RAVANASURA (2023)

Texto de Luiz Campos

Desde que comecei a ver masalas, especialmente os feitos no cinema telugu, eu me acostumei com heróis invencíveis, com habilidades inacreditáveis, enfrentando inimigos que, em boa parte, são tão desafiadores quanto os minions de um vilão de tokusatsu. Mas esses filmes também tem um senso moral muito esquisito, frequentemente misóginos e esses mesmos heróis também costumam apresentar traços bem tóxicos. E é totalmente o caso desse filme aqui. Aliás, é facilmente o mais problemático que vi de Tollywood.

Em RAVANASURA, filme deste ano, 2023, dirigido por Sudheer Varma, baseado no filme bengali VINCI DAS, e estrelando o “Mass Maharaja” Ravi Teja – também pode ser visto nos divertidos WALTAIR VEERAYA e DHAMAKA, que podem ser conferidos na Netflix – que aqui vive Ravindra, um advogado júnior atabalhoado que trabalha no escritório de uma respeitada advogada, Kanaka Mahalakshmi (Faria Abdullah), que fora sua namorada na faculdade. Após a prisão de um figurão da indústria farmacêutica (Sampath Raj), a filha deste, Harika (Megha Akash) decide buscar o escritório da advogada para provar sua inocência, que nega o caso. Mas Ravindra, porém, se apaixona à primeira vista pela moça e decide ajudá-la a limpar a barra do pai, mesmo com todas as evidências apontando para uma clara condenação do réu. Mas talvez Ravindra não seja o bufão que aparenta ser a princípio, e sabe mais sobre o ocorrido do que pode parecer a princípio.

RAVANASURA segue os moldes tradicionais desse tipo de filme: tem dança, drama, comédia, ação, um pouco de romance. Mas o que torna este aqui um exemplar particularmente fascinante é que, bicho, quando quer, o filme é mau. Muito, MUITO mau. Pra quem já viu um punhado de clássicos exploitation, a violência e o uso do sexo em RAVANASURA é até bem baunilha, não tem, por exemplo, nenhuma nudez. Mas não deixa de ser chocante que o cinema popular de algum país vá tão longe em coisas tão tabus em 2023. Mas se eu disser que essa crueldade do filme não é uma das coisas que mais me encantaram eu estaria sendo hipócrita. Por mais canhestro que seja, RAVANASURA também é um filme muito, mas muito intrigante.

O personagem do Ravi Teja – que, cabe dizer, está em estado de graça – é um dos mais brutais que vejo em anos. Ao acompanhar sua jornada eu me lembrava de figuras como o Tomás Milian em ALMOST HUMAN, um sujeito capaz dos atos mais baixos, só que com o intelecto do Diabolik do filme do Mario Bava. Não posso deixar de mencionar que a trama pega elementos da franquia MISSÃO: IMPOSSÍVEL para usar na parte policial, com máscaras, identidades forjadas, e ainda culmina com uma set piece que é roubada do JOHN WICK: PARABELLUM. Mas poxa, se é pra copiar, copie dos melhores mesmo.

É uma pena que o filme tenha um dos roteiros mais frouxos que já vi. Tem reviravoltas ótimas, vários puxões de tapete, mas a quantidade de inconsistências, de coincidências, é absurda, e olha que eu sou um baita fã do Boyapati Srinu, dos celerados VINAYA VIDHEYA RAMA – que pode ser visto no Prime Video – e AKHANDA. Como eu imaginava, em algum momento o filme vai tentar limpar a barra do protagonista com seu backstory, mas francamente, essa tentativa de higienizá-lo é inútil, porque ele já perdeu a simpatia de boa parte do seu público quase uma hora antes  –  diga-se de passagem, RAVANASURA foi fracasso de público e crítica nas bandas de lá. Teria sido inclusive mais congruente se o filme levasse a radicalidade das suas ações até o final, sem quaisquer justificativas pros seus maiores excessos.

