HARDCORE nos apresenta a descida aos infernos de um homem que parte à procura da filha desaparecida, cuja trilha ele reencontra nos submundos de Los Angeles, mais precisamente no universo do cinema pornográfico. George C. Scott interpreta esse pai, Jake Van Dorn, totalmente desconectado de certas realidades e perdido em um mundo cuja existência não tinha o menor contato. Homem de negócios bem-sucedido, cauvinista e profundamente puritano, vivendo numa pequena cidade isolada do Michigan, ele se vê subitamente mergulhado em um mundo sórdido que abala todas as suas crenças e convicções. De olhar perdido, expressão fechada, e ocasionalmente usando camisas havaianas, o sujeito percorre as ruas de L.A. como um cão errante, completamente desorientado e movido por uma raiva interior crescente e cada vez mais incontrolável.
Filho de Grand Rapids, Michigan, e criado numa comunidade calvinista rígida, o diretor e roteirista Paul Schrader injeta muito de si nessa narrativa. A trajetória de Jake reflete um conflito interno, de um lado a fé e o moralismo herdados, de outro a descoberta de um mundo que sua religião condena, mas que se infiltra, de forma mais ou menos explícita, no cotidiano americano. O filme explora essa contradição sem maniqueísmo. Embora HARDCORE possa soar puritano à primeira vista, Schrader também critica o fanatismo religioso, mostrando seus adeptos como figuras imperfeitas e, por vezes, hipócritas.
O calvário de Jake é retratado com paralelos claros à provável jornada da filha: peep-shows, filmagens de pornôs baratos, bordéis e clubes de sadomasoquismo. O uso de luzes de néon e ambientes saturados em vermelho vivo reforça o choque entre a pureza que Jake acredita representar e o universo decadente no qual se vê obrigado a entrar. Schrader desenvolve uma relação de atração e repulsa com a liberação sexual, observando como a banalização do sexo o transformou em um negócio lucrativo e padronizado, onde mulheres são exploradas, mal pagas e dependentes da generosidade dos clientes para sobreviver. Ele tempera o drama com toques de humor, ironizando aspirantes a diretores de cinema cujos primeiros trabalhos consistem em pornôs vagabundos, filmados em quartos de motel, mas com pretensões “autoriais”. Numa das minhas sequências favoritas, Jake finge ser um diretor de filmes pornôs e realiza às pressas teste com jovens atores de filmes adultos para identificar o homem que contracenou com sua filha e passa de uma situação cômica, com Scott de peruca e bigode falso, pra um surto violento com uma luminária quebrando na cabeça do rapaz.
Destaco outras sequências (num filme cheio de boas cenas). Há, antes de tudo, aquela que considero a cena-chave da obra: o momento em que George C. Scott descobre o que aconteceu com sua filha. Sem aviso prévio ou pistas, o detetive decadente que ele contratou (um personagem delicioso, interpretado pelo genial Peter Boyle) o conduz a uma pequena sala de cinema lúgubre e lhe projeta o filme pornô no qual, cercada por dois homens, aparece sua filha desaparecida. É uma cena muito difícil, prolongada de maneira estranha, talvez para nos fazer sentir mais intensamente a angústia do personagem, e Scott se sai de forma brilhante. No limite de exagerar, caminhando sobre a corda bamba, ele é simplesmente perfeito, e culmina com seus gritos desesperados “Turn it off! Turn it off! Turn it off!”. Essa cena deveria ser exibida como exemplo em todas as boas escolas de interpretação.
O contraste entre personagens é fundamental. Além do detetive de Boyle, uma relação mais tensa e conflituosa, temos Nikki (Season Hubley), profissional do sexo, que funciona como contraponto ao rigorismo de Jake. Com Nikki há uma convivência mais amistosa. Ela também uma alma perdida, tentará guiar, ainda que um pouco, nosso protagonista em suas investigações. Nikki poderia ser um retrato do futuro da filha de Jake caso permaneça presa a esse universo. Há aqui alguns dos melhores diálogos que Schrader já escreveu, embates entre essa dupla improvável, o pai conservador e a jovem prostituta, numa troca franca sobre crenças, moralidade e redenção, carregada de poesia e verdade.
Sei que com o passar dos anos HARDCORE caiu um bocado no conceito de muita gente, não é esse filme subversivo que talvez cria-se uma expectativa. Mas passado esses anos todos, fazia uns 15 anos que não assistia, ainda acho um grande filme, conduzido com muita habilidade por Schrader, com aquela estética suja dos anos 70, belíssima fotografia do Michael Chapman, e com uma poderosa atuação de Scott. Mesmo tendo o desfecho que opta pela solução mais fácil, meio bizarra até, e que destoa da jornada até ali. E que mesmo assim guarda uma certa crueldade, como Jake abandonando a Nikki no meio da multidão. E aparentemente o personagem termina o filme sem uma redenção plena, sem grandes consequências da sua descida ao inferno… Ou será que teve? Não dá pra perceber muito desses fanáticos religiosos. E Schrader sabe bem disso.
Drama urbano, humano e espiritual, HARDCORE é ao mesmo tempo retrato de uma sociedade americana dividida entre a revolução sexual e a moral religiosa rígida, e um exercício cinematográfico que revela os paradoxos do próprio Schrader. Um filme indispensável para entender o diretor, mas também um retrato poderoso de uma América em que qualquer tipo de “valor”, até mesmo o puritanismo, foi engolido pela lógica do capitalismo.
Uma das primeiras lembranças que tenho de ROLLING THUNDER, e que já causaram um impacto imediato, não foi nem do filme em si. Foram as imagens que encontrei pela internet ao tomar conhecimento da existência dessa obra. Não lembro exatamente como isso aconteceu, mas me recordo nitidamente do que vi: esse sujeito com um gancho no lugar da mão, manuseando munição, preparando seu revólver. Era o tipo de imagem que dispensa legenda, contexto ou convencimento. Bastou isso. Eu soube, ali mesmo, naquele instante, que assistir a ROLLING THUNDER seria uma obrigação cinéfila.
Isso foi por volta de 2008. Eu já tinha o blog e cheguei até a escrever algumas linhas sobre minha primeira experiência com o filme. Naquela época, ROLLING THUNDER já havia sido redescoberto, em parte graças ao entusiasmo de Quentin Tarantino, mas também, e talvez principalmente, pela morte do diretor John Flynn, em 2007. Ao longo dos anos, voltei a ele algumas vezes, e recentemente fiz uma maratona completa da filmografia do Flynn. Hoje, é um daqueles filmes que fazem parte do meu imaginário pessoal de filmes favoritos, cuja grandeza só se torna mais evidente a cada revisão. É por isso que rever importa, para nunca esquecer exatamente por que amamos certos filmes. E ROLLING THUNDER ainda tem um sabor especial, o fato de ter sido injustamente esquecido logo após seu lançamento. Mesmo com sua redescoberta, ainda me pergunto se foi realmente visto pelos cinéfilos que se dispõem a olhar além dos lançamentos do momento. Fica aqui o lembrete, e a recomendação.
ROLLING THUNDER é um daqueles filmes emblemáticos da metade dos anos 70 que, direta ou indiretamente, encaram as cicatrizes deixadas pela Guerra do Vietnã. Está na mesma linhagem de obras como TAXI DRIVER (com o qual mantém uma conexão profunda), O FRANCO ATIRADOR, AMARGO REGRESSO e tantos outros títulos que traduzem, em diferentes tons, a ressaca moral e emocional de um país em frangalhos pós-Vietnã. Com roteiro originalmente escrito por Paul Schrader, depois bastante alterado e, em muitos aspectos, aprimorado por Heywood Gould, o filme caminha entre dois registros distintos: de um lado, um thriller seco, brutal, impregnado de vingança; do outro, um retrato melancólico de um tempo em que os Estados Unidos pareciam afundar num caos interior, tanto individual quanto coletivo.
A trama começa com um clima de falso otimismo. Ex-prisioneiros de guerra voltando para casa ao som de uma música sentimental. Entre eles, estão Charles Rane (William Devane) e Johnny Vohden (Tommy Lee Jones). Rane é o nosso protagonista, e logo se percebe que, por trás dos óculos escuros e da fachada de herói condecorado, há algo quebrado nele. O retorno ao lar é desconfortável, seu filho não o reconhece, e a esposa… Bom, vamos dizer que ela não esperou fielmente por ele. Um tal de Cliff (Lawrason Driscoll), que trabalha no departamento de polícia local, aparece para dar carona à família e, quando ela diz “Você se lembra do Cliff?”, o espectador já entende a situação.
A casa foi mantida exatamente como ele deixou, numa tentativa de facilitar sua readaptação. Mas o que era pra ser um gesto afetuoso acaba expondo o absurdo de tentar recriar uma realidade que já não existe mais. As coisas só pioram quando sua esposa confessa que está com Cliff e quer o divórcio. A atuação de Devane é um testemunho do talento desse ator subestimado: a confissão não provoca gritos nem desespero, apenas o silêncio e a frieza de Rane. Ele toma um gole de cerveja e diz que aquilo foi “um pouco demais” para ele.
Em outro momento, numa cena tensa e perturbadora, Cliff aparece na garagem para “conversar como homens civilizados” e até lhe oferece uma cerveja. Em vez de reagir com ódio, Rane deixa visivelmente desconfortável, não menciona a traição e em vez disso, fala sobre uma tortura específica que sofreu em Hanói. Ele entrega uma corda a Cliff e pede que a amarre em seus pulsos, atrás das costas. Rane então instrui: “puxe até ouvir os ossos estalarem.” Cliff puxa a corda, Rane revive Hanói em flashbacks. Cliff começa a suar, e Rane grita para que ele puxe mais. Cliff não aguenta e solta a corda. Rane diz que o segredo para suportar a tortura é aprender a “amar” a corda. As questões de Cliff em relação a situação deles, para Rane, é irrelevante.
A virada da trama acontece quando Devane recebe uma homenagem de uma loja local, um dólar de prata por cada dia que passou como prisioneiro, totalizando cerca de 2.500 dólares. É aí que um grupo de criminosos ineptos decide invadir sua casa para roubar o valor. A execução do plano é tão desastrosa quanto a ideia inicial: cinco homens para roubar uma quantia que mal rende 500 dólares para cada um… E para conseguir esse dinheiro, decidem torturar justamente um veterano resistente a torturas, que passou anos sofrendo nas mãos de vietcongs. A consequência é trágica, eles matam sua esposa e filho e ainda mutilam sua mão com um triturador de pia.
No hospital, a mão de Rane é substituída pelo tal gancho que ele afia até se tornar uma arma mortal. O mesmo gancho que me deixou hipnotizado antes mesmo de eu assistir ao filme.
Recuperado fisicamente, mas quebrado emocionalmente, o protagonista inicia uma caçada silenciosa aos responsáveis pelo massacre de sua família. Com todo o seu foco voltado para isso, ele traça um caminho brutal pelo Texas ao México, e o filme nos leva mais fundo na mente de Rane, agora completamente obcecado, deixando buracos de gancho nas mãos e outras partes mais íntimas de qualquer um que se coloca em seu caminho.
Rane conta com aliados nessa jornada, como uma mulher local chamada Linda Forchet (Linda Haynes), que se vê como uma espécie de fã de Rane. Aparentemente, a cidade tinha um programa onde mulheres locais usavam um broche de soldados que estavam no exterior; Linda usou o de Rane durante todo o tempo em que ele esteve no Vietnã. É uma personagem interessante que merece destaque. Carrega, ao mesmo tempo, a doçura da empatia e a melancolia da solidão. Ao se aproximar de Rane, um herói torturado que ela admira de longe desde os tempos de guerra, Linda busca pertencer a algo maior, talvez até resgatar a si mesma através da devoção a alguém mais ferido do que ela. Seu desejo de conexão se confunde com uma atração por essa dor masculina mal resolvida, típica da América pós-Vietnã. Ainda assim, ela nunca parece ingênua, mas compreende o abismo emocional de Rane, e mesmo sem saber exatamente como alcançá-lo, tenta ficar ao seu lado, como quem escolhe acompanhar um homem prestes a desaparecer de vez dentro de si.
Além de Linda, temos o já citado amigo vivido por Tommy Lee Jones, Sargento Johnny Vohden, que esteve no mesmo campo de prisioneiros que Rane. Em determinado momento, o protagonista vai até Vohden e diz que encontrou os culpados pelas mortes da esposa e filho. O diálogo minimalista entre eles revela a conexão entre dois veteranos destruídos por dentro. Palavras secas que ecoam o conceito central de Schrader/Gould: o cinema pode (e deve) ter um efeito transcendental, tanto sobre os personagens quanto sobre o espectador. Não se trata de encher cenas com palavras, mas de deixar que olhares, gestos e silêncios falem por si. Esse estilo de diálogo minimalista em ROLLING THUNDER é potente, ainda que imbuído de masculinidade estoica:
De certo modo, ROLLING THUNDER pode ser visto como o primo bastardo de Taxi Driver. Como o roteiro foi amplamente reescrito, Paul Schrader acabou reaproveitando muitas ideias daqui no filme de Scorsese. Mas enquanto a psicose crescente de Travis Bickle (Robert De Niro) em TAXI DRIVER é difícil de decifrar, a descida do Major Rane à loucura é mais direta e visível. Sabemos que Rane está quebrado por dentro após anos de tortura como prisioneiro no Vietnã, e que, ao retornar, encontra uma vida civil à qual já não consegue mais pertencer. Até que a violência invade sua casa e o empurra para uma jornada de vingança. Com Travis, nunca temos clareza sobre o que, de fato, o consome, o que torna sua espiral ainda mais inquietante. Já ROLLING THUNDER carrega uma objetividade crua e urgente, talvez por ter sido feito para o circuito de drive-ins, um público marginal que, para o bem ou para o mal, espera sua dose explícita de loucura junto à violência. Em outras palavras, tem que fazer sentido, ou parecer que faz. Sutileza, nesse contexto, não costuma sobreviver a um engradado de cerveja barata.
