A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 (1993)

A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985) é um clássico incontestável, cujo status icônico foi certificado com sua divertida mistura de horror e humor, a ideia de zumbis especificamente sedentos por cérebros, algo que se tornou um pilar da cultura pop, a clássica dança de Linnea Quigley no cemitério e já comentei por aqui porque adoro esse filme. Comentei recentemente também sobre a continuação muito mais cômica de 1988. E agora chegou a vez do terceiro capítulo da franquia. Na prática, tirando alguns pontos de trama, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 (Return of the Living Dead 3) é um filme independente, que deixa de lado os elementos cômicos dos dois primeiros e segue por um caminho radicalmente diferente, resultando não apenas em uma das continuações mais originais de qualquer franquia, mas também em um dos filmes mais singulares do subgênero zumbi.

Estamos entrando no território do grande Brian Yuzna, então não é qualquer coisa. Sempre foi um sujeito particularmente habilidoso em pegar franquias já estabelecidas pra transformá-las em algo quase irreconhecível e, justamente por isso, únicas. Em vez de respeitar cegamente continuidade, tom ou expectativas do público, Yuzna trata continuações como um território experimental, às vezes usando apenas o nome da série como ponto de partida para explorar obsessões muito pessoais. E A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 é o exemplo perfeito disso, ele abandona a comédia dos dois primeiros filmes e entrega um romance trágico e visceral, que funciona bem como filme único.

Um dos casos mais radicais de sua filmografia talvez seja INITIATION: SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT 4, que ignora completamente o slasher natalino dos capítulos anteriores e se reinventa como um horror ocultista, erótico e lovecraftiano, mais próximo de SOCIETY, seu primeiro trabalho como diretor, do que de qualquer “filme de Papai Noel assassino”. Em todos os casos, Yuzna demonstra pouco interesse em agradar fãs puristas. Preciso assistir logo as suas continuações de RE-ANIMATOR…

Por aqui, Yuzna pega a franquia de zumbi criada por Dan O’Bannon pra trazer à tona a tal história de amor shakespereana. Em busca de emoção, os jovens amantes Curt (J. Travor Edmond, que é a cara do Edward Furlong, só que mais velho) e Julie (Melinda Clarke) se infiltram em uma base militar onde o pai de Curt comanda um projeto destinado a transformar cadáveres em armas de guerra por meio do químico Trioxin, responsável pelo surto zumbi nos dois primeiros filmes. Mais tarde, naquela mesma noite, os dois sofrem um acidente de moto que mata Julie instantaneamente.

Lembrando-se do que viu na base, Curt, em um ato de desespero, retorna ao local e expõe o corpo de Julie ao Trioxin, conseguindo trazê-la de volta à vida. A princípio, Julie parece normal, mas logo descobre uma fome incontrolável por carne humana, que só é aplacada ao infligir dor a si mesma. E obviamente qualquer pessoa que ela morde acaba infectada. Com o exército e uma gangue de marginais latinos em seu encalço, o casal se refugia nos esgotos, ambos lutando para lidar com a condição de Julie, ajudados por um andarilho conhecido como Riverman, personagem que vai se destacar pelo seu gesto simples, um marginal que se demonstra o mais humano dentro de um filme que é o caos.

Volto a bater na mesma tecla, mas é sempre revigorante quando um filme, ainda mais uma continuação dentro de um subgênero específico, se afasta da fórmula típica e tenta algo diferente, e como podem ver A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 faz exatamente isso. A mistura de carnificina zumbi explícita com uma história de amor é, sem dúvida, uma combinação estranha, mas Yuzna a conduz com notável facilidade. E talvez o aspecto mais surpreendente do filme seja a força de sua história de amor. Com certa frequência vemos romances em filmes de gênero que parecem deslocados e artificiais, mas aqui ocorre exatamente o oposto e a relação entre Curt e Julie é a espinha dorsal do filme e, acima de tudo, soa crível.

É evidente que precisamos relevar, ou pelo menos entender, o fato de que Curt é facilmente um dos sujeitos mais burros da história do cinema de horror. E a trama precisa andar à base de sua burrice. No início do filme ele vê experimentos com cadáveres, sabe que o Trioxin causou surtos zumbis anteriores, tem um pai diretamente envolvido nesse projeto militar e, ainda assim, decide invadir a base para ressuscitar a namorada morta, como se isso pudesse terminar de outra forma que não em tragédia. Ao longo do filme, o rapaz ignora TODOS os sinais evidentes de que Julie não voltou “normal”. Ele trata automutilação e fome por carne humana como meros efeitos colaterais administráveis e confunde amor com negação absoluta da realidade, colocando em risco não só a própria vida, mas a de qualquer um ao redor.

O mais grave é que Curt nunca pensa no coletivo, na contenção da infecção ou nas consequências maiores de seus atos. Tudo se resume ao seu drama romântico adolescente. Mas como disse, sua estupidez não é um erro de roteiro, não é um personagem mal escrito, mas uma escolha deliberada. É um protagonista trágico, movido por paixão cega, cuja burrice é o motor da narrativa e a razão pela qual o filme existe, para que acompanhemos as consequências inevitáveis de suas decisões. O que resulta em muita tregédia e violência, claro, mas também em vários momentos genuinamente doces, sem nunca cair no piegas, o que considerando o tipo de filme aqui é um feito e tanto.

Claro que A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 não funcionaria tão bem sem Melinda Clarke, que, para todos os efeitos, é o filme. Clarke possui uma presença avassaladora tanto em sua forma viva quanto morta, além de uma grande versatilidade. Ela lida com todos os aspectos da personagem, especialmente nos momentos mais delicados, que elevam consideravelmente o peso dramático. Em um momento estamos ali torcendo por essa zumbi em agonia, tentando controlar seus impulsos, recebendo todo o cuidado possível do seu amado, ao mesmo tempo, num instante, ela é capaz de dar uma guinada completa e arrancar o queixo de um homem com os dentes, com a mesma convicção. Baita atuação.

O visual de Julie em sua forma zumbi plena, quase cenobita, que remete a um body horror à la Clive Barker, com estilhaços de vidro saindo do rosto e dos ombros, piercings nos mamilos e nos lábios, espinhos de metal surgindo das pontas dos dedos, espirais metálicas cravadas em várias partes do corpo e feridas profundas marcando o peito, é inesquecível. A revelação da sua aparência é talvez o momento mais marcante do filme. Ainda mais impactante quando combinada com a montagem anterior mostrando Julie cravando os diversos objetos cortantes em sua própria pele. Uma sequência-chave e um exemplo notável da habilidade de Yuzna.

Em alguns momentos percebe-se as limitações de orçamento, sobretudo nas cenas que se passam na base militar, com aqueles guardinhas fazendo ronda. Uma coisa meio pobre, parece um filme do Jeff Leroy. Mas na maior parte do tempo, Yuzna consegue contornar as restrições de grana e deposita quase tudo nos efeitos especiais e maquiagem gore, transformando o filme num verdadeiro banho de sangue. O clímax é um destaque, com zumbis concebidos de forma criativa causando todo tipo de caos. E a participação do Riverman aqui é coisa de gênio. Enquanto os filmes anteriores tinham uma violência gráfica atenuada pelo tom de humor, por aqui tudo soa mais pesado, mais difícil de assistir. A cena em que Julie literalmente come pedaços de cérebro dentro da van onde um sujeito levou um tiro na cabeça confesso que me deu uma embrulhada no estômago.

Com alguns pequenos ajustes, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 poderia facilmente ter sido uma obra totalmente independente e, em essência, ele é. Ainda assim, no contexto das coisas, por ser o terceiro filme a carregar o nome RETURN OF THE LIVING DEAD, talvez esteja condenado a ser um pouco subestimado pelos puristas e sempre julgado em relação ao primeiro longa. Mesmo assim, a personagem Julie, em seu modo zombie, acabou se tornando icônica para muitos fãs do gênero, e com toda razão.

E quando comparado à atual onda de produções com zumbis, o filme ainda soa como o sopro de ar fresco que foi quando lançado. Eu ainda tenho um certo apego ao primeiro filme, diria que ainda prefiro o original. Mas este aqui não ficaria muito atrás. Sem dúvida, uma das melhores produções americanas de cinema de gênero dos anos 90.

A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 (1988)

Apesar de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985) continuar firme como um dos grandes filme de zumbis dos anos 80, sua primeira continuação sempre carregou uma fama um bocado ingrata. A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 (Return of the Living Dead: Part II) nasceu cercado de desconfianças, rejeição e chacota, muito por não contar com Dan O’Bannon e por trocar o equilíbrio perfeito entre horror gráfico e humor ácido por algo mais cartunesco, um tom de comédia mais infantilizado. Ainda assim, revendo hoje depois de mais de trinta anos, sinto que o filme mereça uma reavaliação menos raivosa.

Uma continuação que nunca quis ser continuação

Foi dirigido por Ken Wiederhorn (já comentei filme dele aqui, UMA CASA NA COLINA, com o Michael Madsen), gosto de algumas coisas dele e, embora tenha feito um nome com filmes de horror – bom, pelo menos para os entusiastas do gênero que o conhecem – o sujeito nunca escondeu sua pouca afeição pelo gênero horror. Há uma entrevista com ele de 2013 que abre com o entrevistador surpreso por saber que ele não curte tanto filme de terror. E o sujeito responde:

Não é que eu não goste, é só que não era algo que eu queria fazer quando comecei. Aqui funciona assim: quando uma porta se abre, você atravessa. Mesmo que isso signifique fazer um filme num gênero pelo qual você não tem um interesse particular. Então, não posso dizer que eu tenha um interesse profundo por horror, mas foi o que eu consegui fazer. É o que é.

E assim, dos sete filmes que tem no currículo, quatro são de horror e o CASA NA COLINA, que é um thriller, quase flerta com o gênero. Os outros dois são comédia. Que aliás, nos traz de volta a A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2, que considerei como horror, mas também é uma comédia e que no projeto inicial nem era sequer uma continuação de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS. O roteiro já tinha uma pegada de comédia de horror, mas era independente, sobre um garoto e zumbis. Até que os produtores enxergaram ali uma chance de manter vivo o filme de Dan O’Bannon como franquia.

Daí que provavelmente vêm os remendos que surgem aqui, personagens reciclados com a sensação constante de déjà vu, reforçada pela volta de James Karen e Thom Mathews (acima), agora como Ed e Joey, basicamente versões reembaladas de Frank e Freddy do primeiro filme. É estranho, mas também faz parte do charme torto do filme. Há uma cena em que Mathews chega a comentar que está com sensação de que tudo aqui aconteceu antes. E num outro momento eles recriam o diálogo:

Cuidado com a língua, garoto, se você gosta deste emprego
Gostar deste emprego?!

O mesmo filme… Só que para outra idade

A trama tem suas diferenças, mas é quase um replay do filme original. Um daqueles cilindros que guarda os zumbis meio mumificados se perde, crianças curiosas descobrem e começam a futucar, o gás vaza perto de um cemitério, os mortos ressuscitam, militares entram em cena… Um monte de coisa parecida com o original. A grande diferença está talvez no círculo de personagens centrais. Saem de cena os punks, entra a fantasia suburbana infantil. Jesse, o protagonista mirim, ocupa o centro da história, e o filme se alinha mais a uma lógica de “criança enfrentando seus pesadelos” do que o niilismo desesperado do primeiro longa. Não por acaso, o terror aqui nunca pesa de verdade. A violência existe, os zumbis comem cérebros, mas tudo é filtrado por um humor exagerado, com uma pegada de matinê.

E aí que mora alguns pontos de discussão, o fato desta PARTE 2 abandonar um horror mais pesado em favor de um humor mais bobo, da comédia. Uma mistura que funcionava tão bem no filme de 1985 aqui há um possível e relativo desequilibro. Digo como uma possibilidade e relativizando porque existe gosto pra tudo, tem gente que adora isso aqui e muita gente detesta a maneira como humor desse filme se integra ao horror.

Mas é fato que as piadas por aqui são mais escancaradas, o tom é mais infantilizado, e muitas cenas flertam com o pastelão. De que lado eu fico no meio desse entrave? Eu acho que na maior parte do tempo funciona, especialmente se já tiver em mente que a proposta do filme é essa. Pra mim, diverte. Há bons momentos com gags que misturam violência num estilo cartunesco, como a da cabeça decapitada do zumbi mordendo o dedo de um dos personagens, ou a cena em que Suzanne Snyder soca um zumbi até ele virar um chafariz de gosma verde.

A ovelha negra da família

Agora, é evidente que nem tudo vai funcionar. Num bom dia talvez eu abra um sorriso pro zumbi imitando o Michael Jackson no clip de THRILLER no final… Mas às vezes o humor por aqui só soa preguiçoso mesmo. E o tom infantil, a falta de risco dramático esvazia qualquer tensão real que o filme poderia ter. E mesmo assim não é nada absurdo que estrague a experiência. O clima de horror leve, meio bobo, acho que funciona bem como porta de entrada pro subgênero. Inclusive, lembro de assistir quando criança, tenho quase certeza que foi o primeiro filme de zumbi que vi na vida, passava na TV aberta em plena tarde…

Acho injusto que tenha fracassado nos cinemas, foi massacrado pela crítica e jamais ganhou o status cult que outros filmes ruins, ou excêntricos, conquistaram. Mas revisto hoje, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 é melhor do que sua reputação indica. Não é um grande filme, mas é um bastardo da franquia. Um corpo estranho que diverte mais do que deveria, especialmente se visto sem a sombra sufocante do original. Os efeitos práticos são divertidos, os zumbis animatrônicos são um barato. Ken Wiederhorn até pode não estar muito inspirado com a câmera por aqui. Mas a fotografia pelo menos é de Robert Elswit, futuro colaborador de Paul Thomas Anderson, vencedor do Oscar por SANGUE NEGRO. O sujeito dá ao filme um visual muito acima da média para uma continuação descartável dos anos 80.

Nunca vai superar e nem chega perto do primeiro. Até porque o original, como já disse, é um dos melhores filmes de zumbi dos anos 80, então acho que é compreensível. No entanto, como toda ovelha negra decente, ele sobrevive quando abandonamos a má vontade e o encaramos pelo que realmente é: um filme errado, curioso e melhor acabado do que muitos cadáveres dos anos 80. Já nos anos 90, teve A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 (1993), do grande Brian Yuzna, e em 2005, já na era direct to video, vieram RETURN OF THE LIVING DEAD: NECROPOLIS e RETURN OF THE LIVING DEAD: RAVE TO THE GRAVE. Esses dois últimos nunca vi, mas tem cara de bomba…

Notas sobre filmes recentes

A partir de anotações do meu Letterboxd.

MICKEY 17 (2025, Bong Joon Ho)

A premissa de MICKEY 17 me chamou a atenção de imediato, desde que saíram as primeiras notícias, trailer, etc… Um operário descartável, o tal Mickey 17, em uma missão de colonização espacial, condenado a morrer repetidas vezes e ser substituído por clones que preservam todas as suas memórias. É um ponto de partida cheio de possibilidades filosóficas e existenciais. Bong Joon Ho, como de costume, usa esse enredo para dar continuidade a algumas reflexões que já vêm atravessando sua filmografia, como desigualdade, exploração, relações de poder, de maneira bastante evidente. O que pesa mais pra mim é a execução, que nem sempre encontra o mesmo nível de frescor ou impacto de seus melhores trabalhos.

Pra falar a verdade, achei bem chatinho, sobretudo quando perde algumas boas oportunidades. Por exemplo, quando surge em cena o Mickey 18 e a narrativa flerta com a ideia de tensão e dualidade entre essas duas versões do mesmo ser. Só que esse conflito, que poderia ser o coração do longa, é tratado de maneira superficial, sem mergulhar de fato no que significa coexistir com a própria cópia, com a própria consciência duplicada. O filme não se interessa muito em desenvolver isso, o que é uma pena. Ainda assim, o resultado não deixa de ter seus momentos. O projeto é visualmente instigante, tem passagens divertidas e uma atmosfera curiosa, mas é Robert Pattinson quem realmente sustenta a experiência. Seu trabalho no papel duplo é o que injeta vida e carisma na trama, evitando que ela se perca de vez na própria repetição. Mas o filme fica nesse meio-termo, uma boa premissa, uma execução irregular, mas uma atuação central que vale a visita.

IN THE LOST LANDS (2025, Paul W.S. Anderson)

O filme carrega um pouco de uma vibe “Albert Pyun com orçamento”, o que por si só já desperta certa curiosidade. Ao mesmo tempo, há uma sensação de um certo desespero em colocar muitos elementos na mesma panela: temos pós-apocalipse, monstros, western, bruxaria, crítica religiosa… tudo misturado em uma salada de referências que, no fim, não consegue ser realmente satisfatória em nenhuma dessas frentes. O visual estilizado e hiper artificial até funciona em alguns momentos. Dá pra perceber o cuidado de Paul W.S. Anderson em manter-se fiel à sua própria lógica estética, aquele exagero que sempre marcou sua carreira. Algumas sequências de ação, inclusive, são criativas e mostram flashes do diretor que sabe brincar bem com ritmo, espaços e cenários, como fez nos seus melhores filmes, como RESIDENT EVIL 5: RETRIBUIÇÃO. O problema é que, desta vez, ele resolve insistir em focar no contar uma história. E é justamente aí que desmorona.

Anderson sempre é mais eficiente quando deixa o enredo em segundo plano, preferindo mergulhar em adaptações livres de videogames (no caso de IN THE LOST LANDS é baseado num livro de George R. R. Martin) e explorar seu senso de espacialidade aliado à ação pura. Era nesse território que conseguia se destacar, ainda que de maneira irregular. Aqui, no entanto, a narrativa ocupa o centro das atenções… E a história que ele quer contar simplesmente não tem força para sustentar o espetáculo. O resultado é um filme que tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo, mas que acaba não sendo memorável em nenhuma delas.

HAVOC (2025, Gareth Evans)

A abertura de HAVOC já deixa uma impressão muito errada: uma perseguição entre carros e caminhão feita praticamente toda em CGI, que até funcionaria bem como missão num GTA, mas que para um filme dessa estirpe soa artificial e esvazia o impacto logo de cara. Confesso que demorei a voltar pro filme de verdade depois disso, principalmente porque o roteiro despeja uma quantidade absurda de personagens, dificultando criar qualquer vínculo. No começo, a experiência acaba sendo mais cansativa do que envolvente. Ainda assim, havia algum interesse em acompanhar Tom Hardy mergulhando nesse inferno urbano de corrupção, violência e máfia. O ator segura a marra e traz intensidade mesmo quando o filme parece se perder no meio de tanta subtrama.

Só que é lá pela metade, com a sequência da pancadaria na boate, que HAVOC finalmente lembra quem é seu diretor. É nesse momento que Gareth Evans, o mesmo de THE RAID e MERANTAU, entrega a brutalidade que o consagrou: lutas insanas, coreografadas com precisão e um senso de impacto físico raro no cinema de ação atual. Do meio em diante, dá pra assistir com bem mais boa vontade. O problema é que o roteiro insiste em floreios desnecessários, cheio de personagens descartáveis e complicações que só enfraquecem uma trama que poderia ser muito mais direta. O que realmente funciona está na fisicalidade pura, na câmera que não desvia do choque dos corpos e na violência estilizada, e era nesse terreno que Evans deveria ter cravado o pé.

