PROJECT SHADOWCHASER II (1994)

Também conhecido como NIGHT SIEGE: PROJECT SHADOWCHASER II e novamente dirigido pelo John Eyers. À primeira vista, parece repetir a mesma fórmula do primeiro filme, que comentei aqui outro dia, aquela mistura descarada entre DURO DE MATAR e O EXTERMINADOR DO FUTURO. O que na verdade, não vamos nos enganar… Realmente repete a mesma fórmula. Mas reduzir o filme a um simples exercício de cópia seria ignorar aquilo que ele realmente é, mais um produto típico do cinema direto para vídeo dos anos 1990 que encontra sua identidade nos exageros e numa relação honesta com seus próprios limites. Mas sim, mantém a espinha dorsal do original, apesar de trocar qualquer resquício de ambição narrativa por um conceito ainda mais enxuto. 

Quem conhece, sabe. O primeiro é mais pitoresco, com aquela trama absurda cheio de comédia involuntária e um herói improvável na pele de Martin Kove. Já a trama por aqui neste segundo filme existe apenas como pretexto. Temos um espaço fechado, agora deslocado pra um cenário ainda mais simbólico e paranoico, uma instalação nuclear; terroristas invandindo, chantageando Washington com um missel nucelar e novamente um herói improvável (um zelador, que era a ideia original do primeiro filme). O líder dos terrorisstas mais uma veze é um sujeito praticamente indestrutível, com Frank Zagarino retornando, agora não mais como Romulus, mas simplesmente como “o Androide”, que deixa de carregar qualquer verniz mitológico ou existencial e passa a funcionar como uma força bruta, quase abstrata, uma presença destinada exclusivamente a avançar, atirar e resistir. E tirar a camisa pra mostrar o peitoral na primeira oportunidade…

E nessa lógica de ser mais objetiva e direta é que PROJECT SHADOWCHASER II revela sua verdadeira vocação. O filme não tenta desenvolver ideias, apenas quer colocar seus personagens em movimento. As explosões são maiores, o número de corpos aumenta e a encenação da violência é mais espalhafatosa do que no primeiro capítulo, com várias cenas de luta com uma pegada de kickboxer movie, que tava em voga no período. Eyres filma tudo com uma urgência nervosa, e o resultado é um espetáculo de destruição contínua, com explosões, tiros e squibs disputando espaço na tela com os atores.

Essa entrega total ao excesso flerta, em vários momentos, com a autoparódia. O filme é até ambientado durante o Natal e não hesita em transformar símbolos de inocência em alvos, como um papai noel sendo metralhado no ataque inicial dos terroristas, deixando claro que nenhum detalhe é sagrado demais para escapar da carnificina. Existe algo de quase satírico nessas escolhas, como se o diretor estivesse rindo do próprio absurdo da situação enquanto empurra as situações.

Por outro lado, essa simplicidade radical tem seu preço. De vez em quando o filme se aproveita daquela espinha dorsal do primeiro filme e que serve de base por aqui e… Digamos que a sensação de déja vu é inevitável. Diversas situações, resoluções e até o confronto final ecoam de certa forma o filme anterior. A maneira como o Androide é derrotado reforça essa impressão de reciclagem, como se o roteiro estivesse menos interessado em reinventar soluções e mais preocupado em cumprir uma checklist de expectativas do gênero. Expõe uma certa preguiça criativa, mas não chega a comprometer o ritmo e a diversão. Por exemplo, o confronto final entre o zelador e o ciborgue já é recheado de chutes altos ao estilo Van Damme em câmera lenta. Bem mais épico que Martin Kove vs Zagarino no primeiro.

E talvez a maior contradição de PROJECT SHADOWCHASER II esteja justamente no tratamento dado ao seu vilão. Apesar de ser apresentado como uma máquina, o aspecto ciborgue é quase irrelevante. Se não fossem alguns diálogos expositivos e breves planos em ponto de vista digitalizado, nada o diferenciaria de um mercenário musculoso qualquer. Inclusive os chutes do zelador causam o mesmo dano que em um homem normal… Isso esvazia qualquer leitura mais filosófica sobre a relação entre homem e máquina, tão cara às obras que o filme imita. Aqui, a tecnologia não simboliza ameaça ou desumanização, é apenas um detalhe estético.

Ainda assim, seria injusto cobrar profundidade de um filme que nunca se propôs a isso. PROJECT SHADOWCHASER II funciona porque entende seu lugar. Ele é direto, bem fotografado, explora bem os cenários industriais cheios de vapor. É montado com certa precisão e sustentado por uma trilha sonora funcional, que sabe quando acelerar e quando dar espaço ao impacto visual. Bryan Genesse é quem faz o nosso herói por aqui, o herói improvável. Um ex-atleta decadente reduzido à função de zelador do local, que curiosamente luta kickboxer, e que incorpora até bem essa lógica do cinema de ação B, um sujeito comum que, pressionado pelas circunstâncias, revela coragem e habilidades extraordinárias.

Mas sejamos claros por aqui. Ele não é um Martin Kove. É, acho que é isso, falta um elemento Martin Kove por aqui… A trama ainda envolve uma cientista do laboratório dentro da instalação e seu filho adolescente que possuem alguma ligação com o zelador. Mas, não vale a pena comentar por aqui, acho que já deu pra ter uma noção do que é o filme.

PROJECT SHADOWCHASER II até pode ser menos interessante como narrativa e mais revelador como produto de uma época. Um cinema feito sem pudor, preocupado antes em entregar espetáculo do que coerência. Filmes pra compor prateleiras de locadora, e que encontra no excesso sua forma mais sincera de expressão. Pode não avançar muito além do que o primeiro filme já havia estabelecido, mas compensa isso com ação e muito barulho. E a convicção quase admirável de que, às vezes, tudo o que um filme precisa fazer é divertir com uma boa dose de chute na cara.

PROJETO MORTAL (1992)

Acho curioso que ao mesmo tempo em que eu faço um post como o anterior, apontando obras clássicas do cinema mudo e cinema de vanguarda como grandes filmes que ando assistindo, logo na sequência, no post seguinte, eu trago um filmeco vagabundo de ação dos anos 90. Um pouco de salada, um pouco de droga… Mas é isso, mantendo o espírito do blog, como sempre foi ao longo desses quase vinte anos, aos trancos e barrancos. Estamos aí, e agora quero falar de PROJETO MORTAL (Project: Shadowchaser), do diretor John Eyres.

À primeira vista, PROJETO MORTAL se anuncia com uma honestidade quase comovente na sua mistura de DURO DE MATAR com O EXTERMINADOR DO FUTURO. E, surpreendentemente, entrega exatamente isso, sem ironia, sem vergonha e sem a menor pretensão de ser algo além de um sci-fi de ação direto, eficiente e marcado pelo espírito do VHS dos anos 90. O filme surge num momento em que o mercado direct-to-video fervilhava, alimentado por produções que entendiam perfeitamente o que o público queria. Ação sem frescuras, constante e barulhento, com ritmo acelerado, personagens arquetípicos e, se possível, algum conceito de leve, que não interfira na diversão…

Nesse caso, o conceito de Eyres foi dar o tal toque sci-fi pra uma trama que tinha como ideia original no roteiro ser apenas um clone mais direto de DURO DE MATAR. No plot, terroristas tomariam um arranha-céu e um zelador do prédio seria o sujeito que tentaria salvar o dia. Interessado em capitalizar a crescente demanda do mercado por ficção científica, o diretor pediu que o seu roteirista, Stephen Lister, adicionasse um toque futurista à história.

Então agora a trama se passa num futuro próximo. E um grupo terrorista toma um hospital localizado num arranha-céu. Ok, nada de muito novo por aqui… Mas a primeira peculiaridade da trama é que o líder do grupo, Romulus, é um ciborgue criado pelo próprio governo, interpretado com presença física, frieza, uma cabeleira platinada e sempre com o abdômen trincado à mostra, por Frank Zagarino. Aliás, o filme abre com uma sequência maravilhosa, minimalista, atmosférica, com Romulus massacrando os cientistas que estavam alí no seu ofício e foge, enquanto a câmera de Eyres filma o corpo de Zagarindo quase de forma fetichista e a trilha tecno-gótico do tema pulsante de Gary Pinder toma conta durante os créditos iniciais.

Enfim, o plano dessa rapaziada envolve sequestrar a filha do presidente dos Estados Unidos, interpretada por Meg Foster, que seja lá qual for o motivo, está no hospital. Além de exigir um resgate de 50 milhões de dólares, valor que hoje parece modesto, mas que nos anos 90 ainda era um dinheirão. Sobretudo se você for um ciborgue.

Para lidar com a crise, o FBI, liderado pelo grande Paul Koslo, toma uma decisão tipicamente absurda. Descongelar o arquiteto do prédio, que por acaso está mantido em prisão criogênica, e que não faço ideia do crime que cometeu, um ano antes de Sylvester Stallone e Wesley Snipes em O DEMOLIDOR. A polícia do futuro, com toda a tecnologia disponível, resolve que a melhor ideia é chamar um arquiteto… E essa nem é a segunda peculiaridade do filme, ainda mais bizarra, o lapso de genialidade que de vez em quando encontramos em filmes desse tipo.

Essa segunda peculiaridade genial é que, por um erro burocrático, quem eles acordam é um tal de Desilva, um ex-jogador de futebol americano condenado por homicídio culposo, interpretado por por ninguém menos que Martin Kove. Com uma barba mais fake que a do Gusttavo Lima e numa deliciosa inversão de expectativa para quem o associa automaticamente ao vilão de KARATE KID. E a coisa só melhora. Por sorte, ninguém sabe que descongelaram o cara errado e Desilva, que não é bobo e não quer voltar pro freezer, resolve fingir ser o tal arquiteto. Acaba mergulhado na missão suicida de invadir o local, tornando-se um herói relutante à força das circunstâncias.

Levando em conta que estamos tratando aqui de um filme B, produzido para o mercado de vídeo, com suas limitações orçamentárias, até que o diretor John Eyres conduz tudo com habilidade e uma urgência quase imprudente. Não é que tenha uma abundância absurda de tiroteios, explosões e confrontos (embora tenha uma boa dose disso tudo), mas é um filme que tenta manter o público interessado pelas situações criadas a partir dessa fórmula, dessa estrutura de DURO DE MATAR com aquele ritmo que não dá muito tempo pra respiros. A construção de personagens é quase mínima, o filme não quer que você tenha muito tempo pra refletir demais sobre motivações, tá mais interessado em empurrar a trama pra frente. E nisso ele é competente.

E temos os lampejos de humor. A maioria das vezes involuntários, mas também os assumidos, sobretudo com o personagem de Kove, que é um sujeito engraçado sendo esse cara errado no filme certo, que acaba aceitando a posição que se encontra. E adota uma postura meio resignada, meio cínica, sempre com um sorrisinho no rosto, mesmo diante do perigo.

E quando resolve falar a verdade, os caras do FBI já não tem muita escolha. É o que tem pra hoje… O riso vem dessa fricção, um sujeito comum, meio bruto, meio cínico, jogado numa narrativa que espera dele um heroísmo que ele, à princípio, não tem interesse. Ele definitivamente não é um John McClane (o Bruce Willis em DURO DE MATAR). E é essa falta de vergonha na cara que torna o personagem tão simpático e cômico. E tem uma química ainda mais hilária com a Meg Foster, que tá ótima por aqui.

Já o Zagarino é o completo oposto. Um achado como Romulus, seu ciborgue, embora raramente “mostre” sua natureza mecânica de forma explícita, convence pela presença e pela sensação de ameaça contínua. Claro, o sujeito não é um Schwarzenegger e de vez em quando tive que segurar o riso pela sua performance robótica. Mas funciona na maior parte do tempo. As sequências perto do final em que persegue Kove e Foster pelos corredores desse escritório transformado em hospital pro filme demonstram sua imponência.

Curiosamente, o fato de o filme evitar grandes revelações visuais, sem exoesqueletos metálicos ou efeitos extravagantes, acaba reforçando o caráter quase abstrato do personagem, a de que Romulus é uma força criada pelo homem que escapa ao controle. Mas quanto a isso, o filme ainda tem umas reviravoltas, que envolvem o personagem de Joss Ackland (o vilão de MÁQUINA MORTÍFERA 2), que é o cabeça por trás do projeto que criou Romulus…

De qualquer forma, é por aqui que PROJETO MORTAL começa a revelar algo além do entretenimento. Por trás do espetáculo B, existe um comentário, talvez involuntário, sobre o estado das coisas no mundo moderno e que reflete a realidade. Desilva não é quem dizem que ele é, mas precisa agir como se fosse para sobreviver. Romulus, por sua vez, é uma criação artificial que encarna o poder, a eficiência e a violência do próprio sistema que o gerou. O fato é que ambos são produtos de erros administrativos, decisões apressadas de estruturas burocráticas falhas e da mentira sustentada no improviso. Ou seja, desde 1992 os governos não mudaram nada… Se tivessem assistido a PROJETO MORTAL, quem sabe?

Mas é algo que fica nas entrelinhas. Não vou dizer nem que um filme desse tenha “camadas”, mas é algo a se refletir no meio dos tiroteios e explosões. Até porque é só um exemplar bem executado de cinema de ação B, confortável em sua condição e consciente de seus limites. Não tenta ser mais inteligente do que é, nem mais profundo do que precisa. E tecnicamente, o filme até que surpreende. A ação é bem pensada dentro daquilo que se propuseram a fazer aqui, apesar do Romulus ser o ciborgue com a pior mira que já vi na minha vida, o que transforma alguns momentos numa mistura de “esses caras têm noção do que estão filmando?” com aquele humor involuntário que já mencionei. O uso de maquetes e efeitos práticos é sólido, e o aproveitamento de locações, incluindo cenários reutilizados de ALIEN³, revela uma certa criatividade de quem sabe fazer muito com pouco. Não é a toa que Eyres é muitas vezes apontado como um herdeiro do estilo Albert Pyun de filmar. A fotografia é limpa, a montagem às vezes é tosca, mas o filme todo tem uma energia boa.

A sequências do confronto final entre Kove e Zagarino poderia render mais como clímax? Poderia, mas não vou julgar. Até porque logo depois temos Kove pendurado num helicóptero na frente de um chroma key tosco que é uma belezura. E com direito a uma aparição final do ciborgue que me surpreendeu. Enfim, há filmes muito piores, mais preguiçosos dentro da mesma linhagem. Enquanto PROJETO MORTAL pulsa com mais vontade, do vilão carismático ao herói improvisado, do conceito absurdo à execução que é de uma sinceridade que me pega. Não surpreende que o filme tenha gerado várias continuações, mesmo que não tenham qualquer ligação com este aqui.

LE PRIX DU DANGER (1983)

Apesar de todas as semelhanças que LE PRIX DU DANGER possui com THE RUNNING MAN (1987), filme que comentei no post anterior, Yves Boisset e seu produtor, Norbert Saada, se apropriaram de um conto do autor de ficção científica Robert Sheckley, ou seja, um material que não possui relação com as origens do filme de Arnold Schwarzenegger. Boisset chegou a processar a Twentieth Century Fox por plágio por conta do filme hollywodiano, mas não deu em nada porque como sabemos não foi uma refilmagem disfarçada nem um plágio, foi inspirado em um conto de Stephen King (sob o pseudônimo Richard Bachman). Portanto, ambos os filmes tinham seus próprios romances de origem, mas com histórias próximas entre si. Os autores que se entendam…

Mas as similaridades param na descrição da sinopse, no ponto de partida. LE PRIX DU DANGER se passa num futuro indefinido, onde um programa de televisão faz enorme sucesso, Le Prix du Danger, apresentado pelo carismático apresentador Frédéric Mallaire (Michel Piccoli), que coloca em cena um candidato perseguido por caçadores, que devem abatê-lo antes que ele cruze a linha de chegada. François Jacquemard (Gérard Lanvin), um desempregado, aceita o desafio. Mas, ao perceber que o jogo é manipulado, ele decide jogar segundo suas próprias regras.

A maneira como Boisset conduz as coisas e as opções estéticas já distanciam absurdamente LE PRIX DU DANGER de THE RUNNING MAN. Por exemplo a crítica à sociedade do espetáculo é muito mais contundente e sem sutilezas por aqui. Boisset declararia mais tarde, em entrevista, que “Não há regra nem lei que permita limitar a estupidez na televisão.” Pode-se imaginar que ele já tivesse isso em mente ao filmar LE PRIX DU DANGER, tamanha a intensidade com que empurra todos os limites. O programa de TV no centro do filme é extremamente radical, transformando seu candidato em um alvo humano para caçadores e em objeto de obsessão mórbida para o público. Vemos nas ruas o frenesi selvagem das multidões, e no estúdio, a excitação de Mallaire, que apresenta com cinismo essa cerimônia macabra.

No papel, Piccoli contribui muito para tornar tudo mais assustador, com seus gestos, empolgação e falas. Sempre vestido com ternos brancos impecáveis, que contrastam com a “televisão lixo” que ele conduz, o personagem é um dos pontos fortes do filme. Aparentemente teria irritado vários apresentadores franceses do período, que provavelmente se sentiram pessoalmente atingidos ou perceberam a crítica profunda e visionária do filme.

Mallaire não é o único alvo da crítica de Boisset. Atrás dele está o frio Antoine Chirex, diretor da emissora, interpretado por Bruno Cremer. Suas falas são arrepiantes, descrevendo o programa, que segundo ele reduz a criminalidade, como uma “iniciativa de saúde pública”. Um homem para quem a morte é irrelevante, e que, ao saber que um dos caçadores morreu eletrocutado, simplesmente diz: “Vamos acionar o seguro.

Boisset não poupa ninguém. Nem os rostos públicos da televisão, nem os homens por trás das câmeras e muito menos o público, que se aglomera nas ruas durante a caçada para se deleitar com o massacre iminente. Sem uma plateia sedenta por sangue, não haveria programa sórdido. Boisset é lúcido em sua análise sobre a cadeia de responsabilidades e sobre por que a televisão nunca se limitará em sua própria estupidez. Nem mesmo os candidatos, que marcham para a morte são poupados, são vítimas voluntárias de um sistema que eles mesmos sustentam.

Exceto por Jacquemard, o herói aos olhos da câmera de Boisset, pois, como em outros filmes do diretor, é aquele que se recusa a aceitar a mentira. Já relutante desde o início a participar do programa, ele se transforma por completo ao descobrir que o jogo é manipulado. Seu sonho de riqueza dá lugar a um desejo de revelar a verdade e sabotar a engrenagem bem azeitada do espetáculo. Lanvin era um ator desconhecido, em ascensão, e encontrou nesse papel o ponto alto de sua carreira, que, ao longo do tempo, não corresponderia às promessas dos anos 80. Sua energia e postura tornam o personagem crível. Sua pureza em meio à corrupção e sua ação física possibilitam sequências de ação mais intensas. O jovem Lanvin está à altura dos brilhantes veteranos Cremer e Piccoli, o que fortalece o equilíbrio da crítica feita por LE PRIX DU DANGER.

Mas a maior força do filme está, sem dúvida, em seu caráter visionário. O que era uma ficção especulativa em 1983 se tornou, anos depois, quase uma previsão sobre a televisão. Os abusos da produção televisiva, com a ascensão da reality TV, deram razão a Boisset. Obviamente não temos caçadas humanas ao vivo, mas os limites da estupidez televisiva foram, de fato, empurrados muito além, tornando o discurso de LE PRIX DU DANGER ainda mais relevante hoje.

O filme não envelheceu, suas escolhas artísticas o favorecem. Boisset evitou tentar inventar “objetos do futuro”, diferente de tantos filmes de ficção, para não deixar o filme datado e mais excêntrico. O que não teria problema também, pessoalmente eu adoro filmes datados, mas vai de acordo com o tom do que Boisset faz aqui.

Boisset tem uma carreira marcada mais pelo polar, o cinema policial francês, mas LE PRIX DU DANGER é um exemplo típico de seu cinema, mesmo se aventurando num gênero raro para ele, e para o cinema francês, ao entregar uma visão assustadora e pessimista da humanidade. O filme, que evidentemente recebeu pouca promoção na TV, é sua última grande realização. E não deixa de ser uma obra indispensável.

O SOBREVIVENTE (1987)

Quando o produtor (e futuro diretor de VELOZES E FURIOSOS) Rob Cohen leu a história de um sujeito chamado Richard Bachman, intitulada The Running Man, ele adorou e rapidamente comprou os direitos para o cinema. O que Cohen não sabia na época era que “Richard Bachman” era na verdade um pseudônimo usado por Stephen King. Mesmo depois que o segredo foi revelado, King pediu que o nome Bachman fosse mantido nos créditos do filme. Não sei qual nome vai aparecer nos créditos da nova versão que o Edgar Wright dirigiu, mas aproveitando que vamos ter um novo THE RUNNING MAN em breve, resolvi rever esse clássico da minha infância, que não assisita há mais de vinte anos. Mas lembro até hoje do VHS que meu pai tinha gravado da Globo e que eu assistia exaustivamente no fim dos anos 80.