No entanto, apesar de um filme é simples na forma, mais direto, não deixa também de ser profundamente denso em subtexto. Flynn filma essa descida ao inferno fazendo um retrato sombrio da América, onde a violência parece ser a única solução pra tudo. É uma das obras mais contundentes já feitas sobre o trauma pós-guerra, e talvez o melhor exemplar do tema dentro do cinema americano. Há uma tensão constante nas entrelinhas, personagens que expressam mais o silêncio do que nos diálogos, e uma sensação de desespero contido. Schrader teria dito que em seu roteiro original não havia esposa nem filho, o protagonista era apenas um homem desfeito pela guerra. Ele considerou que a família foi uma adição “comercial”, mas ironicamente são esses vínculos criados no roteiro de Gould que tornam a dor ainda mais palpável e crível, refletindo os dramas reais de muitos ex-combatentes.
Em certo ponto, o filme entra no território de Peckinpah ao levar Rane e Vohden a uma cidade de fronteira com o México cheia de néon, prostitutas e decadência. Cães do inferno caçando os assassinos da mulher e filho de Rane. Os bares estão repletos de gringos bêbados e tipos sujos, evocando os prostíbulos poeirentos e decadentes de TRAGAM-ME ALFREDO GARCIA. A catarse da violência em Flynn tem um tom quase operístico, embora mais direto que o balé sangrento dos filmes de Peckinpah ou o pesadelo alucinado do tiroteio final de TAXI DRIVER. Mas isso não torna o clímax explosivo de ROLLING THUNDER menos impactante. O tiroteiro final que Flynn filma é objetivo, austero, mas que se torna um estudo de ultra violência, onde o peso de cada tiro, cada bucho levando chumbo grosso, deixa um gosto amargo. Apesar de extremamente satisfatório.
Acho que a força de ROLLING THUNDER, especialmente no clímax, é melhor resumida por uma troca de palavras entre uma prostituta mexicana e Vohden. Enquanto ela tira a roupa, ele se prepara num quarto imundo para o massacre planejado por Rane. Ela pergunta:
— “Que porra você tá fazendo?” — “Vou matar um monte de gente,” responde Vohden, encaixando a espingarda com um estalo seco.
Flynn desenvolve o filme em um ritmo lento e metódico, com cada camada de violência sendo introduzida à conta gotas na vida de Rane, tudo antes do grande evento em que sua esposa e filho são mortos, roubando-lhe qualquer chance de recomeço. Ele perdeu sua família para a guerra, perdeu anos de vida para a guerra, agora retorna carregando cicatrizes psicológicas e físicas imensas, apenas para encontrar um mundo que ainda não terminou de chutá-lo, jogando-o ao chão mais uma vez e deixando este homem sem alma sem qualquer luz orientadora restante, exceto a violência.
E há uma frieza na violência de ROLLING THUNDER. Por mais empolgante que seja, e a entrega de Tommy Lee Jones nessas falas citadas é eletrizante em um sentido animalesco e masculinamente bruto, o filme exemplifica como esses homens foram moldados como assassinos puros. São como armas que falam, quase incapazes de verbalizar qualquer coisa em suas vidas diárias, enxergando apenas missões, combates e lealdade entre irmãos de armas.
À medida que Rane enfrenta seus próprios problemas, sua comunicação com Johnny revela que o amigo passou por muito do mesmo, com dificuldades para se readaptar e um comportamento frio e distante que só piora a situação. Quando Rane vai até a casa de Johnny para pedir ajuda em sua vingança, tudo o que consegue dizer à família de Johnny é uma mentira sobre aonde estão indo e uma despedida ao pai de Johnny, ambos entregues de forma fria e trajando o uniforme do Exército. Esses homens não tiveram sequer tempo para se “desligar” por anos, sempre usando o uniforme, literal ou figurativamente, e, quando finalmente têm a chance de vestir novamente para lutar, é impossível resistir. Se algum dia deixaram de ser assassinos, agora têm a chance de voltar a ser.
Mas, no mundo de ROLLING THUNDER, esses homens apenas removem suas máscaras de “homens de família ajustados” para revelarem novamente suas verdadeiras naturezas. Seu país e seus inimigos os transformaram nisso; agora, eles canalizam seu treinamento a serviço de uma vingança justa contra um inimigo cruel e indiferente. É frio e brutal, mas ao mesmo tempo empolgante e eletrizante, com cada ato de violência no filme trazendo um peso a mais que realmente impacta. Estes são os homens que o mundo violento criou. Estes são os homens que foram devolvidos à sociedade e mandados agir “normalmente” enquanto suas mentes ainda estão em chamas.
No Brasil, foi lançado como A OUTRA FACE DA VIOLÊNCIA.
O ÚLTIMO BRILHO DO CREPÚSCULO (Twilight’s Last Gleaming, 1977) O próprio Aldrich considerava isso aqui um de seus trabalhos favoritos, apesar do fracasso comercial, provavelmente porque o sujeito não media esforços para refletir todo o desencanto que assombrava a sociedade americana, com um climão político extremamente pessimista. O filme se passa ao longo de um dia, quando um general idealista (Burt Lancaster) assume o controle de uma base de mísseis nucleares e chantageia o presidente dos EUA, interpretado por um fenomenal Charles Durning, para revelar ao povo americano as mentiras do governo sobre o envolvimento dos EUA no Vietnã. O que se segue são 146 minutos de uma aula de tensão implacável do início ao fim, com um domínio preciso de Aldrich, fazendo um uso excepcional de split-screen, e com um elenco afiado que inclui Richard Widmark, Paul Winfield, Burt Young, Melvyn Douglas, Joseph Cotten e uma participação pequena, mas intensa, do grande William Smith.
THE CHOIRBOYS (1977) É meio que o M.A.S.H. do Aldrich, com estrutura de esquetes e sem uma trama tão definida, só que acompanhando policiais no seu trabalho diário em situações, digamos, cômicas, e por isso talvez um precursor dos LOUCADEMIA DE POLÍCIA. Só não digo que é o pai desses filmes, porque tá mais pro tio reacionário do churrasco… Mas é um filme que era ofensivo num período que o público entendia a ironia da coisa, da sátira e da crítica da sociedade que o filme faz. A sorte é que hoje continua sendo um trabalho pouco visto e conhecido do Aldrich, se fosse descoberto por um certo público cinéfilo de redes sociais, formado quase predominantemente por jegues, seria taxado de um monte de coisa (um filme homofóbico, misógino, racista, etc). Pelo gênero em si, nem acho o filme exatamente engraçado, ele é mais curioso, gera um certo fascínio pelo absurdo e pelas viradas mais trágicas que acontecem lá pro final. Mas é um filmaço.
O RABINO E O PISTOLEIRO (The Frisco Kid, 1979) O penúltimo filme de Aldrich é um buddy movie de comédia e faroeste com boa química entre Gene Wilder e Harrison Ford e um ou outro momento engraçado. O rabino Avram (Wilder) chega à Filadélfia vindo da Polônia a caminho de São Francisco, onde será o novo rabino de uma congregação. Inocente e inexperiente, é enganado por golpistas. É acolhido por um estranho, Tommy (Ford), que é um ladrão de bancos, e acabam tendo muitas aventuras durante a jornada. Pela trama até poderia render algo melhor, mas o filme não ajuda muito… Longo, enfadonho, a maioria das piadas e situações não tem lá muita graça. Só não vou dizer que o Aldrich tava cansado em final de carreira porque ele ainda lançou um petardo daqueles como canto de cisne, que é o GAROTAS DURAS NA QUEDA aí embaixo. Por aqui, não sei realmente dizer o que aconteceu, mas o resultado tá bem abaixo do esperado…
GAROTAS DURAS NA QUEDA (…All the Marbles, 1981) Um dos meus favoritos do diretor, um de seus trabalhos mais bonitos. Road movie que acompanha Peter Falk como Harry, o empresário de uma dupla de atletas de “luta livre”, Iris (Vicki Frederick) e Molly (Laurene Landon), enquanto viajam pelos Estados Unidos tentando ganhar a vida. Uma dureza danada, um universo de violência, amoral, sujo e de chantagens, mas que Aldrich consegue extrair uma ternura absurda, uma riqueza de espírito que jorra da tela. O papel de Harry foi originalmente escrito para Paul Newman, mas acho que o sujeito não teria se adequado tão bem quanto Falk, cujo ar de desleixo e presença física o torna perfeito. Como muitos dos personagens mais interessantes de Falk, Harry é moralmente nebuloso e nem sempre encontra o equilíbrio entre ajudar sua equipe e explorá-la. Mas apesar de suas ocasionais falhas éticas, o coração de Harry está no lugar certo, e ele e Iris e Molly compartilham um dos relacionamentos mais bonitos que já vi. Alguns dos melhores momentos ocorrem no carro velho e precário de Harry, enquanto os três planejam o que vão comer, quanto cigarro ainda falta, possíveis jogadas de marketing, truques, e sonham por uma vida melhor que não seja uma extensão do ringue, onde levam cacetadas o tempo todo… Foi o último filme de Aldrich (ele já tava planejando uma continuação deste aqui). Deu tempo de deixar mais uma obra-prima.
O ÚLTIMO PÔR DO SOL (The Last Sunset, 1961) Talvez seja o primeiro (e único?) filme hawksiano do Aldrich. Temos um grande rebanho sendo transportado, dois homens divididos pela mesma mulher… Só faltou o companheirismo masculino, que aqui dá lugar às figuras habituais de Aldrich, homens incapazes de conviverem no mesmo espaço por muito tempo e cuja sobrevivência depende da morte do outro. É também um misto de western com tragédia grega: o enredo é simples, as motivações humanas básicas, Kirk Douglas é o pistoleiro solitário numa jornada pela mulher que amou em outros tempos, espiritualmente atormentado, que se veste de preto e filosofa poeticamente sobre a vida. O filme introduz, possivelmente pela primeira vez em um faroeste, a sugestão de incesto, com a culpa resultante levando a algo que é virtualmente um suicídio. O roteiro de Dalton Trumbo é bom, pena que é dirigido de maneira um tanto pesada pelo Aldrich, que tenta voltar às raízes depois dos fracassos que teve na Europa. Mas O ÚLTIMO PÔR DO SOL não deixa de ser bacana, tem uma série de momentos excelentes, grandes atuações de Hudson, Dorothy Malone, Joseph Cotten e Carol Lynley… Mas obviamente que o grande destaque é Kirk Douglas, que canta Cucurrucucú Paloma em espanhol, que é desses momentos que torna um filme menor como este aqui em algo sublime.
SODOMA E GOMORRA (Sodom and Gomorrah, 1962) Lot (Stuart Granger) conduz seu povo para um vale fértil adjacente às cidades de Sodoma e Gomorra, locais de vício e corrupção governados pela impiedosa Rainha Bera (Anouk Aimée). Quando Lot ordena que uma represa seja rompida para evitar a destruição das cidades pelos atacantes helamitas, a rainha, em gratidão, permite que o povo de Lot se estabeleça em Sodoma. No entanto, em breve, o verniz da civilização começa a desmoronar à medida que Lot e os hebreus são corrompidos pelos sodomitas.
Fico imaginando se tivessem esperado uns 10 anos pra filmar, se o Aldrich não teria transformado isso aqui numa autêntica Sodoma e Gomorra, com imagens mais torpes e fesceninas… Claro, os filmes épicos já tinham saído de moda nos anos 70, mas quem sabe? Para um filme de 62, no entanto, ainda dá pra chamar de exploitation bíblico: temos uma belíssima sequência de batalha sangrenta, cenas de tortura, insinuações de incesto, homossexualidade, e a famosa passagem da destruição das duas cidades vinda dos céus, dignas dos melhores disaster movies, e que teve direção de segunda unidade de ninguém menos que o maior de todos: Sergio Leone. Tudo isso acaba fazendo valer o filme, mesmo com a longa e desnecessária duração, com vários momentos que eu não sentiria falta se tivessem dado uma enxugada no corte final…
O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962) Duas envelhecidas atrizes de cinema vivem como reclusas em uma casa de Hollywood. Jane Hudson, uma bem-sucedida estrela infantil, cuida de sua irmã paralítica Blanche, cuja carreira, nos últimos anos, eclipsou a de Jane. Agora, as duas vivem juntas, com seu relacionamento afetado por pensamentos subconscientes de inveja mútua, ódio, vingança e loucura. E colocar Bette Davis e Joan Crawford, que se odiavam fora das telas, para se odiarem também na frente das câmeras, foi uma dessas sacadas lendárias que fez esse pequeno horror psicológico do Aldrich se tornar o monumento que é. Mas foi também uma maneira das duas atrizes se manterem relativamente relevantes em Hollywood, onde já estavam se tornado figuras esquecidas. Especialmente Davis satiriza de maneira mais feroz e brilhante, não apenas sua própria persona, mas o favoritismo ao culto à juventude.
O filme fez bem para as carreiras de ambas naquele momento, Davis inclusive teve mais uma indicação ao Oscar com este trabalho, a sua décima primeira. Sua atuação, exagerada, insana e colossal é realmente a melhor coisa de um filme que já seria ótimo só pela forma como Aldrich conduz o que se passa aqui, um estudo de como deixar o espectador agoniado… É definitivamente um dos filmes mais tensos e nervosos que existe e eu revi roendo as unhas do início ao fim.
OS QUATRO HERÓIS DO TEXAS (4 for Texas, 1963) Com a diligência destruída, mas recheada com $100.000 em dinheiro e moedas de ouro, os passageiros rivais Zack Thomas (Frank Sinatra) e Joe Jarrett (Dean Martin) formam uma aliança instável depois de sobreviverem a uma emboscada do impiedoso bandido Matson e seus fora da lei. No entanto, na movimentada cidade de Galveston, Texas, as coisas estão prestes a tomar um rumo pior, já que ambos os rivais têm como objetivo administrar o mesmo cassino decadente à beira do rio. Não é dos melhores trabalhos que vamos encontrar na carreira do Aldrich. O ritmo é meio caído, o diretor não parece muito disposto em gastar muita energia nisso aqui (talvez por não ter se dado bem com o Sinatra)… Mas até que valeu a pena conhecer, em especial pelo elenco, impossível não se divertir com Frank e Dino no provável único filme que fizeram juntos que não são amigos na trama. Ursula Andress e Anita Ekberg são estonteantes e ainda temos Charles Bronson como bandido. Há até uma pequena sequência na qual os Três Patetas participam… Tá certo que o filme depende um pouco da aceitação do público pelo tipo de material que o Rat Pack produzia. Eu gosto, então tá bom pra mim. Como trabalho do Aldrich, até pode ser um filme menor, mas como um veículo pra dupla Frank & Dino, funciona.