Mas, claro, estamos falando de uma produção pré-formatada da Netflix, onde até diretores de peso precisam se ajustar às amarras de um produto pensado para consumo rápido. Sem contar que o filme teve vários problemas de produção, que por si só precisaria de um post pra relatar, mas podem ir atrás se quiserem saber mais, que a coisa aqui foi complicada. Acaba que HAVOC não chega a ser um desastre, mas também não está à altura do que Evans já mostrou ser capaz de fazer.

A WORKING MAN (2025, David Ayer)

Jason Statham faz em A WORKING MAN aquilo que já virou sua marca registrada: distribuir sopapos com a eficiência de quem nasceu para esse tipo de papel. E, ao lado de David Ayer, ele encontrou um parceiro que entende exatamente essa necessidade. Assim como em THE BEEKEEPER, do ano passado, o resultado é um filme de ação genérico, previsível e conduzido no piloto automático, mas que entrega o básico com competência. A diferença é que, enquanto THE BEEKEEPER me pareceu mais redondo, neste aqui algumas escolhas soam mais pobres. Certas situações e diálogos beiram o constrangedor, e não surpreende descobrir que o roteiro foi escrito em parceria com Sylvester Stallone, que há tempos já não tem o mesmo faro narrativo de outrora. A trama é daquelas que você sente que já viu mil vezes, sem surpresas ou grandes viradas, o que não é necessariamente um problema se o resultado final fosse mais divertido. E infelizmente não é.

SINNERS (2025, Ryan Coogler)

Este aqui foi a grande decepção do ano pra mim, até o momento. E sim, eu sei que eu sou minoria, mas todo mundo elogiou e o hype foi lá em cima. Mas definitivamente não consegui entrar na onda. Até começa bem, dando a entender que viria algo interessante, mas logo se perde nas piores escolhas narrativas, levando a história pra um caminho que não me diz nada, introduzindo personagens demais, situações soltas que vão se acumulando e não levam a lugar nenhum, e demora uma eternidade pra finalmente algo acontecer. E quando acontece, tirando uma cena ou outra, achei bem meia boca. E nesse ponto, percebi que já não tava me importando com nada nem ninguém da história. E em vez de torcer pelos personagens, a sensação era de querer que tudo acabasse logo.

Com tanta enrolação e tão pouco desenvolvimento, o suspense se perde, a tensão é quase nula, a ação é limitada e o impacto desaparece completamente. O pano de fundo tem uma reflexão nobre sobre questões raciais, que acho relevante, mas não posso passar pano pra algo que não gosto apenas pelas suas boas intenções temáticas. Uma condecendência que os cinéfilos atuais parecem não conseguir evitar… O lance com a música é bacana, e aquele plano sequência em que o passado, presente e o futuro se fundem, é a melhor coisa de SINNERS. Mas é muito pouco.

SUPERMAN (2025, James Gunn)

Vamos lá, mais um filme que não gostei. Só não digo que foi uma decepção porque eu realmente não pensei que fosse ser bom mesmo. Acho que James Gunn tentou, mas não deu muito certo. O novo SUPERMAN parece mais um rascunho de um bom filme do que uma obra finalizada. A sensação é de que havia ali uma ideia promissora, mas ninguém se preocupou em revisar, lapidar, pensar melhor nas escolhas narrativas e o resultado é aquela impressão de que foi tudo jogado na tela, “ah, vai assim mesmo”. Muita gente tem saído satisfeita só por ver o herói de volta aos cinemas em uma versão que se esforça em ser mais leve. Fico feliz por quem gostou. Mas, no fundo, esse “gostável” também denuncia uma questão que me incomoda muito no cinema atual. Virou o padrão de Hollywood filmes que entregam o básico para agradar, sem arriscar de verdade ou construir algo memorável. Pelo menos essa é a minha impressão…

Mas, no meio disso tudo, quem realmente conquista é Krypto, o supercão. Ele aparece quase como um respiro, roubando a cena sempre que entra em quadro. Não à toa, saí com a sensação de que preferiria ver um longa só dele, provavelmente seria mais divertido.

THE FANTASTIC FOUR: FIRST STEPS (2025, Matt Shakman)

Mais um filme de herói. Esse melhorzinho… Mas é aquilo, o filme acaba, os créditos sobem e logo bate aquela constatação incômoda de algo totalmente descartável. Você assiste, consome, joga fora, e no dia seguinte já mal lembra de nada. Não deixa marca, não gera conversa, não gruda na memória. Sendo justo, enquanto está acontecendo na tela até dá pra se deixar levar. O visual retrô-futurista tem um charme especial e realmente encanta, trazendo uma identidade que ajuda a diferenciar um pouco do mar de produções genéricas da Marvel. Algumas sequências de aventura são bem construídas e, mesmo dentro da previsibilidade, conseguem divertir. Os personagens, pelo menos, têm um certo carisma, dá pra se preocupar com eles em alguns momentos, o que já é mais do que muita produção recente conseguiu entregar.

Só acho que não é nada de extraordinário, não é o evento que vai resgatar a Marvel do buraco criativo em que se enfiou. É, no máximo, um entretenimento simpático de Sessão da Tarde, que cumpre sua função na hora, mas que dificilmente vai ser lembrado como a grande salvação do estúdio.

SMILE 2 (2024, Parker Finn)

Falando agora de horror. SMILE 2 consegue elevar a proposta do primeiro filme a um novo patamar. Se antes o conceito da maldição já funcionava bem como premissa de horror psicológico, aqui Parker Finn expande a ideia de forma mais ousada, explorando não só o medo em si, mas também o que ele representa dentro de um contexto maior. Daí que um dos pontos mais interessantes é a decisão de levar a maldição para o universo de uma cantora pop, alguém constantemente sob os holofotes, mas carregando traumas e inseguranças pessoais. Essa escolha transforma a narrativa em algo que dialoga com o culto da celebridade e o peso sufocante de ser uma estrela em um mundo que exige perfeição e… Sorrisos. O horror, portanto, não está apenas nos sustos ou na entidade maligna, mas também na pressão de viver em função da imagem, da performance e da expectativa alheia.

Vale destacar ótima atuação de Naomi Scott, que consegue equilibrar vulnerabilidade e força de maneira convincente, conduzindo o espectador por essa espiral de terror íntimo e coletivo. O maior mérito, no entanto, tá na direção de Finn. Enquanto no primeiro SMILE ele ainda parecia preso a certos clichês do gênero, aqui mostra evolução, apostando em escolhas visuais mais ousadas pra construir momentos de tensão. Há estilo, personalidade, e isso faz toda diferença.

FINAL DESTINATION BLOODLINES (2025, Zach Lipovsky e Adam B. Stein)

Consegue ser uma variação divertida dentro do conceito que a franquia já estabeleceu há mais de duas décadas. A trama é direta ao ponto, sem enrolação, a duração curta ajuda bastante e, claro, as mortes continuam sendo o grande chamariz, inventivas, engraçadas e com aquele toque macabro que sempre garantiu a identidade da série. De quebra, ainda temos uma bela homenagem, talvez até uma despedida digna, a Tony Todd, um verdadeiro ícone do horror que marca presença em seus últimos momentos de tela. Só isso já acrescenta bastante peso emocional ao filme.

É claro que não está livre de problemas. O elenco, de maneira geral, não chega a impressionar, e a protagonista em especial é bem fraca. O personagem do tatuador, pelo menos, rende boas risadas. O filme não tenta reinventar nada, e nem precisa. Ele joga seguro, entrega exatamente o que os fãs da franquia esperam e aproveita o carinho que o público do gênero ainda tem por essa fórmula de horror e tragédia cômica. Pode não ser memorável, mas cumpre sua função: divertir e lembrar por que PREMONIÇÃO continua sendo uma das sagas mais queridas do horror pop.

MISSION IMPOSSIBLE – THE FINAL RECKONING (2025, Christopher McQuarrie)

Algumas coisas boas inevitavelmente chegam ao fim, e às vezes com uma certa melancolia. Eu lembro bem do Ronald de 12 anos, lá em 96 ou 97, completamente hipnotizado pelo primeiro MISSÃO: IMPOSSÍVEL. O filme juntava duas paixões que já me fascinavam: ação e Brian De Palma (sim, eu já sabia quem era o homem naquela idade). De lá pra cá, acompanhei cada novo capítulo com a mesma empolgação e continuo achando que essa é uma das melhores franquias de ação das últimas décadas. Agora, em 2025, chega provavelmente o último, e é estranho pensar em se despedir de algo que sempre esteve por perto.

E aqui surgem dois motivos pra melancolia. O primeiro é perceber que THE FINAL RECKONING representa também o fim de um certo tipo de blockbuster que Hollywood já não sabe mais fazer, salvo raras exceções. O segundo é notar que essa própria despedida não chega a ser grandiosa: embora termine com estilo e dignidade, o filme está distante dos melhores momentos da franquia. É um mastodonte de quase três horas, cheio de excessos, quando poderia ser algo mais enxuto e sublime.

Mas que fique claro, THE FINAL RECKONING está longe de ser ruim. Pelo contrário, se comparado ao que o cinema de ação americano tem produzido recentemente, é quase uma joia. No meio de tanta verborragia, de uma trama que se complica sem necessidade e de alguns tropeços de ritmo, o que realmente importa continua lá: as cenas de ação insanas e Tom Cruise. O sujeito é a alma da franquia. Impressiona não apenas por assumir acrobacias absurdas, mas por ter moldado a identidade de MISSÃO: IMPOSSÍVEL. Ele deu a Ethan Hunt uma mistura rara de intensidade física e vulnerabilidade emocional: não é só o herói invencível, é alguém que sofre, hesita, mas mergulha de cabeça (às vezes literalmente) nas situações mais impossíveis. E claro, tem a dedicação física que virou sua marca registrada. Cada novo filme passou a ser esperado não apenas pela trama, mas pela pergunta: “qual será a loucura que o Tom Cruise vai fazer agora?” Escalar o Burj Khalifa, segurar-se num avião decolando, pular de moto de um penhasco… tudo isso virou parte do mito.

Foi assim que ele transformou Missão: Impossível em um cinema de ação de altíssimo nível, capaz de abrigar diretores muito diferentes (De Palma, Woo, Abrams, Bird, McQuarrie) sem perder consistência. Sua obstinação, carisma e entrega física fizeram da série algo único no gênero. E em THE FINAL RECKONING isso continua presente. A sequência do mergulho no submarino, por exemplo, é absurda, uma das melhores de toda a franquia e uma das coisas mais tensas que vi recentemente. Por um momento, parecia um filme do Tony Scott. Sim, como último capítulo de uma série que eu acompanhei de perto, eu esperava algo mais cuidadoso. O clímax, por exemplo, é um espetáculo, mas quase repete o final de FALLOUT. Ainda assim, é um belo filme. Não dá pra exigir muito mais de Hollywood em 2025. O que entregaram já foi suficiente para fechar a franquia com dignidade. E, no meio disso tudo, Tom Cruise prova mais uma vez que é ele quem faz as coisas acontecerem e ainda nos presenteia com algumas das melhores sequências de ação recente. Isso, convenhamos, já é bastante coisa.

EDDINGTON (2025, Ari Aster)

Depois daquela coisa horrorosa chamada BEAU IS AFRAID, Ari Aster parece se reencontrar de alguma forma em EDDINGTON. Não é um filme perfeito, mas pelo menos é divertido de assistir. Há um prazer imediato em acompanhar o que acontece na tela, desde a construção do clima, algumas situações, até o banho de sangue que fecha a trama. Nesse sentido, a experiência de cinema é satisfatória, Aster mostra que ainda sabe orquestrar imagens e provocar reações no público. O problema é quando o filme tenta se levar mais a sério. EDDINGTON toca em temas importantes, ligados a um período histórico recente, mas nunca encontra a nuance necessária para realmente confrontá-los. A impressão é de que havia a intenção de criar um comentário mais profundo, mas isso não se traduz em algo consistente. O resultado é uma obra que, embora envolvente em sua superfície, não sustenta a própria ambição e auto-importância.

Quem ajuda bastante a manter o interesse é Joaquin Phoenix, mais uma vez impecável. Sua atuação é curiosa e dá densidade até às passagens mais arrastadas. Só que nem mesmo ele consegue salvar a sensação de que, no fim, estamos diante de um “grande nada” embalado em duas horas e meia. Os últimos 10 ou 15 minutos, em particular, estão entre as coisas mais desnecessárias do cinema recente, prova de que Aster realmente não sabe a hora de encerrar um filme. Talvez esse seja o maior problema de parte da geração atual de diretores autores, a falta de autocrítica. Existe uma ânsia desmedida de transformar cada ideia em tratados definitivos sobre tudo, como se a ambição artística fosse suficiente para sustentar a obra. EDDINGTON tinha potencial para ser uma obra-prima relevante, capaz de refletir seu tempo de forma contundente. Mas, ao não abraçar de verdade o que é, um western moderno, thriller político/policial com a pandemia e protestos pós-George Floyd como pano de fundo que descamba pra violência, pra um horror intenso, acaba preso na própria grandiloquência. Ainda assim, acho o saldo positivo. É um bom filme, só não entrega a grandeza que insiste em prometer.

F1 (2025, Joseph Kosinski)

As sequências de corrida de F1 são um espetáculo sensorial, com imersão rara, quase hipnótica. Só o design de som já é suficiente pra colocar a gente em transe. Houve momentos em que me arrependi de não ter visto no cinema, porque claramente esse é o tipo de experiência que ganha muito na tela grande. Mas esse arrependimento passa rápido quando penso no resto do filme que envolve essas cenas. Na primeira hora, até dá a impressão de que a coisa vai driblar alguns clichês. O personagem de Brad Pitt funciona bem como fio condutor e segura o interesse. Só que, com suas duas horas e meia, o roteiro não demora a cair na previsibilidade e na mesmice de sempre. A narrativa perde fôlego, convida ao sono… E aí só mesmo as corridas conseguem despertar de novo a atenção.

Ainda assim, é preciso elogiar Joseph Kosinski. Se no drama ele não escapa do lugar-comum, no quesito ação vem mostrando evolução. Ele sabe mexer com a adrenalina do público, e é nisso que F1 encontra sua força. Um filme decente, que entrega bons momentos. Mas nunca, jamais, será um DIAS DE TROVÃO.

BALLERINA (2025, Len Wiseman)

Esse me surpreendeu. Confesso que estava com o pé atrás e enrolei bastante pra assistir. Com tantos atrasos no lançamento e a notícia de refilmagens comandadas por Chad Stahelski (diretor dos JOHN WICK), achei que seria só mais uma decepção. Mas, no fim, não foi. A trama pode soar genérica, e definitivamente não carrega o peso filosófico dos filmes da série principal. Ainda assim, há pontos interessantes. Ana de Armas tem uma presença física marcante, mesmo que o roteiro não lhe ofereça grandes oportunidades de aprofundar a personagem. Como a narrativa é mais direta, praticamente costurando um set piece de ação ao outro dentro de uma história simples de vingança, ela acaba funcionando como uma versão feminina do Wick: não tão complexa, mas igualmente sombria, atormentada e com um toque de fragilidade que cai muito bem.

E falando em ação, que é o que realmente importa aqui, algumas sequências estão no mesmo nível da franquia principal, o que já é muita coisa, considerando que JOHN WICK é uma das melhores séries de ação do século. Por aqui a ação é farta e de qualidade. Destaco a cena explosiva na loja de armas, o embate no restaurante do vilarejo (com direito a Ana enfrentando Daniel Bernhardt) e, claro, o insano duelo com o lança-chamas no clímax, que consegue ser tão absurdo quanto visualmente belo. Deus abençoe Stahelski por ter consertado as cagadas deixadas por Len Wiseman. Mas fica a dica, Chad, da próxima vez, entrega o projeto pra um cineasta de verdade e poupa o trabalho de refilmar tudo. Sugestões não faltam: Gareth Evans, Timo Tjahjanto, Kensuke Sonomura, Veronica Ngô…

Quanto ao Keanu Reeves e à participação do próprio John Wick, honestamente, não acho que fosse necessária. Mas já que está lá, acaba elevando alguns momentos a outro patamar.

Pra uma produção que enfrentou tantos problemas nos bastidores, BALLERINA é bem sólido e bem acima do esperado.

THE SHROUDS (2024, David Cronenberg)

“Her body was… The world. The meaning and the purpose of the world”

O que ainda me atrai no cinema de Cronenberg é esse universo tão particular que parece inesgotável. São mais de 50 anos trabalhando os mesmos temas – corpo, tecnologia, paranoia, desejo – e, mesmo assim, a cada novo filme ele encontra formas de se renovar. Aqui, ele transforma o luto em espetáculo tecnológico. Vincent Cassel vive Karsh, um empresário que cria a GraveTech, um sistema que permite às famílias monitorarem a decomposição dos corpos de seus entes queridos dentro dos túmulos. Quando um desses cemitérios é violado, Karsh mergulha em uma investigação paranoica que logo esbarra em conspirações. É o terreno perfeito para Cronenberg levar sua obsessão pelo corpo a outro nível.

Dá pra reclamar que o filme se entrega demais a explicações, diluindo parte do mistério e da ambiguidade, elementos que sempre fizeram parte do charme da sua filmografia. Mas, honestamente, estamos falando de um diretor com mais de 80 anos, em fim de carreira, que não precisa provar mais nada pra ninguém. Então ele já começa a abrir as pernas pro Saïd Ben Saïd pra poder continuar tendo financiamento. Não é o melhor dos mundos, mas é o que tem pra hoje. E ainda assim, não deixa de ser hipnotizante de alguma forma, o modo que Cronenberg conduz as coisas sempre me fascina.

ALDRICH – PARTE 3: 1961 – 1965

O ÚLTIMO PÔR DO SOL (The Last Sunset, 1961)
Talvez seja o primeiro (e único?) filme hawksiano do Aldrich. Temos um grande rebanho sendo transportado, dois homens divididos pela mesma mulher… Só faltou o companheirismo masculino, que aqui dá lugar às figuras habituais de Aldrich, homens incapazes de conviverem no mesmo espaço por muito tempo e cuja sobrevivência depende da morte do outro. É também um misto de western com tragédia grega: o enredo é simples, as motivações humanas básicas, Kirk Douglas é o pistoleiro solitário numa jornada pela mulher que amou em outros tempos, espiritualmente atormentado, que se veste de preto e filosofa poeticamente sobre a vida. O filme introduz, possivelmente pela primeira vez em um faroeste, a sugestão de incesto, com a culpa resultante levando a algo que é virtualmente um suicídio. O roteiro de Dalton Trumbo é bom, pena que é dirigido de maneira um tanto pesada pelo Aldrich, que tenta voltar às raízes depois dos fracassos que teve na Europa. Mas O ÚLTIMO PÔR DO SOL não deixa de ser bacana, tem uma série de momentos excelentes, grandes atuações de Hudson, Dorothy Malone, Joseph Cotten e Carol Lynley… Mas obviamente que o grande destaque é Kirk Douglas, que canta Cucurrucucú Paloma em espanhol, que é desses momentos que torna um filme menor como este aqui em algo sublime.

