A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 1987)

Nos anos 70 uma figura insuspeita emergiu no cenário da literatura, o escritor Joseph Wambaugh, que era um policial do Departamento de Polícia de Los Angeles, e cujos romances logo se tornaram best-sellers. Apesar do rápido reconhecimento, ele não abandonou de imediato o distintivo e permaneceu ainda algum tempo na força, como se relutasse em soltar de vez a arma para bater à máquina de escrever. Algumas de suas obras de ficção e não-ficção policial foram adaptadas para o cinema, como a obra-prima OS NOVOS CENTURIÕES (The New Centurions, 1972), de Richard Fleischer, THE CHOIRBOYS (1977), de Robert Aldrich e ASSASSINATO A SANGUE FRIO (The Onion Field, 1979), de Harold Becker. Agora, um dos aspectos mais interessantes desse fato de Wambaugh ser um autor-policial, ou seja, sua relação criativamente simbiótica com a criminalidade que o inspirava, é que poderia por si mesmo se tornar uma fonte de exploração.

Foi justamente isso que o Larry Cohen fez quando escreveu o roteiro de A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 1987). Sem adaptar diretamente livros de Wambaugh, o sujeito se inspirou na sua persona e numa história da criação de um livro que atravessa o vínculo paradoxal entre dois adversários e nos compromissos morais que isso acarreta. Um filme que confronta diretamente o que há de mais fascinante na relação entre policial e criminoso, a ideia de policial e assassino como dois lados da mesma moeda, o que não é exatamente algo original. Mas o que torna A MARCA DA CORRUPÇÃO um filme singular nesse sentido é a forma como ele articula esses elementos que fazem essa fusão funcionar na literatura e no cinema policial.

Belíssimo roteiro de Larry Cohen, diga-se de passagem, um dos melhores que já escreveu, dá até pena dele não ter também se colocado como diretor, teria feito um baita trabalho, como lhe é comum. Dos melhores diretores americanos da sua geração, como ressaltei no post anterior. No entando, como é o John Flynn no comando, não tenho nada do que reclamar. E sim, eu sei que o próprio Flynn retrabalhou o roteiro às suas sensibilidades, mas isso não importa. Dois mestres trabalhando juntos só poderia resultar num filmaço, independente quem fosse o diretor aqui.

Então temos em A MARCA DA CORRUPÇÃO esse policial escritor chamado Dennis Meechum (Brian Dennehy) sendo atraído por um assassino de aluguel (James Woods) que deseja a publicação de um livro expondo seus antigos patrões. Larry Cohen puro. Quase uma meditação sobre as instituições corrompidas, o indivíduo como peça descartável no grande tabuleiro corporativo. Mas a ideia de simbiose é central em A MARCA DA CORRUPÇÃO, já que boa parte do filme gira em torno do tempo que Woods leva para convencer Dennehy de sua legitimidade. Isso não acontece porque Meechum realmente duvide, mas porque ele precisa de tempo para validar internamente o vínculo mal admitido que sente com o homem que afirma desprezar.

Suas dúvidas sobre a credibilidade de Woods lhe dão o tempo necessário para conciliar esse crescente sentimento de dependência empática. Para isso, ele precisa pôr de lado sua moralidade e é essa renúncia que o atormenta. Já Woods está além dessas questões morais. Apesar de querer contar todos os podres e ferrar com os antigos patrões, ele claramente se delicia com a ideia de expor o abismo moral por trás da ética corporativa, e assim se vingar por terem lhe descartado. Como Dennehy, ele sente que perdeu seu propósito e quer recuperá-lo e essa é a ligação em comum que os dois compartilham e superam na dependência emocional crescente entre si. Woods quer ser visto como alguém simpático, e embora Dennehy despreze os crimes corporativos, o que mais o incomoda é a ideia de Woods ser heróico de alguma forma.

O filme é bastante hábil nessas caracterizações complexas, e há uma energia perturbadora entre os dois atores. Há um charme dissimulado na arrogância de Woods, ao qual Dennehy também reage. Sintomaticamente, Woods diz que Dennehy gosta dele “apesar de si mesmo”, uma percepção que persegue Dennehy ao longo do filme à medida que o desprezo inicial vira vínculo relutante e depois respeito. Chega num ponto que o personagem de Dennehy vai na casa dos pais de Woods para conhecê-los, ver álbuns de fotos.

Parte do prazer em A MARCA DA CORRUPÇÃO está em acompanhar o dilema de Dennehy, como tornar Woods simpático no livro em que fez o acordo de escrever e, ao mesmo tempo, manter sua paz interior. Apesar de Woods ser claramente um personagem moralmente desprezível e sexualmente perverso – a cena em que ele assassina um sujeito numa cabine de fotos além de acentuar toda a sua perversidade, é dessas dignas de antologia do cinema de ação policial oitentista, desses momentos que comprova a genialidade de John Flynn como diretor – ele é humanizado ao longo do filme, que se transforma num estudo prolongado do processo da empatia e como ela pode suplantar qualquer código moral ou social.

A empatia pode ser um impulso humano natural, mas o filme a retrata como algo ambiguamente desviante. Dennehy percebe isso e tenta constantemente se agarrar às diferenças entre eles, como policial e assassino. Enquanto Woods tenta apagar essa linha. E o filme faz com que o espectador compartilhe dessas emoções ambíguas. Essa autorreflexão sobre narrativas, jogos de poder, personagem e empatia é o que realmente diferencia Best Seller. Mas também tem John Flynn inspirado na condução de tudo, sempre econômico, com sua precisão característica. E embora o filme tenha essas camadas mais complexas, como quase todo filme que Larry Cohen esteja envolvido, Flynn ainda arruma tempo pra filmar alguns dos tiroteios mais elegantes dos anos 80, secos e sem muito glamour. Só com a noção espacial, composições, ritmo. Mestre supremo da ação.

