MILANO ODIA: LA POLIZIA NON PUÒ SPARARE (1974)

As tendências do cinema na Itália do início dos anos 70 acabaram levando o diretor Umberto Lenzi a experimentar o Euro Crime, ou o Polizieschi, que é o cinema policial italiano, deixando de lado os outrora bem-sucedidos giallo e os outros dos mais variados gêneros que Lenzi trabalhou desde o início dos anos 60.

E vale ressaltar o termo polizieschi, porque se forem procurar na internet e outras fontes sobre o gênero, vão se deparar com um vasto material usando o termo poliziotteschi. E que na verdade é uma designação imprópria. Os diretores detestam essa alcunha, o próprio Enzo G. Castellari me disse quando estive com ele no Fundão, em Portugal, que é uma denominação ridícula. E há essa entrevista com o Lenzi que ele comenta sobre o assunto:

Não me faça muitas perguntas. Leva dois dias pra falar sobre todos os meus filmes. Vamos fazer algo curto, dos anos setenta em diante.

Ah, ok… O que mais me interessaria seria falar sobre seus filmes de ação, os poliziotteschi.
Filme policial, basta. Poliziotteschi é uma estupidez inventada pelos críticos. É uma palavra que nem sequer existe.

Sendo assim, voltemos nossas atenções ao poliziesco MILANO ODIA: LA POLIZIA NON PUÒ SPARARE. A incursão de Lenzi nesse universo do cinema policial começa com MILANO ROVENTE (1973), que foi considerado uma estreia imperfeita, mas aceitável no novo gênero. Eu nunca assisti. Então Lenzi procurou o consagrado roteirista Ernesto Gastaldi, que elaborou uma história simples, mas altamente eficaz, para sua segunda investida no gênero, que foi este filme aqui.

A trama de MILANO ODIA gira em torno de um criminoso de baixo escalão com delírios de grandeza e um plano de sequestro envolvendo uma herdeira rica. O único problema é que ele é um maluco instável, viciado em pílulas, com transtorno de personalidade e um tique facial crônico. Assumindo com gosto o papel desse sociopata que se chama Giulio Sacchi, está o ator cubano Tomas Milian, cujo histórico de papéis em spaghetti western havia secado no início da década, talvez um dos motivos pelos quais ele aceitou um personagem que muitos outros protagonistas recusariam por medo de manchar a própria imagem. Defendendo a necessidade de dar realismo ao papel, Milian, fiel à sua formação em atuação de método, chegava a se embriagar nas filmagens quando julgava necessário. O resultado da sua atuação é um troço absurdo.

Do outro lado temos Walter Grandi, aquele tipo de policial que é a face da lei em um mundo já deformado. Interpretado com frieza impenetrável por Henry Silva, seu personagem opera pelo desencanto e o niilismo do policial italiano do que como símbolo de justiça. Se Miliam como Sacchi é a personificação do caos e da pulsão assassina, Silva faz de Grandi um homem que, embora nominalmente “do lado certo”, não representa exatamente um polo oposto, apenas outro tipo de violência, mais contida, mas não menos implacável.

Grandi não é um herói clássico. Ele é seco, pragmático, movido por uma raiva silenciosa que o aproxima perigosamente do criminoso que persegue. Sua rigidez moral não impede que atue fora dos protocolos, nem que se envolva em ações que beiram o vigilantismo. E é justamente essa ambiguidade que faz dele uma figura fascinante: ele não se opõe a Giulio Sacchi em termos éticos, mas sim como força que precisa restabelecer um mínimo de ordem em meio à anarquia. Grandi é a lei sem redenção, e MILANO ODIA o usa para reforçar uma visão desencantada das instituições. Quando o criminoso é um animal fora de controle, o policial precisa agir como predador.

O confronto entre os dois personagens, Sacchi e Grandi, não é só narrativo, mas também simbólico: são dois lados de uma mesma moeda, onde o verniz de civilidade é cada vez mais tênue. No final, o que resta em Grandi é o gesto solitário de quem sabe que venceu, mas sem nenhuma glória. Só acho uma pena o personagem do Henry Silva ser tão passivo na maior parte do tempo, Lenzi aproveita mal sua presença aqui, e o personagem só entra de fato mesmo na trama lá pelas tantas.