SODOMA E GOMORRA (Sodom and Gomorrah, 1962)
Lot (Stuart Granger) conduz seu povo para um vale fértil adjacente às cidades de Sodoma e Gomorra, locais de vício e corrupção governados pela impiedosa Rainha Bera (Anouk Aimée). Quando Lot ordena que uma represa seja rompida para evitar a destruição das cidades pelos atacantes helamitas, a rainha, em gratidão, permite que o povo de Lot se estabeleça em Sodoma. No entanto, em breve, o verniz da civilização começa a desmoronar à medida que Lot e os hebreus são corrompidos pelos sodomitas.

Fico imaginando se tivessem esperado uns 10 anos pra filmar, se o Aldrich não teria transformado isso aqui numa autêntica Sodoma e Gomorra, com imagens mais torpes e fesceninas… Claro, os filmes épicos já tinham saído de moda nos anos 70, mas quem sabe? Para um filme de 62, no entanto, ainda dá pra chamar de exploitation bíblico: temos uma belíssima sequência de batalha sangrenta, cenas de tortura, insinuações de incesto, homossexualidade, e a famosa passagem da destruição das duas cidades vinda dos céus, dignas dos melhores disaster movies, e que teve direção de segunda unidade de ninguém menos que o maior de todos: Sergio Leone. Tudo isso acaba fazendo valer o filme, mesmo com a longa e desnecessária duração, com vários momentos que eu não sentiria falta se tivessem dado uma enxugada no corte final…

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962)
Duas envelhecidas atrizes de cinema vivem como reclusas em uma casa de Hollywood. Jane Hudson, uma bem-sucedida estrela infantil, cuida de sua irmã paralítica Blanche, cuja carreira, nos últimos anos, eclipsou a de Jane. Agora, as duas vivem juntas, com seu relacionamento afetado por pensamentos subconscientes de inveja mútua, ódio, vingança e loucura. E colocar Bette Davis e Joan Crawford, que se odiavam fora das telas, para se odiarem também na frente das câmeras, foi uma dessas sacadas lendárias que fez esse pequeno horror psicológico do Aldrich se tornar o monumento que é. Mas foi também uma maneira das duas atrizes se manterem relativamente relevantes em Hollywood, onde já estavam se tornado figuras esquecidas. Especialmente Davis satiriza de maneira mais feroz e brilhante, não apenas sua própria persona, mas o favoritismo ao culto à juventude.

O filme fez bem para as carreiras de ambas naquele momento, Davis inclusive teve mais uma indicação ao Oscar com este trabalho, a sua décima primeira. Sua atuação, exagerada, insana e colossal é realmente a melhor coisa de um filme que já seria ótimo só pela forma como Aldrich conduz o que se passa aqui, um estudo de como deixar o espectador agoniado… É definitivamente um dos filmes mais tensos e nervosos que existe e eu revi roendo as unhas do início ao fim.

OS QUATRO HERÓIS DO TEXAS (4 for Texas, 1963)
Com a diligência destruída, mas recheada com $100.000 em dinheiro e moedas de ouro, os passageiros rivais Zack Thomas (Frank Sinatra) e Joe Jarrett (Dean Martin) formam uma aliança instável depois de sobreviverem a uma emboscada do impiedoso bandido Matson e seus fora da lei. No entanto, na movimentada cidade de Galveston, Texas, as coisas estão prestes a tomar um rumo pior, já que ambos os rivais têm como objetivo administrar o mesmo cassino decadente à beira do rio. Não é dos melhores trabalhos que vamos encontrar na carreira do Aldrich. O ritmo é meio caído, o diretor não parece muito disposto em gastar muita energia nisso aqui (talvez por não ter se dado bem com o Sinatra)… Mas até que valeu a pena conhecer, em especial pelo elenco, impossível não se divertir com Frank e Dino no provável único filme que fizeram juntos que não são amigos na trama. Ursula Andress e Anita Ekberg são estonteantes e ainda temos Charles Bronson como bandido. Há até uma pequena sequência na qual os Três Patetas participam… Tá certo que o filme depende um pouco da aceitação do público pelo tipo de material que o Rat Pack produzia. Eu gosto, então tá bom pra mim. Como trabalho do Aldrich, até pode ser um filme menor, mas como um veículo pra dupla Frank & Dino, funciona.

COM A MALDADE NA ALMA (Hush… Hush, Sweet Charlotte, 1964)
Uma senhora reclusa, atormentada por uma horripilante tragédia de família, mergulha na loucura após a chegada de uma parente que há muito não a via. O filme “irmão” de BABY JANE. Tem várias coisas similares em ambos, é outro thriller psicológico estrelado por duas atrizes mais experientes e reviravoltas que seguem o mesmo padrão… Mas se em BABY JANE era Bette Davis que brilhava – e aqui ela continua maravilhosa – quem rouba a cena desta vez é Olivia De Havilland, num papel cheio de nuances que escondem sua verdadeira face. Também é o filme mais violento de Aldrich até aquele momento que, para além do domínio da atmosfera do horror, da tensão, temos alguns momentos bem chocantes, com direito à mão de um jovem Bruce Dern sendo decepada por um cutelo de forma explícita na tela.

O VÔO DA PHOENIX (The Flight of the Phoenix, 1965)
Uma aeronave de carga cai em uma tempestade de areia no Saara com alguns homens a bordo. Um dos passageiros é um projetista de aviões que tem a ideia de arrancar a asa não danificada e usá-la como base para uma aeronave de reposição que eles precisam construir antes que alimentos e água se esgotem.

Um dos filmes mais famosos do Aldrich, que não acho que seja dos seus melhores, apesar de ser sempre bom rever isso aqui. Desses filmes clássicos de desastre/sobrevivência, todo correto, bem feito, divertido e mais uma aula de Aldrich, com seu talento para retratar a violência das relações humanas, como faz na maioria de seus filmes. O truque aqui reside nos personagens, grupo de homens sujos, feios e moralmente questionáveis… Temos lutas por poder, discussões enlouquecidas, más decisões e, acima de tudo, a habitual descida à insanidade. Dava pra gastar um bom tempo analisando os personagens, mas destaco o piloto teimoso e pessimista de Stewart – uma das suas atuações que mais gosto – amargurado por não conseguir manter o avião no ar e muito determinado a contradizer a maioria dos planos sugeridos; o personagem do capitão do Exército de Peter Finch, relutante em abrir mão de sua posição de comando e seu entrave com um subordinado covarde; e o alemão misterioso (Kruger) que torna-se megalomaníaco quando percebe que seu plano mestre para a sobrevivência depende inteiramente dele – o que o torna o homem mais importante do grupo, mas cuja autoridade desperta em alguns lembranças de uma guerra não tão distante… E assim o filme avança para uma mistura cativante de luta pelo poder, conto episódico de sobrevivência e saga do triunfo do espírito humano. Sim, eu sei, é muita coisa pra lidar num único filme, especialmente sem cenas mais movimentadas de ação para animar as coisas. E reconheço que talvez falte um tempero especial por aqui do nosso amigo Aldrich. Já o vimos ser mais ousado, mais explosivo. No entanto, a ação reside inteiramente na interação dos personagens, e as performances desse elenco mantêm o filme divertido do início ao fim.

THE BLACK CAT (1934)

Venha, Vitus, somos homens ou somos crianças? De que servem todos esses gestos melodramáticos? Você diz que sua alma foi morta e que esteve morto todos esses anos. E eu? Não morremos ambos aqui em Marmorus há quinze anos? Não somos igualmente vítimas da guerra do que aqueles cujos corpos foram despedaçados? Não somos ambos os mortos vivos?

THE BLACK CAT era uma ideia que circulava pela Universal há algum tempo quando finalmente Edgar G. Ulmer e Peter Ruric criaram um roteiro que foi considerado aceitável e receberam sinal verde. O filme foi lançado no meio de 1934 e recebeu críticas não muito agradáveis dos especialistas, mas o público não se importou e acabou se tornando o maior sucesso da Universal naquele ano.

Um detalhe óbvio contribuiu pra isso: o fato de ser o primeiro filme a reunir os dois grandes ícones do horror da Universal, Boris Karloff e Bela Lugosi, que ainda estavam quentes no período após o sucesso de FRANKENSTEIN e DRÁCULA.

Mas não foi só isso. O orçamento de THE BLACK CAT era modesto em comparação com alguns dos outros primeiros filmes de terror da Universal, mas Ulmer sempre foi um diretor rápido e eficiente e tirou o máximo proveito do orçamento entregando um belo filme de horror. Tinha o nome atrativo do escritor e poeta Edgar Allan Poe recebendo destaque na publicidade do filme, mesmo que a história filmada não tenha lá grandes conexões com nada que Poe tenha escrito (embora capture um pouco do seu espírito). E para além de tudo, o filme ainda apresenta várias delícias sinistras e inesperadas para uma produção de 1934, incluindo tortura, necrofilia, culto satânico e a mansão do vilão mais modernista que o cinema tinha visto até então.

E aí acabou que THE BLACK CAT é essa uma obra única, original e bem controversa daquele período que precisava ter mais reconhecimento nos dias de hoje, merece ser visto especialmente pra quem curte o horror da universal e que ainda não assistiu aos exemplares fora do ciclo dos monstros clássicos. Um filme que representa os altos padrões de ousadia que a Universal conseguia alcançar antes do Código Hays ser firmemente estabelecido e a censura impedir que mais filmes como esse fossem feito por algumas décadas.

Na trama, um jovem casal americano, Peter Alison (David Manners) e sua esposa Joan (Julie Bishop),viajam pelo centro da Europa no Orient Express quando conhecem um distinto psiquiatra húngaro, Dr. Vitus Werdegast (Bela Lugosi), que está retornando à região – após uma ausência de muitos – anos para visitar um amigo… Que talvez não seja tão amigo assim.

Werdegast lhes conta que durante a Primeira Guerra Mundial ele se tornou prisioneiro depois que a fortaleza austro-húngara de Marmorus fora entregue ao inimigo, uma traição que custou a vida de milhares de homens. E ele acredita que o responsável por tal traição foi justamente seu “amigo”, Hjalmar Poelzig (Boris Karloff). Ele também culpa Poelzig pelas mortes de sua esposa e filha. Ou seja, Werdegast anda bem chateado nessa sua jornada…

Durante o trajeto, o ônibus em que Peter e Joan Alison e o Dr. Werdegast estão viajando sofre um acidente em uma estrada montanhosa durante uma chuva e o motorista acaba morrendo. Os passageiros sobrevivem, apesar de Joan ter se machucado, e seguem a pé até a casa de Poelzig, agora um renomado arquiteto e cuja mansão ultra-modernista foi construída sobre as ruínas da fortaleza de Marmorus, local que agora ele e Werdegast se envolverão num jogo perigoso, tendo Joan como aposta.

Basicamente, essa é toda a trama. Bem simples, uma hora de duração, mas THE BLACK CAT é o tipo de filme que menos se importa com a história e se baseia mais nos climas, na atmosfera, nas ideias absurdas, no visual impressionante dos cenários e nas atuações brilhantes. Todos esses elementos estão presentes em quantidade suficiente para cativar o público e garantir que ninguém fique choramingando.

Karloff conseguiu o papel mais interessante e sinistro por aqui, mas Lugosi tem uma performance tão soberba e mais cheia de nuances que não há perigo de ser ofuscado pelo rival. Embora a realidade dessa rivalidade provavelmente seja menos interessante do que era divulgado, sempre havia fundo de verdade. Lugosi teve muito sucesso com DRÁCULA, mas foi rapidamente ultrapassado por Karloff com FRANKENSTEIN, num papel que Lugosi notoriamente recusou. O fato de Karloff frequentemente receber papéis mais atrativos, enquanto Lugosi era frequentemente relegado a personagens secundários, só ajudou a alimentar as chamas da (alegada) animosidade entre os dois. O que torna THE BLACK CAT ainda mais fascinante. E ambos estão maravilhosos, no auge de suas performances.

Karloff está perfeito como o arquiteto satanista. Com sua tez pálida, características faciais angulares e olhar morto, ele se parece mais com um cadáver ambulante do que com um homem vivo. Embora comumente seja ensinado que não se deve julgar um livro pela capa, sua aparência reflete suas ações malignas. A postura erudita de Poelzig disfarça suas intenções sinistras.

Já Lugosi exibe uma certa versatilidade como o atormentado psiquiatra. Aparentemente seu personagem foi suavizado para tornar suas ações mais heroicas em contraste com Poelzig, mesmo que sua natureza seja tão sombria quanto a do seu rival. Mas fica a impressão de que mesmo amargurado por anos de encarceramento Werdegast teria perdido muito, mas não a sua humanidade. E Lugosi consegue transmitir essa dualidade com muito talento.

Os outros atores nem valem muito a pena ficar mencionando. Num determinado momento, o jovem Peter tenta se entrosar com Poelzig. O arquiteto desdenhoso pergunta a ele: “Você joga xadrez?”. O americano faz piada sobre jogar uma boa partida de pôquer e Poelzig responde com impaciência distante: “Bem, se não se importa, acho que vamos continuar com nosso jogo.” O que também poderia ser traduzido como “parceiro, se liga que estamos roubando a cena aqui, e você tá estragando o momento.

Mas também há muitas coisas para se admirar em THE BLACK CAT que vão além da presença desses gigantes do horror. A direção de arte, por exemplo. Que sacada brilhante ao mesmo tempo bizarra transformar “a velha casa sombria gótica” habitual do folclore dos contos de terror em um palácio modernista Art Déco! O visual da casa e dos interiores se mostra muito mais estranho e ameaçador do que os clichês visuais góticos. Sabe-se que Ulmer começou sua carreira no cinema como diretor de arte, e é o brilho e a extravagância decadente dos visuais que tornam isto aqui um dos grandes marcos do horror no período.

As imagens impressionantes proporcionam o acompanhamento perfeito para os temas ultrajantes, decadentes e bizarros com os quais o roteiro está repleto. Praticamente todo mal, perversão e forma de loucura que os roteiristas (e o público) puderam imaginar estão aqui, desde necrofilia até satanismo. Hjalmar Poelzig tem uma sala onde mantém sua coleção de cadáveres perfeitamente preservados, incluindo o da esposa do Dr. Werdegast. É uma ideia chocante, tornada ainda mais assustadora pela forma como é apresentada e que deve ter causado muita impressão para o público da época.

Detalhes como a acariciada de Poelzig numa estátua enquanto o jovem casal se beija ao fundo (acima) é um de tantos momentos em que uma sexualidade sombria e demente emerge. Há o olhar intenso e ardente que Poelzig fixa em Joan, que fica mais assustador quando ele revela que seu interesse é principalmente “espiritual” (ou seja, ele quer desmembrá-la em um rito luciferiano entre acólitos de smoking).

E há a maneira lasciva como o bom doutor amarra seu adversário a um suporte no final do filme, arrancando a camisa de Poelzig com fúria (Lugosi parece possuído ao sibilar: “Já viu um animal sendo esfolado vivo? É o que vou fazer com você!”). A reação quase indiferente de Karloff com o peito nu, como se ele estivesse silenciosamente aguardando uma dor que irá saborear, vende todo o ato como algum tipo de ritual bizarro e sádico, uma conclusão lógica da Missa Negra da noite que havia dado errado alguns minutos antes.

Edgar G. Ulmer não sabia na época, mas essa seria a primeira e última vez em sua carreira em que teria um orçamento generoso e os recursos de um grande estúdio lhe apoiando. Seu caso amoroso e subsequente casamento com a esposa do sobrinho do chefe da Universal, Carl Laemmle, o baniria para o mundo dos estúdios Poverty Row (as pequenas produtoras de filmes B de orçamento minúsculo da época). Mais tarde, Ulmer acabou se tornando um dos queridinho subestimados dos teóricos do autorismo no cinema, e seus filmes de baixo orçamento são levados muito a sério. O que acho justo. E este aqui é provavelmente seu melhor trabalho.

A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985)

Após o sucesso do clássico de 1968 A NOITE DOS MORTOS VIVOS, os seus co-criadores, George Romero e o roteirista John Russo, tiveram diferentes ideias para prosseguir explorando esse universo de zombie movie que se abriu e seguiram seus próprios caminhos. Romero continuou fazendo seus filmes e uma década depois resolveu retornar ao tema quando fez mais uma de suas obras-primas, DAWN OF THE DEAD (1978). Já Russo começou a trabalhar na adaptação de um romance que ele mesmo havia escrito chamado “O Retorno dos Mortos-Vivos“, que aparentemente estava mais próximo de uma continuação do filme de 68 do que o próprio Romero em seu novo filme de zumbi. Deu-se início então ao projeto A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (The Return of the Living Dead).

Um produtor independente, Tom Fox, comprou o roteiro de Russo e ofereceu a Tobe Hooper, que rejeitou. De recusas a recusas, acabou parando nas mãos de Dan O’Bannon, que havia trabalhado majoritariamente como roteirista (ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO, DEAD AND BURIED, BLUE THUNDER) e nunca havia dirigido um filme antes. Mas seguiu em frente, fazendo algumas alterações no roteiro.

Para O’Bannon, não fazia muito sentido comandar o projeto da maneira como o script havia sido pensado. Ele sentia que era uma tentativa muito séria de fazer uma sequência de A NOITE DOS MORTOS VIVOS e não queria se intrometer tão diretamente no território de Romero, que já estava estabelecido àquela altura (inclusive lançando neste mesmo ano de 85 a terceira parte da sua série, o maravilhoso O DIA DOS MORTOS). Então O’Bannon reescreveu o roteiro para que tudo tivesse uma abordagem mais cômica do material de Russo e a história ocorresse em um universo fictício onde A NOITE DOS MORTOS VIVOS seria um filme “baseado em fatos reais”

Ou seja, na trama é suposto que o filme do Romero teria sido baseado em um evento no qual o exército americano teria lacrado todas as evidências dos acontecimentos que ocorreram na época e as enviou para alguma instalação de armazenamento de cadáveres. Mas por conta de algum erro de logística, os containers foram parar num pequeno depósito de suprimentos médicos na periferia de Louisville, Kentucky, onde permaneceu por volta de vinte anos, considerados perdidos.

Isso tudo é contado ao novo funcionário do local, Freddy (Thom Mathews), pelo já veterano Frank (James Karen). “Você viu aquele filme A NOITE DOS MORTOS VIVOS?” ele pergunta ao jovem colega de trabalho, antes de explicar que o filme foi baseado no tal incidente real. Ele lhe informa que o tal experimento médico do Exército que foi enviado por engano está armazenado exatamente no porão sob seus pés. Freddy fica cético até que descem as escadas e Frank mostra a ele vários cadáveres armazenados em cilindros fechados. Um desses containers acaba vazando um gás fétido que deixa a dupla inconsciente. Quando acordam e sobem as escadas, percebem que o gás reanimou todo o tipo de cadáver do local, de corpos humanos que seriam vendidos para faculdades de medicina à borboletas pregadas por alfinetes e cachorros espantalhos divididos ao meio… Urgh!

Em pânico, eles ligam para o chefe, Burt (Clu Gulager). Quando um dos cadáveres que estava armazenado numa sala refrigerada os ataca e, mesmo depois de esquartejado se recusa a morrer, eles o transportam para o necrotério ao lado, na esperança de que o agente funerário (Don Calfa) os deixe usar o crematório. Só que a fumaça e as cinzas são ejetadas pela chaminé e para as nuvens, causando imediatamente uma chuva em um cemitério próximo, onde os amigos punks de Freddy (incluindo a scream queen Linnea Quigley, na icônica Trash) estão farreando.

