LARRY COHEN

Cinema B, paranoia urbana e crítica social

Passei os meses de março e abril deste ano fazendo uma peregrinação pessoal pelo cinema de Larry Cohen (apenas como diretor, se fosse como roteirista também, tava até hoje maratonando), algo que recomendo imensamente não apenas aos fãs de filmes de horror ou exploitation, mas a qualquer um realmente interessado em CINEMA.

Uma confirmação óbvia: Cohen foi um dos grandes nomes do cinema americano, com um talento descomunal em transformar limitações orçamentárias em força criativa. E repito: um dos grandes diretores não só de cinema de gênero, não só como independente e marginal, mas um nome a ser colocado ao lado de gente grande da sua geração, como Carpenter, De Palma, Flynn, Milius, Cimino e por aí vai.

Cohen sempre foi um autor subestimado, que transita entre gêneros fazendo comentários precisos sobre o estado das coisas, sobre o sistema, tratando de temas existenciais, filmes cuja superfície parecem um exemplar corriqueiro de um gênero qualquer, mas que de repente examina os pesadelos do consumismo, como em A COISA (The Stuff, 1985), ou o caos da paranoia urbana num filme de monstro como Q – A SERPENTE ALADA (Q, 1982). Apresenta arquétipos de personagens do mundo real sendo lançados em horrores maiores que a vida, uma habilidade que Cohen sempre executa com perfeição.

Não vou comentar aqui cada filme do sujeito porque a intenção não é deixar esse texto maior do que já vai estar. Quem tiver interesse pode dar uma olhada no meu perfil no Letterboxd, onde fiz comentários à medida em que ia conferindo cada filme. Aproveita e me segue por lá. Ou pra quem acompanha o meu Instagram de filmes, estou sempre atualizando por lá também (bons tempos em que tudo ficava concentrado em um só lugar. Hoje, para as pessoas te lerem não basta ter um blog, você tem que ter um blog, Twitter, Instagram, Facebook, Threads, Substack, Letterboxd e não sei mais o que… Mas tudo bem).

Por falar em mais dicas de leituras e Larry Cohen, no blog tem dois textinhos que acho até bem decentes sobre O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar, 1973) e FOI DEUS QUE MANDOU (God Told Me To, 1976). Por hora, quero registrar uns três ou quatro destaques dessa peregrinação recente pelo cinema do Cohen.

Deixando de lado um pouco os filmes mais óbvios, é a segunda vez que assisto THE PRIVATE FILES OF J. EDGAR HOOVER (1977), que no Brasil saiu em VHS com o título F.B.I. ARQUIVOS SECRETOS. Retrato fragmentado da vida de J. Edgar Hoover, desde a ascensão à paranoia do homem que transformou o FBI numa extensão de suas obsessões pessoais até a sua morte. Cohen filma tudo com um olhar quase documental, expondo o jogo sujo de décadas de manipulação e chantagens dentro do governo americano. Broderick Crawford encarna Hoover com uma rigidez impenetrável, enquanto o filme desmonta o mito do “grande defensor da lei”, revelando um homem movido por medo, poder e cheio de questões sobre sua sexualidade que Cohen não tem receio algum de abordar. Ou seja, filmaço.

O prpósito de transformar Hoover num homem complexo, sem tomar partido, não agradou muito o público americano. Nas trivias do imdb, tem uma declaração do Cohen que ressalta bem o tipo de diretor que ele era:

“Esse foi o problema que tivemos com o filme nos Estados Unidos. Os republicanos não gostaram e os democratas também não gostaram, porque mostramos o lado sombrio dos dois partidos políticos e de todos os presidentes. Ambos ficaram igualmente incomodados, então condenaram o filme. (…) eu sabia, desde o início, que o filme seria polêmico. Não era o que as pessoas queriam ver. Quando fizemos uma pré-estreia do filme no Kennedy Center, em Washington DC, ele enfureceu todos os senadores e deputados que compareceram — o que, acho, era exatamente o que eu queria fazer desde o começo: causar encrenca.”

E Cohen ainda faz questão de manter-se fiel à sua veia mais vulgar, mais pulp, de criador de imagens exploitation, não se inibindo em mostrar violência, filmando tiroteios daquele jeito cru e sem concessões, mesmo trocando aqui o horror e a fantasia por um registro mais “realista”.

INOCÊNCIA FATAL (Perfect Strangers, 1984) não tá nem entre os melhores do diretor, mas foi tanto uma grata surpresa quanto uma esquisitice que só poderia sair da mente de Cohen. Eu nunca tinha assistido.