Mas nada que atrapalhe a experiência. Na seara dos polizieschi, é bem provável que seja o melhor trabalho de Lenzi no gênero. MILANO ODIA faz jus à sua reputação: há uma perseguição de carros a toda velocidade no início que é ao mesmo tempo grosseira e belo; tiroteios de metralhadora, mulheres nuas e momentos realmente perturbadores (como a sequência que o trio liderado por Sacchi invade o casarão burgês e um refém sendo forçado, sob a mira de uma arma, a realizar sexo oral em Sacchi, por exemplo).

A combinação explosiva de Lenzi e Milian fora de controle criou um verdadeiro clássico do Poliziesco. O realismo maníaco da performance de Milian, aliado à violência crua e direta de Lenzi, resultam em um filme essencial, especialmente para quem estaria começando a explorar o gênero. É evidente que há um certo exagero injustificado no manejo de Lenzi em conduzir as coisas, principalmente o uso da violência, que afasta um determinado público. E até consigo perceber. MILANO ODIA se torna um exploitation dos mais vagabundos, apelativos e picaretas em alguns momentos, como a já citada sequência no casarão burguês. Mas ao mesmo tempo, é um filme tão agressivo, safado, baixo, torpe, que a coisa dá a volta e acaba me gerando certo fascínio.

É um filme sujo, raivoso e sem freio, mais uma vez reforço a presença de um Milian insano, que parece não distinguir o bem e o mal, e o pratica só pelo prazer do caos. Cuja crueldade gratuita revela um mundo sem ordem ou valores, onde o mal já não precisa de justificativa. O que resulta num exemplar que é uma avalanche de violência, sadismo e um certo niilismo, onde a polícia não não consegue fazer nada e a cidade virou um campo de guerra. No dia em que eu falar que isso aqui não é um filmaço, podem me internar.

Também conta com uma das trilhas mais marcantes de Ennio Morricone para o gênero. Fora dos faroestes que o consagraram, MILANO ODIA se destaca como uma de suas melhores composições (ao lado de REVOLVER, de Sergio Sollima), e sua música aumenta a tensão e se encaixa perfeitamente ao clima do filme.

Pra finalizar este post, mais um trecho da entrevista com o Lenzi, que resume bem tanto a agressividade de MILANO ODIA quanto da própria personalidade desse grande diretor do cinema popular italiano.

Era baseado em fatos reais?
Era baseado na violência que havia em nossas cidades nos anos 70, quando você podia assaltar um banco e a polícia não tinha meios de reação. Tudo era possível. Você podia fazer o que quisesse. Alguém podia simplesmente entrar num banco vestindo terno e com uma metralhadora por baixo. Essa situação não existe mais. Hoje há seguranças armados na porta. Os bancos não eram adequadamente protegidos como são agora. Além disso, os gângsteres de Marselha importaram um sistema de sequestro de reféns para facilitar a fuga.

Seus filmes são bastante violentos. Em Milano Odia, por exemplo, há uma cena…
[Sarcasmo:] Sim, é o filme mais violento da história do cinema italiano. E daí? Vamos falar de outro filme.

Mas… tipo, o personagem principal…
Ele é louco. É um paranoico. Mata muita gente porque não entende a diferença entre o bem e o mal. Mas o filme foi um sucesso extraordinário nos cinemas. Todo mundo sabe que é o filme mais violento de todos.

Qual foi o segredo do sucesso?
Não sei. Não sei. O fato de você ter um personagem forte em um filme mais ou menos violento. Esse personagem, o protagonista, é forte. É isso que o público que ia ao cinema queria ver.

Foi lançado em DVD na caixa Euro Crime Volume 1, com o título QUASE HUMANO.

CORRENTES DO INFERNO (1983)

A carreira da Linda Blair certamente tomou um rumo interessante após O EXORCISTA. Filmecos de terror, aproveitando sua imagem da garotinha endemoniada do clássico de William Friedkin, mas também participou de vários exploitation barra pesada. Já comentei, por exemplo, aqui no blog sobre RUAS SELVAGENS (1984). E agora me deparei com ela fazendo a personagem central nesse petardo do cinema de mulheres em penitenciárias, os famigerados WIP (Women in Prison), CHAINED HEAT, que no Brasil tem o título genial de CORRENTES DO INFERNO, dirigido por um tal Paul Nicholas, e certamente é um dos principais representantes do gênero nos anos 80.

