ALGUÉM ATRÁS DA PORTA (Someone Behind the Door, 1971)

Assisti a vários filmes durante o feriadão (o meu feriado foi mais prolongado, começou na quinta passada e só hoje voltei a trabalhar), mas dentre os vistos, o que mais me impressionou foi este suspense psicológico, que eu achei num sebo em BH por 10 mangos, no qual temos Charles Bronson dividindo a tela com Anthony Perkins e Jill Ireland (na época, esposa do Bronson). Na verdade, o protagonista de ALGUÉM ATRÁS DA PORTA é Perkins, que interpreta um médico que resolve levar um paciente amnésico (Bronson) para sua casa, isolada nas montanhas de algum lugar litorâneo da Inglaterra, para lhe fazer uma terapia mais intensiva.

Mas o andamento da estória nunca deixa muito claro quais são as verdadeiras intenções do médico, inclusive, a principio, eu cheguei a pensar que o personagem de Perkins fosse homossexual (e era, na vida real), mas logo o próprio enredo descarta essa possibilidade mostrando a esposa do sujeito (Ireland) que se prepara para sair em uma viagem habitual. Então os planos são outros, e a coisa é intrigante, isso eu garanto. Mas não digo mais nada para não estragar a surpresa.

O diretor húngaro Nicolas Gessner mantém um suspense legal até determinado ponto, quando finalmente a motivação do protagonista começa a clarear-se. Nada que possua uma originalidade estupenda no objetivo do médico, e que já foi abordada milhares de vezes no cinema sob a batuta da busca do “crime perfeito”, mas compensa tranquilamente toda a ambiguidade da trama, principalmente quando temos dois grandes atores contracenando com uma firmeza interessante.

Perkins está estranho e ótimo como sempre, mas a grande maioria vai se surpreender é com a atuação do velho Bronson, em plena fase européia (o filme é uma produção francesa), numa performance de verdade, convencendo como um homem que sofre de amnésia. É um filme perfeito para calar a boca de qualquer um que só viu as tralhas da Cannon que o Bronson fez nos anos 80 e pensa que ele só fez aquele tipo de filme / personagem (e que eu também adoro, diga-se de passagem, por pior que sejam).

Outros filmes que vi no feriado incluem A ILHA DOS HOMENS PEIXES, do Sergio Martino; RATOS: A NOITE DO TERROR, do Bruno Mattei; INFERNO CARNAL, do Mojica e uma revisão de THE TOXIC AVENGER, do Lloyd Kauffman.

NEMESIS (1993), de Albert Pyun

As perguntas da entrevista com o diretor Albert Pyun já foram enviadas para ele e estamos agora aguardando as respostas. Não esperem um Truffaut/Hitchcock dos filmes B, mas acho que se tudo correr bem, vamos ter algo bem legal. Enquanto isso, eu vou assistindo a alguns filmes do homem que eu ainda não havia visto, como por exemplo TICKER, de 2001, que nem vale a pena comentar de tão ruim, mas tem o Tom Sizemore como um dos protagonistas, o único que tenta salvar esta barca furada, e nem com Dennis Hopper, Steven Seagal e Peter Greene à bordo, deixou de afundar.

NEMESIS é um dos filmes mais divertidos do Pyun e me chamou muito a atenção pelo tratamento visual de algumas cenas e pelas várias sequências de ação de tirar o fôlego, muito bem dirigidas e coreografadas. O diretor retorna aos temas futuristas, cenários pós apocalípticos com estética cyberpunk e a presença de cyborgs ocupando seus espaços. São elementos que obtiveram bons resultados em outros filmes do Pyun como em CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO e RADIOACTIVE DREAMS (que só não me lembro de haver cyborgs, mas o resto…).

A trama já possui certo grau de complexidade que por si só deixa o espectador interessado, ou confuso. Olivier Gruner – que é um robô na vida real – vive Alex Rain, um policial que peleja, no ano de 2027, contra uma organização terrorista que perturba a sociedade, que já não é lá muito tranquila neste período. Ferido diversas vezes, Alex é metade humano e metade máquina, mas ainda é capaz de salvar um cãozinho indefeso quando é preciso. Mas decide se aposentar e conviver com suas dualidades sossegado num canto qualquer. Mas se isso realmente acontecesse, não teríamos o filme, então o chefe de policia determina uma última missão a Alex e para obrigá-lo a realizar tal tarefa, eles implantam uma bomba perto de seu coração. Aí não tem escapatória. Mas à medida que realiza a missão, o nosso herói descobre que está envolvido em uma conspiração cujo objetivo é a conquista do mundo pelas máquinas, e que os terroristas que ele passou a vida exterminando estão, na verdade, lutando pela raça humana!!!

E as referências são bem diversificadas, vai de BLADE RUNNER e FUGA DE NOVA YORK à EXTERMINADOR DO FUTURO, com direito a esqueleto metálico em stop motion azucrinando a vida do protagonista. Mas NEMESIS também pode se orgulhar por ter influenciado a estética de alguns filmes futuristas, principalmente o figurino bem ao estilo MATRIX, com os sobretudos, óculos escuros, ternos pretos, roupas de couro…

O elenco é ótimo. Além do Gruner, temos Tim Thomerson, Cary-Hiroyuki Tagawa, Vincent Klyn, Brion James, e até mesmo uma pequena participação de um jovem Thomas Jane, apanhando de mulher nua, a gata Deborah Shelton.

Sobre as sequências de ação, temos o inicio do filme, os primeiros 15 minutos, que é um dos melhores momentos da carreira do Pyun, um tiroteio frenético muito bem filmado e editado num cenário magnífico. É um trabalho muito interessante que se sobressai ao restante do filme, que nunca consegue atingir o mesmo nível, uma pena. Ainda assim, Pyun não deixa a peteca cair. O seguimento que transcorre no hotel também é bacana e temos Olivier Gruner atravessando o chão fazendo burados com sua metralhadora, como nos desenhos animados. O final até que é legal com um sinistro Tim Thomerson seguindo Gruner e sua parceira por uma floresta em volta de um vulcão, mas não sei, o futuro da humanidade sendo decidido à beira de uma cachoeira é uma coisa feia. Prefiro muito mais os prédios tombados, a atmosfera de destruição e o cheiro de concreto queimado do inicio do filme. Mas tudo bem, o que importa é que NEMESIS é divertido pacas!

VIAGEM RADIOATIVA (Radioactive Dreams, 1985), de Albert Pyun

Para um diretor considerado um dos piores no ramo da sua geração, até que Albert Pyun se sai muito bem neste seu segundo filme. Pelo menos eu adorei, principalmente pelo tom nostálgico que eu acabo vivenciando quando assisto a essas produções que fizeram um relativo sucesso na era do VHS – embora eu fosse pequeno, com meus sete, oito anos naquela época e teimava em locar as mesmas fitas (A HISTÓRIA SEM FIM e LABIRINTO eram meus recordes de locação), meu pai sempre variava um pouco mais do que eu, por isso eu pude assistir a bastante coisa boa que eu nem me lembro, mas aos poucos vou resgatando.