A água da chuva infectada penetra no solo e rapidamente reanima os mortos, que abrem caminho para a superfície. Os punks então se dispersam, alguns encontrando refúgio no necrotério onde os primeiros paramédicos que chegam ao local informam a Frank e Freddy (ambos agora moribundos por causa do gás) que seus sintomas são consistentes com rigor-mortis. Logo, ao estilo de Howard Hawks, os sobreviventes devem se barricar no local para se proteger da horda de mortos vivos famintos que os rodeia.

Mesmo com a ideia de O’Bannon de se afastar, é inevitável que o filme acabe sendo uma valiosa peça complementar ao trabalho de Romero. Não tem muito pra onde fugir… Mas ainda assim é um trabalho independente, cheio de elementos próprios que, como uma comédia de desespero, merece ser considerado um ponto alto no panteão do cinema de terror oitentista; seu tom provou ser suficiente e distinto para inspirar outros filmes e teve várias sequências que, por sua vez, buscaram, sem o mesmo sucesso que este aqui, explorar a comédia no puro terror visceral.

A interação entre os personagens é uma das coisas que mais me fascina e se mantém tão bem depois de todos esses anos. Os adultos representados no filme por Gulager, Karen e Calfa são escolhas certeiras. A atuação de Karen, sobretudo, é absurda desde os momentos iniciais, quando se apresenta como uma figura cômica, até a sua contínua agonia à medida que seu personagem piora progressivamente. Gulager também tá perfeito, serve como o alicerce de todo o filme, e sua presença não deixa o espectador tirar os olhos da tela.

Mas quem mais me surpreende é Don Calfa como o agente funerário Ernie Kaltenbrunner. A persona básica de Calfa na tela dá a impressão de que ele vai funcionar como uma espécie de alívio cômico, mas ele inesperadamente se revela o mais sensato e engenhoso de todos. Rouba o filme pra si, e fico surpreso por ele nunca ter se tornado mais famoso.

O outro grupo no filme consiste na gangue passando o tempo no cemitério nas proximidades esperando pelo amigo Freddy. É realmente um conjunto único, com alguns personagens exibindo peculiaridades bem variadas. Linnea Quigley como Trash é possivelmente a figura mais representativa do filme. Ao longo dos anos, sempre que pensava em A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (e fazia décadas que eu não assistia) a imagem de Quigley dançando em cima de um túmulo era a primeira que habitava meus pensamentos. Obviamente que ela estar completamente nua na tela ajudou bastante nisso…

Mas cada um dos atores mais jovens deixa uma impressão favorável, especialmente Thom Matthews como Freddy. A interação dele com o velho Karen é maravilhosa, os dois gritando loucamente: “Cuidado com a língua, garoto, se você gosta deste emprego“, “Gostar deste emprego?!” sempre foi uma das minhas partes favoritas do filme, então fiquei feliz em ver como tudo isso ainda funciona. Os dois atores retornaram para a sequência, O RETORNO DOS MORTOS VIVOS PARTE II (1988), mas em personagens diferentes. Preciso rever esse aí também, não lembro absolutamente nada.

Existem momentos em que o baixo orçamento começa a aparecer, a forma como algumas sequências externas são encenadas e a sensação no final de que talvez algumas coisas não tenham sido filmadas quando a produção terminou. Mas o tom cômico impassível continua incrível, a alfinetada crítica às atitudes do governo também tá lá muito bem inserida no meios das camadas, juntamente com os momentos de horror, de tensão, a violência gráfica e o tom geral apropriadamente desagradável (“Eu te amo… e você tem que me deixar comer o seu CÉREEEBRO!!“). A sequência em que os zumbis chamam por reforços policiais e pedem mais ambulâncias para terem mais cérebros pra devorar tá dentre as situações mais significativas do conceito “humor & horror andando de mãos dadas” na história do cinema.

Como disse antes, O’Bannon teve que enfrentar a visão de Romero quando o sombrio e nada cômico DIA DOS MORTOS foi lançado no mesmo ano que A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, quase na mesma época, causando antagonismo e a competição entre os fãs que O’Bannon sempre evitou. Em retrospecto, foi considerado um sinal dos tempos que justamente o filme cômico de O’Bannon teve melhor desempenho de bilheteria do que o filme mais sério e aterrorizante de Romero. Sem entrar no mérito das comparações, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS é uma das comédias de terror mais engenhosas e cativantes que eu me lembrava de ter visto. E agora, revendo depois de uns trinta anos, confirma que se trata de uma pequena obra-prima e um dos filmes mais divertidos do gênero nos anos 80.

DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS (1966)

O diretor Terence Fisher foi responsável por alguns dos filmes de horror mais fundamentais do final dos anos 1950, todos produzidos pelo estúdio britânico Hammer Films. Três, sobretudo, A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN, DRÁCULA – O VAMPIRO DA NOITE e A MÚMIA, foram reinterpretações em cores vibrantes de personagens clássicos trazidos às telas pela Universal nos anos 30. Todos se tornaram franquias com um universo gigante a ser explorado pelos amantes do horror. Aqui no blog, inclusive, já comentei, por exemplo, sobre os dois primeiros filmes do vampiro mais famoso e, aproveitando que fiz uma revisão, chegou a hora de falar do terceiro exemplar, DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS (Dracula – Prince of Darkness), que trouxe de volta Christopher Lee no papel do personagem título, que o transformou num astro do gênero.

Aliás, todos esses filmes transformaram tanto Lee quanto Peter Cushing, outro gigante da Hammer, em ícones incontestáveis do horror. Só que mesmo após o grande sucesso de DRÁCULA – O VAMPIRO DA NOITE, Lee acabou recusando por muito tempo reprisar o papel do príncipe dos vampiros. Um segundo filme veio em 1960, AS NOIVAS DO VAMPIRO, sem a presença do ator. Somente seis anos depois, Fisher e a Hammer finalmente puderam fazer uma sequência oficial contando com a presença do seu astro, que é este DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS.

No entanto, esse retorno não foi isento de pontos de contenda.

O que aconteceu antes das câmeras começarem a rodar é uma questão em debate, mas o resultado está ali para todos verem e, mais enfaticamente, não ouvirem: Christopher Lee pode até ter retornado como Drácula, mas ele não diz uma palavra sequer durante todo o filme.

Há quem diga que a Hammer optou por não dar nenhuma fala ao personagem como forma de reduzir um pouco o salário de Christopher Lee (já que pra tê-lo convencido de retornar deve ter custado uma nota). Por outro lado, Lee afirmou que achou o diálogo, originalmente escrito para ele, estúpido demais e simplesmente se recusou a entregar qualquer fala. No fim, porém, a razão pouco importa. Fica apenas essa sensação estranha. Lee com sua presença imponente e ameaçadora, que funciona na maior parte do tempo, mas “sem voz”, com a sensação de que falta alguma coisa…

DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS começa com uma recapitulação do final do filme original de 58, para contextualizar a suposta morte de Drácula, com uma narração desnecessária para explicar o que, de outra forma, parece bem óbvio visualmente. Não é nenhum grande spoiler dizer que Drácula é derrotado e se desintegra em cinzas sob a luz do sol. Iniciam-se os créditos iniciais.

Fãs de terror, Drácula, Lee, enfim, ficam emocionados com a ideia do retorno de Christopher Lee como Drácula por aqui, mas, ironicamente, a maior parte do que há de melhor em DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS acontece antes mesmo de Lee aparecer. Como no flashback inicial nos lembra, Drácula foi reduzido a um monte de cinzas, então como ele poderia retornar?

O roteiro leva metade do filme para estabelecer isso, e Terence Fisher faz um trabalho soberbo ao dar vida e essa visão na tela. Na verdade, pode-se dizer que, em última instância, é Fisher quem é o verdadeiro astro da obra, pois este é um filme que absolutamente sobrevive ou fracassa com base na sua capacidade de contar uma história, ainda que com algumas falhas, e manter o interesse do público. A construção lenta à medida que as vítimas são colocadas nos seus devidos lugares para trazer o retorno de Drácula é brilhantemente realizada e culmina em uma das cenas mais memoráveis da história das adaptações de Drácula para o cinema: a ressurreição do vampiro.

Mas antes, o filme mostra que mesmo passado os anos na região o medo do vampirismo ainda prevalece, mesmo com Drácula morto. Aí temos a entrada de dois casais de turistas, que chegam ao local e acabam parando no castelo de Dracula, ainda que sejam fortemente avisados contra isso por um padre. Eles até tentam seguir o aviso, mas acabam em uma carruagem, com a intenção de ir para outro destino, enquanto os cavalos têm suas próprias vontades e levam apressadamente os casais para o castelo.

Eles adentram o local, onde as hospitalidades aparentemente estão prontas e esperando por eles. Um servo logo entra e explica aos curiosos – alguns deles aterrorizados – que seu falecido mestre deixou instruções para que o castelo estivesse sempre pronto para receber hóspedes. Os dois casais jantam e são conduzidos aos seus quartos para a noite que se aproxima. Um dos homens logo deixa o quarto para seguir o servo que puxa um grande baú por um corredor, sem saber que ele desempenha um papel especial na tentativa de trazer seu mestre de volta à forma física. E pra isso, muito sangue tem que rolar. Resultando na tal cena da ressurreição de Dracula.

Não apenas o efeito visual da própria ressurreição é maravilhoso mesmo após tantas décadas, mas a antecipação que é criada, enquanto o assecla de Drácula (Philip Latham) coloca tudo em posição, é um golpe de mestre do suspense. Não se pode evitar de ficar na ponta da cadeira, esperando que aconteça. Isso é o gênio de Terence Fisher em ação, e ele merece todo o elogio possível, ainda que esteja esquecido e não venha recebido hoje em dia. O cara foi um dos maiores do gênero.

Desta vez, os realizadores criaram uma sequência que buscava minar a ideia do vampiro mais sedutor e elegante, alinhado com a liberação sexual, que enfatizava o papel crescente dos filmes de terror como alegorias morais, à medida que a sociedade britânica entrava na agitação juvenil dos anos 1960. Ainda que os temas morais em evolução do filme oscilem entre o liberal e o reacionário…

Dracula transforma, por exemplo uma mulher moralmente correta em uma serva de sua vontade. A Igreja, por sua vez, representa as forças da repressão civilizada, talvez necessárias para livrar o mundo do horror sexual anárquico da contaminação vampírica. No entanto, o filme não celebra esses puritanos religiosos, retrata-os como hipócritas morais. De fato, a destruição da vampira feminina é sugerida por Fisher como um substituto sexual violento também semelhante a um estupro coletivo.

Essa ambiguidade em relação à moralidade e imoralidade sexual perpassa todo o filme e acrescenta considerável profundidade e textura à história à medida que evoluem no estilo característico de Fisher, especialmente em termos de cor.

Cenas isoladas têm uma elegância pictórica, e há uma interessante construção de cores para sugerir a paixão crescente em meio à tentativa de mantê-la suprimida e até erradicada. Começa com cores terrosas, e os arredores do castelo do Drácula são devidamente invernais e ameaçadores, apesar da pretensa hospitalidade inicialmente encontrada ali. No entanto, e talvez de maneira incomum, os interiores do castelo são banhados por um calor dourado sensual, cativante e perigoso.

Essa sensação de calor é mantida intacta na transferência e complementa os subtons sexuais animalísticos do filme, culminando em um vermelho infernal enquanto Drácula observa tudo de cima.

Os vínculos entre cor e paixão são essenciais para a sensibilidade de Fisher, que utiliza de muito estilo para sugerir a natureza febril de uma existência sexual vampírica. O fato de ele consistentemente alcançar isso com tanta intensidade estética e alucinatória é um testemunho de suas habilidades de criador de imagens.

DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS marca também o ponto em que a Hammer começa a brincar de forma mais descompromissada com a mitologia dos vampiros. O método pelo qual Drácula é ressuscitado é fascinante e muito bem feito, mas de forma alguma é tradicional pra época. E como é óbvio que queremos que Drácula volte à vida para causar estragos novamente – além de ser tão bem executado – nem nos importamos com esse aspecto. Temos também a ideia semi-tradicional de que um vampiro não pode atravessar água corrente, que aqui acaba se transformando em “um vampiro imediatamente se afogará sob água corrente“. Acaba sendo um pouco demais, muito conveniente à mitologia que resulta num desfecho bem fraco.

No fim das contas, o que isso implica é uma certa variedade de preguiça que, uma vez empregada, a Hammer usaria repetidamente nos anos seguintes sempre que fosse mais conveniente do que trabalhar com a mitologia já estabelecida. Como matar um vampiro? A resposta, para a Hammer, é “o que for mais conveniente para o diretor e o roteirista na época“.

Não vou nem comentar também sobre o fato de que, dada a aversão do vampiro à cruz, conforme aderido pela Hammer, por que Drácula sequer tentaria invadir uma abadia? Simplesmente não ligo. Eu não me importo em quase nada com essas “liberdades”. Exceto quando resulta em sequências realmente ruins (como a do desfecho, com a água corrente).

Até porque num geral DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS se mantém como uma continuação muito boa para DRÁCULA – O VAMPIRO DA NOITE. E a direção de Terence Fisher é simplesmente boa demais para ser ignorada, e a cena da ressurreição, repito, realmente é uma das mais memoráveis ​​do filme, e ter Christopher Lee como Drácula, independente se ele fala, ou fica em silêncio, ou rosna ou grita, é sempre obrigatório.

Resumindo, se você gosta de filmes de vampiros de alguma forma e especialmente dos filmes da Hammer, DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS definitivamente vale uma hora e meia do seu tempo. Sim, ele brinca livremente com as regras, mas os resultados são sólidos no geral, e tem alguns momentos clássicos que realmente fazem valer a pena todo o resto.

PIRANHA (1978)

Na esteira de TUBARÃO, de Spielberg, a segunda metade dos anos 70 viu uma série de imitadores classe B invadirem os cinemas com filmes de animais selvagens assassinos, tanto pela água quanto por terra. PIRANHA é um desses exemplares, mas que possui um toque especial. Por que? Pra começar é produzido pelo Roger Corman. Querem outra boa razão? A direção é do Joe Dante. Ponto. Impossível não ser a melhor dessas “variações” do período.

Dante já havia se aventurado na direção antes, mas em parceria com outros pupilos do Corman, e trabalhava mais como editor para a New World Pictures, a produtora de Corman, quando foi escolhido para dirigir PIRANHA, desta vez sozinho. Sem muito dinheiro ou tempo, que era o habitual nas produções de Corman, Dante elaborou um pequeno e tenso thriller drive-in habilmente reforçado com um elenco regular de TV e filmes B. Um roteiro decente (que teve envolvimento de John Sayles, o que é mais um motivo pra esse filme ser especial), servindo de amplos elementos que os amantes desse tipo de material adora (umas pessoas com pouca roupa e um bocado de sangue), com uma pitada de reflexão social, mas sem se levar à sério, deixando o absurdo que é tudo isso aqui reinar de forma plena, o que certamente ajuda bastante.

Maggie (Heather Menzies) é uma espécie de rastreadora que é contratada para encontrar um jovem casal que desapareceu no interior. O eremita misantropo Paul Grogan (Bradford Dillman) relutantemente se oferece para ajudá-la depois que o jipe da moça quebra no meio do nada. Na jornada que se segue, Maggie e Paul encontra o casal, ou pelo menos o que possivelmente sobrou, um esqueleto que pode pertencer a um deles.

Logo no início do filme, nos é mostrado que o casal havia invadido uma instalação de pesquisa aparentemente deserta e encontrou uma piscina convidativa, então decidiram dar um mergulho. Infelizmente a piscina estava cheia de piranhas!

E não eram piranhas normais. São super piranhas mutantes criadas naquele centro de pesquisa. A instalação pertencia aos militares dos EUA e as piranhas foram planejadas como uma arma biológica para uso durante a Guerra do Vietnã. A guerra acabou e o projeto foi encerrado… Oficialmente. Extraoficialmente, no entanto, um cientista, Dr. Hoak (o grande Kevin McCarthy), ficou pra trás e continuou sua pesquisa com as piranhas, que agora podem viver em água doce ou salgada.

Se as piranhas entrarem no rio próximo, vão acabar alcançando o mar e se tornarão uma ameaça global. Mas isso não deve acontecer, já que estão presas à piscina. A menos que alguém a esvazie soltando as piranhas no rio… E é exatamente isso que Maggie faz inadvertidamente.

Maggie, Paul e o Dr. Hoak agora têm que tentar desfazer o desastre.

Primeiro problema. O acampamento de verão nas margens do rio, onde centenas de crianças vão pra lá se divertir nadando, brincando na água, lugar comandado pelo sempre genial Paul Bartel… Não vale a pena pensar no que aconteceria se as piranhas se soltassem entre centenas de crianças, mas o acampamento é exatamente para onde essas piranhas estão indo. E a filha de Grogan está no local.

Segundo problema. O próximo passo no roteiro das piranhas será o novo resort construído por um consórcio liderado pelo empresário pilantra Buck Gardner (Dick Miller). Haverá carnificina quando as piranhas chegarem.

Sem transporte por terra, a única maneira do trio chegar ao acampamento de verão a tempo é de jangada. Descer um rio infestado de super piranhas será um desafio. Maggie e Paul também enfrentam o problema de que os militares estão determinados a encobrir o fiasco. E a Dra. Mengers (a musa do horror gótico italiano Barbara Steele), que foi enviada para investigar o caso, também não vê porquê o fato de algumas centenas de pessoas serem comidas por piranhas deveria atrapalhar pesquisas científicas “vitais”. Os militares dos EUA precisam de maneiras novas e criativas de matar pessoas, não é?

Produção dos anos 70, o cinismo sobre o governo e as forças armadas dos EUA estavam no auge e o filme não mede esforços pra ridicularizar figuras do tipo pelo uso irresponsável da ciência e dos experimentos genéticos, mesmo que num tom mais satírico. Os cientistas também não se saem muito bem na fita por aqui. O Dr. Hoak é um cara legal, mas não consegue ver nenhum problema moral em seu trabalho.

Sobre a produção, PIRANHA até que foi um filme caro para os padrões de Roger Corman, o que significa também que foi um filme bem barato para os padrões de qualquer outro estúdio. Mas as produções de Corman sempre conseguiram superar suas limitações orçamentárias, o sujeito tinha o dom de contratar pessoas que podiam obter bons resultados com muito pouco dinheiro. Não preciso falar muito de Joe Dante que foi mestre nisso. Mas os efeitos especiais, por exemplo, foram alcançados de forma bastante simples. As piranhas são apenas fantoches de pau. Mas parecem bastante convincentes. A cena em que eles atacam a jangada é bem eficaz e genuinamente tensa. As cenas subaquáticas são todas bem feitas.