Carol (Blair) é condenada por homicídio culposo em um atropelamento e é enviada para a prisão por dezoito meses. Embora a novata tenha sido “adotada” pela detenta durona Val (Sharon Hughes), todos os outros indivíduos que povoam o local parecem determinados a tornar a experiência de Carol na prisão um verdadeiro inferno.

A líder da gangue de branquelas, Ericka (Sybil Danning no auge da beleza – preciso dizer mais alguma coisa?), está interessada em Carol, mas depois de uma proposta durante um banho coletivo – sequência tão icônica do cinema de exploração que mesmo antes de ver o filme eu já conhecia – Carol a rejeita e começa uma jornada difícil para nossa pequena ex-menina possuída.

Somos apresentados à Capitã Taylor, interpretada pela grande Stella Stevens, em um papel fora do seu habitual, mas que desempenha perfeitamente. Ela está envolvida em uma busca pelo poder supremo contra o diretor Bacman, interpretado por John Vernon. Bacman provavelmente é o maior pilantra de todos. Você precisa ver seu escritório na prisão para acreditar! Ele leva as jovens bonitas da prisão para a sua jacuzzi particular (sim, isso mesmo, em seu escritório), dá a elas todas as drogas que querem e as filma fazendo striptease, entre outras coisas dentro da jacuzzi. Olha, no departamento sexo e nudez, CORRENTES DO INFERNO não tá pra brincadeira. A sequência que a musa Monique Gabrielle faz um strip pro Vernon sob as lentes de sua filmadora logo no início é um dos pontos altos do filme…

Há um sério problema de tráfico de drogas ocorrendo na prisão, e Bacman quer chegar ao fundo disso – afinal, ele ainda é o diretor do local. Sua “informante” (Gabrielle) que vemos no início do filme é morta por Ericka e suas cúmplices, todas em conluio no tráfico com a Capitã Taylor e seu amante traiçoeiro Lester, interpretado por ninguém menos que Henry Silva. Sim, o elenco é só surpresas das boas!

No entanto, Lester está secretamente envolvido com Ericka sem que Taylor saiba. Enquanto tudo isso se desenrola, a líder da gangue de mulheres negras, Dutchess, interpretada pela musa da blaxploitation Tamara Dobson, de CLEOPATRA JONES, busca vingança pelo assassinato bruto e violento de uma de suas amigas. Há um nível surpreendente de cenas brutais e sangrentas nessa obra, devo alertá-los.

Mais caos se desenrola quando Ericka e Dutchess lutam com correntes no pátio. Depois que Carol, (lembram dela? é a protagonista interpretada pela Blair) é estuprada por Bacman, a maré começa a mudar na prisão. Taylor quer o cargo mais alto, então ela e sua guarda-costas durona afogam Bacman em sua jacuzzi durante suas “brincadeiras”, agora com Val, a amiga de Carol, que estava ali com o objetivo de… Ah, nem lembro mais, mas acho que era uma tentativa de roubar as filmagens das câmeras do diretor que serviriam como prova de que ele estuprou a protagonista. Mas pra manter o assassinato em segredo, Val acaba brutalmente espancada até a morte.

Para garantir sua promoção, Taylor promete às autoridades que encontrará o assassino da pobre Val, plantando evidências em Ericka. Quando o porrete ensanguentado usado em Val é encontrada na cama de Ericka, as detentas decidem que já tiveram o bastante. E como todo bom e velho filme de prisão de mulheres só fica completo depois de uma revolta sangrenta no final, cá estamos.

Não tem como errar com CORRENTES DO INFERNO. Há tanta coisa acontecendo que eu deixei alguns desenvolvimentos da trama de fora dessa descrição toda. É praticamente um seriado de dez capítulos condensados em 90 minutos. Quase todo mundo nesse filme aparece sem roupa em algum momento – o que é esperado se Sybil Danning está envolvida – é corrupto, trafica drogas, é espancado ou espanca alguém de forma bruta.