COM A MALDADE NA ALMA (Hush… Hush, Sweet Charlotte, 1964) Uma senhora reclusa, atormentada por uma horripilante tragédia de família, mergulha na loucura após a chegada de uma parente que há muito não a via. O filme “irmão” de BABY JANE. Tem várias coisas similares em ambos, é outro thriller psicológico estrelado por duas atrizes mais experientes e reviravoltas que seguem o mesmo padrão… Mas se em BABY JANE era Bette Davis que brilhava – e aqui ela continua maravilhosa – quem rouba a cena desta vez é Olivia De Havilland, num papel cheio de nuances que escondem sua verdadeira face. Também é o filme mais violento de Aldrich até aquele momento que, para além do domínio da atmosfera do horror, da tensão, temos alguns momentos bem chocantes, com direito à mão de um jovem Bruce Dern sendo decepada por um cutelo de forma explícita na tela.
O VÔO DA PHOENIX (The Flight of the Phoenix, 1965) Uma aeronave de carga cai em uma tempestade de areia no Saara com alguns homens a bordo. Um dos passageiros é um projetista de aviões que tem a ideia de arrancar a asa não danificada e usá-la como base para uma aeronave de reposição que eles precisam construir antes que alimentos e água se esgotem.
Um dos filmes mais famosos do Aldrich, que não acho que seja dos seus melhores, apesar de ser sempre bom rever isso aqui. Desses filmes clássicos de desastre/sobrevivência, todo correto, bem feito, divertido e mais uma aula de Aldrich, com seu talento para retratar a violência das relações humanas, como faz na maioria de seus filmes. O truque aqui reside nos personagens, grupo de homens sujos, feios e moralmente questionáveis… Temos lutas por poder, discussões enlouquecidas, más decisões e, acima de tudo, a habitual descida à insanidade. Dava pra gastar um bom tempo analisando os personagens, mas destaco o piloto teimoso e pessimista de Stewart – uma das suas atuações que mais gosto – amargurado por não conseguir manter o avião no ar e muito determinado a contradizer a maioria dos planos sugeridos; o personagem do capitão do Exército de Peter Finch, relutante em abrir mão de sua posição de comando e seu entrave com um subordinado covarde; e o alemão misterioso (Kruger) que torna-se megalomaníaco quando percebe que seu plano mestre para a sobrevivência depende inteiramente dele – o que o torna o homem mais importante do grupo, mas cuja autoridade desperta em alguns lembranças de uma guerra não tão distante… E assim o filme avança para uma mistura cativante de luta pelo poder, conto episódico de sobrevivência e saga do triunfo do espírito humano. Sim, eu sei, é muita coisa pra lidar num único filme, especialmente sem cenas mais movimentadas de ação para animar as coisas. E reconheço que talvez falte um tempero especial por aqui do nosso amigo Aldrich. Já o vimos ser mais ousado, mais explosivo. No entanto, a ação reside inteiramente na interação dos personagens, e as performances desse elenco mantêm o filme divertido do início ao fim.
FOLHAS MORTAS (Autumn Leaves, 1956) A carreira de Aldrich possui algumas inserções, em meio a tantos filmes masculinos, de exemplares que exploram o universo feminino com protagonistas fortes. FOLHAS MORTAS foi o primeiro, um drama que começa como um estudo sobre solidão antes que a datilógrafa interpretada por Joan Crawford receba a proposta de casamento de um homem muito mais jovem (Cliff Robertson), desencadeando a segunda metade do filme impregnada de confusão edipiana e neuroses esquizofrênicas. Aldrich, com uma câmera inventiva, eleva um conto de desejo feminino a uma obsessão histérica e tensão hitchcockiana. Não é perfeito, acho que esse material renderia mais nas mãos de um Sam Fuller (sobretudo como as coisas se desenrolam no desfecho), mas é bom pra ver como Aldrich evoluiria em relação a esse universo feminino em filmes futuros. E as atuações de Crawford e Robertson são tão boas que até passo pano pra alguns detalhes…
MORTE SEM GLÓRIA (Attack, 1956) Eu nunca tinha visto, então estava esperando uma aventura de guerra escapista e divertida, como tantas outras do período, e o Aldrich vai lá e entrega um dos melhores e mais amargos manifestos anti-guerra produzido em Hollywood durante os anos 50, transcende até o drama de guerra convencional. Na verdade, acho que já dá pra perceber até aqui que nada em Aldrich é convencional, tudo é mais complexo e humano.
A produção não teve a habitual cooperação do exército dos EUA, que não gostou da representação de seus oficiais no filme, então Aldrich foi forçado a realizá-lo com um orçamento pequeno em pouco mais de um mês de filmagens. Acabou sendo uma lição pro diretor, ainda que tivesse que aprendê-la outras vezes, constantemente se vendo em conflito com algumas cabeças de estúdio que não gostavam dos temas que ele escolhia filmar. Ao londo da carreira, Aldrich encontraria a incompetência nos estúdios da mesma maneira que a retrata o exército americano em MORTE SEM GRÓRIA – guardando as devidas proporções – e sofreu por isso, perdendo sua própria companhia de produção em mais de uma ocasião. Mas continuou lutando e encontrou sucesso ao parecer seguir as regras enquanto na verdade as desmantelava – quer blockbuster popular mais ácido e cínico do que OS DOZE CONDENADOS? Seu ataque à complacência, incompetência e corrupção em MORTE SEM GRÓRIA é tão forte quanto o de Kubrick em GLÓRIA FEITA DE SANGUE e eu diria até mais afiado e menos sentimental. Um filme que diz tanto sobre o exército americano e a ineficiência da hierarquia militar quanto da própria visão desprezível do diretor em relação a figuras de autoridade. Vale destacar as atuações maravilhosas de Jack Palance – SPOILER expressivo até fazendo papel de cadáver FIM DO SPOILER – e Lee Marvin que consegue engolir o cenário nos poucos momentos que aparece. E tem algumas das cenas de batalhas mais violentas do período.
A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO (Ten Seconds to Hell, 1959) Um rascunho de OS DOZE CONDENADOS, com o conceito fatalista de “grupo de homens em missão” que depois seria expandido para o filme de 1967, com orçamento maior, astros mais famosos e mais ação… Mas Aldrich costumava ser o primeiro a descer a lenha em A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO, sobretudo na maneira como o retalharam no corte final, tirando mais de meia hora de uma introdução que daria mais sentido para os personagens agirem como agem. Muitos dos próprios admiradores de Aldrich admitem que é um trabalho falho. Nunca tinha assistido, só conhecia essa reputação desfavorável, mas apesar de não ser mesmo dos meus favoritos do diretor, achei excelente… Pode não cumprir a empolgação prometida no título, mas captura um lugar, um tempo, um estado de espírito com uma precisão quase documental, a Berlim pós-guerra, que era um terreno baldio de prédios destruídos por bombas, pobreza extrema, cidadãos desmoralizados e o mercado negro à todo vapor. E é nesse cenário que Aldrich traz à vida um melodrama existencial sombrio que fascina em vários níveis, desde o contraste nos estilos de atuação entre Jack Palance e Jeff Chandler (que estão geniais) até a excelente cinematografia em preto e branco de Ernest Laszlo. As sequências dos desarmamentos de bombas são verdadeiras aulas de tensão.
COLINAS DA IRA (The Angry Hills, 1959) Das poucas coisas que salva por aqui, é uma ceninha em que Mitchum e mais um sujeito vão para um bar na Grécia e assistem a uma dançarina exótica de topless. Isso mesmo, em 1959 temos um filme do Aldrich, estrelado pelo Mitchum, com uma mulher de seios à mostra… Cheguei a fazer um post por aqui de tão surpreso que fiquei na época que assisti pela primeira vez. Depois fiquei sabendo que o Aldrich nem filmou a cena, mas o produtor Raymond Stross. A cena foi incluída apenas em algumas versões. Provável que na época nem tenham visto a moça de topless… Na verdade, havia muito pouco que Aldrich gostava em COLINAS DA IRA. Ele teve sérios conflitos com a Columbia Pictures por causa de um trabalho anterior, THE GARMENT JUNGLE, no qual fora demitido e substituído por Vincent Sherman, que recebeu o crédito de direção. Isso levou Aldrich a buscar uma maior liberdade artística na Inglaterra, onde fez o belo thriller de desarmamento de bombas que comentei acima. E logo depois iniciou essa nova empreitada, um thriller de espionagem em tempos de guerra, baseado num romance de Leon Uris, ambientado entre partisans gregos e informantes da Gestapo. Parecia um projeto ideal para Aldrich e também tinha o que parecia ser o herói perfeito nos moldes do diretor, o maior ator de todos os tempo, Robert Mitchum.
Mas no fim, o que prometia ser um exemplar emocionante, acabou resultando em algo enfadonho, com uma trama cheia de escolhas erradas, triângulos amorosos aborrecidos e um final totalmente insatisfatório… Há pouca coisa pra se aproveitar nessa aventura. Óbvio que os seios da dançarina exótica, como já disse, é um destaque e que surpreende não pela nudez em si, mas por ser quase um ato simbólico de ousadia e subversão pro tipo de produto de estúdio que é COLINAS DA IRA. Pena que foi logo no pior filme do Aldrich que vi até agora.
Desde que comecei a ver masalas, especialmente os feitos no cinema telugu, eu me acostumei com heróis invencíveis, com habilidades inacreditáveis, enfrentando inimigos que, em boa parte, são tão desafiadores quanto os minions de um vilão de tokusatsu. Mas esses filmes também tem um senso moral muito esquisito, frequentemente misóginos e esses mesmos heróis também costumam apresentar traços bem tóxicos. E é totalmente o caso desse filme aqui. Aliás, é facilmente o mais problemático que vi de Tollywood.
Em RAVANASURA, filme deste ano, 2023, dirigido por Sudheer Varma, baseado no filme bengali VINCI DAS, e estrelando o “Mass Maharaja” Ravi Teja – também pode ser visto nos divertidos WALTAIR VEERAYA e DHAMAKA, que podem ser conferidos na Netflix – que aqui vive Ravindra, um advogado júnior atabalhoado que trabalha no escritório de uma respeitada advogada, Kanaka Mahalakshmi (Faria Abdullah), que fora sua namorada na faculdade. Após a prisão de um figurão da indústria farmacêutica (Sampath Raj), a filha deste, Harika (Megha Akash) decide buscar o escritório da advogada para provar sua inocência, que nega o caso. Mas Ravindra, porém, se apaixona à primeira vista pela moça e decide ajudá-la a limpar a barra do pai, mesmo com todas as evidências apontando para uma clara condenação do réu. Mas talvez Ravindra não seja o bufão que aparenta ser a princípio, e sabe mais sobre o ocorrido do que pode parecer a princípio.
RAVANASURA segue os moldes tradicionais desse tipo de filme: tem dança, drama, comédia, ação, um pouco de romance. Mas o que torna este aqui um exemplar particularmente fascinante é que, bicho, quando quer, o filme é mau. Muito, MUITO mau. Pra quem já viu um punhado de clássicos exploitation, a violência e o uso do sexo em RAVANASURA é até bem baunilha, não tem, por exemplo, nenhuma nudez. Mas não deixa de ser chocante que o cinema popular de algum país vá tão longe em coisas tão tabus em 2023. Mas se eu disser que essa crueldade do filme não é uma das coisas que mais me encantaram eu estaria sendo hipócrita. Por mais canhestro que seja, RAVANASURA também é um filme muito, mas muito intrigante.
O personagem do Ravi Teja – que, cabe dizer, está em estado de graça – é um dos mais brutais que vejo em anos. Ao acompanhar sua jornada eu me lembrava de figuras como o Tomás Milian em ALMOST HUMAN, um sujeito capaz dos atos mais baixos, só que com o intelecto do Diabolik do filme do Mario Bava. Não posso deixar de mencionar que a trama pega elementos da franquia MISSÃO: IMPOSSÍVEL para usar na parte policial, com máscaras, identidades forjadas, e ainda culmina com uma set piece que é roubada do JOHN WICK: PARABELLUM. Mas poxa, se é pra copiar, copie dos melhores mesmo.
É uma pena que o filme tenha um dos roteiros mais frouxos que já vi. Tem reviravoltas ótimas, vários puxões de tapete, mas a quantidade de inconsistências, de coincidências, é absurda, e olha que eu sou um baita fã do Boyapati Srinu, dos celerados VINAYA VIDHEYA RAMA – que pode ser visto no Prime Video – e AKHANDA. Como eu imaginava, em algum momento o filme vai tentar limpar a barra do protagonista com seu backstory, mas francamente, essa tentativa de higienizá-lo é inútil, porque ele já perdeu a simpatia de boa parte do seu público quase uma hora antes – diga-se de passagem, RAVANASURA foi fracasso de público e crítica nas bandas de lá. Teria sido inclusive mais congruente se o filme levasse a radicalidade das suas ações até o final, sem quaisquer justificativas pros seus maiores excessos.