Essa nostalgia pega forte, apesar de, revendo hoje, reconhecer os problemas que o filme possui, mas que são facilmente superados pelas qualidades, o grau de divertimento que proporciona e pelo tom sem vergonha de ser o que é: um filme que troca o tom sombrio e desesperado do material original pra ser um produto de ação cafona, colorido e autoconsciente típico do cinema americano dos anos 80. 

Não deixa de abordar, no entanto, alguns assuntos que inevitavelmente ecoa na trama, que se passa num futuro distópico, onde o governo controla a população com propaganda e programas de TV violentos. Um policial desse governo, Ben Richards (Arnold Schwarzenegger) é injustamente acusado de um massacre. Para recuperar sua liberdade, ele é forçado a participar de um reality show mortal chamado The Running Man, no qual criminosos devem sobreviver sendo caçados por assassinos brutais conhecidos como Stalkers. À medida que o jogo avança, ele se torna não apenas um símbolo de resistência, mas também uma ameaça real ao sistema opressor.

O filme chegou aos cinemas em 1987, apenas alguns meses depois de ROBOCOP, do Verhoeven. Ambas as histórias tratam de absurdos violentos, mas estranhamente plausíveis, em futuros distópicos. Os criadores de ROBOCOP usaram a oportunidade para fazer uma crítica social contundente e bem sucedida. Já os responsáveis por THE RUNNING MAN não tentaram a mesma abordagem, pelo menos não além de alguns toques bem genéricos, e focaram apenas em fazer um filme de ação oitentista. Considerando todo o exagero envolvido, foi sem dúvida a escolha certa. Afinal, é difícil levar a sério qualquer comentário social quando temos em cena, por exemplo, um cantor de ópera gordinho, usando uma roupa feita de luzinhas de Natal, que dirige um buggy saído de MAD MAX 2 e dispara raios pelas mãos.

Mas já volto a falar dele.

O fato é que qualquer profundidade além de todo espetáculo exagerado de ação oitentista é um bônus. E com os talentos envolvidos aqui, esse tipo de playground com liberdade para exagerar o quanto quiserem, fazem com que coisas especiais aconteçam.

Os trinta minutos iniciais que formam o primeiro ato do filme trazem drama suficiente para sustentar a história e algumas subtramas simples, e passam tão rápido e de forma tão leve que nem dá pra percerber o tempo passar. Tem tiroteios, uma cabeça explode, tem aquelas tecnologias futuristas meio ridículas, tudo isso distrai o suficiente até chegar no que interessa. É como o aquecimento antes do jogo, tecnicamente necessário, mas fácil de ignorar quando os destaques ainda não começaram. É o equilíbrio perfeito entre superficialidade e substância.

Isso também deixa claro o que esperar do nosso herói, absolutamente nada complicado. THE RUNNING MAN é, facilmente, um dos papéis menos exigentes de Schwarzenegger. Basicamente, ele só precisa correr, atirar, grunhir e soltar uma enxurrada de frases de efeito ridiculamente boas, sem precisar mostrar quase nenhuma emoção. Contei talvez uns três momentos no filme inteiro em que ele tenta mostrar alguma sinceridade emocional, e só comprei um deles. E tudo bem, porque Schwarzenegger à vontade, focado no físico, é Schwarzenegger divertido.

E falando em diversão…

A graça da maioria dos filmes de ação dos anos 80 está nos heróis, mas no caso de THE RUNNING MAN, apesar do herói de Schwarza ser icônico e ter as melhores tiradas, são os vilões que roubam a cena. Começando pelo rei do exagero, o apresentador de vários game show da vida real na televisão americana, Richard Dawson, que como o apresentador Damon Killian, interpreta uma versão ainda mais extravagante e mais maligna de si mesmo. Ele domina o público como se tivesse feito isso a vida toda (até porque realmente fez) e quando chega a hora de ser cruel, ele o faz com uma segurança e sutileza deliciosas. Killian é um vilão que dá gosto de odiar, e quando chega a hora de ele pagar pelas crueldade é muito satisfatório.

Dawson, claro, não poderia enfrentar Schwarzenegger numa luta justa, e é por isso que temos o grupo de Stalkers. Todos são caricaturas exageradas, saídas direto de uma HQ maluca, e são um show à parte em THE RUNNING MAN. Temo Buzzsaw (Bernard Gus Rethwisch), um brutamontes numa moto com uma motosserra industrial que faria o Leatherface pensar duas vezes antes de encará-lo. Ou talvez você prefira o Sub Zero (Professor Toru Tanaka), cujo taco de hóquei também serve como foice afiada. A leda Jim Brown se apresenta como Fireball, que usa lança-chamas e voa com um jetpack. E temos Dynamo (Erland Van Lidth), o já mencionado cantor de ópera gordinho usando luzinhas de Natal, que dirige um buggy futurista e solta raios pelas mãos.

Coloque qualquer um desses malucos contra o Schwarzenegger usando um macacão amarelo e pronto, temos um clássico dos anos 80 que eu posso rever a qualquer hora e vou me divertir como se tivesse oito anos. E não posso deixar de mencionar o Capitão Freedom de Jesse Ventura, que acaba participando da ação no modo “fake news”, e é o stalker mais celebrado pela base de fãs do show. E ainda apresenta um programa diário de ginástica aeróbica! Ah, os anos 80.

A trilha sonora de Harold Faltermeyer é bem boa e contribui bastante pra nostalgia. A melodia começa a tocar e as memórias de infância começam a surgir. Mas vários roqueiros aqui têm falas e interpretam membros da resistência. Dá pra escolher entre Mick Fleetwood (do Fleetwood Mac) ou Dweezil Zappa (filho de Frank). E, há ainda as coreografias das dançarinas de palco durante o programa The Running Man, criadas pela Paula Abdul. Com uma produção dessas, quem precisa de crítica social mais afiada, não é?  E o mais legal é que todo o clima e a essência de THE RUNNING MAN remete mais a um rip-off italiano de baixo orçamento (como I GUERRIERI DELL’ANNO 2072, do Lucio Fulci, ou ENDGAME, de Joe D’Amato) do que uma superprodução de Hollywood. E só posso dizer que isso é um baita elogio.

No fim das contas, THE RUNNING MAN pode não ser um grande filme, nem mesmo um exemplo refinado de sci-fi distópico, mas tem charme, um ritmo divertido e carrega, mesmo que diluído, ecos de um comentário social sobre a manipulação midiática e a desumanização em nome do espetáculo. E isso basta. Adicione uma ótima participação de Maria Conchita Alonso e Yaphet Kotto e você tem bons momentos de pura diversão esperando para serem aproveitados.

Notas sobre filmes recentes

A partir de anotações do meu Letterboxd.

MICKEY 17 (2025, Bong Joon Ho)

A premissa de MICKEY 17 me chamou a atenção de imediato, desde que saíram as primeiras notícias, trailer, etc… Um operário descartável, o tal Mickey 17, em uma missão de colonização espacial, condenado a morrer repetidas vezes e ser substituído por clones que preservam todas as suas memórias. É um ponto de partida cheio de possibilidades filosóficas e existenciais. Bong Joon Ho, como de costume, usa esse enredo para dar continuidade a algumas reflexões que já vêm atravessando sua filmografia, como desigualdade, exploração, relações de poder, de maneira bastante evidente. O que pesa mais pra mim é a execução, que nem sempre encontra o mesmo nível de frescor ou impacto de seus melhores trabalhos.

Pra falar a verdade, achei bem chatinho, sobretudo quando perde algumas boas oportunidades. Por exemplo, quando surge em cena o Mickey 18 e a narrativa flerta com a ideia de tensão e dualidade entre essas duas versões do mesmo ser. Só que esse conflito, que poderia ser o coração do longa, é tratado de maneira superficial, sem mergulhar de fato no que significa coexistir com a própria cópia, com a própria consciência duplicada. O filme não se interessa muito em desenvolver isso, o que é uma pena. Ainda assim, o resultado não deixa de ter seus momentos. O projeto é visualmente instigante, tem passagens divertidas e uma atmosfera curiosa, mas é Robert Pattinson quem realmente sustenta a experiência. Seu trabalho no papel duplo é o que injeta vida e carisma na trama, evitando que ela se perca de vez na própria repetição. Mas o filme fica nesse meio-termo, uma boa premissa, uma execução irregular, mas uma atuação central que vale a visita.

IN THE LOST LANDS (2025, Paul W.S. Anderson)

O filme carrega um pouco de uma vibe “Albert Pyun com orçamento”, o que por si só já desperta certa curiosidade. Ao mesmo tempo, há uma sensação de um certo desespero em colocar muitos elementos na mesma panela: temos pós-apocalipse, monstros, western, bruxaria, crítica religiosa… tudo misturado em uma salada de referências que, no fim, não consegue ser realmente satisfatória em nenhuma dessas frentes. O visual estilizado e hiper artificial até funciona em alguns momentos. Dá pra perceber o cuidado de Paul W.S. Anderson em manter-se fiel à sua própria lógica estética, aquele exagero que sempre marcou sua carreira. Algumas sequências de ação, inclusive, são criativas e mostram flashes do diretor que sabe brincar bem com ritmo, espaços e cenários, como fez nos seus melhores filmes, como RESIDENT EVIL 5: RETRIBUIÇÃO. O problema é que, desta vez, ele resolve insistir em focar no contar uma história. E é justamente aí que desmorona.

Anderson sempre é mais eficiente quando deixa o enredo em segundo plano, preferindo mergulhar em adaptações livres de videogames (no caso de IN THE LOST LANDS é baseado num livro de George R. R. Martin) e explorar seu senso de espacialidade aliado à ação pura. Era nesse território que conseguia se destacar, ainda que de maneira irregular. Aqui, no entanto, a narrativa ocupa o centro das atenções… E a história que ele quer contar simplesmente não tem força para sustentar o espetáculo. O resultado é um filme que tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo, mas que acaba não sendo memorável em nenhuma delas.

HAVOC (2025, Gareth Evans)

A abertura de HAVOC já deixa uma impressão muito errada: uma perseguição entre carros e caminhão feita praticamente toda em CGI, que até funcionaria bem como missão num GTA, mas que para um filme dessa estirpe soa artificial e esvazia o impacto logo de cara. Confesso que demorei a voltar pro filme de verdade depois disso, principalmente porque o roteiro despeja uma quantidade absurda de personagens, dificultando criar qualquer vínculo. No começo, a experiência acaba sendo mais cansativa do que envolvente. Ainda assim, havia algum interesse em acompanhar Tom Hardy mergulhando nesse inferno urbano de corrupção, violência e máfia. O ator segura a marra e traz intensidade mesmo quando o filme parece se perder no meio de tanta subtrama.

Só que é lá pela metade, com a sequência da pancadaria na boate, que HAVOC finalmente lembra quem é seu diretor. É nesse momento que Gareth Evans, o mesmo de THE RAID e MERANTAU, entrega a brutalidade que o consagrou: lutas insanas, coreografadas com precisão e um senso de impacto físico raro no cinema de ação atual. Do meio em diante, dá pra assistir com bem mais boa vontade. O problema é que o roteiro insiste em floreios desnecessários, cheio de personagens descartáveis e complicações que só enfraquecem uma trama que poderia ser muito mais direta. O que realmente funciona está na fisicalidade pura, na câmera que não desvia do choque dos corpos e na violência estilizada, e era nesse terreno que Evans deveria ter cravado o pé.

Mas, claro, estamos falando de uma produção pré-formatada da Netflix, onde até diretores de peso precisam se ajustar às amarras de um produto pensado para consumo rápido. Sem contar que o filme teve vários problemas de produção, que por si só precisaria de um post pra relatar, mas podem ir atrás se quiserem saber mais, que a coisa aqui foi complicada. Acaba que HAVOC não chega a ser um desastre, mas também não está à altura do que Evans já mostrou ser capaz de fazer.

A WORKING MAN (2025, David Ayer)

Jason Statham faz em A WORKING MAN aquilo que já virou sua marca registrada: distribuir sopapos com a eficiência de quem nasceu para esse tipo de papel. E, ao lado de David Ayer, ele encontrou um parceiro que entende exatamente essa necessidade. Assim como em THE BEEKEEPER, do ano passado, o resultado é um filme de ação genérico, previsível e conduzido no piloto automático, mas que entrega o básico com competência. A diferença é que, enquanto THE BEEKEEPER me pareceu mais redondo, neste aqui algumas escolhas soam mais pobres. Certas situações e diálogos beiram o constrangedor, e não surpreende descobrir que o roteiro foi escrito em parceria com Sylvester Stallone, que há tempos já não tem o mesmo faro narrativo de outrora. A trama é daquelas que você sente que já viu mil vezes, sem surpresas ou grandes viradas, o que não é necessariamente um problema se o resultado final fosse mais divertido. E infelizmente não é.

SINNERS (2025, Ryan Coogler)

Este aqui foi a grande decepção do ano pra mim, até o momento. E sim, eu sei que eu sou minoria, mas todo mundo elogiou e o hype foi lá em cima. Mas definitivamente não consegui entrar na onda. Até começa bem, dando a entender que viria algo interessante, mas logo se perde nas piores escolhas narrativas, levando a história pra um caminho que não me diz nada, introduzindo personagens demais, situações soltas que vão se acumulando e não levam a lugar nenhum, e demora uma eternidade pra finalmente algo acontecer. E quando acontece, tirando uma cena ou outra, achei bem meia boca. E nesse ponto, percebi que já não tava me importando com nada nem ninguém da história. E em vez de torcer pelos personagens, a sensação era de querer que tudo acabasse logo.

Com tanta enrolação e tão pouco desenvolvimento, o suspense se perde, a tensão é quase nula, a ação é limitada e o impacto desaparece completamente. O pano de fundo tem uma reflexão nobre sobre questões raciais, que acho relevante, mas não posso passar pano pra algo que não gosto apenas pelas suas boas intenções temáticas. Uma condecendência que os cinéfilos atuais parecem não conseguir evitar… O lance com a música é bacana, e aquele plano sequência em que o passado, presente e o futuro se fundem, é a melhor coisa de SINNERS. Mas é muito pouco.

SUPERMAN (2025, James Gunn)

Vamos lá, mais um filme que não gostei. Só não digo que foi uma decepção porque eu realmente não pensei que fosse ser bom mesmo. Acho que James Gunn tentou, mas não deu muito certo. O novo SUPERMAN parece mais um rascunho de um bom filme do que uma obra finalizada. A sensação é de que havia ali uma ideia promissora, mas ninguém se preocupou em revisar, lapidar, pensar melhor nas escolhas narrativas e o resultado é aquela impressão de que foi tudo jogado na tela, “ah, vai assim mesmo”. Muita gente tem saído satisfeita só por ver o herói de volta aos cinemas em uma versão que se esforça em ser mais leve. Fico feliz por quem gostou. Mas, no fundo, esse “gostável” também denuncia uma questão que me incomoda muito no cinema atual. Virou o padrão de Hollywood filmes que entregam o básico para agradar, sem arriscar de verdade ou construir algo memorável. Pelo menos essa é a minha impressão…

Mas, no meio disso tudo, quem realmente conquista é Krypto, o supercão. Ele aparece quase como um respiro, roubando a cena sempre que entra em quadro. Não à toa, saí com a sensação de que preferiria ver um longa só dele, provavelmente seria mais divertido.

THE FANTASTIC FOUR: FIRST STEPS (2025, Matt Shakman)

Mais um filme de herói. Esse melhorzinho… Mas é aquilo, o filme acaba, os créditos sobem e logo bate aquela constatação incômoda de algo totalmente descartável. Você assiste, consome, joga fora, e no dia seguinte já mal lembra de nada. Não deixa marca, não gera conversa, não gruda na memória. Sendo justo, enquanto está acontecendo na tela até dá pra se deixar levar. O visual retrô-futurista tem um charme especial e realmente encanta, trazendo uma identidade que ajuda a diferenciar um pouco do mar de produções genéricas da Marvel. Algumas sequências de aventura são bem construídas e, mesmo dentro da previsibilidade, conseguem divertir. Os personagens, pelo menos, têm um certo carisma, dá pra se preocupar com eles em alguns momentos, o que já é mais do que muita produção recente conseguiu entregar.

Só acho que não é nada de extraordinário, não é o evento que vai resgatar a Marvel do buraco criativo em que se enfiou. É, no máximo, um entretenimento simpático de Sessão da Tarde, que cumpre sua função na hora, mas que dificilmente vai ser lembrado como a grande salvação do estúdio.

SMILE 2 (2024, Parker Finn)

Falando agora de horror. SMILE 2 consegue elevar a proposta do primeiro filme a um novo patamar. Se antes o conceito da maldição já funcionava bem como premissa de horror psicológico, aqui Parker Finn expande a ideia de forma mais ousada, explorando não só o medo em si, mas também o que ele representa dentro de um contexto maior. Daí que um dos pontos mais interessantes é a decisão de levar a maldição para o universo de uma cantora pop, alguém constantemente sob os holofotes, mas carregando traumas e inseguranças pessoais. Essa escolha transforma a narrativa em algo que dialoga com o culto da celebridade e o peso sufocante de ser uma estrela em um mundo que exige perfeição e… Sorrisos. O horror, portanto, não está apenas nos sustos ou na entidade maligna, mas também na pressão de viver em função da imagem, da performance e da expectativa alheia.

Vale destacar ótima atuação de Naomi Scott, que consegue equilibrar vulnerabilidade e força de maneira convincente, conduzindo o espectador por essa espiral de terror íntimo e coletivo. O maior mérito, no entanto, tá na direção de Finn. Enquanto no primeiro SMILE ele ainda parecia preso a certos clichês do gênero, aqui mostra evolução, apostando em escolhas visuais mais ousadas pra construir momentos de tensão. Há estilo, personalidade, e isso faz toda diferença.

FINAL DESTINATION BLOODLINES (2025, Zach Lipovsky e Adam B. Stein)

Consegue ser uma variação divertida dentro do conceito que a franquia já estabeleceu há mais de duas décadas. A trama é direta ao ponto, sem enrolação, a duração curta ajuda bastante e, claro, as mortes continuam sendo o grande chamariz, inventivas, engraçadas e com aquele toque macabro que sempre garantiu a identidade da série. De quebra, ainda temos uma bela homenagem, talvez até uma despedida digna, a Tony Todd, um verdadeiro ícone do horror que marca presença em seus últimos momentos de tela. Só isso já acrescenta bastante peso emocional ao filme.

É claro que não está livre de problemas. O elenco, de maneira geral, não chega a impressionar, e a protagonista em especial é bem fraca. O personagem do tatuador, pelo menos, rende boas risadas. O filme não tenta reinventar nada, e nem precisa. Ele joga seguro, entrega exatamente o que os fãs da franquia esperam e aproveita o carinho que o público do gênero ainda tem por essa fórmula de horror e tragédia cômica. Pode não ser memorável, mas cumpre sua função: divertir e lembrar por que PREMONIÇÃO continua sendo uma das sagas mais queridas do horror pop.

MISSION IMPOSSIBLE – THE FINAL RECKONING (2025, Christopher McQuarrie)

Algumas coisas boas inevitavelmente chegam ao fim, e às vezes com uma certa melancolia. Eu lembro bem do Ronald de 12 anos, lá em 96 ou 97, completamente hipnotizado pelo primeiro MISSÃO: IMPOSSÍVEL. O filme juntava duas paixões que já me fascinavam: ação e Brian De Palma (sim, eu já sabia quem era o homem naquela idade). De lá pra cá, acompanhei cada novo capítulo com a mesma empolgação e continuo achando que essa é uma das melhores franquias de ação das últimas décadas. Agora, em 2025, chega provavelmente o último, e é estranho pensar em se despedir de algo que sempre esteve por perto.

E aqui surgem dois motivos pra melancolia. O primeiro é perceber que THE FINAL RECKONING representa também o fim de um certo tipo de blockbuster que Hollywood já não sabe mais fazer, salvo raras exceções. O segundo é notar que essa própria despedida não chega a ser grandiosa: embora termine com estilo e dignidade, o filme está distante dos melhores momentos da franquia. É um mastodonte de quase três horas, cheio de excessos, quando poderia ser algo mais enxuto e sublime.

Mas que fique claro, THE FINAL RECKONING está longe de ser ruim. Pelo contrário, se comparado ao que o cinema de ação americano tem produzido recentemente, é quase uma joia. No meio de tanta verborragia, de uma trama que se complica sem necessidade e de alguns tropeços de ritmo, o que realmente importa continua lá: as cenas de ação insanas e Tom Cruise. O sujeito é a alma da franquia. Impressiona não apenas por assumir acrobacias absurdas, mas por ter moldado a identidade de MISSÃO: IMPOSSÍVEL. Ele deu a Ethan Hunt uma mistura rara de intensidade física e vulnerabilidade emocional: não é só o herói invencível, é alguém que sofre, hesita, mas mergulha de cabeça (às vezes literalmente) nas situações mais impossíveis. E claro, tem a dedicação física que virou sua marca registrada. Cada novo filme passou a ser esperado não apenas pela trama, mas pela pergunta: “qual será a loucura que o Tom Cruise vai fazer agora?” Escalar o Burj Khalifa, segurar-se num avião decolando, pular de moto de um penhasco… tudo isso virou parte do mito.

