CIDADÃO KANE (1941)

Esta é uma daquelas resenhas que são meio que impossíveis de escrever, ou se escreve no piloto automático só jogando o óbvio. O que eu poderia dizer sobre CIDADÃO KANE (Citizen Kane), o clássico de Orson Welles, que já não tenha sido dito? Mas, depois de fazer uma revisão, me propus a deixar umas palavras aqui no blog. Só por diversão. Vamos ver o que sai…

Até porque mais do que uma simples obra cinematográfica, isso aqui deixou um legado, um feito imponente que mudou a arte e o ofício da produção cinematográfica. Não que tenha inventado o cinema moderno, ou algo parecido, como muita gente acredita, mas certamente mostrou algumas possibilidades, tanto técnicas quanto de linguagem, tanto narrativa quanto formais, que não haviam sido devidamente exploradas como Welles fez por aqui. Talvez nenhum outro filme na história tenha sido tão analisado, discutido, debatido e reverenciado. Inúmeros textos e livros foram escritos sobre o que Welles foi capaz de realizar. E embora eu pessoalmente prefira algumas outras obras do homem – diria que hoje meu favorito é SOBERBA (The Magnificent Ambersons) – ainda fico impressionado com CIDADÃO KANE toda vez que paro pra rever.

Se alguém, por acaso, ainda não viu, o filme relata a vida do magnata da imprensa Charles Foster Kane. A base de tudo tem como pretexto as últimas palavras do homem no seu leito de morte, “Rosebud“, e se desenvolve pelas inúmeras tentativas em descobrir o significado dessa palavra, com entrevistas aos amigos, associados comerciais e ex-esposas… O filme salta entre vários momentos da vida do personagem, sua infância, uma juventude promissora em que ele inicia um jornal sensacionalista, o crescimento de seu império empresarial e sua ascensão ao poder, seus casamentos, uma carreira política fracassada e a construção posterior e decadência de sua propriedade, Xanadu.

Obviamente muito há que se destacar pela maneira inovadora que Welles e seu diretor de fotografia, Gregg Toland, trabalham o visual, os espaços e a ação da câmera, incluindo o uso de foco em profundidade e tomadas em ângulo baixo, revelando tetos que anteriormente não eram mostrados nos filmes; a incrível trilha sonora de Bernard Herrmann, o uso de som e técnicas de montagem de rádio, e assim por diante. Há também o excelente trabalho de edição de Robert Wise, que se tornaria um grande diretor futuramente. Mas nada que seja o equivalente à invenção da roda. Só que realmente impressionam pela maneira perfeita como fazem.

Mas se tem algo de inovador em CIDADÃO KANE, algo que realmente possa ter chacoalhado com as bases do cinema enquanto linguagem, seriam alguns detalhes colocados na estrutura narrativa. Welles se juntou ao roteirista Herman J. Mankiewicz para criar um conto complexo, multifacetado e não linear, entrelaçando entrevistas, flashbacks, noticiários, manchetes, o que já seria até aqui algo pouco visto até aquele momento. Mas aí veio o toque de gênio: o filme é narrado a partir de histórias de múltiplos pontos de vista, utilizando narradores diferentes, em diferentes períodos ao longo das vidas dos personagens, com diferente versões das mesmas histórias. Obviamente não sou eu que tô descobrindo isso, os teóricos franceses já apontavam pra essas coisas há décadas, mas aqui está a grande inovação que CIDADÃO KANE traz, que faz o filme ter um alcance épico, quase mítico, tanto para a narrativa em si, quanto para a história do cinema.

É notório que o filme foi inspirado na vida do magnata da mídia William Randolph Hearst, que ficou tão enfurecido com o resultado que tentou destruir as cópias. Apesar de Welles não esconder muito a referência de Hearst, ele não foi a única inspiração para Kane, que é uma mistura de figuras públicas conhecidas, principalmente empresários e importantes magnatas da imprensa, o que transformou o diretor em persona non grata e consequentemente aquilo que todos sabem: Welles precisava mendigar pra conseguir levar adiante seus projetos, nunca mais conseguiu total liberdade criativa e muito menos o mesmo orçamento que teve aqui. Mas como um gênio maldito que era, conseguiu se virar e continuar a fazer filmes tão bons e até melhores que CIDADÃO KANE.