Um matador de aluguel da máfia italiana (Brad Rijn, que aparece em vários trabalhos de Cohen) precisa eliminar a única testemunha de um assassinato que ele cometeu: um garotinho de dois anos. As coisas complicam quando ele se envolve com a mãe da criança pra se aproximar deles, criando uma tensão entre afeto e violência.

O filme parte de uma premissa que poderia facilmente descambar para o ridículo, mas Cohen transforma tudo num thriller bem mais interessante do que eu tava esperando. E há o olhar ácido de Cohen sobre a sociedade, moralidade e o poder das relações manipuladoras.

E é legal que Cohen sempre arruma um jeito de inserir pequenas excentricidades e detalhes que dão mais dimensão aos seus personagens, como por exemplo o assassino marcar sua própria sombra nas paredes com spray, quase um ritual, uma assinatura bizarra que reforça e eterniza sua presença fantasmagórica na cidade, num mundo onde ele, ironicamente, precisa ser invisível.

Cohen tava inspirado nesse período, meados dos anos 80, vinha de alguns filmes menores no início da década, como O JOVEM LOBISOMEM (Full Moon High, 1981), e SEE CHINA AND DIE (1981) e de repente começou a emendar algumas pedradas: Q – A SERPENTE ALADA, esse INOCÊNCIA FATAL e ESPECIAIS EFEITOS (Special Effects, 1984).

Este último é um dos melhores e mais criativos trabalhos de Cohen. Um cineasta decadente (Eric Bogosian) filma um snuff movie: ele mesmo cometendo o assassinato de uma aspirante a atriz (Zoë Lund). E decide transformar isso em seu próximo grande projeto, até mesmo para apagar os rastros do crime. Escala uma sósia da vítima no papel principal e manipula todos ao seu redor como marionetes.

E Larry Cohen brinca com tudo isso de forma magistral, no ápice de seu apuro estético (um dos filmes mais bonitos visualmente do cinema americano do período) e domínio da linguagem, e usa todo esse conceito pulp da trama pra dissecar algo maior: o cinema como ferramenta de controle, voyeurismo e perversão da realidade. Entre thriller neo-noir e metalinguagem, o filme joga com a ideia de que a ficção e a vida real se misturam de forma perigosa.

Assim que eu terminei de ver ESPECIAL EFEITOS (aliás, título nacional um tanto equivocado), eu tinha batido o martelo de que se tratava do meu favorito do Cohen junto com FOI DEUS QUE MANDOU. Mas aí que tá a graça de fazer essas maratonas. Perceber os altos e baixos de um diretor e vê-lo se superando quando parece que não há nada melhor que possa fazer.

No caso de Cohen, ele ainda tinha A AMBULÂNCIA (The Ambulance, 1990). Um dos que mais ansiava rever. Já tinha assistido na adolescência e depois de adulto, lembro de gostar em cada conferida, mas já fazia uns bons anos que não revia. E foi quando veio outra confirmação: A AMBULÂNCIA é a obra-prima de Cohen. Não tem jeito. Um de seus trabalhos mais vigorosos, o filme que o diretor se preparou durante toda a carreira para entregar, em que canaliza a essência do cinema B num slasher conspiratório, iluminado por neon, que mistura paranoia urbana, o seu típico humor sarcástico e crítica ao sistema, numa trama que parece saída direta de uma HQ pulp dos anos 70.

Uma joia escondida que todo cinéfilo que se preze deveria descobrir. Para os admiradores de Larry Cohen, é o último grande esforço de um diretor que nunca aceitou os limites da lógica narrativa, nem as regras do bom gosto. E para quem vive num mundo onde a saúde virou mercadoria, onde as instituições parecem cada vez mais abstratas e distantes, o filme é uma fábula urbana, um espelho grotesco da realidade.

O filme começa com uma enxurrada de imagens. Calçadas e esquinas públicas ocupadas por um mar de anônimos vagando sem rumo, ombro a ombro, lembra bastante as cenas gravadas em modo guerrilha que Cohen fazia nos anos 70, como em O CHEFÃO DE NOVA YORK e FOI DEUS QUE MANDOU, em que atores contracenam com transeuntes que nem sabem que estão sendo filmados. E é um dos motivos pelos quais sequências introdutórias como essa nos filmes de Cohen, tão simples e banais, acabam sendo tão interessantes quanto as de ação/suspense que a trama do filme precisa preencher durante a narrativa. Os diálogos, a expressividade dos atores, o registro do diretor, dá vontade que o filme todo seja isso.

Eric Roberts, com esse belo mullet aí em cima que faria Jean-Claude Van Damme em O ALVO se morder de inveja, vive um desenhista da Marvel (o filme conta até com participação do próprio Stan Lee) metido a herói tentando descobrir por que uma ambulância retrô anda sequestrando pessoas nas ruas de Nova York.

