ALDRICH – FINAL: 1977 – 1981

O ÚLTIMO BRILHO DO CREPÚSCULO (Twilight’s Last Gleaming, 1977)
O próprio Aldrich considerava isso aqui um de seus trabalhos favoritos, apesar do fracasso comercial, provavelmente porque o sujeito não media esforços para refletir todo o desencanto que assombrava a sociedade americana, com um climão político extremamente pessimista. O filme se passa ao longo de um dia, quando um general idealista (Burt Lancaster) assume o controle de uma base de mísseis nucleares e chantageia o presidente dos EUA, interpretado por um fenomenal Charles Durning, para revelar ao povo americano as mentiras do governo sobre o envolvimento dos EUA no Vietnã. O que se segue são 146 minutos de uma aula de tensão implacável do início ao fim, com um domínio preciso de Aldrich, fazendo um uso excepcional de split-screen, e com um elenco afiado que inclui Richard Widmark, Paul Winfield, Burt Young, Melvyn Douglas, Joseph Cotten e uma participação pequena, mas intensa, do grande William Smith.

THE CHOIRBOYS (1977)
É meio que o M.A.S.H. do Aldrich, com estrutura de esquetes e sem uma trama tão definida, só que acompanhando policiais no seu trabalho diário em situações, digamos, cômicas, e por isso talvez um precursor dos LOUCADEMIA DE POLÍCIA. Só não digo que é o pai desses filmes, porque tá mais pro tio reacionário do churrasco… Mas é um filme que era ofensivo num período que o público entendia a ironia da coisa, da sátira e da crítica da sociedade que o filme faz. A sorte é que hoje continua sendo um trabalho pouco visto e conhecido do Aldrich, se fosse descoberto por um certo público cinéfilo de redes sociais, formado quase predominantemente por jegues, seria taxado de um monte de coisa (um filme homofóbico, misógino, racista, etc). Pelo gênero em si, nem acho o filme exatamente engraçado, ele é mais curioso, gera um certo fascínio pelo absurdo e pelas viradas mais trágicas que acontecem lá pro final. Mas é um filmaço.

O RABINO E O PISTOLEIRO (The Frisco Kid, 1979)
O penúltimo filme de Aldrich é um buddy movie de comédia e faroeste com boa química entre Gene Wilder e Harrison Ford e um ou outro momento engraçado. O rabino Avram (Wilder) chega à Filadélfia vindo da Polônia a caminho de São Francisco, onde será o novo rabino de uma congregação. Inocente e inexperiente, é enganado por golpistas. É acolhido por um estranho, Tommy (Ford), que é um ladrão de bancos, e acabam tendo muitas aventuras durante a jornada. Pela trama até poderia render algo melhor, mas o filme não ajuda muito… Longo, enfadonho, a maioria das piadas e situações não tem lá muita graça. Só não vou dizer que o Aldrich tava cansado em final de carreira porque ele ainda lançou um petardo daqueles como canto de cisne, que é o GAROTAS DURAS NA QUEDA aí embaixo. Por aqui, não sei realmente dizer o que aconteceu, mas o resultado tá bem abaixo do esperado…