Não é o caso deste aqui. Só fui assistir pela primeira vez a RADIOACTIVE DREAMS há pouco tempo, mas muita coisa realmente me agradou no filme, exceto, óbvio, a direção de Pyun, que é bem fraquinha. Mas vamos dar um desconto ao rapaz porque o roteiro foi ele quem escreveu a partir de uma idéia extraída de sua própria cabeça e a estória é ótima! Além disso, foi ele quem realizou o meu filme preferido do Van Damme, CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO, isso mesmo, aquele que os personagens têm nomes de marcas de guitarra…

Assim como no filme do Van Damme, RADIOACTIVE DREAMS se passa num período pós-apocalíptico, fruto da Terceira Guerra Mundial. Antes das bombas nucleares começarem a explodir, entretanto, dois garotos são colocados em um abrigo subterrâneo onde passam o tempo lendo livros policiais dos anos 30 e 40. Pyun, já treinando sua astúcia na criação de nomes para personagens, coloca Phillip Chandler (John Stockwell) para um e Marlowe Hammer (Michael Dudikoff!!!) para o outro. Quem conhece o mínimo de novelas policiais dos anos 40, deve ter percebido a esperteza do diretor/roteirista em homenagear os verdadeiros criadores do estilo noir. Após 15 anos vivendo no local, os garotos, agora um pouco mais velhos, conseguem sair do abrigo e se deparam com o mundo em um estado bem interessante…

Cyberpunks antropófagos, motoqueiros, roqueiros, mutantes e um rato monstro gigante, todos bastante hostis, são alguns exemplos de seres que estavam lá fora para receber os dois ingênuos rapazes que praticamente passaram a vida inteira olhando um para cara do outro dentro do abrigo subterrâneo e agora pensam que são dois detetives tentando resolver um caso. E o pior é que acabam entrando numa intriga envolvendo um par de chaves que aciona um míssil poderosíssimo, capaz de devastar toda a raça humana, e todo o tipo de figura estranha pretende colocar as mãos nas tais chaves, não me pergunte o motivo, mas acho que, como dizia o ex-presidente americano George W. Bush, uma única palavra resume a responsabilidade de qualquer governante, e essa palavra é “estar preparado”…

No campo das atuações, temos um Michael Dudikoff irreconhecível, bem diferente dos papeis sérios que encarnou nos filmes de ação que fazia a alegria da moçada. Aqui, o seu Marlowe é um sujeito afetado, age o tempo inteiro como se fosse uma bicha louca em “quarto escuro” de boate gay (não, nunca entrei num lugar assim e nem pretendo, antes que comecem a pensar gracinhas). Seu trabalho seguinte foi exatamente aquele que mudou o rumo de sua carreira: AMERICAN NINJA, grande clássico que também marcou minha infância. Já John Stockwell faz o tipo caladão e mais sóbrio da dupla. Stockwell já tinha um rosto um tanto famoso pela participação em CHRISTINE, do John Carpenter. Voltou a trabalhar com o Pyun em DANGEROUSLY CLOSE, antes de ser escalado em TOP GUN, de Tony Scott. Saiu debaixo dos holofotes, fez algumas pontas e dirigiu algumas coisas, foi ele quem realizou aquela tosqueira filmada aqui no Brasil e causou um rebuliço besta: TURISTAS. Ainda no elenco de RADIOACTIVE DREAMS temos os veteranos George Kennedy e Don Murray.

O roteiro louco que mistura ficção cientifica pós-apocalíptica, elementos do film noir e muita aventura no estilo MAD MAX II e er… BLADE RUNNER, só poderia gerar bons momentos de diversão para toda a família; e até mesmo a direção porca, sem qualquer noção de espaço, a fotografia péssima e a edição ridícula dão ao filme um charme singular, isso sem falar que a trilha sonora é sensacional, escolhida a dedo com várias canções bem datadas dos anos oitenta. Demais! Recomendo ao pessoal de bom gosto que sabe apreciar uma boa e velha tralha!

OBS: Um bom exemplo desse tipo de gente e que adora este filme é o meu amigo Osvaldo Neto, que está de volta, depois de alguns meses parados, ao Vá e Veja, um dos melhores blogs nacionais sobre “cinema de qualidade”! Grande retorno!

TORNADO (1983)

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Últimos dias da Guerra do Vietnã. Um capitão americano sem coração (Tony Marsina) envia seus soldados do grupo de elite “Boinas Verdes” em missões de alto risco além das linhas inimigas. O sargento Maggio (Giancarlo Prete, aka Timothy Brent) não concorda muito com essas incumbências suicidas e sem sentido. Logo no inicio de TORNADO, durante uma destas missões, um soldado se fere e Maggio retorna para buscá-lo. O capitão ordena aos helicópteros que partam imediatamente, sem esperar o sargento que carrega bravamente seu amigo ferido.

Deixado para trás, Maggio utiliza-se de todas as suas técnicas especiais de combate e sobrevivência na selva para conseguir retornar ao posto americano. E consegue, levando o soldado – e a si próprio – com vida. Isso tudo em apenas 20 minutos de filme, dando uma verdadeira noção do que esperar de TORNADO.

Depois de uma tragédia, finalmente Maggio decide bater de frente com o capitão (e bater de frente significa um murro bem dado na cara do seu superior). Maggio é preso e escoltado para a corte marcial, mas consegue escapar e agora se encontra em pleno território inimigo tentando chegar à zona neutra, mas não sem antes enfrentar os vietcongs e os próprios soldados americanos! Não é de lascar uma trama como essa?

O script de TORNADO é cortesia de Tito Capri e Gianfranco Couyoumdjian (cujos currículos são repletos de pérolas do cinema popular de gênero), apesar da falta de originalidade, conseguem desenrolar um roteiro que bebe da fonte (leia-se: copia na cara dura) de vários filmes de ação e guerra que foram grandes sucessos e influenciaram dezenas de tralhas como esta aqui. O FRANCO ATIRADOR, APOCALYPSE NOW e RAMBO são os principais títulos que vêm em mente enquanto se assiste a TORNADO.

Algo absolutamente normal. Na década de 80, o cinema popular italiano entrava em decadência na mesma intensidade que a picaretagem dos produtores, roteiristas e diretores carcamanos aumentava. Margheriti, que era prolífico, foi um dos que mais se aproveitaram de reciclar boas idéias, retiradas de produções de sucesso, para transformá-las em filmes de baixo orçamento filmados onde Judas perdeu as botas. Isso, claro, muitos anos depois de ser respeitado como um dos grandes nomes do horror gótico italiano (embora tenha passado por praticamente todos os gêneros do cinema popular de seu país).

Embora TORNADO seja assumidamente barato e apresente os defeitos que este tipo de produção possui, o filme consegue passar a sua mensagem anti-bélica com muita clareza e autenticidade, ao invés de simplesmente explorar a violência da guerra sem qualquer tipo de reflexão. E isso fica evidente na presença do repórter vivido por Luciano Pigozzi, que tenta a qualquer custo investigar e denunciar os abusos cometidos pelo capitão.

TORNADO fecha uma espécie de trilogia da guerra do Vietnã que Margheriti realizou no inicio dos anos 80, composta também por THE LAST HUNTER e TIGER JOE, todos rodados nas Filipinas, local que serviu de cenário para centenas de produções italianas naquela época. O trabalho de direção de Margheriti aqui é bem típico ao específico cinema que estava fazendo, rodado às pressas, com orçamento risível, tentando ao máximo usar a criatividade (algo que nem sempre consegue), aproveitando atores, locações, objetos cenográficos e até mesmo sequências inteiras utilizadas em outros filmes. Várias cenas de ação que aparecem em TORNADO foram, inicialmente, filmadas para THE LAST HUNTER, mas com uma boa edição e muita cara de pau, isso se torna apenas mais um detalhe curioso e um charme a mais para os fãs de tosqueiras divertidas como esta aqui.

ALONE IN THE DARK (1982)

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Um divertido filme de terror do glorioso inicio dos anos 80, dirigido por Jack Sholder, e que nos presenteia pela reunião de três grandes figuras do cinema de gênero: Donald Pleasence, Martin Landau e a “cereja do bolo”, Jack Palance. Este é o pequeno clássico ALONE IN THE DARK, chamado no Brasil de NOITE DE PÂNICO.

