
Andei revisitando alguns dos primeiros trabalhos da carreira de Chuck Norris, que nos deixou recentemente. Antes do mito, dos memes e da imagem quase folclórica que acabou tomando conta da figura pública. É curioso perceber como, desde cedo, já existia ali uma presença muito particular.
Nos anos 70 o sujeito já tinha dado seus primeiros socos e pontapés no cinema, incluíndo a luta contra Bruce Lee no Coliseu em O VÔO DO DRAGÃO, mas é com BREAKER! BREAKER! (1977) seu primeiro veículo de ação, seu primeiro papel como protagonista. Percebe-se um sujeito ainda tentando encontrar seu lugar, reconhecendo suas limitações dramáticas e se esforçando ao máximo pra mandar bem nas lutas (que ele mesmo coreografou). Mas com a produção que temos aqui a coisa nunca atinge seu potencial. O roteiro é fraco, não tem nenhum personagem memorável, a direção é ruim, a ação funciona aqui e ali. E o filme nunca decide direito se quer ser leve, tenso ou dramático, e acaba ficando no meio do caminho, meia boca em tudo. O ritmo até ajuda, é curto e anda rápido, num bom dia dá pra dar aquela enganada e entretem num domingo à tarde…
Gostei mais de GOOD GUYS WEAR BLACK (1978) que, sei lá por qual motivo, eu nunca tinha visto. Dirigido pelo Ted Post, de MAGNUM FORCE e BENEATH THE PLANET OF THE APES, temos Norris como um ex-comandante da Black Tigers, uma unidade especial do exército americano, traído numa missão no Vietnã e que agora vira alvo de assassinos enquanto dirige carros de teste e, pasmem, leciona ciências políticas na UCLA (!!!).
O filme tenta ser um TRÊS DIAS DO CONDOR com chutes na cara, um thriller pós-Watergate com conspiração governamental. Mas tirando a parte do “chute na cara” obviamente não é bem o tipo de filme que se pensa no Norris como protagonista. Um filme com tanto diálogo expositivo, tanto falatório, praticamente só depois de uma hora de duração que ele começa a soltar os golpes. E mesmo assim em sequências curtas e escassas, espalhadas pelo filme. Destaque pra voadora através do para-brisa, o momento mais icônico disso aqui (o fato de ser perceptível um dublê oriental com a peruca do Chuck Norris deixa tudo ainda mais pitoresco). E acho que é isso que faz o filme funcionar, não sei bem como explicar isso, mas o filme tem a sua graça justamente nesses detalhes curiosos e exóticos. E pelo “prazer” de ver o Norris se esforçando nesse papel.
Mas a direção de Post é competente, apesar do orçamento baixo que deixa as cenas de ação modestas e a fotografia com cara de TV movie setentista. Anne Archer e James Franciscus aparecem como coadjuvantes. Archer inclusive como par romântico sem química alguma com Norris, um troço realmente desconfortável, deixa tudo mais engraçado. E até que foi bem nas bilheterias, provando que apesar de tudo, Norris podia carregar um filme como action hero, e abriu portas pra era Cannon que veio alguns anos mais tarde. Foi bom finalmente parar pra ver isso aqui.
Um ano depois, fez A FORCE OF ONE (1979). A premissa é tão ruim que chega a ser divertida de acompanhar… Policiais da narcóticos estão sendo mortos por um lutador de karate assassino sempre que avançam nas investigações sobre o tráfico de drogas local. Qual a solução? Recrutam um campeão de karate chamado Matt Logan (Chuck Norris) pra treinar a equipe. A ideia é tão absurda que acaba pouco explorada, mas serve pra colocar o Norris na trama. Mesmo assim, a coisa demora pra engrenar, muita investigação genérica e uma tentativa de romance entre Norris e Jennifer O’Neill, que faz uma das policiais da narcóticos.
O filme dá uma melhorada quando o filho adotivo de Norris é morto, tornando tudo pessoal. E até o momento, entre esses primeiros veículos do Norris, é o que tem as melhores coreografias de luta. Infelizmente, a luta final contra Bill “Superfoot” Wallace, que faz o karate killer acaba prejudicada pelo excesso de slow motion. Norris tá mais confortável que em GOOD GUYS WEAR BLACK, mas ainda testando até onde pode ir como ator dramático (e não dá pra ir muito longe). E a química com O’Neill é constrangedora mais uma vez. A total ausência de química eu quis dizer… O filme funciona como curiosidade histórica do período pré-Cannon do Norris, quando o karate ainda era novidade em Hollywood. Tem seus momentos, mas é fraco como filme de ação.
Entrando nos anos 80, eu diria que num bom dia até dá pra relevar algumas coisas de THE OCTAGON (1980) e se divertir. A história acompanha Scott James, um lutador solitário interpretado por Chuck Norris, que se vê envolvido numa trama, digamos, complexa demais pro tipo de filme que poderíamos ter aqui. Cujo principal elemento é um grupo de ninjas terroristas liderados por um antigo rival/meio irmão do protagonista. Em vez de abraçar uma premissa simples de “Norris vs. ninjas”, o filme complica tudo com uma trama confusa, cheia de personagens e diálogos excessivos. E quando você ainda consegue desperdiçar Lee Van Cleef no meio disso tudo, é sinal de que a coisa desandou de vez. Pra piorar, tem a narração interna do personagem de Norris, sussurrando pensamentos numa tentativa de soar mais “psicológico”, que é absurdamente ridículo.
