A PROVA DO LEÃO (1965)

O ator Cornel Wilde é um caso interessante. Talentoso pra caramba e desejando encontrar papéis mais interessantes em produções ousadas dentro de Hollywood, ele funda sua própria produtora em 1950 para ter mais liberdade. Depois disso, pra se tornar diretor foi um pulo, em 1955, com um filme chamado ÓDIO ENTRE IRMÃOS (Storm Fear).

Quando chegou à meia-idade e passou a se preocupar menos com seu status de astro é que a carreira de diretor de Wilde realmente decola na década de 60, com o que pode ser considerado uma trilogia sobre a natureza autodestrutiva dos homens. Primeiro explorada de forma primitiva em A PROVA DO LEÃO (The Naked Prey); de forma moderna no filmaço de guerra DESEMBARQUE SANGRENTO (Beach Red, 1967); e por último de forma alarmante na ficção científica pós-apocalíptica NO BLADE OF GRASS (1970).

A PROVA DO LEÃO, portanto, inicia esse ciclo e se revela uma verdadeira obra-prima do cinema de aventura do período. Embora sua trama evoque o grande clássico de caçada humana THE MOST DANGEROUS GAME (1932), sua estética e violência inédita e extrema para a época anunciam especialmente grandes obras futuras do gênero de sobrevivência, como WALKABOUT (1970), de Nicolas Roeg, e até CANNIBAL HOLOCAUST (1980), de Ruggero Deodato. E é bem óbvio que deve ter servido de inspiração pra filmes como APOCALYPTO (2007), de Mel Gibson, quase um remake mascarado deste aqui.

A PROVA DO LEÃO se baseia numa aventura real, vivida pelo lendário John Colter (que participou da mítica expedição de Lewis e Clark, uma das maiores desbravadas pelo território americano), mas ficou mais conhecido por ter sido capturado e fugido de uma tribo indígena, os Blackfoot. Depois de matarem seu companheiro, os índios o soltaram nu na floresta para persegui-lo, e uma semana depois, exausto e deixando vários cadáveres de Blackfoot pelo caminho, ele conseguiu retornar à civilização são e salvo, e a lenda de seu feito pôde se espalhar.

Cornel Wilde retoma esse argumento e o transpõe para a África, mais precisamente para a Rodésia (hoje Zimbábue), na era colonial. Cornel Wilde (cujo nome nunca é revelado, creditado apenas como “man“) guia um safári patrocinado por um ricaço amante da caça (Gert Van den Bergh) em busca de marfim. Desde o início, a tensão se instala com a atitude imbecil do caçador. Matando por prazer sádico (um diálogo destaca que ele mata elefantes mesmo que não tenham presas de marfim apenas pelo esporte), ele também demonstra um profundo desprezo pelos nativos ao se recusar a cumprir um ritual de oferenda ao chefe de uma tribo ao atravessar seu território, para a grande consternação do personagem de Wilde, que demonstra ser mais respeitoso.

Daí vem o castigo. Não demora muito, a tribo ofendida os ataca, captura e os leva para sua aldeia. Lá, diante de nossos olhos perplexos, desenrola-se uma sequência impressionante de barbárie, de sacrifícios humanos e torturas sádicas, onde os ocidentais pagam caro por seu desprezo inicial. Fico imaginando o público da época reagindo a essas cenas…

O único que não sofre a mesma fatalidade é o personagem de Wilde, que havia demonstrado respeito e acabam lhe reservando um destino completamente diferente. Despido e humilhado, ele é solto nu na savana. Lhe dão alguma distância de vantagem e, a partir daí, passa a ser perseguido por um bando de caçadores da tribo.

A PROVA DO LEÃO adota um estilo naturalista para ilustrar essa longa caçada humana que dura o restante do filme. Ao filmar em locações reais, foge da superficialidade das recriações em estúdio que eram comuns na época e, em vez disso, nos leva a uma savana aberta, sob um sol escaldante, onde a escassez de água se iguala à falta de lugares para se esconder. Esse visual oferece aos caçadores uma vantagem, não têm dificuldade em seguir os rastros de Wilde até porque, à princípio, ele se mantém à vista no horizonte, por mais distante que esteja.

Assim, temos uma sensação de perigo constante, um sentimento reforçado pela ausência de trilha sonora tradicional, exceto pelos cantos e ritmos tribais que percorrem todo o filme, sinônimo de ameaça iminente. Para sobreviver a esse desafio, Wilde terá que assimilar e aplicar a única regra que importa nesses lugares: a lei dos mais fortes. Durante toda a sua jornada somos bombardeados por várias imagens de arquivo mostrando confrontos de animais de uma brutalidade impressionante, enfatizando esse fato por meio de associação de ideias.

E Wilde luta. A perseguição é angustiante, e em vários momentos os confrontos sangrentos são inevitáveis. O diretor sempre ousa numa abordagem crua, enquanto o personagem encara seus caçadores e os mata, um a um, sem qualquer remorso, se banhando do sangue dos seus inimigos, ilustrando bem essa perda de humanidade e a predominância dos instintos básicos. Ainda estou impressionado com o quão A PROVA DO LEÃO é visceral nesse sentido e como deve ter sido o impacto no público da época.

Antigo campeão esportivo (que quase participou das Olimpíadas de 1936 na esgrima antes de desistir por um papel no teatro), Cornel Wilde, já com mais de cinquenta anos aqui, exibe uma forma física que nem nos meus 25 anos eu conseguia ter; tem aqui uma atuação muito expressiva e determinada, passando por todas as emoções em um filme que praticamente desprovido de diálogos na maior parte do tempo.

Essa lei do mais forte e a loucura dos homens ressurgem na última parte de A PROVA DO LEÃO com a aparição de traficantes de escravos, em mais uma sequência brutal. No entanto, Wilde deixa uma centelha de esperança nesse pico de violência por meio do relacionamento afetuoso entre ele e uma criança nativa que salvou, o que revela uma possibilidade de aproximação entre os povos, baseados não na força, mas na compreensão mútua.

Até então, Wilde evita completamente qualquer tipo de maniqueísmo. Coloca o herói e seus perseguidores em pé de igualdade em seus instintos de sobrevivência e motivações. Aqueles que não respeitaram as leis da natureza (os traficantes de escravos, o caçador racista) são mais estereotipados, enquanto os demais personagens são retratados de forma minimalista, existindo através de suas ações. E o respeito mútuo entre os oponentes ainda é evidente em uma breve saudação final, mostrando que o personagem de Wilde se mostrou digno do desafio mortal lançado a ele.

Eu já deveria ter assistido A PROVA DO LEÃO antes, mas agora que finalmente vi, só posso dizer que valeu a pena. É forte, ousado, retrata uma violência que é difícil de se deparar no cinema americano do período, além de ser um dos grandes filmes de aventura já feitos. Altamente recomendado.

Uma ideia sobre “A PROVA DO LEÃO (1965)

  1. Que “pérola” (re)descoberta. Confesso que desconhecia completamente o filme e o Cornel Wilde nunca reparei em sua carreira. Vou procurar.

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