GAROTAS DURAS NA QUEDA (…All the Marbles, 1981)
Um dos meus favoritos do diretor, um de seus trabalhos mais bonitos. Road movie que acompanha Peter Falk como Harry, o empresário de uma dupla de atletas de “luta livre”, Iris (Vicki Frederick) e Molly (Laurene Landon), enquanto viajam pelos Estados Unidos tentando ganhar a vida. Uma dureza danada, um universo de violência, amoral, sujo e de chantagens, mas que Aldrich consegue extrair uma ternura absurda, uma riqueza de espírito que jorra da tela. O papel de Harry foi originalmente escrito para Paul Newman, mas acho que o sujeito não teria se adequado tão bem quanto Falk, cujo ar de desleixo e presença física o torna perfeito. Como muitos dos personagens mais interessantes de Falk, Harry é moralmente nebuloso e nem sempre encontra o equilíbrio entre ajudar sua equipe e explorá-la. Mas apesar de suas ocasionais falhas éticas, o coração de Harry está no lugar certo, e ele e Iris e Molly compartilham um dos relacionamentos mais bonitos que já vi. Alguns dos melhores momentos ocorrem no carro velho e precário de Harry, enquanto os três planejam o que vão comer, quanto cigarro ainda falta, possíveis jogadas de marketing, truques, e sonham por uma vida melhor que não seja uma extensão do ringue, onde levam cacetadas o tempo todo… Foi o último filme de Aldrich (ele já tava planejando uma continuação deste aqui). Deu tempo de deixar mais uma obra-prima.

Fim da maratona.

INDIANA JONES – DO PIOR AO MELHOR

Tá nos cinemas um quinto filme do arqueólogo mais famoso do cinema. Quem diria que em pleno 2023 teríamos mais uma aventura de Indiana Jones e estrelado pelo Harrison Ford no auge dos seus aproximados 80 anos… Eu não sei direito o que pensar sobre isso. Mas já que fizeram um novo filme, INDIANA JONES E A RELÍQUIA DO DESTINO, de James Mangold, o primeiro sem a direção do Spielberg, só me resta torcer pra ser bom… Sim, eu ainda não assisti, mas resolvi fazer esse post rankeando os quatro filmes anteriores em ordem da minha preferência pessoal. Do pior ao melhor.

Os filmes ainda estão frescos na minha memória por conta de uma maratona que fiz do Spielberg há poucos anos e rever a franquia de Indiana Jones, um dos principais clássicos da minha infância, é sempre mágico. Bem, quase todos…

4. INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (2008)

É, esse aqui obviamente tem seu lugar garantido no último lugar. É um projeto que tem cheiro de mofo… Lembro de ter curtido em algum nível quando vi no cinema, mas na revisão caiu muito. Os primeiros 20 minutos são os mais próximos que se consegue chegar na essência da trilogia original. Depois, apesar de uma ou outra boa sequência de ação, o filme só afunda cada vez mais num roteiro sofrível e muitas, mas MUITAS mesmo, escolhas erradas (principalmente tudo o que envolve o Shia LaBeouf) até chegar no final constrangedor, quem tem muito a cara de ter sido ideia do George Lucas… Não vou dizer que é uma bomba completa. Se tiver passando na TV dá pra ver umas partes sem pretensão, de boa. Num bom dia talvez até dê pra se divertir. Mas em comparação com os filmes anteriores, não passa de uma aventurazinha sem brilho.

3. INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (1984)

Curioso que no meu mundo distorcido de criança sempre achei O TEMPLO DA PERDIÇÃO o melhor da série. Se me perguntassem há cinco anos atrás, eu não teria dúvida em apontar isso. Mas agora, depois da revisão, pela primeira vez senti inferior aos outros dois restantes… É bem provável que a estrutura de playground de ação não me encante tanto mais quanto a do filme anterior, por exemplo, mais definido conceitualmente na sua ideia de pastiche de matinê. Mas, quero deixar bem claro que este aqui continua maravilhoso. Quero dizer, eu ainda curto um bom “playground de ação”. heheh!

É notório que se trata de um filme mais sombrio que os outros, mas é notável um diretor no auge, com tanto poder e controle em mãos, tanta responsabilidade, e mesmo assim poder se divertir com seu cinema. Você praticamente sente Spielberg rindo fora da tela enquanto dirige aqueles primeiros 20 minutos, que são geniais, inspirado em James Bond; filmando aquela sequência de jantar, servindo cérebro de macaco para a futura esposa, Kate Capshaw; e utilizando os melhores cenários de toda a série para Harrison Ford pular, correr, escapar, trocar socos com bandidos (a perseguição de carrinhos de mineração e a sequência da ponte no clímax ainda impressionam)… Não tem nada mais “spielberguiano” do que o próprio Spielberg filmando como uma criança que brinca com seus bonecos de ação.

2. INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989)

É o que fecha a trilogia inicial e ao mesmo tempo meio que retorna às bases do primeiro filme, com toda a carga de inspiração nos seriados de matinês que Spielberg/Lucas assistiam na infância – uma volta até para um terreno mais seguro depois de O TEMPLO DA PERDIÇÃO – e acrescenta ainda mais elementos que interessam a Spielberg, sobretudo na dinâmica emocional e problemática do relacionamento pai/filho, que é um desses princípios fundamentais do cinema do homem. Provável que seja o filme mais “spielberguiano” da franquia, ainda que não seja – por MUITO pouco – o meu favorito.

Mas não deixa de ser perfeito. O ritmo é frenético, a quantidade de ação é absurda, tem duas das minhas sequências de ação favoritas da série – quando Indy e seu pai fogem de um dirigível até culminar na cena em que o pai derruba um avião com os pássaros, e toda sequência do tanque de guerra no final. Acho que é o filme que mais remete a Buster Keaton em termos de construção de ação na série; e o humor funciona lindamente. Enfim, uma maravilha.

1. OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)

Ah! Onde tudo começou… A obsessão de Spielberg por seriados e filmes de sua juventude ganha uma representação em seu próprio cinema. São as aventuras indianas de Fritz Lang, é James Bond, Humphrey Bogart, Westerns e ódio pelos nazistas, tudo misturado para criar um clássico oitentista que, pra mim, que cresceu assistindo isso aqui até perder as contas, virou sinônimo de tudo o que determina um filme de aventura na sua essência. No quesito “ação”, Spielberg é demonstra ser um dos grandes mestres. Sequências como a que Indy recupera a arca sozinho de dentro de um caminhão, encarando um comboio de nazistas, é digna de antologia di cinema de ação dos anos 80. Mas o grande trunfo deste filme (e da trilogia inicial) é o seu senso de humor, o fato do projeto não se levar muito a sério em momento algum e em conseguir transformar esse pastiche de matinê numa obra-prima.

Acredito que não há a menor possibilidade do quinto filme chegar no mesmo nível disso aqui… Mas tudo bem. Se for divertido já tá de bom tamanho.

O FUGITIVO (1993)

Sabe aquela máxima que usamos quando relatamos uma história interessante que aconteceu e percebemos que o relato nunca vai ser suficiente pra deixar, seja lá quem for, tão fascinado quanto nós, que vivenciamos o fato? Dizemos algo do tipo: “Você tinha que estar lá pra ver“… O mesmo vale para filmes. Vocês simplesmente tinham que estar lá quando tal filme foi lançado nos cinemas, ou nas locadoras – antes que seu impacto fosse diluído pela repetição e imitação – para entender porquê aquele tal filme foi bem sucedido, ou foi um fenômeno, até hoje se fala dele, etc…

Isso tudo me remete ao caso de O FUGITIVO (The Fugitive), de Andrew Davis, que finalmente revi depois de mais de vinte anos…

Assistí-lo hoje pela primeira vez pode até dar a impressão de um filme banal e repetitivo, mas se vocês estiveram lá na época do lançamento, lembram que se tratou de um dos grandes acontecimentos do cinema blockbuster da primeira metade dos anos 90, com uma massiva campanha de marketing, cartazes e revistas estampando o Harrison Ford correndo de alguma coisa, e o trailer passando até na TV aberta… O FUGITIVO foi um enorme sucesso de bilheteria, foi bem elogiado pela crítica, teve o Tommy Lee Jones ganhando o Oscar de ator coadjuvante, e o próprio filme foi indicado para a categoria principal de Melhor Filme (perdeu para A LISTA DE SCHINDLER). O filme em si, apesar de não ter nada de original, foi um dos exemplares responsáveis por modelar a estética do thriller de ação dos anos 90, influenciando uma penca de filmes a partir dali. Então acho que dá pra ter uma noção do que foi O FUGITIVO. Do seu impacto. Mas “Você tinha que estar lá pra ver“…