Este texto é uma homenagem ao grande João Palhares, do blog Cine Resort. Um dos maiores admiradores de A MARCA DA CORRUPÇÃO que se tem notícia.

LARRY COHEN

Cinema B, paranoia urbana e crítica social

Passei os meses de março e abril deste ano fazendo uma peregrinação pessoal pelo cinema de Larry Cohen (apenas como diretor, se fosse como roteirista também, tava até hoje maratonando), algo que recomendo imensamente não apenas aos fãs de filmes de horror ou exploitation, mas a qualquer um realmente interessado em CINEMA.

Uma confirmação óbvia: Cohen foi um dos grandes nomes do cinema americano, com um talento descomunal em transformar limitações orçamentárias em força criativa. E repito: um dos grandes diretores não só de cinema de gênero, não só como independente e marginal, mas um nome a ser colocado ao lado de gente grande da sua geração, como Carpenter, De Palma, Flynn, Milius, Cimino e por aí vai.

Cohen sempre foi um autor subestimado, que transita entre gêneros fazendo comentários precisos sobre o estado das coisas, sobre o sistema, tratando de temas existenciais, filmes cuja superfície parecem um exemplar corriqueiro de um gênero qualquer, mas que de repente examina os pesadelos do consumismo, como em A COISA (The Stuff, 1985), ou o caos da paranoia urbana num filme de monstro como Q – A SERPENTE ALADA (Q, 1982). Apresenta arquétipos de personagens do mundo real sendo lançados em horrores maiores que a vida, uma habilidade que Cohen sempre executa com perfeição.

Não vou comentar aqui cada filme do sujeito porque a intenção não é deixar esse texto maior do que já vai estar. Quem tiver interesse pode dar uma olhada no meu perfil no Letterboxd, onde fiz comentários à medida em que ia conferindo cada filme. Aproveita e me segue por lá. Ou pra quem acompanha o meu Instagram de filmes, estou sempre atualizando por lá também (bons tempos em que tudo ficava concentrado em um só lugar. Hoje, para as pessoas te lerem não basta ter um blog, você tem que ter um blog, Twitter, Instagram, Facebook, Threads, Substack, Letterboxd e não sei mais o que… Mas tudo bem).

Por falar em mais dicas de leituras e Larry Cohen, no blog tem dois textinhos que acho até bem decentes sobre O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar, 1973) e FOI DEUS QUE MANDOU (God Told Me To, 1976). Por hora, quero registrar uns três ou quatro destaques dessa peregrinação recente pelo cinema do Cohen.

Deixando de lado um pouco os filmes mais óbvios, é a segunda vez que assisto THE PRIVATE FILES OF J. EDGAR HOOVER (1977), que no Brasil saiu em VHS com o título F.B.I. ARQUIVOS SECRETOS. Retrato fragmentado da vida de J. Edgar Hoover, desde a ascensão à paranoia do homem que transformou o FBI numa extensão de suas obsessões pessoais até a sua morte. Cohen filma tudo com um olhar quase documental, expondo o jogo sujo de décadas de manipulação e chantagens dentro do governo americano. Broderick Crawford encarna Hoover com uma rigidez impenetrável, enquanto o filme desmonta o mito do “grande defensor da lei”, revelando um homem movido por medo, poder e cheio de questões sobre sua sexualidade que Cohen não tem receio algum de abordar. Ou seja, filmaço.

O prpósito de transformar Hoover num homem complexo, sem tomar partido, não agradou muito o público americano. Nas trivias do imdb, tem uma declaração do Cohen que ressalta bem o tipo de diretor que ele era:

“Esse foi o problema que tivemos com o filme nos Estados Unidos. Os republicanos não gostaram e os democratas também não gostaram, porque mostramos o lado sombrio dos dois partidos políticos e de todos os presidentes. Ambos ficaram igualmente incomodados, então condenaram o filme. (…) eu sabia, desde o início, que o filme seria polêmico. Não era o que as pessoas queriam ver. Quando fizemos uma pré-estreia do filme no Kennedy Center, em Washington DC, ele enfureceu todos os senadores e deputados que compareceram — o que, acho, era exatamente o que eu queria fazer desde o começo: causar encrenca.”

E Cohen ainda faz questão de manter-se fiel à sua veia mais vulgar, mais pulp, de criador de imagens exploitation, não se inibindo em mostrar violência, filmando tiroteios daquele jeito cru e sem concessões, mesmo trocando aqui o horror e a fantasia por um registro mais “realista”.

INOCÊNCIA FATAL (Perfect Strangers, 1984) não tá nem entre os melhores do diretor, mas foi tanto uma grata surpresa quanto uma esquisitice que só poderia sair da mente de Cohen. Eu nunca tinha assistido.

Um matador de aluguel da máfia italiana (Brad Rijn, que aparece em vários trabalhos de Cohen) precisa eliminar a única testemunha de um assassinato que ele cometeu: um garotinho de dois anos. As coisas complicam quando ele se envolve com a mãe da criança pra se aproximar deles, criando uma tensão entre afeto e violência.

