A TRILOGIA EUROSPY DE SERGIO SOLLIMA

Antes de se tornar um dos grandes nomes do spaghetti western, e do cinema popular italiano, Sergio Sollima passou pelo terreno cinematográfico do eurospy. Inspirados diretamente pelo sucesso global de James Bond, esses longas misturavam espionagem internacional, ação estilizada, locações exóticas e um charme um pouco mais discreto do que Hollywood fazia na época.

Em dois anos, 1965 e 1966, Sollima dirigiu três aventuras que hoje funcionam como cápsulas do tempo, um retrato do otimismo tecnológico, das tensões da Guerra Fria e da estética pop dos anos 60. Como ando peregrinando pela filmografia do diretor, revisito aqui esses primeiros trabalhos e que, embora nenhum deles seja exatamente grandes filmes, destaco como já anunciavam a mão firme de um cineasta que, em breve, trocaria agentes secretos por pistoleiros.

Agente 3S3: Passaporto per l’inferno, 1965

A estreia de Sergio Sollima na direção de longas-metragens veio nesse exemplar modesto do filão eurospy que, apesar das limitações, já deixava entrever alguns traços que definiriam sua carreira. Um filme que abraça as convenções do gênero, com seus agentes secretos implacáveis, vilões de sotaque indefinido, locações internacionais, com o diretor começando a mostrar certo domínio visual. A trama é genérica, o Agente 3S3 (George Ardisson) precisa enfrentar uma organização misteriosa com planos de dominação global, nem que para isso tenha que seduzir uma jovem cujo pai possui envolvimento com a organização. Por vezes, o filme sofre de um ritmo irregular, mas Sollima compensa com um certo refinamento e um gosto claro por ambientações exóticas, explorando bem cenários como Beirute e o Mediterrâneo. Ardisson, embora fisicamente adequado ao papel, carece do carisma necessário para sustentar um herói de espionagem por conta própria, especialmente num gênero que vivia à sombra de Sean Connery.

Entre os momentos que se destacam, há algumas sequência de luta que demonstra, mesmo com recursos limitados, que Sollima já tinha noção de como coreografar movimento e espaço, habilidade que mais tarde brilharia em seus faroestes políticos e polizieschi. Longe da complexidade temática de seus futuros spaghetti westerns, PASSAPORTO PER L’INFERNO é um debut que cumpre sua função, inaugura uma filmografia, revela um olhar atento para a encenação e deixa claro que Sollima, mesmo preso a uma fórmula, estava disposto a procurar brechas para imprimir estilo.

Agente 3S3, massacro al sole, 1966

No segundo capítulo da série 3S3, e também o segundo longa da carreira de Sollima, o diretor continua jogando de acordo com o manual do eurospy sessentista, mas já demonstra um controle mais seguro sobre ritmo, encenação e, sobretudo, ação. O filme é mais colorido, mais exótico e mais delirante do que o anterior. Combinação que rende um filme também mais divertido e mais abertamente sexy. George Ardisson, novamente no papel do agente 3S3, parece ter relaxado, ou, pelo menos, entendido melhor o tom que o gênero exige. Ao seu redor, Sollima reúne um elenco robusto do cinema popular italiano: Frank Wolff, sempre magnético; Fernando Sancho, trazendo aquele carisma de bandido folclórico; Eduardo Fajardo, especialista em vilões calculistas; e até um ainda desconhecido Romano Puppo, surgindo discretamente em uma pequena participação.

O filme se beneficia de locações ensolaradas e boas sequências de ação. Sollima filma tudo com um senso de espaço mais claro do que no primeiro longa, permitindo que a ação respire e que o espectador acompanhe cada deslocamento. Mais do que uma continuação, MASSACRO AL SOLE funciona como um exercício de estilo, um aquecimento curioso para a guinada política e dramática que viria a definir sua fase mais celebrada nos spaghetti westerns.

Requiem per un agente segreto, 1966

Entre os três eurospy que marcaram o início da carreira de Sergio Sollima, este é o que mais gosto. Mais elegante e, ao mesmo tempo, mais sombrio, o filme se afasta da imagem reluzente do espião perfeito e aposta num tom amargo, quase um 007 às avessas. Aqui, o protagonista, vivido com autoridade por Stewart Granger, é um agente cínico, frio e pragmático, que não hesita em recorrer a métodos nada ortodoxos: tortura, assassinato e até violência contra mulheres se tornam ferramentas de trabalho na busca por resultados. O contraponto a essa figura é o agente norueguês Olafsson, interpretado por Giulio Bosetti, cuja ética e idealismo frequentemente colidem com o pragmatismo brutal do colega. Essa parceria tensa, metade colaboração, metade duelo moral, é o coração do filme. De um lado, a eficácia sem escrúpulos; do outro, a hesitação de quem ainda acredita em princípios.

Sollima, já mais seguro (o segundo filme da série já indicava essa evolução), aproveita bem as possibilidades do gênero: belas locações que transportam o espectador de um continente a outro, vilões caricatos que parecem saídos de páginas de quadrinhos, mulheres fatais que jogam com sedução e perigo, e um leque de situações absurdas que são a alma da espionagem cinematográfica dos anos 60. Mas o que ele acrescenta aqui é um humor mordaz e um retrato desencantado da moral em plena Guerra Fria, um lembrete de que, nos bastidores das missões, a linha entre herói e vilão é muito mais tênue do que os padrões do gênero sugere. Só pelo duelo de interpretações entre Granger e Bosetti, o filme já se coloca alguns degraus acima dos dois trabalhos iniciais de Sollima. Mas é o equilíbrio entre espetáculo, cinismo e ironia que o transforma no ponto alto da sua fase eurospy.

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