A trama, acredito, todo mundo conhece. Até quem nunca viu. Baseado numa série de TV dos anos 60, temos uma trama meio Hitchcockiana sobre Richard Kimble (Ford), um médico que se vê fugindo da lei após o assassinato brutal de sua esposa, tentando provar sua inocência ao mesmo tempo em que precisa encontrar o real assassino. E como na série de TV, o público nunca duvida da inocência do sujeito ou mesmo de sua crença de que o verdadeiro perpetrador é um “homem de um braço”.

Kimble é o herói perfeito – combinando inteligência com notável resistência física e um toque de compaixão – e o fato de ser interpretado por Harrison Ford, ator que sempre teve o dom de causar o nível certo de empatia, para não mencionar um astro já alojado na cultura pop com personagens como Han Solo e Indiana Jones, ajuda muito. Então acabamos comprando a perfeição do bom Dr. Kimble sem muita dificuldade. E Ford tá realmente ótimo no papel.

Mas, como um bom filme de policial, um bom filme de perseguição, a coisa realmente prospera quando o herói tem a contraparte certa como desafio. Sam Gerard de Tommy Lee Jones, o US Marshall que passa o filme inteiro obstinado no rastro de Kimble, é um adversário digno, tão afiado e tão duro quanto sua presa. Talvez seja o indivíduo mais mais humano do filme, um homem dividido entre o dever e a crença pessoal. Jones é tão bom que (além de ter ganhado o Oscar, como já mencionei) o personagem chegou a assombrar sua carreira. Ele o reprisou oficialmente no filmaço US MARSHALS, de 1998, mas esse tipo de personalidade o seguiu durante muito tempo em filmes como MIB – HOMENS DE PRETO (97), o petardo de William Friedkin CAÇADO (03), que é quase um terceiro capítulo espiritual deste aqui, e já mais envelhecido em ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (07).

A relação que se estabelece entre Gerard e Kimble é bem mais interessante do que aquela entre Kimble e a figura do vilão real do filme (seja o homem de um braço ou o verdadeiro mandante que a trama revela), o que pode ser o motivo pelo qual o clímax do filme, a troca de socos entre herói e vilão permaneça menos na mente do que muitos dos momentos compartilhados entre Kimble e Gerard ao longo da caçada, como por exemplo a já clássica sequência dos túneis da represa, onde ocorre o primeiro contato dos dois e que culmina com Kimble se jogando de uma altura considerável…

Ui, ui, mas era pra ele ter morrido na queda, ninguém sobrevive pulando de uma altura assim, blá, blá, blá”… O tipo de coisa que eu passei décadas ouvindo. Mas a minha resposta é sempre a mesma. Meu amigo, se você quiser realismo, eu posso indicar uns bons documentários.

Já elogiei por aqui no blog o trabalho do diretor Andrew Davis. Um sujeito que faz filme com Chuck Norris e dois dos melhores veículos de Steven Seagal merece sempre meu respeito. Aqui consegue se sair muito bem, demonstrando suas habilidade sob a batuta de um grande estúdio, onde tudo é super controlado e é difícil deixar alguma impressão pessoal. Mas o Davis nunca foi um diretor autoral, então tá em casa. De todo modo, Davis tava inspirado: tudo em O FUGITIVO é filmado e editado com uma intensidade para desgastar os nervos e aumentar o pulso. A câmera sempre se move, enfatizando a emoção da perseguição e as relações de poder entre a presa e o predador.