Pleasence interpreta o Dr. Leo Bain, diretor de um hospício onde se encontram, além de pacientes comuns, figuras extremamente perigosas sob tratamento psiquiátrico. Dois deles são vividos Landau e Palance. O primeiro é um ex-padre que colocou fogo em sua própria igreja e o outro é um ex-prisioneiro de guerra e que acabou se tornando o líder de grupo psicopata do tal manicômio. O que inclui ainda mais dois malucos para completar o time: um sujeito extremamente obeso e um perigoso assassino conhecido como Bleeder, já que seu nariz sangra toda vez que comete um assassinato.

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A trama de ALONE IN THE DARK tem seu inicio quando o psiquiatra Daniel Potter (Dwight Schultz) é contratado pelo Dr. Bain (que é tão louco quanto seus internos) para substituir o Dr. Harry Merton, antigo responsável pelos pacientes mais perigosos acima citados e que foi transferido para outra clínica. Mas vocês sabem como são os loucos, não é mesmo? Quando colocam alguma ideia na cabeça é difícil tirar. Sendo assim, o personagem de Palance comenta que o Dr. Potter, na verdade, assassinou o Dr. Merton para tomar o seu lugar, então o grupo de perigosos desequilibrados decidem bolar um plano para matar seu novo psiquiatra.

No “campus” do hospício, os pacientes podem vagar tranquilamente, inclusive os quatro psicopatas desvairados, embora sejam muito bem vigiados. À noite, a única circunstância que os mantém presos é o sistema eletrônico de segurança que depende de energia. Para nossa sorte, acontece um inusitado apagão que coloca a pequena cidade do filme num verdadeiro caos (com direito à invasão de lojas e crimes em massa) e os quatro loucos varridos aproveitam para escapar e ir atrás do Dr. e toda sua família.

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A trama é bem simples, como podem perceber, mas são vários os pontos que se destacam para uma boa degustação. Uma delas consiste na direção de Jack Sholder, que está longe de ser perfeita, mas passa a impressão de que seja o trabalho de um veterano que dirigiu vários exploitations de terror nos anos setenta, com muita bagagem nas costas, etc. Só que ALONE IN THE DARK é o primeiro filme do cara (que faria mais tarde alguns filmes legais do gênero, como A HORA DO PESADELO – PARTE 2 e THE HIDDEN), apresentando ótimo domínio de cena e na criação de atmosfera de terror. Além de saber como aproveitar a presença quase mística de alguns do atores envolvidos sem mostrá-los demais.

Jack Palance, por exemplo, aparece em pouquíssimas cenas, mas só de saber que é o sujeito que está cercando a casa do Dr. Potter com toda sua família dentro, no meio da noite, já é suficiente para impressionar, mesmo que a câmera do diretor mostre, quase sempre, dentro da casa onde estão as prováveis vítimas dos lunáticos. É o caso de uma forte presença do ator que vai além do “estar” em cena ou não. A mesma coisa acontece com o Martin Landau (que aparece um pouquinho mais).

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Palance inclusive se recusou a filmar uma sequencia em que seria visto matando um motorista antes de roubar-lhe o carro. Ele disse que não era necessário expor tanto o personagem desta maneira para mostrar ao publico o quanto ele era perigoso. E estava totalmente certo. Seu personagem é de longe o mais sombrio, assustador e ameaçador e sem precisar de muito esforço. Sem dúvida alguma, é o que o filme te de melhor. Ainda conta com efeitos especiais do mestre Tom Savini e várias situações antológicas, como o sonho surrealista do personagem de Martin Landau ou o final com o Palance entrando no Pub punk.

Outra coisa legal é o fato do personagem Bleeder nunca mostrar seu rosto. Em determinado momento, ele utiliza uma mascara de hockey que lembra a mesma que outro famoso assassino oitentista viria a usar algum tempo depois, mas que surgiu na mesma época deste aqui… seria alguma coincidência?

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Não importa, o que vale mesmo é a diversão, e é o que ALONE IN THE DARK concede com garantia. Dificilmente vou ver um filme sobre louco(s) psicopata(s) sem antes pensar nesta belezinha.

SORORITY HOUSE MASSACRE II (1990), de Jim Wynorski

Não se preocupem com aquele “II” do título, apenas um pequeno detalhe que não vai fazer diferença alguma na hora de apreciar esta tosqueira em forma de slasher, dirigido por Jim Wynorski, por dois motivos básicos. Primeiro porque é possível acompanhar os eventos tranquilamente, independente dos acontecimentos do filme original (que na verdade eu não vi, trata-se de SORORITY HOUSE MASSACRE, claro, de 1986, dirigido por Carol Frank). O outro motivo é que estes eventos não passam de pretextos para vários assassinatos, como um bom slasher tem de ser, e uma generosa dose de mulheres nuas. Ou seja, a diversão é garantida.

A trama de SORORITY HOUSE MASSACRE II inicia quando um grupo de cinco garotas chega a uma casa recém comprada onde pretendem formar uma sociedade de não sei o que exatamente, mas tanto faz. A casa é a mesma em que há cinco anos atrás ocorreram os assassinatos do primeiro filme (e é esta a única ligação direta com o original). Um vizinho, o estranho Orville, chega ao local e narra os fatos macabros que aconteceram no passado naquela casa às garotas, fala como o assassino morreu (tudo mostrado num flashback com cenas do primeiro filme) e deixa a chave do sótão com elas.

A casa se encontra sem energia, telefone, móveis, tudo será resolvido no dia seguinte e, além disso, uma tempestade se aproxima. Mesmo assim, elas decidem dormir no local e para passar o tempo, nada melhor do que todas trocarem de roupas em frente à câmera, colocarem seus baby dolls e utilizarem aquele tabuleiro com as letras do alfabeto que serve para invocar espíritos e essas coisas do cão! Claro que com isso não se brinca, principalmente num filme terror, pior ainda se tiverem a idéia genial de invocar justamente o assassino de cinco anos atrás.

A partir daí, coisas estranhas começam a acontecer, e não demora muito para os assassinatos misteriosos iniciarem. Existe ainda uma trama paralela onde um casal de policiais investiga uma possível ligação do vizinho bizarro com o assassino, mas não passa de baboseiras do roteiro para encher lingüiça, porque essa investigação não faz sentido algum, a não ser tornar o filme um pouco mais longo. O filme tem uma duração total de 1 hora e pouco, sem essas seqüências seria um média metragem…

Jim Wynorski, juntamente com o Fred Olen Ray, é praticamente um Jess Franco ou Joe D’Amato da sua geração. Passeia pelos diversos gêneros com facilidade realizando centenas de filmes de baixo orçamento e bastante apelativos. Teve como mentor o pai do cinema B americano, Roger Corman, que produziu vários filmes no inicio de sua carreira (este aqui, por exemplo). Mas assim como Franco e D’Amato, a qualidade técnica de Wynorski como diretor em SORORITY HOUSE MASSACRE II é totalmente desleixada. Erros básicos de continuidade, microfones aparecendo nos cantos do quadro, um espetáculo de falhas que fazem a alegria dos fãs deste tipo de material e dá um charme a mais na obra.

Mas o mais legal do filme é o personagem Orville, interpretado pelo ator Peter Spellos, uma figura insólita que não morre de forma alguma. Pancadas na cabeça, facadas, tiros de escopeta, estrangulamento, o sujeito sempre se levanta. E depois de tudo isso, apesar da aparência bizarra, começamos a nos afeiçoar pelo sujeito. Já no plano feminino, não adianta analisar atuações, seria perda de tempo. Elas não estão ali para atuar, mas simplesmente exibir os atributos físicos para alegria dos cuecas de plantão e ficarem desfilando com o mínimo de roupa durante o filme inteiro.