A atuação num geral é boa, apesar da temática que envolve vários “temas” do cinema de exploração, tudo bastante exagerado, com Stella Stevens especialmente saboreando suas maldades. Linda Blair cumpre bem o que lhe é proposto, tem seu arco de transformação, se torna durona no final, o que é um alívio depois de todas as suas tribulações durante o filme. Ainda temos Robert Miano no papel mais abjeto e repulsivo do filme, o guarda estuprador. Os penteados são puro suco dos anos 80 e a música é inconfundivelmente datados, o que aumenta o fator de nostalgia geral.

Se alguém aí é adepto ou curiosso sobre o subgênero W.I.P. e não assistiu ainda a CORRENTES DO INFERNO, dê uma olhada. É um clássico, uma jornada frenética pelo mundo do cinema de exploração em seu melhor estilo intransigente. Teve três continuações, sem qualquer ligação com este primeiro, a não ser pelos títulos e por se passarem em prisões femininas…

NICO, ACIMA DA LEI (Above the Law, 1988)

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Primeiro, uma constatação óbvia, a de que a cinefilia anda em círculos. Por aqui já girou e girou e girou e retorno ao tipo de filme que realmente me dá prazer em ver, escrever e divulgar. Por mais que às vezes tente me desvencilhar, gosto mesmo é do bom e velho cinema de ação casca-grossa dos anos 80 e 90. Dos Dolphs, dos Van Dammes, dos Stallones, dos Seagals… Me peguei pensando nisso porque resolvi rever mais uma vez o primeiríssimo filme deste último, NICO, ACIMA DA LEI, e me deu uma baita vontade de escrever (embora já tenha até comentado alguma coisa no blog antigo). Pois é, tanto filme novo pra ver, acabo preferindo “perder meu tempo” revendo um bagulho que já vi tantas vezes, mas que me devolve o prazer de continuar “blogando”. Mas é sintomático e não posso fazer mais nada a respeito, a não ser aceitar minhas preferências e obrigações com o blog… E vamos ao filme:

NICO, ACIMA DA LEI, possui tanto caráter de “primeiro filme”que o Seagal nem tinha ainda seu característico rabinho de cavalo cretino. Mas não chega a ser um detalhe preocupante, porque a ausência do excesso de cabelo na nuca do ator não interfere em nada seu desempenho nas artes dramáticas ou ao distribuir pancadas e tiros nos meliantes de plantão. Com exceção, é claro, do aspecto visual dos enquadramentos, já que Steven Seagal sem cabelinho balangando é a mesma coisa que Jack Nicholson assistindo a um jogo dos Lakers sem óculos escuros. No entanto, o filme já apresenta todos os elementos essenciais, sejam eles físicos ou filosóficos, do cinema de Seagal. O que quero dizer com isso? Quero dizer que já aqui, neste debut, o sujeito esgota o seu arsenal ideológico e de braços quebrados de uma tacada só, definindo a sua persona singular para o restante de sua longa filmografia que viria a seguir nas próximas décadas e que perdura até hoje, independente da qualidade lamentável de alguns trabalho atuais.

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Seagal interpreta em NICO, ACIMA DA LEI o policial do título, Nico Toscani, personagem com tons auto-biográficos, já que a produção e o roteiro tem o dedo de seu criador (não é a toa que Seagal já tenha declarado que Nico foi o papel que mais gostou de fazer). O personagem é o próprio Seagal e o filme começa como um autêntico documentário sobre a vida do ator, incluindo uma sessão de fotos pessoais nos créditos de abertura e uma narração em off sobre os primeiros passos de Nico no mundo das artes marciais, mais especificamente do aikido, e que possui paralelo com a própria história do ator, assim como sua relação com a CIA . Na vida real, Seagal foi instrutor de artes marciais de agentes. Já no filme, Nico realmente torna-se um, tendo até uma passagem bem desagradável na guerra do Vietnã no início da década de 70.

