DRUNKEN MASTER (Jui kuen, 1978), de Yuen Woo-Ping

Sempre tive esperança de que a carreira do Jackie Chan pré-Hollywood fosse bem superior, já que o único filme dele desta fase que eu me lembro bem de ter visto foi UM KICKBOXER MUITO LOUCO nas tardes do SBT e era fanático! Simplesmente genial. Vi alguns outros também, mas era muito novo e já não tenho recordações, mas basicamente, só o conhecia pelos filmes americanos mesmo e isso é bem desanimador.

Bom, finalmente resolvi arriscar numa produção mais antiga do Chan e assisti ao DRUNKEN MASTER neste fim de semana e, lógico, não me arrependi. O filme é uma verdadeira pérola do cinema de artes marciais e reúne a direção mega-ultra-talentosa para cenas de luta de Yuen Woo-Ping com o humor pastelão de Jackie Chan (que também sempre foi um puta talento em cenas de luta). Um casamento perfeito, diga-se de passagem.

O enredo é bem simples, mas contém os elementos suficientes pra recheá-lo com bastante ação e momentos engraçados. Chan interpreta Hung, sujeito encrenqueiro, uma vergonha para a família cujo pai é um famoso professor de artes marciais. Depois de se meter em uma série de confusões, seu pai decide deixá-lo sob os cuidados de Su Hua Chi (na tradução da legenda da versão que eu vi é Mendigo Sam, mas não sei se é correto chamá-lo assim), um dos mestres mais rigorosos que há! E que vai ensinar para nosso herói a poderosa técnica dos oito deuses embriagados!!!

Literalmente, o sujeito tem de estar bêbado para realizar tal técnica e Jackie Chan lutando embriagado é uma antologia do cinema de porrada, aliás, todas as cenas de luta possuem coreografias perfeitas e muito bem conduzidas sob a direção de Woo-Ping, que é totalmente diferente do estilo seco e grosseiro dos filmes do Sonny Chiba, por exemplo. Chan utiliza tudo em sua volta para abater seus oponentes e até mesmo partes do corpo não muito utilizadas para desferir golpes, como na cena em que dá uma bundada num sujeito!

As cenas de lutas são bem divertidas e quem aprecia os filmes de Chan atuais (o que não é o meu caso) vai se surpreender ainda mais com a desenvoltura do sujeito em DRUNKEN MASTER, e ainda morrer de rir com situações engraçadíssimas envolvendo o protagonista e Su Hua Chi, interpretado pelo patriarca do clã Yuen, Yuen Siu Tien. Agora pretendo ver o DRUNKEN MASTER II, que segundo os amigos Herax e Takeo, consegue ser melhor que este aqui. Se fosse do mesmo nível já estava bom demais, imagine melhor…

MANGUE NEGRO (2008), de Rodrigo Aragão

Finalmente consegui prestigiar o famigerado longa capixaba de terror MANGUE NEGRO e de quebra ainda tive o prazer de conhecer o diretor Rodrigo Aragão. Foi um encontro bem rápido – e estava em cima da hora de começar o filme – e só consegui trocar algumas palavras, mas deu pra notar que é um cara que conhece o tipo de cinema que está fazendo e que foi influenciado pelos grandes mestres do horror, inclusive ele disse que sua maior referência foi Lucio Fulci. Uma ótima referência por sinal…

A produção do filme, totalmente independente sem ajuda de leis de incentivo, é cercada de fatos interessantes. Rodrigo começou a rodar MANGUE NEGRO sem um centavo no bolso, com toda equipe trabalhando de graça. Depois de realizar 15 min de filme dessa forma, conseguiu um produtor pra bancar o restante. Teve lançamento no Fantaspoa e foi muito elogiado.

E não pra menos, MANGUE NEGRO é realmente surpreendente em vários sentidos. O filme foi inteiramente rodado num manguezal localizado em Guarapari (ES) e na trama a poluição atinge uma proporção tão intensa no mangue que acaba contaminando os habitantes locais transformando-os em zumbis. Realmente referências e elementos que remetem a Fulci, Romero e Ossório não faltam, e ainda há uma direção bem ao estilo de um Peter Jackson e Sam Raimi nos inícios de suas carreiras, além da atmosfera que lembra uma espécie de CANNIBAL HOLOCAUST tupiniquim com uma pitada de crítica ecológica!

Mas o resultado deixa bem claro que MANGUE NEGRO não tem pretensão alguma de ser algo além daquilo que realmente é: um filme de terror de qualidade – tratando de um filme de baixo orçamento feito no Espírito Santo – feito por um apaixonado pelo gênero, com um roteiro pra lá de criativo cheio de sacadas ótimas e um humor negro muito bem inserido; um trabalho técnico preciso (principalmente nas maquiagens e efeitos especiais); muita violência explicita com litros e mais litros de sangue derramados, muitas vísceras e membros decepados sem piedade e com um realismo exagerado digno de um filme de terror italiano do final dos anos 70.

Não vale a pena falar dos defeitos que o filme possui, porque grande parte deles provém da falta de recurso e muitos são perfeitamente driblados com criatividade pelo diretor. Vale mais destacar os incríveis efeitos especiais e maquiagens desenvolvidas pelo próprio Rodrigo e que são de encher os olhos, uma coisa absurda de alto nível que eu tenho certeza que faria um Gino De Rossi ficar orgulhoso.

E é uma pena que o grande público ainda não leve a sério as produções do gênero aqui no Brasil. Salas vazias são constantes e até mesmo o filme do Mojica não teve uma boa bilheteria no ano passado. Culpa das distribuidoras, de um publico preconceituoso e tantos outros fatores que precisam ser resolvidos para desmistificar esse problema de que “todo filme de terror brasileiro é piada trash”. É um desabafo, mas com um tom de esperança porque ainda temos grandes caras como o Rodrigo Aragão, o amigo Davi de Oliveira Pinheiro (diretor do aguardado PORTO DOS MORTOS), e alguns outros cabras com coragem de preencher a tela de sangue com o bom e velho filme de horror!

Rodrigo Aragão e suas criaturas…

O VOYEUR (L’Uomo che guarda, 1994)

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Os filmes do italiano Tinto Brass sempre me fascinam, e não é só pelas beldades em trajes mínimos que o diretor arruma para embelezar suas produções (claro que isso ajuda muito), mas realmente acho o sujeito um diretor talentosíssimo, esteticamente ousado. E O VOYEUR é um dos seus melhores trabalhos nesse sentido, um dos mais surpreendentes exercícios visuais do diretor que evoca, com sua câmera, uma forma de fazer o publico extrair o voyeur que existe em cada um de nós (que filosófico… ou seria perversão mesmo?).

E para isso, o filme não se resume em constantes closes das periquitas, peitinhos, bundas, mulheres nuas o tempo todo, embora aconteça isso durante toda projeção. E o que é bom fica melhor ainda, pois há sempre um olhar poético por parte de Brass no seu estudo erótico, e o enredo é interessante o suficiente para justificar as cenas de putaria, mesmo que isso não importe tanto, já que a grande maioria vai assistir a um filme do Brass só pra ver a abundancia de beldades nuas. Cambada de devassos!