Sequências como a fuga de Kimble depois que o ônibus da prisão capota na floresta e vai parar em cima da linha do trem e o sujeito precisa pular pela janela um segundo antes de uma locomotiva acertar em cheio o veículo é praticamente uma aula de tensão… Dessas imagens do cinema de ação que permeia sempre meu imaginário do gênero nos anos 90.

Ainda assim, não acho que o grande trunfo de O FUGITIVO seja a ação, mas sim a força do seu elenco e a capacidade de contar uma boa história. Temos participação de figuras como Julianne Moore, Joe Pantoliano, Jeroen Krabbé, mas são mesmo os gigantes Harrison Ford e Tommy Lee Jones que definem as coisas por aqui por meio de puro carisma, atuando numa narrativa clássica que realmente funciona e que tem peso dramático e atenção aos detalhes. E que ao mesmo tempo entrega emoções.

O FUGITIVO não chega a ser nenhuma maravilha, mas é o tipo de filme que, apesar da influência no período, é cada vez mais raro de se encontrar nos dias de hoje… Uma produção grandiosa à sua maneira, mas não inchada de trocentas horas; um thriller inteligente e eficaz, embora com algumas conveniências de roteiro, mas de tirar o fôlego do início ao fim e que consegue atrair a atenção de um grande público, sem dar a impressão de que os realizadores pensam que o espectador é idiota. Em suma, um filmaço que valeu a pena rever, do tempo em que contar boas histórias era regra básica para se fazer um filme em Hollywood.

A CONVERSAÇÃO (1974)

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Fazia uns vinte anos que assisti A CONVERSAÇÃO (The Conversation), de Francis F. Coppola. A única assistida, aliás, num VHS de locadora… Não sei porque nunca mais revi, mas é desses filmes que eu senti que não precisaria de uma revisão tão cedo, tamanho foi o impacto. Mas vinte anos já é demais, então hoje resolvi revisitar e continua uma belezura…

A CONVERSAÇÃO de vez em quando é lembrado como o filme que o Coppola dirigiu entre os dois primeiros PODEROSO CHEFÃO. E talvez até tenha sido prejudicado ao sair espremido no meio desses dois mastodontes cinematográficos (saiu inclusive no mesmo ano de CHEFÃO II e ambos foram indicados a melhor filme no Oscar)… Mas não consigo ver outro momento tão ideal para o filme ser lançado. Um filme tão enraizado dentro do seu contexto, praticamente um emblema do cinema político paranóico dos anos 70, num cenário que o escândalo de Watergate estava deflagrando… E é aí que testemunhamos o trabalho diário de Harry Caul (Gene Hackman), um especialista em escutas, que atua como freelancer para espionar quem quer que seja. E o cara é realmente bom naquilo que faz. Consegue captar uma conversa particular a 200 metros e obter uma representação perfeita dos diálogos. Na sua missão atual, ele ouve uma conversa meio perturbadora.

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A CONVERSAÇÃO, assim como todo o “movimento” do cinema da Nova Hollywood, é fortemente influenciado por cineastas europeus, e neste caso específico, Michelangelo Antonioni e seu BLOW UP, de 1966 – que trata de um fotógrafo que acredita ter capturado um assassinato no fundo de uma de suas fotos. Em A CONVERSAÇÃO, Harry acredita que a conversa que ele gravou – aparentemente um caso habitual de traição – pode ser evidência de um próximo assassinato, e fica obcecado com o que ouve na fita, analisando cada inflexão vocal para tentar descobrir quais os significados por trás das palavras.

À medida que as correções de Harry são feitas no som, a imagem do casal é mostrada para nós, remontada, com ângulos ligeiramente diferentes, cada vez destacando um pequeno detalhe que nos escapou e que vai se resignificando. Lembra também John Travolta em UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma, que por sempre “assistirem a mesma cena”, constantemente ouvirem os mesmos sons, eles acabam contaminando completamente esse universo, e daí em diante surge a fantasia, o que culmina, em A CONVERSAÇÃO, num final magnífico, cuja obsessão paranóica de Caul se transforma em tortura íntima e moral. Em questionamento ético.