Mas a trama transcorre mesmo quinze anos depois dos acontecimentos no Vietnã, com o protagonista trabalhando na polícia de Chicago – o sujeito é desses tiras durões que gostamos de ver neste tipo de filme – investigando um intrincado caso de tráfico de drogas, que acaba resultando em algo muito maior e mais perigoso e que põe a sua vida e a da sua família em risco a cada nova descoberta (a esposa do cara é ninguém menos que a delícia Sharon Stone). Nico e sua parceira (a musa Pam Grier) se vêem envolvido numa conspiração da CIA com objetivo de assassinar um senador. Barra pesada! A coisa esquenta ainda mais quando, e aí voltamos às questões do Vietnã, descobre-se que a mente maquiavélica por trás do plano é justamente um desafeto de Nico, interpretado pelo grande Henry Silva.

E aí, meu caros, é pancadaria, tiros, uma igreja explodida ali, mais pancadaria… Ação da boa!

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Um dos grandes baratos de NICO é ver Steven Seagal por aqui tão ágil e magro em contraste com sua forma física atual. Chega a ser um choque. Por isso que é tão fácil tê-lo como alvo de chacota e esquecer o quão badass e cool ele podia ser. A prova está aqui. Seagal se apresenta com muita expressividade física e realmente parece intimidante durante as cenas de luta, sem contar que seu desempenho como homem de ação é muito bom. Acreditem, ele é natural e parece mesmo confortável na frente da câmera. Não iria exigir isso de ninguém, até porque não quero perder os poucos leitores que tenho, mas sintam-se à vontade para comparar a performance do sujeito em seus primeiros filmes com seus posteriores, onde aparece visivelmente preguiçoso, duro e com má vontade até mesmo para proferir suas falas. Claro, existem algumas exceções…

Outro detalhe que vocês já devem ter percebido com NICO foi a capacidade de reunir um elenco dos bons para este primeiro filme de um sujeito até então meio desconhecido. A musa do blaxploitation Pam Grier, Sharon Stone e Henry Silva como vilão com planos diabólicos e risada maquiavélica e que possui uma boa variação de técnicas para torturar pessoas de língua presa? Puta merda! E ainda tem uma pontinha “piscou perdeu” de um jovem Michael Rooker, numa cena logo no início, no primeiro bar em que Seagal faz seu primeiro quebra-quebra da história do cinema.

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A direção de NICO ficou por conta de Andrew Davis, que era um cara legal no inicio da carreira. Realizou algumas coisas bacanas como CÓDIGO DO SILENCIO, com Chuck Norris, THE PACKAGE, com Gene Hackman e Tommy Lee Jones, e voltou a trabalhar com Seagal em A FORÇA EM ALERTA, que é um dos filmes mais divertidos do ator. Mas depois de O FUGITIVO, Davis deixou seu nível cair bastante. NICO é seu quarto trabalho e ainda tinha pulso firme para sequências de ação e porrada, elementos que não podem faltar num filme como este, especialmente quando se pode explorar as habilidades de um Steven Seagal em cenas de luta (a sequência com um facão é sensacional). Mas não só isso: tiroteios bem filmados e uma sequência de carro em alta velocidade com Nico no capô são grandes destaques em termos de ação por aqui.

Aliás, o fato de Davis ser o diretor tanto de NICO quanto de CÓDIGO DO SILÊNCIO é meio estranho, porque são filmes irmãos. Ambos se passam em Chicago, abordam temas de policiais corruptos (inclusive com os mesmos atores) e em ambos Henry Silva faz o vilão… É igual, mas é diferente, sabe como é? Uma sensação de déjà vu… Enfim, mas o principal elemento que os diferencia é Steven Seagal e seu personagem auto-biográfico. Isso, aliado a boa história, que não traz nenhuma novidade, mas também não inventa moda, fazem de NICO, ACIMA DA LEI uma bela estreia do ator e até hoje continua um dos melhores trabalhos de Steven Seagal.

FUGA DO BRONX (Enzo G. Castellari, 1983)

Para fechar a trilogia pós-apocalíptica do Castellari, chegou a vez de FUGA DO BRONX, continuação direta de 1990 – OS GUERREIROS DO BRONX. O título é um pouco enganador, deve ter sido bolado só para fazer referência ao clássico do John Carpenter, FUGA DE NOVA YORK, porque na verdade, pelo enredo deste aqui, o título deveria ser algo do tipo “NÃO fujam do Bronx”!