O filme parte de uma premissa que poderia facilmente descambar para o ridículo, mas Cohen transforma tudo num thriller bem mais interessante do que eu tava esperando. E há o olhar ácido de Cohen sobre a sociedade, moralidade e o poder das relações manipuladoras.

E é legal que Cohen sempre arruma um jeito de inserir pequenas excentricidades e detalhes que dão mais dimensão aos seus personagens, como por exemplo o assassino marcar sua própria sombra nas paredes com spray, quase um ritual, uma assinatura bizarra que reforça e eterniza sua presença fantasmagórica na cidade, num mundo onde ele, ironicamente, precisa ser invisível.

Cohen tava inspirado nesse período, meados dos anos 80, vinha de alguns filmes menores no início da década, como O JOVEM LOBISOMEM (Full Moon High, 1981), e SEE CHINA AND DIE (1981) e de repente começou a emendar algumas pedradas: Q – A SERPENTE ALADA, esse INOCÊNCIA FATAL e ESPECIAIS EFEITOS (Special Effects, 1984).

Este último é um dos melhores e mais criativos trabalhos de Cohen. Um cineasta decadente (Eric Bogosian) filma um snuff movie: ele mesmo cometendo o assassinato de uma aspirante a atriz (Zoë Lund). E decide transformar isso em seu próximo grande projeto, até mesmo para apagar os rastros do crime. Escala uma sósia da vítima no papel principal e manipula todos ao seu redor como marionetes.

E Larry Cohen brinca com tudo isso de forma magistral, no ápice de seu apuro estético (um dos filmes mais bonitos visualmente do cinema americano do período) e domínio da linguagem, e usa todo esse conceito pulp da trama pra dissecar algo maior: o cinema como ferramenta de controle, voyeurismo e perversão da realidade. Entre thriller neo-noir e metalinguagem, o filme joga com a ideia de que a ficção e a vida real se misturam de forma perigosa.

Assim que eu terminei de ver ESPECIAL EFEITOS (aliás, título nacional um tanto equivocado), eu tinha batido o martelo de que se tratava do meu favorito do Cohen junto com FOI DEUS QUE MANDOU. Mas aí que tá a graça de fazer essas maratonas. Perceber os altos e baixos de um diretor e vê-lo se superando quando parece que não há nada melhor que possa fazer.

No caso de Cohen, ele ainda tinha A AMBULÂNCIA (The Ambulance, 1990). Um dos que mais ansiava rever. Já tinha assistido na adolescência e depois de adulto, lembro de gostar em cada conferida, mas já fazia uns bons anos que não revia. E foi quando veio outra confirmação: A AMBULÂNCIA é a obra-prima de Cohen. Não tem jeito. Um de seus trabalhos mais vigorosos, o filme que o diretor se preparou durante toda a carreira para entregar, em que canaliza a essência do cinema B num slasher conspiratório, iluminado por neon, que mistura paranoia urbana, o seu típico humor sarcástico e crítica ao sistema, numa trama que parece saída direta de uma HQ pulp dos anos 70.

Uma joia escondida que todo cinéfilo que se preze deveria descobrir. Para os admiradores de Larry Cohen, é o último grande esforço de um diretor que nunca aceitou os limites da lógica narrativa, nem as regras do bom gosto. E para quem vive num mundo onde a saúde virou mercadoria, onde as instituições parecem cada vez mais abstratas e distantes, o filme é uma fábula urbana, um espelho grotesco da realidade.

O filme começa com uma enxurrada de imagens. Calçadas e esquinas públicas ocupadas por um mar de anônimos vagando sem rumo, ombro a ombro, lembra bastante as cenas gravadas em modo guerrilha que Cohen fazia nos anos 70, como em O CHEFÃO DE NOVA YORK e FOI DEUS QUE MANDOU, em que atores contracenam com transeuntes que nem sabem que estão sendo filmados. E é um dos motivos pelos quais sequências introdutórias como essa nos filmes de Cohen, tão simples e banais, acabam sendo tão interessantes quanto as de ação/suspense que a trama do filme precisa preencher durante a narrativa. Os diálogos, a expressividade dos atores, o registro do diretor, dá vontade que o filme todo seja isso.

Eric Roberts, com esse belo mullet aí em cima que faria Jean-Claude Van Damme em O ALVO se morder de inveja, vive um desenhista da Marvel (o filme conta até com participação do próprio Stan Lee) metido a herói tentando descobrir por que uma ambulância retrô anda sequestrando pessoas nas ruas de Nova York.

Depois da belíssima introdução, com clima de comédia romântica, na qual Eric Roberts paga de galanteador pra cima da moça que ele gosta (e ela mesmo acaba sendo vítima da ambulância), a trama se estabelece. E a partir daí, Cohen assume o modo mestre de suspense, exibindo seu domínio do gênero com uma série de sequências eletrizantes ao longo do filme. E como se espera de Cohen, o que começa como um mistério se transforma em algo maior, um épico slasher-policial que revela conspirações governamentais diabólicas e uma paranoia sistêmica. Tanto o humor quanto os momentos de horror e tensão nascem de um dos maiores medos da sociedade americana: o sistema de saúde.

O ritmo é alucinante, o suspense funciona, imagens sombrias da metrópole se entrelaçam com ataques assustadores da ambulância, criando alguns dos momentos mais peculiares da carreira de Cohen, com a ambulância rasgando o trânsito, subindo calçada, atropelando tudo e todos. Um cenário que rende um certo humor visual, seja intencional ou não, mas que Cohen é autoconsciente o suficiente para que, ao mostrar uma ambulância tentando ferir alguém, ele realce a deliciosa ironia disso. E sem precisar em momento algum criar discursos óbvios e politicagem.