E aqui vai o meu agradecimento ao grande Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja (esperamos ansiosamente pelo retorno) que me forneceu essa maravilha. Já faz um tempinho que ele me enviou, mas só agora parei para assistir. Se eu soubesse que teria momentos tão divertidos, teria visto antes.

SOYLENT GREEN (1973), de Richard Fleischer

Ah! Os bons tempos em que a ficção científica era tratada no cinema de forma simples, criativa, reflexiva… pena que eu não era nem nascido na época, ou era muito novo já nos anos 80, mas tudo bem. Boa vontade para resgatar estes filmes é o que não falta.

No fim dos anos 60 e inicio dos 70 o cinemão americano ainda ia muito além do que uma simples diversão de fim de semana. Nesta mesma época as produções Sci Fi começaram a apostar com mais intensidade na vertente dos futuros sombrios, pessimistas e apocalípticos pós-nuclear com fortes mensagens políticas/sociais referente às possíveis conseqüências da Guerra Fria. Filmes como PLANETA DOS MACACOS e THE OMEGA MAN são bons exemplos que ilustram a maneira de recriar sem frescura estes universos. SOYLENT GREEN também entra na dança. E Todos que citei foram estrelados por Charlton Heston.
Após interpretar Moisés em OS 10 MANDAMENTOS, ganhar o Oscar por BEN HUR, interpretar o pintor renascentista Michelangelo em AGONIA E EXTASE e trabalhar com grandes diretores nos anos 60 como Sam Peckinpah, Anthony Man e Nicholas Ray, Charlton Heston decidiu mudar um pouco o tom de sua carreira, tornando, nos anos 70, um autêntico action man em filmes de ação, western, ficção científica e até em uma das superproduções que iniciaram o filão “filme catástrofe”, TERREMOTO. Mas principalmente as produções mais modestas deram ao sujeito uma brecha para que explorasse personagens curiosos e estranhos, como o Thorn de SOYLENT GREEN.

Baseado no romance Make Room! Make Room! de Harry Harrison, o filme transcorre no ano de 2022, em Nova York, onde 40 milhões de pessoas vivem abarrotadas pelas ruas como animais. Para piorar, o aquecimento global já atinge proporções absurdas e a escassez de alimentos e objetos comuns do dia a dia permeia sobre a população; o único alimento disponível é provido pela corporação Soylent, que distribui tabletinhos com cores e sabores diferentes. Mas o que faz mais sucesso com a moçada é o Soylent Verde, com seu sabor indefinido, mas com um valor nutritivo suficiente para a sobrevivência desta raça que conhecemos como humanos.
O problema é que até mesmo os produtos Soylent estão começando a faltar para a população, e estes, insatisfeitos, iniciam frequentes motins contra o sistema a cada distribuição mal feita. Em uma dessas sequências, é mostrado como a polícia resolve este pequeno probleminha habitual. Basta alguns caminhões com carregadores de areia de trator acoplados à frente para retirar as pessoas da multidão enfurecida como se fossem, realmente, grãos de areia. Sensacional!
E onde o Charlton Heston entra nessa estória toda? Bom, a trama de SOYLENT GREEN é estruturada como um filme policial, com direito a investigações e etc, apenas enquadrada neste contexto futurista. Thorn é um oficial da lei que, com a ajuda de seu velho amigo Sol (Edward G. Robinson em seu ultimo papel no cinema) com quem divide o apartamento, tenta resolver o caso do brutal assassinato de um alto executivo da multinacional Soylent, mas a cada descoberta, o sujeito se depara com um segredo terrível envolvendo a fórmula de fabricação do Soylent Verde… qual será o segredo da receita? Eu não vou contar, mas depois que eu descobri, perdi o apetite…
Umas dos melhores detalhes do filme é a composição de Thorn. Ele é praticamente um policial meio depravado pelas circunstancias da qual o mundo se encontra. Quando entra na casa do milionário assassinado, no local do crime, Thorn começa a ver objetos simples que nunca havia visto antes – e aproveita para roubá-los e levar para o seu amigo Sol (que chora ao ver alguns itens que imaginava nunca ver novamente) – como sabonete, whisky, um pedaço de bife, extremamente raro, entre outras coisas. É preciso ver a expressão de prazer de Heston quando seu personagem lava o rosto numa torneira de água corrente e quentinha. Algo praticamente impossível de se fazer em condições cotidianas. São vários os detalhes que ajudam a compor o personagem e definem o futuro apresentado.
Além de Heston e Robinson, temos no elenco o veterano Joseph Cotten em uma pequena participação como o milionário assassinado e Chuck Connors como seu guarda costa e uma pedra no sapato de Thorn. Mas Robinson, bastante velhinho e ciente que a morte se aproximava (morreu pouco tempo depois que as filmagens foram finalizadas), é quem rouba o filme. A cena onde ele vai para “A Casa”, uma espécie de clínica onde as pessoas desfrutam de alguns minutos de paz e logo depois recebem uma morte boa e tranqüila é belíssima e impossível não se emocionar. Uma despedida à altura do grande trabalho que Robinson prestou ao cinema como ator.
A direção é de Richard Fleischer, legítimo autor do cinema de gênero americano e não um empregado de estúdio como muitos o subestimam, infelizmente. SOYLENT GREEN é um dos seus maiores exercícios de criatividade. Com poucos elementos e a decoração retrô dos anos setenta, deu uma visão de futuro apocalíptico muito mais convincente que a maioria dos filmes atuais cujos executivos dos estúdios preferem gastar rios de dinheiro para criar universos artificiais em computação gráfica (claro que naquela época não existia CGI, então os realizadores tinham que botar a cuca pra funcionar mesmo).

E para deixar a coisa ainda mais interessante, porque eu não sou de ferro, Fleischer arruma uma forma de relacionar toda o pensamento sobre o futuro da humanidade com boas doses de cenas de ação ao estilo seco e sem firulas da época.
Mas quanto a “mensagem” geral e profundamente reflexiva de SOYLENT GREEN sobre este futuro negro que o filme apresenta, eu parei para pensar e interpretar todos os elementos e acabei chegando na seguinte conclusão (e estou aberto a discussão): contanto que eu seja um dos milionários que come filé mignon em uma cobertura de luxo, a humanidade pode seguir comendo seus tabletinhos tranquilamente. Caso contrário, a vida seria uma merda!

O QUARTO HOMEM (De Vierde Man, 1983), de Paul Verhoeven

Já perceberam que deixei de lado a peregrinação pelo cinema do Jean Pierre Melville que estava fazendo todo empolgado há um mês atrás? Meio sem querer, tornou-se mais interessante tratar da fase européia do Verhoeven. O QUARTO HOMEM foi o último filme rodado em seu país natal (repito o que escrevi no texto abaixo: depois de duas décadas filmando nos Estados Unidos ele retornou para Holanda e dirigiu A ESPIÃ). Uma cambada comentou no último post que CONQUISTA SANGRENTA é a obra prima do diretor, não querendo ser o diferentão, mas eu gostei mais deste aqui. Aliás, a obra prima do Verhoeven, na minha opinião, ainda é O VINGADOR DO FUTURO! Yeah!

A trama de O QUARTO HOMEM gira em torno de Gerard (Jeroen Krabbé), um escritor alcoólatra bichona, que acaba se envolvendo sexualmente com Christine (Renée Soutendijk) uma loira magrela e ricaça, que segundo o próprio Gerard “parece um rapazinho de dezessete anos” (ou algo assim). Mas o que segura mesmo o romance entre os dois é que o sujeito se apaixona pelo amante da moça, Herman (Thom Hoffman) e quer “arrancar as pregas” do mancebo a qualquer custo. Enfim, mas as coisas começam a ficar estranhas quando, aos poucos, ele descobre que Christine já foi casada três vezes e todos seus maridos morreram em acidentes pouco comuns, e desconfia que possa ser a quarta vítima.