Há até um bocado de gore de vez em quando e a contagem de corpos é alta. Essas piranhas estavam realmente com fome. E em nenhum momento você pensa que um filme desse vai nos mostrar crianças sendo comidas por peixes carnívoros assassinos. Quero dizer, não há como isso acontecer, certo? Maggie e Paul chegarão ao acampamento de verão a tempo de evitar tais horrores. Não vão? Bom, é nessas horas que você percebe porque o Roger Corman e Joe Dante são dois caras fodas e ousados, com mais colhões do que 100% dos diretores/produtores/estúdios que fazem cinema hoje em Hollywood.

A atuações são bem decentes. Bradford Dillman é um bom tipo de herói ranzinza que nunca quis ser herói, mas a necessidade o força a isso. Heather Menzies também convence no seu papel e Barbara Steele está deliciosamente má. Não tem como não rir de caras como Paul Bartel e o maravilhoso Dick Miller, que exagera de forma divertida.

PIRANHA é o que se propõe a ser. É uma imitação barata de TUBARÃO que oferece emoções e horrores eficazes, e é extremamente divertido nesse sentido, além de trazer as reflexões habituais e clichês desse tipo de filme – experimentos científicos irresponsáveis, consequências ambientais, a ganância da indústria do turismo, que coloca em risco a vida das pessoas em prol do lucro… Clássico.

Teve uma continuação, PIRANHA II: THE SPAWNING, que é erroneamente atribuído a James Cameron como seu primeiro filme. A maior parte do trabalho foi realizada, na verdade, por Ovidio G. Assonitis, o produtor do filme. Segundo consta, Cameron trabalhou nos efeitos especiais, reescreveu o roteiro, criou storyboards, fez a aferição de locações e filmou por quatro dias. No entanto, Assonitis questionava continuamente as decisões de Cameron, que demonstrou que não seria o pau mandado que o produtor esperava (mesmo num filme chamado PIRANHA II), e o demitiu no quinto dia de filmagem. Não se sabe ao certo o que restou do trabalho de Cameron, mas é notório que Assonitis reescreveu muita coisa e adicionou as doses de nudez que não estava no script originalmente.

Mas já tô me prolongando demais. O fato é que essa continuação não chega aos pés do filme de Joe Dante. Fica a recomendação pra quem não viu ainda PIRANHA (ufa, terminei o texto sem fazer nenhuma piadinha infame com o título do filme…).

A NOITE DA CRUELDADE (Dangerous Game, 1987)

Hey! Um post novo!

Vi esse primeiro longa do diretor Stephen Hopkins. Quem? Pois é, uma pena que hoje em dia seja um nome pouco lembrado. O sujeito é desses diretores “pistoleiros de aluguel” – atira bem e não deixa muito rastro – e teve uma carreira até bem respeitada em Hollywood no final dos anos 80 e durante a década seguinte com um tipo de filme de orçamento médio que fazia relativo sucesso nos cinemas e nas locadoras – CONTAGEM REGRESSIVA (94), UMA JOGADA DO DESTINO (93), A SOMBRA E A ESCURIDÃO (96). Dirigiu também exemplares de franquias famosas como A HORA DO PESADELO 5 (89), PREDADOR 2 (90), fez a atualização da série sci-fi PERDIDOS NO ESPAÇO (98)… Nos anos 2000 e até hoje ele continua fazendo algumas coisas, mas meio que saiu dos radares.

Hopkins nasceu na Jamaica, mas passou boa parte da vida na Austrália. Foi lá que realizou A NOITE DA CRUELDADE. Um filme que faz bater certa curiosidade de como seria a carreira de um diretor como Hopkins se não tivesse sido engolido por Hollywood, tivesse continuado a fazer filminhos de gênero em seu país, pequenas joias como esta aqui.

Na trama, um policial meio surtado, psicótico, chamado Murphy (Steven Grives), começa a infernizar a vida de um estudante universitário, filho de seu ex-superior na corporação policial. Numa noite, quando o tal aluno e seus amigos, que se vestem como a banda A Flock of Seagulls, invadem o sistema de segurança de uma grande loja de departamentos e adentram no local, só por diversão, o policial decide assustá-los. Só que as coisas fogem do controle e dão muito errado…

Uma das coisas que eu realmente gosto em A NOITE DA CRUELDADE é como o policial psicopata é caracterizado. A maioria desses filmes já descamba pro slasher, assume que o personagem é maluco e, portanto, não terá remorso. A única coisa que lhe faz feliz é matar adolescentes aleatórios. O que é algo bom também, não estou dizendo que um jeito é melhor que outro. Mas, em contraste, Murphy é uma pessoa torturada e em conflito, o que torna isso aqui peculiar. E o bom desempenho de Grives ajuda muito a entender melhor o personagem. É um bocado exagerado nas expressões faciais, mas pro tipo de filme que temos aqui funciona bem.

A sequência que ele acidentalmente mata um garoto é um destaque. Podemos ver toda a sua vida desmoronar quando ele percebe o que fez. E a primeira reação é ligar pra polícia e relatar a cagada… Mas aí se dá conta de que, não importa o que diga, ele será o responsável pela morte e desliga sem falar nada. E o que acontece a partir daí é um jogo de gato e rato noite adentro pelos departamentos escuros dessa grande loja.

É evidente que sente-se a falta de algumas coisas, o filme se arrasta um pouco e os realizadores acabam não explorando tanto o material “explorativo” que tem em mãos. Enfim, não é um filme perfeito… No entanto, se você realmente conseguir se conectar e entrar na brincadeira, vai perceber que nem sempre um filme precisa de uma toneladas de peitos de fora ou alta contagem de corpos para manter o público interessado.

Na contagem:

Duas mortes
Uma ceninha curtíssima de peitos
Sem explosões
Nenhuma sequências de sonho alucinante
Sem tempestades relampejantes
Nenhum ator que apareceu em Star Trek

E ainda assim um bom filme.

PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA (1991)

Esse aqui é a continuação de um filme que postei outro dia,976-EVIL, ou FORÇA DEMONÍACA, ou como o amigo leitor Anselmo Luiz prontamente lembrou nos comentários, que o filme foi exibido por aqui no Cine Trash da Band como LINHA DIRETA PARA O INFERNO. Enfim, o que importa agora é que eu finalmente assisti a PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, ou FORÇA DEMONÍACA – LINHA DIRETA PARA O INFERNO 2 (976-Evil II), que apesar de não ser melhor que o filme original, é uma boa brincadeira.

Não tinha como dar errado, já que o diretor é o Jim Wynorski (como frisei no post do primeiro filme), mestre dos filmes B nos anos 80 e 90, que dirigiu clássicos como CHOPPING MALL (1986), filme sobre robôs assassinos vagando por um shopping e que, prometo, ainda vou escrever algumas coisas por aqui, e NOT OF THIS EARTH (1988), remake estrelado por Traci Lords do original de Roger Corman de 1957 e que já postei por aqui há alguns bons anos. depois cliquem aqui, porque eu já escrevi sobre vários filmes do Wynorski no blog. E pretendo escrever mais…

Eu gosto demais do Wynorski, como já devem ter notado, e já nos primeiros primeiros dois minutos de PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA dá pra perceber alguns motivos… Temos de cara algumas assinaturas de Wynorski impressas na tela: MOMENTO BORRACHARIA.

Nudez gratuita, uma moça no chuveiro, depois vestindo uma camiseta molhada sendo perseguida em corredores escuros por um indivíduo sobrenatural maligno. Sim, é um pouco insípido, mas é do Wynorski que estamos falando aqui. E também de terror do início dos anos 90… Então, por favor, não me venham com moralismo.

Pra compensar, a sequência termina com a moça de pouca roupa sendo assassinada no teatro da faculdade, onde o cenário de uma peça de Fausto está preparado… Então temos aqui o melhor dos dois mundos wynorskiano resumidos em uma cena. A essência do cinema de Wynorski: a mistura perfeita do Wynorski diretor de filmes de arte com o Wynorski diretor safado.

O enredo dessa continuação gira em torno do reitor (René Assa) dessa faculdade onde aconteceu essa abertura fantástica, que acaba se tornando a tal figura maligna, que mencionei ali em cima, depois de começar a fazer ligações para a mesma linha direta do Horrorscope do primeiro filme. Como resultado, desenvolve alguns poderes sobrenaturais, incorporando algum tipo de demônio, que o leva a matar alguns alunos. Não demora muito para acabar atrás das grades, mas nem isso segura o sujeito. Enquanto seu corpo físico está na prisão, seu espírito (ou algo assim) atravessa as grades da cela para continuar tocando o terror.

Temos o retorno de Spike, o jovem sobrevivente do primeiro filme, novamente interpretado por Patrick O’Brien (ainda fazendo uma imitação de um James Dean oitentista fajuto), que reúne forças com Robin (Debbie James), a filha do delegado da cidade e estudante da faculdade dirigida pelo reitor dos infernos. Os dois passam o filme inteiro mantendo alguma tensão sexual e, claro, tentam descobrir como capturar, matar, destruir – ou seja lá o que se faça com os espíritos do mal – o reitor possuído.

PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA não é um filme perfeito, mas eu só tenho elogios a fazer. Wynorski realizou um filme muito melhor do que precisava. É como se ninguém dissesse à ele que isso aqui deveria ser apenas uma sequência descartável de um filme que ninguém mais lembrava para ser exibida na TV a cabo tarde da noite. E o que o Wynorski faz? Bom, é um sujeito que eu já disse antes que tem talento para além da safadeza e tosquice que são seus filmes, que sabe trabalhar com criatividade nas mais adversas produções, com baixíssimos orçamentos… Quero dizer, claro que aqui não deixa de ter um pouco de tosquice e safadeza (algo que tá até bem abaixo da média dos filmes do diretor) mas também há uma direção genuinamente criativa e muitas coisas interessantes acontecendo na tela.

Há uma perseguição de carros no meio do filme que é muito maior e melhor do que eu esperaria de uma produção com esse orçamento. Foi aqui também que Wynorski, que é um sujeito esperto, filmou uma sequência na qual Spike com sua motocicleta explode um caminhão com dinamite e que o diretor reaproveitou as imagens para inserir neste outro filme que já comentei aqui. Gênio da picaretagem.

E de alguma forma, alguém deu a Wynorski os direitos de usar cenas do clássico A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, do Frank Capra, numa das sequências mais incríveis de PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, quando a amiga de Robin é sugada para sua televisão e se vê participando de uma mistura bizarra entre A FELICIDADE NÃO SE COMPRA e A NOITE DOS MORTOS VIVOS, do Romero. Sério, é uma ideia legitimamente boa e criativa. Em algum lugar, o Capra deve estar se contorcendo no seu túmulo, mas tudo bem…

Algumas aparições de figuras notáveis do cinema B do período também tornam as coisas mais divertidas em PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, como Monique Gabrielle, uma das musas scream queen dos anos 80 fazendo uma advogada; George ‘Buck’ Flower, que tem uma morte terrível por aqui; e numa das melhores sequências do filme, Spike vai a uma livraria de ocultismo chamada Lucifer’s e descobrimos que ela é administrada por ninguém menos que Brigitte Nielsen.

Se alguém por aí é, de alguma forma, o público deste tipo de tralha, admira o trabalho do Jim Wynorski, então fica a recomendação. PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA é curto, bobinho, barato, o ritmo é bom, as mortes são frequentes e algumas bem sangrentas – repito: fiquem de olho na morte do ‘Buck’ Flower. Os efeitos especiais são pobres, mas funcionam, possuem o charme que só esse tipo de filme proporcionava. Quase nunca o filme cai em momentos de tédio. É tudo o que poderia querer da continuação de um filme que ninguém se lembra e que ninguém pediu, feita com baixo orçamento por um mestre do B Movie americano no início dos anos 90.

A NOITE DAS VAMPIRAS e o humor macabro de Rubens Mello

O querido ator e diretor guarulhense Rubens Mello está finalizando seu primeiro longa-metragem, uma mistura de horror com comédia deliciosamente chamada A NOITE DAS VAMPIRAS.

Sinopse: Justine é uma jovem que foi criada por pais adotivos. Em sua vida adulta, tornou-se uma atriz que faz muito sucesso em comerciais de TV. Em certo momento, recebe um convite para conhecer sua família biológica. O encontro se dá às vésperas de uma festa, que acontece anualmente, para celebrar o sucesso do açougue gerido pela sua família. Mas, o que era para ser apenas uma reaproximação com sua verdadeira família, torna-se algo sinistro e bizarro, onde coisas absurdas e engraçadas acontecem, levando Justine a conhecer o verdadeiro segredo do sucesso dos negócios da família.

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30 anos de DRÁCULA DE BRAM STOKER

Outro dia tava revendo esse filme do Coppola que já tá completando três décadas. E, mais uma vez, fiquei maravilhado como da primeira vez que vi, quando era moleque, mais ou menos na metade dos anos 90… Essa sequência de abertura em especial simplesmente me deixa sem chão.

Podem dizer o que quiser, eu sei que quando se discute a carreira do Coppola, muita gente já enche a boca pra destacar a trilogia O PODEROSO CHEFÃO e APOCALYPSE NOW como as obras primordiais do homem. E provavelmente essas pessoas estão certas. Sobretudo APOCALYPSE NOW e O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III são dois dos maiores filmes já feitos na história.

No entanto, é DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker’s Dracula, 1992) que certamente está entre as maiores realizações pessoais do diretor.

Na edição de novembro de 1992 da Fangoria – cuja capa se refere ao filme em questão como “O evento de horror da década!” – apresenta uma entrevista com o Coppola, que fala sobre sua tentativa de fazer um filme experimental a partir do romance de Bram Stoker, enquanto o estúdio queria um grande e luxuoso filme de terror de primeira linha. Coppola vinha de uma década de fracassos, não podia ficar de molecagem, mas o próprio filme demonstra que ele conseguiu algo. Ao final da entrevista, ele conclui:

A ironia é que mesmo que este filme não tenha sido tão experimental como eu planejei originalmente – eu consegui talvez 40 % do que eu queria – ainda não é um filme convencional. Certos aspectos dele escaparam de mim, ficaram maior do que eu pretendia; eu estava pensando em fazer uma versão menor, estranha e artística, e o que eu consegui é uma versão grande, estranha e artística.

Caso familiar de eventos na carreira de Coppola: a intenção de fazer um filme menor fugir de seu controle e se transformar em algo muito mais extravagante, épico e suntuoso… Nesse caso, porém, DRÁCULA acabou sendo um raro sucesso de sua carreira pós anos 70, em grande parte graças ao conceito estético da coisa. O homem de alguma forma convenceu um grande estúdio a trazer à vida uma visão experimental do horror para um público então desavisado, que achava que receberia uma super produção tradicional do gênero (e que foi bombardeado na época com uma massiva campanha de marketing), mas que acabou se deparando com um triunfo de vanguarda estética das mais radicais, barrocas, revolucionárias e inventivas no cinema mainstream americano.

E acho que é exatamente isso que mantém DRÁCULA tão vivo até hoje. Mesmo para quem nunca o assistiu e o ainda fará pela primeira vez (e por favor, se alguém aí ainda não viu, faça imediatamente), o que salta aos olhos de maneira instantânea são os mesmos elementos formais pelos quais o filme foi aclamado e premiado há trinta anos.

O sucesso é antes de tudo visual com uma das estéticas góticas mais extravagantes já vistas, um primor de direção de arte, fotografia, exuberância de cores, cenários, figurinos, composições visuais meticulosamente trabalhadas, montagem complexa, efeitos visuais ópticos à moda antiga, buscando mais pureza nas trucagens, na arte de fazer um cinema mais artesanal, com maquetes, teatro de sombras, maquiagens, sobreposição de imagens estilizadas… Ou seja, o que mantém a grandeza de DRÁCULA é esse esforço de Coppola em contar essa história em termos puramente visuais. São duas horas de um festival sensorial que sintetiza o cinema de horror como arte.

Coppola teria ainda delegado bastante responsabilidade ao seu filho Roman Coppola, que teria sido um dos cabeças dos efeitos especiais e também diretor de segunda unidade e que quase poderia ser descrito como um diretor não oficial de DRÁCULA. Tudo isso depois que Coppola demitiu a equipe original de efeitos especiais, que não conseguiu acompanhar as ideias artesanais que o homem queria pro seu filme.

Toda essa ideia de fazer efeitos especiais arcaicos é claramente uma forma de homenagear o próprio cinema e transcender suas inspirações, as outras grandes obras que adaptaram o mito de Drácula para a tela grande, desde os clássicos da Universal aos filmes da Hammer, mas também da poesia fantástica francesa com A BELA E A FERA, de Jean Cocteau. E, claro, NOSFERATU, de Murnau. Apesar de que ao mirar nesse filme do Murnau, Coppola parece ter acertado mais em FAUSTO. Quem assistiu aos filmes do alemão vai perceber…

Uma coisa que não lembrava tanto aqui é como o filme é intensamente erótico. Sexo e morte sempre andaram de mãos dadas no cinema de horror (especialmente quando se trata do subgênero “filmes de vampiro”), mas Coppola trabalha num nível quase fetichista de fantasias libidinosas. O encontro inicial de Jonathan Harker (Keanu Reeves) com as Noivas do Conde (entre elas uma jovem Monica Bellucci) é de matar um idoso do coração, com o leito dando lugar a corpos emergentes que se entrelaçam; bocas, línguas, braços, pernas, seios se encontram antes de Drácula enxotá-los, reivindicando para si o rapaz desnorteado.

A personagem de Lucy (Sadie Frost) nessa versão também dá uma alegrada, toda sapeca, rindo com Mina (Winona Ryder) depois de deixar cair uma cópia do Kama Sutra, antes de acariciar a faca de um de seus pretendentes, dizendo a ele que não pode acreditar o quão grande é. Na verdade, todos os principais temas que geralmente são suprimidos ou mascarados em versões antigas do mito de Drácula adaptadas para o cinema estão aqui de forma mais explícita: a estreita relação da maldição do vampiro com o sexo, AIDS, drogas, além do progresso da medicina, espiritualidade, religião, etc.

É fácil esquecer, dado o número de mudanças em centenas de adaptações que Drácula teve ao longo da sua existência, que não há uma única interação romântica entre o personagem título e Mina Harker no romance de Stoker. O Conde não tem nenhum interesse nela, além do desejo de se banquetear com seu sangue e transformá-la em uma de suas noivas. Ela é apenas a vítima de um predador;

Mas aqui o olhar de Drácula é a de um amante. De repente, não estamos mais assistindo as façanhas de um monstro sem alma, mas sim um espírito assombrado, alimentando desesperadamente sua jornada através de épocas para alcançar o destino de possuir aquela que ele perdeu há muito tempo.

E a história de amor entre Drácula e Mina, apesar de cafona, até que é boa de acompanhar, com alguns momentos tocantes, como o primeiro encontro dos dois, seguido da cena no cinema; ou a sequência em que Mina se entrega ao sujeito e bebe seu sangue. Coppola realmente conseguiu fazer do personagem um indivíduo trágico através desta história e causar um sentimento misto, no qual queremos tanto vê-lo perecer por seu lado maligno quanto em reencontrar o seu amor.

Sobre o elenco, A primeira coisa que as pessoas costumam lembrar para difamar o filme é, claro, a atuação de Keanu Reeves como Harker. Sabe-se que Coppola queria Johnny Depp para o papel, mas o estúdio não achava que ele tinha o nome forte o suficiente na época. O próprio Reeves diz que não gosta de sua atuação aqui, vinha de uma série exaustiva de trabalhos e quando filmou DRÁCULA estava esgotado, não conseguiu entregar algo melhor. Mas não acho que chega a prejudicar, embora não seja mesmo das suas melhores performances.