Algumas atuações também deixam a desejar. Por exemplo Sushanth, que interpreta o Saketh, um dos personagens mais importantes pro desenrolar da trama, deixa a peteca cair em alguns momentos, e os personagens secundários como um todo são mais uma vez jogados pra escanteio pro foco ser todo no Teja, que inclusive produziu essa insânia. O promissor personagem do policial que investiga o crime, Jairam Singh (Javaram), também rende menos do que merecia. Parece-me que o ego desses grandes astros acaba impedindo que o mundo construído ao redor de si consiga se desenvolver independente dos mesmos. As mulheres, então, nem se fala, parece até que o diretor Sudheer Varma – ou talvez os roteiristas da versão original, não o assisti para saber -, que também escreve o roteiro, se baseou em algum fórum redpill do 4chan. Ele inclui no filme uma subtrama envolvendo uma namorada do Ravindra e a mulher só tá ali pra ser bonita e usada de refém. Ela não tem qualquer backstory, personalidade. Mesmo a advogada Kanaka também será abandonada no decorrer do plot depois de uma revelação chocante.
Mas a elas não cabe o destino mais cruel. Eu não quero entrar em detalhes aqui pra não estragar o filme, mas como disse antes, eu pensei que nunca veria um astro fazer certas coisas que o “Marajá das Massas” (Marajá do Campari?) faz aqui. Por um lado, o personagem se torna particularmente rico, especialmente levando em conta os tempos em que vivemos. Eu também tinha lido no Letterboxd comentários sobre como o filme retrata violência sexual, e consigo entender porque tanta gente rejeitou o filme, ele realmente pode dar gatilhos em algumas pessoas. Contudo, não dá pra negar que o filme também é, à sua maneira, um filme político. A questão da indústria farmacêutica na Índia, das relações escusas dessa elite com políticos, policiais e até mesmo o crime para permitir a comercialização de remédios que são proibidos em países desenvolvidos aparece aqui, e podemos perceber que existe muito mais em comum entre o Brasil e a Índia do que pode parecer a princípio. O filme em algum momento faz alusão ao CORINGA de 2019, do Todd Phillips, mas de boa, aquele palhaço zé bunda incel não tá com absolutamente nada se comparado ao que o Ravindra faz aqui. Claro que estamos falando de um filme popular feito parcialmente sob a inspiração da mitologia hindu, a mesma que é propagada por Narendra Modi, o atual primeiro-ministro indiano de extrema-direita. É bem legal ver a utilização de Ravana*, um dos mais notórios personagens da Ramayana, livro canônico do hinduísmo, como um vingador amoral, em uma espécie de guerra sagrada contra a burguesia.
É muito curioso que este que é um dos filmes mais sangue ruim do ano não sofra do mal contemporâneo dos filmes pensados menos como cinema e mais como conteúdo. Todo mundo envolvido tá claramente dando o seu máximo. A trilha sonora várias vezes me remeteu a fragmentos de trilhas de faroestes spaghetti, com uma música tema realmente vibrante. Os números musicais também são bons, e todos inseridos de maneira orgânica na trama, que é sempre mais interessante do que quando, do nada, o filme sai de Mumbai, Tamil Nadu ou Telangana para a Austrália, Veneza ou Suíça. Visualmente, também, o filme é bem bonito, contando com Vijay Kartik Kannan na direção de fotografia, que trabalhou em DOCTOR (na Netflix) e JAILER (um dos maiores hits do momento em Kollywood) do Nelson Dilipkumar e pelas cenas interiores do ótimo KAATHUVAAKULA RENDU KAADHAL do ano passado. Os destaques ficam para o plano sequência na delegacia e a cena em que o Ravi Teja sai no braço com o Sushanth em um corredor. Essa cena, em específico, tem uma breve referência visual ao Ravana inserida no meio do confronto que fiquei muito feliz de ter reparado, depois de tantas outras que passaram batido por mim anteriormente.
Em suma, um filme feito para quem gosta de masalas, mas sente nostalgia pela bad vibe do cinema exploitation setentista, com tudo de fascinante e terrível que isso implica. Umberto Lenzi, quem diria, ainda vive.
P.S: Antes que me esqueça, o filme pode ser conferido no Prime Video e conta com legendas em português, o que é um milagre em se tratando do seu catálogo de filmes indianos.
*O nome do filme se traduz como “O Demônio Ravana”, personagem do épico hindu Ramayana, que tem dez cabeças.
Vi esse primeiro longa do diretor Stephen Hopkins. Quem? Pois é, uma pena que hoje em dia seja um nome pouco lembrado. O sujeito é desses diretores “pistoleiros de aluguel” – atira bem e não deixa muito rastro – e teve uma carreira até bem respeitada em Hollywood no final dos anos 80 e durante a década seguinte com um tipo de filme de orçamento médio que fazia relativo sucesso nos cinemas e nas locadoras – CONTAGEM REGRESSIVA (94), UMA JOGADA DO DESTINO (93), A SOMBRA E A ESCURIDÃO (96). Dirigiu também exemplares de franquias famosas como A HORA DO PESADELO 5 (89), PREDADOR 2 (90), fez a atualização da série sci-fi PERDIDOS NO ESPAÇO (98)… Nos anos 2000 e até hoje ele continua fazendo algumas coisas, mas meio que saiu dos radares.
Hopkins nasceu na Jamaica, mas passou boa parte da vida na Austrália. Foi lá que realizou A NOITE DA CRUELDADE. Um filme que faz bater certa curiosidade de como seria a carreira de um diretor como Hopkins se não tivesse sido engolido por Hollywood, tivesse continuado a fazer filminhos de gênero em seu país, pequenas joias como esta aqui.
Na trama, um policial meio surtado, psicótico, chamado Murphy (Steven Grives), começa a infernizar a vida de um estudante universitário, filho de seu ex-superior na corporação policial. Numa noite, quando o tal aluno e seus amigos, que se vestem como a banda A Flock of Seagulls, invadem o sistema de segurança de uma grande loja de departamentos e adentram no local, só por diversão, o policial decide assustá-los. Só que as coisas fogem do controle e dão muito errado…
Uma das coisas que eu realmente gosto em A NOITE DA CRUELDADE é como o policial psicopata é caracterizado. A maioria desses filmes já descamba pro slasher, assume que o personagem é maluco e, portanto, não terá remorso. A única coisa que lhe faz feliz é matar adolescentes aleatórios. O que é algo bom também, não estou dizendo que um jeito é melhor que outro. Mas, em contraste, Murphy é uma pessoa torturada e em conflito, o que torna isso aqui peculiar. E o bom desempenho de Grives ajuda muito a entender melhor o personagem. É um bocado exagerado nas expressões faciais, mas pro tipo de filme que temos aqui funciona bem.
A sequência que ele acidentalmente mata um garoto é um destaque. Podemos ver toda a sua vida desmoronar quando ele percebe o que fez. E a primeira reação é ligar pra polícia e relatar a cagada… Mas aí se dá conta de que, não importa o que diga, ele será o responsável pela morte e desliga sem falar nada. E o que acontece a partir daí é um jogo de gato e rato noite adentro pelos departamentos escuros dessa grande loja.
É evidente que sente-se a falta de algumas coisas, o filme se arrasta um pouco e os realizadores acabam não explorando tanto o material “explorativo” que tem em mãos. Enfim, não é um filme perfeito… No entanto, se você realmente conseguir se conectar e entrar na brincadeira, vai perceber que nem sempre um filme precisa de uma toneladas de peitos de fora ou alta contagem de corpos para manter o público interessado.
Na contagem:
Duas mortes Uma ceninha curtíssima de peitos Sem explosões Nenhuma sequências de sonho alucinante Sem tempestades relampejantes Nenhum ator que apareceu em Star Trek
Sabe aquela máxima que usamos quando relatamos uma história interessante que aconteceu e percebemos que o relato nunca vai ser suficiente pra deixar, seja lá quem for, tão fascinado quanto nós, que vivenciamos o fato? Dizemos algo do tipo: “Você tinha que estar lá pra ver“… O mesmo vale para filmes. Vocês simplesmente tinham que estar lá quando tal filme foi lançado nos cinemas, ou nas locadoras – antes que seu impacto fosse diluído pela repetição e imitação – para entender porquê aquele tal filme foi bem sucedido, ou foi um fenômeno, até hoje se fala dele, etc…
Isso tudo me remete ao caso de O FUGITIVO (The Fugitive), de Andrew Davis, que finalmente revi depois de mais de vinte anos…
Assistí-lo hoje pela primeira vez pode até dar a impressão de um filme banal e repetitivo, mas se vocês estiveram lá na época do lançamento, lembram que se tratou de um dos grandes acontecimentos do cinema blockbuster da primeira metade dos anos 90, com uma massiva campanha de marketing, cartazes e revistas estampando o Harrison Ford correndo de alguma coisa, e o trailer passando até na TV aberta… O FUGITIVO foi um enorme sucesso de bilheteria, foi bem elogiado pela crítica, teve o Tommy Lee Jones ganhando o Oscar de ator coadjuvante, e o próprio filme foi indicado para a categoria principal de Melhor Filme (perdeu para A LISTA DE SCHINDLER). O filme em si, apesar de não ter nada de original, foi um dos exemplares responsáveis por modelar a estética do thriller de ação dos anos 90, influenciando uma penca de filmes a partir dali. Então acho que dá pra ter uma noção do que foi O FUGITIVO. Do seu impacto. Mas “Você tinha que estar lá pra ver“…
A trama, acredito, todo mundo conhece. Até quem nunca viu. Baseado numa série de TV dos anos 60, temos uma trama meio Hitchcockiana sobre Richard Kimble (Ford), um médico que se vê fugindo da lei após o assassinato brutal de sua esposa, tentando provar sua inocência ao mesmo tempo em que precisa encontrar o real assassino. E como na série de TV, o público nunca duvida da inocência do sujeito ou mesmo de sua crença de que o verdadeiro perpetrador é um “homem de um braço”.
Kimble é o herói perfeito – combinando inteligência com notável resistência física e um toque de compaixão – e o fato de ser interpretado por Harrison Ford, ator que sempre teve o dom de causar o nível certo de empatia, para não mencionar um astro já alojado na cultura pop com personagens como Han Solo e Indiana Jones, ajuda muito. Então acabamos comprando a perfeição do bom Dr. Kimble sem muita dificuldade. E Ford tá realmente ótimo no papel.
Mas, como um bom filme de policial, um bom filme de perseguição, a coisa realmente prospera quando o herói tem a contraparte certa como desafio. Sam Gerard de Tommy Lee Jones, o US Marshall que passa o filme inteiro obstinado no rastro de Kimble, é um adversário digno, tão afiado e tão duro quanto sua presa. Talvez seja o indivíduo mais mais humano do filme, um homem dividido entre o dever e a crença pessoal. Jones é tão bom que (além de ter ganhado o Oscar, como já mencionei) o personagem chegou a assombrar sua carreira. Ele o reprisou oficialmente no filmaço US MARSHALS, de 1998, mas esse tipo de personalidade o seguiu durante muito tempo em filmes como MIB – HOMENS DE PRETO (97), o petardo de William Friedkin CAÇADO (03), que é quase um terceiro capítulo espiritual deste aqui, e já mais envelhecido em ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (07).
A relação que se estabelece entre Gerard e Kimble é bem mais interessante do que aquela entre Kimble e a figura do vilão real do filme (seja o homem de um braço ou o verdadeiro mandante que a trama revela), o que pode ser o motivo pelo qual o clímax do filme, a troca de socos entre herói e vilão permaneça menos na mente do que muitos dos momentos compartilhados entre Kimble e Gerard ao longo da caçada, como por exemplo a já clássica sequência dos túneis da represa, onde ocorre o primeiro contato dos dois e que culmina com Kimble se jogando de uma altura considerável…
“Ui, ui, mas era pra ele ter morrido na queda, ninguém sobrevive pulando de uma altura assim, blá, blá, blá”… O tipo de coisa que eu passei décadas ouvindo. Mas a minha resposta é sempre a mesma. Meu amigo, se você quiser realismo, eu posso indicar uns bons documentários.
Já elogiei por aqui no blog o trabalho do diretor Andrew Davis. Um sujeito que faz filme com Chuck Norris e dois dos melhores veículos de Steven Seagal merece sempre meu respeito. Aqui consegue se sair muito bem, demonstrando suas habilidade sob a batuta de um grande estúdio, onde tudo é super controlado e é difícil deixar alguma impressão pessoal. Mas o Davis nunca foi um diretor autoral, então tá em casa. De todo modo, Davis tava inspirado: tudo em O FUGITIVO é filmado e editado com uma intensidade para desgastar os nervos e aumentar o pulso. A câmera sempre se move, enfatizando a emoção da perseguição e as relações de poder entre a presa e o predador.
Sequências como a fuga de Kimble depois que o ônibus da prisão capota na floresta e vai parar em cima da linha do trem e o sujeito precisa pular pela janela um segundo antes de uma locomotiva acertar em cheio o veículo é praticamente uma aula de tensão… Dessas imagens do cinema de ação que permeia sempre meu imaginário do gênero nos anos 90.
Ainda assim, não acho que o grande trunfo de O FUGITIVO seja a ação, mas sim a força do seu elenco e a capacidade de contar uma boa história. Temos participação de figuras como Julianne Moore, Joe Pantoliano, Jeroen Krabbé, mas são mesmo os gigantes Harrison Ford e Tommy Lee Jones que definem as coisas por aqui por meio de puro carisma, atuando numa narrativa clássica que realmente funciona e que tem peso dramático e atenção aos detalhes. E que ao mesmo tempo entrega emoções.
O FUGITIVO não chega a ser nenhuma maravilha, mas é o tipo de filme que, apesar da influência no período, é cada vez mais raro de se encontrar nos dias de hoje… Uma produção grandiosa à sua maneira, mas não inchada de trocentas horas; um thriller inteligente e eficaz, embora com algumas conveniências de roteiro, mas de tirar o fôlego do início ao fim e que consegue atrair a atenção de um grande público, sem dar a impressão de que os realizadores pensam que o espectador é idiota. Em suma, um filmaço que valeu a pena rever, do tempo em que contar boas histórias era regra básica para se fazer um filme em Hollywood.
Fui assistir a esse filme pelo Michael Madsen, do qual sou grande admirador e acho um talento desperdiçado, mas acabei curtindo UMA CASA NA COLINA (A House in the Hills), pequeno thriller do diretor Ken Wiederhorn (já falo dele mais adiante), mais pela protagonista, Helen Slater.