O que mais me impressiona no filme é a forma na qual Verhoeven estrutura a narrativa manuseando um quebra cabeça de simbologias com os devaneios do protagonista fazendo ligação com futuros enventos planejados pelo roteiro. O diretor trabalha perfeitamente com a alegoria dos sonhos e ilusões remetendo a um surrealismo de Buñuel ou Jodorowsky com um poder de imagem magnífico, principalmente quando se trata de elementos sacros. E, ainda, é curioso ver como Verhoeven utiliza-se do suspense psicológico desde o inicio definindo um tom que aparentemente, para o espectador que desconhece a trama, não faz sentido algum, mas calmamente vai perturbando e preparando o terreno para as descobertas e para um final que arrebata e confunde ao invés de entregar um desfecho cheio de explicações.

Dá para perceber pelas imagens acima que se trata de um grande filme desse holandês maluco e muito superior ao seu primo distante que o próprio Verhoeven dirigiu, INSTINTO SELVAGEM, que também é ótimo. Como eu disse nos comentários do ultimo post, a única coisa ruim que o holandês filmou foram os 15 minutos finais de O HOMEM SEM SOMBRA. O resto é maestria!

CONQUISTA SANGRENTA (Flesh+Blood, 1985), de Paul Verhoeven

Último filme do nosso prezado holandês doidão realizado na Europa antes de embarcar para os Estados Unidos, mas já rodado com dinheiro americano e falado em inglês (só depois de duas décadas ele voltaria ao seu país natal e realizaria A ESPIÃ). CONQUISTA SANGRENTA é uma aventura que se passa num ambiente medieval carregado de obsessões do diretor, ou seja, muita violência e sexo! O que é essencial aprender sobre Verhoeven é o seguinte: não importa o material, gênero, país em que trabalhe, tire as crianças da sala na hora de assistir a qualquer filme do sujeito!

A trama gira em torno de um grupo de mercenários rufiões, liderados por Martin (Rutger Hauer). Traído por um nobre, o bando seqüestra a donzela Agnes (Jennifer Jason Leigh), prometida de Steven (Tom Burlinson), filho do tal fidalgo, que tenta fazer de tudo para ter sua amada de volta. Apesar do ambiente medieval, o filme transcorre no ano de 1501, ou seja, num período de transição para a Era Moderna e o filme deixa esse detalhe bem evidente com o personagem de Steven, que é metido a homem da ciência e tenta criar invenções bélicas mirabolantes para recuperar Agnes, que já deixou de ser donzela há muito tempo nas mãos de Martin.

É curioso notar como Verhoeven consegue colocar o grupo de bárbaros mercenários, proxenetas, saqueadores, estupradores, homossexuais e prostitutas como os “bonzinhos” carismáticos da estória, enquanto o pobre moço perdido de amor é retratado como um vilão. No meio disso tudo, Agnes, uma personagem deveras ambígua. Gosta de pegar na espada de Martin, mas alimenta as esperanças de Steven. Aliás, J.J. Leigh está sensacional em seu desempenho e bastante desinibida. A recriação de época também merece destaque com os personagens sujos em ambientações igualmente imundas e insólitas, como na cena em que Agnes se encontra com Steven num cenário perfeito para iniciar um belo romance: debaixo de dois corpos putrefatos pendurados numa árvore…

MILANO CALIBRO 9 (1972)

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Assisti, no último fim de semana, a este espetáculo regido pelo Fernando Di Leo. MILANO CALIBRO 9 é um filme poderosíssimo, já se tornou provavelmente o meu poliziesco favorito. E nas cenas de abertura sente-se o peso da pancada: grupo de jagunço da máfia espancando, cortando e explodindo três indivíduos que participaram de uma transação de negócios cujo dinheiro desaparece misteriosamente. Onde foi parar a grana? Ninguém sabe. Mas suspeita-se que esteja com Ugo Piazza (Gastone Moschin), um sujeito que acabou de sair da prisão e jura pela sua mãe morta que não escondeu a mufunfa.

A trama gira em torno deste pobre homem que quer apenas levar a vida na tranqüilidade, mas tem de prestar satisfações a um delegado (Frank Wolff) – que quer utilizá-lo como isca para atrair a bandidagem – e com o poderoso mafioso (o americano Lionel Stander) – que só não o mata porque acredita piamente que o cabra escondeu o boró. E isso é mais que suficiente para que Di Leo construa seu pequeno épico poliziesco.

Moschin está muito bem no papel do herói cheio de ambiguidade, mas quem rouba a cena é Mario Adorf, que lembra o Bruce Campbell um pouco mais gordo, ator impressionante que destrói num desempenho muito inspirado. Ele vive Rocco, o braço direito do chefão americano (que aliás, no filme é chamado de “Americano” mesmo). Fãs do cinema popular italiano ainda vão reconhecer várias figuras marcantes, como por exemplo o francês Philippe Leroy e, claro, Barbara Bouchet, uma das mulheres mais belas que já pisou em frente às câmeras em toda a história do cinema! Ela vive o par romântico do protagonista, demonstrando que apesar da aparência de brutamonte cabeça dura, o sujeito é bem esperto. Ou talvez não…

SHOGUN ASSASSIN (1980), de Robert Houston

Em 1980 estreou nos Estados Unidos essa pequena peça do cinema oriental carregando o nome do diretor americano Robert Houston nos créditos. Trata-se, na verdade, de uma espécie de picaretagem das mais disfarçadas. O fato é que o diretor, também produtor, fã dos chambara movies, comprou os direitos dos dois primeiros filmes da série Lone Wolf (ou Lobo Solitário, como ficou conhecido aqui no Brasil), e resolveu editar, pegando sequencias dos dois filmes, transformando num filme único que se chamou SHOGUN ASSASSIN!

Eu recomendaria os originais antes de assistir a esta obra, mas eu mesmo nunca vi algum filme da série Lone Wolf, e para falar a verdade, nem sabia do lance da picaretagem, mas tudo bem. Procurando informações sobre o caso, deparei-me com algumas diferenças entre a série de filmes do personagem com o filme de Houston que valem a pena comentar. Um das principais é, obviamente, o áudio em inglês, isso provavelmente aconteceu por dois motivos suspeitáveis: 1) o filme foi dublado para que os americanos retardados não precisassem se esforçar na árdua leitura de legendas; 2) Dublando as falas, pode-se manipular o enredo do filme fazendo com que os personagens digam o que os roteiristas quisessem.

Prefiro acreditar na segunda hipótese, embora seja estranho um bando de japoneses do período feudal trocando idéias entre si em inglês, mas também não restam dúvidas de que os americanos são realmente retardados ao ponto de dublarem os filmes para não ler legendas.

Outra questão: o filme possui uma narração em off realizada por Daigoro, o filho do protagonista, ainda criancinha, atuando como a consciência narrativa, com um ponto de vista ingênuo, fantasioso e com um efeito emocional muito maior que, com certeza, os filmes originais devem conter. O próprio diretor afirma que essa narração pode ajudar o publico americano a simpatizar-se pelos aspectos mais humanos da estória. Na minha opinião, a narração só serve pra encher linguiça, ou para justificar os exageros do filme por se tratar da visão de um menino.