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A visão da sociedade, quase kafkaniana é terrível, visionária e completamente atual, no qual a sociedade está sob vigilância, que a esfera privada foi pulverizada pela obsessão pela segurança. E Coppola sabe como fazer tudo isso minar numa impressionante estrutura formal e narrativa de suspense. E isso talvez seja uma das coisas mais legais em A CONVERSAÇÃO, uma obra que trata sobre esses assuntos relevantes sem deixar de lado os aspectos do suspense. É um baita thriller atmosférico e psicológico, que não dá muitas alternativas para o seu protagonista, que acaba trancado em sua própria armadilha, afundado na paranóia que ele próprio ajudou a criar.

Acho que vale ainda destacar a construção de Harry Caul, um desses personagens que acaba se tornando o seu ofício. Mas uma das grandes sacadas de A CONVERSAÇÃO é permitir que o personagem expresse dilemas e dúvidas morais durante cenas de intimidade, no confessionário de uma igreja ou diante de uma mulher compassiva. Caul se ressente de várias coisas, sem admitir completamente, e vai-se desenhando um personagem atormentado, que tem dificuldade em assumir moralmente as consequências de seu trabalho. Especialmente para quem possui uma fé religiosa, como é o caso de Harry, que tem consciência de que tomar o lugar de um Deus onisciente é um pecado grave, e ele sente todos os espinhos.

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Gene Hackman oferece um desempenho sutil e vigorosamente internalizado, mais silencioso do que estamos acostumados. Mas com grande força nos pequenos detalhes, uma das melhores atuações do sujeito. Gosto de brincar que INIMIGO DO ESTADO, de Tony Scott, lançado vinte e poucos anos depois, seja uma espécie de continuação de A CONVERSAÇÃO e que o personagem de Hackman, um paranóico gênio de vigilância tecnológica, talvez seja uma versão envelhecida de Harry Caul… John Cazale, Robert Duvall, Frederic Forest, Harrison Ford e Teri Garr também estão por aqui, nomes que já haviam trabalhado com Coppola e outros que ainda viriam a repetir a parceria.

Coppola dirigiu nos anos 70 mais três filmes. Os dois CHEFÕES que citei e APOCALYPSE NOW. Por vários motivos A CONVERSAÇÃO acabou não sendo tão celebrado quanto esses outros. Mas merecia. É um puta filme, um dos thrillers setentistas dos mais tensos, e uma dos melhores trabalhos de direção do homem. Enfim, não pretendo mesmo ficar vinte anos de novo sem revisitar essa maravilha.

TEASER DE BLADE RUNNER 2049 + TRAILER DE ALIEN COVENANT + ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (1979)

Primeiro, vamos ao teaser de BLADE RUNNER 2049:

Sou grande admirador de BLADE RUNNER – um dos trabalhos visuais mais colossais e deslumbrantes da ficção científica – e todo o universo que o rodeia, curto até a bagunça das variadas versões que o filme possui… Não sei bem o que pensar, entretanto, dessa continuação. Me parece boa, respeitosa, com o Ridley Scott comandando o barco na produção. E o Dennis Villeneuve é uma escolha interessante. Não sou grande fã de alguns de seus trabalhos, como OS SUSPEITOS, mas acho SICARIO muito bom. Não vi ainda ARRIVAL, uma incursão do diretor no sci-fi, mas pelas imagens do teaser dá pra criar boa expectativa, especialmente pela presença de Deckard (Ford) em cena. Na torcida por algo legal…

Agora, o trailer de ALIEN: COVENANT:

Ok, ainda é uma incógnita pra mim. Acho o retorno do Scott ao universo ALIEN, com PROMETHEUS, uma coisa linda. Portanto, meio que confio que COVENANT esteja em boas mãos e deva sair algo instigante, claustrofóbico e tenso pra caralho, espero… Claro que não deve chegar nos pés deste aqui:

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O que esse trailer, na verdade, me causou foi vontade de rever ALIEN – O 8° PASSAGEIRO pela milésima vez. Foi o que eu fiz e resolvi republicar esse textinho que escrevi no blog antigo.