Mas para além disso, curto praticamente todos os rostos que aparecem por aqui, especialmente Anthony Hopkins, obviamente, no papel de um Van Helsing divertido e astuto.

Outros destaques do elenco incluem Tom Waits interpretando Renfield como um comedor de insetos, e Sadie Frost, que, como já falei, assume o papel de Lucy, personagem tipicamente ingrato da melhor amiga da protagonista, que Drácula seduz primeiro, mas que aqui acaba tornando algo especial. É uma das minhas personagens favoritas do filme.

E enquanto isso, a própria personagem Mina não exige tanto de Ryder na maior parte do tempo. Ela tá ótima, mas acho suas outras performances do período muito mais interessantes…

É Gary Oldman, porém, quem rouba o filme e seus talentos camaleônicos são perfeitos para o Drácula como concebido aqui. Conseguindo atuar de forma convincente através dos vários designs complexos de maquiagem, Oldman é igualmente expressivo como um Drácula idoso decrépito, um jovem galã vitoriano ou um morcego de 1,80 m de altura. Suas cenas românticas com Ryder lembram aqueles livretos de banca, Harlequin, A Paixão de Jéssica, O Moinho do Amor, coisas do tipo, mas ele é persuasivo o suficiente para que, quando expõe seu peito e rasga um teco para Mina beber seu sangue, seja possível perceber que ela realmente tá a fim do cara.

É provável que DRÁCULA tenha sido um dos primeiros de uma onda de filmes de vampiros dos anos 90, como ENTREVISTA COM O VAMPIRO, que adotaram uma abordagem gótica, sombria, mas ao mesmo tempo romântica, que atraíam o público jovem do período.

Anos depois, é fácil traçar uma linha desse tipo de filme até, sei lá, a série CREPUSCULO, embora os fãs de DRÁCULA provavelmente zombem dessa comparação. A verdade é que eles exploram as mesmas fantasias. Porém, é muito provável que em comparação com a sexualidade casta de Stephanie Meyer, o filme de Coppola é praticamente pornográfico… Pessoalmente, nunca vi esses filmes dessa saga.

Enfim, a única parte negativa disso tudo é notar é que este aqui foi o último grande filme do diretor. Coppola até possui vários ótimos trabalhos depois, como TETRO, mas nada que chegue aos pés de DRÁCULA. E lá se vão trinta anos…

FORÇA DEMONÍACA (1988)

Já tinha assistido a FORÇA DEMONÍACA (976-Evil) antes, já faz alguns bons anos, e queria ver a continuação, que é dirigido pelo Jim Wynorski. O que pra mim é obrigatório. Nem sei porque ainda não vi. Só que eu não lembrava de quase nada deste primeiro filme. Então, cá estou, resolvi compartilhar essa revisão com meus caros cinco leitores… “Mas que raios de filme é esse?” alguém deve estar se perguntando.

Escrito por Brian Helgeland e Rhet Topham, FORÇA DEMONÍACA deveria gerar algum interesse dos fãs de terror simplesmente porque é a estreia na direção de um certo Robert Englund. Sim, o próprio Freddy Krueger arranjou um tempinho entre as continuações de A HORA DO PESADELO e se meteu atrás das câmeras.

Aparentemente, Robert Englund dirigiu FORÇA DEMONÍACA simplesmente porque queria fazer, foi o filme que surgiu da sua mente. Não tem nenhuma ligação com produtores de A HORA DO PESADELO, não teve nenhum acordo do tipo “aparecer em mais um filme como Freddy Krueger e em troca poder dirigir um filme”… Nada. Englund conhecia os roteiristas, vomitou todas as ideias que tinha e assim foi surgindo FORÇA DEMONÍACA.

No entanto, como não poderia ser diferente, após alguns anos encarnando um dos maiores ícones pop do horror dos anos 80, sua estreia na direção acaba tendo uma dose de influência da série de filmes criada por Wes Craven… A inspiração em A HORA DO PESADELO é bem óbvia.

A história gira em torno de Hoax (Stephen Geoffreys), um tipo nerd, deslocado, que ainda dorme de pijama e não pode comer chocolate no sofá da sala, totalmente dominado por sua mãe fanática religiosa, vivida por Sandy Dennis – Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1967 por QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?. Além disso, o moleque é impiedosamente intimidado pelos bad boys do ensino médio da escola. A única luz na sua vida é seu primo rebelde Spike (Patrick O’Bryan), uma espécie de James Dean oitentista, que anda pela cidade numa Harley, aumentando suas dívidas nos círculos de poker underground.

Tudo que Hoax quer é ser como seu primo, ou pelo menos tê-lo sempre por perto, lhe protegendo… Depois de se humilhar na frente da namorada de Spike, Suzie (a maravilhosa Lezlie Deane), quando ela descobre que ele roubou suas roupas íntimas, Hoax recorre a uma linha telefônica de auto ajuda chamada Horrorscope, que utiliza o tal 976 do título para fazer as chamadas (nos anos oitenta esse tipo de prefixo “9 alguma coisa” era extremamente popular nos Estados Unidos), para obter algum consolo. Depois de seguir o conselho da misteriosa linha de apoio, o rapaz lentamente começa a se transformar em uma poderosa criatura demoníaca e assim começa sua busca por vingança.

Começando um pouco inseguro de si mesmo, meio sem saber definir o tom, o filme eventualmente se transforma num produto de terror bastante agradável, que se eleva acima do pequeno orçamento e diverte com esse conceito tão batido. Sim, o tema “nerd-on-revenge” já foi feito um milhão de vezes antes e Englund sabe disso, ele apenas quis requentar uma historinha que ainda pode render bons frutos, adicionando temas que até podem soar clichês e derivativos em alguns momentos, mas que possui personalidade, uma visão pessoal de Englund – agora como criador de imagens de horror – e um bocado de humor.

E ele se sai muito bem. De vez em quando dá uma derrapada no ritmo, algo normal para um estreante… Em termos visuais, o sujeito demonstra boa noção de composições, de como trabalhar a câmera, há aquele charme sombrio do horror oitentista marcado por neons que o sujeito explora de forma belíssima. Gosto bastante dos cenários, tudo tem uma qualidade exagerada. E embora não seja um filme muito sangrento, os efeitos especiais de maquiagem do mestre Kevin Yagher são ótimos. A sequência do massacre no cinema, com direito a um bocado de gore, e o final em que a casa de Hoax se transforma na porta de entrada para o inferno, são particularmente especiais.

Tirando esses momentos, não é um filme que há grandes cenas que permanecerão na memória. Como disse antes, eu já tinha apagado da mente 90% do filme… Mas revendo agora é interessante notar uma agradável atmosfera crescente de desconforto à medida que Hoax se torna mais atraído pelo tal serviço telefônico. Nunca é explicado de onde surgiu o número demoníaco, como Spike obteve o cartão, há apenas uma revelação no desfecho, mas que também não diz muita coisa. E em duas ocasiões mostra outras vítimas que acabam tendo um destino cruel por estarem envolvidas com o Horroscope… Há até a presença de um detetive que investiga essas mortes misteriosas ligadas ao serviço, que gera alguns momentos curiosos, mas o que importa mesmo é Hoax e sua jornada diabólica de vingança.

O paralelo com A HORA DO PESADELO torna tudo ainda mais interessante. FORÇA DIABÓLICA é quase um primo distante da franquia de Freddy Krueger, com sequências de terror e clima de pesadelo inspiradas e ambiciosas, cuja produção talvez não tivesse o orçamento suficiente para realizar de forma mais eficiente, mas que vale pelo esforço. Hoax até se transforma, no fim, num monstro brincalhão com unhas afiadas que é impossível não se lembrar de Freddy. Sem contar os temas em comum, sobretudo com A HORA DO PESADELO 2 – A VINGANÇA DE FREDDY, com subtexto gay e tudo, mas neste enredo de possessão satânica juvenil.

O elenco é um destaque à parte. Stephen Geoffreys tá muito bom como Hoax. Um bocado irritante no início, mas funciona. Outro papel famoso de Geoffreys é como o vampiro Evil Ed no clássico do horror oitentista A HORA DO ESPANTO. Depois disso, além de um ou outro trabalho mais conhecido, o sujeito trocou o viés do cinema que vinha fazendo e começou uma carreira longa e bem sucedida como ator de filme pornô gay, usando pseudônimos como Sam Ritter e Stephan Bordeaux. Nunca assisti nada dessa fase, mas fica a dica pra quem tiver interesse…

Sandy Dennis está bem divertida como a mãe de Hoax e rouba a cena quando aparece. Patrick O’Bryan não é lá muito expressivo, mas Englund consegue extrair o suficiente do rapaz. Lezlie Deane tem boa presença na tela; e há um pequeno papel para o grande Robert Picardo que é muito bem-vindo.

Certamente FORÇA DIABÓLICA não está no mesmo nível dos melhores exemplares do horror de baixo orçamento dos anos 80, mas é uma maneira agradável de passar o tempo e mostra que Robert Englund pode se sair quase tão bem atrás da câmera quanto na frente dela. Pena que além deste aqui, ele acabou fazendo só mais um filme, já nos anos 2000… FORÇA DIABÓLICA é um filme meio estranho, muito bobo em alguns momentos, mas não deixa de ser divertido na maior parte do tempo e que de alguma forma consegue ser mais notável e gratificante do que eu lembrava.

E agora sim, posso assistir sem peso na consciência a continuação, 976-EVIL II, lançada no Brasil como PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, de 1991, dirigido pelo grande Jim Wynorski… Até!

PYTHON: A COBRA ASSASSINA (2000)

Às vezes eu me pergunto o que tô fazendo com a minha vida. Poderia estar postando sobre um filme noir, um western do John Ford, até mesmo um horror italiano de um Mario Bava ou filmes de ação dos anos 90 estrelados por algum action hero icônico da época. Mas não, tô escrevendo sobre um filme de uma cobra gigante feita de CGI tosco dos anos 2000…

Tudo bem, vamos lá… Aproveitando o sucesso de ANACONDA, na segunda metade dos anos 90, e o surgimento de filmes como KING COBRA (1999) que tinha vendido à beça no mercado, dando início a uma demanda por filmes de cobras gigantes, PYTHON: A COBRA ASSASSINA (Python), de Richard Clabaugh (que diz que a sua inspiração, na verdade, foi O ATAQUE DOS VERMES MALDITOS), foi um dos primeiros exemplares da interminável onda de filmes do gênero, com cobras e crocodilos gigantes à solta, que surgiram nesse período.

E é um dos melhores que já vi. O que não significa que seja bom… Mas confesso que PYTHON tem peculiaridades suficientes pra me fazer sorrir no fim da sessão.

Primeiro, é um filme que não é chato. Tem sempre coisas acontecendo, sub-tramas e mini-histórias que não deixam o ritmo cair, pelo menos em boa parte de projeção. Além disso, PYTHON tem algo que a grande maioria dessas tralhas não tem: senso de humor. Daí faz até algum sentido Clabaugh dizer que O ATAQUE DOS VERMES MALDITOS tenha sido sua inspiração… É quase uma tentativa falha de combinar uma trama de horror com comédia em alguns momentos. Embora no fim das contas acabe mesmo sendo uma comédia involuntária durante o tempo todo.

Olha, pra mim funciona em algum nível. Deu pra dar boas risadas com algumas coisas… E, convenhamos, quem procura um filme sobre uma cobra gigante comendo ou matando pessoas não dá pra exigir muito. Dar risadas já é estar no lucro.

Na trama, quando um avião militar – que transporta um projeto ultrassecreto do governo – cai perto da pequena cidade de Ruby, ninguém parece se importar muito, apesar do misterioso fato de que o piloto e o outro tripulante a bordo morrerem por estarem cobertos com ácido. Então, quando esse tal projeto do governo, que é um híbrido genético de uma cobra atingindo 30 metros de comprimento, começa sua matança no local, a polícia acredita que um serial killer está à solta, matando suas vítimas com ácido. Incluindo o casal de lésbicas, as primeiras vítimas, que transam numa barraca na floresta, desconstruindo um pouco a habitual sequência de sexo ao ar livre do casal “homem e mulher” tradicional desse tipo de filme…

A polícia começa a ter um suspeito, John Cooper (Frayne Rosanoff), um praticante de BMX e aventureiro que voltou à cidade para ajudar seu irmão a administrar a fábrica de plástico de sua familia.

Entra em cena algumas figuras legais que deixam o filme mais divertido. Casper Van Dien com um bigodinho canalha é o líder da equipe mais atrapalhada de soldados que já vi e que tem a missão de capturar ou destruir o perigoso animal.

Temos também a presença (com muito mais tempo de tela que eu esperava) do Robert Englund, fazendo o cientista que é o expert sobre a cobra gigante e não quer que ela seja morta, porque é um experimento muito valioso e tal, blá, blá, blá, a mesma história que já vimos em um milhão de filmes. De qualquer forma, Englund em cena sempre abrilhanta qualquer situação.

A performance mais engraçada é de Scott Williamson como um corretor de imóveis babaca. Ele rouba o filme inteiro. Há uma sequência particularmente ótima em que ele tenta transar com a Jenny McCarthy mostrando uma casa à venda pra ela, mas é interrompido ironicamente pela cobra… Outro que merece destaque é o policial vivido por William Zabka, que tem dor de cotovelo por ter perdido a namoradinha para o protagonista da trama (e que rememora seu tempo de Cobra Kai lutando contra o protagonista no meio da rua, numa das cenas mais sem noção de PYTHON). Ah, e o piloto do avião na sequência de abertura é o grande Ed Lauter.

Sério, acho que nem o Quentin Tarantino poderia ter escolhido um elenco melhor para um filme de cobra assassina gigante em CGI.

Aliás, sobre a cobra em si, ou seja, os efeitos especiais em CGI da cobra gigante, como já devem ter notado nas imagens que coloquei aqui no post, podem até não ser dos melhores resultados, não ter o nível de um PARQUE DOS DINOSSAUROS… Mas não há nada de errado nisso. Pelo contrário, para o período que em que PYTHON foi produzido e com o orçamento claramente risível, não dá pra ficar esperando algo melhor. E ainda há o charme a mais que esse tipo de tosquice visual acrescenta. Já o trabalho com efeitos especiais práticos, de maquiagem, em especial as vítimas derretidas pelo ácido da cobra, são muito bons.

E é isso. PYTHON é a prova de que com o elenco certo, um bocado de bom humor, roteiro que tenta de alguma maneira criar personagens e desconstruir alguns elementos tradicionais, e com uma cobra gigante feita em CGI tosco, qualquer coisa pode funcionar… Claro, como disse, ainda não dá pra considerar isso aqui um “bom filme”. E em especial o último terço da narrativa, justamente o confronto final dos heróis com a cobra gigante, a coisa meio que desanda de vez. Mas ainda é o tipo de porcaria que me diverte.

E no fim das contas, não me arrependo por não estar escrevendo sobre um noir dos anos 40, ou um western do Ford…

RANKING PSICOSE

Já que estamos no mês de Halloween, nada mais justo que ver uns filmes de horror pra variar… Como se eu já não assistisse coisas do gênero o ano inteiro. Mas enfim, há alguns dias resolvi rever a franquia PSICOSE. Sim, o clássico de Alfred Hitchcock de 1960 teve algumas continuações nos anos 80 e 90, caso alguém não saiba. Eu já tinha visto quando era moleque e não me lembrava de nada. E foi uma boa jornada. Quero dizer, pelo menos alguns valeram muito a pena. Outros nem tanto. Então resolvi listar os filmes da série em ordem de preferência, do pior ao melhor.


6. BATES MOTEL (1987), de Richard Rothstein

O pior filme da franquia PSICOSE disparado é isso aqui. Entre PSICOSE III (1986) e PSICOSE IV (1990), tentaram fazer um spin-off da coisa toda, uma série de TV que acabou não indo pra frente. O piloto acabou virando esse TV movie meia boca que ignora as continuações produzidas até ali e imagina como seria se o serial killer Norman Bates tivesse ficado amigo de um garoto dentro da instituição que estava preso logo após os eventos do primeiro filme. 27 anos depois, Bates morre e deixa o famigerado motel de herança pro rapaz, que precisa reformar e reabrir o local… É o multiverso PSICOSE.

É fraquinho, uma comédia dramática sobre esse sujeito chamado Alex West (Bud Cord), um deslocado social tentando lidar com a vida fora da instituição onde passou a vida inteira preso, as burocracias para reabrir o motel, fazendo amizade com novas pessoas e, de vez em quando, encarando uma ou outra situação de horror, como se o mal que assombrou a família Bates ainda estivesse ligado ao local. Se o trabalho de suspense e horror não fosse nulo, talvez rendesse algo, mas nem pra isso BATES MOTEL presta. O arco da escritora, por exemplo, no terceiro ato, uma historinha de fantasmas totalmente deslocada da trama principal, é constrangedor e provavelmente dá um gostinho do que seria a série. Da mesma forma, a revelação final, ao estilo desfecho de Scooby Doo é um dos troços mais ridículos que já vi. Enfim, não vale muito a recomendação, a não ser que você seja um completista obcecado.

5. PSICOSE (1998), de Gus Van Sant

É o único filme que não revi, então nem vou me prolongar muito. Um experimento que o Van Sant fez de refilmar o clássico de Hitchcock quadro a quadro… Há quem defenda, mas eu particularmente acho uma inutilidade. Prefiro rever o original trocentas vezes. Mesmo assim, pelas minhas lembranças, ainda é melhor que BATES MOTEL.

4. PSICOSE IV (1990), de Mick Garris

O quarto e último da série PSICOSE também é um filme feito pra TV. Ao longo de quase 90 minutos assistimos Norman Bates (Anthony Perkins já imortalizado pelo personagem) tentar desempacotar toda a sua bagagem emocional e psicológica ao telefone num programa de rádio, com um monte de flashbacks da sua infância e adolescência, explorando as origens que o levaram a ser um serial killer e sua relação edipiana com a mãe (Olivia Hussey). Também descobrimos que Norman agora se casou e está tentando acabar com seus demônios para sempre. O que inclui matar sua esposa grávida para que o mal não passe para a próxima geração…

Mas é tudo meio decepcionante. Até curto algumas coisas do Mick Garris, mas acho que sempre foi mais simpatia pela sua boa vontade com o gênero do que realmente talento, mas temos alguns momentos aqui e ali mais inspirados em PSICOSE IV, como quando Henry Thomas (o garotinho do E.T. O EXTRATERRESTRE) assume o papel de Norman Bates adolescente, lutando com seus sentimentos inquietantes por sua mãe e propensão a esfaquear mulheres. Mas num geral as coisas não funcionam muito bem, é tudo muito chato e nem trazer o roteirista do original e a trilha sonora de Bernard Herrmann ajuda muito…

3. PSICOSE III (1986), de Anthony Perkins

Aqui começam as surpresas. Não lembrava que este terceiro filme era tão legal. Foi dirigido pelo próprio Anthony Perkins, que não se aguenta em criar uns fan service para homenagear o filme original (com alguns detalhes e enquadramentos que copiam o filme de 1960) e o próprio Hitchcock (a sequência inicial das freiras remete muito a VERTIGO), mas ao mesmo tempo transporta o material para o slasher dos anos 80 em toda sua essência: exagerado, com grande dose de nudez, um bocado de violência, muito neon, só coisa boa… Pode não ter um trabalho psicológico tão complexo, como o de PSICOSE II (1982), mas todos esses elementos típicos do horror oitentista compensam pra diversão.