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Na verdade, a trama não possui nada de mais e é bem simples. A complexidade concentra-se na psicologia dos personagens. Até porque devassidão, fetiches e questões do desejo humano são comportamentos e elementos que podem naturalmente ser relacionados à um estudo da psicologia. Portanto, temos aqui um professor que vive com o pai inválido – este sob os cuidados de uma empregadinha danada de safada – com uma tremenda dor de cotovelo passando por uma crise existencial e tenta reatar o romance com sua ex-mulher exibicionista, numa jornada de descobrimentos. É o cuidado com os pequenos detalhes dessa trama, com os personagens, que dão uma certa substância e fazem O VOYEUR valer a pena.

Algumas sequências são dignas de antologia: a cena em que a mulher do cara (Katarina Vasilissa, que é lindíssima!) abre as pernas num restaurante, de um jeito que faria Sharon Stone de INSTINTO SELVAGEM parecer uma freira. Toda a sequência envolvendo uma aluna africana do protagonista que teve o clitóris retirado quando criança. Ainda há uma parte na praia, que é bem característico de Brass, e todos os momentos com a empregadinha safada.

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Francesco Casale, que interpreta o personagem central, transmite ao seu personagem toda a carga dramática do filme numa atuação digna de nota. A fotografia de Massimo Di Venanzo e a trilha de Riz Ortolani também são ótimas, e a direção do Brass é magistral com todos aqueles seus enquadramentos habituais, a montagem frenética e as particularidades de sempre, como o mesmo quarto cheio de espelhos utilizado em vários de seus outros filmes. Mas pensando bem, analisar um filme como este é meio que uma perda de tempo. Aposto que as imagens do post vão chamar muito mais a atenção.

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Mas se alguém por aí conseguir ver O VOYEUR com um olhar reflexivo, vai se surpreender com uma das grandes criações de Tinto Brass como cineasta criativo e talentoso que é. Se for buscando apenas uma boa quantidade de mulheres nuas, está no lugar certo também.

SÍNDROME DE CAIM (Raising Cain, 1992), de Brian De Palma

Ainda não conferi A FOGUEIRA DAS VAIDADES, filme que todo mundo já está careca de saber é um dos grandes fracassos do diretor (vocês que já viram, o que acham?) Outro que não foi muito bem de bilheteria na época é PECADOS DE GUERRA, que muitos consideram uma de suas obras primas, embora eu também não tenha visto. Mas fique tranqüilo, caro leitor, são poucos os filmes obrigatórios que eu tenho de ver do Brian De Palma. Além de PECADOS, ainda faltam A FÚRIA, O FANTASMA DO PARAÍSO e MURDER À LA MOD (e FOGUEIRA, mas este não é obrigatório, eu suponho). O resto eu vi…

Mas enfim, SÍNDROME DE CAIM, feito logo após o fracasso de FOGUEIRA é o retorno do cineasta ao thriller hitchcockiano, gênero que o consagrou e que fez a alegria dos fãs em filmes como VESTIDA PARA MATAR e UM TIRO NA NOITE. Ainda assim, SINDROME DE CAIM chegou a dividir bastante as opiniões. Já vi muito apreciador do cinema do cara dizer que detesta o filme, outros dizendo que adoram. Eu fico do lado dos que adoram. Não é dos melhores filmes do De Palma, mas não deixa de ser uma pequena demonstração da maestria do diretor, que ainda hoje é um dos mais virtuosos do cinema.

Talvez o ponto que possa incomodar algumas pessoas seja o enredo e a simplicidade da trama, algo que De Palma realmente parece tratar com uma certa irrelevância. Na verdade a trama principal é irrelevante e só serve pra justificar duas coisas: as elegantes piruetas estilísticas e manipulações temporais que o diretor realiza – e que é habitual em seu cinema – e dá ao filme momentos bem agradáveis (algumas seqüências aqui estão entre as melhores que o De Palma já filmou em sua carreira, como o final sensacional no motel). A outra é transformar SINDROME DE CAIM no filme definitivo sobre transtorno dissociativo de personalidade, ou múltiplas personalidades.

John Lithgow, que já havia trabalhado com o De Palma antes, faz o papel do coitado que sofre desse mal e causa sérios transtornos à sua mulher e filha. Até vira caso de policia! Claro que a trama é bem mais séria e envolve assassinatos, seqüestros de crianças e etc. O fato é que Lithgow está perfeito e consegue atingir grandes resultados em sua atuação definindo de forma expressiva cada personalidade tomada por seu personagem. Ele está genial na cena em que é submetido a hipnose por uma doutora. Merecia um Oscar! Sério. O elenco ainda possui Lolita Davidovich, Steven Bauer, Frances Sternhagen, Tom Bower e Gregg Henry.

O entrecho também faz alusões a outros filmes, talvez fosse bem definido como uma mistura de PEEPING TOM, do Michel Powell e PSICOSE, do Hitchcock. No final temos até uma referencia ao VESTIDA PARA MATAR com o personagem do Lithgow vestido com certas semelhança ao Michael Caine do outro filme. Quem viu sabe do que estou falando. Mas nisso tudo, o que mais conta é a direção espetacular do De Palma que cria momentos impressionantes, como o plano seqüência da delegacia que começa no terceiro andar, acompanha um grupo de personagens em escadas, elevador até terminar num close da defunta com uma expressão muito bizarra. E ainda temos o final inacreditável que eu citei ali em cima.

Sem dúvida alguma é uma grande filme, cinematograficamente poderoso e altamente recomendado, principalmente a quem já viu e não gostou, porque SÍNDROME DE CAIM não são só belos e estéreis movimentos de cameras; é toda a criação do universo de um gênio do cinema.

THE EXECUTIONER (Chokugeki! Jigoku-ken, 1974), de Teruo Ishii

Quando comentei sobre THE STREET FIGHTER, algumas pessoas me indicaram alguns filmes com o Sonny Chiba como G.I. SAMURAI e A LENDA DOS OITO SAMURAIS. Eu já encontrei os filmes e estão aqui esperando a boa vontade pra conferir, mas do Sonny Chiba eu acabei mesmo me deparando primeiro com este THE EXECUTIONER, indicação do amigo Takeo, do blog Asian Fury. Ainda acho THE STREET FIGHTER um filme superior, mas este aqui também é uma belezura!

O diretor Teruo Ishii, considerado um dos grandes mestres do cinema de ação oriental, faz um belíssimo trabalho juntando elementos das artes marciais, muita violência gráfica no melhor estilo dos exploitation’s orientais, um humor meio bobo, mas bastante divertido e um bocado de nudez gratuita. As cenas de lutas são extremamente brutais com direito a toda extravagância criativa que esses caras possuíam para chocar o espectador como uma cena em que o Sonny Chiba arranca a costela de um sujeito com as mãos!!!

A trama é bem bobinha e só serve pra justificar as cenas de lutas e reunir uma galeria de figuras interessantes num mesmo filme. Além do grande Chiba, temos também Makoto Sato, Yutaka Nakajima, Hideo Murota e até Hiroyuki Sanada fazendo o personagem do Chiba na infância (foi o primeiro filme dele, com apenas 13 anos). Existem outros bem interessantes, mas que realmente eu ainda não me familiarizei, portanto não conheço. Basicamente, três mercenários são recrutados por um ex-delegado para lutar contra um chefão das drogas.