Foi assim que ele transformou Missão: Impossível em um cinema de ação de altíssimo nível, capaz de abrigar diretores muito diferentes (De Palma, Woo, Abrams, Bird, McQuarrie) sem perder consistência. Sua obstinação, carisma e entrega física fizeram da série algo único no gênero. E em THE FINAL RECKONING isso continua presente. A sequência do mergulho no submarino, por exemplo, é absurda, uma das melhores de toda a franquia e uma das coisas mais tensas que vi recentemente. Por um momento, parecia um filme do Tony Scott. Sim, como último capítulo de uma série que eu acompanhei de perto, eu esperava algo mais cuidadoso. O clímax, por exemplo, é um espetáculo, mas quase repete o final de FALLOUT. Ainda assim, é um belo filme. Não dá pra exigir muito mais de Hollywood em 2025. O que entregaram já foi suficiente para fechar a franquia com dignidade. E, no meio disso tudo, Tom Cruise prova mais uma vez que é ele quem faz as coisas acontecerem e ainda nos presenteia com algumas das melhores sequências de ação recente. Isso, convenhamos, já é bastante coisa.

EDDINGTON (2025, Ari Aster)

Depois daquela coisa horrorosa chamada BEAU IS AFRAID, Ari Aster parece se reencontrar de alguma forma em EDDINGTON. Não é um filme perfeito, mas pelo menos é divertido de assistir. Há um prazer imediato em acompanhar o que acontece na tela, desde a construção do clima, algumas situações, até o banho de sangue que fecha a trama. Nesse sentido, a experiência de cinema é satisfatória, Aster mostra que ainda sabe orquestrar imagens e provocar reações no público. O problema é quando o filme tenta se levar mais a sério. EDDINGTON toca em temas importantes, ligados a um período histórico recente, mas nunca encontra a nuance necessária para realmente confrontá-los. A impressão é de que havia a intenção de criar um comentário mais profundo, mas isso não se traduz em algo consistente. O resultado é uma obra que, embora envolvente em sua superfície, não sustenta a própria ambição e auto-importância.

Quem ajuda bastante a manter o interesse é Joaquin Phoenix, mais uma vez impecável. Sua atuação é curiosa e dá densidade até às passagens mais arrastadas. Só que nem mesmo ele consegue salvar a sensação de que, no fim, estamos diante de um “grande nada” embalado em duas horas e meia. Os últimos 10 ou 15 minutos, em particular, estão entre as coisas mais desnecessárias do cinema recente, prova de que Aster realmente não sabe a hora de encerrar um filme. Talvez esse seja o maior problema de parte da geração atual de diretores autores, a falta de autocrítica. Existe uma ânsia desmedida de transformar cada ideia em tratados definitivos sobre tudo, como se a ambição artística fosse suficiente para sustentar a obra. EDDINGTON tinha potencial para ser uma obra-prima relevante, capaz de refletir seu tempo de forma contundente. Mas, ao não abraçar de verdade o que é, um western moderno, thriller político/policial com a pandemia e protestos pós-George Floyd como pano de fundo que descamba pra violência, pra um horror intenso, acaba preso na própria grandiloquência. Ainda assim, acho o saldo positivo. É um bom filme, só não entrega a grandeza que insiste em prometer.

F1 (2025, Joseph Kosinski)

As sequências de corrida de F1 são um espetáculo sensorial, com imersão rara, quase hipnótica. Só o design de som já é suficiente pra colocar a gente em transe. Houve momentos em que me arrependi de não ter visto no cinema, porque claramente esse é o tipo de experiência que ganha muito na tela grande. Mas esse arrependimento passa rápido quando penso no resto do filme que envolve essas cenas. Na primeira hora, até dá a impressão de que a coisa vai driblar alguns clichês. O personagem de Brad Pitt funciona bem como fio condutor e segura o interesse. Só que, com suas duas horas e meia, o roteiro não demora a cair na previsibilidade e na mesmice de sempre. A narrativa perde fôlego, convida ao sono… E aí só mesmo as corridas conseguem despertar de novo a atenção.

Ainda assim, é preciso elogiar Joseph Kosinski. Se no drama ele não escapa do lugar-comum, no quesito ação vem mostrando evolução. Ele sabe mexer com a adrenalina do público, e é nisso que F1 encontra sua força. Um filme decente, que entrega bons momentos. Mas nunca, jamais, será um DIAS DE TROVÃO.

BALLERINA (2025, Len Wiseman)

Esse me surpreendeu. Confesso que estava com o pé atrás e enrolei bastante pra assistir. Com tantos atrasos no lançamento e a notícia de refilmagens comandadas por Chad Stahelski (diretor dos JOHN WICK), achei que seria só mais uma decepção. Mas, no fim, não foi. A trama pode soar genérica, e definitivamente não carrega o peso filosófico dos filmes da série principal. Ainda assim, há pontos interessantes. Ana de Armas tem uma presença física marcante, mesmo que o roteiro não lhe ofereça grandes oportunidades de aprofundar a personagem. Como a narrativa é mais direta, praticamente costurando um set piece de ação ao outro dentro de uma história simples de vingança, ela acaba funcionando como uma versão feminina do Wick: não tão complexa, mas igualmente sombria, atormentada e com um toque de fragilidade que cai muito bem.

E falando em ação, que é o que realmente importa aqui, algumas sequências estão no mesmo nível da franquia principal, o que já é muita coisa, considerando que JOHN WICK é uma das melhores séries de ação do século. Por aqui a ação é farta e de qualidade. Destaco a cena explosiva na loja de armas, o embate no restaurante do vilarejo (com direito a Ana enfrentando Daniel Bernhardt) e, claro, o insano duelo com o lança-chamas no clímax, que consegue ser tão absurdo quanto visualmente belo. Deus abençoe Stahelski por ter consertado as cagadas deixadas por Len Wiseman. Mas fica a dica, Chad, da próxima vez, entrega o projeto pra um cineasta de verdade e poupa o trabalho de refilmar tudo. Sugestões não faltam: Gareth Evans, Timo Tjahjanto, Kensuke Sonomura, Veronica Ngô…

Quanto ao Keanu Reeves e à participação do próprio John Wick, honestamente, não acho que fosse necessária. Mas já que está lá, acaba elevando alguns momentos a outro patamar.

Pra uma produção que enfrentou tantos problemas nos bastidores, BALLERINA é bem sólido e bem acima do esperado.

THE SHROUDS (2024, David Cronenberg)

“Her body was… The world. The meaning and the purpose of the world”

O que ainda me atrai no cinema de Cronenberg é esse universo tão particular que parece inesgotável. São mais de 50 anos trabalhando os mesmos temas – corpo, tecnologia, paranoia, desejo – e, mesmo assim, a cada novo filme ele encontra formas de se renovar. Aqui, ele transforma o luto em espetáculo tecnológico. Vincent Cassel vive Karsh, um empresário que cria a GraveTech, um sistema que permite às famílias monitorarem a decomposição dos corpos de seus entes queridos dentro dos túmulos. Quando um desses cemitérios é violado, Karsh mergulha em uma investigação paranoica que logo esbarra em conspirações. É o terreno perfeito para Cronenberg levar sua obsessão pelo corpo a outro nível.

Dá pra reclamar que o filme se entrega demais a explicações, diluindo parte do mistério e da ambiguidade, elementos que sempre fizeram parte do charme da sua filmografia. Mas, honestamente, estamos falando de um diretor com mais de 80 anos, em fim de carreira, que não precisa provar mais nada pra ninguém. Então ele já começa a abrir as pernas pro Saïd Ben Saïd pra poder continuar tendo financiamento. Não é o melhor dos mundos, mas é o que tem pra hoje. E ainda assim, não deixa de ser hipnotizante de alguma forma, o modo que Cronenberg conduz as coisas sempre me fascina.

A TRILOGIA EUROSPY DE SERGIO SOLLIMA

Antes de se tornar um dos grandes nomes do spaghetti western, e do cinema popular italiano, Sergio Sollima passou pelo terreno cinematográfico do eurospy. Inspirados diretamente pelo sucesso global de James Bond, esses longas misturavam espionagem internacional, ação estilizada, locações exóticas e um charme um pouco mais discreto do que Hollywood fazia na época.

Em dois anos, 1965 e 1966, Sollima dirigiu três aventuras que hoje funcionam como cápsulas do tempo, um retrato do otimismo tecnológico, das tensões da Guerra Fria e da estética pop dos anos 60. Como ando peregrinando pela filmografia do diretor, revisito aqui esses primeiros trabalhos e que, embora nenhum deles seja exatamente grandes filmes, destaco como já anunciavam a mão firme de um cineasta que, em breve, trocaria agentes secretos por pistoleiros.

Agente 3S3: Passaporto per l’inferno, 1965

A estreia de Sergio Sollima na direção de longas-metragens veio nesse exemplar modesto do filão eurospy que, apesar das limitações, já deixava entrever alguns traços que definiriam sua carreira. Um filme que abraça as convenções do gênero, com seus agentes secretos implacáveis, vilões de sotaque indefinido, locações internacionais, com o diretor começando a mostrar certo domínio visual. A trama é genérica, o Agente 3S3 (George Ardisson) precisa enfrentar uma organização misteriosa com planos de dominação global, nem que para isso tenha que seduzir uma jovem cujo pai possui envolvimento com a organização. Por vezes, o filme sofre de um ritmo irregular, mas Sollima compensa com um certo refinamento e um gosto claro por ambientações exóticas, explorando bem cenários como Beirute e o Mediterrâneo. Ardisson, embora fisicamente adequado ao papel, carece do carisma necessário para sustentar um herói de espionagem por conta própria, especialmente num gênero que vivia à sombra de Sean Connery.

Entre os momentos que se destacam, há algumas sequência de luta que demonstra, mesmo com recursos limitados, que Sollima já tinha noção de como coreografar movimento e espaço, habilidade que mais tarde brilharia em seus faroestes políticos e polizieschi. Longe da complexidade temática de seus futuros spaghetti westerns, PASSAPORTO PER L’INFERNO é um debut que cumpre sua função, inaugura uma filmografia, revela um olhar atento para a encenação e deixa claro que Sollima, mesmo preso a uma fórmula, estava disposto a procurar brechas para imprimir estilo.

Agente 3S3, massacro al sole, 1966

No segundo capítulo da série 3S3, e também o segundo longa da carreira de Sollima, o diretor continua jogando de acordo com o manual do eurospy sessentista, mas já demonstra um controle mais seguro sobre ritmo, encenação e, sobretudo, ação. O filme é mais colorido, mais exótico e mais delirante do que o anterior. Combinação que rende um filme também mais divertido e mais abertamente sexy. George Ardisson, novamente no papel do agente 3S3, parece ter relaxado, ou, pelo menos, entendido melhor o tom que o gênero exige. Ao seu redor, Sollima reúne um elenco robusto do cinema popular italiano: Frank Wolff, sempre magnético; Fernando Sancho, trazendo aquele carisma de bandido folclórico; Eduardo Fajardo, especialista em vilões calculistas; e até um ainda desconhecido Romano Puppo, surgindo discretamente em uma pequena participação.

O filme se beneficia de locações ensolaradas e boas sequências de ação. Sollima filma tudo com um senso de espaço mais claro do que no primeiro longa, permitindo que a ação respire e que o espectador acompanhe cada deslocamento. Mais do que uma continuação, MASSACRO AL SOLE funciona como um exercício de estilo, um aquecimento curioso para a guinada política e dramática que viria a definir sua fase mais celebrada nos spaghetti westerns.

Requiem per un agente segreto, 1966

Entre os três eurospy que marcaram o início da carreira de Sergio Sollima, este é o que mais gosto. Mais elegante e, ao mesmo tempo, mais sombrio, o filme se afasta da imagem reluzente do espião perfeito e aposta num tom amargo, quase um 007 às avessas. Aqui, o protagonista, vivido com autoridade por Stewart Granger, é um agente cínico, frio e pragmático, que não hesita em recorrer a métodos nada ortodoxos: tortura, assassinato e até violência contra mulheres se tornam ferramentas de trabalho na busca por resultados. O contraponto a essa figura é o agente norueguês Olafsson, interpretado por Giulio Bosetti, cuja ética e idealismo frequentemente colidem com o pragmatismo brutal do colega. Essa parceria tensa, metade colaboração, metade duelo moral, é o coração do filme. De um lado, a eficácia sem escrúpulos; do outro, a hesitação de quem ainda acredita em princípios.

Sollima, já mais seguro (o segundo filme da série já indicava essa evolução), aproveita bem as possibilidades do gênero: belas locações que transportam o espectador de um continente a outro, vilões caricatos que parecem saídos de páginas de quadrinhos, mulheres fatais que jogam com sedução e perigo, e um leque de situações absurdas que são a alma da espionagem cinematográfica dos anos 60. Mas o que ele acrescenta aqui é um humor mordaz e um retrato desencantado da moral em plena Guerra Fria, um lembrete de que, nos bastidores das missões, a linha entre herói e vilão é muito mais tênue do que os padrões do gênero sugere. Só pelo duelo de interpretações entre Granger e Bosetti, o filme já se coloca alguns degraus acima dos dois trabalhos iniciais de Sollima. Mas é o equilíbrio entre espetáculo, cinismo e ironia que o transforma no ponto alto da sua fase eurospy.

ROLLING THUNDER (1977)

Uma das primeiras lembranças que tenho de ROLLING THUNDER, e que já causaram um impacto imediato, não foi nem do filme em si. Foram as imagens que encontrei pela internet ao tomar conhecimento da existência dessa obra. Não lembro exatamente como isso aconteceu, mas me recordo nitidamente do que vi: esse sujeito com um gancho no lugar da mão, manuseando munição, preparando seu revólver. Era o tipo de imagem que dispensa legenda, contexto ou convencimento. Bastou isso. Eu soube, ali mesmo, naquele instante, que assistir a ROLLING THUNDER seria uma obrigação cinéfila.

Isso foi por volta de 2008. Eu já tinha o blog e cheguei até a escrever algumas linhas sobre minha primeira experiência com o filme. Naquela época, ROLLING THUNDER já havia sido redescoberto, em parte graças ao entusiasmo de Quentin Tarantino, mas também, e talvez principalmente, pela morte do diretor John Flynn, em 2007. Ao longo dos anos, voltei a ele algumas vezes, e recentemente fiz uma maratona completa da filmografia do Flynn. Hoje, é um daqueles filmes que fazem parte do meu imaginário pessoal de filmes favoritos, cuja grandeza só se torna mais evidente a cada revisão. É por isso que rever importa, para nunca esquecer exatamente por que amamos certos filmes. E ROLLING THUNDER ainda tem um sabor especial, o fato de ter sido injustamente esquecido logo após seu lançamento. Mesmo com sua redescoberta, ainda me pergunto se foi realmente visto pelos cinéfilos que se dispõem a olhar além dos lançamentos do momento. Fica aqui o lembrete, e a recomendação.

ROLLING THUNDER é um daqueles filmes emblemáticos da metade dos anos 70 que, direta ou indiretamente, encaram as cicatrizes deixadas pela Guerra do Vietnã. Está na mesma linhagem de obras como TAXI DRIVER (com o qual mantém uma conexão profunda), O FRANCO ATIRADOR, AMARGO REGRESSO e tantos outros títulos que traduzem, em diferentes tons, a ressaca moral e emocional de um país em frangalhos pós-Vietnã. Com roteiro originalmente escrito por Paul Schrader, depois bastante alterado e, em muitos aspectos, aprimorado por Heywood Gould, o filme caminha entre dois registros distintos: de um lado, um thriller seco, brutal, impregnado de vingança; do outro, um retrato melancólico de um tempo em que os Estados Unidos pareciam afundar num caos interior, tanto individual quanto coletivo.

A trama começa com um clima de falso otimismo. Ex-prisioneiros de guerra voltando para casa ao som de uma música sentimental. Entre eles, estão Charles Rane (William Devane) e Johnny Vohden (Tommy Lee Jones). Rane é o nosso protagonista, e logo se percebe que, por trás dos óculos escuros e da fachada de herói condecorado, há algo quebrado nele. O retorno ao lar é desconfortável, seu filho não o reconhece, e a esposa… Bom, vamos dizer que ela não esperou fielmente por ele. Um tal de Cliff (Lawrason Driscoll), que trabalha no departamento de polícia local, aparece para dar carona à família e, quando ela diz “Você se lembra do Cliff?”, o espectador já entende a situação.

A casa foi mantida exatamente como ele deixou, numa tentativa de facilitar sua readaptação. Mas o que era pra ser um gesto afetuoso acaba expondo o absurdo de tentar recriar uma realidade que já não existe mais. As coisas só pioram quando sua esposa confessa que está com Cliff e quer o divórcio. A atuação de Devane é um testemunho do talento desse ator subestimado: a confissão não provoca gritos nem desespero, apenas o silêncio e a frieza de Rane. Ele toma um gole de cerveja e diz que aquilo foi “um pouco demais” para ele.

Em outro momento, numa cena tensa e perturbadora, Cliff aparece na garagem para “conversar como homens civilizados” e até lhe oferece uma cerveja. Em vez de reagir com ódio, Rane deixa visivelmente desconfortável, não menciona a traição e em vez disso, fala sobre uma tortura específica que sofreu em Hanói. Ele entrega uma corda a Cliff e pede que a amarre em seus pulsos, atrás das costas. Rane então instrui: “puxe até ouvir os ossos estalarem.” Cliff puxa a corda, Rane revive Hanói em flashbacks. Cliff começa a suar, e Rane grita para que ele puxe mais. Cliff não aguenta e solta a corda. Rane diz que o segredo para suportar a tortura é aprender a “amar” a corda. As questões de Cliff em relação a situação deles, para Rane, é irrelevante.

A virada da trama acontece quando Devane recebe uma homenagem de uma loja local, um dólar de prata por cada dia que passou como prisioneiro, totalizando cerca de 2.500 dólares. É aí que um grupo de criminosos ineptos decide invadir sua casa para roubar o valor. A execução do plano é tão desastrosa quanto a ideia inicial: cinco homens para roubar uma quantia que mal rende 500 dólares para cada um… E para conseguir esse dinheiro, decidem torturar justamente um veterano resistente a torturas, que passou anos sofrendo nas mãos de vietcongs. A consequência é trágica, eles matam sua esposa e filho e ainda mutilam sua mão com um triturador de pia.

No hospital, a mão de Rane é substituída pelo tal gancho que ele afia até se tornar uma arma mortal. O mesmo gancho que me deixou hipnotizado antes mesmo de eu assistir ao filme.

Recuperado fisicamente, mas quebrado emocionalmente, o protagonista inicia uma caçada silenciosa aos responsáveis pelo massacre de sua família. Com todo o seu foco voltado para isso, ele traça um caminho brutal pelo Texas ao México, e o filme nos leva mais fundo na mente de Rane, agora completamente obcecado, deixando buracos de gancho nas mãos e outras partes mais íntimas de qualquer um que se coloca em seu caminho.

Rane conta com aliados nessa jornada, como uma mulher local chamada Linda Forchet (Linda Haynes), que se vê como uma espécie de fã de Rane. Aparentemente, a cidade tinha um programa onde mulheres locais usavam um broche de soldados que estavam no exterior; Linda usou o de Rane durante todo o tempo em que ele esteve no Vietnã. É uma personagem interessante que merece destaque. Carrega, ao mesmo tempo, a doçura da empatia e a melancolia da solidão. Ao se aproximar de Rane, um herói torturado que ela admira de longe desde os tempos de guerra, Linda busca pertencer a algo maior, talvez até resgatar a si mesma através da devoção a alguém mais ferido do que ela. Seu desejo de conexão se confunde com uma atração por essa dor masculina mal resolvida, típica da América pós-Vietnã. Ainda assim, ela nunca parece ingênua, mas compreende o abismo emocional de Rane, e mesmo sem saber exatamente como alcançá-lo, tenta ficar ao seu lado, como quem escolhe acompanhar um homem prestes a desaparecer de vez dentro de si.