Depois da belíssima introdução, com clima de comédia romântica, na qual Eric Roberts paga de galanteador pra cima da moça que ele gosta (e ela mesmo acaba sendo vítima da ambulância), a trama se estabelece. E a partir daí, Cohen assume o modo mestre de suspense, exibindo seu domínio do gênero com uma série de sequências eletrizantes ao longo do filme. E como se espera de Cohen, o que começa como um mistério se transforma em algo maior, um épico slasher-policial que revela conspirações governamentais diabólicas e uma paranoia sistêmica. Tanto o humor quanto os momentos de horror e tensão nascem de um dos maiores medos da sociedade americana: o sistema de saúde.

O ritmo é alucinante, o suspense funciona, imagens sombrias da metrópole se entrelaçam com ataques assustadores da ambulância, criando alguns dos momentos mais peculiares da carreira de Cohen, com a ambulância rasgando o trânsito, subindo calçada, atropelando tudo e todos. Um cenário que rende um certo humor visual, seja intencional ou não, mas que Cohen é autoconsciente o suficiente para que, ao mostrar uma ambulância tentando ferir alguém, ele realce a deliciosa ironia disso. E sem precisar em momento algum criar discursos óbvios e politicagem.

Sequências como, por exemplo, os momentos finais do policial vivido por James Earl Jones, mascando um chiclete como um espasmo post mortem, ou tudo que se passa na boate com a policial de Megan Malloy, estão entre as mais sublimes da carreira de Cohen. Se hoje eu atualizasse minha lista de 100 filmes favoritos de todos os tempos, e em algum momento este ano o farei, definitivamente A AMBULÂNCIA entraria em algum lugar com merecido destaque. Perfeição.

E mais nada a dizer sobre Larry Cohen. Apenas gênio demais. E deixo aqui o meu top 10 final oficial pessoal do diretor:

10. A VOLTA DO MONSTRO (It Lives Again, 1978)
09. BONE (1972)
08. A COISA (1985)
07. F.B.I ARQUIVO SECRETO (1978)
06. NASCE UM MONSTRO (It’s Alive, 1974)
05. O CHEFÃO DE NOVA YORK (1973)
04. Q – A SERPENTE ALADA (1983)
03. FOI DEUS QUE MANDOU (1976)
02. ESPECIAL EFEITOS (1984)
01. A AMBULÂNCIA (1990)

Originalmente publicado no Substack

O retorno de JCVD… De novo?

Sempre que se anuncia um trabalho mais “ousado” com o envolvimento de Jean-Claude Van Damme, inicia-se também a velha expectativa em torno de um possível “retorno” do belga aos holofotes do cinema de ação. E para quem não sabe, isso aconteceu diversas vezes ao longo das últimas duas décadas. No final deste mês, Van Damme vai estrear na NetFlix, com toda pompa do streaming mais famoso da atualidade, com O ÚLTIMO MERCENÁRIO, de David Charhon, e de novo o tema vem à baila…

Acho que o assunto “o grande retorno de Van Damme” apareceu com força pela primeira vez foi em 2008. O sujeito já estava há alguns anos fazendo seus filmes direto para o mercado de home video, e o interesse do mainstream tinha chegado ao fim, deixando apenas os aficcionados por cinema de ação e fãs do ator acompanhando sua carreira. O saldo não era negativo, tivemos vários exemplares de boa qualidade, alguns mais outros menos (alguns horríveis, obviamente), embora um Van Damme grisalho e calejado tivesse assumido um registro mais maduro de seus personagens. Foram-se os chutes rodados e filmes mais focads em combates corporais, a idade lhe obrigou a mudar o estilo de ação que fazia. O otimismo dominante acabou substituído por papéis mais sombrios. Van Damme interpretou de gângster violento à policial de moral duvidosa demonstrando excelentes atuações, e conseguia, de vez em quando, trabalhar com bons diretores: Ringo Lam, Isaac Florentine, e um pouco mais tarde, numa boa colaboração com John Hyams.

Mas foi com JCVD que Van Damme realmente surpreendeu as pessoas. Ele se viu em um filme com sensibilidade, fazendo uma versão ficcional de si mesmo, num pathos sincero e autêntico. Um filme honestíssimo, em que por duas ocasiões, Van Damme quebra a quarta parede para se dirigir ao público e falar do fundo do coração sobre seus demônios interiores, em monólogos intensos. E para além desses momentos, Van Damme se entrega num ótimo desempenho fruto da sua evolução como ator e deposita tudo nesse veículo que não era o típico filme de ação que estávamos habituados a vê-lo.