Uma das melhores coisas de THE EXECUTIONER é a relação e a química entre os três sujeitos, cada um bem diferente do outro, o que acarreta um punhado de cenas cômicas intensificada por uma trilha sonora bizarra. A edição e os movimentos de câmera também agradam bastante, principalmente nas sequencias de ação. Há uma cena bem legal em que Chiba enfrenta um numeroso grupo de adversários (como sempre) ao mesmo tempo em que outro dos mercenários avança rapidamente de carro pela cidade. Um ótimo efeito de como uma edição bem utilizada deixa tudo mais interessante.

As cenas de lutas são bem legais e muito bem executadas pelos atores, principalmente Sonny Chiba, cujas expressões e caretas estão menos exageradas que de costume. Perto do final, surge em cena também a presença de Yasuaki Kurata que faz uma ótima imitação de Bruce Lee. E como já mencionei, mas é sempre bom repetir, a violência é bem exagerada.

Assim como THE STREET FIGHTER, que teve duas continuações, THE EXECUTIONER também teve uma sequência dirigida por Teruo Ishii. Aliás, Ishii também é diretor da seqüência de SEX & FURY, que eu comentei aqui outro dia. Ainda não vi essa seqüência, mas como sempre, é algo que farei em breve.

SEX & FURY (1973), de Norifumi Suzuki

Ocho (Reiko Ike) toma banho tranquilamente numa banheira e de repente precisa defender-se de um grupo de bandidos que a ataca com espadas. Ela se levanta e começa a lutar e o fato de estar completamente nua não parece fazer muita diferença para os seus adversários (mas para nós, meros espectadores, faz) que vão caindo um a um a seus pés, nem sempre inteiros. A luta é levada para um cenário coberto de neve e aos poucos, a nudez e a neve ficam manchadas de sangue criando um efeito estético muito interessante.

Mas o visual neve e sangue remete a outro grande clássico do cinema exploitation Japonês: LADY SNOWBLOOD, de Toshiya Fujita, que fora lançado no mesmo ano que SEX & FURY. Mas enquanto o primeiro é um exploitation em seu estado puro, o segundo é um belo exemplar do subgênero Pink Violence, e se você ainda não conhece ou não sabe que tipo de filme verá neste estilo, a antológica cena citada no primeiro parágrafo define muito bem a sua essência.

Então não importa se a protagonista está em busca de vingança (da mesma forma que no filme de Fujita), mas sim os detalhes e os elementos que o diretor Norifumi Suzuki trabalha para enfatizar a violência e o tom erótico da bagaça.

Um fator que ajuda em muito nestes quesitos é o desempenho de Reiko Ike como a protagonista sexy e vingativa, que se entrega à personagem de maneira formidável. Outra presença ilustre é a da sueca Christina Lindberg, famosa pela sua interpretação em THRILLER – A CRUEL PICTURE (precisando de uma revisão para eu escrever algumas linhas sobre ele), um verdadeiro clássico do cinema físico!

Christina Lindberg não poderia ficar de fora da ação!

Suzuki era um mestre dos filmes de ação japonês e as cenas de luta em SEX & FURY são bem violentas e sangrentas, ainda mais com a beleza e sensualidade de Reiko Ike que não se importa de pagar peitinho enquanto perfura ou rasga seus oponentes sem piedade, como na seqüência final. Chega a ser poético!

OBS: Uma perguntinha básica: vocês preferem que os posts tenham muitas ou poucas imagens? (e quando eu digo muitas, seria este post um exemplo; e poucas é o que eu venho fazendo regularmente)

O SANGUE DE ROMEU (Romeo is Bleeding, 1993), de Peter Medak

O SANGUE DE ROMEU talvez seja a homenagem mais porra-louca feita aos clássicos filmes policiais dos anos 40 e 50. Após uma rápida introdução mostrando Gary Oldman em algum lugar no deserto do Arizona, onde cuida de um posto a beira da estrada, somos levados há cinco anos atrás, se eu não estou enganado, para tomar conhecimento das circunstancias que levaram o sujeito àquele lugar. O próprio personagem se habilita em narrar a história, como um bom film noir tem que ser…

Oldman interpreta Jack Grimaldi, um policial que de vez em quando realiza alguns servicinhos sujos para a máfia. É um sujeito ambicioso e faz isso pra ter uma “graninha” extra, já que o salário de policial não dá conta de manter o nível que pretende dar para a esposa (Annabella Sciorra) e para a amante (Juliette Lewis, que agora virou roqueira). Tudo parecia dar certo, até que um dia conhece Mona (Lena Olin), membro da máfia russa e com contas para acertar com o mafioso Don Falcone, vivido pelo grande Roy Scheider.

O bicho pega porque Jack deveria fazer uma missão bastante simples, mas dá tudo errado. Mona desaparece, Falcone a quer morta e caso Jack não resolva isso em dois dias, vai ter que vestir o terno de madeira. Só que Mona é o diabo de saia! A mais diabólica das femme fatale’s de qualquer filme clássico não passa de um anjinho perto desta aqui. É a partir dela que a coisa toda começa a ficar bizarra, porra-louca total. A cena absurda do carro em que ela foge de Jack é o ponto crucial, a partir daí estamos em outro universo, mais doentio, barroco, violento…

Gary Oldman está perfeito. É incrível como ele incorpora cada personagem que interpreta de maneira expressivamente singular como é o caso do policial corrupto de O SANGUE DE ROMEU. Consegue transmitir toda a sensação de desespero surreal a partir da catarse como se a visão do narrador estivesse turva e perturbada ao narrar aquela história para nós, espectadores, que assistimos sob o seu ponto de vista. Mas é Lena Olen quem rouba a cena. É impossível descrever as capacidades físicas e psicológicas que a personagem se submete sem estragar a surpresa. É o cerne de todo o filme e que torna O SANGUE DE ROMEU único.

O elenco é bem legal: Além de Oldman, Olin, Sciorra, Lewis e Scheider (que está excelente como chefão mafioso) temos participações de Will Patton, James Cromwell, David Proval, Michael Wincott, Ron Perlman, Dennis Farina, alguns fazendo apenas uma ponta outros com uma participação maior como Wincott que é um desses atores subestimados que nunca teve uma boa chance de mostrar seu talento para o grande publico e aqui demonstra total segurança no que faz.

A direção do húngaro Peter Medak é muito boa, mas é daquelas que deixa seus atores brilharem, uma escolha acertada com um elenco desses e um roteiro em mãos muito bem escrito que faz jus ao estilo noir e ainda torna tudo mais interessante com as bizarrices da personagem de Lena Olin. O SANGUE DE ROMEU andou passando no canal fechado MGM, não sei se ainda vai passar, mas quem tiver a oportunidade não perca!

MACHINE GUN KELLY (1958)

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Já devo ter comentado sobre o Roger Corman num dos primeiros posts do blog, mas vale a pena relembrar. Corman foi um dos grandes mestres do cinema B americano, prolífico produtor e diretor de cinema fantástico, western, policial e exploitation de todas as espécies, além de ter revelado vários cineasta como Scorsese, Coppola, Monte Hellman, Joe Dante, e uma lista infindável. Uma de suas principais características é a velocidade na qual realiza suas produções. MACHINE GUN KELLY, por exemplo, teve apenas oito dias de filmagens e faz parte de uma série de gangster movies que realizou na época.