Nos poucos momentos em que os ninjas aparecem, são quase patéticos, caindo fácil demais em coreografias onde basicamente se posicionam pra apanhar. Ainda assim, nem tudo é perdido, há um certo charme em ver Norris tentando sustentar tudo isso, com seu pensamento sussurrante, e os vinte minutos finais finalmente entregam o que o filme prometia, com a invasão da base ninja e um pouco mais de ação decente. Divertido, só acho uma pena que chegue tarde demais…
Com AN EYE FOR AN EYE (1981) Norris faz um dos melhores filmes desse período, junto com McQUADE: O LOBO SOLITÁRIO. O que deve significar também ser dos melhores filmes da carreira do homem… Vou descobrir à medida em que for vendo e revendo seus filmes. O que mais os dois filme têm em comum? Ambos são de Steve Carver, diretor aluno de Roger Corman. E o cara é bom.
A trama é simples e batida, do policial que perde o parceiro numa operação e decide agir por conta própria, ignorando as regras do sistema. O velho clichê da vingança como resposta possível, com aquela sensação de que não há ordem a ser restaurada, algo que o cinema já explorou à exaustão. Ainda assim, AN EYE FOR AN EYE tem suas peculiaridades dentro dessa fórmula. Carver conduz o filme com bom ritmo, com ótimas sequências de ação, e sabe o momento de pisar no freio pra desenvolver melhor a narrativa. Chuck Norris aparece mais solto do que de costume, começa o filme brincalhão, sorridente e sem o bigode, o que reforça essa faceta mais simpática (prova de que menos pelos faciais funcionavam a seu favor). Detalhes que ajudam a humanizar o arquétipo do policial fora-da-lei.
O elenco tem Christopher Lee de vilão elegante e ameaçador, Richard Roundtree como o capitão exasperado, Mako adiciona peso emocional e Professor Tanaka marca presença como um capanga genuinamente intimidador. A fotografia de San Francisco é bem aproveitada, as cenas de luta são diretas e eficientes, e o clímax fecha tudo da melhor maneira. É um filme que não reinventa nada, mas cumpre o que promete, ação oitentista honesta, bem conduzida e povoada por figuras bacanas.
Por fim, revi SILENT RAGE, um cruzamento improvável entre slasher oitentista e filme de ação casca-grossa do Norris. Com um sujeito que surta e mata os habitantes de uma casa a machadadas e, após ser morto pela polícia, retorna graças a um experimento de regeneração celular. Ele se torna um assassino praticamente indestrutível, uma espécie de Michael Myers turbinado, que passa a eliminar todo mundo pelo caminho, um HALLOWEEN de segunda linha colidindo com um filme de ação protagonizado por um xerife que resolve tudo no chute na cara, interpretado por Norris.
Mas o filme demora um pouco pra se encontrar depois de um início deflagrador. Perde tempo com algumas bobagens, se prepara demais para o que está por vir. No meio disso, surge uma briga de bar que parece obrigação contratual, totalmente deslocada da trama, mas curiosamente uma das melhores sequências de luta num filme do Norris até então. Quando resolve se assumir como slasher, a coisa melhora. O diretor Michael Miller investe num clima de suspense mais lento, com planos longos, câmera subjetiva e perseguições silenciosas que remetem mais ao terror europeu do que a um filme estrelado pelo Norris. As mortes não são lá muito criativas nem têm nada de especial, mas são divertidas de acompanhar. E tudo culmina no confronto entre o assassino indestrutível e o xerife de Norris, onde nem bala, queda de prédio, atropelamento ou explosão resolvem o problema. No fim, são os chutes de Norris que dão conta, quando o filme vira um embate simbólico entre a violência “científica”, fabricada em laboratório, e a violência clássica do punho e do roundhouse kick.
Se eu continuar essa saga de assistir aos filmes do Norris em ordem cronológica, depois comento mais por aqui.
Esse post também serve pra dizer que o podcast Cine Poeira, depois de um hiato de dois anos, está de volta. Pra quem não conhece, é um trabalho idealizado por mim, pelo Luiz Campos e o Osvaldo Neto, pra falar de filmes que certamente pegariam poeira nas locadoras no final dos anos 90… Ou não. Sobretudo filmes de ação. Enfim, retornamos jsutamente pra falar de Chuck Norris e McQUADE: O LOBO SOLITÁRIO.
O episódio pode ser ouvido no Spotify, Youtube e principais plataformas de podcast. Ou aqui mesmo:





























































