Lembro como as pessoas começaram a se perguntar se teríamos um renascimento da carreira de Van Damme. Não apenas como um homem de ação, mas como um ator legítimo. Ele poderia fazer papéis dramáticos, ser cômico, poderia fazer coisas interessante que muitos de seus contemporâneos de ação não foram capazes de fazer, exceto, talvez, Sylvester Stallone – o maior ator, no sentido dramático, entre os brucutus do cinema de ação. Van Damme poderia seguir os passos de um Liam Neeson, ou surfar na onda, mais tarde, de um JOHN WICK. Por que não?

No entanto, bom, essa revolução nunca aconteceu. O mais próximo disso foram os trabalhos com o Hyams na série SOLDADO UNIVERSAL, que apesar de serem obras-primas modernas do cinema de ação, continuaram sendo produtos de nichos, para fãs do ator ou de obcecados por ação. Nenhum grande estúdio se interessou em trazer Van Damme de volta, como era discutido na época.

Em 2010, Van Damme acabou se envolvendo num projeto pessoal, THE EAGLE PATH, ou FULL LOVE, ou seja lá o título que você tenha ouvido falar. Filme que há mais de uma década espera para ver a luz do dia. Escrito, dirigido e estrelado pelo próprio Van Damme e nunca lançado. Acho que o sujeito quer ter o seu próprio THE OTHER SIDE OF THE WIND

Como nada disso vingou em termos de “retorno aos holofotes do cinema de ação”, a carreira do sujeito se resumiu em voltar a fazer filmes de ação de baixo orçamento. O que não tenho muito do que reclamar, tivemos bons filmes dessa safra, mas havia uma sensação muito clara de que Van Damme estava sendo desperdiçado, que poderia fazer mais e não fazia. Personagens pelos quais o drama não era forte o suficiente para mostrar o quão bom Van Damme poderia ser.

Mais algumas falsas auroras aconteceram. Estamos em 2012 e OS MERCENÁRIOS 2 trouxe Van Damme de volta à relevância cultural pop. Ele rouba a cena num filme recheado de ícones do cinema de ação, como o vilão Jean Vilain, mas que no fim das contas acabou não fazendo muita diferença em seus trabalhos subsequentes. Filmes como 6 BULLETS e SWELTER definitivamente não são o tipo de veículos renascentistas que Van Damme merecia.

Tivemos a série JEAN-CLAUDE VAN JOHNSON em 2016, que eu acabei não vendo, mas sei que era outro estudo auto-referente que dialogava com JCVD. A série não passou da primeira temporada, foi cancelada e logo depois, mais filmes de ação de baixo orçamento acumulando na filmografia do homem, como os péssimos KILL ‘EM ALL e BLACK WATER

2018 teve LUKAS, também conhecido como THE BOUNCER, um retorno de Van Damme à sua querida Bélgica, num filme que mesclava boas sequências de ação, certo valor artísitico, com uma entrega dramática mais pesada. Um belo filme que, infelizmente, foi pouco visto, mas que poderia representar alguma mudança na carreira do homem. Seu filme seguinte, WE DIE YOUNG, eu ainda não vi, mas parece ser outro filmeco de ação de baixo orçamento. Então, voltamos à estaca zero.

Enfim, chegamos no momento atual. Ser produzido por streamings é uma via na qual muitas figuras em declínio tem se redescoberto, onde muitos heróis de ação do passado podem ser melhor servidos, onde um público mais amplo os aguarda. E agora Van Damme vai aproveitar disso com O ÚLTIMO MERCENÁRIO. A julgar pelo trailer, tem o tipo de valor de produção que ele não obteria no padrão DTV atual. Filmado em sua língua nativa, o filme parece ter o equilíbrio certo entre ação, comédia, nostalgia e auto-referência. Exatamente o tipo de filme que Van Damme deveria ter feito depois de JCVD. Antes tarde do que nunca.

Mas O ÚLTIMO MERCENÁRIO vai ser o ressurgimento de Van Damme? Se a audiência comparecer e o filme for sucesso, talvez ele faça mais alguns filmes com a Netflix, talvez até com mais oportunidades de mostrar que se tornou o ator talentoso que é. Mas, querem saber? Acho que a essa altura da careira dele, pouco importa. Eu mesmo não me importo. Claro, seria bom vê-lo tendo destaque novamente em filmes de ação de grandes estúdios, mas a gente sabe que daqui a pouco ele volta a fazer pequenos filmes de ação. Ou talvez se arrisque em mais uma produção ousada com esperança de renascimento. Mas o resultado é sempre o mesmo: o que temos é uma das figuras mais interessantes da história do cinema de ação, com uma das filmografias mais malucas, cheias de altos e baixos e tentativas frustradas em busca de algo melhor. Mas que renderam por si só grandes obras.