O filme é livremente inspirado na vida de George Kelly – conhecido como Machine Gun Kelly pelo fetiche que tem por sua metralhadora – um perigoso bandido da década de 30, que foi impulsionado pela mulher ambiciosa a trilhar o caminho do crime. Quem encarna o sujeito é ninguém menos que Charles Bronson; e quem pensa que ele era um iniciante naquela época está enganado. MACHINE GUN KELLY era seu vigésimo segundo filme (embora tenha sido seu primeiro com maior importância) e sua interpretação está entre as melhores que o ator já compôs, principalmente no que se refere aos detalhes da construção de personagem, como a fobia pela morte, por exemplo.

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A direção de Corman é inspirada. Com uma simples cena ele resume toda a essência do personagem de Bronson, aquela em que o ator brinca de bater palma com a criança sequestrada. Além disso, a criatividade do diretor para driblar o baixo orçamento é absurda, como no primeiro assalto logo no início, onde mostra apenas a sombra do policial que é baleado pela metralhadora de Kelly numa solução bem simples e muito funcional; isso sem contar os diálogos muito bem colocados no roteiro de R. Wright Campbell (roteirista de várias produções do Corman e de HELLS ANGELS ON WHEELS, de Richard Rush).

Mas MACHINE GUN KELLY possui algumas irregularidades narrativas que decorrem por causa da pressa da produção, do baixo orçamento, o que afeta o ritmo. O filme começa muito bem, mas tem suas decaídas, não preza muito por cenas de ação e tudo isso não permite que o filme saia do limbo preconceituoso que a crítica “séria” tem com os filmes B, pois na verdade nenhum destes detalhes atrapalha a diversão. O fato é que é um ótimo filme e a forma como Corman trata psicologicamente seu personagem é digna de um cinema inventivo muito além de seu tempo.

O VINGADOR SILÊNCIOSO (Il Grande Silenzio, 1968)

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Ainda não sou um profundo conhecedor da filmografia de Sergio Corbucci e já li por aí que o sujeito fez uns filmes bem fraquinhos ao longo da carreira. Mas quando a coisa é boa (como DJANGO, de 1966, e este aqui), ele acerta em cheio e é por isso que é fácil classificá-lo como um dos maiores realizadores de Spaghetti Western. O VINGADOR SILÊNCIOSO é provavelmente um dos melhores e o mais pessimista exemplar do gênero. E é por esse pessimismo, principalmente no controverso desfecho, que não é de se estranhar que o filme nunca tenha sido lançado nos Estados Unidos.

O VINGADOR SILÊNCIOSO é estrelado pelo ator francês Jean-Louis Trintignant e o grande Klaus Kinski. Só isso já o torna imperdível. No lugar do francês, a primeira escolha era Franco Nero, que já havia trabalhado com o diretor, mas estava com a agenda lotada. Trintignant só aceitou fazer o filme porque era muito amigo do produtor e sob a condição de que não precisasse decorar nenhuma fala. Criaram então um personagem mudo, cujas cordas vocais foram cortadas quando criança. E Trintignant está perfeito vivendo Silêncio, este herói trágico em busca de vingança e lutando contra caçadores de recompensas inescrupulosos. Já Kinski interpreta justamente um caçador de recompensa sem escrúpulos.

O filme se passa nas locações frias e cobertas de neve do estado do Utah, onde um grupo de bandidos se esconde nas florestas aos arredores da cidade de Snow Hill esperando a anistia prometida pelo novo governador para poder retornar à cidade e levar uma vida normal. Obrigado a roubar para poder se alimentar durante o exílio involuntário, cada cabeça do grupo vale uma boa grana e vários caçadores de recompensa invadem a região como lobos em busca de caça. Loco (Kinski) é um deles, o mais perigoso e ganancioso. Ao matar um desses fugitivos, Pauline, a mulher do defunto, recruta Silêncio para matar Loco.

A grande sacada de Corbucci foi dar alma a cada um de seus personagens principais. Não só aos dois protagonistas, mas também ao Xerife, interpretado por Frank Wolff e Pauline, a bela Vonetta McGee (que não é lá grande coisa como atriz, mas que compensa com outros atributos). Todos eles são movidos por algum instinto muito bem definido, como a vingança e a cobiça. Mas quando essas motivações dão lugar a um jorro de emoções, fica difícil resistir. Há uma cena belíssima quando Silencio e Pauline fazem amor sob a sedutora melodia de Ennio Morricone, ato que os torna tão humanos quanto poderiam ser e talvez por isso Silencio se torne tão vulnerável a partir deste ponto, muito diferente daquele pistoleiro onipotente do início.

E o final é extremamente chocante e brutal. Quebra qualquer paradigma dos heróis míticos e invencíveis criados pelo western hollywoodiano. A forma como Corbucci retrata os vilões (especialmente Kinski com aqueles olhos azuis expressivos de gelar a espinha) e os refugiados da floresta reforça ainda mais o sentido dilacerante da conclusão, e Silêncio, ao se apaixonar por Pauline e tornar-se mais humano, acaba enfraquecido, e já não pertence mais aquele universo instintivo. E como todos sabem, na natureza são os mais fortes que sobrevivem.

SEVEN MEN FROM NOW (1956)

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Meu primeiro contato com o cinema de Budd Boetticher. SEVEN MEN FROM NOW é um western inteligente, puramente cinematográfico e alegoricamente interessante. O elenco é encabeçado por Randolph Scott e, que inicia aqui uma pareceria com o diretor que rendeu alguns clássicos famigerados (aliás, os outros filmes desta parceria eu já tenho e vou comentando na medida em que for assistindo). Com roteiro do grande Burt Kennedy, o filme gira em torno de Scott, que interpreta um ex-xerife atrelado numa caçada por sete sujeitos que assassinaram sua esposa em um assalto; ao longo do caminho ele encontra algumas pessoas que o acompanha nessa jornada, como um casal que ruma para Califórnia numa carroça e um antigo desafeto do protagonista, vivido por Lee Marvin (fazendo um belo contraste, o sempre robusto Marvin x Scott e seu jeitão lacônico). Boetticher é bem seguro narrativamente e sabe utilizar as simbologias do gênero, a paisagem, o espaço, as cores, tudo em favor de um estilo simples e respeitador dos princípios da expressão da imagem cinematográfica, o que torna cada plano um espetáculo visual único.

FIGHT FOR YOUR LIFE (1977)

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A imagem acima já dá uma noção do grau de insanidade dos realizadores de FIGHT FOR YOUR LIFE, um verdadeiro petardo da era dos cinemas grindhouse. Subversivo ao extremo e repugnante até o talo, é filme feito para provocar o espectador e que rendeu um lugar na famigerada lista dos vídeo nasties, aqueles exemplares que foram censurados, mutilados e/ou banidos de alguns países na era das video-locadoras. 

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Basicamente, a história de FIGHT FOR YOUR LIFE segue um trio de condenados que, logo no início, consegue escapar do ônibus de transporte da prisão, troca tiro com a polícia e foge no carro de um cafetão. O bando é liderado por Jessie (William Sanderson, de BLADE RUNNER, doentio, depravado num desempenho perfeito) e conta com Chino, um mexicano, e Ling, um asiático como ajudantes. Atravessando em fuga uma cidadezinha aos arredores de Nova York, acabam numa casa onde mantém uma família de negros como reféns! É um filme muito democrático e multi-racial, como podem notar…

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É neste ambiente que grande parte da coisa se desenrola. Toma uma forma bruta, com estrutura de home invasion movie, à partir da direção crua e realista de Robert A. Endelson, que explora o roteiro de Straw Weisman sem piedade. Apesar da curta duração, FIGHT FOR YOUR LIFE é carregado de situações e temas ofensivos como racismo, religião, estupro e violência desenfreada e sem sentido. O que mais surpreende, no entanto, é o incrível desempenho do elenco submetido a essas situações de extremo conflito psicológico e agressões físicas.