Além de Linda, temos o já citado amigo vivido por Tommy Lee Jones, Sargento Johnny Vohden, que esteve no mesmo campo de prisioneiros que Rane. Em determinado momento, o protagonista vai até Vohden e diz que encontrou os culpados pelas mortes da esposa e filho. O diálogo minimalista entre eles revela a conexão entre dois veteranos destruídos por dentro. Palavras secas que ecoam o conceito central de Schrader/Gould: o cinema pode (e deve) ter um efeito transcendental, tanto sobre os personagens quanto sobre o espectador. Não se trata de encher cenas com palavras, mas de deixar que olhares, gestos e silêncios falem por si. Esse estilo de diálogo minimalista em ROLLING THUNDER é potente, ainda que imbuído de masculinidade estoica:

“Achei eles,” diz Rane.
“Quem?”, pergunta Vohden.
“Os caras que mataram meu filho.”
“Vou pegar meu equipamento.”

De certo modo, ROLLING THUNDER pode ser visto como o primo bastardo de Taxi Driver. Como o roteiro foi amplamente reescrito, Paul Schrader acabou reaproveitando muitas ideias daqui no filme de Scorsese. Mas enquanto a psicose crescente de Travis Bickle (Robert De Niro) em TAXI DRIVER é difícil de decifrar, a descida do Major Rane à loucura é mais direta e visível. Sabemos que Rane está quebrado por dentro após anos de tortura como prisioneiro no Vietnã, e que, ao retornar, encontra uma vida civil à qual já não consegue mais pertencer. Até que a violência invade sua casa e o empurra para uma jornada de vingança. Com Travis, nunca temos clareza sobre o que, de fato, o consome, o que torna sua espiral ainda mais inquietante. Já ROLLING THUNDER carrega uma objetividade crua e urgente, talvez por ter sido feito para o circuito de drive-ins, um público marginal que, para o bem ou para o mal, espera sua dose explícita de loucura junto à violência. Em outras palavras, tem que fazer sentido, ou parecer que faz. Sutileza, nesse contexto, não costuma sobreviver a um engradado de cerveja barata.

No entanto, apesar de um filme é simples na forma, mais direto, não deixa também de ser profundamente denso em subtexto. Flynn filma essa descida ao inferno fazendo um retrato sombrio da América, onde a violência parece ser a única solução pra tudo. É uma das obras mais contundentes já feitas sobre o trauma pós-guerra, e talvez o melhor exemplar do tema dentro do cinema americano. Há uma tensão constante nas entrelinhas, personagens que expressam mais o silêncio do que nos diálogos, e uma sensação de desespero contido. Schrader teria dito que em seu roteiro original não havia esposa nem filho, o protagonista era apenas um homem desfeito pela guerra. Ele considerou que a família foi uma adição “comercial”, mas ironicamente são esses vínculos criados no roteiro de Gould que tornam a dor ainda mais palpável e crível, refletindo os dramas reais de muitos ex-combatentes.

Em certo ponto, o filme entra no território de Peckinpah ao levar Rane e Vohden a uma cidade de fronteira com o México cheia de néon, prostitutas e decadência. Cães do inferno caçando os assassinos da mulher e filho de Rane. Os bares estão repletos de gringos bêbados e tipos sujos, evocando os prostíbulos poeirentos e decadentes de TRAGAM-ME ALFREDO GARCIA. A catarse da violência em Flynn tem um tom quase operístico, embora mais direto que o balé sangrento dos filmes de Peckinpah ou o pesadelo alucinado do tiroteio final de TAXI DRIVER. Mas isso não torna o clímax explosivo de ROLLING THUNDER menos impactante. O tiroteiro final que Flynn filma é objetivo, austero, mas que se torna um estudo de ultra violência, onde o peso de cada tiro, cada bucho levando chumbo grosso, deixa um gosto amargo. Apesar de extremamente satisfatório.

Acho que a força de ROLLING THUNDER, especialmente no clímax, é melhor resumida por uma troca de palavras entre uma prostituta mexicana e Vohden. Enquanto ela tira a roupa, ele se prepara num quarto imundo para o massacre planejado por Rane. Ela pergunta:

“Que porra você tá fazendo?”
“Vou matar um monte de gente,” responde Vohden, encaixando a espingarda com um estalo seco.

Flynn desenvolve o filme em um ritmo lento e metódico, com cada camada de violência sendo introduzida à conta gotas na vida de Rane, tudo antes do grande evento em que sua esposa e filho são mortos, roubando-lhe qualquer chance de recomeço. Ele perdeu sua família para a guerra, perdeu anos de vida para a guerra, agora retorna carregando cicatrizes psicológicas e físicas imensas, apenas para encontrar um mundo que ainda não terminou de chutá-lo, jogando-o ao chão mais uma vez e deixando este homem sem alma sem qualquer luz orientadora restante, exceto a violência.

E há uma frieza na violência de ROLLING THUNDER. Por mais empolgante que seja, e a entrega de Tommy Lee Jones nessas falas citadas é eletrizante em um sentido animalesco e masculinamente bruto, o filme exemplifica como esses homens foram moldados como assassinos puros. São como armas que falam, quase incapazes de verbalizar qualquer coisa em suas vidas diárias, enxergando apenas missões, combates e lealdade entre irmãos de armas.

À medida que Rane enfrenta seus próprios problemas, sua comunicação com Johnny revela que o amigo passou por muito do mesmo, com dificuldades para se readaptar e um comportamento frio e distante que só piora a situação. Quando Rane vai até a casa de Johnny para pedir ajuda em sua vingança, tudo o que consegue dizer à família de Johnny é uma mentira sobre aonde estão indo e uma despedida ao pai de Johnny, ambos entregues de forma fria e trajando o uniforme do Exército. Esses homens não tiveram sequer tempo para se “desligar” por anos, sempre usando o uniforme, literal ou figurativamente, e, quando finalmente têm a chance de vestir novamente para lutar, é impossível resistir. Se algum dia deixaram de ser assassinos, agora têm a chance de voltar a ser.

Mas, no mundo de ROLLING THUNDER, esses homens apenas removem suas máscaras de “homens de família ajustados” para revelarem novamente suas verdadeiras naturezas. Seu país e seus inimigos os transformaram nisso; agora, eles canalizam seu treinamento a serviço de uma vingança justa contra um inimigo cruel e indiferente. É frio e brutal, mas ao mesmo tempo empolgante e eletrizante, com cada ato de violência no filme trazendo um peso a mais que realmente impacta. Estes são os homens que o mundo violento criou. Estes são os homens que foram devolvidos à sociedade e mandados agir “normalmente” enquanto suas mentes ainda estão em chamas.

No Brasil, foi lançado como A OUTRA FACE DA VIOLÊNCIA.

MILANO ODIA: LA POLIZIA NON PUÒ SPARARE (1974)

As tendências do cinema na Itália do início dos anos 70 acabaram levando o diretor Umberto Lenzi a experimentar o Euro Crime, ou o Polizieschi, que é o cinema policial italiano, deixando de lado os outrora bem-sucedidos giallo e os outros dos mais variados gêneros que Lenzi trabalhou desde o início dos anos 60.

E vale ressaltar o termo polizieschi, porque se forem procurar na internet e outras fontes sobre o gênero, vão se deparar com um vasto material usando o termo poliziotteschi. E que na verdade é uma designação imprópria. Os diretores detestam essa alcunha, o próprio Enzo G. Castellari me disse quando estive com ele no Fundão, em Portugal, que é uma denominação ridícula. E há essa entrevista com o Lenzi que ele comenta sobre o assunto:

Não me faça muitas perguntas. Leva dois dias pra falar sobre todos os meus filmes. Vamos fazer algo curto, dos anos setenta em diante.

Ah, ok… O que mais me interessaria seria falar sobre seus filmes de ação, os poliziotteschi.
Filme policial, basta. Poliziotteschi é uma estupidez inventada pelos críticos. É uma palavra que nem sequer existe.

Sendo assim, voltemos nossas atenções ao poliziesco MILANO ODIA: LA POLIZIA NON PUÒ SPARARE. A incursão de Lenzi nesse universo do cinema policial começa com MILANO ROVENTE (1973), que foi considerado uma estreia imperfeita, mas aceitável no novo gênero. Eu nunca assisti. Então Lenzi procurou o consagrado roteirista Ernesto Gastaldi, que elaborou uma história simples, mas altamente eficaz, para sua segunda investida no gênero, que foi este filme aqui.

A trama de MILANO ODIA gira em torno de um criminoso de baixo escalão com delírios de grandeza e um plano de sequestro envolvendo uma herdeira rica. O único problema é que ele é um maluco instável, viciado em pílulas, com transtorno de personalidade e um tique facial crônico. Assumindo com gosto o papel desse sociopata que se chama Giulio Sacchi, está o ator cubano Tomas Milian, cujo histórico de papéis em spaghetti western havia secado no início da década, talvez um dos motivos pelos quais ele aceitou um personagem que muitos outros protagonistas recusariam por medo de manchar a própria imagem. Defendendo a necessidade de dar realismo ao papel, Milian, fiel à sua formação em atuação de método, chegava a se embriagar nas filmagens quando julgava necessário. O resultado da sua atuação é um troço absurdo.

Do outro lado temos Walter Grandi, aquele tipo de policial que é a face da lei em um mundo já deformado. Interpretado com frieza impenetrável por Henry Silva, seu personagem opera pelo desencanto e o niilismo do policial italiano do que como símbolo de justiça. Se Miliam como Sacchi é a personificação do caos e da pulsão assassina, Silva faz de Grandi um homem que, embora nominalmente “do lado certo”, não representa exatamente um polo oposto, apenas outro tipo de violência, mais contida, mas não menos implacável.

Grandi não é um herói clássico. Ele é seco, pragmático, movido por uma raiva silenciosa que o aproxima perigosamente do criminoso que persegue. Sua rigidez moral não impede que atue fora dos protocolos, nem que se envolva em ações que beiram o vigilantismo. E é justamente essa ambiguidade que faz dele uma figura fascinante: ele não se opõe a Giulio Sacchi em termos éticos, mas sim como força que precisa restabelecer um mínimo de ordem em meio à anarquia. Grandi é a lei sem redenção, e MILANO ODIA o usa para reforçar uma visão desencantada das instituições. Quando o criminoso é um animal fora de controle, o policial precisa agir como predador.

O confronto entre os dois personagens, Sacchi e Grandi, não é só narrativo, mas também simbólico: são dois lados de uma mesma moeda, onde o verniz de civilidade é cada vez mais tênue. No final, o que resta em Grandi é o gesto solitário de quem sabe que venceu, mas sem nenhuma glória. Só acho uma pena o personagem do Henry Silva ser tão passivo na maior parte do tempo, Lenzi aproveita mal sua presença aqui, e o personagem só entra de fato mesmo na trama lá pelas tantas.

Mas nada que atrapalhe a experiência. Na seara dos polizieschi, é bem provável que seja o melhor trabalho de Lenzi no gênero. MILANO ODIA faz jus à sua reputação: há uma perseguição de carros a toda velocidade no início que é ao mesmo tempo grosseira e belo; tiroteios de metralhadora, mulheres nuas e momentos realmente perturbadores (como a sequência que o trio liderado por Sacchi invade o casarão burgês e um refém sendo forçado, sob a mira de uma arma, a realizar sexo oral em Sacchi, por exemplo).

A combinação explosiva de Lenzi e Milian fora de controle criou um verdadeiro clássico do Poliziesco. O realismo maníaco da performance de Milian, aliado à violência crua e direta de Lenzi, resultam em um filme essencial, especialmente para quem estaria começando a explorar o gênero. É evidente que há um certo exagero injustificado no manejo de Lenzi em conduzir as coisas, principalmente o uso da violência, que afasta um determinado público. E até consigo perceber. MILANO ODIA se torna um exploitation dos mais vagabundos, apelativos e picaretas em alguns momentos, como a já citada sequência no casarão burguês. Mas ao mesmo tempo, é um filme tão agressivo, safado, baixo, torpe, que a coisa dá a volta e acaba me gerando certo fascínio.

É um filme sujo, raivoso e sem freio, mais uma vez reforço a presença de um Milian insano, que parece não distinguir o bem e o mal, e o pratica só pelo prazer do caos. Cuja crueldade gratuita revela um mundo sem ordem ou valores, onde o mal já não precisa de justificativa. O que resulta num exemplar que é uma avalanche de violência, sadismo e um certo niilismo, onde a polícia não não consegue fazer nada e a cidade virou um campo de guerra. No dia em que eu falar que isso aqui não é um filmaço, podem me internar.

Também conta com uma das trilhas mais marcantes de Ennio Morricone para o gênero. Fora dos faroestes que o consagraram, MILANO ODIA se destaca como uma de suas melhores composições (ao lado de REVOLVER, de Sergio Sollima), e sua música aumenta a tensão e se encaixa perfeitamente ao clima do filme.

Pra finalizar este post, mais um trecho da entrevista com o Lenzi, que resume bem tanto a agressividade de MILANO ODIA quanto da própria personalidade desse grande diretor do cinema popular italiano.

Era baseado em fatos reais?
Era baseado na violência que havia em nossas cidades nos anos 70, quando você podia assaltar um banco e a polícia não tinha meios de reação. Tudo era possível. Você podia fazer o que quisesse. Alguém podia simplesmente entrar num banco vestindo terno e com uma metralhadora por baixo. Essa situação não existe mais. Hoje há seguranças armados na porta. Os bancos não eram adequadamente protegidos como são agora. Além disso, os gângsteres de Marselha importaram um sistema de sequestro de reféns para facilitar a fuga.

Seus filmes são bastante violentos. Em Milano Odia, por exemplo, há uma cena…
[Sarcasmo:] Sim, é o filme mais violento da história do cinema italiano. E daí? Vamos falar de outro filme.

Mas… tipo, o personagem principal…
Ele é louco. É um paranoico. Mata muita gente porque não entende a diferença entre o bem e o mal. Mas o filme foi um sucesso extraordinário nos cinemas. Todo mundo sabe que é o filme mais violento de todos.

Qual foi o segredo do sucesso?
Não sei. Não sei. O fato de você ter um personagem forte em um filme mais ou menos violento. Esse personagem, o protagonista, é forte. É isso que o público que ia ao cinema queria ver.

Foi lançado em DVD na caixa Euro Crime Volume 1, com o título QUASE HUMANO.

A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 1987)

Nos anos 70 uma figura insuspeita emergiu no cenário da literatura, o escritor Joseph Wambaugh, que era um policial do Departamento de Polícia de Los Angeles, e cujos romances logo se tornaram best-sellers. Apesar do rápido reconhecimento, ele não abandonou de imediato o distintivo e permaneceu ainda algum tempo na força, como se relutasse em soltar de vez a arma para bater à máquina de escrever. Algumas de suas obras de ficção e não-ficção policial foram adaptadas para o cinema, como a obra-prima OS NOVOS CENTURIÕES (The New Centurions, 1972), de Richard Fleischer, THE CHOIRBOYS (1977), de Robert Aldrich e ASSASSINATO A SANGUE FRIO (The Onion Field, 1979), de Harold Becker. Agora, um dos aspectos mais interessantes desse fato de Wambaugh ser um autor-policial, ou seja, sua relação criativamente simbiótica com a criminalidade que o inspirava, é que poderia por si mesmo se tornar uma fonte de exploração.

Foi justamente isso que o Larry Cohen fez quando escreveu o roteiro de A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 1987). Sem adaptar diretamente livros de Wambaugh, o sujeito se inspirou na sua persona e numa história da criação de um livro que atravessa o vínculo paradoxal entre dois adversários e nos compromissos morais que isso acarreta. Um filme que confronta diretamente o que há de mais fascinante na relação entre policial e criminoso, a ideia de policial e assassino como dois lados da mesma moeda, o que não é exatamente algo original. Mas o que torna A MARCA DA CORRUPÇÃO um filme singular nesse sentido é a forma como ele articula esses elementos que fazem essa fusão funcionar na literatura e no cinema policial.

Belíssimo roteiro de Larry Cohen, diga-se de passagem, um dos melhores que já escreveu, dá até pena dele não ter também se colocado como diretor, teria feito um baita trabalho, como lhe é comum. Dos melhores diretores americanos da sua geração, como ressaltei no post anterior. No entando, como é o John Flynn no comando, não tenho nada do que reclamar. E sim, eu sei que o próprio Flynn retrabalhou o roteiro às suas sensibilidades, mas isso não importa. Dois mestres trabalhando juntos só poderia resultar num filmaço, independente quem fosse o diretor aqui.

Então temos em A MARCA DA CORRUPÇÃO esse policial escritor chamado Dennis Meechum (Brian Dennehy) sendo atraído por um assassino de aluguel (James Woods) que deseja a publicação de um livro expondo seus antigos patrões. Larry Cohen puro. Quase uma meditação sobre as instituições corrompidas, o indivíduo como peça descartável no grande tabuleiro corporativo. Mas a ideia de simbiose é central em A MARCA DA CORRUPÇÃO, já que boa parte do filme gira em torno do tempo que Woods leva para convencer Dennehy de sua legitimidade. Isso não acontece porque Meechum realmente duvide, mas porque ele precisa de tempo para validar internamente o vínculo mal admitido que sente com o homem que afirma desprezar.

Suas dúvidas sobre a credibilidade de Woods lhe dão o tempo necessário para conciliar esse crescente sentimento de dependência empática. Para isso, ele precisa pôr de lado sua moralidade e é essa renúncia que o atormenta. Já Woods está além dessas questões morais. Apesar de querer contar todos os podres e ferrar com os antigos patrões, ele claramente se delicia com a ideia de expor o abismo moral por trás da ética corporativa, e assim se vingar por terem lhe descartado. Como Dennehy, ele sente que perdeu seu propósito e quer recuperá-lo e essa é a ligação em comum que os dois compartilham e superam na dependência emocional crescente entre si. Woods quer ser visto como alguém simpático, e embora Dennehy despreze os crimes corporativos, o que mais o incomoda é a ideia de Woods ser heróico de alguma forma.

O filme é bastante hábil nessas caracterizações complexas, e há uma energia perturbadora entre os dois atores. Há um charme dissimulado na arrogância de Woods, ao qual Dennehy também reage. Sintomaticamente, Woods diz que Dennehy gosta dele “apesar de si mesmo”, uma percepção que persegue Dennehy ao longo do filme à medida que o desprezo inicial vira vínculo relutante e depois respeito. Chega num ponto que o personagem de Dennehy vai na casa dos pais de Woods para conhecê-los, ver álbuns de fotos.

Parte do prazer em A MARCA DA CORRUPÇÃO está em acompanhar o dilema de Dennehy, como tornar Woods simpático no livro em que fez o acordo de escrever e, ao mesmo tempo, manter sua paz interior. Apesar de Woods ser claramente um personagem moralmente desprezível e sexualmente perverso – a cena em que ele assassina um sujeito numa cabine de fotos além de acentuar toda a sua perversidade, é dessas dignas de antologia do cinema de ação policial oitentista, desses momentos que comprova a genialidade de John Flynn como diretor – ele é humanizado ao longo do filme, que se transforma num estudo prolongado do processo da empatia e como ela pode suplantar qualquer código moral ou social.

A empatia pode ser um impulso humano natural, mas o filme a retrata como algo ambiguamente desviante. Dennehy percebe isso e tenta constantemente se agarrar às diferenças entre eles, como policial e assassino. Enquanto Woods tenta apagar essa linha. E o filme faz com que o espectador compartilhe dessas emoções ambíguas. Essa autorreflexão sobre narrativas, jogos de poder, personagem e empatia é o que realmente diferencia Best Seller. Mas também tem John Flynn inspirado na condução de tudo, sempre econômico, com sua precisão característica. E embora o filme tenha essas camadas mais complexas, como quase todo filme que Larry Cohen esteja envolvido, Flynn ainda arruma tempo pra filmar alguns dos tiroteios mais elegantes dos anos 80, secos e sem muito glamour. Só com a noção espacial, composições, ritmo. Mestre supremo da ação.

Este texto é uma homenagem ao grande João Palhares, do blog Cine Resort. Um dos maiores admiradores de A MARCA DA CORRUPÇÃO que se tem notícia.

ALDRICH – PARTE 4: 1967– 1970

OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen, 1967)
Foi bom rever depois de tantos anos, sobretudo nesse contexto de maratona do Aldrich. Não é a obra-prima que eu lembrava, é um filme bem falho – em ritmo, tom em alguns momentos, decupagem – mas não dá pra deixar de citá-lo como o filme por excelência do subgênero Men on a Mission na Segunda Guerra, com seu elenco de machões fodões dos anos 60, que obviamente tem seu valor como entretenimento. E até por isso é bem provável que os críticos americanos na época não tenham entendido muito a abordagem de Aldrich e rotularam o filme como fascista, excessivamente violento, cínico. Ao contrário de ATTACK!, que é mais austero, OS DOZE CONDENADOS nunca esconde seu status de entretenimento espetacular.