Quando ela aparece na tela fiquei com a quela impressão na mente “onde já vi essa atriz?“. Fui ao google e pimba, é a Supergirl dos anos 80. Já tinha apagado da memória esse filme, mas quando eu era moleque nos anos 80, devo confessar que a Slater naquele collant azul, a mini saia vermelha, aquele cabelo esvoaçante, combatendo o crime com super poderes, já despertava algumas fantasias precoces…
Eu sei, eu sei, essa provavelmente não é a melhor maneira de começar um texto, sobretudo na época atual em que vivemos, mas eu acho que ainda posso olhar para uma atriz num filme e admirar sua beleza sem parecer um tarado, certo? É difícil, mas dá. Mas não vou transformar isso aqui numa defesa sobre o assunto. O cinema me faz olhar pra essas beldades, como a Helen Slater, num estado de fascinação e contemplação. Mas se você achar que eu sou machista ou sexista pelo fato de uma das razões de ver UMA CASA NA COLINA é a chance de assistir a Supergirl de topless na frente de um espelho por uns trinta segundos, você deve ser um homem melhor do que eu.
Foda-se, vamos ao filme. Slater interpreta uma atriz de Los Angeles que está cansada de trabalhar como garçonete para sobreviver. Com uma audição para o papel numa novela chegando, uma amiga oferece a ela a oportunidade de tomar conta da casa de um casal rico no fim de semana, pra que ela possa ter paz e sossego.
Só que ela não é informada de que um assassinato aconteceu na casa ao lado na noite anterior. E quando os donos da casa vão embora, eles acidentalmente levam a bolsa de Slater com eles, o que significa que ela tem que subir as escadas até o quarto e experimentar algumas de suas roupas… Ei, é um trecho crucial do enredo!
Enfim, o fim de semana da nossa protagonista dá uma guinada para pior quando ela deixa entrar um exterminador de cupins (Michael Madsen) apenas para descobrir que ele é um criminoso querendo, à princípio, extorquir dinheiro do casal rico (a coisa é bem mais complicada que isso). E como ela está vestida com roupas de madame, o sujeito pensa que ela é a dona da casa. Mas à medida que a história se desenrola entre bandido e refém, a situação começa a ficar um bocado romântica, é claro.
Não querendo dizer que a trama realmente melhora, mas para o meu gosto pessoal, que adora umas tralhas sem noção com cara de “Super Cine”, é preciso dizer que ao menos as coisas ficam mais intrigantes quando surge em cena um vizinho pedindo um vinho pra uma festinha. Na verdade, o sujeito se revela o serial killer que está degolando as madames ricas da região. E tudo fica ainda mais caótico quando o casal rico retorna pra casa, gerando uma confusão danada…
A atuação de Slater é bem boa, expressiva, e, como disse, acabei curtindo o filme por conta dela. Mas em termos de talento dramático, obviamente Michael Madsen é quem sabe das coisas. Digo que é um dos atores mais desperdiçados porque sua carreira nunca andou de acordo com o nível do seu talento. Foram os raros momentos em que esteve em produções que realmente lhe exigiam algo a mais (graças, na maior parte das vezes, ao Tarantino) e acabou relegado ao cinema B em centenas de filmes. O que pra mim é algo positivo, porque eu devoro esse tipo de material. Mas o cara merecia mais. É um dos grandes herdeiros do Robert Mitchum ao lado de Mickey Rourke e aqui, se não tem lá uma atuação digna de Oscar (e não tem mesmo), pelo menos ele demonstra bem porque é digno dessa herança Mitchuniana.
Como o filme é basicamente esses dois personagens e a relação que estabelecem nesse único ambiente, o resultado foi divertido de acompanhar.
Sobre o diretor, esse cara de nome estranho, Ken Wiederhorn, surgiu como um talento por trás de obras de terror e suspense como SHOCK WAVES (1977) e EYES OF A STRANGER (1981). Também dirigiu A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2. Enfim, tem uma filmografia curta, mas com algumas coisinhas bacanas… UMA CASA NA COLINA foi seu último longa e não é exatamente um canto de cisne pra se orgulhar. O filme não tem nada de espetacular. Longe disso. Não é tenso o suficiente, não tem atmosfera, o aspecto é de filme barato feito pra TV, não tem absolutamente nada de mais. Mas tem esses dois atores que eu gosto, tem a Supergirl de topless (e a bunda do Madsen, pra não me acusarem de nada, vou até colocar uma imagem abaixo), então tem pra todo mundo… E pra quem curte um thrillerzinho B, de curta duração, pra passar um tempinho, vale conhecer.
EXPOSED (Exponerad no idioma de origem) foi um dos filmes que lançou a atriz sueca Christina Lindberg como uma grande estrela do cinema de exploração, especialmente filmes eróticos, embora seu papel mais famoso viria a ser a moça caolha e vingativa no clássico THRILLER – A CRUEL PICTURE (1973).
Estamos aqui em 1971, quando a linha entre o cinema erótico e o filme de arte ainda era muito tênue, e EXPOSED tenta ser ambos. E consegue se sair bem tanto em um quanto em outro. O diretor é Gustav Wiklund, um ator finlandês que há algum tempo tentava sem sucesso sua primeira chance comandando atrás das câmeras. Até que chegou à conclusão de que a única maneira de conseguir era fazendo filme erótico, o tipo de filme que era altamente lucrativo na indústria sueca na época. A grande vantagem desses filmes era que, contanto que você incluísse a quantidade necessária de sexo e nudez, você poderia fazer praticamente o que quisesse. De experimentações visuais à subversões de gênero…
E o que Wiklund queria fazer era um thriller psicológico, com uma pegada mais artística, e é basicamente o que EXPOSED é. Na trama, Lena (Lindberg) é uma jovem que se envolve com um sujeito mais velho chamado Helge, que tira fotos dela nua, algo que ela nem tem objeções, mas que em algum momento ele ameaça chantageá-la com essas imagens. Lena também tem outro namoradinho, o jovem Jen, que não tá muito satisfeito com essa história.
Cansada dos dois homens, Lena resolve pegar a estrada e apanha carona com um casal bem desinibido. Ela os leva para a casa de campo de Jen, o que lhe causa mais problemas quando o rapaz aparece e os encontra todos bem à vontade, do jeito que vieram ao mundo. E a confusão continua, a partir daí, num triangulo de relações entre Lena, Jen e Helge…
O legal dessa história é que EXPOSED é um desses filmes que gosta de brincar com a narrativa e nem tudo o que estamos vendo pode estar realmente acontecendo no momento – e alguns dos eventos podem sequer ter acontecido. Assistimos ao filme pelos olhos de Lena, e ela é uma narradora não muito confiável. Então não podemos aceitar tudo o que vemos, às vezes são apenas memórias da moça ou produtos de sua imaginação… São coisas que permanecem enigmáticas.
Inclusive a própria índole desses personagens não fica lá bem definida. Especialmente Helge, que não é um mero vilão, e a natureza exata de seus sentimentos por Lena permanece incerta. Talvez ele a ame. Talvez ela o ame. Existem muitos tipos diferentes de amor, e nem todos são necessariamente saudáveis.
Os jogos sexuais que Lena faz com ele também são ambíguos – certamente ela é uma parceira disposta, mas isso não significa que esses jogos sejam bons. Não significa que são necessariamente ruins também. A sexualidade de Lena é algo que está em processo de exploração e ela pretende seguir esse caminho mesmo que a leve a alguns lugares sombrios. Quanto dessa exploração ocorre em sua própria mente e quanto ocorre na realidade são questões ficam em aberto.
O filme se beneficia muito pelas atuações. Christina Lindberg pode não ser a maior atriz do mundo, mas seu status de musa do exploitation europeu se justificou ao longo da carreira. É competente, e tem presença, o que às vezes é até mais importante no exploitation. É boa em projetar uma mistura de inocência e depravação, de vulnerabilidade e força. Outro ator que eu destacaria é o Heinz Hopf, que tá excelente como Helge, um pouco assustador, mas nunca exagerado.
Combinar arte e erotismo pode ser um ato de equilíbrio difícil. Um diretor menos talentoso acaba pesando a mão para um lado ou pro outro, mas EXPOSED é interessante nesse ponto, acho que tem o suficiente para satisfazer os fãs de grindhouse e art house. O primeiro provavelmente vai ficar satisfeito com a quantidade de tempo que Lindberg passa nua, enquanto o último deverá se deslumbrar com a câmera de Wiklund, os enquadramentos, a estética naturalista, além de encontrar um quebra-cabeça psicológico e existencial curioso para mantê-los satisfeitos também.
No meu caso, o interesse é sempre em ambos. E fiquei satisfeito. Como admirador do trabalho de Lindberg, acho que vale a pena conhecer outras coisas dela que vão além de THRILLER. Obviamente vai-se cair no terreno do cinema erótico europeu, que não costuma agradar todos os públicos, mas de vez em quando dá pra encontrar algumas preciosidades, como é o caso do diretor Wiklund, que eu não conhecia, e de EXPOSED, que não é nenhuma obra-prima, mas pra quem se interessa pelo gênero não vai perder seu tempo.
Daqueles filmes que fazem o indivíduo pensar duas vezes antes de pular a cerca. UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL (Body Chemistry) é o primeiro de uma série de quatro filmes picantes, thrillers eróticos que passavam na boa e velha sessão da Band, o Cine Privé, sobre tramas nas quais sujeitos impulsivos acabam entrando em enrascadas depois de cair na tentação por conta de um rabo de saia…
Na trama de UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL, temos o Dr. Tom Redding (Marc Singer), que é um pesquisador sexual, seja lá o que os roteiristas entendam no que isso signifique na prática. O filme mostra que seu dia de trabalho consiste em mostrar às pessoas clipes de filmes eróticos e analisa suas reações, o que pra trama não chega a ter nenhuma relevância narrativa. No entanto, Tom tem uma grande carreira, uma linda esposa (Mary Crosby), filho, e um melhor amigo (David Kagan) que é engraçado e lhe dá conselhos.
Mas tudo muda quando a empresa de pesquisa que Tom trabalha recebe um contrato da Dra. Claire Archer (Lisa Pescia), cujos estudos interessam os seus superiores. Que estudos? Não faço a menor ideia e o filme não faz questão alguma de abordar…
O que realmente acaba importando é que Tom não resiste aos charmes de Claire e inicia um caso tórrido com a mulher, que quer explorar alguns limites dos prazeres sexuais com o cara. Quando Tom tenta terminar a brincadeira, Claire não está pronta para desistir dele. No início, ela apenas liga para a casa do sujeito, envia pra ele uma caixa cheia com as lagostas podres que ela havia preparado pra ele, e até uma fita VHS deles fazendo sexo, cujo filho de Tom quase acaba assistindo… Mas não demora muito a coisa começa ficar realmente perigosa, pondo em risco a vida de todos os envolvidos (e até os não envolvidos).
Já deu pra perceber que a coisa é claramente projetada para ser uma cópia de ATRAÇÃO FATAL, dirigido por Adrian Lyne e estrelado por Michael Douglas. Para quem já viu esse clássico do gênero, UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL não vai ser nenhuma surpresa, mas não deixa de ser um thriller eficiente e muito bem conduzido pela diretora Kristine Peterson, que sempre arruma um jeito de prender a atenção do público. Pena que as cenas de nudez e sexo são escassas e as poucas que há não são filmadas com muita inspiração. Não é um filme que parece focar tanto nesse tipo de cena, apesar do gênero, mas nas consequências dos atos de infidelidade e na obsessão e angústia entre os personagens envolvidos…
A falta de boas cenas de sexo não chega a atrapalhar. Evidente que uma boa dose de cenas eróticas sempre fazem bem pra um filme como esse, mas tirando esse detalhe, o elenco é ótimo e a coisa se desenrola num bom ritmo. Quero dizer, não é muito difícil criar situações intrigantes a partir de um pai de família, “cidadão de bem”, que resolveu foder com sua vida ao pular a cerca. Sobretudo quando a mulher que lhe seduziu é uma sociopata tarada insaciável que vai fazer de tudo pra ter o que quer.
Com essa premissa, meus caros, é facinho se divertir com um filme como UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL.
Agora fiquei a fim de conferir aos outros filmes da série e comentar por aqui. Sei que tenho sido meio negligente com o blog nos últimos tempos, mas vou tentando voltar as atividades por aqui à medida em que vai sobrando tempo e disposição. E, claro, vocês podem ajudar a manter o recinto mais ativo, com MUITAS postagens. É só apoiar – se puderem/quiesrem – o blog no APOIA.SE ou até mesmo passando um PIX pararonaldperrone@gmail.com. Todas e quaisquer doações são aceitas, apreciadas e ajudarão a manter o blog atualizado com mais frequência. 🙂
John McNaughton, que até então era um cineasta visto com certa seriedade, surpreendeu, seja de forma positiva ou negativa, com GAROTAS SELVAGENS (Wild Things), produção que, a princípio, talvez fosse mais adequada para um “direto para vídeo” do que uma produção de Hollywood de orçamento razoavelmente alto (e as continuações de GAROTAS SELVAGENS dão uma boa noção do que o filme seria em circunstâncias normais). Por outro lado, os realizadores e o estúdio talvez tenham reconhecido que os elementos do cinema de exploração – intrigas vulgares, violência, sexo, nudez e garotas com preferências sexuais heterodoxas – poderiam dar ao filme uma nova qualidade, se realizado de modo correto.
O resultado é uma espécie de pastiche de neo-noir, com traminhas de crime e traição, personagens amorais, mas como se as fêmeas fatais do gênero pairassem sobre um capítulo de Malhação. GAROTAS SELVAGENS realmente tinha tudo pra ser muito ruim, mas é tão auto-consciente no que tá fazendo, além de safado e divertido, que fica difícil não resistir a essa pequena joia do final dos anos 90, que revi recentemente e continua um barato.