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Obviamente, percebe-se que FIGHT FOR YOUR LIFE não é pra qualquer tipo de público, especialmente o mais fresquinho, acostumado com os enlatados politicamente corretos das salas de Cinemark. Além do mais, o filme possui seu lado caseiro, algumas encenações são toscas, a parte técnica fica a desejar em alguns momentos por conta do baixo orçamento, acaba por incomodar esse espectador mais “exigente”. Mas o que é falha para alguns é charme para outros. Os fãs de um bom exploitation vão adorar.

FAVORITOS DEMENTIA 13 DE 2008

Aqui estão os melhores filmes de 2008. Faltarão alguns que não vi, mas acho que é o essencial entre os que consegui ver, inclusive alguns que ainda não foram lançado nos cinemas brasileiros (e nem sei se vão):

20. O ESCAFANDRO E A BORBOLETA, de Julian Schnabel: Porque nem só de filmes de gênero vive o ser humano… E este aqui emociona com força, e sem precisar anular os clichês da ocasião, embora seja talhado com bastante cuidado. Estéticamente perfeito. E prender a atenção do espectador narrando através de um olho de um sujeito inválido não é pra qualquer um…

19. PARANOID PARK, de Gus Van Sant: Outro que foge à ideologia do blog, sorry, não pude evitar. Mas é realmente muito bom. Van Sant dá sequencia a seu cinema autoral, iniciado em GERRY, agora para entrar na cabeça de um adolescente e acompanhar narrativamente seus conflitos psicológicos diante de um fato que sucede. O ritmo, os sons são marcações que mapeiam o estado psicológico do garoto, que é um retrato do jovem americano alienado.

18. FUNNY GAMES USA, de Michael Haneke: Este aqui achei um tanto desnecessário quando assisti. Mas tentando entender um pouco a decisão do diretor, soube que Haneke queria que o VIOLENCIA GRATUITA, de 1997, fosse um filme pra atingir o publico americano. Então nada mais justo essa refilmagem quadro a quadro da mesma obra para que os americanos finalmente possam ser estuprados assistindo sem legendas. O elenco está excelente e o filme continua com o mesmo poder devastador do original. Então…

17. GO GO TALES, de Abel Ferrara: Digamos que seja A MORTE DE UM BOOKMAKER CHINÊS versão Ferrara. No lugar de Gazzara, um Willem Dafoe inspiradíssimo e muitas, mas muitas mulheres semi-nuas, inclusive uma cena onde Asia Argento faz uma dança no poste das strippers e ainda dá um beijo de língua num cachorro em pleno palco, tudo isso filmado com aquela câmera desvencilhada do diretor de VÍCIO FRENÉTICO. Preciso contar mais alguma coisa pra saber porque é um dos melhores do ano?

16. THE DARK KNIGHT, de Christopher Nolan: Não sei se a morte do ator Heath Ledger, que interpretou o famigerado Coringa neste aqui, influenciou o estrondoso sucesso comercial do filme (cujas opiniões ficaram bem divididas). A atuação de Ledger é realmente de encher os olhos, sombrio e visceral. Mas o filme ainda consegue ser muito mais. Alguns compararam a grandiosidade narrativa de Nolan com a de Michael Mann ou Martin Scorsese. Acho que não é pra tanto, mas é definitivamente um dos melhores filmes baseados em quadrinhos de todos os tempos. O que não é pouco…

15. FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach: Cinema nacional, sim! E o Carlão continua sua jornada pela vida das operárias em busca de seus anseios, assim como GAROTAS DO ABC, nesta pequena obra de arte. Os elementos do melodrama não são tão bem utilizados desde Douglas Sirk e Vincente Minnelli (ok, exagero), e colocar Mauricio Mattar como galã é o auge do kitsch cinematográfico. E o que é Rosanne Mulholland? Ai, ai (suspiros). Além de linda e biscoituda, é extremamente talentosa. Dá de dez a zero a muita pseudo-atriz da novela das oito (que começa sempre às nove).

14. ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, de José Mojica Marins: Pois é, mais cinema nacional, e este ano tivemos o grande retorno do Zé do Caixão. E só de ter proporcionado a oportunidade de assistí-lo no cinema (com mais cinco gatos pingados, o que é uma pena) já o torna de grande valor pessoal. E ainda notar como foi extremamente bem filmado é melhor ainda. É horror de primeira qualidade em todos os sentidos e daria inveja a qualquer filme de terror produzido atualmente em Hollywood.

13. BOARDING GATE, de Olivier Assayas: Um motivo pra ser obrigatório: Asia Argento, que está lindíssima e carrega o filme inteiro nas costas (impossível pensar em outra atriz atual que se entregasse tanto ao filme). O que não quer dizer que o diretor não tenha seus méritos, pelo contrário, o francês Olivier Assayas provavelmente é um dos cineastas mais maduros do cinema atual e seu estilo de direção e movimentação de câmeras ultrapassam os limites da criatividade. E ainda temos Michael Madsen (outro momento kitsch).

12. DIÁRIO DOS MORTOS, de George A. Romero: Ao invés de buscar o realismo de um CLOVERFIELD ou [REC], o filme de Romero se aproxima ainda mais da ficção, da atmosfera superficial do zombie movie, mesmo com a linguagem pseudo-documental, e isso funciona perfeitamente para enfatizar a sua análise do homem com uma câmera e a obsessão pelo registro. Aos 68 anos, o diretor ainda possui uma liberdade criativa invejável, tudo num clima de Road Movie apocalíptico.

11. O NEVOEIRO, de Frank Darabont: Um verdadeiro soco no estômago do terror americano que, todos nós estamos carecas de saber, anda mal das pernas há muito tempo, com raríssimas exceções. Darabont, que adaptou Stephen King mais uma vez neste aqui, pode até não ser um Carpenter, mas soube aproveitar muito bem a essência do terror clássico, em especial o oitentista e de quebra nos brindou com um dos finais mais corajosos do cinema hollywoodiano.

10. RAMBO 4, de Sylvester Stallone: Ok, podem estranhar um filme como este entre os dez primeiros, mas há de se dizer: cinema tão sincero quanto este ainda está para existir (talvez ROCKY 6, do mesmo Stallone). Tão simples e sem pretensões, a não ser a de trabalhar humanidade em seres tão instintivamente primitivos, além de ser uma verdadeira aula de direção em termos de ação e violência escatológica visual. Filmaço!

9. REDACTED, de Brian De Palma: De Palma resolve pegar o argumento central de outro filme seu, PECADOS DE GUERRA, para criar esta coisa assustadora, utilizando de vídeos encontrados na internet e a linguagem pseudo-documental que serve para expor com mais veracidade os horrores de uma guerra inútil e estúpida, além de analisar o papel das novas mídias em meio às situações abordadas. O resultado é de dar muito mais medo que muitos filmes de terror por aí.