Mas há muito a se pensar aqui, o filme apresenta a ideia de que a guerra não é nobre, é suja. E os motivos podem não parecer mais tão puros e honrados como eram antes. Claro que pelo tom, pela ação e atos de heroísmo, os sacrifícios dos personagens, pode-se passar batido o teor anti-guerra. Por outro lado, a atitude anti-autoritária e anti-militar exibida, uma história de criminosos condenados (que é algo tão aldrichiano) forçados a realizar um ataque contra o alto comando alemão não esconde suas reais intenções, especialmente como alegoria do Vietnam…

No mais, as atuações são notáveis e o caráter não convencional dos personagens lhes confere um carisma sem precedentes para a época, estabelecendo um novo tipo de herói, com o John Cassavetes em destaque como um rebelde individualista; Jim Brown como um soldado negro em busca de respeito – e seu ato final cheio de simbolismo; e, é claro, Charles Bronson e Lee Marvin, dois dos maiores atores de todos os tempos dividindo a tela, impecáveis.

A LENDA DE LYLAH CLARE (The Legend of Lylah Clare, 1968)
Um diretor de cinema arrogante e autoritário (Peter Finch) planeja filmar uma cinebiografia de uma estrela de Hollywood renomada (Kim Novak), mas que havia falecido uns anos antes. E contrata uma atriz desconhecida (também Kim Novak), que é sósia da personagem, para interpretar o papel principal.

Mais uma fábula ácida de Aldrich sobre Hollywood, só que agora me parece mais direcionado ao contexto do studio system daquele período, no fim dos anos 60, com todas as mudanças que estavam acontecendo no surgimento da Nova Hollywood… Só que o olhar melancólico e melodramático para os indivíduos que habitam esse universo aqui não chega a ser tão bom quanto THE BIG KNIFE. Sequer chega ao nível do camp divertido… É um dos filmes do Aldrich que menos gostei de descobrir nessa peregrinação. Até curto o Peter Finch e Kim Novak aqui, mas o filme se arrasta com longas sequências de conversas monótonas com ausência de qualquer coisa remotamente interessante acontecendo na tela na maior parte do tempo, com raras exceções.

Pelo menos tem um dos finais mais inesperados, absurdos, originais, ousados e geniais da história do cinema americano! Sério, não vou contar o que acontece, é preciso ver para crer…

TRIÂNGULO FEMININO (The Killing of Sister George, 1968)
Com o sucesso de OS DOZE CONDENADOS, Aldrich comprou seu próprio estúdio e embarcou num breve período independente, cujos dois primeiros filmes foram sérias apostas artísticas. O primeiro foi o filme acima, que não curto muito. E o outro foi este aqui, que é melhor, aborda questões mais ousadas, notório pela forma como trata lesbianismo, incluindo uma sequência perto do final que deve ter escandalizado os puritanos da época… Não à toa, foi um dos primeiros filmes a receber a classificação X sob o novo código. Antes de X se tornar sinônimo de pornografia. A trama é sobre uma atriz de novela na Inglaterra (Beryl Reid), cujo mundo começa a desmoronar quando teme que seu personagem será retirado da série, o que abala sobretudo o relacionamento com Childie (Susannah York), sua companheira bem mais jovem. Enfim, ainda não acho que Aldrich esteja na sua melhor forma como narrador nesses dois filmes pós-DOZE CONDENADOS. O sujeito já foi mais vistoso com a câmera e por aqui é tudo muito teatral (é preciso destacar pelo menos que os atores estão ótimos) e um bocado monótono, mas sem dúvida não dá pra negar que o homem continuava a ser um dos diretores mais provocadores e subversivos do cinema americano daquele período.

ASSIM NASCEM OS HERÓIS (Too Late the Hero, 1970)
OS DOZE CONDENADOS é um clássico absoluto do Aldrich, um de seus trabalhos mais famosos, além de ter um dos elencos mais fodas da história. Mas dentre seus men on a mission, meu favorito é este menos conhecido ASSIM NASCEM OS HERÓIS. Até tem algumas semelhanças com OS DOZE CONDENADOS, com um pelotão formado para uma missão suicida durante a segunda guerra, só que aqui a trama se passa numa ilha dominada por japoneses.

O negócio é que tudo é mais bem resolvido, mais direto, mais cínico, violento e até mais divertido que o filme de 67. Há uma situação tensa que se estabelece a partir da metade que é de tirar o fôlego, com os soldados em fuga e se escondendo na selva, e os japoneses na cola, um drama de sobrevivência conduzido com habilidade pelo Aldrich. Cliff Robertson tá longe de ser um Lee Marvin ou Charles Bronson, mas o filme compensa com quem realmente rouba o filme pra si, que é o grande Michael Caine, fazendo uma figura moralmente ambígua e que é também um dos personagens mais fascinantes da filmografia do Aldrich.

BLACK SAMURAI (1977)

Um dos principais atrativos de BLACK SAMURAI, de Al Adamson, é a atuação sempre leve e saltitante de Jim Kelly, o Bruce Lee da Blaxploitation, que parece estar sempre em movimento, não só quando enfrenta seus adversário. O sujeito já tinha demonstrado uma certa classe e um ar cool desde sua estreia, em OPERAÇÃO DRAGÃO, e é bacana vê-lo mantendo seu estilo em todas as circunstâncias, mesmo num produto classe B, de orçamento risível, como este aqui.

Aliás, BLACK SAMURAI foi o primeiro de dois filmes que Kelly fez sob o comando de Adamson. O outro foi DEATH DIMENSION, lançado do ano seguinte. E o sujeito tá ótimo por lá também.

BLACK SAMURAI é um filme que se assiste com um certo prazer e que, apesar das aparências, não exige tanta indulgência especial para isso, sobretudo se você já for um aficcionado por tralhas cinematográficas do tipo “tão ruim que é bom“.

O filme começa meio morno, com uma perseguição meio lenta demais, uns bandidos liderados por Chavez (Roberto Contreras) a mando do ignóbil Janicot (Bill Roy), feiticeiro, traficante de escravos, traficante de drogas, e sei lá mais o quê, que estão atrás da jovem Toki Konuma (Essie Lin Chia), filha de um político influente. Conseguem captura-la. Depois, vem a exposição do herói jogando tênis, com o diretor seguindo a bola de um lado para o outro com sua câmera, sempre com um leve atraso…

Ai, ai, ai, é isso mesmo BLACK SAMURAI?” Pensa-se rapidamente com uma ansiedade apertando a garganta ao ver tanta motivação cinematográfica e planos/contra-planos laboriosos nos primeiros quinze minutos… Mas então, de repente, as coisas melhoram: Robert Sand (Jim Kelly) faz alguns movimentos de treinamento com a espada e o nunchaku diante da câmera antes de trabalhar sua respiração e mover seus músculos flexíveis quando, de repente, um anão aponta uma arma para ele e diz: “pena que os punhos não sejam tão rápidos quanto as balas, né?“. E a negação chega mais rápido do que o esperado, causando surpresa no agressor e alegria no público.

O filme se transforma numa série de cenas de ação intercaladas com alguns trechos de diálogos, umas festinhas de feitiçaria, uma ceninha de striptease, tudo isso em um clima descontraído, um festival de golpes a todo instante e um enredo desconexo e altamente improvável que, no fim das contas, quase ninguém se importa.

Porque afinal, o que se trata BLACK SAMURAIS? É muito simples: é a história desse agente secreto da Dragon (não me pergunte o que é isso), Robert Sand, lidando com a organização do feiticeiro/traficante de drogas/cafetão Janicot, que sequestrou sua namoradinha, a tal Toki, que, como disse, é filha de um político decidido a combater o tráfico de drogas. Sand precisa investigar e correr contra o tempo para salvar sua garota utilizando seu carro com apetrechos de agente da Dragon e outras parafernálias, o que gera uma série de lutas principalmente desarmadas, apesar do uso de algumas armas de fogo em alguns momentos.

Al Adamson claramente mira no nicho do subgênero Spy, filmes de James Bond (o carro “armado” e os gadgets do agente) e no de Bruce Lee (múltiplas lutas, presença de um Jim Kelly com uma agilidade que impressiona), sem esquecer o público negro, surfando na onda da Blaxploitation. O filme atira pra todo lado ao mesmo tempo, com o objetivo de ir o mais longe possível. O coquetel é improvável, poderia ter sido totalmente indigesto, mas até que é bem-sucedido, trazendo até mesmo uma leve embriaguez, mas sem as dores de cabeça, prova de que a mistura dos diferentes ingredientes é perfeita pra quem curte uma boa tralha.

Entre sequências sem pé nem cabeça (como a da mochila-foguete, ou a quantidade de anões que vão surgindo ao longo da trama), artifícios de roteiro que não enganam ninguém, cenários às vezes dignos de uma peça de teatro amador, uma filmagem às vezes relaxada, BLACK SAMURAI funciona e é bom de seguir. Rápido, simpático, Jim Kelly arrasta o espectador consigo, sem se preocupar muito com realismo, vagando pelos cenários toscos e indo de surpresa em surpresa, já que o filme, longe de ser totalmente previsível, muitas vezes não é de todo por falta de rigor no roteiro…

Enfim, se BLACK SAMURAI está longe de ser isento de defeitos, e isso é bem óbvio em se tratando de Al Adamson, mas muitas vezes esses defeitos lhe conferem um charme quase infantil, um espírito troncho das história em quadrinhos mais tronchas que existe o que torna tudo muito divertido.

UM HOMEM A MAIS (1967) E A MATERIALIDADE DO CINEMA DE AÇÃO

Texto de Gabriel Lisboa

Se tem algo que adoro são histórias da arqueologia cinematográfica e de pérolas que ganham uma segunda chance. A restituição à vida de filmes tidos como perdidos ou até então apenas em cópias péssimas e por isso sem chances de ser devidamente apreciados (PELOS CAMINHOS DO INFERNO, COMBOIO DO MEDO), ou ainda aqueles que ganham valor justamente por ser uma cápsula do tempo, aberta depois de décadas para revelar todo o aroma de uma época (MIAMI CONNECTION, NEW YORK NINJA). UM HOMEM A MAIS de 1967 dirigido por Costa-Gavras é um forte candidato a merecer esse reconhecimento tardio. O mais impressionante filme de ação que ninguém viu!

Nunca lançado em mídia física, o filme recebeu só em 2021 um lançamento em Blu-ray pela empresa Arte Editions e é a única versão disponível na Amazon americana. Ou seja, aparentemente nenhuma Arrow, Eureka ou Criterion ainda lançou o filme. Antes disso, o filme só foi reexibido em 35mm a partir de uma restauração feita em 2016, sob a supervisão de Costa-Gavras. O filme no IMDB aparece nomeado em português como TROPA DE CHOQUE: UM HOMEM A MAIS, sendo o primeiro retirado do inglês SHOCK TROOPS e o segundo do título do original UN HOMME DE TROP. Como o filme trata de um grupo de guerrilheiros maquisards (maquis significa literalmente “arbusto”) da Resistência francesa, não faz sentido chamar o filme de Tropa de Choque, termo que designa praticamente o inverso: a tropa de ataque mais bem equipada e treinada de um exército. A Resistência tem como programa ser o estorvo; obrigar a Alemanha a tirar um destacamento do front principal para caçar meia dúzia de rebeldes no meio das montanhas.

Assim sendo, vamos chamar aqui o filme de UM HOMEM A MAIS do original, que de fato, também não é tão adequado. Esse homem a mais é interpretado por Michel Piccoli, mais conhecido pelos filmes que fez com Luis Buñel e por A COMILANÇA. Michel, cujo nome no filme não sabemos, é o 13° homem liberado de uma prisão nazista, quando na verdade apenas doze homens condenados à morte estavam nas contas do grupo de resgate liderado por Cazal, interpretado por Bruno Cremer (COMBOIO DO MEDO, mais um ponto de contato e as semelhanças não param por aqui!). A trama do filme parece que seguirá como linha principal saber se o homem será ou não digno de confiança. Porém, esse estudo de personagem ou suspense, acaba sendo uma história até que bem secundária já que o filme nunca fica nessa investigação. Cazal e seu bando estão em constante movimento para sobreviver, missão atrás de missão. E talvez esse frenesi seja ao mesmo tempo o ponto fraco e forte do filme.

Antes de entrar na análise do filme em si e para apresentar o raciocínio que sustentará a análise, preciso entrar no mérito da comparação. O filme é uma coprodução ítalo-francesa e tem o nome de Harry Saltzman envolvido no projeto; o cara responsável por produzir os filmes de James Bond no período. No mesmo ano de 1967 foi lançado, COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES, um bom e divertido filme do espião, porém um pouco datado. Não só pelas caricaturas e yellow-face envolvendo japoneses, mas em termos de ação, o filme é repleto de takes de retroprojeção durantes as perseguições de carro e de helicóptero. Há de fato uma luta muito boa entre Connery e Peter Maivia, wrestler samoano, num escritório. Mesmo que com cenas icônicas, um senso real de materialidade da ação era algo esparso nessa fase com Connery. Consigo lembrar de cabeça de mais duas boas lutas nesse sentido: Bond contra Red Grant e a luta no elevador de OS DIAMANTES SÃO ETERNOS. A coisa muda um pouco na fase Moore, mas a ação começa a se deslocar da trama para evidentes stunts de dublês, como a luta em cima de um avião em 007 contra Octopussy. Inclusive algumas dessas cenas incríveis como a do carro em espiral de Com 007 VIVA E DEIXE MORRER tem essa materialidade subtraída com o efeito sonoro de um apito que mata o take transformando tudo num desenho animado (a stunt é tão bem executada que essa artificialidade é reforçada).

O que UM HOMEM A MAIS realiza então é a mais improvável das adições. Tem o orçamento de James Bond, o ritmo de um ESTRADA DA FÚRIA, a verborragia de um Kevin Smith, somados a câmera presente e materialista de A BATALHA DE ARGEL, trazendo também certo peso e dialética desse filme. E quando digo materialista me refiro a dois pontos principais: primeiro é o caráter essencial da câmera in loco, colada ao corpo dos homens ou agarrada a tanques e caminhões, invariavelmente fruto de um único take, ou seja, é uma imagem imprevisível (até certo ponto). É o completo oposto das imagens em retroprojeção feitas em estúdio, onde se faz de novo e igual (ou o mais próximo possível se formos para o lado purista em que todo take é único). Aliado a isso, para compor esse materialismo, também depreendo aquilo que o crítico André Bazin chamava de montagem proibida, ou seja, quando é importante ou indispensável que dois pontos de interesse de uma cena, ação e reação, apareçam numa mesma tomada, sem cortes (caso contrário o efeito desejado se perde porque o público percebe que há uma trucagem). Há uma cena em que os guerrilheiros estão aprendendo a atirar com uma bazuca, dentro de uma cabana, até que ela dispara por acidente. Num primeiro plano vemos a centelha e fumaça que saem da traseira da arma e mais ao fundo através de uma janela, uma árvore que explode com o tiro da bazuca, tudo em um único quadro. O plano seguinte repete a explosão do lado de fora, que quase atinge alguns atores.

O ponto aqui não é apenas (não serei hipócrita) se regozijar com uma época mais irresponsável do cinema. Até que ponto essa cena opera em dois sentidos simultâneos que não se anulam: ficamos chocados tanto na diegese, pelos soldados dentro do filme, mas mais ainda imaginando como aquilo foi feito? Ou é um momento que apenas te tira do filme? Creio que o já citado ESTRADA DA FÚRIA cria sim uma certa materialidade, porém, ao mesmo tempo, não deixa de sobrepor a ela um verniz de color-grading, fumaças, areia e texturas de pós-produção para justamente esconder essa condição de veracidade, para que o público se deslumbre com os feitos e efeitos práticos, mas sem nunca abandonar o caráter imaginativo da cena. Como se o CGI fosse um alento inconsciente contra o real demais. Há dezenas de pequenos momentos assim em UM HOMEM A MAIS, é claro, menos escandalosos, que não precisam acontecer (e em filmes B não acontecem, pensando num segundo take). Os tiros “furam” as portas, janelas são quebradas e tinteiros são arremessados contra as paredes manchando-as de preto. Fr.7

Um segundo grande momento, talvez o mais genial do filme, é o que o bando foge em um caminhão por uma estrada montanhosa, perseguidos pelos nazistas. O motorista é baleado. Michel Piccoli então sai da parte de trás para tentar assumir o volante do moribundo. Outros vem ao seu auxílio. O velho que acompanha/é prisioneiro do grupo, quase cai do banco de carona. E nisso a câmera se afasta. Numa tomada aérea sem cortes, percebemos que paralelamente a estrada dos nossos heróis corre outra estrada mais abaixo com um caminhão cheio de nazistas. Mas não, é ainda pior! A câmera recua ainda mais e percebemos que é a mesma estrada, que logo mais a frente fará uma curva sinuosa para descer a montanha. Morrem pela curva ou pelos nazistas!

E até aqui não falei da minha sequência favorita! Vou ser breve porque para ela caberia outro texto inteiro. Ela divide-se em três cenas: primeiro a rendição da polícia entreguista, o assalto de um banco/correio e o tiroteio no meio de uma praça contra um atirador solitário; um jovem reacionário. O plano em que Cremer atravessa a praça com a câmera lhe seguindo num plano aberto que parece saído de NASCIDO PARA MATAR. Então, o atirador atinge um dos maquisards antes de ser baleado. Os dois feridos são colocados na traseira de um caminhão. Lado a lado. Centelhas de ódio. A mãe do garoto aparece. Um médico diz que não há o que fazer. A coisa moral a se fazer é matar o garoto ali mesmo ou levá-lo prisioneiro? Tem menos direitos que o também ferido maquisard? O caminhão parte com os dois. Outro jovem pula no caminhão querendo entrar para a Resistência. Seu pai, aparece aos berros e correndo. Cortamos para Cremer. Voltamos para os fundos do caminhão. O pai continua a repreender o garoto (“Sabia que você não daria em nada”, “Pense na sua mãe!”) mas agora lhe entrega uma arma embrulhada num tecido e a cena ganha um caráter até irônico que não se resolve.

Há uma porção de momentos assim. Não ficamos dois minutos sem um diálogo! O que de fato é muito cansativo, ainda mais para quem segue o filme com legendas e não quer desgrudar os olhos da mise-en-scène. Costa-Gavras também coloca em prática vários truques visuais e raccords pelo simples prazer de vê-los funcionar, como um Iñarritu que irrita tanto alguns críticos com sua proeza técnica injustificada. Porém, se as escolhas da operação da linguagem cinematográfica devem ser motivadas então Costas-Gavras acerta em cheio, por que qual seria o tema aqui senão a impossibilidade da contemplação? De como é inviável parar e pensar sobre a (i)moralidade de cada decisão? É 1940 e os nazistas tomaram a França. Uma titubeada significa a morte. Enquanto os Maquisards assaltam o banco/correio, Cazal diz ao bancário que ele assinará um recibo pelo valor que eles estão roubando, “Do que vale a sua assinatura?” diz o engravatado, “É só mostrá-la quando a França estiver livre”. O acerto de contas ficará para depois. Não há tempo para se preocupar com aparências ou revigorar o ânimo dos rendidos. Mas se uma viúva der mole, ninguém é de ferro.

Disse que Michel Piccoli é aquele estranho que os protagonistas não devem confiar, mas como estes carregam o peso de ser o compasso moral do filme (e da Guerra) há esse embate entre a empatia e o pragmatismo. Há vários filmes em que esse tipo de personagem dá falsas pistas de amizade e acaba por se mostrar, de fato, um traidor. Piccoli não chega a tanto, mas é ele o catalisador para caos que leva a morte de vários guerrilheiros e a quase falha completa do plano sobre o qual gira o último ato. Piccoli encarna o pacifista, aquele que não crê que não seja possível resolver as coisas com o diálogo. Porém, se num dia ele é poupado de uma execução por um dos guerrilheiros, que por compaixão, desobedece a uma ordem do QG, no seguinte é capturado com dois cabeças do grupo Maquis por nazistas que se deleitam com os detalhes do enforcamento que carregarão em breve. Uma amostra de que em si qualquer ato de violência é injustificado, mas que talvez seja necessário praticar o imponderável para, paradoxalmente, evitá-lo*. Picolli termina o filme fugindo dos alemães, descendo pelas vigas de uma ponte como um covarde quando comparado aos colegas, mais preocupados com a missão do que com a própria vida. Nem que seja levando um único nazista para vala consigo. O último plano do filme, mais um desbunde, mostra Picolli, e sem dublês, agarrado ao aço a centenas de metros do chão, enquanto a câmera num take aéreo, toma distância, saindo de seu rosto até congelar (freeze-frame) num plano geral da ponte toda. Fr. 17

*Aqui faço um desvio que daria em outro texto, mas o que estou especulando é que seria mais “fácil” fazer um filme antibélico como GLÓRIA FEITA DE SANGUE ou PLATOON do que ao retratar Segunda Grande Guerra. E o curioso é que de um dos períodos mais abomináveis da história, têm-se os nazistas como vilões no sentido mais óbvio e unidimensional possível e dessa forma nasce o men-on-a-mission, filmes “leves” de aventura hollywoodianos, com a vantagem de ser impraticável problematizar o outro, como quando dos algozes indígenas e mexicanos, por exemplo, nos filmes de cowboy. Também de 1967, OS DOZE CONDENADOS, e os fãs do filme que me perdoem o sacrilégio, tem como segundo ato todo praticamente uma Loucademia de Polícia 3. E digo isso não como um demérito, mas só para informar o tom dominante desses filmes. E para amarrar tudo, também desse filão, O COMANDO 10 DE NAVARONE é um filme que por acaso se passa durante a Segunda Guerra, tão mais próximo de um filme de James Bond que além de Harry Saltzman também na produção (como em Um Homem a Mais) e Guy Hamilton na direção conta com Robert Shaw, Richard Kiel e Barbara Bach na frente das câmeras.