Sequências como, por exemplo, os momentos finais do policial vivido por James Earl Jones, mascando um chiclete como um espasmo post mortem, ou tudo que se passa na boate com a policial de Megan Malloy, estão entre as mais sublimes da carreira de Cohen. Se hoje eu atualizasse minha lista de 100 filmes favoritos de todos os tempos, e em algum momento este ano o farei, definitivamente A AMBULÂNCIA entraria em algum lugar com merecido destaque. Perfeição.

E mais nada a dizer sobre Larry Cohen. Apenas gênio demais. E deixo aqui o meu top 10 final oficial pessoal do diretor:

10. A VOLTA DO MONSTRO (It Lives Again, 1978)
09. BONE (1972)
08. A COISA (1985)
07. F.B.I ARQUIVO SECRETO (1978)
06. NASCE UM MONSTRO (It’s Alive, 1974)
05. O CHEFÃO DE NOVA YORK (1973)
04. Q – A SERPENTE ALADA (1983)
03. FOI DEUS QUE MANDOU (1976)
02. ESPECIAL EFEITOS (1984)
01. A AMBULÂNCIA (1990)

Originalmente publicado no Substack

CINE POEIRA – NOVOS EPISÓDIOS E NOVIDADES NO YOUTUBE

Os dois últimos episódios da terceira temporada do CINE POEIRA já estão disponíveis no tocador de podcast da preferencia de vocês. Mas vocês podem ouvir por aqui, no blog, também:

O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar, 1973), de Larry Cohen

Clássico do blaxploitation, também um dos melhores filmes de um grande artesão do cinema de gênero: produção, roteiro e direção de ninguém menos que Larry Cohen. O longa narra a rápida ascensão e a vertiginosa queda de Tommy Gibbs, um implacável gângster negro. Gibbs – interpretado pelo ícone Fred Williamson – se revelará um anti-herói bem mais complexo e intrigante do que a média dos personagens que habitaram o cinema de ação e policial dos anos 70.

Recentemente fiz um textinho do filme aqui pro blog. É só clicar aqui.

A OUTRA FACE (Face/Off, 1997), de John Woo

Como de costume, o último episódio de uma temporada do CINE POEIRA sempre destaca um clássico imbatível. O filme da vez é A OUTRA FACE, provavelmente a obra-prima de John Woo durante o período em que ele trabalhou no cinemão hollywoodiano. John Travolta vs Nicolas Cage em um grande embate de atuações e sequências memoráveis de ação, com uma história de inesperada carga dramática para os padrões do gênero. O resultado final é um longa que tinha tudo para não funcionar e ser um corpo estranho na filmografia deste genial autor do cinema chamado John Woo. Mas funciona! E como funciona! É com muito prazer que encerramos a terceira temporada do CINE POEIRA com esse brilhante espetáculo de ação que só o melhor do blockbuster do final dos anos 90 poderia nos proporcionar.

CINE POEIRA NO YOUTUBE

ATENÇÃO: o podcast CINE POEIRA agora tem um canal no YouTube! Aos poucos estamos colocando os episódios das três temporadas por lá. Enquanto isso, vocês já podem se inscrever, dar like nos vídeos, compartilhar nas redes, com os amigos… E em breve teremos novidades, conteúdos exclusivos no canal.

É só clicar aqui

O CHEFÃO DE NOVA YORK (1973)

Revi O CHEFÃO DE NOVA YORK (Black Caesar), blaxploitation fundamental dirigido pelo grande Larry Cohen, para gravar mais um episódio supimpa do podcast Cine Poeira. Mas resolvi escrever algumas coisinhas também porque tava com saudade de postar algo sobre blaxploitation aqui no blog. E retomo ao tema em grande estilo porque é um dos meus filmes favoritos do subgênero. Tem uma boa história e direção cheia de energia de Cohen, uma trilha sonora fodida de James Brown (uma das raras que fez pra cinema) e atuação magistral de Fred Williamson, que interpreta um filho da puta cruel, uma espécie de atualização black motherfucker do anti-herói do cinema de gangster dos anos 30.

Obviamente que muitos relacionam O CHEFÃO DE NOVA YORK como o PODEROSO CHEFÃO do blaxploitation e até entendo a comparação. O filme do Coppola tinha ganhado a notoriedade que todos sabemos no ano anterior e qualquer filme de máfia que viesse em seguida ficaria à sua sombra. Mesmo um produto de baixo orçamento e mais apelativo como este aqui. O protagonista chega até a passar por um cinema onde o título do filme de Coppola pode ser lido na marquise. Mas tirando um detalhe ou outro, a influência maior de Cohen era realmente o cinema de gangster da Warner Bros. da década de 30. O próprio título original, BLACK CAESAR faz analogia a LITTLE CAESAR, de Mervyn LeRoy, estrelado pelo Edward G. Robinson, e baseado num dos grandes cássicos da literatura policial, escrito por William R. Burnett.

Então o que temos aqui é clássica trama de ascensão e queda. Seguimos Tommy Gibbs (Williamson), desde o tempo em que ele era engraxate no Harlem, executando tarefas para criminosos brancos em 1953 (que mais parece 1973, mas isso pouco importa), até atingir os degraus mais altos do mundo do crime em 1972. Cohen não se atenta aos detalhamentos dessa escalada de Tommy ao poder. Ele decide matar um sujeito que tava com a cabeça à prêmio, arranca a orelha da vítima e joga no prato de spaghetti do chefão local, pra ganhar respeito. E logo em seguida já estamos ouvindo a voz de James Brown entoando Paid The Cost To Be A Boss enquanto Fred Williamson imponente caminha pelas ruas do Harlen como o fodão dos fodões.