Perkins, particularmente, tá um bocado over, mas ainda é maravilhoso assisti-lo como Norman Bates. E ainda demonstra um bom domínio na direção, na condução das coisas, construção de atmosfera tão peculiar do slasher e da estética do horror dos anos 80 num geral… Podia ter investido mais no ofício. Mas o que realmente se destaca em PSICOSE III é a presença insana do grande Jeff Fahey. O cara tá sensacional!

2. PSICOSE II (1982), Richard Franklin

Uma sequência que consegue expandir o cânone do primeiro filme, que é um dos maiores da história (e a essa altura já sabem que ficou em primeiro lugar neste ranking), ao mesmo tempo em que se aprofunda nos seus mistérios. Um filme com grande interesse em examinar essa figura que é Norman Bates (Anthony Perkins simplesmente genial aqui) sem transformá-lo em um rato de laboratório, simpático ao espaço mental do personagem, interessado em descompactar as camadas de uma vida inteira de trauma, culpa e medo na sua psique, 22 anos depois dos eventos do primeiro filme.

Há também uma boa dosagem de momentos de tensão e horror para equilibrar o drama, com algumas mortes realmente divertidas (e como já estamos nos anos 80 aqui, um pouco mais de violência gráfica que o clássico) e algumas boas reviravoltas. Ótimo roteiro de Tom Holland e a direção sempre competente de Richard Franklin, o “Hitchcock australiano”. Pode não chegar aos pés do original (poucos filmes do gênero chegam) mas temos aqui um dos melhores filmes de psicopatas dos anos 80.

1. PSICOSE (1960), de Alfred Hitchcock

Por fim, a cereja do bolo. Não tinha como ser diferente. E talvez neste momento, revisto pela milésima vez, PSICOSE seja o meu Hitchcock preferido… Desses filmes que eu já coloquei numa prateleira especial dos exemplares que nunca vou cansar de rever. É perfeito. Quantos filmes podem se orgulhar de terem reformulado um gênero? Não acho exagero nenhum dizer que essa obra-prima de Hitchcock, talvez o mais famoso filme de serial killer da história, criou o horror moderno.

Dessa vez fiquei atento nos detalhes da atuação de Anthony Perkins como o jovem Norman Bates – seu rosto, no final, é uma das mais terríveis expressões do mal já vistas. É tão antológica que não surpreende o sujeito nunca mais conseguir se livrar do papel. Mas o que faz mesmo de PSICOSE um filme extraordinário é a brilhante construção de planos que Hitchcock usa para costurar uma história que é simplesmente fantástica. Desde o plano inicial, a Janet Leigh de sutiã, o domínio do suspense durante cada segundo de sua “fuga”, a trilha sonora do Herrmann entoando, o encontro com Bates, até chegar na cena do chuveiro, que é uma das mais icônicas da história e que desconstruiu toda a noção de protagonismo que o cinema havia trabalhado até então.

É brutal, tenso, tesudo pra cacete e com aquela ironia macabra tão inerente ao velho Hitch.

Enfim, tudo já foi dito sobre PSICOSE. Essa revisão, mesmo depois de tantas e tantas ao longo de décadas, foi primordial só pra perceber ainda mais o quanto amo esse filme.

CRIMES DO FUTURO (2022)

Existem certos diretores que eu simplesmente acho que nunca mais vão conseguir trabalhar ou financiamento pra filmar. E a carreira acabou… Sou um cara pessimista por natureza. Coppola, De Palma, Verhoeven, Paul Schrader, Abel Ferrara, Michael Mann, Clint Eastwood agora que perdeu o contrato com a Warner, e muitos outros. Alguns desses até tem filmado com certa frequência, mas sempre acho que o último filme que lançaram será realmente o último. Com o Cronenberg foi esse mesmo receio.

Depois de uns 8 anos sem filmar, já tinha perdido as esperanças. Mas eis que em 2022 tivemos a alegria de ver um novo Cronenberg. CRIMES DO FUTURO (Crimes of the Future), que também é o nome de seu segundo longa, lá atrás, em 1970. O que dá a impressão de um encerramento de ciclo… Mas não só por isso, mas sobretudo pela própria proposta do filme, que parece uma auto-reflexão do seu cinema, um retorno a todos os seus grandes temas conceituais e visuais. É quase um resumo de sua obra. Um filme de Cronenberg definitivo. É fascinante, é bizarro, é uma coisa linda…

Não é perfeito. Tá longe dos seus melhores trabalhos, mas tudo bem. Não deixa de ser maravilhoso poder ver esse mestre, um dos meus diretores favoritos, ainda com criatividade deflagradora, fazendo o que quer, fazendo seu cinema sem concessões e interferências.

Estamos, portanto, num terreno familiar – principalmente pra quem costuma revisitar os filmes do homem com mais frequência, e no meu caso fiz uma maratona completa dos longas do diretor no início deste ano – mas ao mesmo tempo mergulhamos numa atmosfera cheia de frescor e autenticidade.

Num futuro próximo, a raça humana evoluiu em certos aspectos fisiológicos anormais, como a perda da sensação de dor e desaparecimento de infecções, doenças, enquanto alguns indivíduos experimentam até mesmo o crescimento de novos órgãos no interior de seus corpos. Dando origem à pessoas que utilizam essa capacidade de modificação corporal como forma de expressão artística.

O que de certa forma é a base do body horror que o Cronenberg abordou ao longo da carreira. E é o que me faz acreditar que Saul Tenser (Viggo Mortensen) seja uma espécie de alter ego do próprio Cronenberg. Saul é um um famoso artista performático que, em colaboração com sua parceira, Caprice (Lea Seydoux), fazem apresentações ao público de remoção de seus novos órgãos, depois de serem tatuados internamente.

Mas não nos apeguemos muito à trama. CRIMES DO FUTURO é mais uma jornada por esse mundo estranho, experimentando o ambiente doentio do lugar, sentindo sua realidade, tecnologias e organizações estranhas que vamos encontrando no caminho. Como o recém formado Órgão de Registro Nacional, que tenta catalogar os novos órgãos que crescem nas pessoas (onde trabalha a personagem da Kristen Stewart). Ou a figura de Lang, um sujeito que convence Saul a usar o corpo de seu filho morto em uma apresentação de autópsia ao vivo, porque o sujeito acredita que o hábito de seu filho de comer plástico foi uma mutação natural que marca um próximo estágio da evolução humana. O próprio Tenser tem seus segredos como informante de um detetive, um oficial da New Vice, que investiga esse universo de mutações… Ou algo do tipo. Sei lá.

Nesse universo, a busca da emoção se dá através de experiências extremas, resumidas na frase “cirurgia é o novo sexo“: incisões, mutilações, enxertos, autópsias… CRIMES DO FUTURO é um mergulho nas entranhas do corpo, que pode ser visto como uma consequência transumanista de VIDEODROME e EXISTENZ, cujos conceitos estabelecidos a partir do vídeo e da realidade virtual são substituídos pela arte contemporânea. O novo “Long live the new flesh” é bem mais palpável e a cirurgia é, de fato, o novo sexo.

Cronenberg já havia abordado os desvios e a possível evolução da sexualidade com sua obra-prima, CRASH, mas aqui ele explora outros caminhos, mais viscerais e sombrios. Até porque é no interior do corpo que se fixará a beleza. Literalmente a “beleza interior”.

Surpreende ver o quanto desse mundo é coerente e como aceitamos todas as aberrações da coisa de boa. Acreditamos nesses personagens, nessas invenções sórdidas, e mergulhamos de cabeça no ritmo estranho e lento, nos longos diálogos e falatórios inusitados, nas situações improváveis – da ejaculação precoce na prática do “sexo velho” ao zíper para acesso direto aos órgãos. Ainda é preciso talento para nos fazer aceitar tão rapidamente esse tipo de coisa sem parecer bizarrices fúteis, afetadas e vazias.

Mas aqui, às vésperas de ser octogenário, Cronenberg demonstra mais uma vez que não perdeu o brilho. Menos rítmico e mais teórico, algo que já se via nos seus filmes anteriores, mas ainda capaz de nos encantar com suas obsessões, principalmente por se tratar a um retorno ao body horror, e criar imagens que causam desconforto. Só espero que não fique tanto tempo sem filmar de novo. Mas se for realmente seu último trabalho, fechou com chave de ouro.

BONECOS DA MORTE (1989)

Não lembro se já comentei muita coisa por aqui sobre a Full Moon, produtora especializada em Filmes B, comandada pelo mestre Charles Band, produtor de mais de trezentos filmes, incluindo alguns que ele mesmo dirigiu. Clássicos como TRANCERS (1984), PARASITE (1982), DOCTOR MODRID (1992), METALSTORM (1983), DOLLMAN vs DEMONIC TOYS (1993), enfim, se não comentei, eu deveria… Qualquer indivíduo interessado em cinema de baixo orçamento dos anos 80 e 90, vai acabar se deparando com algumas obras produzidas pela Full Moon.

E por falar em Demonic Toys, um dos principais sucessos da produtora é outra franquia de horror que envolve bonecos assassinos. E essa semana eu revi o primeiro deles, o clássico BONECOS DA MORTE (Puppet Master), que não foi dirigido pelo Band, mas tem outro mestre do cinema classe B no comando: David Schmoeller. O que o torna ainda mais obrigatório.

Lançado direto para o mercado de vídeo já naquele período, e tendo a Paramount como distribuidora do VHS, BONECOS DA MORTE foi extremamente bem sucedido financeiramente, o que possibilitou sua penca de continuações – dezesseis filmes, se considerarmos DOLLMAN vs DEMONIC TOYS como parte desse universo – e permaneceu como um dos principais títulos da Full Moon até os dias de hoje. Inclusive no Brasil também foi um VHS bastante alugado no início dos anos 90. Lançado por aqui pela Top Tape.

A trama de BONECOS DA MORTE começa em 1939, onde um marionetista idoso chamado Andre Toulan (William Hickey) fabrica seus bonecos no hotel The Bodega Inn, nas margens da Califórnia. Embora Toulan possa parecer apenas um marionetista normal, ele descobriu como dar vida às suas criações inanimadas usando feitiçarias ancestrais do antigo Egito. Espiões nazistas aparecem no local e, claro, querem se apossar desse conhecimento. No entanto, antes que os alemães o encontrem, Toulon tira a própria vida, mas não sem esconder suas criações e a fórmula misteriosa nas entranhas do hotel.

Corta para 1989 e um grupo de quatro indivíduos com poderes psíquicos – Alex (Paul Le Mat), Dana (Irene Miracle), Frank (Matt Roe) e sua excêntrica namorada Carlissa (Kathryn O’Reilly) – tentam descobrir por que eles teriam sido convocados para o mesmo Bodega Inn do início do filme por um conhecido em comum de todos eles, Neil Gallagher (Jimmie F. Skaggs). Supondo que tenha algo a ver com a busca de Gallagher pela vida eterna, eles chegam para encontrá-lo, mas sua esposa, Megan (Robin Frates), informa que Gallagher, na verdade, havia se matado recentemente. Eles percebem que essa história não bate muito bem e decidem ficar no local e investigar. E uma vez que pessoas começam a desaparecer e morrer violentamente, eles percebem que algo muito estranho está acontecendo no Bodega Inn e que leva de volta a Toulan e suas criações.

BONECOS DA MORTE pode sofrer de problemas de ritmo na primeira metade (apesar da sequência de abertura ser ótima) para aquele espectador mais ansioso. Realmente não dá pra dizer que Schmoeller lida com a história que quer contar com muita pressa. O diretor prefere ir com calma, apresentando os personagens e trabalhando uma atmosfera sinistra e desagradável. Há planos mais longos, elaborados, enquadramentos estáveis com boas composições e sim, pode-se dizer que há uma tentativa esquisita aqui de colocar um pouco de arte no meio de toda a exploração.

Até porque a segunda metade do filme mais do que compensa a lentidão. Uma vez que a trama é estabelecida no famigerado hotel e as criações de Toulan estão à solta, furiosas e sedentas por sangue, todas as apostas são canceladas. Temos mortes horríveis e violentas e até uma pequena dose de sexo e nudez. Ou seja, só coisa boa para atrair nosso interesse. A última meia hora a coisa esquenta ainda mais, com os bonecos de Toulon fazendo a festa, atacando os personagens, com momentos genuinamente perturbadores. A sequência final dentro de um elevador é um dos pontos altos.

No que diz respeito ao elenco, tudo ocorre bem para um filme de baixo orçamento como esse. Nada muito especial, variando alguns destaques, como Paul Le Mat, da turma dos psíquicos – que possui o dom da premonição através de sonhos – e é o personagem que mais aproxima de um protagonista. A pequena participação de William Hickey como Toulon no início do filme também é bem boa. E não deixem de prestar atenção na pequena, mas muito divertida, aparição da musa Barbara Crampton.

Mas, convenhamos, ninguém vai parar pra ver BONECOS DA MORTE pelas performances – você assiste pelas coisas que Schmoeller explora: uma atmosfera bacana, a violência dos ataques, uns peitos de fora, e, obviamente, os bonecos assassinos em ação. São eles as verdadeiras estrelas do show, muito bem feitos e criados com personalidade. E numa época em que era impensável fazer algo do tipo em CGI, é bom ver que os efeitos especiais de stop motion, entre outros truques old school, com esses bonecos são tão eficazes. Belo trabalho do animador e especialista em stop motion David Allen.

Junte isso tudo com a excelente trilha instrumental de Richard Band, o bom trabalho de fotografia e uma pretensão de ser apenas um pequeno filme divertido, com bonecos matando humanos, BONECOS DA MORTE acaba se saindo muito bem. Completamente merecedor de seu status de clássico cult.

URBAN MENACE (1999)

URBAN MENACE é um daqueles “filmes treta” do Albert Pyun, que, para quem já acompanha o blog há mais tempo, sabe que é um dos diretores favoritos do recinto. E pra quem conhece mais ainda a figura, sabe também que o sujeito vivia se metendo em encrenca pra fazer seus filmes. Neste aqui, Pyun deveria ir para a Eslováquia e fazer, em apenas 18 dias, uma antologia, filme com várias historinhas, de crime urbano. Em 1999 já não era muito modinha os chamados hood films, mas os anos 90 nos deu uma boa safra desse tipo de crime movie protagonizado por rappers metidos a gangster, mas era isso que o Pyun faria por aqui. E teria no elenco umas figuras como Snoop Dogg, Big Pun, Fat Joe, Ice-T, que também teria participação na trilha sonora, com trechos de um novo álbum que havia lançado na época…

Mas, enfim, sabem como é o Pyun. Em vez fazer o que foi contratado, um único filme, o sujeito resolveu fazer três longas metragens nesses 18 dias. Daí saiu este URBAN MENACE, CORRUPT e THE WRECKING CREW. Tudo reutilizando o mesmo elenco, locações e equipamentos. Ah, e fez os três filmes ao mesmo tempo, com os atores muitas vezes nem sabendo pra qual filme estavam fazendo tal cena em determinados momentos. Imaginem a qualidade dessas produções…

Independente dos resultados, Pyun conseguiu terminar a façanha no prazo. O problema foi na hora de voltar. Nessa entrevista que fizemos com ele há dez anos, Pyun nos conta que várias fitas miniDV com as filmagens foram perdidas pela Air France no transporte de volta para os Estados Unidos. Então, segundo ele, teve que finalizar apenas com a metade do que havia sido filmado de cada um. Na verdade, o que descobri depois de alguns anos, é que o diretor usou imagens de uma versão workprint do filme para substituir as partes que foram perdidas. Tanto que a janela dos filmes é em letterbox, pra esconder o timecode na parte inferior da tela. Mas, isso são detalhes. Embora expliquem porque a imagem do filme é uma bosta.

Não assisti ainda a CORRUPT e THE WRECKING CREW, mas URBAN MENACE eu parei aleatoriamente pra ver essa semana. E não me decepcionei. Esperava uma porcaria e o que vi foi exatamente isso. Uma porcaria. Mas é um filme tão ruim, mas tão ruim, que me peguei fascinado com sua inépcia, com sua imagem tosca, com as atuações e diálogos ridículos… Um exemplar de Pyun da pior espécie e, por isso mesmo, adorei.

O filme é uma mistura de gangsta/hood movie com elementos de horror. Começa com a cara do Ice-T olhando diretamente pra nós, como um narrador/comentarista social que fala para a câmera seu discurso, desferindo palavões e ameaças. É o que URBAN MENACE tem de melhor.

A trama é sobre um pastor (Snoop Dogg) que busca vingança contra o sindicato do crime local (chefiados por Big Pun & Fat Joe) pela morte de sua família e pelo incêndio de sua igreja. Não se sabe ao certo se o pastor morreu também no incêndio ou se é o fantasma (a resposta acaba sendo revelada mais pro final), mas seja o que for, ele se esconde num armazém abandonado e criminosos são enviados ao local para o matar. Na maior parte do tempo, Snoop Dogg age como uma entidade, um espírito que vaga pelos escombros e corredores do local levando a morte. E Pyun usa uns efeitos especiais e de edição da pior qualidade pra enfatizar o tom de ambiguidade nessa persona fantasmagórica de Snoop Dogg.

Mas quem seguimos realmente nessa história são três capangas (liderados por T.J. Storm), que passam o resto do filme andando em círculos pelos corredores do local procurando Snoop Dogg, ou correndo atrás dele quando o avistam (para ser mais específico, o dublê do Snoop Dogg)… E fica nisso, praticamente toda a narrativa se passa nesse armazém, com diálogos bestas, fotografia horrorosa e toda estourada, fora de foco, e os caras tentando pegar o Snoop. Pelo menos a trilha do Ice-T é maneira.

Quando o filme te leva pra outra situação, em outra locação, na base do sindicato do crime, com Big Pun e Fat Joe sentados conversando com seus capangas, a coisa piora ainda mais – ou melhora, dependendo do seu humor – e temos alguns dos piores trabalhos de câmera, edição, enquadramentos e mise en scene que já vi na vida. É de rolar de rir!

No final, todos os bandidos decidem invadir o armazém. Snoop Dogg faz uma chacina, dando tiro em todo mundo. É uma sequência até divertida, demonstra o velho Pyun experimental do cinema de ação de baixo orçamento, com resultado interessante. Tosco. Mas interessante… E, enfim, URBAN MENACE só tem 72 minutos. Contando os créditos. Claro, às vezes dá a impressão que possui 3 horas de duração, com os persoangens zanzando por um tempão pelos cenários e a cara do Snoop Dogg inserida na edição de forma ordinária. Mas tudo bem. Eu adoro essas porcarias, achei tudo engraçadíssimo, então gostei de URBAN MENACE. Só não vou recomandar e dizer que vale a pena assistir, porque tenho minhas dúvidas se até os leitores que gostam de uma tralha não se decepcionariam com isso aqui. Portanto, estejam avisados.