ALGUMAS DESCOBERTAS E REVISÕES

STEAMBOAT ROUND THE BEND (1935); de John Ford

Nunca tinha visto esse do Ford. O filme já seria uma maravilha de qualquer maneira, uma comédia cheia de personagens fascinantes e uma trama encantadora, mas aí vem o final, uma corrida maluca de barcos engraçadíssima e cheia de simbolismos – para ganhar velocidade, os tripulantes do barco jogam todas as estátuas de cera do museu no forno, figuras representativas da história americana, porque todos os símbolos e mitos devem ser eventualmente destruídos para progredir. Um dos momentos mais divertidos e geniais da carreira de Ford. E mais uma bela parceria com o ator Will Rogers.

O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES (1936); de John Ford

Mais um Ford que vejo pela primeira vez. Baseado numa história real, o filme conta a fascinante aventura do Dr. Mudd (Warner Baxter), que numa certa noite teria sido melhor não ter ajudado a tratar a perna de um homem. Acontece que o homem é John Wilkes Booth, que havia acabado de assassinar o presidente Lincoln. No dia seguinte os Yankees decidem prender todos os homens que haviam entrado em contato com o fugitivo. Após um julgamento unilateral, o Dr. Mudd escapa por pouco da forca, mas é transferido para uma ilha prisão cujas águas que cercam o local são infestadas por tubarões. Na segunda parte do filme temos uma tentativa de fuga e a possibilidade de redenção desse personagem tipicamente fordiano. Baxter provavelmente tem a melhor atuação da carreira e o filme é lindamente fotografado por Bert Glennon, que continuaria a trabalhar com Ford. A trama tem várias alternâncias de tom nessa jornada, tudo se desenrola muito rapidamente, mas ainda há alguns ótimos momentos visuais fordianos, como toda a sequência da fuga; ou o fechamento lento das portas em Fort Jefferson enquanto um corneteiro entoa o toque de recolher no centro da tela; ou o véu que desce sobre o rosto de Lincoln – uma expressão puramente visual do fechamento emocionante de um capítulo da história americana e que sempre interessou muito à Ford. Poético em sua simplicidade.

CLUB HAVANA (1945); de Edgar G. ULmer

Peter Bogdanovich: Bem, e Club Havana (1945)?
Edgar G. Ulmer: Adorei fazer – Adorei! Não tinha roteiro – de novo, fiz um Rossellini. Era um filme que eu não ia realizar; quem ia trabalhar nele eram Russell Rouse e Clarence Greene. Fromkess tinha contratado uma equipe inteira e tudo o mais, mas jogou o roteiro fora uma semana antes de começarmos a filmar. Ele me chamou e disse: “Ok, você diz que consegue fazer as coisas – filme sem roteiro – invente-o”. Assim arranjei alguns atores. Eu só dispunha de uma página – um esboço. Schüfftan também trabalhou nesse filme pra mim. Realmente me diverti com esse – todo o filme foi filmado num só set. Conseguimos um sucesso musical e tanto com aquilo: foi a primeira vez que se usou “Tico-tico”.

PB: Qual era o desafio? Apenas fazer alguma coisa?
EGU: Não! Fazer algo especial – fazer Grand Hotel (1932) num só lugar.

PB: Club Havana foi o Grand Hotel da PRC?
EGU: Sim.

Coisa linda isso aqui. No decorrer de uma hora, num único ambiente, dramas, mistérios, paixões humanas são resolvidos em meio as músicas “Bésame mucho” de Consuelo Velázquez e “Tico-Tico, no Fubá” de Zequínha de Abreu, enquanto Ulmer conduz tudo com a sua maestria habitual.

CURVA DO DESTINO (DETOUR, 1945); de Edgar G. Ulmer

Mais um filme do Ulmer. Já fazia uns vinte anos que não revia e a única coisa que eu lembrava era da personagem de Ann Savage, excelente como uma das mais devastadoras femme fatales do cinema noir. O filme continua uma belezura, filmado em seis dias, com orçamento risível, mas transbordando de pulsão criativa, uma intensidade absurda e sequências icônicas. Ficção pulp em sua forma mais visceral.

THE BLUE GARDENIA (1953); de Fritz Lang

Lang dizia que os seus filmes conseguiam permanecer atuais porque tratavam de temas universais, que não ficavam datados. THE BLUE GARDENIA pode não ser dos seus melhores trabalhos, mas é um bom exemplo que se encaixa nessa descrição; aborda uns tropos cabeludos como abuso sexual em situações em que a mulher se encontra embriagada e as consequências de um possível assassinato em legítima defesa, tudo filmado com a inteligência e maestria habitual do alemão…

Mas a habilidade de Lang aflora sobretudo na primeira metade, na maneira como conduz diálogos casuais, interações entre as personagens (o trio feminino central é maravilhoso, Lang deveria ter feito mais filmes sobre esse universo) e os indícios da angústia que está por vir. A tensão aumenta ainda mais quando o assassinato entra em cena. Uma pena que dá uma caída na reta final, com um desfecho bem bobo, provavelmente por imposição do estúdio, mas que não apaga o belo filme que vem antes.

MOST DANGEROUS MAN ALIVE (1961); de Allan Dwan

A premissa lembra uma história de origem de algum super-herói clássico, com o protagonista ganhando “super poderes” à partir da exposição da radiação de um teste de bomba atômica, mas ao invés de um herói padrão, o sujeito tá fadado a um destino mais apocalíptico. O roteiro é meio amalucado e é incrível como Dwan se mantém fiel ao seu estilo, filma bem pra burro, sem firula, simples, seco, com uma economia de fazer inveja, mas ao mesmo tempo criativo. Sempre existe um ou mais momentos de gênio, tudo com orçamento minúsculo, e extrai ao máximo dos personagens/atores, sobretudo quando estão envoltos por sombras.

WITCH HUNTER (1994); de Paul Schrader

Dos poucos filmes do Schrader que ainda me faltava. Produção pra TV, da HBO, sequência de um outro filmeco com o mesmo personagem, o detetive particular Phil Lovecraft (Fred Ward no primeiro e Dennis Hopper neste aqui), a trama é basicamente um (neo) noir, mas que se passa numa Hollywood de universo alternativo nos anos 1950, onde a bruxaria e magia é uma realidade comum e as autoridades são contra seu uso. Uma comissão é formada por um senador republicano (Eric Bogosian) pra descobrir usuários de magia, enquanto o tal detetive Lovecraft investiga o assassinato de um executivo de estúdio. Difícil não pensar no Macarthismo, na paranoia anti-comunista do período, mas seriam coisas que tornariam o filme mais profundo do que realmente é… A trama é no máximo divertida, acompanhar Dennis Hopper pagando de detetive nunca é tempo jogado fora, e tem seus momentos mais imaginativos pra mostrar esse universo de magia, cujos elementos mais memoráveis são os efeitos especiais, um CGI arcaico mas que tem seu charme pra um filme de TV dos anos 90. Filminho bacana e só. 

E tem uma participação bem legal do Julian Sands (RIP).

ALLUDA MAJAKA! (1995); de  E.V.V. Satyanarayana

Olha a que ponto cheguei com o vício em cinema indiano… Este é o tal filme que possui a famigerada cena que virou meme no youtube nos anos 2000, quando se brincava muito com os exageros dos filmes de ação indianos, onde um sujeito desliza com um cavalo por debaixo de um caminhão… E acreditem, talvez isso nem seja a coisa mais absurda que tenha por aqui. ALLUDA MAJAKA! é um festival de sandices, um masala insano, muito divertido e com o Chiranjeevi inspirado, fazendo o papel mais safado que já vi, dando tapa na bunda das moças, tirando o biquini delas dentro de um lago, e com muita energia nas partes dramáticas, nas danças e nas sequências de luta, que são ótimas. A trama perde um pouco a força na segunda metade, com uma brincadeira de disfarces e uma enrolação com as situações e o excesso de personagens, mas a presença de Chiranjeevi mantém as coisas vivas por todo tempo que fosse necessário… O sujeito é um fenômeno e já demonstrava perfil de herói telugo das massas há mais tempo do que eu imaginava.

FEDERAL PROTECTION (2002); de Anthony Hickox

Perdemos o grande diretor Anthony Hickox recentemente. E aí fui rever isso aqui. A trama não é particularmente emocionante, mas homem sabia como revestir tudo numa lógica neonoir pulp que eu não resisto, bem divertida de acompanhar, nem que para isso tenha que sacrificar a história central inicial – mafioso em proteção federal após ser testemunha contra seus antigos companheiros corre o risco de ser descoberto – pra criar um plot dentro do filme com a personagem da Dina Meyer, que acaba roubando a cena pra si – a sequência no quarto do hotel, com ela vestida de dominatrix e perfurando a testa de um sujeito com o salto do sapato é um dos ápices do cinema de Hickox. Desses momentos geniais que vez ou outra aparecem em pequenos thrillers B, sobretudo se forem dirigidos por um mestre do calibre de Hickox (uma pena que poucos vão realmente alçá-lo a essa condição). No mais, temos a figura de Armand Assante pagando de fodão, boas sequências de ação e tiroteios e um humor que beira o absurdo de vez em quando. R.I.P. Hickox.

CAÇADO (2003); de William Friedkin

Revi isso aqui pra gravar um episódio do Cine Poeira (que já está no ar, inclusive). De vez em quando acontece dessas, um diretor veterano precisa chegar e mostrar como fazer as coisas direito. Não sou do tipo ranzinza nostálgico reclamão (confesso que já fui), mas no início dos anos 2000 o cinema de ação em Hollywood andava bem capenga. E aí o Friedkin chega com CAÇADO e mostra como se faz. Não que não tivéssemos bons filmes de ação no período, mas Friedkin desafia e subverte as tendências dos anos 2000, em 90 minutos cria um exercício minimalista, basicamente uma caçada humana, sem excessos, sem gordura, pontuada por alguns dos combates de facas dos mais violentos e bem filmados da história do cinema. Sério, os enquadramentos de Tommy Lee Jones e Benício Del Toro (um dueto excepcional aqui) com uma câmera nervosa e a forma como tudo é montado é praticamente uma aula de cinema. Basta ver CAÇADO pra perceber a diferença entre o verdadeiro corte cinematográfico e a punhalada de video clip que tomou conta dos filmes de ação em Hollywood no período. Filmaço demais! O último filme gigante de um dos maiores diretores americanos que tivemos. 

007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (1971)

Já faz um tempinho que não posto algo sobre o agente secreto mais famoso do cinema, mas quem ainda não leu, ao longo dos anos venho escrevendo sobre cada filme em ordem cronológica. E agora chegou a vez do sétimo filme oficial da franquia, 007- OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (Diamonds are Forever), de Guy Hamilton, que traz algumas peculiaridades interessantes.

A começar pelo momento borracharia do blog, já que este aqui é o primeiro e único, dentre todos os filmes do espião, em que aparecem certos atributos femininos na tela, mesmo que em um único frame, que eu fiz questão de capturar pra deixar aqui registrado:

Pronto. Feito o registro, vamos ao contexto. Até 1967, com o lançamento de COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES, Sean Connery estava desencantado com o papel de James Bond, que o tornou famoso, não queria ficar marcado pelo personagem, buscar novos desafios e blá, blá, blá… Sem Connery, os produtores consideraram vários substitutos até optarem pelo modelo australiano sem experiência em atuação, George Lazenby. O resultado foi o último filme do espião que comentei aqui no blog: 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, que é um caso controverso até hoje. Eu acho um dos melhores da série, uma autêntica obra de arte na franquia Bond.

Enfim, o problema é que Lazenby, devido aos mais diversos motivos, como descrevi no texto sobre o filme, acabou deixando a série. Com ele fora de cena, os produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli voltaram à caça e cortejaram um americano, o ator John Gavin (o namorado de Marion Crane [Janet Leigh] no clássico de Alfred Hitchcock, PSICOSE), mas nunca desistiram de Connery, que aos 45 do segundo tempo acabou recebendo uma oferta boa demais para recusar. Tradução: muito dinheiro.

O retorno de Connery à série resulta, como disse, em um filme peculiar. Digamos que tá mais próximo do espírito das paródias futuras de Austin Powers do que qualquer outro filme de Bond realizado até aquele momento. É um filme meio bobo demais comparado às entradas britânicas… Não me refiro nem aos exageros acrobáticos que aos poucos foram sendo inseridos na série e já se apresentava em algum nível em SÓ SE VIVE DUAS VEZES. Falo da maneira sem vergonha de abraçar um tom mais avacalhado mesmo de tratar as coisas. E talvez por causa do desejo inicial de contratar Gavin, o filme também é mais “americanizado”, com locações nos EUA, em Las Vegas… E aí DIAMANTES SÃO ETERNOS acabou dividindo a base de fãs de 007. Há uns puristas que não gostam, há quem ame… E há público como eu, que acha divertido se abordado da maneira certa.

O filme começa com muita energia, com um 007 enfurecido espancando diversos contatos (incluindo a moça que ele puxa o biquini do registro lá de cima), enquanto ele tenta encontrar o esconderijo de Blofeld. Lembremos que o vilão consegue escapar de Bond nos dois filmes anteriores…

Na trama, Bond é chamado para investigar uma operação de contrabando de diamantes e descobre um enredo muito mais sinistro envolvendo o seu arqui-inimigo Blofeld. Mais uma vez determinado a conquistar o mundo, Blofeld desenvolveu um satélite a laser, com acessórios formados por centenas de diamantes, que aumentam o seu potencial devastador… E aí somos apresentados a um trabalho de espionagem, com Bond atuando sob disfarce e tudo mais. No entanto, como disse, a coisa é tão avacalhada que é provável que você nem se lembre disso depois que o filme termina.

Isso porque fizeram questão de enterrar todo esse trabalho cuidadoso mais sério do primeiro terço do filme sob uma montanha de fanfarronice a partir do momento em que a trama vai pra Las Vegas, com um humor cafona e lasers do espaço sideral. E tá tudo bem…

O roteiro desajeitado – uma mistura do romance original de Fleming (a parte séria do contrabando de diamantes), cultura pop e uma adição completamente desajeitada de Blofeld (ele não fez parte da história original) – são coisas muito menos importante para a experiência geral de DIAMANTES SÃO ETERNOS, do que a sensação de aventura sem vergonha que é o que realmente importa. E felizmente para os produtores (e o futuro da franquia James Bond), era esse tipo de material que salvaria a série do fracasso.

O tom caricato se estende ao próprio Blofeld em si, anteriormente interpretado por Donald Pleasence e Telly Savalas. Embora a interpretação de Pleasence seja mais lembrada por sua aparência distintiva de cabeça raspada e cicatriz no rosto, o sujeito não teve muito a fazer no papel e, na verdade, foi uma substituição de última hora para um ator alemão que ficou doente durante as filmagens. Savalas, em A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, é formidável e talvez o melhor dos Blofelds adaptados pra tela grande. Aqui temos Charles Gray, efeminado e maravilhosamente maldoso, mas raramente representando uma ameaça real à James Bond.

O auge do caricato chega quando Blofeld se disfarça de mulher – é uma cena divertida que Gray claramente aprecia, mas que faz seu personagem se tornar tão cômico que é impossível levá-lo a sério como vilão… Vale lembrar que Gray já havia trabalhado em outro filme da série, numa rápida participação em SÓ SE VIVE DUAS VEZES.

Agora, quem rouba a cena e eleva consideravelmente a qualidade de DIAMANTES SÃO ETERNOS é a dupla Bruce Glover e Putter Smith, como os assassinos Mr. Wint e Mr. Kidd. Mais lembrados por interpretar um casal gay, que são apresentados se livrando de um contato no deserto apenas para sair de mãos dadas juntos no pôr do sol. Glover e Smith dominam cada momento que têm na tela, mesmo quando estão apenas em segundo plano. Eles transformam o que facilmente poderia ter sido um papel de dupla clichê em algo muito mais forte, dando aos personagens potencialmente bobos um ar real de ameaça maquiavélica, ao mesmo tempo em que estão em sintonia com o tom debochado e fanfarrão do próprio filme. Eles são um prazer de assistir do primeiro ao último momento, e suas atuações garantem que Wint e Kidd estejam ao lado de Oddjob e Jaws como os maiores capangas na franquia James Bond.

Nenhum filme de 007 está completo sem as belas bond girls, e DIAMANTES SÃO ETERNOS certamente tem sua parcela de beleza na forma, sobretudo, de Jill St. John no papel de Tiffany Case, que é uma das primeiras mulheres de Bond a realmente se qualificar como uma protagonista ativa – atrevida, durona e determinada – que ainda precisa ser resgatada de vez em quando, mas está longe de ser um mero enfeite. Lana Wood também se destaca em seu pequeno papel como a inesquecível Plenty O’Toole (“of course you are”). A cena que ela é jogada do quarto de hotel de Bond para uma piscina apenas de calcinha pelos capangas de Tiffany é engraçada. E vale destacar que um dos capangas é ninguém menos que Sid Haig.

Quanto ao espião, Connery interpreta o papel com sagacidade, causando uma impressão melhor do que a sua versão entediada de SÓ SE VIVE DUAS VEZES. E é realmente o grande elemento que o público precisava para fazer do filme um sucesso, o Bond original, raíz. Lembremos, por exemplo, da aura cool de Connery estático no meio da tela antes que percebamos que ele está em cima de um elevador, que começa a subir pegando o público de surpresa. Ainda é uma imagem forte do ator no papel que deu tanta vida até aquele momento.

Mas no fim das contas, é evidente que, apesar de uma boa atuação, no geral Connery já não tinha o mesmo vigor, simplesmente não é mais o mesmo 007. Ao mesmo tempo também deixa claro que é possível interpretar o personagem de maneiras diferentes. Assim como o próprio filme, temos um Bond menos cínico e mais fanfarrão, no qual o seu trabalho de espionagem importa cada vez menos (por mais que esteja presente) e importa mais os absurdos cartunescos e cômicos desse universo.

Connery voltaria ao papel apenas mais uma vez como 007, em NUNCA MAIS OUTRA VEZ, um filme não oficial da série que, devido a alguns processos judiciais, conseguiu ser realizado como uma refilmagem de CHANTAGEM ATÔMICA (o que expliquei também no texto deste filme).

Fico imaginando apenas como o filme teria sido se Lazenby tivesse continuado o papel… Suponho que teria lidado com a perda climática que 007 sofreu no final de A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE e, como tal, teria sido provavelmente uma história de vingança mais sombria e dura. No entanto, recebemos o caricato em vez disso – perde-se na densidade, ganha-se na diversão. E, repito, tá tudo bem.

O diretor Guy Hamilton (que já havia realizado o melhor filme da franquia até o momento, GOLDFINGER, e ainda dirigiria os próximos dois depois deste aqui) mantém o ritmo do filme bem rápido, sempre em movimento, não há grandes set pieces de ação, mas sempre colocando Bond em situações cômicas e divertidas de acompanhar. Ajuda muito toda a aparência do filme, sempre muito competente, graças ao trabalho habilidoso do diretor de fotografia Ted Moore e o designer de produção de Ken Adam (o esconderijo penthouse de Blofeld é uma maravilha). E é preciso destacar o trabalho de John Barry na trilha sonora, juntamente com a canção-título, interpretada por Shirley Bassey, que é uma das minhas favoritas da série.

Onde acho que o filme falha é justamente no departamento de ação. O que pra um filme de 007 é algo a se considerar. A luta de Bond num elevador e alguns stunts em alta velocidade em Las Vegas é o máximo que dá pra destacar por aqui. E são realmente boas. O restante não tem muita graça… A fuga pelo deserto no carro lunar tinha potencial, tá no clima brincalhão demais, em sintonia com o filme, mas a execução é medíocre. E, ok, a sequência que Bond apanha das duas garotas, Bambi e Thumper, é clássica. Dos poucos momentos que eu mantive vivo na memória mesmo depois de mais de vinte anos sem assistir a isso aqui. Mas provavelmente foi por outros motivos, além da luta em si, se é que me entendem…

Mas o pior de tudo é o clímax a bordo da plataforma de perfuração de petróleo de Blofeld, uma bagunça mal executada, uma miscelânea de cenas jogadas e montadas de qualquer jeito, longe dos grand finale que os filmes do espião tinham até então. Até que gosto de uns efeitos especiais mais toscos que temos lá pelas tantas, o trabalho óptico pobre que mostra os resultados do satélite a laser de Blofeld e que poderiam estar em uma das aventuras de Fu Manchu de Christopher Lee dirigido pelo Jess Franco.