O que importa mesmo é que O ULTIMO MERCENÁRIO vem aí e eu vou ser o “primeiro da fila” a conferir.

AVISEM OS PROFESSORES: O VINGADOR TÓXICO É UM FILME CULT

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por Gabriel Lisboa

Nos tempos em que era comum ainda andar pelas prateleiras de uma locadora para procurar o que assistir, só olhando pelas capas, eles estavam lá. Muitas vezes fora do seu habitat mais adequado e já que você nunca tinha ouvido falar acabava achando que era só um filme estranho. Não sei se foi o canal do Telecine que tornou o termo mais comum, já que antes de se tornar “Cult”, o espaço reservado para os filmes mais antigos e alternativos na TV paga era chamado de Classic. O que ainda acontece é encontrar nas locadoras, uma prateleira de filmes cult, com 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO (68) vizinho de AMÉLIE POULAIN (01). Alguns dizem que filme cult é um filme alternativo, fora do circuito comercial dos grandes cinemas. Acabam classificando filmes não hollywoodianos automaticamente como cult. Tem gente ainda, que diz que o cult é um filme inteligente, que ganha áurea de intelectual. Aí todo mundo sai perdendo. Procurei por algumas explicações para o termo em alguns sites e blogs brasileiros só para ter certeza de como ainda se bate nas mesmas teclas (Godard e Truffaut, cults por excelência)[1]. Continue lendo

JOE D’AMATO, UM DIRETOR COM COLHÕES

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Não se pode exigir qualidade de todas as produções do diretor italiano Joe D’Amato. Aliás, qualidade é algo que o sujeito não tem muito o costume de prezar mesmo. O que devia ser mais importante pra ele é a quantidade. Que digam os mais de 190 filmes no currículo. D’Amato, cujo nome verdadeiro era Aristide Massaccesi, filmava uns oito filmes por ano e às vezes mais de um ao mesmo tempo! Dentro desse amontoado de filmes, cuja direção era assinada com vários pseudônimos diferente, salva-se mesmo uns 20 filmes.

Mas então o cara era uma droga como diretor? Sim! Em muitos casos, o resultado de seu trabalho não era muito diferente de bosta de cavalo, então por que raios eu gosto do sujeito? Porque Joe D’Amato tinha o que muitos diretores não têm: colhões! Ele foi um dos cineastas mais ousados, corajosos e picaretas de seu tempo e toda e qualquer ideia, por mais perturbadora, iconoclasta, sádica e imoral que tivesse, era aproveitada em seus filmes.

Até aqui, este texto seria a introdução de uma análise que eu iria fazer de um dos seus petardos, o filme ROSSO SANGUE, aka ABSURD, aka ANTROPOPHAGUS 2, de 1982, mas resolvi deixar pra escrever mais tarde. Joe D’Amato vai ser figurinha constante no Dementia 13, seja com suas tralhas de baixa categoria, seja com seus filmes mais famosos.

Eis aí mais alguns motivos para gostar de Joe D’Amato:

• O canibal grego Nikos, interpretado por George Eastman, eleva seu nível de sadismo ao máximo na cena em que mastiga um feto em ANTROPOPHAGUS (1980).

• No mesmo filme, depois ter a barriga perfurada e as tripas colocadas pra fora, Nikos resolve nada mais nada menos que colocar tudo de volta pra dentro. Literalmente, o sujeito “se come”.

• D’Amatao dá uma aula de direção filmando uma autópsia extremamente realista no romance necrófilo BUIO OMEGA (1979).

• Cenas de Snuff Movies de EMANUELLE NA AMÉRICA (1977). Diz a lenda que D’Amato conseguiu imagens reais de snuff’s com mafiosos russos! Hahaha!

• Mistura de sexo explícito com terror e suspense em filmes como PORNÔ HOLOCAUSTO (1981), EMANUELLE NA AMÉRICA (1977) e EROTIC NIGHTS OF LIVING DEADS (1980).

• Realizou um dos filmes mais importantes do subgênero Nunsploitation (aqueles onde freiras sapecas são protagonistas), IMMAGINI DI UN CONVENTO (1979), com mais doses erotismo e atacando a igreja católica de todas as formas possíveis.

• Dirigiu Klaus Kinski em A MORTE SORRIU PARA O ASSASSINO (1973).

D’Amato morreu em 1999 em plena atividade e muitos outros momentos poderiam ser destacados, obviamente…