Ambientado na Flórida, somos apresentados ao professor Sam Lombardo (Matt Dillon), que é acusado de estuprar suas alunas, Kelly (Denise Richards) e Suzie (Neve Campbell), duas garotas er… selvagens. Você sabe que muita coisa ainda vai acontecer quando o assunto é encerrado no tribunal com menos de meia hora de filme, a deixa para que o vira-revira da história entre em ação com esse trio (e mais o policial vivido por Kevin Bacon). E também não adiantaria ficar aqui resumindo a trama, não porque vá estragar as várias surpresas e reviravoltas que o filme guarda (se é que alguém aí ainda não assistiu), mas porque, de uma forma ou de outra, a história não faz mesmo nenhum sentido… Haha!
O que vale a pena é acompanhar esses personagens inseridos em um contexto de sátira hiper-inflacionada dos elementos noir atualizados para a época. Os golpistas da trama são jovens de colégios, o dinheiro é absurdo de alto, o escândalo bem mais sensacionalista na sociedade e o sexo bem mais intenso. Um item que, aliás, chama a atenção pelo tom apelativo para um filme mainstream, usado como anzol para o grande público. Sobretudo na cena envolvendo uma trinca sexual, que chega com a sutileza de um filme pornô “com historinha”.
Cenas como Denise Richards saindo de uma piscina em câmera lenta, com um maiô transparente, ou Kevin Bacon em um nu frontal saindo do chuveiro são tão coreografadas, e de certo modo desnecessárias, que redefinem a palavra “gratuito”. Eu, particularmente, não tenho problema nenhum com isso, só acho que com toda essa exploração o filme não tem coragem de mostrar com todas as letras um óbvio envolvimento homossexual entre os personagens de Dillon e Bacon, embora, o faça quando o assunto é entre as duas garotas.
Mas enfim, seria mais uma revelação num mar de reviravoltas que GAROTAS SELVAGENS tem para oferecer. E que avança com um enredo que, embora simples e compreensível, começa a se enrolar nessa brincaderia dos “plot twist“. É, ao mesmo tempo, justamente a piada que McNaughton e o roteirista Stephen Peters querem contar e o tiro no pé do próprio filme. Uma vez que as reviravoltas começam a acontecer, elas nunca param, com novas revelações a cada poucos minutos quando o filme entra em sua meia hora final. E em consequência perdem força. Ainda assim, esse tipo de coisa acaba funcionando como uma comédia, mesmo que involuntária.
O elenco de GAROTAS SELVAGENS acaba sendo um destaque. Especialmente para esse tipo de filme, que precisa de talentos peculiares, por exemplo, como o de Denise Richards, que além de fazer bem o seu papel, mostra algumas outras qualidades na frente das câmeras. Neve Campbell também está ótima, fazendo um tipo mais ambiguo, assim como Matt Dillon e o olhar ameaçador de Kevin Bacon. Marc Macauley e Thereza Russell fazem boas participações, mas o show mesmo é roubado por Bill Murray em um papel curto, mas incrivelmente eficaz, como um advogado picareta.
GAROTAS SELVAGENS não é um filme perfeito, nem é um desses clássicos esquecidos dos anos 90 que precisava de uma redescoberta obrigatória… É bobo e tem quase duas horas de duração que podem ser ocupadas com coisa melhor. No entanto, para quem tem um gosto mais, digamos, vulgar pra cinema, é um belo exemplar que vale a pena conhecer caso alguém ainda não tenha visto.
Quando se pensa nas origens do subgênero “thriller erótico“, a maioria das pessoas vão imediatamente para INSTINTO SELVAGEM, de 1992, que acabou ganhando notoriedade e créditos pelo pioneirismo no estilo. Ignoram o fato de que existiam títulos lançados direto para vídeo que são anteriores ao filme de Paul Verhoeven, que definiram várias características e estética do gênero e que foram tão copiados quanto o filme do holandês, gerando um vasto número de exemplares nos anos 90. OLHOS NOTURNOS (Night Eyes) é um desses produtos seminais a que me refiro.
Não é lá um bom filme, é preciso dizer. Mas, independente da sua qualidade, possui um valor histórico imprescindível. Claro, valor sobretudo para os amantes de um erotic thriller do tipo que passava aos sábados nas madrugadas da Bandeirantes (e ainda passa, mas sem a mesma graça) na famigerada sessão Cine Privé. Para essa rapaziada, essa pequena produção dirigida por Jag Mundhra e estrelada por Andrew Stevens e Tanya Roberts tem lá sua importância. Agora, se você não se interessa por isso, pode viver sua vida tranquilamente sem ter contato com OLHOS NOTURNOS.
O Night Eyes do título original é o nome estranhamente pervertido da empresa de segurança privada administrada pelos irmãos Griffith, Will (Stevens) e Ernie (Cooper Huckabee). Na trama, um astro do rock, Brian Walker (Warwick Sims), contrata os serviços dos irmãos para vigiar sua esposa, Nikki, que ele acredita ser infiel e está pedindo divórcio. O que não faz o menor sentido. Já que eles estão se separando, já não moram nem na mesma casa, a mulher pode dar pra quem ela quiser sem que isso caracterize infidelidade… Mas, na lógica do filme, flagrar a mulher na cama com outro homem ajudaria o roqueiro no processo de divisão de bens. Sendo que logo na apresentação do casal, o filme mostra que quem pula a cerca, na verdade, é justamente o roqueiro…
Enfim, como a esposa é interpretada pela belezura Tanya Roberts, a eterna SHEENA – A RAINHA DAS SELVAS, obviamente a espionagem do pobre Will se transforma em voyeurismo, que então se converte em um caso ardente entre os dois. O problema é que ao mesmo tempo em que aproveita da parte boa dessa situação, Will agora se vê envolvido num plot cheio de perigos e mistérios…
Como thriller, NIGHT EYES até consegue se estruturar de forma decente. O diretor Jag Mundhra, que acabou se especializando nesse tipo de filme, tenta manter as coisas em movimento, tenta manter o interesse de alguma maneira, apesar de não ser eficiente a todo instante. Há vários momentos em que o ritmo é bem zoado, nada parece acontecer. A abertura e o desfecho do filme até possuem um climinha de suspense, uns tiros, luta, mas nada que impressione muito.
Mas, pelo menos o elenco oferece algumas boas atuações, principalmente Tanya Roberts, como uma femme fatale ambígua e sedutora. Andrew Stevens, que também produziu e escreveu o roteiro de OLHOS NOTURNOS, se esforça como protagonista e até que consegue dar um pouco de carisma ao seu personagem. Não deixa de ser interessante ver o sujeito ao longo da trama sendo lentamente tragado para os braços da mulher que ele deveria espionar.
Agora, como um exemplar de Cine Privé, ou seja, o quesito erótico, a coisa complica. Nudez e cenas de sexo são escassas, reduzidas ao mínimo por aqui. Tudo filmado com certa distância, apressada, sem explorar muito os padrões de imagem que o público desse tipo de produto gosta de ver. Como ressaltei, OLHOS NOTURNOS era o começo de uma nova safra, ajudou a dar o pontapé inicial no subgênero “erotic thriller“, então ainda estavam em fase de teste, tentando encontrar o tom que realmente interessava. E o que interessava, aparentemente, à Mundhra e Stevens neste primeiro momento era explorar mais os aspectos do thriller do que a pele dos atores. Algo que foi se invertendo ao longo tempo: mais peitos de fora e roteiros cada vez mais fracos.
Mas não se preocupem, porque o filme não deixa o espectador sem ao menos o básico:
Existem alguns exemplares icônicos do período que conseguiram equilibrar as duas coisas – suspense e teor erótico – e são autênticos clássicos do Cine Privé, como CONVITE À TRAIÇÃO (96), de Gary Graver, PRIVACIDADE OBCENA (1995), de Lee Frost, OBSESSÃO FATAL (1997), de Fred Olen Ray, e outros…
OLHOS NOTURNOS, apesar de não chegar aos pés de nenhum desses, foi um dos responsáveis por moldar seus estilos. Esses filmes devem muito mais a este aqui do que um INSTINTO SELVAGEM, CORPO EM EVIDÊNCIA, etc… Além disso, OLHOS NOTURNOS teve relativo sucesso na TV à cabo, VHS, e acabou ganhando três continuações ao longo dos anos 90, todas estreladas por Andrew Stevens. Então, para quem é fã do gênero, acho que vale uma conferida. Só não esperem muita coisa.
O roteiro original de OPERAÇÃO YAKUZA (The Yakuza), de Sydney Pollack, foi escrito por Leonard e Paul Schrader em uma tentativa desesperada de vender algo comercial. Eles estavam falidos e escreveram o roteiro em poucas semanas. Por sua vez, o agente deles conseguiu vender o roteiro, brilhantemente apresentado como uma mistura de O PODEROSO CHEFÃO com Bruce Lee, e os Schraders levaram para casa 300 mil dólares – um recorde de venda de roteiro na época. Robert Towne foi trazido depois só para dar aquela refinada, aquela reescrita marota eficaz com sua voz mais sensível, mas a essência pertence à psique dos Schraders, com um debruce sobre honra errática e disciplina rígida. E que não tem nada a ver nem com O PODEROSO CHEFÃO, muito menos com Bruce Lee…
A trama é centrada, na maior parte do tempo, em Harry Kilmer, interpretado pelo maior de todos, Robert Mitchum, enquanto ele retorna ao Japão para ajudar um velho amigo, George Tanner (Brian Keith), a resgatar sua filha das garras da Yakuza. Eu disse retornar porque Kilmer já tem um histórico no Japão de longa data e muitas pontas soltas para atar… Como, por exemplo, reencontrar a japonesa Eiko Tanaka (Keishi Keiko), que foi o seu grande amor, e encarar seu irmão, Ken Tanaka (o lendário Ken Takakura), que o odeia. Isso leva a uma complexa trama de conflitos internos do personagem de Mitchum, que acrescenta um ingrediente a mais dentro da jornada de violência pelo submundo de Tóquio na qual ele tem que percorrer.
Vários diretores foram cogitados para dirigir OPERAÇÃO YAKUZA e acabaram sendo preteridos ou pulando fora do barco (Frankenheimer, Aldrich, Scorsese), até parar nas mãos de Sydney Pollack, que na época era um dos mais interessantes do cinema americano. Mesmo que pareça uma escolha estranha para este tipo de material, que é um autêntico noir yakuza, um petardo badass, sobretudo depois do sucesso do romance NOSSO AMOR DE ONTEM (1973), com Robert Redford e Barbra Streisand, que o diretor havia lançado um ano antes. Mas Pollack provou que podia transitar perfeitamente entre gêneros e, olhando em retrospecto, é notável como ele contribuiu para definir o modelo de thriller dos anos 70 com filmes como OS TRÊS DIAS DO CONDOR ( 1975). E OPERAÇÃO YAKUZA é um prólogo perfeito para suas habilidades. No entanto, Pollack dizia que não queria fazer um filme de “gênero” do jeito que Schrader imaginou. Por isso a presença de Towne no roteiro, para alinhar as coisas com a visão dramática de Pollack.
E, obviamente, o talento de Pollack para dirigir grandes atores é um diferencial e faz do elenco de OPERAÇÃO YAKUZA um dos destaques. Posso dizer com toda segurança que é uma das grandes atuações de Robert Mitchum. A vulnerabilidade de seu personagem, que tenta posar de durão, raramente foi tão complexa, tão fascinante. Nesse sentido, só deve ficar abaixo de seu desempenho em OS AMIGOS DE EDDIE COYLE, de Peter Yates. Gosto bastante do persoangem de Richard Jordan, um desses rostos frequentes do cinema dos anos 70 que acabou esquecido. Aqui ele faz Dusty, um jovem guarda-costas sensível impressionado pelos códigos de honra japoneses.
Depois há Ken Takakura, uma dos maiores astros do Japão e que mantém sua aura cool intacta durante o filme todo. Não é um personagem que fala muito, mas seu rosto taciturno, de poucas expressões, diz muito mais que palavras. E o homem sabe como manusear uma katana. Juntos, Mitchum e Ken têm uma química que surge do improvável e ganha contornos de tragédia com algumas revelações ao longo da trama. A oferta de Mitchum para o sujeito nos minutos finais do filme é digna de antologia nas carreiras desses dois gigantes do cinema.
Lindamente fotografado por dois diretores de fotografia, Duke Callaghan (nas poucas sequências que se passam nos EUA) e Kozo Okazaki (no restante do filme), OPERAÇÃO YAKUZA também recria fielmente as composições widescreen habituais do cinema japonês. E Pollack aproveita bem tudo que compõe, nos mínimos detalhes, a construção desse universo, seja à nível estético dos ambientes, das ruas, da arquitetura, seja à nível cultural e filosófico. O sujeito tava inspirado por aqui, provavelmente OPERAÇÃO YAKUZA é a melhor produção americana a fazer a ponte EUA-Japão.
Pollack se destaca até mesmo na ação. Temos várias sequências de lutas, tiros, filmadas de forma classuda. A violência é ao mesmo tempo estilizada, mas com um peso dramático realista. Quando alguém é perfurado por uma espada, tremem e murmuram enquanto morrem; conforme membros são cortados, os personagens mostram náusea e repulsa; enquanto as balas voam no caos que é um tiroteio, as pessoas gritam e tropeçam desajeitadamente (é bem provável que Pollack tenha assistido a algum filme de Kinji Fukasaku do período). O confronto final em uma base da yakuza é puro cinema, são quase dez minutos de tensão, com a katana de Takakura fazendo um estrago, enquanto Mitchum distribui bala pra todo lado. Uma das grandes sequências de ação dos anos 70.
Fiquei feliz de saber que o DVD nacional, que foi por onde revi esse filmaço, vem com comentários de Sydney Pollack. Ele demonstra bastante orgulho de OPERAÇÃO YAKUZA e o considera um de seus melhores filmes. Eu não tenho como discordar. É disparado o meu filme favorito do homem.