Curiosidades: Um dos bandidos também enviados ao local para matar o Snoop Dog é vivido por Vincent Klyn, o Fender, de CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO, a obra-prima de Pyun. E o roteiro, se é que podemos chamar esse lixo de roteiro, foi escrito por Tim Story, que alguns anos mais tarde dirigiria aqueles filmes do QUARTETO FANTÁSTICO dos anos 2000… Podem acreditar, URBAN MENACE é, pelo menos, melhor que esses aí.

Em breve comento também CORRUPT e THE WRECKING CREW, que provavelmente devem ser tão ruins quanto esse. Mal posso esperar!

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA – DO PIOR AO MELHOR

Outro dia lançaram um novo filme da série O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA na Netflix, então eu resolvi ver toooodos os filmes da franquia que ainda não tinha assistido e rever os que já tinha conferido antes de encarar esse mais recente. O resultado foi esse ranking, do pior ao melhor, já incluindo o tal novo filme da Netflix:

9. Na última posição, ficou O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D – A LENDA CONTINUA (Texas Chainsaw 3D, 2013), de John Luessenhop. Na maioria das vezes eu sou a favor da desmitificação e revisionismo de padrões, ícones e cânones no cinema, mas transformar o Leatherface numa espécie de anti-herói, um tipo de protetor, e alguém que mereça algum cuidado e carinho, é algo que eu não sei ainda como lidar. Especialmente depois de ver cada filme da franquia em sequência. Talvez se o filme fosse bom, eu não ficaria me procupando muito com esses detalhes, mas é bem meia boca na maior parte do tempo, a tram demora pra engrenar, e não consegui entrar muito na dos personagens na primeira metade do filme. 

A segunda metade já vira aquele banho de sangue padrão, sem muito brilho, mas sempre divertido de acompanhar, com algumas boas mortes… E tendo ainda Alexandra Daddario como protagonista, que é uma belezinha. Enfim, tem seus momentos. Mas é bem estúpido.

8. Agora, daqui pra frente é só alegria. Não que os filmes da série sejam geniais (na verdade, dois são sim, mas vamos esperar as primeiras posições), mas no geral me divertem em maior ou menor grau. MASSACRE NO TEXAS (Leatherface, 2017), de Alexandre Bustillo & Juliem Maury, já ganha uns pontinhos por tentar contar uma história diferente de tudo relacionado ao cânone de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. A maior parte da trama se passa em meados dos anos 60, com o jovem Leatherface escapando de uma instituição mental. Há uma espécie de componente whodunnit no filme, porque é mostrado que os internos têm seus nomes alterados para evitar a associação com seu passado criminoso, então nem sabemos exatamente quem é o Leatherface no grupo fugitivo até certo momento chave. E o filme é incrivelmente violento, incluindo um tiroteio em um restaurante ao estilo ASSASSINOS POR NATUREZA.

Longe de ser perfeito, surpreende pela visão brutal do horror da dupla francesa Bustillo e Maury (L’INTÉRIEUR e LIVIDE), que conduz com segurança um filme agressivo, macabro (a cena de sexo com o cadáver é um troço bizarro), com bons personagens e atuaçõs fortes (Stephen Dorff e Lily Taylor estão muito bem), excelentes efeitos de gore práticos, belo clima e até mesmo uma história convincente de origem, bem respeitosa ao personagem do título.

7. Olha o novo filme aí. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO DE LEATHERFACE (Texas Chainsaw Massacre, 2021), de David Blue Garcia, tem uma sequência em um ônibus de festa, com um monte de influenciadores digitais sendo cortados em pedaços pelo Leatherface que é simplesmente uma delícia e já vale o filme. Que aliás, só tem cerca de 80 minutos de duração. Então, por mais bobo e descartável que seja, é difícil até culpá-lo por desperdiçar seu tempo, porque ocupa tão pouco… E a contagem de corpos é altíssima, tem várias mortes legais, uns momentos bem tensos, umas sacadas visuais interessantes – como Leatherface no meio dos girassóis. Que venham mais filmes da franquia, mesmo que sejam massacrados pela crítica, mas tão divertidos como este aqui.

6. LEATHERFACE: O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3 (Leatherface: The Texas Chainsaw Massacre III, 1990), de Jeff Burr. A década de 80 ficou marcada pela ascensão do slasher, não apenas como um subgênero, mas como uma fonte de criação de ícones de terror na cultura popular. A New Line, estúdio que trouxe Freddy Krueger ao mundo, resolveu colocar as mãos numas outras franquias, como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, com a ideia de que Leatherface precisava ser o próximo grande ícone do gênero. Então, o terceiro filme da série colocou seu nome no título, um tempinho a mais de tela, com o personagem confeccionando uma de suas máscaras de pele humana, e até mesmo presenteou-o com uma motosserra mais épica, de aço inoxidável com a frase “The Saw Is Family” gravadas na lâmina.

A intenção também era desviar-se do humor de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 e devolvê-la às raízes do horror mais puro do filme original; contrataram David J. Schow pra isso, um pioneiro da literatura “splatterpunk” para escrever o roteiro, e na direção, Jeff Burr, que não é um Tobe Hooper, mas sempre mandou bem em produções pequenas, embora aqui tivesse que lidar com vários problemas durante as filmagens, além da série de cortes da MPAA, que meteu tanto a tesoura nas cenas de violência que até a versão unrated é branda.

O resultado, convenhamos, não é lá grandes coisas, mas ao longo do tempo se tornou um “filme do coração”, um pequeno e belo exemplar do horror noventista, que muitos odeiam, eu sei, mas que tenho um carinho especial. Acho divertidíssimo, é direto, não chega a 90 minutos de duração e consegue entregar um certo nível de insanidade que a franquia precisa.

O problema é que a trama é basicamente uma recauchutagem do filme original e o casal protagonista, interpretados por Kate Hodge e William Butler, são muito chatos. Temos novamente uma sequência que recria o jantar, sem a mesma força dos dois filmes anteriores, mas, vejamos, temos a mocinha com as mão pregadas à marteladas numa cadeira, um jovem Viggo Mortensen como um dos canibais, chamado Tex, um sujeito pendurado de cabeça para baixo pronto para ser abatido com uma martelada, Leatherface com sua nova motosserra cromada, personagens da família canibal nunca visto antes. E de quebra, a presença de Ken Foree como herói badass que surge nesta mesma cena metralhando todo mundo, para logo depois encarar Leatherface no mano a mano dentro de um mangue cheio de pedaços de corpos. Cacete, não tem como não se divertir com essa porcaria…

5. Se O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O INÍCIO (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning, 2006), de Jonathan Liebesman, é um filme que não justifica tanto sua existência – a de ser um prequel do remake de 2003, mostrando como os Hewitts (a nova família) se tornaram canibais assassinos e contando as origens de Leatherface – ao menos se justifica como um filme de horror muito eficiente, mais direto, sujo, violento pra cacete e com um trabalho de tensão bem muito competente, de fazer o espectador pregar na poltrona durante um bom tempo. Não deixa de ser descartável, mas para quem quer ver uma boa dose de matança, com Leatherface fazendo bom uso de sua motosserra, este aqui é altamente recomendável… R. Lee Ermey, que já havia brilhado no filme de 2003, continua um destaque. E para o roteiro trouxeram mais uma vez o pioneiro “splatterpunk” David J. Schow, que já havia trabalhado no filme acima, MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3.

4. Eu não diria que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chainsaw Massacre, 2003), de Marcus Nispel, seja um filme obrigatório, não é nada lá muito memorável. Mas uma coisa que eu não lembrava e que foi uma grande revelação pra mim nessa revisão é o fato de ser um remake que não tenta ser o original e muda tudo aquilo que lhe convém – trama, situações, personagens… Não que isso o torne melhor, mas pelo menos lhe dá alguma autenticidade dentro de sua proposta conceitual, mesmo que o resultado geral seja genérico em tom e visual. O problema é que o Marcus Nispel filma mal, com um ou outro momento de destaque. Um diretor mais talentoso teria transformado isso aqui num clássico do horror dos anos 2000. Mas ok, ainda assim, tudo funciona pra mim de alguma maneira, sobretudo no terceiro ato quando o filme se torna só uma frenética – e realmente tensa – perseguição de Leatherface à final girl de Jessica Biel, com alguns momentos bem inspirados e violentos. No fim, fiquei bem satisfeito. Me parece um filme que se arrisca mais, o que acaba adicionando uns pontos à seu favor, mesmo que falhe em algumas coisas no percurso.

Mas aí entra o xerife de R. Lee Ermey, que é o que o filme tem de mais desconcertante, e uma das melhores coisas da franquia inteira. Tudo sobre a presença do sujeito é simplesmente aterradora, tensa e desagradável de assistir – uma performance que merecia ser mais lembrada. O sujeito era foda.

3. O quarto filme da franquia, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO (The Texas Chainsaw Massacre: The Next Generation, 1995), foi escrito e dirigido por Kim Henkel – que é o co-criador do primeiro filme, o clássico de 74, junto com Tobe Hooper. Henkel considera o filme uma paródia da franquia (ele até recria algumas cenas do original), mas o público na época não achou muita graça e foi um fracasso nas bilheterias. Desde então, vem ganhando um status cult e agora eu entendi porquê (esse foi um dos que eu nunca tinha assistido antes)… Trata-se de um dos filmes mais surtados, bizarros, anarquistas, doentios, com um humor debochado dos mais absurdos que eu já vi dentro de uma franquia de horror mais conhecida. Em determinado momento eu pensei que tava vendo um filme do David Lynch… As atuações de Matthew McConaughey e Renée Zellweger, os dois nomes que acabaram ficando famosos, acompanham toda a loucura com a mesma intensidade de suas performances; e o filme também apresenta um Leatherface travestido, o que é simplesmente genial. Toda vez que lembro desse filme, gosto ainda mais.

2. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 (Texas Chainsaw Massacre 2, 1986) foi produzido pela Cannon Group como parte de um acordo com Tobe Hooper, que poderia dirigir este aqui contanto que fizesse mais dois filmes para o estúdio. Foi inicialmente planejado como uma continuação muito maior, mais épica e bizarra, com uma cidade inteira de canibais. De certa forma, continua sendo um filme “maior”, mais épico e bizarro, porém o orçamento foi reduzido durante a produção e algumas ideias foram deixadas de lado. Não sei se estava no projeto inicial, mas Dennis Hopper está aqui como um Texas Ranger obcecado, parente de vítimas do primeiro filme. Ele quer se vingar e vai usar motosserras para atingir seu objetivo! E só por isso, já dá pra colocar o filme num pedestal.

Lembro da decepção que foi ver esse filme pela primeira vez. Provavelmente porque não esperava a total mudança de tom, mais carregado no humor, e é tudo ainda mais exagerado, mais colorido, em muitos aspectos o oposto do primeiro filme. Mas com várias revisões que fui fazendo ao longo dos anos passei a apreciá-lo cada vez mais. Hoje considero uma obra-prima. sobretudo por compreender melhor a ideia de Hooper em fazer uma continuação que reagisse aos anos 80, numa sátira autoconsciente do próprio produto que criou e também pelo contexto daquela época, de uma América oitentista cheia de traumas e ressaca das últimas décadas…

Certamente não era a continuação que os fãs do primeiro filme queriam, há uma recusa em atender as expectativas, um grande foda-se pra tudo isso. Mas ainda assim estamos falando de Tobe Hooper, então, para quem embarca na loucura, vai se deliciar com alguns dos momentos mais antológicos do horror nos anos 80. Como Leatherface descobrindo o “amor” e usando sua motosserra como extensão de seu… Bom, vocês sabem. Ou Dennis Hopper encarando Leatherface num duelo de motosserras, que é algo para se ver de joelhos. E apesar de Hopper estar maravilhoso, é preciso destacar Bill Moseley, que dá uma “roubada de cena” quando aparece. Pode não estar no mesmo nível do primeiro (óbvio, até porquê pouquíssimos filmes estão), mas de alguma maneira acabou sendo uma continuação perfeita de um filme perfeito.

1. Obviamente que o primeiro lugar seria do clássico de 1974. Não tinha como ser diferente. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (Texas Chain Saw Massacre, 1974), de Tobe Hooper, continua uma das experiências mais perturbadoras mesmo depois de tantas revisões, e permanece na mente como um pesadelo. Ok, “pesadelo filmado” é uma daquelas expressões que acabaram banalizadas pelo seu uso excessivo, mas aqui não existe definição mais perfeita. Tobe Hooper tira toda a gordura habitual do gênero, concentra-se no essencial e nos serve um filme aterrador, sublime e revolucionário; horror na sua forma mais pura e cristalina: um pesadelo filmado.

A antológica sequência do jantar com a família de canibais é um é uma das coisas mais absurdas e subversivas que existe no gênero até hoje; a mise-en-scène de Hooper, os ângulos oblíquos dos enquadramentos, a luz desorientadora, o pandemônio auditivo potencializados pelos gritos desesperados de Marilyn Burns, possui todos os ingredientes daquilo que é feito um… pesadelo. E convenhamos: só a ideia de um psicopata brutamontes, com uma máscara feita de pele humana, portando uma motosserra perseguindo uma garota inocente é algo simplesmente genial. Com isso em mente, o filme culmina numa das sequências mais inesquecíveis da minha vida, uma perseguição final que tem desfecho na icônica imagem cristalizada de Leatherface (Gunnar Hansen), perfilado contra o sol fumegante, agitando sua motosserra como numa dança macabra. Obra-prima, clássico, etc, qualquer termo desse tipo é pouco pra classificar isso aqui.

NECRONOMICON: O LIVRO PROIBIDO DOS MORTOS (1993)

Taí um filme que nunca tinha visto e que tem vários sujeitos legais envolvidos. Pra quem não conhece, NECRONOMICON tem três diretores relativamente respeitáveis – pelo menos pra quem se interessa por cinema de gênero – cada um fazendo um episódio que forma uma antologia inspirada em H.P. Lovecraft.

Bom, na época apenas um deles era mais conhecido, Brian Yuzna, que falei dele recentemente por aqui, os outros dois eram estrangeiros em Hollywood: o francês, então iniciante, Christophe Gans, bem antes de fazer coisas como PACTO DOS LOBOS e a adaptação do jogo SILENT HILL. E o japonês Shusuke Kaneko, da trilogia GAMERA.

Temos uma história base que mantém três outras histórias conectadas, que segue a tradição das antologias de horror. Nessa trama, somos apresentados ao próprio H. P. Lovecraft, vivido por ninguém menos Jeffrey Combs (RE-ANIMATOR), carregado de tanta maquiagem que até demorei pra reconhecê-lo, em busca do lendário Necronomicon numa biblioteca cheia de mistérios e guardada por monges. Proibido de frequentar certos aposentos do local, Lovecraft dá um jeito de despistar os monges e encontra o livro escondido num cofre. E então, o sujeito começa a escrever ali mesmo as histórias que veremos durante o filme.

THE DROWNED é o primeiro e mostra um Christophe Gans como um diretor bem promissor, com talento para o visual. O rapaz só havia realizado até aquele momento um curta metragem no início dos anos 80. Na trama, Bruce Payne (o vilão de PASSAGEIRO 57) é o herdeiro de um antigo hotel caindo aos pedaços, local que guarda algumas lembranças ruins. Payne descobre que seu antepassado (interpretado por um brilhante Richard Lynch) usou o amaldiçoado Necronomicon para trazer de volta sua esposa e filho mortos, só que as consequências desse ato foram terríveis… E acontece que o personagem de Payne recentemente perdeu sua mulher amada num acidente. Como o sujeito não aprendeu com os erros do seu antepassado, ele usa o livro para trazer de volta seu amor perdido (encarnada pela musa do cinema erótico noventista Maria Ford), obviamente com resultados não lá muito agradáveis. Mas para o espectador é só alegria. Dirigido com estilo e aquela energia de iniciante, o episódio tem boa atmosfera, momentos perturbadores e ótimos efeitos especiais.

O segundo episódio é THE COLD, de Shusuke Kaneko, um conto sobre uma jovem que aluga um quarto numa casa onde um cientista solitário e recluso (interpretado por David Warner) reside no andar superior estranhamente gelado e que talvez seja mais velho do que aparenta. Quando a moça faz amizade com o triste e frágil cientista, ela descobre que ele encontrou o segredo da imortalidade. Claro, esse tipo de porcaria tem um preço… O sujeito só pode permanecer vivo aplicando constantes injeções de fluido espinhal humano fresquinho.

Ainda que eu goste da premissa e algumas ceninhas (especialmente no final quando abusam de efeitos especiais práticos, com muito sangue e gosma verde), é o episódio mais fraco de NECRONOMICON. É sabido que Kaneko não falava inglês quando filmou e provável que a barreira da comunicação deve ter sido um problema, embora em alguns momentos dá pra sentir o diretor tentando extrair uma dramaticidade considerável desta parábola sobre o preço horrível que se deve pagar por enganar o destino. Mas no geral THE COLD não é lá grandes coisas.

O filme volta nos trilhos com WHISPERS de Yuzna. É o meu favorito, o mais surtado e absurdo de NECRONOMICON. Yuzna realmente mostrou pros outros dois colegas como se faz! A história se passa, curiosamente, em um ambiente moderno, urbano; uma policial segue um suspeito até uma instalação aparentemente abandonada que abriga horrores inimagináveis e os monstros mais antigos da humanidade. Atraída para as profundezas, a policial é empurrada para dentro de um buraco que na verdade são as entranhas de um monstro e tem que lidar com criaturas sugadoras de medula óssea e até o corpo oco reanimado do seu parceiro num cenário saído de um filme do Mario Bava. Yuzna, que é um grande fã do bizarro e surreal, preenche seu segmento com imagens “porraloucas” e um banho de sangue daqueles, que vai satisfazer os fãs de um horror mais visceral.

Depois o filme retorna à história base, com Lovecraft agora tentando fugir da biblioteca. Acho que não disse ainda, mas essa parte também é dirigida pelo Yuzna. E Jeffrey Combs arrasa até o último minuto. Vale destacar alguns nomes responsáveis pelos efeitos especiais old school de NECRONOMICON, elemento fundamental por aqui, artistas soberbos do nível de Tom Savini, Todd Masters e Screaming Mad George.

Mas NECRONOMICON é bem mais que efeitos especiais e imagens grotescas, violentas, ou monstros com tentáculos que sugam o sangue de suas vítimas. É também uma meditação provocativa e interessante sobre o domínio do homem em relação à sua realidade, à um submundo assustador que, se invadido por nós, indivíduos estúpidos e curiosos, pode se tornar uma jornada fascinante, mas também mortal.

Infelizmente, NECRONOMICON não conseguiu ser lançado nos cinemas nos EUA, sabe-se lá porquê. Mas como teve dinheiro investido por produtores japoneses e franceses, os caras lançaram o filme nos cinemas em seus territórios para recuperar o investimento. Em seguida, a New Line adquiriu os direitos de distribuição, mas decidiu que era mais seguro lançar direto em vídeo do que arriscar dinheiro em uma campanha para lançar nos cinemas. Três anos depois, acabou chegando nas prateleiras das locadoras. Até hoje tenho a impressão de que é um filme pouco visto. Não é nenhum marco obrigatório do cinema de horror, mas é um filme que merecia uma conferida.