LOBO SOLITÁRIO – A ESPADA DA VINGANÇA (1972)

Recentemente parei pra assistir, finalmente, a adaptação do Lobo Solitário para o cinema. E pra não deixar este blog mais parado do que está, vou comentar todos aos poucos, a partir de algumas anotações que fiz no meu Letterboxd. Então vamos começar pelo começo, o primeiro capítulo da saga, LOBO SOLITÁRIO – A ESPADA DA VINGANÇA (Lone Wolf and Cub: Sword of Vengeance) que inaugura uma das séries mais cultuadas do cinema japonês de ação. Dirigido por Kenji Misumi e estrelado por Tomisaburo Wakayama, o filme adapta o mangá Lone Wolf and Cub, criado por Kazuo Koike e ilustrado por Goseki Kojima. Nunca li muita coisa, mas do pouco que tive contato dá pra perceber que é uma obra monumental, publicada a partir de 1970 que rapidamente se tornou um fenômeno no Japão, tanto pela violência estilizada quanto pela inesperada dimensão poética da relação entre pai e filho.

E a premissa desse primeiro filme tem basicamente essa essência. Acompanhamos o ronin errante Ogami Ittō, antigo carrasco oficial do xogunato, que após ser traído por seu clã e ter a esposa assassinada passa a vagar pelo Japão feudal em busca de vingança ao lado do pequeno Daigorō, seu filho pequeno, transportado em um carrinho, um ítem simbólico que se transforma numa imagem tão estranha quanto icônica, já que serve tanto de transporte pra criança, mas também como arma, com facas e lâminas escondidas, como se a própria infância estivesse sendo empurrada através de um mundo brutal.

Visto em retrospecto, o filme funciona muito como um prólogo expandido. Posiciona cuidadosamente as peças no tabuleiro, apresenta o passado de Ittō, estabelece o conflito com o clã Yagyū e delineia a jornada que pai e filho irão percorrer juntos. Há uma melancolia muito particular na figura desse guerreiro viúvo que caminha rumo ao inferno levando consigo o próprio filho, numa mistura de amor paternal e fatalismo que dá ao filme uma tonalidade quase elegíaca. As sequências de ação já deixam claro o tipo de espetáculo que a série irá oferecer. A katana de Ogami corta carne com precisão, e o sangue explode em jatos avermelhados, como pinceladas expressionistas que cobrem a paisagem. Uma violência estilizada que o cinema japonês da época dominava com perfeição, cheia de exageros, mas muito coreografada e ao mesmo tempo grotesca e estranhamente bela. Dario Argento já dizia que às vezes a violência no seu cinema é bela. E realmente aqui assume uma beleza visual difícil de descrever.

Acho que o que realmente diferencia A ESPADA DA VINGANÇA de um simples chanbara sanguinolento é a atmosfera quase mítica que envolve seus personagens. Ittō surge nessa jornada como uma espécie de lenda ambulante, não apenas um espadachim formidável. O filme insiste nessa aura, sempre com personagens secundários falando sobre ele em sussurros, inimigos tremem ao ouvir seu nome, e o pequeno Daigorō observando tudo com um olhar de criança que parece compreender tudo, mesmo tão precoce.

A obra original de Koike e Kojima era bem episódica, composta de pequenas histórias autônomas que misturavam ação, filosofia budista, política feudal e até momentos de humor. Os filmes precisaram reorganizar esse material em narrativas mais coesas, costurando episódios distintos para criar um arco dramático contínuo. Nesse primeiro capítulo, sente-se ainda um pouco dessa estrutura fragmentada, com alguns segmentos parecendo pequenas histórias dentro da história maior. Mas que contribui de alguma forma pra sensação de estarmos acompanhando uma figura lendária atravessando diferentes paisagens e destinos. É um início bastante sólido. Porém, percebe-se algo ainda preparatório. A narrativa carrega certo peso expositivo e a estrutura episódica às vezes diminui o impacto dramático. Claro, tudo que tornaria a série lendária já está aqui, sobretudo no contraste entre brutalidade e ternura, o imaginário quase operístico da violência, e sobretudo a imagem de pai e filho que avançam juntos por um mundo condenado.

Nas continuações, essa figura, o “lobo solitário e seu filhote”, vão se tornando cada vez mais mítica. Aqui, estamos apenas assistindo ao nascimento da lenda.

3 ideias sobre “LOBO SOLITÁRIO – A ESPADA DA VINGANÇA (1972)

  1. Kazuo Koike escreveu dois episodios para serie “Spectreman” (1971-1972) episódio intitulado ” O Exilio de Spectreman” ,na trama Dr.Gori sequestra uma familia e os contamina com reagentes poluentes e depois manda-os para de volta ao lar deles, chegando começa a contaminação primeiro atraves de um pobre carteiro ,os Dominantes ordenam que Spectreman mate a familia antes que contamine todo mundo ele desobedece e desligado e exiliado pra outro planeta e no fim spectreman salva o mundo de novo descontaminando a familia atraves do spectre-flash reprogramado sobe das ordens de Nebula 71.Muitas pessoas hoje comprara esse episodio com a pandemia de Covid-19 que assolou o planeta naquele periodo ,um tipo de premonição por parte do grande autor Kazuo Koike ,vai saber,hein?
    um abraço de Anselmo Luiz

  2. Pingback: LOBO SOLITÁRIO - O ANDARILHO DO RIO SANZU (1972) - vício frenético

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