Fazendo a mixagem de dois filmes, SHOGUN ASSASSIN acaba possuindo apenas um fiapo como argumento, trazendo como protagonista um virtuoso samurai (Tomisaburo Wakayama) que bate de frente com o Shogun local. Este último pede a cabeça do nosso herói, que passa a vagar com seu filho, dentro de um carrinho, por bucólicos cenários japoneses. E só! Durante essa jornada, ele enfrenta os assassinos contratados do Shogun ou arranja algum serviço como matador profissional. É como os saudosos video games que jogávamos no inicio dos anos 90, em 2D, onde o personagem só tinha uma direção a tomar e encontrava os oponentes para lutar e seguir em frente até encontrar com o chefão da fase.

Até mesmo a trilha sonora contribui bastante com isso, uma melodia moderna produzida por sintetizadores e guitarras que não combinam em nada com filmes de samurai, mas é mais um elemento inconfundível adotado pela edição americana desta bagaça.

Os “chefões da fase” de SHOGUN ASSASSIN são os três senhores da morte, idênticos aos três mestres que aparecem em OS AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO, de John Carpenter, que deve ser um fã da série Lone Wolf.

Os filmes do Lobo Solitário foram baseados em um mangá e fizeram parte deste subgênero pouco divulgado hoje em dia, conhecido como chambara. Para entender um bocado, é bem simples, imaginem um filme do mestre Akira Kurosawa, como OS SETE SAMURAIS, ou YOJIMBO, mas com um visual estilizado com muito mais intensidade e violência gráfica exagerada triplicada! As sequências de ação são preenchidas com muita dose de sangue jorrando e uma quantidade enorme de membros decepados em situações que beiram o absurdo. E apesar disso, as tramas sempre são contextualizadas e precisamente detalhadas dentro da história do Japão feudal.

Por si só, SHOGUM ASSASSIN é um filme bastante divertido e hoje em dia é considerado um clássico cult para os apreciadores de qualquer subgênero do cinema de exploração. Agora eu preciso criar vergonha nessa cara porca e assistir aos filmes originais da série.

THE BIG RACKET (Il Grande Racket, 1976), de Enzo G. Castellari

Já faz alguns dias que assisti a este poliziesco de primeiríssima qualidade com assinatura do mestre italiano Enzo G. Castellari, o mesmo que já nos brindou com clássicos como ASSALTO AO TREM BLINDADO, KEOMA, GUERREIROS DO BRONX e muitos outros. THE BIG RACKET é mais um filmaço do diretor, hours-concours do cinema policial italiano e obrigatório para qualquer criatura que deseja enveredar-se pelo subgênero mais cool do cinema carcamano!

Fabio Testi, ator magnífico, encabeça o elenco interpretando um policial do tipo linha dura que não se inibe ao utilizar métodos nada ortodoxos contra a bandidagem, principalmente quando se trata dos membros de uma organização criminosa que cobra dos pequenos comerciantes uma “taxa de proteção” absurda. E pior para aqueles que não aceitarem as condições dos bandidos, como é mostrado já nos créditos iniciais!

A coisa fica mais feia ainda quando os criminosos rolam o carro do protagonista por uma ribanceira abaixo – com ele dentro, diga-se de passagem – numa cena espetacular com a câmera dentro do carro filmando o próprio Fabio Testi experimentando a sensação de capotagem em um terreno bastante íngreme. E as iniqüidades não param por aí: toda vez que o personagem de Testi consegue prender de forma legal algum membro da organização, um advogado liberta o vagabundo com a maior facilidade. E se eu disser que as perversidades dos delinquentes ainda não param por aí, alguém acreditaria? Mas pra saber mais, você vai ter que assistir ao filme…

“O jeito é resolver a situação à base de chumbo grosso!”, assim pensa o nosso herói. Mas antes de agir como um vingador solitário armado até os dentes, como Charles Bronson em DESEJO DE MATAR, ele recruta alguns indivíduos que possuem conta em aberta com os bandidos e estão sedentos de vingança! E uma dessas vítimas ansiosa pelo seu dia de desforra, é interpretada pelo grande Vincent Gardênia. Alguns outros nomes também são bem conhecidos no meio dos subgêneros italianos como Orso Maria Guerrini e Joshua Sinclair.

Mas o que mais chama a atenção, dentre todas as qualidades que THE BIG RACKET possui, é mesmo a direção de Castellari nas cenas de ação. O sujeito deve ter acordado com o pé direito em todos os dias de filmagens. Duas sequencias, em especial, são verdadeiras aulas de como uma boa action scene deve ser filmada, com bastante estilo e sem frescuras: o tiroteio entre os vagões e claro, o grande final, uma das demonstrações mais expressivas de ação no cinema de Castellari, com direito as suas habituais câmeras lentas e brutalidade explícita. Mais um belo exemplar altamente recomendado!


Como não poderia deixar de fazer, indico um ótimo texto do Felipe M. Guerra sobre o filme. Basta clicar aqui.

ZERO WOMAN: RED HANDCUFFS (Zeroka no onna: Akai wappa, 1974), de Yukio Noda

Para quem está a fim de uma dose na veia de violência estilística, artsploitation apurado, nada melhor que este primeiro filme da série ZERO WOMAN, que rendeu diversas sequências ao longo dos anos, inclusive na década de noventa e nesta atual, que acabaram direto no mercado de DVD’s. Não cheguei a ver nenhum filme mais recente da série, mas não devem ter o mesmo nível criativo e contextual deste clássico do cinema de exploração japonês.

ZERO WOMAN: RED HANDCUFFS é um autêntico Pink Violence, bastante elegante na sua concepção visual, na combinação dos filmes policiais dos anos setenta com uma brutalidade explícita e estilizada que rendem um belo culto à violência visceral. Infelizmente, peca um bocado pela misoginia, hoje vista pelos maus olhos da sociedade com muito mais afinco, mas na época devia fazer a alegria das bichas enrustidas, mas isso não estraga a diversão…

Resumindo consideravelmente a trama, Miki Sugimoto vive a policial de um departamento especial, a “Zero Womam” do título, com a missão de resgatar a filha de um poderoso político das mãos de seis seqüestradores, sem que a situação se torne pública, o que acarretaria num escândalo para o inescrupuloso homem do governo, que pretende se candidatar a primeiro ministro do Japão. Para isso, a heroína precisa exterminar todas as provas do crime, isso inclui os seis meliantes.

O líder dos criminosos é interpretado por Eiji Go, num excelente desempenho, bastante expressivo. O filme retrata os bandidos como sujeitos de índole profundamente má, capazes de praticar as mais puras bestialidades sem arrependimento, deixando gente como Frank, de Henry Fonda em ERA UMA VEZ NO OESTE ou o reverendo Harry Powell, de Robert Mitchum em O MENSAGEIRO DO DIABO, de cabelos arrepiados!
Mas tudo isso torna ainda mais gratificante quando o espectador assiste os vagabundos sendo tratados como lixo humano, bem ao estilo da Pink Violence, principalmente numa cena de tortura envolvendo um maçarico. Na verdade, a nossa heroína só consegue entrar em ação pra valer no final, já que, durante todo o processo da missão, Miki infiltra-se no bando e não ajuda em nada os policiais que estão prestes a encher os bandidos de chumbo.

Além da violência, há uma grande quantidade de nudez gratuita, quesito básico que não poderia faltar a este tipo de produção. Tralha que se aproveita de dotes femininos, situações perturbadoras como crueldade sexual e assassinatos com muita violência exagerada, mas com um tratamento visual acima da média, feita especialmente para os fãs de abobrinhas urgentes, mas muito divertida!