É sempre bom relembrar o surgimento dessa belezinha. Em 1974, o jovem Dan O’Bannon escrevia um roteiro de ficção científica que acabou sendo DARK STAR, dirigido pelo então marinheiro de primeira viagem, John Carpenter. Eu adoro o filme, mas O’Bannon parece não ter ficado muito satisfeito com o resultado. A trama, entre outras coisas, é sobre a tripulação de uma pequena nave atormentada por um alien feito de bola de praia… sim, é tão genial e ridículo ao mesmo tempo.

Então o sujeito resolveu pegar alguns elementos de DARK STAR, buscou inspiração de alguns outros clássicos da ficção científica, como O PLANETA DOS VAMPIROS, para escrever um novo roteiro. Além disso, O’Bannon aproveitou sua aproximação com o artista H.R. Giger, da época em que estavam preparando a adaptação de DUNA, que teria a direção de Alejandro Jodorowski, para trabalhar na concepção visual desse novo projeto. Ainda teve o dedo de Walter Hill na produção e a direção de Ridley Scott… Então qualquer coisa que saísse dessa combinação de talentos seria, no mínimo, interessante. Calhou de sair ALIEN – O 8° PASSAGEIRO, ou seja, um dos maiores clássicos do horror espacial.

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Ao contrário de vários cinéfilos que conheço, não compartilho do mesmo desprezo pelo Ridley Scott. Não é um mestre, mas quando acerta demonstra que realmente sabe o que faz. Especialmente no início de carreira o sujeito estava em estado de graça! OS DUELISTAS, BLADE RUNNER e este aqui são obras de grande vigor cinematográfico… o problema é que quando erra, demonstra uma incompetência absurda. Basta lembrar de coisas como ATÉ O LIMITE DA HONRA ou sua versão de ROBIN HOOD.

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Em ALIEN a coisa é diferente. Scott aproveita da melhor maneira possível da força visual, do primor estético concebido por Giger, dos efeitos especiais, trilha sonora, para trabalhar o tenso climão claustrofóbico dos corredores escuros e cenários fechados da nave Nostromo em um crescente suspense. Sei que todo mundo está careca de saber sobre tudo isso, mas até hoje me encanta os detalhes e escolhas que Scott faz para a construção do horror. Todas as cenas dos ataques do alien, por exemplo, se baseiam muito mais na atmosfera do que a brutalidade. Se existe um filme que transcende o sentido de horror atmosférico é este aqui.

Dessa forma temos várias cenas brilhantes, como a que o personagem de Tom Skerritt, Dallas, adentra os apertados dutos de ventilação em busca do invasor indesejado. É tudo questão de manutenção de luz, sombras e noção de como utilizar os cenários… A criatura mesmo mal aparece durante todo o filme e mesmo assim, Scott tem nas mãos o suficiente para fazer a platéia gelar a espinha. Até hoje, já perdi as contas de quantas vezes já assisti ao filme, sei cada cena de cor e ainda assim me mantém vidrado. De fazer inveja a muito filmezinho de terror da atualidade.

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Algumas sequências são célebres. A visita de parte da tripulação à nave alienígena abandonada cheio dos famigerados ovos estranhos e o pobre John Hurt curioso botando a cara a “ver melhor”; Ian Holm se revelando após a violenta pancada na cabeça desferida por Yaphet Kotto; Sigourney Weaver de calcinha se preparando para a peleja final; e claro, o sensacional parto de John Hurt, dando à luz a uma lombriga de dentes afiados. Sem contar o aspecto incrível do monstro espacial, que me deixava arrepiado quando era criança e até hoje impressiona.