Há alguns anos eu devorei todos os livros que consegui encontrar do Frederick Forsyth, um dos maiores escritores de thrillers políticos, na minha opinião. Usando sua experiência como jornalista e correspondente diplomático, o sujeito é muito preciso e detalhista nas tramas que escreve ao mesmo tempo em que consegue criar uma atmosfera tensa que coloca o leitor imerso na história. Lembro que quase perdia os pontos de ônibus que eu precisava descer de tão mergulhado que eu estava quando li O Dossiê Odessa, por exemplo. Enfim, eu não sei analisar literatura, isso eu deixo para outros, então paro por aqui…
Vamos falar de filme. Depois de ler O Dia do Chacal, primeiro romance ficcional de Forsyth, lançado em 1971, fiquei tentado a rever O DIA DO CHACAL (The Day of the Jackal), do diretor Fred Zinnemann e estrelado por Edward Fox e Michel Lansdale. Não com intuito de fazer uma comparação entre livro e filme, mas vislumbrar como Zinnemann transformou esse belo thriller em imagens.
Filme revisto (só tinha assistido uma única vez em VHS há trocentos anos) e, embora não seja lá uma obra espetacular, O DIA DO CHACAL consegue ser, em sua essência, um interessante e mortal, jogo de gato e rato. A trama é basicamente a mesma do livro, com pouquíssimas interferências: No início dos anos 60, com a Argélia recebendo a independência do presidente Charles de Gaulle, a aliança clandestina militante conhecida como Organisation Armée Secrète falha em uma tentativa de assassiná-lo. Em poucos meses, muitos dos conspiradores foram capturados e executados.
Os demais líderes da OAS, sem recursos financeiros, refugiam-se na Áustria e decidem contratar um assassino profissional para fazer o trabalho. E o escolhido é o “famoso” matador conhecido apenas como Chacal (Fox). Famoso entre aspas mesmo, porque a trama é totalmente ficcional e não tem nada a ver com Ilich Ramírez Sánchez, mais conhecido como “Carlos, o Chacal”, esse sim, um famoso mercenário revolucionário. E que curiosamente a alcunha de Chacal foi-lhe dada pela imprensa depois que foi encontrada no seu quarto de Hotel uma cópia de O Dia do Chacal, de Forsyth.
Como disse, a rapaziada da OAS tava sem grana pra bancar um profissional tão caro. Então orquestrou vários assaltos a banco para cobrir a taxa de meio milhão de dólares para que Chacal cumprisse sua missão de matar De Gaulle. Depois de capturar e interrogar um membro da OAS, as autoridades francesas descobrem a existência do assassino e, suspeitando que outro atentado à vida de De Gaulle possa ser iminente, colocam o comissário Claude Lebel (Lonsdale) em seu encalço. E a trama de O DIA DO CHACAL torna-se uma verdadeira caçada humana, com o Chacal se movendo pela Europa, arquitetando seu plano, usando disfarces e falsas identidades, enquanto Lebel tenta seguir os seus passos.
É o tipo de filme que persuade seu público a ficar em cima do muro em relação a essas figuras. Por mais que queiramos ver o Chacal frustrado por Lebel, é impossível deixar de admirar o assassino enquanto seu plano meticuloso e aparentemente infalível se concretiza. Deve-se, em grande parte, às atuações de ambos atores principais. Edward Fox, em seu primeiro grande papel, tem muita presença em cena, com semblante de um cavalheiro inglês imperturbável, com um sorriso cativante, sedutor, mas frio o suficiente para matar qualquer um que se coloque em seu caminho. O contraponto é Lonsdale como o policial corpulento e astuto, que mantém sua aura serena intacta, mesmo com a pressão que vem dos superiores.
Fred Zinnemann é um diretor competente, mas nunca me despertou muito entusiasmo. Mesmo seus filmes mais conhecidos e premiados costumam ficar na média do padrão, sem grandes inspirações. A exceção talvez seja MATAR OU MORRER, dentre os que vi, e mesmo assim tá longe de ser dos meus faroestes favoritos. Mas aqui Zinnemann abraçou o projeto e fez escolhas acertadas em benefício do seu filme, como vetar a escolha de Sir Roger Moore (e outros nomes) como Chacal e escolher Fox, que não era tão famoso. Ou a decisão de não utilizar trilha sonora durante praticamente todo o filme, o que privilegia a fotografia de Jean Tournier com uma atmosfera que carrega um senso de realismo semi-documental nas jornadas de Chacal e Lebel. Além disso, Zinnemann manda bem em manter a tensão em boa parte da projeção: o simples ato de acompanhar Chacal em atividade, com seus procedimentos detalhistas, na sua determinação em cumprir sua missão de forma meticulosa, e o rastro de morte que deixa pelo caminho, torna-se um prazer ao espectador.
Não há grandes momentos espetaculares em O DIA DO CHACAL. Mas temos um final bem orquestrado, dentro das limitações de Zinnemann como diretor, no meio do desfile do Dia da Libertação, na Champs-Élysées. Há um tom anti climático, mas que é eficiente, com Lebel tentando inutilmente localizar o assassino enquanto o Chacal se posiciona para dar o tiro mortal com seu rifle customizado. A propósito, essas cenas foram filmadas durante um desfile real e várias pessoas na multidão podem ser notados olhando diretamente para a câmera enquanto Lonsdale se move entre elas.
O DIA DO CHACAL é realmente um bom filme, sobretudo à quem interessa por thrillers policiais classudos dos anos 70. Claro que, pensando nos diretores já veteranos do período, fico imaginando esse material nas mãos de um Richard Fleischer, John Huston, Robert Aldrich, até de um John Frankenheimer (que chegou a demonstrar interesse pelo projeto)… Provável que teríamos uma obra-prima. Infelizmente não temos, mas é um belo thriller. Já o livro do Forsyth é sensacional. Fica a recomendação.
Em 1997, saiu O CHACAL, adaptação atualizada do livro de Forsyth, que não quis ter seu nome associado à produção. Foi dirigido por Michael Caton-Jones, que também não é lá nenhum mestre, mas não faz feio. E tem um bom duelo entre Richard Gere e um Bruce Willis atípico na época, numa ousada atuação encarnando o Chacal. O elenco ainda tem boas performances de Sidney Poitier e Diane Venora. Não é um grande filme, muita gente caiu matando, mas tenho simpatia. Desses produtos estranhos dos anos 90 que me divertem. Qualquer hora dessas eu revejo e comento por aqui também.
Segundo longa de Alain Robbe-Grillet como diretor, depois de L’IMMORTELLE (1963), embora já fosse famoso no período como o roteirista de O ANO PASSADO EM MARIENBAD (1961). E assim como no filme de Resnais, TRANS-EUROP-EXPRESS é um desses experimentos com a narrativa e com nossas percepções. O que temos aqui é um filme de Alain Robbe-Grillet chamado TRANS-EUROP-EXPRESS sobre um roteirista/diretor interpretado por Alain Robbe-Grillet que está planejando um filme chamado TRANS-EUROP-EXPRESS.
Calma, explico: Três pessoas embarcaram na linha Trans-Europ-Express em Bruxelas, são figuras ligadas a cinema (um produtor, um roteirista/diretor e uma roteirista), e começam a trabalhar em ideias para seu próximo projeto. Será um filme chamado “Trans-Europ-Express”, um thriller, com premissa ambientada no trem. Quando eles notam o astro de cinema francês Jean-Louis Trintignant no mesmo vagão, decidem que ele fará o papel principal, de um traficante de drogas chamado Elias. E a partir daí somos colocados numa posição na qual realidade e “fantasia” vão se cruzando. É o ator Jean-Louis Trintignant que estamos acompanhando ou Elias, o traficante de drogas?
Dos três indivíduos ali imaginando o filme – que de forma instantânea assistimos – o produtor é interpretado por um dos produtores reais de TRANS-EUROP-EXPRESS, o roteirista/diretor é o próprio Alain Robbe-Grillet e a roteirista é encarnada por sua esposa, Catherine Robbe-Grillet. De vez em quando decidem que uma determinada cena não funciona, então a cena que acabamos de assistir é descartada. As cenas também são revisadas. A história muda conforme assistimos.
É uma ideia interessante, uma trama de pistas falsas, não há certeza de quem está jogando e quem está sendo manipulado. Elias precisa comprar uma mala vazia e depois trocá-la por outra, contendo drogas. Mas ele acaba pegando uma mala sem a mercadoria… A gangue para a qual ele trabalha está testando-o. Ele recebe uma arma, mas não pode usá-la. Recebe uma série de instruções enigmáticas que o levam a percorrer toda a cidade da Antuerpia. Mais malas aparecem e desaparecem. Senhas misteriosas são trocadas.
Uma das malas contém os pertences pessoais de Elias, coisas que ele leva consigo quando viaja. Uma escova de dentes, navalha, seu pijama e… Uma corda e corrente. Estamos num filme de Alain Robbe-Grillet, então é óbvio que Elias carrega uma corda e uma corrente. Elementos sadomasoquistas são encontrados em todos os filmes e livros escritos por Robbe-Grillet e refletem seus próprios gostos e os de sua esposa (que era dominatrix e foi a autora de alguns dos mais famosos romances S&M). Em TRANS-EUROP-EXPRESS isso não é diferente e não surpreende quando temos situações e diálogos como, por exemplo, quando Elias conhece uma jovem prostituta chamada Eva (Marie-France Pisier). Ela o convida a ir para sua casa e ele diz que não está interessado em sexo, só está interessado em estupro. Ela garante que não haverá problema, mas terá um custo extra. Sorte que ele tinha as correntes e a corda com ele.
Durante a trama de TRANS-EUROP-EXPRESS, Elias não sabe em quem confiar ou para quem exatamente está trabalhando. O espectador também não sabe. E nem mesmo os três cineastas que estão criando a história, já que estão escrevendo no decorrer do processo. Um personagem pode ser um membro de uma gangue, mas eles podem mais tarde decidir que ele é na verdade um policial. Os desempenhos não são muito convencionais, se alternam entre o teatral, ou bastante monótonos, ou são exagerados… Porque, afinal, os roteiristas ainda não decidiram sobre as personalidades. Trintignant desempenha seu papel como uma marionete, fazendo a si mesmo, que interpreta um traficante de drogas numa trama que está sendo desenvolvida em tempo real…
Como a maioria dos filmes de Robbe-Grillet, TRANS-EUROP-EXPRESS contém uma porção generosa de excentricidade. Há algumas ceninhas de nudez, alguns elementos de submissão feminina, imagens que têm apelo e ajudam nas bilheterias (e que conseguiu fazer com que o filme fosse banido no Reino Unido). A sequência da dançarina nua no palco giratório (filmada no lendário cabaré Crazy Horse em Paris) é particularmente curiosa e, para os padrões de 1966, deve-se dizer que ela revela uma quantidade boa de pele nua. O tipo de coisa que tornou os filmes e a literatura de Robbe-Grillet polêmicos. Só pra ter uma noção, o livro mais perturbador que já li na vida foi escrito por Robbe-Grillet: Um Romance Sentimental, lançado em 2007. Depois de ler esse livro, nada mais te choca. No caso de TRANS-EUROP-EXPRESS a coisa ainda é branda e funciona, adicionando um toque extra de estranheza e surrealismo. Um filme em que todas as obsessões de Robbe-Grillet se juntam com sucesso sem chocar. Pelo menos para o público atual…
Embora TRANS-EUROP-EXPRESS compartilhe um pouco de alguns temas com L’IMMORTELLE, que eu preciso rever, ele também marca uma mudança de direção no tom – é um filme muito mais divertido, mais bem humorado e exuberante em comparação com seu filme de estreia. Robbe-Grillet está se divertindo e parece querer que o espectador também aproveite o filme e os procedimentos desse “projeto em andamento”. Vale uma conferida.
A qualquer hora dessas eu precisava chegar no diretor ex-dublê Ric Roman Waugh, um sujeito que há tempos me parece ser desses talentos subestimados a ser descoberto no cinema americano. Único filme de Waugh que tinha visto até agora era FELON, de 2008, um drama de prisão com Val Kilmer e Stephen Dorff bem melhor que o esperado. E que guarda algumas semelhanças com SEM PERDÃO (Shot Caller), seu filme de 2017 que está na Netflix há um tempão e adiei pra caramba, mas finalmente conferi essa semana. Sob a insistência também do meu velho companheiro de Cine Poeira, Osvaldo Neto (que foi quem me apresentou também FELON na época).
Waugh começou a dirigir ainda nos anos 90, e tem até filme com o Dwayne “The Rock” Johnson, O ACORDO. Mas SEM PERDÃO que parece ter sido seu grande trunfo na carreira. Logo depois se reuniu com o ator Gerald Butler já rendendo duas produções mais abastadas, ANGELS HAS FALLEN (que já é a terceira parte de uma franquia de ação iniciada com INVASÃO À CASA BRANCA, de 2013) e GREENLAND. Não vi nenhum dos dois ainda, mas aparentemente vem mais coisas da dupla por aí… E depois de ver SEM PERDÃO e perceber que o cara é bão mesmo, vou atrás desses aí.
Sobre SEM PERDÃO, a trama começa com a liberdade condicional de um condenado chamado “Money” (o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau, que ficou mais conhecido pelo seu papel em GAME OF THRONES). O filme segue suas atividades pós-prisão, que inclui a sua participação em uma negociação de armas militares russas roubadas do Afeganistão, e intercala a narrativa com flashbacks de sua antiga vida e como acabou na situação que está.
Dez anos antes, “Money” era Jacob Harlin, um corretor da bolsa de sucesso, pai de família honesto, com uma esposa (Lake Bell) e um filho pequeno. Depois de jantar fora com um casal de amigos, Jacob se distrai no volante com uma conversa e fura o sinal vermelho causando um baita acidente. Seu amigo no banco de trás acaba morrendo e desde que tomou umas duas tacinhas de vinho, acaba acusado por homicídio culposo. Faz um acordo judicial e é condenado a um par de anos, mas a partir do momento em que pisa na penitenciária, a realidade é outra. É um universo paralelo cujo sistema transforma o indivíduo da pior maneira, como já vimo em muitos filmes por aí. E para garantir a sua segurança, Jacob se alinha com uma gangue de supremacistas brancos. E logo está transportando drogas lá onde o sol não brilha e até matando sob ordens dos líderes da gangue.