Cohen estrutura todo O CHEFÃO DE NOVA YORK com cenas chaves e elipses temporais sem qualquer concessão. Dias, meses e anos se passam num simples corte. E não demora muito já estamos ouvindo novamente James Brown com Ain’t It Cool to Be a Boss, enquanto Tommy assume o controle de todo o sindicato do crime, à base de balas e muito sangue derramado. Há uma sequência espetacular dos homens de Tommy invadindo um almoço italiano à beira da piscina com a nata da máfia, em LA, sendo sumariamente executada, com corpos ensanguentados boiando, e um plano detalhe genial de um frango assado sendo estourado à tiros. Desses momentos mágicos do cinema de exploração.

Como toda tragédia narrada sobre a conquista do poder, algo tem que dar merda. A arrogância de Tommy, sua ganância e sede de controle acaba por decretar sua queda. Perde a mulher, é corneado pelo amigo de infância – e parceiro de negócios – ele logo é percebido como um “negro branco”, seguindo os mesmos passos dos mafiosos italianos que estavam ali antes dele, sem ajudar os pobres e necessitados. Seus homens começam a ser abatidos, seu território fica ameaçado. A única coisa que o mantém são determinados cadernos de registros, uma folha de pagamento contendo nomes de altas figuras corruptas da política e polícia. O CHEFÃO DE NOVA YORK chama a atenção em manter as emoções em estado de ebulição. A dor do homem negro de não poder pertencer ao establishment sem se sentir um estranho. Mas as ideias peculiares de Cohen sobre justiça e moralidade são a de que criminosos são caras violentos, que destroem tudo ao seu redor, sejam lá de onde vieram, sejam negros ou brancos. Ainda assim, o filme atende aos medos e fantasias do público alvo e dá uma voz sobre a indignação dos negros e sua rixa contra a sociedade americana de uma forma bem convincente.

Rodado em apenas algumas semanas e com a câmera grosseira e marginal no estilo de guerrilha de Larry Cohen, o John Cassavates do cinema grindhouse, O CHEFÃO DE NOVA YORK tem vários momentos impressionantes. Dos encontros singelos do protagonista com seu pai, às cenas estilizadas com espaços com fundos negros para mascarar com maestria o baixo orçamento. Ou filmando nas ruas lotadas de Nova York sem autorização, com os transeuntes olhando pra câmera ou assistindo a performance genial de Fred Williamson. Sobretudo no terceiro ato, quando Tommy é gravemente ferido pelos pistoleiros de seu maior inimigo, o policial corrupto e racista McKinney (Art Lund), e anda vários quarteirões cambaleando com o bucho cheio de sangue.

O encontro final com McKinney é outro desses momentos impagáveis que prova a maestria dramatúrgica de Cohen. McKinney aponta uma arma para Tommy e não consegue resistir de provocá-lo exigindo um engraxate para rebaixá-lo ao máximo, para mostrar ao protagonista quem ele é, de onde veio, antes de matá-lo. Mas Tommy consegue se desvencilhar e esmurra McKinney repetidamente com a caixa de engraxate. O anti-herói negro esmagando a cabeça do vilão branco com uma caixa de engraxate não poderia ser simbolismo mais antológico para um clássico do blaxploitation.

Atordoado, Tommy retorna ao Harlem de sua infância, nos escombros dos prédios onde viveu, e acaba atacado num beco vazio por uma gangue de adolescentes que o espanca até a morte. Claro, com o sucesso do filme Cohen tratou de decidir que Tommy não morreu, e no mesmo ano lançaram a continuação, INFERNO NO HARLEN (Hell Up in Harlem).

No elenco, algumas figuras a se destacar. Gloria Hendry é um espetáculo, embora sua personagem, esposa de Tommy, careça de um desenvolvimento mais interessante. Ela só vai ganhar mais força lá pro final do filme. Art Lund é realmente ameaçador como McKinney. E a pequena participação de James Dixon, um habitual de Larry Cohen, é bacana como pistoleiro do policial corrupto.

Com bom ritmo, boa dose de ação, muito tiro e sangue, e um personagem principal realmente cool, O CHEFÃO DE NOVA YORK é um dos grandes da safra blaxploitation, ocupando um lugar próximo a clássicos como COFFY, SUPERFLY, SHAFT e outros exemplares que tornam o subgênero essencial aos interessados em exploitation. Quem se depara com esse petardo, nunca vai esquecer o poder, a força da natureza, o monumento que é Fred Williamson (curioso que o personagem foi pensado originalmente para Sammy Davis Jr…). Nem da genialidade de Larry Cohen como diretor, roteirista e produtor. E esse aqui tá longe de ser um de seus melhores trabalhos. De qualquer forma, altamente recomendado. Para quem está iniciando pelas plagas do blaxploitation, O CHEFÃO DE NOVA YORK é definitivamente um dos mais importantes a conferir.

E assim que o episódio do Cine Poeira estiver disponível, compartilho por aqui.