De qualquer maneira, um filme que transcende a ação. É preciso ressaltar isso. Não importa se a trama seja boba e desleixada e a aventura sem vergonha… A real é que DIAMANTES SÃO ETERNOS não vai encabeçar a lista de “Os Melhores Filmes de Bond” de qualquer fã sério, nem é provável que chegue sequer à metade superior. Mas ele ainda é divertido por toda a sua fanfarronice, Pelo retorno de Sean Connery no papel pela última vez num filme oficial e obviamente pela de assassinos gays que são das melhores coisas disso aqui. Temos exemplares melhores, ok, mas ainda é bom demais para dar algumas risadas.

O HOMEM PUMA (1980)

Eu já gostava de O HOMEM PUMA (The Pumaman, L’uomo puma), de Alberto De Martino, sem sequer ter assistido. Tô nem aí… Vejam esse poster (abaixo), o tal herói, o Pumaman, voando à frente da Estrela da Morte de STAR WARS! Tem como dar errado? Na verdade, depois de finalmente assistir, descobri que tem. E muito. O filme não tem absolutamente nada dessa vibe que o poster queria transmitir.

E não tem a Estrela da Morte. 😢

Mesmo assim eu continuei gostando de O HOMEM PUMA, só que agora pelos motivos errados, obviamente.

Considerando que SUPERMAN, de Richard Donner, foi lançado em 78, é fácil pensar que os italianos produziriam um filme como O HOMEM PUMA na esperança de tentar lucrar com o sucesso do clássico seminal de Donner na seara dos filmes de super-heróis, assim como outros países também o fizeram no período (lembro agora do SUPERSONIC MAN [79], de Juan Piquer Simón, que também saiu em VHS no Brasil). De fato, a Itália era conhecida por produzir imitações de franquias mais bem-sucedidas. Isso não é exatamente uma novidade e aqui no blog já dei vários exemplos disso.

Então vamos à trama d’O HOMEM PUMA, que é a seguinte: milhares de anos atrás, seres alienígenas visitaram os astecas e foram reverenciados como deuses. Eventualmente, alguns desses seres se relacionaram com humanos e geraram um filho, que recebeu incríveis poderes, que alegam ser semelhantes aos de um puma, embora muitos desses poderes não tenham nada a ver com pumas. Aumento de agilidade, força e habilidade de enxergar no escuro até fazem algum sentido. Mas quando o sujeito começa a voar e atravessar objetos sólidos dá pra perceber que os caras não tavam nem aí pra nada…

Nem mesmo sua roupa tem a ver com puma. Se olharmos para o Pantera Negra da Marvel, por exemplo, parece algo que combina com o tema de pantera. A roupa do Pumaman, no entanto, consiste em uma camisa preta com um rosto dourado no peito, uma capa preta e vermelha, calças caqui e um par de botas. Nada disso traz à mente o animal pelo qual ele é nomeado.

Enfim… O primeiro Pumaman recebeu a missão de usar esses poderes para proteger a humanidade. Seus descendentes também herdariam seu poder e continuariam a missão de seus antepassados. Seja lá por qual motivo, o povo asteca também recebeu dos visitantes uma grande máscara dourada que seria capaz de controlar a mente das pessoas.

Já nos tempos modernos, em Londres, jovens são jogados pela janela dos prédios pelos capangas do Dr. Kobras (o inigualável Donald Pleasence), que está desesperado para encontrar e matar o mais recente descendente da linhagem do Pumaman. E aparentemente jogar pessoas aleatórias pela janela é a melhor maneira de determinar se a pessoa é ou não é um super-herói…

O Professor de Antropologia Tony Farms (Walter George Alton) é o atual Pumaman, apesar dele não ter consciência disso. Até que um sacerdote asteca chamado Vadinho (Miguel Ángel Fuentes, de FITZCARRALDO) tenta lhe convencer que ele é o lendário Pumaman e lhe dá um cinto que permite que ele acesse seus poderes.

Claro, antes há toda uma discussão filosófica entre eles, um auto descobrimento, não é fácil reconhecer que você é o escolhido para proteger a humanidade. Mas não demora muito, Farms se vê voando toscamente e enfrentando o Dr. Kobras, que, aliás, já possui a máscara dourada mencionada anteriormente e planeja usá-la para conquistar o mundo.

A partir daí, somos apresentados a um festival de absurdos e bizarrices no que há de melhor – ou pior, depende do seu ponto de vista – do cinema tosco, do cinema péssimo, do cinema do “tão ruim que é bom” que os italianos sabiam bem como fazer. Os efeitos especiais, por exemplo, são tão horríveis até para a época que chego a me questionar por que eles se deram ao trabalho de fazer. Mas basta o Pumaman começar a voar que eu agradeço aos realizadores, em especial à falta de competência – e até de noção mesmo – do diretor Alberto De Martino, por não desistirem. É simplesmente uma das coisas mais ridículas e engraçadas que já colocaram em película.

Os diálogos de O HOMEM PUMA parecem escritos por uma inteligência artificial que não entende como os humanos se comportam ou comunicam entre si. A trilha sonora é uma das piores escolhas auditivas que já fizeram, não combina em nada com o tom do filme, se é que possui algum tom definido….

Algumas atuações são simplesmente constrangedoras, com destaque para Fuentes como Vadinho, que tem a mesma entonação emocional que uma porta. Em contrapartida, Donald Pleasence não precisa de esforço algum pra nos fazer sorrir. Fica bem evidente que o sujeito aceitou o trabalho pra cumprir tabela e arrancar um cheque dos produtores, mas até fazendo um papel de vilão no piloto automático demonstra porque ele foi dos grandes.

O elenco ainda tem a bela Sydne Rome, que interpreta o principal interesse amoroso do Pumaman e que está sendo controlada mentalmente pelo Dr. Kobras. Ela já teve atuações melhores, adoro ela em QUE? (1972), do Polanski. Aqui é apenas um rosto bonito sem muita expressão.

O pior do filme – ou melhor, dependendo mais uma vez do seu ponto de vista – é o desempenho do próprio Pumaman, o tal Walter George Alton. O ator é simplesmente desprovido de qualquer carisma e não consegue o suficiente pra fazer com que nos importemos com seu personagem. Sem contar que é estranho um ator caucasiano escolhido para interpretar um homem descendente dos astecas, mas esse tipo de coisa eu nem me importo. O que realmente me importo, e retomo aqui o assunto, é o seu ato de voar. Ah, isso sim eu me importo. Repito, é uma das coisas mais ridículas que eu já vi na vida e é preciso reforçar isso.

Enfim, O HOMEM PUMA é daqueles exemplares especialmente recomendado pra quem gosta de assistir a filmes de baixa qualidade, baixo orçamento, baixo tudo… Para dar boas risadas da incompetência alheia, se divertir às custas de efeitos especiais baratos, atuações terríveis e a natureza sem sentido do roteiro e tudo que deu errado na produção. Ou seja, para pessoas que sabem apreciar um legítimo filme ruim.

A PROVA DO LEÃO (1965)

O ator Cornel Wilde é um caso interessante. Talentoso pra caramba e desejando encontrar papéis mais interessantes em produções ousadas dentro de Hollywood, ele funda sua própria produtora em 1950 para ter mais liberdade. Depois disso, pra se tornar diretor foi um pulo, em 1955, com um filme chamado ÓDIO ENTRE IRMÃOS (Storm Fear).

Quando chegou à meia-idade e passou a se preocupar menos com seu status de astro é que a carreira de diretor de Wilde realmente decola na década de 60, com o que pode ser considerado uma trilogia sobre a natureza autodestrutiva dos homens. Primeiro explorada de forma primitiva em A PROVA DO LEÃO (The Naked Prey); de forma moderna no filmaço de guerra DESEMBARQUE SANGRENTO (Beach Red, 1967); e por último de forma alarmante na ficção científica pós-apocalíptica NO BLADE OF GRASS (1970).

A PROVA DO LEÃO, portanto, inicia esse ciclo e se revela uma verdadeira obra-prima do cinema de aventura do período. Embora sua trama evoque o grande clássico de caçada humana THE MOST DANGEROUS GAME (1932), sua estética e violência inédita e extrema para a época anunciam especialmente grandes obras futuras do gênero de sobrevivência, como WALKABOUT (1970), de Nicolas Roeg, e até CANNIBAL HOLOCAUST (1980), de Ruggero Deodato. E é bem óbvio que deve ter servido de inspiração pra filmes como APOCALYPTO (2007), de Mel Gibson, quase um remake mascarado deste aqui.

A PROVA DO LEÃO se baseia numa aventura real, vivida pelo lendário John Colter (que participou da mítica expedição de Lewis e Clark, uma das maiores desbravadas pelo território americano), mas ficou mais conhecido por ter sido capturado e fugido de uma tribo indígena, os Blackfoot. Depois de matarem seu companheiro, os índios o soltaram nu na floresta para persegui-lo, e uma semana depois, exausto e deixando vários cadáveres de Blackfoot pelo caminho, ele conseguiu retornar à civilização são e salvo, e a lenda de seu feito pôde se espalhar.

Cornel Wilde retoma esse argumento e o transpõe para a África, mais precisamente para a Rodésia (hoje Zimbábue), na era colonial. Cornel Wilde (cujo nome nunca é revelado, creditado apenas como “man“) guia um safári patrocinado por um ricaço amante da caça (Gert Van den Bergh) em busca de marfim. Desde o início, a tensão se instala com a atitude imbecil do caçador. Matando por prazer sádico (um diálogo destaca que ele mata elefantes mesmo que não tenham presas de marfim apenas pelo esporte), ele também demonstra um profundo desprezo pelos nativos ao se recusar a cumprir um ritual de oferenda ao chefe de uma tribo ao atravessar seu território, para a grande consternação do personagem de Wilde, que demonstra ser mais respeitoso.

Daí vem o castigo. Não demora muito, a tribo ofendida os ataca, captura e os leva para sua aldeia. Lá, diante de nossos olhos perplexos, desenrola-se uma sequência impressionante de barbárie, de sacrifícios humanos e torturas sádicas, onde os ocidentais pagam caro por seu desprezo inicial. Fico imaginando o público da época reagindo a essas cenas…

O único que não sofre a mesma fatalidade é o personagem de Wilde, que havia demonstrado respeito e acabam lhe reservando um destino completamente diferente. Despido e humilhado, ele é solto nu na savana. Lhe dão alguma distância de vantagem e, a partir daí, passa a ser perseguido por um bando de caçadores da tribo.

A PROVA DO LEÃO adota um estilo naturalista para ilustrar essa longa caçada humana que dura o restante do filme. Ao filmar em locações reais, foge da superficialidade das recriações em estúdio que eram comuns na época e, em vez disso, nos leva a uma savana aberta, sob um sol escaldante, onde a escassez de água se iguala à falta de lugares para se esconder. Esse visual oferece aos caçadores uma vantagem, não têm dificuldade em seguir os rastros de Wilde até porque, à princípio, ele se mantém à vista no horizonte, por mais distante que esteja.

Assim, temos uma sensação de perigo constante, um sentimento reforçado pela ausência de trilha sonora tradicional, exceto pelos cantos e ritmos tribais que percorrem todo o filme, sinônimo de ameaça iminente. Para sobreviver a esse desafio, Wilde terá que assimilar e aplicar a única regra que importa nesses lugares: a lei dos mais fortes. Durante toda a sua jornada somos bombardeados por várias imagens de arquivo mostrando confrontos de animais de uma brutalidade impressionante, enfatizando esse fato por meio de associação de ideias.

E Wilde luta. A perseguição é angustiante, e em vários momentos os confrontos sangrentos são inevitáveis. O diretor sempre ousa numa abordagem crua, enquanto o personagem encara seus caçadores e os mata, um a um, sem qualquer remorso, se banhando do sangue dos seus inimigos, ilustrando bem essa perda de humanidade e a predominância dos instintos básicos. Ainda estou impressionado com o quão A PROVA DO LEÃO é visceral nesse sentido e como deve ter sido o impacto no público da época.

Antigo campeão esportivo (que quase participou das Olimpíadas de 1936 na esgrima antes de desistir por um papel no teatro), Cornel Wilde, já com mais de cinquenta anos aqui, exibe uma forma física que nem nos meus 25 anos eu conseguia ter; tem aqui uma atuação muito expressiva e determinada, passando por todas as emoções em um filme que praticamente desprovido de diálogos na maior parte do tempo.

Essa lei do mais forte e a loucura dos homens ressurgem na última parte de A PROVA DO LEÃO com a aparição de traficantes de escravos, em mais uma sequência brutal. No entanto, Wilde deixa uma centelha de esperança nesse pico de violência por meio do relacionamento afetuoso entre ele e uma criança nativa que salvou, o que revela uma possibilidade de aproximação entre os povos, baseados não na força, mas na compreensão mútua.

Até então, Wilde evita completamente qualquer tipo de maniqueísmo. Coloca o herói e seus perseguidores em pé de igualdade em seus instintos de sobrevivência e motivações. Aqueles que não respeitaram as leis da natureza (os traficantes de escravos, o caçador racista) são mais estereotipados, enquanto os demais personagens são retratados de forma minimalista, existindo através de suas ações. E o respeito mútuo entre os oponentes ainda é evidente em uma breve saudação final, mostrando que o personagem de Wilde se mostrou digno do desafio mortal lançado a ele.

Eu já deveria ter assistido A PROVA DO LEÃO antes, mas agora que finalmente vi, só posso dizer que valeu a pena. É forte, ousado, retrata uma violência que é difícil de se deparar no cinema americano do período, além de ser um dos grandes filmes de aventura já feitos. Altamente recomendado.

INDIANA JONES – DO PIOR AO MELHOR

Tá nos cinemas um quinto filme do arqueólogo mais famoso do cinema. Quem diria que em pleno 2023 teríamos mais uma aventura de Indiana Jones e estrelado pelo Harrison Ford no auge dos seus aproximados 80 anos… Eu não sei direito o que pensar sobre isso. Mas já que fizeram um novo filme, INDIANA JONES E A RELÍQUIA DO DESTINO, de James Mangold, o primeiro sem a direção do Spielberg, só me resta torcer pra ser bom… Sim, eu ainda não assisti, mas resolvi fazer esse post rankeando os quatro filmes anteriores em ordem da minha preferência pessoal. Do pior ao melhor.

Os filmes ainda estão frescos na minha memória por conta de uma maratona que fiz do Spielberg há poucos anos e rever a franquia de Indiana Jones, um dos principais clássicos da minha infância, é sempre mágico. Bem, quase todos…

4. INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (2008)

É, esse aqui obviamente tem seu lugar garantido no último lugar. É um projeto que tem cheiro de mofo… Lembro de ter curtido em algum nível quando vi no cinema, mas na revisão caiu muito. Os primeiros 20 minutos são os mais próximos que se consegue chegar na essência da trilogia original. Depois, apesar de uma ou outra boa sequência de ação, o filme só afunda cada vez mais num roteiro sofrível e muitas, mas MUITAS mesmo, escolhas erradas (principalmente tudo o que envolve o Shia LaBeouf) até chegar no final constrangedor, quem tem muito a cara de ter sido ideia do George Lucas… Não vou dizer que é uma bomba completa. Se tiver passando na TV dá pra ver umas partes sem pretensão, de boa. Num bom dia talvez até dê pra se divertir. Mas em comparação com os filmes anteriores, não passa de uma aventurazinha sem brilho.

3. INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (1984)

Curioso que no meu mundo distorcido de criança sempre achei O TEMPLO DA PERDIÇÃO o melhor da série. Se me perguntassem há cinco anos atrás, eu não teria dúvida em apontar isso. Mas agora, depois da revisão, pela primeira vez senti inferior aos outros dois restantes… É bem provável que a estrutura de playground de ação não me encante tanto mais quanto a do filme anterior, por exemplo, mais definido conceitualmente na sua ideia de pastiche de matinê. Mas, quero deixar bem claro que este aqui continua maravilhoso. Quero dizer, eu ainda curto um bom “playground de ação”. heheh!

É notório que se trata de um filme mais sombrio que os outros, mas é notável um diretor no auge, com tanto poder e controle em mãos, tanta responsabilidade, e mesmo assim poder se divertir com seu cinema. Você praticamente sente Spielberg rindo fora da tela enquanto dirige aqueles primeiros 20 minutos, que são geniais, inspirado em James Bond; filmando aquela sequência de jantar, servindo cérebro de macaco para a futura esposa, Kate Capshaw; e utilizando os melhores cenários de toda a série para Harrison Ford pular, correr, escapar, trocar socos com bandidos (a perseguição de carrinhos de mineração e a sequência da ponte no clímax ainda impressionam)… Não tem nada mais “spielberguiano” do que o próprio Spielberg filmando como uma criança que brinca com seus bonecos de ação.

2. INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989)

É o que fecha a trilogia inicial e ao mesmo tempo meio que retorna às bases do primeiro filme, com toda a carga de inspiração nos seriados de matinês que Spielberg/Lucas assistiam na infância – uma volta até para um terreno mais seguro depois de O TEMPLO DA PERDIÇÃO – e acrescenta ainda mais elementos que interessam a Spielberg, sobretudo na dinâmica emocional e problemática do relacionamento pai/filho, que é um desses princípios fundamentais do cinema do homem. Provável que seja o filme mais “spielberguiano” da franquia, ainda que não seja – por MUITO pouco – o meu favorito.

Mas não deixa de ser perfeito. O ritmo é frenético, a quantidade de ação é absurda, tem duas das minhas sequências de ação favoritas da série – quando Indy e seu pai fogem de um dirigível até culminar na cena em que o pai derruba um avião com os pássaros, e toda sequência do tanque de guerra no final. Acho que é o filme que mais remete a Buster Keaton em termos de construção de ação na série; e o humor funciona lindamente. Enfim, uma maravilha.

1. OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)

Ah! Onde tudo começou… A obsessão de Spielberg por seriados e filmes de sua juventude ganha uma representação em seu próprio cinema. São as aventuras indianas de Fritz Lang, é James Bond, Humphrey Bogart, Westerns e ódio pelos nazistas, tudo misturado para criar um clássico oitentista que, pra mim, que cresceu assistindo isso aqui até perder as contas, virou sinônimo de tudo o que determina um filme de aventura na sua essência. No quesito “ação”, Spielberg é demonstra ser um dos grandes mestres. Sequências como a que Indy recupera a arca sozinho de dentro de um caminhão, encarando um comboio de nazistas, é digna de antologia di cinema de ação dos anos 80. Mas o grande trunfo deste filme (e da trilogia inicial) é o seu senso de humor, o fato do projeto não se levar muito a sério em momento algum e em conseguir transformar esse pastiche de matinê numa obra-prima.

Acredito que não há a menor possibilidade do quinto filme chegar no mesmo nível disso aqui… Mas tudo bem. Se for divertido já tá de bom tamanho.

OPERAÇÃO DRAGÃO (1973)

OPERAÇÃO DRAGÃO (Enter the Dragon) é um clássico e sobre isso eu não discuto. Sua influência no cinema de artes marciais no mundo todo é evidente. Mas eu sempre brinco dizendo que infelizmente foi logo este filme que se tornou um marco para Hollywood. “Não tinha outros filmes melhores não?” Na verdade, tinha. Existem um milhão de exemplares melhores do período que poderiam ter despertado esse “movimento”. Mas isso é só uma provocação boba. Eu amo OPERAÇÃO DRAGÃO e quero deixar isso bem claro, mesmo com suas falhas. E existe uma infinidade de coisas pra se apreciar aqui e que justificam seu status cult. A principal delas, é óbvio, a presença de um tal Bruce Lee como protagonista.

A história toda foi mais ou menos assim: em 1973, Bruce Lee já era um astro na Ásia, consequência feliz de sua, digamos, incapacidade de se destacar nos Estados Unidos (muita gente esquece que Lee era americano). Limitado à televisão com o seriado O BESOURO VERDE, afastado de um projeto que lhe era querido (a série KUNG FU, cujo papel principal foi dado a David Carradine), considerado “muito chinês” para os papeis que tentava nos EUA no fim dos anos 60… Enfim, Lee se refugiou em Hong Kong e deu início a carreira que conhecemos.

Depois de três filmes, percebendo a oportunidade que perderam, a Warner o chamou de volta para propor uma co-produção com a Golden Harvest, a produtora que o havia acolhido. O filme foi este aqui, OPERAÇÃO DRAGÃO, dirigido por Robert Clouse. Bruce Lee finalmente tinha a chance de conquistar o mercado americano, mesmo compartilhando os holofotes com John Saxon e o estreante Jim Kelly. Teve até carta branca pra cuidar das lutas e coreografias, ou seja, o coração do filme. Até mesmo sua filosofia de combate seria explorada, como por exemplo na sequência inicial, quando luta com um de seus aprendizes (um jovem Sammo Hung) e lhe passa alguns ensinamentos, da mesma forma com um garotinho logo depois… O filme é todo Bruce Lee na sua essência.