Desta vez, a corporação malvada do primeiro filme resolve expulsar os moradores do Bronx, região sem lei, dominada por gangues, como vimos no episódio anterior. A ideia é esvaziar o local para construir um bairro novo com prédios modernos, e quem não quiser sair por bem… Bom, sai à pontapés mesmo, ou acaba assassinado a sangue frio pelo esquadrão fascista liderado por Wrangler (o sempre genial Henry Silva), contratado para limpar o local usando a força bruta. Castellari antecipou trinta anos o modo de agir da polícia militar brasileira.

Sobra até para os pais do herói de OS GUERREIROS DO BRONX, Trash, novamente encarnado por Mark Gregory, que agora vai revidar com sede de vingança! E seguindo a linha dos outros filmes, o roteiro não avança muito para além disso e o filme se transforma numa batalha exatamente para não fugirem do Bronx. É só ação, ação e ação!  Provável que FUGA DO BRONX seja o filme com mais ação de toda a carreira do Castellari. A quantidade de tiroteios é impressionante e toda situação que o enredo apresenta é desculpa para que a equipe de dublês trabalhe dobrado.

Um bom exemplo é quando decidem sequestrar o presidente da corporação. Não há qualquer tipo de elaboração. O plano é puxar o sujeito pelo colarinho e distribuir chumbo grosso em quem estiver pela frente.

E mesmo o conceito das gangues diferenciadas do filme anterior acaba se perdendo. Todos os grupos agora estão reunidos nos subterrâneos do bairro, liderados por Dablone (Antonio Sabato), na luta contra a tal corporação. E Mark Gregory consegue amadurecer o seu personagem. Trash está mais melancólico, com ar de cavaleiro solitário badass e deixou de lado a calça Jeans apertadinha no rabo… Logo no início do filme há uma cena na qual Trash explode um helicóptero com tiros calibre 38. O sujeito realmente não está para brincadeira!

Aliás, a ação do filme, além da grande quantidade, é toda repleta desse tipo de exagero. Especialmente o gran finale, cuja contagem de corpos é de arrepiar (algumas fontes apontam 174 mortos)! Imaginem o final de DESEJO DE MATAR 3 elevado à décima potência em termos de balas, explosões e violência e terão alguma ideia do que é isso aqui! O estilo Peckinpah de trabalhar o slow motion durante os tiroteios está em toda parte e Castellari é especialista nesse recurso, o que torna a ação ainda mais espetacular! Há também uso de miniaturas toscas sendo explodidas. Dá aquele charme nostálgico oitentista para a produção, que possui, aparentemente, um orçamento melhor para o departamento de pirotecnia e dublês em comparação ao primeiro filme.

O elenco também é outro destaque como sempre. Além de Gregory, Silva, que está realmente sensacional, e Sabato, temos uma excelente participação de Giancarlo Prete, que é o protagonista de THE NEW BARBARIANS, entre outros rostos reconhecíveis do cinema popular italiano, como Romano Puppo (desempenhando o pai de Trash), Paolo Malco, Ennio Girolami e o próprio diretor em uma pequena participação.

Apesar dos outros dois também me agradarem bastante, FUGA DO BRONX é disparado o melhor dos três exemplares futuristas que o velho Castellari realizou nesse belo período do cinema italiano.

POSSESSED BY THE NIGHT (1993), de Fred Olen Ray

Este aqui é uma bizarrice estrambólica do mestre Fred Olen Ray, além de ser um prato cheio para os fãs de produções modestas que nunca tiveram atenção do grande público. POSSESSED BY THE NIGHT é um suspense erótico com um pé no horror estrelado pela musa do Cine Privé, Shannon Tweed, muito à vontade por sinal. Especialmente na caudalosa sequência onde malha com uma blusinha branca que é de um erotismo quase transgressor! Além dela, temos Sandahl Bergman, outra atriz sem frescura que não se inibe ao tirar a blusa em frente às câmeras (e o faz em vários momentos por aqui, mesmo no auge de seus 42 anos).
Para não dizer que eu sou um tarado que só pensa “naquilo”, o filme ainda possui uma pequena dose de porradaria com o ator Chad McQueen. O protagonista é vivido por Ted Prior, astro do cinema de ação cujos filmes passavam todos os dias no Cinema em Casa no início dos anos 90, grande parte dirigido pelo seu irmão, o “talentoso” (leia-se um dos piores diretores de todos os tempos) David A. Prior. Curioso é que os dois atores são muito semelhantes a outros astros de fama mais notável. Chad é uma espécie de Mickey Rourke dos pobres, enquanto Prior é a cara do Christian Bale… é por isso que eu amo tanto esses filmes B.

