental. Inspirado num conto de Leo Tolstoi para os tempos soviéticos modernos (década de 60), a trama gira em torno de Shurik (Aleksandr Demyanenko), um ingênuo estudante russo que viaja de burro pelas aldeias rurais à procura de velhos contos e tradições folclóricas. A história se passa na região do Cáucaso, onde o rapaz se mete em várias situações absurdas e cômicas – humor nonsense, leve e bobo, mas que me deixou com um sorriso no rosto durante toda a projeção – ao interagir com os estereótipos e a cultura local. Numa dessas, Shurik acaba entrando numa enrascada ao se envolver por engano no plano de sequestrar Nina, uma jovem atleta que está passando férias na casa de seu tio, a fim de forçá-la a se casar com um poderoso político local.

img407_8164_308e4h

Pensando estar seguindo as tradições da região, o nosso ingênuo herói percebe o embaraço por ter ajudado no crime e resolve consertar o estrago. E A PRISIONEIRA DO CÁUCASO vai ficando cada vez melhor e absurdamente hilário, com personagens e situações de fazer o cinema vir abaixo de tanta risada (a perseguição de carro pelas estradas no final é digna de antologia das melhores comédias dos anos 60). Um dos destaques do filme é o elenco. Demyanenko está ótimo, mas é ofuscado por Nina, interpretada por Natalya Varley, que é uma fofura, tem muito carisma em cena. Mas o melhor de tudo é uma uma versão russa de Os Três Patetas, os capangas encarregados de sequestrar a moça (um deles interpretado por Yuiy Nikulin, protagonista de BRAÇO DE DIAMANTE), típicos sujeitos que usam a cabeça de um deles como aríete, para arrebentar uma porta trancada…

img138_8748_o863px

Bom demais! Agora preciso ver um outro exemplar já lançado pela CPC UMES Filmes em DVD há alguns anos, 12 CADEIRAS, também do Gayday. Tenho a impressão que vou me divertir tanto quanto este aqui e BRAÇO DE DIAMANTE.

O DVD de A PRISIONEIRA DO CÁUCASO lançado pela CPC UMES Filmes no mês passado está valendo muito a pena. Imagem restaurada, som excelente, tem informações sobre o diretor, argumento e trilha sonora, e o filme em si é uma belezura. Pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo ou no site da distribuidora. E não deixe de curtir a página da CPC UMES Filmes no Facebook para ficar sabendo das novidades e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

FUGA PARA ATHENA (1979)

b335b9349827968

FUGA PARA ATHENA (Escape to Athena) é um típico produto de sua época, especialmente em termos de tom. É característico como as experiências de guerra, naquela altura no cinema, ficaram tão filtradas até o entretenimento em sua forma mais pura que começa a se assemelhar a um pastiche e repleto de humor e ação. É o tipo de filme em que os nazistas são rotineiramente filmados em cima de telhados ou torres para permitir que o dublê realize um mergulho quando alvejado e dê às sequências de ação um pouco mais de emoção.

Mas se há uma coisa legal que posso dizer logo de cara sobre FUGA PARA ATHENA é o elenco fantástico, que é outro ponto característico desse tipo de filme nesse período. Temos aqui Roger Moore, David Niven, Telly Savalas, Claudia Cardinale, Sonny Bono, Elliott Gould e Richard Rountree – ou seja, James Bond, Shaft, Kojak, etc – o que deixa essa aventura de guerra e comédia ainda mais divertida.

VzKULVo

O cenário é um campo nazista de prisioneiros em uma ilha grega em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. É um campo de concentração diferente. Sua finalidade é um trabalho de escavação em busca dos tesouros arqueológicos do local. O saque deve ser enviado para Berlim, mas o comandante do campo, major Otto Hecht (Moore), é um trambiqueiro que faz alguns desvios com alguns dos itens mais valiosos. Personagem ambíguo e fascinante, antes da guerra Hecht era um traficante de antiguidades e está espoliando seus comandantes em Berlim da mesma forma que enrolava seus clientes pré-guerra. Não deixa de ser um patriota, desde que isso não interfira em seus planos de enriquecer a si mesmo.