UN FLIC (1972)

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Do Melville só havia assistido LE SAMOURAI e resolvi dar uma explorada no restante da filmografia começando pelo ultimo filme que realizou. Confesso que vindo de um diretor tão consagrado no gênero policial francês e, sendo este seu derradeiro trabalho, eu esperava mais de UN FLIC, mesmo assim é um bom filme estranho.
A trama de UM FLIC envolve uma quadrilha de assaltantes, liderado pelo ator americano Richard Crenna (que mais tarde faria o Coronel Trautman em RAMBO) e um inspetor, vivido por Alain Delon, que trabalha para capturá-la. Tem alguns momentos ótimos, como a cena de roubo ao banco na chuva logo no início; Delon em cena é sempre marcante, principalmente por fazer o tipo policial de métodos heterodoxos; e vários personagens interessantes, lapidados com uma bressoniana falta de emoções, algo que já parece ser particular do diretor.
Outras sequências não me atraíram em nada – o assalto ao trem, com aquela maquete totalmente deselegante… Por que filmar desse jeito? Num filme de baixo orçamento italiano eu entenderia. O filme ainda aproveita muito mal a Catherine Deneuve. De qualquer forma, está bom como está, não é exatamente uma despedida como a de Sergio Leone, mas também Melville não está a altura do italiano… Mas quem está? Essa semana eu vejo como ele se saiu em LE CERCLE ROUGE.

A DOPPIA FACCIA (1969)

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Primeiro filme do Riccardo Freda que assisto. Não sei se era o mais adequado pra iniciar a filmografia do cara, mas devo confessar que valeu a pena. A DOPPIA FACCIA é um belíssimo e sofisticado giallo, baseado numa obra do mestre da literatura policial, Edgar Wallace.

O filme é sobre um sujeito recém casado com uma milionária que acaba surpreendido quando ela pede um divórcio prematuro e, logo a seguir, morre num acidente de carro. O ex-marido é logo apontado como o principal suspeito, após a policia descobrir que o carro havia sido sabotado. O marido em questão é interpretado pelo Klaus Kinski, que é sempre uma presença marcante em qualquer coisa que faça. E ele está muito bem no papel do sujeito amargurado por ter perdido a mulher amada ao mesmo tempo em que se vê acusado; e pior, acaba descobrindo que, possivelmente, ela ainda está viva. A provável revelação acontece numa jornada psicodélica durante uma festa onde o protagonista assiste a um filme erótico cuja “atriz” possui algumas características que pertenciam a sua mulher.

É praticamente uma versão giallo de VERTIGO, de Alfred Hitchcock, e isso fica ainda mais evidente no desfecho. Mas esse tipo de alusão não tira o brilho de A DOPPIA FACCIA, que é uma aula de construção atmosférica, embora algumas cenas com efeitos especiais e miniaturas sejam bem toscos, o que não deixa de ser um charme a mais.

POSSESSÃO (1981)

Já vou avisando que o texto contém spoilers, mas acho que sou um dos únicos que ainda não havia assistido a esta belezura…

É um pouco complicado falar de POSSESSÃO, filmezinho difícil de ser digerido, mas é inegável o seu poder e mesmo tendo visto há mais de uma semana, ainda me pego pensando e visualizando suas imagens. Nesses casos, me lembro de alguma coisa que o David Lynch disse sobre alguns de seus próprios trabalhos: que os filmes não precisavam ser compreendidos, mas sentidos… ou algo assim. Pode ser bobagem, mas funciona.

Então, seguindo a filosofia “Lynchiniana” sobre filmes complexos, me deixei levar por POSSESSÃO. O que vale é o hedonismo. E não há nada mais satisfatório que acompanhar a câmera intensa do diretor Andrzej Zulawski, com o roteiro surtado e ficar deslumbrado com as performances impressionantes de Sam Neil e Isabelle Adjani (que está linda, exagerada e sublime).

Fora isso, não tenho intenção alguma de fazer uma análise aprofundada sobre a obra. Seria algo que se tornaria pedante demais da minha parte… Até porque POSSESSÃO possui uma trama que dá pra acompanhar tranquilamente e trata, basicamente, do drama, por mais insólito que seja, do casamento dos personagens de Neil e Adjani. O fato é que ele volta pra casa depois de um tempo trabalhando no exterior e descobre que ela tem um amante, um sujeito que se acha muito mais experiente em tudo na vida que o corno do Sam Neil.

Até aí tudo bem (pra mim, não pro Sam Neil), mas a coisa não é bem assim, porque ela logo sai de casa e abandona tanto o marido quanto o amante para viver num apartamento com uma criatura horrenda que a satisfaz sexualmente. Acho que não estraguei tanto a surpresa. Não é muito segredo a presença de uma criatura, já que os créditos iniciais informam isso quando aparece o nome do grande Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos especiais.

E é necessário apontar para essa criatura, pois é o elemento máximo das metáforas existentes em POSSESSÃO e rende uma discussão danada em torno disso. Mas em uma leitura mais superficial, o filme pode ser visto sobre as consequências do fim de um relacionamento. Zulawski, que também escreveu o roteiro, disse que seu próprio casamento serviu de inspiração…

Ou se preferir, POSSESSÃO pode prestar também como um excêntrico filme de horror. Claro que não serve para qualquer público, principalmente pela narrativa lenta, o desfecho hermético e o comportamento estranho dos personagens que agem como loucos-histéricos-psicóticos-suicidas – e não só o casal central, todo mundo no filme parece afetado por um estado mental coletivo bizarro. Não falta aqui uma atmosfera densa e carregada, litros de sangue e até mesmo um monstro pra completar uma bela sessão de horror.

THE RETURN OF THE STREET FIGHTER (1974); THE STREET FIGHTER’S LAST REVENGE (1974), de Shigehiro Ozawa

Terminei agora pouco de assistir aos dois filmes que restavam da série protagonizada pelo personagem Takuma Tsurugi, vivido pelo grande Sonny Chiba, iniciada em THE STREET FIGHTER. Suas partes seguintes, todas sob a direção de Shigehiro Ozawa e rodadas no mesmo ano, não chegam a ser melhor que o original, mas conseguem manter um nível excelente!

THE RETURN OF STREET FIGHTER possui um fiapo de enredo que parece existir somente pra trazer o personagem de volta às telas e faturar em cima disso, mas compensa com ação do inicio ao fim cheio das habituais sequências grotescas de violência que Tsuguri, o mercenário lutador autodidata, executa contra seus oponentes, sempre naquele estilo grosseirão de desferir os golpes, em sua grande maioria em ambientes apertados contra vários inimigos ao mesmo tempo. Crânios esmagados, dedos enfiados nas cordas vocais, globos oculares saltando do rosto e o retorno de um personagem do primeiro filme que todos pensvam que havia morrido. Enfim, é diversão de primeira, com uma boa direção, cenas de lutas muito bem feitas, uma galeria de personagens interessantes e Sonny Chiba em cena fazendo suas caretas.

THE STREET FIGHTER’S LAST REVENGE é o oposto. Os roteiristas resolveram dar um trato na trama e talvez seja a mais elaborada da trilogia. Mas tanto trabalho no roteiro acabou deixando o filme sem ação em comparação aos anteriores. Não se preocupem, pois ainda há cenas de luta até dizer chega, só não esperem o mesmo vigor e quantidade nem a violência gráfica dos dois primeiros filmes (ainda assim há uma cena quem que Tsuguri arranca a cabeça de um sujeito com uma pisada!). Até o Chiba parece sem empolgação e só mesmo nas ultimas cenas de luta que ele resolve fazer suas caretas expressivas com aquela respiração bizarra. O final consegue retomar a energia da série em termos de ação e acaba resultando num filme de porrada com um pouco mais de “conteúdo”. De quebra temos uma pequena participação de Etsuko Shihomi, que estrelou a trilogia SISTER STREET FIGHTER, e a presença da musa da Pink Violence, Reiko Ike, para embelezar o filme em certos momentos.