Mas aí veio a tragédia. Somado ao fato de que Bruce Lee morreu pouco antes do lançamento de OPERAÇÃO DRAGÃO, sua consagração não apenas como astro do cinema de artes marciais, mas como ícone da cultura pop mundial, ficou garantida. Assim como o sucesso do próprio filme.

Com todos os recursos à disposição, aproveitando a sinergia entre as equipes americana e de Hong Kong, OPERAÇÃO DRAGÃO foi a produção mais “profissional” da curta carreira de Bruce Lee como astro. Mesmo sendo no geral um filme com alma de B Movie, com pegada de história em quadrinhos, um filme de artes marciais com estrutura de James Bond, com uma pitada de blaxploitation… E por aí vai.

Na trama, que todos vocês já conhecem, Bruce Lee interpreta um agente chamado… Lee! Ele é contratado por uma agência de inteligência internacional para descobrir as atividades ilegais do Sr. Han, que patrocina uma competição de artes marciais numa ilha particular que usa como fachada para recrutar agentes para trabalhar no seu império das drogas e tráfico de mulheres.

Ao mesmo tempo, Lee tem outras questões pessoais para resolver na ilha do Sr. Han, já que capangas do vilão foram responsáveis pela morte da irmã do protagonista. Na sua jornada, Lee se junta a Roper (John Saxon) e Williams (Jim Kelly) para quebrar a cara de todo mundo no torneio, ter sua vingança e acabar com os esquemas da quadrilha do Sr. Han.

E é isso, basicamente. Um filme simples, uma trama excêntrica com personagens maneiros e com um bocado de pancadaria, cujo principal objetivo é divertir o seu público. Mas que de alguma forma se tornou um clássico. Bruce Lee esperava, a longo prazo, fazer filmes mais complexos, algo que inicialmente queria infundir já em JOGO DA MORTE, o filme seguinte, que Lee só filmou cerca de 25% e foi finalizado sem ele. Mas o sucesso do filme não exigia algo mais elaborado. Bastava a presença de Lee na tela, fazendo seus movimentos, que o público já estava hipnotizado.

OPERAÇÃO DRAGÃO também é interessante como fantasia estereotipada sobre esse herói não branco, algo que já era perceptível em filmes anteriores de Lee, sobretudo pelo seu jingoísmo, o nacionalismo antinipônico em FÚRIA DO DRAGÃO, ou do confronto contra a supremacia americana em O VÔO DO DRAGÃO, com o massacre de Chuck Norris no Coliseu, um símbolo ocidental. Quase se poderia considerar um ato político a arrancada de pelos no peito de Norris por parte de Lee… E aqui a coisa vai na mesma direção, desde o comportamento sóbrio e puro de Lee, em comparação com os seus amigos americanos (que não hesitam em se fartar de tudo que Sr. Han tem pra lhes oferecer), até a humilhação pra cima de mais um lutador ocidental, vivido por Bob Wall.

Agora a parte negativa. O principal problema de OPERAÇÃO DRAGÃO pra mim é o ritmo e o contraste entre as duas metades de projeção. É um filme que acaba praticamente sofrendo de dupla personalidade. A primeira hora foca mais na trama de espionagem, apresenta esse universo, personagens, que não deixa de ter seu fascínio de um modo geral, mas que ao mesmo tempo é um convite ao sono. Principalmente depois de rever tantas vezes, já acostumado com a história, percebe-se o peso narrativo. O Sr. Han mostrando suas dependências, e os setores de fabricação de droga, à Roper é um troço bem arrastado…

Claro, o arco com o Jim Kelly continua uma maravilha, o rapaz demonstrava porque foi considerado o Bruce Lee da Blaxpoitation – guardando as devidas proporções. E eu até gosto muito da traminha pulp de espionagem que temos aqui, mas só depois de passar um bom período de marasmo, conduzido com um ritmo bem caído, que o filme se transforma num exemplar de ação completo, com os últimos 40 minutos envolvendo Lee e a turma “do bem” numa pancadaria contra uma ilha inteira de bandidos.

Outro problema, que na verdade não é bem um problema, é algo que, pessoalmente, acho que tira um pouco a chance que o filme teria de ser ainda melhor, é o fato de que em OPERAÇÃO DRAGÃO o personagem de Bruce Lee é bom demais na porrada. E não tem ninguém que esteja no mesmo nível. Não só aqui, mas em qualquer filme que isso aconteça é algo que não curto. Perde um pouco a graça. Óbvio que é legal vê-lo esmurrando um exército inteiro de capangas, mas não vai ser uma salinha de espelhos ou lâminas no lugar da mão que vai te ajudar a derrotar o herói… No fim das contas, o personagem de Lee não tem páreo e derrota todos nessa sua jornada com uma facilidade quase frustrante.

Só não chega a ser realmente frustrante porque aí entra o trabalho do Robert Clouse, que tava muito inspirado quando filmou OPERAÇÃO DRAGÃO, e consegue entregar uma boa dose de cenas de pancadaria e do uso da imagem icônica de Bruce Lee como artista marcial. Há duas cenas de destaque: primeiro, na base do vilão, depois de se esgueirar pelos seus esconderijos, temos a luta (parcialmente em câmera lenta) de Lee sozinho contra uma horda de agressores (incluindo um jovem Jackie Chan) surgindo de todos os lados do quadro. É um deleite ver Bruce Lee no centro da tela a mover e desferir seus golpes, com seu momento nunchaku… Um clássico.

Pra quem não sabia, esse moço levando porrada do Bruce Lee é o Jackie Chan.

E depois no duelo final com o Sr. Han. Sei que já reclamei que o vilão final não é páreo para o herói, mas, nossa, ainda causa impacto o uso dos espelhos e a maneira como Clouse conduz essa surra toda. Tudo bem, Bruce Lee levas uns cortes. Passa o dedo na ferida, lambe, outro momento icônico… No fim das contas é isso que importa. A imagem cristalizada de Bruce Lee fazendo poses que se tornariam objeto de culto no imaginário pop. Todo o restante é secundário, exceto a partitura de Lalo Schiffrin sempre muito elegante. E claro, a presença de John Saxon, um ator que adoro e que tá ótimo aqui (apesar de não ser ligado ao gênero, o sujeito tinha background em artes marciais), Jim Kelly mostrando potencial, um jovem Bolo Yeung quebrando a espinha de um adversário, entre outras figuras do cinema popular de Hong Kong. Mas OPERAÇÃO DRAGÃO é Bruce Lee até o talo e não seria a mesma coisa sem ele.

Assim, quando o vilão é eliminado e os créditos finais começam a rolar, OPERAÇÃO DRAGÃO não deixa dúvidas dos motivos de seu sucesso, de ter sido repetidamente copiado pelo cinema de artes marciais nas décadas seguintes, sobretudo em Hollywood, tentando recriar a sua magia original mesmo que, como disse na abertura do texto, existam filmes muito melhores nessa mesma época. Em 2023 o filme completa 50 anos e continua uma sessão obrigatória de tempos em tempos.

6 MELHORES FILMES DE AÇÃO DE 2023… POR ENQUANTO

Este ano tem surpreendido no quesito ação e eu posso provar. Aos fãs do gênero, corram pra ver essas recomendações, porque 2023 ainda promete algumas surpresas pro segundo semestre.

6. PATHAAN , de Siddharth Anand
Esse era um dos filmes de ação que eu mais aguardava este ano. Mas acabei gostando mais do filme anterior do Anand, WAR (2019), que recomendo fortemente pra quem quiser adentrar no mundo mágico do cinema de ação da Índia. Agora, PATHAAN é puro suco do blockbuster genérico de Bollywood, mas que demonstra que até nesse tipo de produto os indianos conseguem fazer um troço hipnótico visualmente e extremamente divertido. O filme é uma montanha russa explosiva, cheia de ação que qualquer indivíduo interessado em MISSÃO: IMPOSSÍVEL, 007, VELOZES E FURIOSOS, Michael Bay, vai aproveitar bem e sair da sessão com um sorriso no rosto.

O astro de Bollywood Shah Rukh Khan tá sensacional aqui como herói da parada, consegue ser tão carismático quanto badass; o vilão de John Abraham é muito bom; Deepika Padukone é maravilhosa em todos os sentidos; e a ação, de um modo geral, é insana, com destaque pra sequência da apresentação do personagem do SRK – um tiroteio frenético com direito a um helicóptero fazendo manobras radicais dentro de um hangar – e a do trem, um festival de pancadaria, balas e explosões que sozinha já paga o ingresso… Uma das melhores do ano. Genérico ou não, o Siddharth Anand demonstra porque é um dos diretores mais interessantes a ser seguido no cinema Hindi. Tem disponível no Prime.

5. RESGATE 2 (Extraction 2), de Sam Hargrave
Assisti há poucos dias, assim que entrou na Netflix. Posso estar ainda momentaneamente empolgado com este filme, mas foi uma experiência de ação daquelas, com toda a carga de adrenalina que os apreciadores do gênero merecem. A trama é simplória, o final é um pouco decepcionante (em comparação com as outras sequências de ação do filme) e é um crime ter o Daniel Bernhardt como capanga do vilão e não aproveitá-lo da forma correta – ou seja, pelo menos uma sequência de pancadaria digna. Tirando isso, puta filme. Em termos de AÇÃO, com esses dois filmes no currículo, acho que não é exagero colocar esse Sam Hargrave entre os grandes diretores do gênero na atualidade em Hollywood. Trabalho de câmera fantástico e a sequência da prisão/perseguição/fuga no trem tá entre as mais espetaculares do ano (outra sequência de trem…). Não tô nem aí se o Chris Hemsworth quer se aposentar, segurem o homem pra um terceiro!

4. WALTAIR VEERAYYA, de Bobby Kolli
Pra quem já tá acostumado com o cinema indiano, isso aqui é um típico masala com suas megalomanias na trama, reviravoltas, humor, nas músicas e na ação hiper exagerada. Ou seja, uma delícia do início ao fim. Mas o que torna WALTAIR VEERAYYA um troço mágico é a performance do “megastar” Chiranjeevi, um dos maiores ícones do cinema Telugo, que faz o personagem título e oferece aqui uma das figuras mais incríveis do cinema indiano recente.

Provavelmente alguns de vocês já viram no YouTube uma sequência de ação meme de um filme indiano dos anos 90 em que um sujeito desliza com um cavalo por baixo de um caminhão… Aquele sujeito é ninguém mais ninguém menos que Chiranjeevi! O sujeito é gênio. Podem ir que a diversão é garantida com WALTAIR VEERAYYA. Fica a dica de mais um filmaço indiano pra vocês conhecerem. Disponível na Netflix.

3. THUNIVU, de H. Vinoth
Sim, mais um filme indiano. Uma produção tamil. THUNIVU começa como um thriller de ação de assalto a banco e se transforma num drama de consciência financeira e análise social do mundo dos bancos. Tudo ligado no 220, num ritmo frenético de tirar o fôlego que mistura excelentes doses de ação com uma escrita socialmente consciente e boas reviravoltas nos seus 146 minutos. Mas o que realmente faz disso aqui um grande filme é a presença do astro do cinema tamil Ajith Kumar como protagonista, que domina o espetáculo quando tá em cena e constrói um dos melhores personagens do ano. Com todo respeito, nenhuma performance dos indicados a melhor ator do Oscar deste ano chega aos pés deste homem. É ver para crer e espero que alguns de vocês vejam esse filmaço! O filme tá na Netflix.

2. FAST X, de Louis Leterrier
Apesar de nunca ter escrito sobre os filmes, já devo ter pelo menos mencionado por aqui que amo a série VELOZES E FURIOSOS. E este décimo exemplar é uma delícia! Uma coisa que adoro é como tudo aqui é basicamente uma consequência de FAST FIVE, que é o meu favorito da série, então foi legal ver como eles amarraram tudo. Mas de certa forma é um FAST & FURIOUS que quebra um bocado as expectativas, diferente do que ficamos acostumados a ver nos últimos filmes. É o começo de uma suposta trilogia que vai fechar a franquia, com uma abordagem narrativa distinta, uma outra cadência, o filme espalha os personagens em blocos e mantém mistérios e surpresas para serem resolvidas nos próximos episódios… Ao mesmo tempo tá tudo ali num alto nível de diversão, na figura mítica de Dom Toretto e sua ideia de família que, como conceito, é imortal pra franquia tanto de forma figurativa quanto literal. Um dos personagem novos resume bem num momento expositivo no início do filme: “É como uma seita com carros”.

Até a ação é peculiar. Tirando a sequência de Roma, que tem um grau de destruição mais grandioso, os próprios set pieces de FAST X me parecem dar um passo atrás em escala épica, indo contra o crescendo que havia nos últimos filmes – um submarino no 8, ir para o espaço no 9 – a coisa aqui retorna às acrobacias dos carros, mas sem deixar de desafiar as leis da física, obviamente… O que é bom, porque o Leterrier tá bem longe de ser um Justin Lin, F. Gary Gray ou James Wan. Mas até que o francês consegue mandar bem na medida do possível nessa “escala menor”, com pancadarias, tiroteios e perseguições, até chegar num clímax mais espetacular que é realmente muito bom e entrega o nível de adrenalina esperado. E nisso tudo as atenções acabam indo pra outro elemento do filme que é simplesmente fodástico, que é a composição de Jason Momoa, psicótico, afetado, maravilhoso em cada frame. Tem vários personagens que se destacam aqui em algum momento, mas nada se compara a Momoa. Disparado o melhor vilão de toda a franquia. Enfim, eu achei divertido pra caramba. Já ansioso pelo(s) próximo(s) capítulo(s).

1. JOHN WICK 4: BABA YAGA (John Wick: Chapter 4, 2023), de Chad Stahelski
Pra fechar essa relação, replico basicamente a mesma coisa que disse quando assisti a essa obra-prima moderna da ação, na época do lançamento. BABA YAGA veio pra coroar a grandeza de tudo que envolve JOHN WICK como cinema, como personagem, como universo, como narrativa e estética de filme de ação. Os dois primeiros atos são, em grande parte, mais do mesmo. O que não é de forma alguma algo negativo, pois o mais do mesmo em JOHN WICK é muito bom, com alguns momentos geniais: tudo que envolve a participação de Scott Adkins, por exemplo, que tá brilhante aqui. Donnie Yen, Sanada, Mark Zaror, Bill Skarsgård, Clancy Brown, Ian McShane, Lance Reddick (RIP), Laurence Fishburne… Baita elenco e estão todos ótimos. Keanu Reeves nem preciso mencionar, o sujeito é uma força da natureza.

Mas aí vem aquele terceiro ato… O arco do triunfo; a homenagem à THE WARRIORS; Paint It Black; o plano sequência com a câmera no alto, digna de um Brian De Palma, acompanhando John Wick por cômodos numa casa abandonada, tocando o terror com uma arma que cospe fogo, literalmente; a escadaria da Basílica de Sacré Cœur… O que temos aqui é simplesmente algumas das sequências de ação das mais absurdas colocadas num filme de estúdio hollywoodiano. Neste momento, não tenho dúvidas em apontar que Chad Stahelski é o principal nome do gênero na atualidade. E só posso dizer que é um grande momento para ser fã de filmes de ação.

CORRENTES DO INFERNO (1983)

A carreira da Linda Blair certamente tomou um rumo interessante após O EXORCISTA. Filmecos de terror, aproveitando sua imagem da garotinha endemoniada do clássico de William Friedkin, mas também participou de vários exploitation barra pesada. Já comentei, por exemplo, aqui no blog sobre RUAS SELVAGENS (1984). E agora me deparei com ela fazendo a personagem central nesse petardo do cinema de mulheres em penitenciárias, os famigerados WIP (Women in Prison), CHAINED HEAT, que no Brasil tem o título genial de CORRENTES DO INFERNO, dirigido por um tal Paul Nicholas, e certamente é um dos principais representantes do gênero nos anos 80.

Carol (Blair) é condenada por homicídio culposo em um atropelamento e é enviada para a prisão por dezoito meses. Embora a novata tenha sido “adotada” pela detenta durona Val (Sharon Hughes), todos os outros indivíduos que povoam o local parecem determinados a tornar a experiência de Carol na prisão um verdadeiro inferno.

A líder da gangue de branquelas, Ericka (Sybil Danning no auge da beleza – preciso dizer mais alguma coisa?), está interessada em Carol, mas depois de uma proposta durante um banho coletivo – sequência tão icônica do cinema de exploração que mesmo antes de ver o filme eu já conhecia – Carol a rejeita e começa uma jornada difícil para nossa pequena ex-menina possuída.

Somos apresentados à Capitã Taylor, interpretada pela grande Stella Stevens, em um papel fora do seu habitual, mas que desempenha perfeitamente. Ela está envolvida em uma busca pelo poder supremo contra o diretor Bacman, interpretado por John Vernon. Bacman provavelmente é o maior pilantra de todos. Você precisa ver seu escritório na prisão para acreditar! Ele leva as jovens bonitas da prisão para a sua jacuzzi particular (sim, isso mesmo, em seu escritório), dá a elas todas as drogas que querem e as filma fazendo striptease, entre outras coisas dentro da jacuzzi. Olha, no departamento sexo e nudez, CORRENTES DO INFERNO não tá pra brincadeira. A sequência que a musa Monique Gabrielle faz um strip pro Vernon sob as lentes de sua filmadora logo no início é um dos pontos altos do filme…

Há um sério problema de tráfico de drogas ocorrendo na prisão, e Bacman quer chegar ao fundo disso – afinal, ele ainda é o diretor do local. Sua “informante” (Gabrielle) que vemos no início do filme é morta por Ericka e suas cúmplices, todas em conluio no tráfico com a Capitã Taylor e seu amante traiçoeiro Lester, interpretado por ninguém menos que Henry Silva. Sim, o elenco é só surpresas das boas!

No entanto, Lester está secretamente envolvido com Ericka sem que Taylor saiba. Enquanto tudo isso se desenrola, a líder da gangue de mulheres negras, Dutchess, interpretada pela musa da blaxploitation Tamara Dobson, de CLEOPATRA JONES, busca vingança pelo assassinato bruto e violento de uma de suas amigas. Há um nível surpreendente de cenas brutais e sangrentas nessa obra, devo alertá-los.

Mais caos se desenrola quando Ericka e Dutchess lutam com correntes no pátio. Depois que Carol, (lembram dela? é a protagonista interpretada pela Blair) é estuprada por Bacman, a maré começa a mudar na prisão. Taylor quer o cargo mais alto, então ela e sua guarda-costas durona afogam Bacman em sua jacuzzi durante suas “brincadeiras”, agora com Val, a amiga de Carol, que estava ali com o objetivo de… Ah, nem lembro mais, mas acho que era uma tentativa de roubar as filmagens das câmeras do diretor que serviriam como prova de que ele estuprou a protagonista. Mas pra manter o assassinato em segredo, Val acaba brutalmente espancada até a morte.

Para garantir sua promoção, Taylor promete às autoridades que encontrará o assassino da pobre Val, plantando evidências em Ericka. Quando o porrete ensanguentado usado em Val é encontrada na cama de Ericka, as detentas decidem que já tiveram o bastante. E como todo bom e velho filme de prisão de mulheres só fica completo depois de uma revolta sangrenta no final, cá estamos.

Não tem como errar com CORRENTES DO INFERNO. Há tanta coisa acontecendo que eu deixei alguns desenvolvimentos da trama de fora dessa descrição toda. É praticamente um seriado de dez capítulos condensados em 90 minutos. Quase todo mundo nesse filme aparece sem roupa em algum momento – o que é esperado se Sybil Danning está envolvida – é corrupto, trafica drogas, é espancado ou espanca alguém de forma bruta.

A atuação num geral é boa, apesar da temática que envolve vários “temas” do cinema de exploração, tudo bastante exagerado, com Stella Stevens especialmente saboreando suas maldades. Linda Blair cumpre bem o que lhe é proposto, tem seu arco de transformação, se torna durona no final, o que é um alívio depois de todas as suas tribulações durante o filme. Ainda temos Robert Miano no papel mais abjeto e repulsivo do filme, o guarda estuprador. Os penteados são puro suco dos anos 80 e a música é inconfundivelmente datados, o que aumenta o fator de nostalgia geral.

Se alguém aí é adepto ou curiosso sobre o subgênero W.I.P. e não assistiu ainda a CORRENTES DO INFERNO, dê uma olhada. É um clássico, uma jornada frenética pelo mundo do cinema de exploração em seu melhor estilo intransigente. Teve três continuações, sem qualquer ligação com este primeiro, a não ser pelos títulos e por se passarem em prisões femininas…