Depois de se envolver em um motim, sua sentença é estendida, a coisa complica, e ele constrói um muro ao seu redor, cortando o contato com o mundo exterior, incluindo sua esposa e filho. Mas agora ele está livre. Quero dizer, livre em partes, porque o sistema sai com ele. E a conexão com certos poderes que fez na prisão, sobretudo com um sujeito chamado The Beast (Holt McCallany), um influente chefão da porra toda, não vai deixar o cara sair e fazer o que quiser. Ele ainda faz parte da “família”, querendo ou não.
Parece um melodrama de prisão padrão, mas além de evitar cair na armadilha do proselitismo, Waugh constrói SEM PERDÃO como um surpreendente e amargo estudo de personagem, sobre um homem que descobre da pior maneira possível o estrago que o sistema prisional faz a um indivíduo. E que precisa usar de todos os meios, morais e amorais, para permancer vivo – e manter os seus a salvo.
E o principal motivo de tudo funcionar tão bem é Coster-Waldau num personagem forjado com grandeza detalhista e trágica, e a atuação poderosa do sujeito, uma das melhores performances dos últimos anos no cinema americano e que passou completamente batido por quase todo mundo. No elenco, além dos já citados, ainda temos Jon Bernthal, Jeffrey Donovan e uma pequena participação de Benjamin Bratt com um bigodão.
Não fosse uma gordurinha aqui e a ali (o filme perde muito tempo com o personagem do policial da condicional vivido por Omari Hardwick) SEM PERDÃO talvez merecesse ainda mais elogios. Mas é um grande filme, desses que poderia ser mais conhecido e lembrado. Acho que a rapaziada que está familiarizada com tipo de filme que prezamos aqui no blog vai curtir. E ainda dá tempo. Tá na Netflix pra quem quiser ver.
Existem dois diretores Guy Ritchie na minha opinião, aquele que surgiu lá nos anos 90 como uma imitação britânica de Quentin Tarantino, fazendo crime movies envolvendo o univero da máfia e o submundo das gangues na Inglaterra, e temos aquele que pro final dos anos 2000 começou a fazer super produções sob a batuta de grandes estúdios. Não acho nenhum dos dois grandes diretores, mas o “primeiro” Guy Ritchie pelo menos me agrada, faz um trabalho bacana, rendendo uns filminhos divertidos como SNATCH, PORCOS E DIAMANTES, REVOLVER e, mesmo tendo Tarantino como influência óbvia, era autoral. Enquanto o “segundo” Guy Ritchie só entregou produtos genéricos e/ou medíocres como a franquia SHERLOCK HOLMES e REI ARTHUR (o seu ALLADIN eu não quis nem arriscar). A exceção talvez seja THE MAN FROM U.N.C.L.E., que é legalzinho.
INFILTRADO (Wrath of Man) é o novo trabalho do homem. Do, ainda bem, “primeiro” Guy Ritchie. O que não quer dizer que temos um filme genial ou algo parecido. Mas é um thriller de ação decente, pra sentar no sofá com os pés pra cima, tomando aquela coca-cola gelada enquanto assiste de boas… Trata-se do remake de um filme francês de 2004 chamado LE CONVOYEUR, que menciono só pela informação. Não vi, então nem me proponho a fazer comparações.
Aqui temos Jason Statham interpretando H, um homem que é contratado para dirigir carros-fortes cheios de dinheiro que estão constantemente sendo roubados. Ele posui um background violento que vai sendo revelado aos poucos no decorrer de uma narrativa cuja estrutura é toda costurada, cheio de flashbacks e personagens secundários, como é característico do diretor, mas para todos os efeitos é um filme mais centrado numa trama de vingança protagonizada pelo personagem de Statham. É também uma obra mais sombria e moralmente ambígua na maior parte do tempo, deixa de lado o humor peculiar pelo qual os filmes de Ritchie também são geralmente conhecidos.
A medida queINFILTRADOavança, a coisa vai ficando mais interessante, com algumas boas sequências de ação e um clima tenso que se constrói no último ato, uma sequência de assalto à central dos carros-fortes. Embora tenha um bocado de gordura que poderia ser eliminada e não acrescente nada ao gênero, é um filme sólido e que conseguiu ao menos me prender. Gosto do Statham, ainda que fazendo mais do mesmo por aqui, o elenco ainda tem Josh Hartnett, Holt McCallany, uma pequena participação de Andy Garcia e vários rostos reconhecíveis. O destaque vai para o filho do Clint, Scott Eastwood, que já provou que nunca vai chegar aos pés do pai, mas que em determinados tipos de papéis pode funcionar muito bem, como é o caso aqui.
Enfim, INFILTRADOtá longe de ser o meu favorito do diretor, mas fico feliz que aos poucos Guy Ritchie tem priorizado ser aquele “primeiro” diretor que mencionei lá em cima, fazendo esses filmes menores de ação e crime… Inclusive, seu trabalho anterior, THE GENTLEMEN, não é nada especial, mas também não foi nada mal. Claro que o primeiro estúdio que balançar uns milhões de dólares na sua frente o sujeito não vai resistir de fazer uma super produção, mas espero que não deixe de continuar voltando às origens de vez em quando.
Agora fiquei com vontade de conferir o filme original…
Infelizmente, não faço ideia se INFILTRADO já tá diponível em algum streaming por aqui…
Esse era o único filme do dinamarquês Nicholas Winding Refn que me faltava. Resolvi essa questão, assisti finalmente MEDO X (Fear X), primeiro filme de língua inglesa do diretor, um trabalho menos reverenciado do cara, menos até que seus filmes realizados na Dinamarca, PUSHER (96) e BLEEDER (99), mas que, na verdade, trata-se de uma experiência atmosférica e sensorial forte. A gênese do tom e estilo que Refn faz atualmente em filmes como ONLY GOD FORGIVES (13), THE NEON DEMON (16) e na série TOO OLD TO DIE YOUNG (19), com sua câmera onipresente, ritmo moroso, estética carregada e que possui uma performance grandiosa de John Turturro, coisas que transformam isso aqui em algo fascinante.
Ainda não tão hiperestilizado quanto os novos Refn’s, substituindo as paletas de cores vibrantes por corredores sujos e paisagens infernais e sombrias, Refn mal move a câmera em MEDO X, a mantém estática, muitas vezes em ressonância com a imobidlidade de Harry (Turturro), enquanto ele se senta em silêncio avançando pelas fitas VHS de segurança na esperança de encontrar pistas sobre o assassinato de sua esposa.
Uma vez que Turturro se aprofunda no coração do mistério, fazendo check-in em um hotel avermelhado que parece saído de um filme de David Lynch, o clima vai ficando mais pesado, a atmosfera dos quartos e corredores apertados se tornam as paredes da mente de Turturro, onde frequentemente o filme adentra e revela uma bolha vermelha com um rosto protuberante desesperado para escapar, além de manchas e imagens abstratas… Já disse que o filme lembra muito Lynch? O significado desse tipo de coisa eu não sei, mas em conversa com meu amigo Osvaldo Neto, do Cine Poeira, a conclusão é que a intenção é foder com a nossa mente mesmo… E consegue.
É uma pena que na metade de MEDO X o roteiro resolva sugerir algumas exposições. Preferia ficar mais tempo no escuro com o mistério. A primeira metade, onde as coisas não estão muito claras nem para o personagem do Turturro em sua busca, é absolutamente brilhante. Tantas perguntas, tantas cenas arrepiantes sem respostas. O filme não fica ruim, mas assim que a trama deixa a busca de Harry e nos apresenta ao personagem de James Remar, que está ótimo, dá uma quebrada no andamento e ficamos sabendo demais, estamos um passo à frente de Harry e o mistério dá uma diluida.
O filme entra no eixo novamente para um “gran finale“. Mas, claro, ao estilo do Refn, anti-clímax, quebrando qualquer expectativa. Do tipo que te prepara para algo espetacular e te joga um balde de água fria. Para quem já está familiarizado com o cinema de Refn, a coisa pode funcionar melhor. Mas esse final realmente é um ponto bastante discutível entre os detratores do filme. Eu, particularmente, adoro o desfecho e em como isso acentua a lógica do filme ser mais sobre a obsessão do protagonista por resposta do que a resposta em si.
E não vou dizer que MEDO X foi uma bela surpresa, porque eu sempre espero algo de alto nível do diretor, que é dos meus favoritos em atividade. Mesmo num trabalho de início de carreira. E o cara evoluiu bastante de lá pra cá, mas este aqui não deixa de ser um experimento admirável e muito imersivo, um interessante thriller psicológico. Infelizmente, foi um fracasso e levou a produtora de Refn à falência. O sujeito só foi recuperar a grana com o sucesso das duas continuações de PUSHER, que são outras pérolas da filmografia do dinamarquês.
Sugestão bem-vinda de um leitor – valeu, mister Antonio Manuel – uma vez que eu nunca tinha visto O BURACO DA AGULHA (EYE OF THE NEEDLE), apesar da curiosidade que tinha de saber como haviam adaptado o clássico best-seller de Ken Follett, que é daqueles thrillers literários de Segunda Guerra dificil de desgrudar os olhos durante a leitura. O filme até que não decepciona nesse sentido também, tem boa dose de tensão e ainda mistura uma faceta romântica que, se não é totalmente acertada, tá bem longe de ser um desastre. Foi dirigido pelo grande Richard Marquand, que é mais lembrado por ter sido a escolha de George Lucas para comandar O RETORNO DE JEDI justamente pelo seu trabalho por aqui (e por não fazer parte do Hollywood director’s union que andava dando dor de cabeça para Lucas).
Donald Sutherland vive aqui um frio e calculista espião nazista chamado Henry Farber e conhecido pelo codinome “Agulha” – por conta da sua arma favorita, uma faca com esse formato que utiliza sem piedade em qualquer um que interfira nos seus planos. Durante uma de suas missões no Reino Unido, descobre que os aliados construíram um imensa base militar fake para passar a ideia de uma futura invasão de tropas na França pelo Pas-de-Calais – sendo que o plano verdadeiro é o desembarque na Normandia. Farber, fornecido com evidências suficientes para desmascarar a farsa, deve ir de encontro a um submarino que o levará de volta à Alemanha para entregar as evidências em mãos à Hitler. Mas ao tentar chegar ao ponto de encontro, seu pequeno barco naufraga durante uma tempestade e o sujeito acaba em uma ilha quase deserta onde um casal o acolhe.
A primeira parte de O BURACO DA AGULHA é quase uma perseguição ininterrupta, um jogo de gato e rato entre Farber e a Scotland Yard. Serve também para demonstrar a habilidade e a natureza do assassino implacável que é o espião. Vemos o sujeito manipular a todos, aumentar o número de corpos por onde passa e manter-se sempre um passo à frente da polícia, que o rastreia pela Inglaterra após a descoberta das reais coordenadas do desembarque. Sutherland está genial e encontra aqui um de seus melhores personagens, a de um aterrorizante espião nazista cuja toda caracterização construída na primeira parte contribui para torná-la mais dramática na segunda metade do filme.
Sua tentativa de fuga o leva à Ilha de Stirm, onde ele conhece Lucy (Kate Nelligan), uma mulher solitária, casada com um oficial deficiente (por conta de um acidente de carro ocorrido logo depois de se casarem), encarnado por Christopher Cazenove. A coisa esquenta a partir daqui, conforme Farber, o nazista até então insensível e uma autêntica máquina de matar, começa a demonstrar lapsos e falhas ao se apaixonar e se entregar – sem revelar a essência de suas atividades. E Lucy não dificulta em nada a aproximação do visitante.
Kate Nelligan se opõe a imponência de Sutherland com uma presença frágil, mas determinada, o que tornará o embate final dos dois menos desequilibrado do que parece. Nesse ponto, no entanto, o filme fica meio perdido entre construir uma história romântica que acaba não se sustentando muito, mas que pra nossa sorte é regularmente interrompida pelas ações de Faber na sua tentativa de ainda alcançar o submarino, o que inclui mais assassinatos, como a que acontece no topo de um penhasco. Mesmo desequilibrado, o filme nunca se desfaz de sua tensão latente.
Mas O BURACO DA AGULHA retorna nos eixos quando a identidade do espião é revelada e o suspense beira ao Hitchcockiano, com as duas personagens tentando esconder suas descobertas e falsas pretensõe um do outro. E em seguida, desenrola uma caçada humana pela ilha onde os papéis acabam se invertendo. A frágil Lucy endurece sob o peso da ameaça de Farber, que agora apaixonado é incapaz de usar as habilidades assassinas exibidas desde o início do filme. O final é uma sequência tão tensa e violenta (com o direito a Lucy cortando os dedos de Farber com um machado) quanto carregada de emoção.
E é preciso muita sutileza dos atores para conseguir convencer de toda essa carga dramática na situação entre eles. E tanto Sutherland quanto Nelligan dão conta. No elenco, ainda temos um monte de rostos conhecidos do cinema britânico, como David Hayman, Ian Bannen, Rupert Frazer, Stephen MacKenna e outros.
A fotografia de Alan Hume é excelente, tende para as sombras, tons escuros, para imagens sombrias o que deve ter sido uma desgraça nas versões em VHS da época, com as nuances da iluminação se perdendo, preto e cinza se misturando. Hoje já temos transferência de Blu-ray, foi lançado lá fora pela Twilight Time, que é a versão que assisti e a imagem é impecável, com atenção aos detalhes em termos de contraste e paleta, o que contribui demais para a atmosfera, pro thriller bastante sólido que é esse O BURACO DA AGULHA, perfeito para uma noite escura e tempestuosa. Marquand – que tem bom olho para o suspense, para os personagens, dirige tudo de forma segura – e seu roteirista, Stanley Mann, fizeram um trabalho fantástico em capturar a essência do best-seller, enquanto os atores dão vida aos personagens criados por Follett. Recomendo tanto o filme quanto uma leitura no livro.