Bom, eu ainda não acabei (eu disse que era um prato cheio, não disse?). O eterno Henry Silva marca presença como um mafioso, soltando frases impagáveis. Ele entra em cena recebendo massagem de duas garotas de topless e, ops, vamos mudar de assunto. Para completar, um recipiente com uma espécie de cérebro com olho influencia de forma negativa os personagens ao seu redor! Já é o suficiente para convencê-los a correr atrás desta pérola o mais rápido possível?

Prior interpreta um escritor sofrendo de bloqueio criativo. Vai a uma loja de artefatos orientais e compra o tal recipiente achando que vai lhe trazer inspiração… como uma coisa horrorosa daquela vai trazer inspiração a alguém é um desses mistérios no qual só poderia ter surgido na cabeça do Fred Olen Ray mesmo. Enfim, logo que volta pra casa com seu novo adorno, as coisas começam a ficar estranhas. Tudo é mostrado já na cena em que Prior tenta dar umazinha com a patroa (Bergman), mas age de forma agressiva demais para ela e acaba ficando na mão, passando a noite no sofá.

Seu empresário, vivido por Frank Sivero (o Carbone de GOODFELLAS), lhe envia uma secretária para digitar seus manuscritos, a exuberante e insaciável Shannon Tweed. Brigado com a mulher e com uma secretária dessas malhando de blusinha branca suada em seu maquinário de musculação, não há coração que aguente… e não vamos esquecer do jarro oriental com o cérebro dentro enfeitando a mesa e espalhando cargas negativas entre os habitantes da casa, fazendo ferver os desejos eróticos de cada um deles.

É, difícil aguentar desse jeito!

Paralelo a isso tudo, há uma subtrama onde acompanhamos um gangster (McQueen) que cobra as dívidas de seu chefão (Silva), mas também passa por uma crise tentando sair dessa vida criminosa. Obviamente as duas estórias se encontram em algum ponto.

Esta subtrama dá ao filme alguns momentos mais agitados de ação, pois nem sempre as pessoas querem pagar o que devem e aí a coisa tem de ser resolvida à base do kung fu. É o exemplo da sequência na oficina, quando surgem algumas figuras ilustres, como o diretor Jim Wynorski, aparecendo apenas para apanhar, e também o ótimo Peter Spellos, o grande Orville de SORORITY HOUSE MASSACRE 2, dirigido pelo Wynorski. Até o próprio Fred resolve fazer uma ponta, mas nada de violência em sua participação, ele se apresenta apenas como um garçom comum em outro momento.

“Ah, vai ficar lindo na cômoda do escritório!”

Lançado diretamente para o mercado de vídeo, POSSESSED BY THE NIGHT se sobressai perante as muitas produções do gênero com as quais as locadoras viviam infestadas na época. A direção de Fred é um exercício único de economia. Devido ao tipo de produção, ele não perde muito tempo tentando amarrar as pontas soltas deixada pelo roteiro, elimina personagens de forma banal e explora somente os elementos que realmente importa: bastante sexo e um pouco de violência!

“Deixa eu te ajudar a desabotoar esse colete amarelo…”

O elenco também é fraco, deixando o filme ainda melhor, principalmente Ted Prior que é de fazer vergonha. Tweed não precisa atuar, basta fazer cara de safada e agir de maneira sexy. É o que sabe fazer muito bem, independente do tipo de personagem que representa. Os únicos com certo destaque na interpretação é o Henry Silva, velho de guerra neste tipo de personagem, e Sandahl Bergman, surpreendendo com a atuação mais expressiva do filme.

Recebeu o título no Brasil de FLUIDOS DO MAL ou apenas POSSUÍDA e não me recordo com precisão se chegou a ser lançado em vídeo no Brasil, mas do jeito pelo qual este mercado funcionava por aqui, eu aposto minha melhor camisa que sim.