8. A ESPIÃ, de Paul Verhoeven: Este aqui deveria ter entrado na minha lista do ano passado, mas como ainda me limitava aos filmes lançados no Brasil, acabei cometendo a besteira de deixá-lo de fora. Mas tudo bem, o filme chegou no Brasil e pude revê-lo. E que filme! Parece a sintese de uma carreira, estão lá os mesmos temas tratados em todos os filmes do holandês. E Carice van Houten obtém uma das melhores interpretações do cinema moderno!

7. SENHORES DO CRIME, de David Cronenberg: É o supra sumo da arte de Cronenberg, que às vezes extrapola (para o bem) a sua definição de cinema físico, palpável, com direito a todos os temas do corpo, mutações e metamorfoses. Aqui eleva-se a excelência esse cinema. Por isso Crona é um dos meus favoritos de sempre! E o que são aqueles atores (em especial Viggo Mortessen, que repete a parceria com o diretor no melhor desempenho de sua carreira), a seqüência de naked fight na sauna? Genial.

6.SPARROW, de Johnnie To: Uma pequena obra prima que passa a sensação de que o diretor e seu elenco estão se divertindo horrores com a brincadeira de filmar. E o publico sente isso na tela através da leveza dos planos, das referencias cinematográficas, da manipulação temporal, da utilização magnífica do som, do espaço, principalmente quando os personagens interagem com a cidade ou no primor da coreografia na seqüência do “balé dos guarda chuvas”, uma das cenas mais sensacionais do ano.

5. GRAN TORINO, de Clint Eastwood: Aos quarenta e cinco do segundo tempo, eu consegui assistir e encaixar esse filmaço do velho Clintão na relação dos melhores do ano. Deve ser lançado no Brasil no próximo ano e eu ainda pretendo escrever algumas maiores considerações sobre ele, mas por enquanto, basta saber que o diretor ainda está em plena forma criativa e sua atuação vai surpreender muita gente…

4. DEIXA ELA ENTRAR, de Tomas Alfredson: Belo filme sueco sobre como ser adolescente e descobrir o amor nesta fase da via e que, por um acaso, temos uma vampira de 12 anos (pelo menos em forma física) na trama. O diretor Tomas Alfredson faz um magnífico confronto entre as coerências do mundo real com os elementos do fantástico. Tudo parece plausível nesse universo irreal. A câmera sempre distante, serena, apenas enquadrando, compondo, trabalhando o foque e o desfoque, reflexos, sem muitos cortes nem os artifícios que manipulam o espectador.

3. ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO, de Sidney Lumet: Por trás de uma história de roubo, há um sólido drama familiar de situações extremas trabalhado com uma firmeza que só um veterano como Sidney Lumet poderia realizar. A forma como o cineasta brinca com os pontos de vistas, mexendo na ordem cronológica da narrativa reforça ainda mais o estado de espírito de cada personagem envolvido, e mesmo as indas e vindas no tempo não tiram o classicismo genial das situações dramáticas desempenhadas com maestria pelos atores (principalmente, Phillip S. Hoffman).

2. ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ, de Ethan e Joel Coen: Depois de dois fiascos lamentáveis, os irmãos Coen demonstram que ainda estão no páreo entre os grandes diretores americanos. Este aqui é um monumento, contém todos os elementos que fizeram o cinema dos irmãos e muito mais. Personagens brilhantemente construídos, uma secura totalmente inesperada, direção puramente cinematográfica com domínio total do tempo e espaços, do valor de cada corte… E nem precisava, mas vamos lá: Javier Barden como o assassino psicopata já está se tornando um clássico!

1. SANGUE NEGRO, de Paul Thomas Anderson: Quando os créditos começaram a subir, eu estava completamente moído. Não restavam dúvidas, ainda naquele mês de março, de que eu havia acabado de ver o melhor de 2008. O filme é um terror épico, um estudo do homem em contato e obcecado com o poder num de seus momentos mais lúcidos na história do cinema. Nisso tudo, ganha o domínio total de seu diretor propiciando vigoroso impacto dramático a um tipo de cinema clássico, tradicional, eficiente e servido de excelente fotografia, trilha sonora e o monstruoso desempenho do melhor ator que temos na atualidade. SANGUE NEGRO já nasceu clássico!

Bom, só tenho uma certeza, os 10 primeiros (e olhe lá!), de resto acho que se poderiam ir trocando entre eles conforme os dias e motivações…

Desejo a todos um ótimo 2009!
Em Janeiro retornaremos com mais do mesmo…

NAKED OBSESSION (1991), de Dan Golden

Frank (Willian Katt) é um sujeito pacato, vivendo sua vida quadrada enquadrada pela mulher e pelo trabalho: um político prestes a se candidatar à prefeitura da cidade onde mora. Mas em uma bela noite, sua vida se transforma num inferno disfarçado de paraíso após conhecer o misterioso morador de rua Sam Silver (Rick Dean) e ficar obcecado pela stripper Lynne (Maria Ford) que leva o pobre Frank a um perigoso jogo de traição, assassinatos e a uma trama de suspense que até o mestre Alfred Hitchcock se surpreenderia.

Naked Obsession é o primeiro trabalho de Dan Golden atrás das câmeras, embora seja velho de guerra colaborador de grandes nomes do cinema de baixo orçamento americano, como Jim Wynorski. E até que se sai muito bem como um contador de história bem econômico e objetivo, trabalhando os elementos do thriller com precisão e tendo em mãos um material criativo (escrito por ele mesmo e Robert Dodson), cuja produção e suas baixas limitações permitem o charme que só este tipo peculiar de filme possui.

O roteiro é excelente, intrigante para quem se propor mergulhar de cabeça na história, rico em metalinguagem, quase uma versão de Fausto do cinema B (como disse o Osvaldo Neto quando me indicou o filme). Vale ressaltar a participação das figuras ilustres que preenchem o filme como a belíssima Maria Ford, demonstrando que não é necessário ser uma atriz muito expressiva quando não precisa de figurino algum, e claro, Rick Dean, como um bizarro e enigmático “anjo da guarda” que surge para apresentar um lado da vida que Frank ainda não havia experimentado.

WINCHESTER 73 (1950)

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Quando estava assistindo ao novo 007 outro dia, em alguns momentos eu me lembrava de WINCHESTER 73, que eu havia conferido um tempinho antes. Os dois não têm nada em comum, obviamente. Só que o primeiro me decepcionou um bocado por causa das cenas de ação e o segundo é praticamente uma aula de direção sobre o assunto. Um Western dos mais originais que eu já vi, dirigido pelo grande Anthony Mann e com o sempre competente James Stewart no elenco, vivendo um sujeito marcado pelo desejo de vingança, caçando o assassino de seu pai. O filme ainda tem em seu elenco Shelley Winters, além de Rock Hudson e Tony Curtis no início de suas carreiras.

Na trama, Stewart é um excelente atirador, mas seu oponente também não deixa a desejar, como é mostrado logo no início numa disputa de tiro ao alvo na festa de uma pequena cidade, cujo vencedor leva como premio a belíssima winchester que dá nome ao título. A grande sacada do roteiro é colocar a winchester como protagonista de uma jornada pelo oeste americano. O personagem de Stewart ganha o prêmio que disputou no início, mas logo em seguida sua recompensa é roubada e a arma vai passando nas mãos de bandidos, índios, cowboys, casacas azuis, em vários locais e situações, sempre causando sentimentos de cobiça e espalhando a morte como um verdadeiro personagem de carne e osso. A narrativa escolhe sempre acompanhar o caminho que a arma faz ao invés de seguir os atores de maneira definida. Acaba transformando-os em meros coadjuvantes.