Algumas atuações também deixam a desejar. Por exemplo Sushanth, que interpreta o Saketh, um dos personagens mais importantes pro desenrolar da trama, deixa a peteca cair em alguns momentos, e os personagens secundários como um todo são mais uma vez jogados pra escanteio pro foco ser todo no Teja, que inclusive produziu essa insânia. O promissor personagem do policial que investiga o crime, Jairam Singh (Javaram), também rende menos do que merecia. Parece-me que o ego desses grandes astros acaba impedindo que o mundo construído ao redor de si consiga se desenvolver independente dos mesmos. As mulheres, então, nem se fala, parece até que o diretor Sudheer Varma – ou talvez os roteiristas da versão original, não o assisti para saber -, que também escreve o roteiro, se baseou em algum fórum redpill do 4chan. Ele inclui no filme uma subtrama envolvendo uma namorada do Ravindra e a mulher só tá ali pra ser bonita e usada de refém. Ela não tem qualquer backstory, personalidade. Mesmo a advogada Kanaka também será abandonada no decorrer do plot depois de uma revelação chocante.

Mas a elas não cabe o destino mais cruel. Eu não quero entrar em detalhes aqui pra não estragar o filme, mas como disse antes, eu pensei que nunca veria um astro fazer certas coisas que o “Marajá das Massas” (Marajá do Campari?) faz aqui. Por um lado, o personagem se torna particularmente rico, especialmente levando em conta os tempos em que vivemos. Eu também tinha lido no Letterboxd comentários sobre como o filme retrata violência sexual, e consigo entender porque tanta gente rejeitou o filme, ele realmente pode dar gatilhos em algumas pessoas. Contudo, não dá pra negar que o filme também é, à sua maneira, um filme político. A questão da indústria farmacêutica na Índia, das relações escusas dessa elite com políticos, policiais e até mesmo o crime para permitir a comercialização de remédios que são proibidos em países desenvolvidos aparece aqui, e podemos perceber que existe muito mais em comum entre o Brasil e a Índia do que pode parecer a princípio. O filme em algum momento faz alusão ao CORINGA de 2019, do Todd Phillips, mas de boa, aquele palhaço zé bunda incel não tá com absolutamente nada se comparado ao que o Ravindra faz aqui. Claro que estamos falando de um filme popular feito parcialmente sob a inspiração da mitologia hindu, a mesma que é propagada por Narendra Modi, o atual primeiro-ministro indiano de extrema-direita. É bem legal ver a utilização de Ravana*, um dos mais notórios personagens da Ramayana, livro canônico do hinduísmo, como um vingador amoral, em uma espécie de guerra sagrada contra a burguesia.

É muito curioso que este que é um dos filmes mais sangue ruim do ano não sofra do mal contemporâneo dos filmes pensados menos como cinema e mais como conteúdo. Todo mundo envolvido tá claramente dando o seu máximo. A trilha sonora várias vezes me remeteu a fragmentos de trilhas de faroestes spaghetti, com uma música tema realmente vibrante. Os números musicais também são bons, e todos inseridos de maneira orgânica na trama, que é sempre mais interessante do que quando, do nada, o filme sai de Mumbai, Tamil Nadu ou Telangana para a Austrália, Veneza ou Suíça. Visualmente, também, o filme é bem bonito, contando com Vijay Kartik Kannan na direção de fotografia, que trabalhou em DOCTOR (na Netflix) e JAILER (um dos maiores hits do momento em Kollywood) do Nelson Dilipkumar e pelas cenas interiores do ótimo KAATHUVAAKULA RENDU KAADHAL do ano passado. Os destaques ficam para o plano sequência na delegacia e a cena em que o Ravi Teja sai no braço com o Sushanth em um corredor. Essa cena, em específico, tem uma breve referência visual ao Ravana inserida no meio do confronto que fiquei muito feliz de ter reparado, depois de tantas outras que passaram batido por mim anteriormente.

Em suma, um filme feito para quem gosta de masalas, mas sente nostalgia pela bad vibe do cinema exploitation setentista, com tudo de fascinante e terrível que isso implica. Umberto Lenzi, quem diria, ainda vive.

P.S: Antes que me esqueça, o filme pode ser conferido no Prime Video e conta com legendas em português, o que é um milagre em se tratando do seu catálogo de filmes indianos.

*O nome do filme se traduz como “O Demônio Ravana”, personagem do épico hindu Ramayana, que tem dez cabeças.