MANIAC COP no Cine Poeira

Esta semana, no podcast CINE POEIRA, a gente bateu um papo sobre o clássico cult oitentista MANIAC COP, de 1988. Dirigido por William Lustig e escrito por Larry Cohen, o filme é sobre um policial, que também é um maníaco assassino, vivido pelo lendário Robert Z’Dar, que vai transformar as ruas de Nova York num verdadeiro caos urbano! E vai ter que encarar pelo caminho umas figuras como Tom Atkins, Bruce Campbell, William Smith, Richard Roundtree e Laurene Landon. Um festival de violência, assassinatos e perseguições num filme imperdível.

O podcast pode ser ouvido na plataforma de sua preferência (Spotify, Anchor, Castbox, iTunes e diversos outros), basta buscar pelo Cine Poeira. Ou, se quiserem, é só dar o play no tocador abaixo. Espero que gostem.

FOI DEUS QUE MANDOU (1975)

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FOI DEUS QUE MANDOU (God Told Me To) poderia ter sido o que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA foi para Tobe Hooper, ou o que HALLOWEEN foi pro Carpenter. Produções relativamente pobres que renderam muito mais que o esperado. Infelizmente Larry Cohen não teve a mesma sorte. Até que é um filme bem realizado, cheio de idéias e reflexões filosóficas que transcende gêneros, que dialoga e propõe um olhar social. É uma pena, portanto, que tenha sido condenado ao limbo, onde só mesmo interessados por cinema grind house e produções de baixo orçamento de gênero têm o devido contato.

A abordagem de Cohen aqui é de um pessimismo quase poético. Em seu nível superficial, FOI DEUS QUE MANDOU é uma história de investigação policial, que se passa em Nova York. O filme começa com um atirador, empoleirado em uma torre de água no alto de um prédio, usando pessoas aleatórias nas ruas como alvo. Cohen filma com uma câmera na mão, no meio da multidão, num estilo seco e documental de fazer um Cassavetes se encher de orgulho, enquanto os tiros ecoam entre os prédios e os corpos começam a se acumular.

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Tony LoBianco (OPERAÇÃO FRANÇA) é o detetive Peter Nichols, que sobe a torre para confrontar o atirador e obtém uma resposta ao caos sofrido por esse homem. Quando perguntado a razão dele estar atirando nas pessoas, e antes de mergulhar em sua morte suicida, o atirador diz ao detetive que Deus lhe disse para fazê-lo. Um olhar desesperado atravessa o rosto de Nichols. As palavras “foi Deus que mandou” são poderosas o suficiente para afastá-lo de sua complacência e abrir o seu tormento psicológico há tanto tempo reprimido. Talvez palavras poderosas o suficiente para sacudir sua perda de crença religiosa e se tornar um ímpeto para a autodescoberta.

Em relação à religião, FOI DEUS QUE MANDOU não é uma jornada cheia de redenção ao estilo do que Martin Scorsese fazia na época. A cidade de Cohen em Nova York é tão suja e decadente quanto em CAMINHOS PERIGOSOS e TAXI DRIVER, mas Cohen não oferece a oportunidade para o resgate de Nichols como Scorsese faz com seus personagens. Para Travis Bickle (Robert De Niro em TAXI DRIVER), a redenção vem através de uma jornada de escuridão neurótica e uma explosão de violência. Já Cohen resolve impor à Nichols uma excursão às trevas do misticismo ou infiltração alienígena, mas cujo resultado não deixa de ser perturbador em sua abordagem à falibilidade humana e à perda da conexão com Deus.

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Nichols, em certo sentido, segue os passos de Travis Bickle, mas Cohen também se recusa a aceitar a realidade como base para sua história. Onde Travis sai do controle em um pano de fundo real, Cohen intercala o deslizamento de Nichols com o fantástico. O mistério para Nichols não é apenas descobrir quem está por trás dessa série de assassinatos realizados por pessoas que o fazem “à mando de Deus”, mas uma jornada existencial de autodescoberta. Os assassinatos são um catalisador para Nichols descobrir onde ele próprio se insere nessa trama. Todas as mortes levam à ele, que por sua vez levam a um homem chamado Bernard Philips (Richard Lynch), que se diz Deus, mas que acaba por ser uma espécie de mistura reencarnada de Cristo e do Diabo.

O discurso apocalíptico de Philips de alguma forma leva Nichols para sua mãe, que está em uma casa de repouso. Ao que parece, ela foi sequestrada por alienígenas quando era jovem e algum tempo depois concebeu Nichols, embora fosse virgem na época. Isto, naturalmente, alude à Virgem Maria e ao nascimento de Jesus Cristo. No universo de Cohen, não é despropositado fazer essas conexões.

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FOI DEUS QUE MANDOU funciona bem como complemento para outros trabalhos talvez mais conhecidos de Larry Cohen, como I’TS ALIVE (74) e Q (82). Todos os três filmes são visões apocalípticas que evidenciam a ira de Deus em resposta às desilusões da estrutura familiar (IT’S ALIVE), um Deus que envia uma serpente alada contra a humanidade (Q) e, no mais emblemático, FOI DEUS QUE MANDOU, acentua a incapacidade do homem de discernir o poder de Deus, especialmente o do antigo testamento, vingativo, que usa o homem como peão para sua própria destruição.

IT’S ALIVE III – ISLAND OF THE ALIVE (1987)

IT’S ALIVE III – ISLAND OF THE ALIVE costuma ser apontado como a ovelha negra da trilogia dos bebês monstros criada pelo genial Larry Cohen. Lembro de ter visto fragmentos dele no SBT, já no fim dos anos 90, exibido como A ILHA DOS MONSTROS, mas sem nunca ter acompanhado o filme inteiro. Revendo agora, fica claro o motivo do estranhamento. Se os dois primeiros carregavam a elegância sombria do horror setentista, este terceiro capítulo, feito quase dez anos depois, abraça sem vergonha o espírito mais escrachado e exagerado do horror oitentista.