A forma como Anthony Mann se preocupa com um projeto deste tipo demonstra uma segurança exemplar. O único outro filme do diretor que eu havia visto é Um Certo Capitão Lockhart, também com Stewart, e não tão bom quanto este aqui, mas vale a pena. Mann parece ser um desses diretores para se pegar a filmografia inteira e assistir tudo. Em WINCHESTER 73, ele transforma os planos mais simples ou pequenos movimentos de câmera em cinema puro, como no genial duelo final entre Stewart e seu oponente. Um dos grandes momentos do western, sem sombra de dúvida. Se for sempre assim, Mann corre o risco de se tornar um dos meus diretores de cabeceira.

PORNO HOLOCAUST (1981)

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No início da década de oitenta, o italiano Joe D’Amato teve uma fase, digamos, caribenha, realizando alguns filmes sob o sol do arquipélago, financiado pelo próprio governo como forma de atrair turistas. Mas estamos falando do D’Amato, portanto, não esperem filmes turísticos… Como sempre, a “agenda lotada” do diretor fez com que ele filmasse vários filmes ao mesmo tempo, seguindo a risca o lema “quanto mais, melhor” e com PORNO HOLOCAUST não foi diferente. Realizado junto com EROTIC NIGHT OF LIVING DEADS, D’Amato aproveita-se do mesmo elenco, das mesmas locações e quase o mesmo tema para criar uma obra que mistura sexo explícito com horror.

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Mas o roteiro e temas não importam tanto. A trama é risível e provavelmente só existe porque D’Amato ainda não queria se dedicar ao pornô absoluto, como fez nos anos 90. Ele sempre queria contar uma história que pudesse intercalar uma cena de sexo com outra, especialmente se tivesse elementos de horror, sci-fi, etc… Sendo assim, o filme trata de um grupo de cientistas (um deles interpretado pelo grande George Eastman) que acaba numa ilha para estudar os danos causados por uma radiação, e eis que surge um mutante deformado meio zumbi que é a principal causa de uma onda de mortes na tal ilha, e que serve apenas para criar esse elemento de horror entre as cenas de sexo explícito. Mas acaba gerando não mais que gargalhadas.

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É que não dá pra levar a sério um mutante com uma maquiagem como essa aí de cima. Mas até que é divertido acompanhar seus ataques repentinos que permitem boas doses de gore, além de seus ataques tarados contra as mulheres. Mas a diversão não para por aí, ainda temos as tórridas cenas de sexo explícito e que, ironicamente, é onde a direção de D’Amato se sai melhor em PORNO HOLOCAUST, como a que uma das protagonista faz sexo com dois negrões. Ou a cena onde duas mulheres colocam as aranhas pra brigar num tronco à beira da praia, que é extremamente bem filmada aproveitando-se da iluminação natural e da beleza das praias caribenhas. D’Amato é foda.

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CONSCIÊNCIAS MORTAS (1943)

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Que PUTA filme esse CONSCIÊNCIAS MORTAS (43), de Willian A. Wellman, cuja reputação é totalmente justificável. Trata-se de um western com forte, apelo ético, anti-linchamento, provavelmente levantou algumas sobrancelhas na época do lançamento. Hoje não funcionaria nem como panfleto, mas ainda induz à reflexão sobre leis e justiça (principalmente neste país de merda onde vivemos).

Mas deixando de lado as questões sociais, sobra ao filme cinema de puríssima qualidade. São apenas 75 minutos, mas muito bem enxugados e que valorizam as composições visuais de Wellman, além de trazer no elenco grandes nomes em magníficos desempenhos, como Henry Fonda, Dana Andrews e Anthony Quinn, todos em ótimos momentos de suas carreiras.

EMANUELLE IN AMERICA (1977)

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Quando se fala em Emanuelle, muita gente vai se lembrar da famosa série erótica na qual a personagem infestava as mentes dos pré-adolescentes que ficavam até altas horas das madrugadas de sábado para assistir o Cine Privé da Band. Bons tempos aqueles, mas não é exatamente desta Emanuelle que hoje vamos falar, mas sim da misteriosa e sensual Black Emanuelle interpretada pela musa Laura Gemser, que encarnou a personagem pela primeira vez no filme EMANUELLE NERA, de Bitto Albertini.

Com o passar dos anos, vários diretores utilizaram a personagem em seus filmes, e sempre com Gemser interpretando seu papel. Laura Gemser tinha uma beleza exótica magnífica e explodia em sensualidade. Bastava tirar a roupa e dizer as falas que os enquadramentos dos planos e uma ótima fotografia ficavam a cargo de um resultado satisfatório. O nosso famigerado Joe D’Amato que o diga, foi um desses diretores que trabalhou com a personagem em diversos filmes, inclusive tomou Laura Gemser como musa nos mais variados tipos de produção.

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Foi aí que surgiu EMANUELLE IN AMERICAum dos melhores exemplos desta parceria entre D’Amato e Gemser. A história gira em torno de uma repórter que investiga o submundo do sexo entre milionários excêntricos e acaba se metendo no meio do perigoso universo dos snuff movies (filmes que mostram assassinatos reais). A trama se passa com certa lentidão, onde temos muitas cenas de nudez e sexo entre as investigações. Vale lembrar que algumas cenas são de sexo explícito (sem a Gemser, óbvio), detalhe que faz parte de uma das principais características de D’Amato, sempre em busca do choque visual, misturando tais cenas com tramas de suspense ou terror, como em PORNO HOLOCAUST e EROTIC NIGHT OF LIVING DEADS, por exemplo.

99cbf77e73f1e4969c57302aec8ba3f0D’Amato chega a filmar uma mulher excitando um cavalo em uma reuniãozinha dos milionários (da mesma forma que fez em sua versão de CALÍGULA). Embora não mostre o ato sexual da mulher x cavalo, é um dos momentos mais impressionantes do filme. Junto, é claro, com as famosas cenas de snuff movie, que são de um realismo extraordinário e causou muita polêmica na época. Foi quando surgiu a lendária história que D’Amato havia conseguido cenas de Snuff com a máfia russa! Na verdade, foram filmadas pelo próprio D’Amato sob a batuta do trabalho do grande mestre dos efeitos especiais Gianetto de Rossi. Mas só de ter criado esses boatos o filme já merece o status de genial!

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A MORTE SORRIU PARA O ASSASSINO (1973)

RILLER 1973] La Morte Ha Sorriso all'Assassino (Joe D'Amato, Ewa Aulin, Klaus Kinski, Angela Bo, Sergio Doria)_avi_snapshot_00_01_36_[2010_05_15_06_43_07]

Mais um belo exemplar do puro e simples cinema do grande diretor, embora subestimado pela maioria, Joe D’Amato, em um filme de início de carreira (pra quem realizou mais de 190 filmes, o sexto ou sétimo filme ainda é início de carreira, não?). D’Amato, até então, havia realizado apenas westerns, algumas comédias e um filme de guerra, se não estou enganado. Não cheguei nem perto de ver nenhum deles ainda, infelizmente, mas um dia chego lá. A MORTE SORRIU PARA O ASSASSINO é o primeiro filme de terror que D’Amato dirigiu e trata, basicamente, de uma mulher que chega a uma mansão com amnésia após sofrer um acidente com a carruagem que a conduzia. Logo, vários assassinatos misteriosos se iniciam na mansão e seus arredores.