Em outros aspectos, no entanto, é um sujeito decente. Não tem lá muito interesse ideológico e trata com respeito e dignidade os prisioneiros que utiliza para desenterrar os tesouros arqueológicos, alguns bastante adequados para seus propósitos, incluindo o arqueólogo Professor Blake (David Niven). Mas essa sua falta de fervor nazista o coloca em desacordo com o comandante da SS na ilha, um desses oficiais alemães brutais e cruéis.

54572d349828129119ebc349828056

O filme mostra ainda a chegada de dois prisioneiros peculiares, duas figuras americanas  capturadas no local: Dottie del Mar (Stefanie Powers), uma nadadora campeã, cantora e dançarina, cujas habilidades de natação serão úteis para a Hecht na procura de possíveis tesouros afundados no mar. E Charlie Dane (Gould), um comediante que não tem qualquer utilidade, mas Hecht acaba por simpatizar pelo sujeito, em parte porque compartilha uma paixão pelo jazz americano.

Enquanto isso, a resistência grega está ativa na ilha. Seu líder é um monge destituído chamado Zeno (Savalas). Sua namorada, Eleana (Cardinale), dirige o bordel local que é na realidade o centro de coleta de informações da resistência. Com uma iminente invasão dos aliados, Zeno tem ordens para assumir o controle da ilha e destruir as instalações nazistas, incluindo algumas bases secretas, que contém mísseis e representam uma grande ameaça para uma frota invasora.

CeL8RR2.jpg

Para assumir a ilha, Zeno contará com a ajuda de alguns prisioneiros, ganhando suas cooperações prometendo que saquem o mosteiro da região e seus tesouros bizantinos. Este aspecto da operação é particularmente forte para Charlie, e também para o cozinheiro italiano do acampamento Bruno Rotelli (Bono) e Nat Judson (Roundtree), um soldado americano baaaadaaasss. A dificuldade potencial é que os planos da Resistência também exigirão a ajuda do Major Hecht, que não gosta da ideia de traição, mas acaba sendo favorável à persuasão, especialmente por estar apaixonado por Dottie.

Os produtores de FUGA PARA ATHENA dispunham de muito dinheiro para brincar e o diretor George P. Cosmatos (RAMBO II e COBRA), que veio com a ideia original, aproveitou bastante dos recursos que tinha em mãos. As cenas de ação não são nada espetaculares, mas a utilização dos cenários como palco para tiroteios e explosões, incluindo o mosteiro em que se passa a ação final, construído especificamente para o filme (e completamente explodido ao final), são suficientes para manter os fãs do gênero felizes. Há também uma perseguição de motocicleta pelas ruas estreitas de uma aldeia que é muito bem elaborada.

lWZG72A

O aspecto do filme que provavelmente seja mais problemático é a comédia, que de vez em quando ameaça sobressair demais. Gould e Powers parecem estar envolvidos em um filme totalmente separado daquele em que Savalas e Roger Moore estão fazendo. Se isso realmente é um problema depende de quanta tolerância você tem para os momentos cômicos exagerados. A mim, não incomoda tanto, embora reconheça que saia um pouco do tom de vez em quando…

1GZu60O

Uma das coisas que gosto em FUGA PARA ATHENA é a ideia de colocar Roger Moore como um comandante nazista, algo que não estava esperando e que, a princípio, o coloca como um dos vilões da história. O próprio ator já declarou que se sentiu deslocado no papel… Como dizem, um miscasting (aparente escolha transversal de algum integrante do elenco). Para quem cresceu vendo o sujeito interpretar James Bond, soa meio estranho, mas destaco a ousadia. Pessoalmente, gostaria de vê-lo tendo mais a fazer nesta aventura, mas não tenho do que reclamar quando quem acaba dominando o filme é o grande Telly Savalas, que transforma Zeno num personagem muito forte, dramático, mas com um toque de humor irônico.

FUGA PARA ATHENA é bem divertido. Como disse antes, um pastiche ao tratar da guerra, em que aprendemos que nem todos os soldados alemães eram nazistas, porque até James Bond poderia ser um oficial alemão desde que ajudasse o Kojak a salvar o dia. Para quem sabe apreciar esse tipo de ficção da história, é uma boa pedida.