FACA NA GARGANTA (1975)

Dia desses vi esta belezura do Jack Hill, que é dos mais criativos e ousados diretores dos anos 60 e 70 no cinema americano de baixo orçamento e merecia um reconhecimento maior entre os cinéfilos de hoje. Além de ser essencial para qualquer pessoa que deseja se aventurar no mundo do cinema de exploração. FACA NA GARGANTA (Switchblade Sisters) é um autêntico clássico do “gênero” e um de seus melhores trabalhos, que ainda incluem COFFY, FOXY BROWN, THE BIG BIRD CAGE, THE BIG DOLL HOUSE, SPIDER BABY, etc (um cara com um currículo desse só pode ser considerado um mestre!).

FACA NA GARGANTA Faz parte também de uma lista imaginária dos filmes-referência de Quentin Tarantino, que é fã confesso da obra e chegou a comprar os direitos de lançamento para o seu selo de DVD’s, a Rolling Thunder, em meados dos anos 90. E tem tudo a ver com o universo que o diretor de PULP FICTION desenvolveu a partir de suas influências. A premissa básica de FACA NA GARGANTA trata da disputa pelo poder dentro de uma gangue feminina entre a líder Lace (Robbie Lee) e a recém chegada no pedaço Maggie (Joanne Nail). Mas para deixar tudo mais profundo e divertido, o roteiro inspirado de F.X. Maier tece uma complexa teia de guerra entre gangues, subtramas psicológicas que funcionam e uma galeria de personagens interessantes que só enriquecem o resultado.

Isso sem contar com os momentos dignos de um exploitation, afinal, estamos falando de um filme com rixas de gangues; temos brigas de mulheres, lutas de facas, conflitos verbais com muitas frases de efeitos e um tiroteio épico ao estilo do final de DESEJO DE MATAR 3. As atuações são acima da média para um filme de baixo orçamento e Jack Hill demonstra porque é um dos grandes autores do ramo com um estilo único. Consegue ainda combinar elementos de vários subgêneros incluindo uma sequência “Women in Prison”, quando as garotas vão pra cadeia e têm de enfrentar a robusta carcereira lésbica e suas subordinadas; e “blaxploitation”, quando pinta em certo momento uma gangue de mulheres negras que dispõe de um verdadeiro arsenal! É por isso que é impossível não virar fã de Jack Hill!

MR. VAMPIRE (Geung si sin sang, 1985), de Ricky Lau

Em MR. VAMPIRE, o diretor Ricky Lau, sua equipe técnica e elenco conseguem demonstrar porque os orientais sãos os cabras mais criativos do cinema e desenvolvem, a partir de um enredo dos mais simples, um filme genial utilizando apenas conceitos culturais como trampolim para uma mistura de comédia, terror e um toque de artes marciais! O resultado é um dos filmes mais divertidos que existe! E só vai achar que eu estou ficando maluco quem ainda não assistiu!

O que temos aqui, e que você precisa saber no momento, é um vampiro causando uma confusão danada; uma galeria de personagens interessantes tentando parar o ser das trevas a qualquer custo; e as várias situações absurdas que pontuam os confrontos frenéticos. Inclusive, surge uma subtrama envolvendo uma bela fantasma que rende mais algums seqüências fantástias.

Existem alguns detalhes que vocês precisam saber sobre os vampiros (ou zumbis) orientais, como a forma que, em determinado estágio, eles se locomovem dando pulinhos com os braços esticados; podem ser controlados por encantos Taoístas; transformam suas vítimas em vampiros com as unhas pontiagudas e azuladas, além, é claro, da habitual mordidinha no pescoço; e mais um punhado de coisas que se descobre assistindo a esta belezura.

A primeira meia hora é bem leve apresentando os personagens centrais, como o mestre Gau com sua “monocelha” e milhares de feitiços anti-vampiros que ultrapassam o limite da criatividade, interpretado pelo grande Lam Ching-Ying. O humor dá conta do recado nesse período com um tipo de comédia física e universal que rendem ótimas gargalhadas.

Mas logo depois o bicho pega de verdade e é ação até o desfecho! A coisa é tão frenética que realmente contagia o espectador com a mistura de tensão e comédia. Imagine um EVIL DEAD com coreografias de kung fu e você terá uma idéia do que estamos tratando aqui. As cenas de luta são fantásticas, principalmente aliadas à trilha sonora e os efeitos especiais artesanais que dão de dez a zero em qualquer coisa feita de CGI atualmente.

É o tipo de filme que eu poderia gastar vários parágrafos relatando os detalhes e as situações, mas chega por aqui. MR. VAMPIRE é riquíssimo e a partir dele surgiram algumas continuações e vários outros filmes se aproveitando da idéia dos “vampiros saltitantes”. Engraçado, tenso, original, um filme que precisa ser visto e ter seu lugar garantido entre os melhores filmes de comédia-horror de todos os tempos! Quem já viu vai concordar comigo. E recomendo o texto do Bruno C. Martino, para o site Boca do Inferno para saber muito mais sobre o filme.

E lembre-se disso, os vampiros só conseguem detectar a presença humana pela respiração!

10.000 DÓLARES PARA DJANGO (10.000 dollari per un massacro, 1967), de Romolo Guerrieri

Mais um Western Spaghetti pra moçada que curte o gênero. 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, como o título já anuncia, trata de mais um belo exemplar que aproveita o lendário personagem que Franco Nero, Terence Hill e até o ítalo-brasileiro Anthony Steffen deram vida outrora. Típico desses italianos espertinhos usufruindo do sucesso de outro filme, mas ok, contanto que façam coisas boas como é o caso deste aqui.

Talvez nem fosse necessário explorar a figura do mítico Django – aliás, o título original nem apela nesse sentido – porque o filme possui um lado significativo de boas idéias, personagens interessantes e uma realização técnica das melhores possíveis, que por si só renderia uma obra única. Por outro lado, tem um dos enredos mais estranhos no qual o espectador é sempre surpreendido pelas reviravoltas, o que nem sempre é bom quando há em excesso. No mais, uma parte compensa a outra de tal modo que no fim, os fãs do bang bang à italiana não têm do que reclamar!

Quem encarna o personagem desta vez é Gianni Garko (sob o pseudônimo de Gary Hudson), figurinha carimbada do western macarrônico tendo interpretado outros grandes indivíduos como Sartana e Camposanto. Em 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, o protagonista é um caçador de recompensa que parte para um ultimo serviço, já que sua próxima vítima vale os 10.000 dólares do título que ele tanto almeja para largar essa vida e ir viver com uma bela francesinha (Loredana Nusciak). Mas isso é basicão da trama, durante o percurso, rola o seqüestro de uma moça, assalto a uma diligencia, questões de amizade, confiança e vingaça!

O contraponto de Django é Claudio Camaso, que interpreta o perigoso vilão da estória, Manuel. O problema é que Camaso parece que está sempre de rímel nos olhos e fica com cara de viado, não que isso prejudique o andamento da coisa, mas o ator precisa demonstrar a masculinidade diversas vezes pra provar que é macho de verdade e mesmo assim, ainda fiquei com dúvidas…

nofa!
Ah, vai me dizer que não é rímel?

Mas deixando esses detalhes de lado, temos a direção de Romolo Guerrieri que é ótima desde a abertura do filme (que é genial, Django acordando à beira da praia com um defunto do lado) até o desfecho melancólico; Guerrieri é bastante seguro nos enquadramentos, nas seqüências de ação e na direção de atores; e a linda trilha de Nora Orlandi ajuda a intensificar a dramaticidade da obra, como todo bom e velho western à parmegiana tem que ser. Então, podem ir sem medo: 10.000 DÓLARES PARA DJANGO é, sem dúvida, um dos grandes momentos deste gênero italiano que eu tanto adoro!