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O roteiro do próprio D’Amato (juntamente com Claudio Bernabei e Romano Scandariato) não se contenta em apenas explorar uma vertente do horror e acaba fazendo uma mistureba muito louca com vários elementos que tangem o sobrenatural e o real, onde temos uma mulher que volta a vida, embora seu organismo esteja fisicamente morto. E temos ainda o espírito dessa mesma mulher vagando e assustando as pessoas, tudo jogado em cena sem qualquer coesão ou preocupação temporal.

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Ainda temos Klaus Kinski de corpo presente interpretando um médico que “descobre demais” e acaba tendo vida curta dentro do filme. Mas sua presença é marcante com aquele rosto expressivo. É um dos meus atores favoritos, principalmente porque, além de ser excelente em tudo que faz, não tinha frescura, trabalhava com diretores do nível de um Herzog, mas não deixava de atuar em bagaceiras de Jess Franco.

Com sua experiência na direção de fotografia (e trabalhar como tal aqui também, mas creditado com seu nome de nascença, Aristides Massaccesi) e ter um estilo próprio já desenvolvido, D’Amato conseguiu construir um de seus filmes mais atmosféricos e bem acabado visualmente mesmo que ainda não recorra de todos os elementos que o tornaria famoso, como as temáticas ousadas e o forte apelo sexual (na verdade, o filme é bem ousada pra época, mas D’Amato faria coisas muito mais subversivas em trabalhos seguintes, e não faltam cenas de nudez por aqui).

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Mas o que não se pode reclamar é da violência. O filme possui várias sequências onde o gore reina supremo e, em algumas delas, D’Amato se aproveita esteticamente para dar um tom mais artístico à sua obra, como no frame acima. Ok, a grande maioria vai achar A MORTE SORRIU PARA O ASSASSINO uma bela merda, mas eu adoro. Foda-se.

CURE (1997)

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CURE é desses filmes que te arrebata instantaneamente. Agora quero ver tudo do japonês Kiyoshi Kurosawa (que não possui ligação alguma com o diretor de Ran, Kagemusha, e diversos outros) cuja carreira já possui considerável número de filmes e só agora parei pra conhecer seu trabalho. Este aqui foi o filme que deu a Kurosawa um certo reconhecimento internacional e sua grandeza reside no estilo rebuscado de contar uma história através de longos planos enquadrados com rigor e simetria, uma linguagem cinematográfica não convencional com o cinema de gênero que faz e, exatamente por isso, tão excepcional.

Trata-se de um terror policial psicológico com cara de filme de Antonioni, ou algo do tipo. A trama é até simples e parte de uma série de assassinatos, cometidos por pessoas diferentes, mas com as mesmas características: as vítimas sempre têm dois cortes que vão do pescoço ao peito em forma de X. O policial designado para o caso suspeita de que exista uma única pessoa por trás desses crimes. Aos poucos, a coisa toda toma forma de um profundo estudo da psicologia humana com a carga emocional que o protagonista vive, mas sem perder a essência do horror nem deixar de lado o realismo insólito na composição de suas imagens.

Dos diretores japoneses atuais, Kurosawa já assume um lugar favorável entre os meus favoritos ao lado de Takashi Miike, Takeshi Kitano e outros (preciso conhecer mais o Sion Sono). E isso é porque só vi apenas um filme do sujeito. Caso seus outros trabalhos mantenham o mesmo nível de qualidade deste aqui, ele corre sério risco de se tornar o meu favorito. E se tivesse assistido CURE antes de fazer aquela lista dos anos noventa que está ali em alguns posts abaixo, podem ter certeza que ele estaria lá.

ROY BEAN – O HOMEM DA LEI (The Life and Time of Judge Roy Bean, 1972)

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Paul Newman, um dos meus atores favoritos, morreu. Em sua homenagem, fui procurar no meu acervo alguns filmes dele que eu ainda não tivesse visto e acabei encontrando ROY BEAN – O HOMEM DA LEI, dirigido pelo mestre John Huston. Como era o único que eu não tinha visto, não precisei nem ter o trabalho de escolher. Mas foi muito recompensador, tanto por conta do próprio Paul Newman, numa belíssima interpretação, digna da galeria de personagens que viveu ao longo de sua carreira, quanto pelo prazer da descoberta de mais uma grande obra de John Huston já ingressando na sua fase final da carreira, que é repleta de alguns de seus melhores filmes, como FAT CITY e O HOMEM QUE QUERIA SER REI.

O roteiro de ROY BEAN – O HOMEM DA LEI foi escrito pelo grande John Milius (genial diretor de CONAN – BÁRBARO) e trata da vida do juiz que dá nome ao título, Roy Bean, vivido por Newman, cujos princípios básicos de sua profissão e filosofia de vida se resumem em sentenciar todo criminoso à forca, sem importar-se com a gravidade do crime. A história se passa na pequena cidade de Vinegaroon, onde acompanhamos o seu crescimento ao longo do tempo sob a influência do excêntrico e casca-grossa Juiz e que serve de metáfora para analisar um período de transformação na formação da civilização americana.

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Elogiar o trabalho de Paul Newman seria o mínimo a se fazer. Seu personagem ganha uma forma física, mental e mística que poucos atores poderiam conceber com tanto carisma, humor e profundidade dramática (Talvez um Mitchum ou Lee Marvin também aguentassem o tranco com tanta formosura).

Vale destacar ainda o elenco composto por figuras ilustríssimas como Anthony Perkins, no papel de um reverendo que surge no início do filme narrando sua passagem direto para a câmera, olhando para o público, algo que acontece várias vezes durante o filme com outros personagens. O próprio diretor John Huston surge em cena como um sujeito excêntrico que deixa um urso de presente ao Juiz. Ainda temos Jacqueline Bisset, Roddy McDowall, Ned Beatty, Richard Farnsworth, Stacy Keach como o fora-da-lei Bad Bob, o Albino, e a bela Ava Gardner, uma das mulheres mais lindas da história, fazendo uma participação como Lillie Langtry, a musa do protagonista.

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ROY BEAN – O HOMEM DA LEI não é um western convencional. Desde o início percebe-se um tom despretensioso na narrativa que logo alcança um ar estilizado já no primeiro tiroteio. Não é também um filme de muita ação, mas quando acontece, Huston parece não se importar muito com verossimilhanças, mas sim em dar a sensação de uma lembrança antiga, como uma história que foi contada de geração em geração até se tornar uma lenda que ultrapassa os limites da realidade. A cena em que o Albino toca o terror na cidade, por exemplo, é uma das minhas favoritas nesse sentido, com o tiro que lhe acerta, disparado pelo Juiz, deixa um buraco de desenhos animados, estilo Looney Tunes. É sensacional!

John Huston foi um dos grandes mestres do cinema americano e cada filme, especialmente nessa fase final da carreira, é uma descoberta deliciosa e que demonstra um diretor lúcido e totalmente maduro. E essa primeira (de duas, a segunda seria com o EMISSÁRIO de MACKINTOCH) parceria com Paul Newman é um dos grandes momentos de sua belíssima filmografia.