Cohen já havia levado a franquia por caminhos inesperados em IT LIVES AGAIN, mas aqui ele chuta o balde de vez. ISLAND OF THE ALIVE expande o universo da série em direções cada vez mais absurdas, misturando humor, drama, delírio e, claro, muito sangue. É um filme que não conhece freio nem bom senso para o nosso prazer.

Michael Moriarty assume o protagonismo como um ex-ator completamente desequilibrado que, por uma ironia do destino, é pai de um dos famigerados bebês monstruosos. O filme já começa em tom operístico, com o personagem implorando pela vida do “filho” diante de um tribunal, enquanto a criatura rosna e se debate dentro de uma jaula. A essa altura da franquia, os bebês já não são mais automaticamente exterminados: o governo decidiu isolá-los numa ilha, onde são largados à própria sorte, vivendo como conseguem, longe do continente.

Curiosamente, ISLAND OF THE ALIVE não se interessa tanto pela ilha em si, mas pelo colapso psicológico do personagem de Moriarty. Marcado para sempre como o pai de uma aberração, ele vê sua vida e sanidade se esfarelarem aos poucos. Não consegue se relacionar com ninguém, muito menos com mulheres — especialmente com sua ex-esposa, mãe da criatura, interpretada por Karen Black. A cada nova situação, fica evidente que o sujeito está à beira, ou além, do colapso mental. E isso é só o começo do filme, uma premissa…

Tentar descrever a trama de forma linear é quase inútil, porque acontece coisa demais, e a maioria não faz o menor sentido, de uma forma positiva. Em determinado momento, Moriarty parte numa expedição à ilha dos monstros com um grupo de desavisados. Lá, ele finalmente perde qualquer resquício de lucidez, a maioria dos integrantes acaba dilacerada, e o protagonista retorna ao continente num barco carregando as criaturas. Por ser pai de uma delas, ele não é atacado, mas acaba jogado ao mar, vai parar em Cuba e precisa encontrar um jeito de voltar aos Estados Unidos. Sim, é exatamente esse tipo de filme. Uma sucessão ininterrupta de acontecimentos cada vez mais bizarros. Tem como não se divertir com isso aqui?

Além dessa narrativa completamente desgovernada, mas que, de algum modo, me prendeu do início ao fim, outra grande diferença aqui é o posicionamento emocional. Pela primeira vez na série, me peguei torcendo não só pelo protagonista, mas também pelos monstros, alguns já crescidos e do tamanho de um ser humano. Ver essas criaturas soltas, se defendendo e até se dando bem, pareceu muito mais interessante do que vê-las sendo abatidas como nos filmes anteriores. Os efeitos especiais também mudam. Nada de Rick Baker desta vez: os monstros em movimento são animados em stop motion, o que lhes dá mais visibilidade, embora perca aquele clima misterioso criado pelas sombras nos dois primeiros filmes. Já as criaturas adultas são interpretadas por atores maquiados de forma bastante tosca. Mas há ali um charme inegável do horror mais rasteiro, exagerado e artesanal (sei que “trash” é um termo mal utilizado, mas espero que o sentido aqui esteja claro).

Apesar de todos os elogios que coloquei carinhosamente neste texto, é impossível negar que este é o filme mais fraco da trilogia. Não por ser ruim, longe disso… Quero dizer, ruim ele é, mas num bom sentido, me diverti bastante com essa insanidade sem rédeas. Mas é o mais fraco simplesmente porque os dois primeiros são realmente magníficos. Eles vão além do horror, dialogam com questões morais, sociais e políticas de forma surpreendente. ISLAND OF THE ALIVE, no fim das contas, se contenta em ser um filme de monstros. Mas que fique claro: um filme de monstros dos mais pitorescos e divertidos dos anos 80.

IT LIVES AGAIN (1978)

O mais interessante em IT LIVES AGAIN é que Larry Cohen não opta pelo caminho mais fácil de simplesmente requentar os elementos do filme anterior. Em vez disso, ele realmente se empenha em expandir o universo dos bebês monstros que criou, ampliando tanto o escopo narrativo quanto o peso moral da história. É verdade que, mais uma vez, acompanhamos um casal em situação semelhante à dos Davis no filme de 1974, mas os desdobramentos agora são radicalmente diferentes. Aqui, o bebê mutante é capturado logo ao nascer, colocado numa gaiola e levado para um centro de pesquisas secreto, onde já existem outros dois exemplares da mesma espécie sendo estudados. Nada daquela figura solitária vagando pelas ruas e deixando um rastro de mortes como no primeiro filme. Cohen troca o horror urbano quase acidental por algo mais institucional, mais frio e, de certa forma, ainda mais perturbador.

Alguns elementos, claro, precisavam ser mantidos para o bem da série. O principal deles é a acidez com que Cohen tempera seu horror com uma análise moral direta, agora ainda mais dramática e explícita do que em IT’S ALIVE. O filme não tem pudor algum em discutir controle estatal, ética científica, aborto, eugenia e o valor da vida, tudo isso embrulhado em um exploitation de horror que jamais finge ser neutro.