Nem mesmo sucesso financeiro o filme conseguiu fazer na época e acabou num limbo durante um bom tempo, até que os críticos ajudaram a revivê-lo e ser lembrado como o clássico que é desde os anos 50 e 60, sempre figurando em posições privilegiadas nas listas de melhores filmes de todos os tempos. Pessoalmente, não acho que seja pra tanto, não tá nem no meu top 100 pessoal atual (talvez entre agora com essa revisão, quem sabe?), mas faz total sentido essa adoração por CIDADÃO KANE ao longo das décadas. É realmente um filmaço pra se rever sempre.

6 ideias sobre “CIDADÃO KANE (1941)

  1. Cidadão Kane tambem lembra aqui no Brasil ,um pessoa igualzinho ao personagem de Orson Welles no filme ,o nome dessa pessoa era Roberto Marinho dono da Organizações Globo,que com muito jovem assumiu o controle do jornal ” O Globo” e aos poucos foi transformado o seu imperio de comunicação em um grande monopolio das noticias vinculadas no pais e em 1965 em plena ditadura militar ou regime militar ganhou a concessão de um canal de TV no Rio que futuramente mandaria nos destinos de seus telespectadoes ,quando esse se tornou Rede de TV ,ele era amigo de todos os generais presidente e politicos daquele regime monstruoso que matou muitos inocentes e cercando país de um censura ocultando muitos fatos que aconteciam mas a população não era informada da guerra suburbana que acontecia nesse periodo,o mesmo comemorou a falência de uma rede de TV ” Rede Tupi de Televisão’em 1980 e assim a sua emissora poderia reinar no campo televisivo por anos ja que outras canais não ofereciam preocupação com o dominio da audiência a TV Record não era rede de TV e a Rede Bandeirantes nem cobria todo o territorio nacional,o caminho esta livre pra esse dominio nacional televisivo ,mas ele furioso com um general presidente que não gostava dele e pra afronta-lo dividi-o uma emissora falida e transformou em duas redes novas no final de 1980 e em 1981 um canal foi para empresario Silvio Santos (TVS-SBT) e outro foi para o Grupo Bloch (Rede Manchete) , ele a sua empresa interferiu em eleições municipais e inclusive em uma eleição direta pra presidente em 1989 usou toda a sua propaganda pra eleger um candidato ao qual esse ganhou , e ate hoje ela a empresa ao qual ele fundou , puxa sardinha sempre pro lado governo não importa qual governante esteja lá ,Globo tira ou coloca esse governante vide os acontecimentos de 2013 enfim! esse era o “Cidadão Kane Brasileiro” Roberto Marinho . abraço de Anselmo Luiz

    • Grande Anselmo Luiz, belo paralelo do marinho com o Kane. E ótimo resumo da história desse monopólio. valeu pelo comentário. Abraço!

      • Obrigado!Por ter lido o meu pequeno resumo sobre o “Cidadão Kane Brasileiro” tem ate um documentário desse cidadão no youtube,deu ate polemica quando esse documentário ai ser exibido no Festival Rio de Cinema em 93,a Globo tentou barrar o documentário e consegui … mas foi exibido de depois de uma liminar judicial ganha pelos realizadores do evento ,mas em São Paulo não foi exibido sem problema,isso virou ate matéria de grande jornal da época o nome do documentário é” BEYOND CITIZEN KANE/MUITO ALEM DE CIDADÃO KANE produzido pelo Channel 4 de Londres ,Inglaterra.
        um abraço de Anselmo Luiz.

          • Tem no youtube em dois canais e dublado em portugues com legendas em ingles,assista é interessante. Anselmo Luiz

  2. Um dos meus filmes favoritos ,a primeira vez que assisti foi na TV Cultura na “Sessão Especial” lá nos final de 80 e incio de 90 legendado ,depois assisti em VHS naquele coleção da Editora Altaya , que um amigo me emprestou essa empresa legendava os filmes em portugues de forma horrivel,depois comprei o Blu-ray dele “Edição de 70 anos do filme” e tambem tenho um VHS ” Edição de 50 anos do filme” importado que ganhei de um ex-amigo, Orson Welles era um gênio ,muito afrente do cinema daquela época ,sua presença no filme é marcante,alias!todos filme é incrivel ,fotografia e cenários são um marcado do cinema moderno,excelente texto e otimos frames deste grande clássico do cinema do seculo 20.
    Um abraço de Anselmo Luiz

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