E não, quatro anos de intervalo entre um filme e outro não significaram um aumento no orçamento. Cohen precisa, mais uma vez, demonstrar criatividade para driblar as limitações financeiras. A forma como ele filma os bebês é um ótimo exemplo disso: quase sempre em relances, envoltos em sombras, enquadrados de maneira mais sugestiva. Esse jogo com a escuridão não só resolve um problema técnico como também adiciona uma camada de mistério e desconforto. Cohen é um mestre do horror americano, e eu demorei demais para perceber isso.

Há também mais espaço para a violência gráfica, com destaque para o excelente trabalho de maquiagem e efeitos especiais de Rick Baker, que dá textura e credibilidade às criaturas. John P. Ryan retorna como Frank Davis, agora assumindo a missão de alertar casais prestes a dar à luz bebês mutantes. É o caso de Jody e Eugene Scott (interpretado por Frederic Forrest), que vivem o drama de esperar um filho enquanto o governo se prepara para exterminar impiedosamente qualquer criatura que nasça fora do “padrão”. Enquanto isso, Davis trabalha ao lado de um grupo de cientistas, entre eles um personagem vivido pelo sempre ótimo Eddie Constantine, cuja intenção é salvar e estudar essas criaturas em vez de simplesmente eliminá-las. O embate entre ciência, governo e moralidade dá ao filme um peso dramático inesperado para um horror B.

O casal protagonista merece destaque especial. Suas discussões são intensas, bem encenadas e emocionalmente críveis, afinal, não é todo dia que o filho tão esperado nasce mais feio que o Ronaldinho Gaúcho. John P. Ryan, por sua vez, retorna com um personagem muito mais interessante e carregado de culpa e urgência. Em determinado momento, quem também reaparece é James Dixon, o detetive responsável pelo caso no primeiro filme. Curiosamente, o único personagem presente nos três filmes da série. O grande John Marley completa o elenco, chefiando a operação governamental com a autoridade de sempre. IT LIVES AGAIN consegue manter o mesmo nível reflexivo do filme de 1974, expande seu universo de maneira inteligente e ainda entrega um horror atmosférico de primeira. No Brasil, recebeu o título A VOLTA DO MONSTRO e, como esqueci de mencionar anteriormente, IT’S ALIVE ficou conhecido por aqui como NASCE UM MONSTRO. Clássicos absolutos. Em breve, o terceiro para fechar a trilogia.

IT’S ALIVE (1974)

Preciso voltar a escrever com mais frequência sobre filmes de horror. É um gênero que eu amo tanto quanto ação e tenho estagnado o blog apenas com este último gênero… não pode. Portanto, decidi tomar jeito na vida e encarar a trilogia do Larry Cohen, IT’S ALIVE, que nunca tinha visto, para tentar reativar esse lado aterrorizante adormecido. Assisti ao primeiro hoje e encontrei um autêntico clássico!

Com uma atmosfera magnífica e extremamente original, o título remete ao clássico FRANKENSTEIN, de 1931, onde o cientista Henry Frankenstein grita ao dar vida ao seu monstro “It’s Alive! It’s Alive!”. O protagonista deste aqui, Frank Davis (o ótimo John Ryan) comenta, em determinado momento, que quando era pequeno pensava que Frankenstein era o monstro, vivido por Boris Karloff… e quem nunca pensou isso na infância? Essa cena reflete um bocado a situação do personagem ao se sentir o próprio Frankenstein por ter criado, com sua esposa, um bebê monstruoso terrível (concebido pelo Rick Baker), dotado de dentes afiados e garras bem amoladas. A criatura mal deixa a barriga da mãe e massacra meia dúzia de médicos e enfermeiras. A cena acontece off screen, mas a maneira como o suspense é construído demonstra a maestria de quem entende da linguagem do cinema.

Logo depois, o bebê monstro foge do hospital e desaparece, tendo todo esquadrão da polícia em seu encalço e ainda alguns pesquisadores científicos interessados em estudá-lo. E é nesse cenário que o diretor e roteirista Larry Cohen explora alguns tópicos de seu interesse em IT’S ALIVE, lançando seu olhar sobre a família de classe média americana e seu comportamento diante de um fenômeno ligado ao fantástico, sem contar as alfinetadas na industria farmacêutica e suas imprudências, um provável responsável pelo surgimento do monstro. Há também alguns exageros cômicos na maneira de agir da polícia, especialmente quando um grupo de agentes da lei muito bem armados cercam o suspeito: um bebê fofinho tranquilão… É dessas cenas comprovam a genialidade de um diretor!

É preciso destacar o modo como Cohen vai brincando com esses temas, driblando a evidente falta de recurso, de maneira inteligente e reflexiva, sem ignorar os elementos do horror. Isso implica também na parte técnica, mas o sujeito consegue se sair bem até nesse aspecto. De acompanhamento musical estamos bem servidos: Bernard Herrmann (não me pergunte como conseguiram). E a forma como Cohen filma a criatura, por exemplo, sempre de relance, nas sombras, é outra estratégia interessante, aguça ainda mais o clima de horror e também a curiosidade do espectador, algo que foi totalmente destruído com a popularização do CGI em qualquer produção de fundo de quintal.

Sempre tive consciência da reputação de IT’S ALIVE. É merecida. Filmaço simplesmente perturbador e muito perspicaz! As continuações também são escritas e dirigidas pelo Cohen. Pelo que andei lendo por aí, o segundo mantém o nível, já o terceiro possui uma fama ruim. E como eu costuma gostar dessas ovelhas negras… Mas chegaremos lá!