O MEU TOP 10

A cada dez anos a SIGHT & SOUND faz a sua lista com os 10 maiores filmes de todos os tempos. Recentemente lançou essa na qual UM CORPO QUE CAI ficou no topo e que tem sido bastante discutida. Se eles fazem, o blog DEMENTIA 13 também pode fazer. Mas a minha não é com os definitivos melhores filmes de todos os tempos, quem sou eu pra fazer algo assim? Mas estão aqueles exemplares que atualmente permeiam meu gosto particular. Listas são de momento, podem variar do dia para o outro, dependendo do humor de quem faz… e, principalmente, não devem ser levadas tão à sério. Mas acho que só faço outro TOP 10 desses daqui a dez anos.

10. O PORTAL DO PARAÍSO (Heaven’s Gate, 1980), Michael Cimino

 

09. A MONTANHA SAGRADA (The Holy Mountain, 1973), Alejandro Jodorowski

 

08. FOGO CONTRA FOGO (Heat, 1995), Michael Mann

 

07. CONAN – O BÁRBARO (Conan – The Barbarian, 1982), John Millius

 

06. FERVURA MÁXIMA (Hard Boiled, 1992), John Woo

 

05. O ENIGMA DO OUTRO MUNDO (The Thing, 1982), John Carpenter

 

04. MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (Wild Bunch, 1969), Sam Peckinpah

 

03. VIDEODROME (1983), David Cronenberg

 

02. VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (To Live and Die in LA, 1985), William Friedkin

 

01. TRÊS HOMENS EM CONFLITO (The Good, The Bad and The Ugly, 1967), Sergio Leone

CENTENÁRIO DE SAMUEL FULLER

TOP 10

10. A LEI DOS MARGINAIS (Underworld U.S.A, 1961)
09. ANJO DO MAL (Pickup on South Street, 1953)
08. DRAGÕES DA VIOLÊNCIA (Forty Guns, 1957)
07. O BEIJO AMARGO (The Naked Kiss, 1964)
06. RENEGANDO MEU SANGUE (Run of the Arrow, 1957)
05. PAIXÕES QUE ALUCINAM (Shock Corridor, 1963)
04. AGONIA E GLÓRIA (The Big Red One, 1980)
03. CASA DE BAMBU (House of Bamboo, 1955)
02. CAPACETE DE AÇO (Steel Helmet, 1951)
01. O QUIMONO ESCARLATE (The Crimson Kimono, 1959)

Antes que estranhem a ausência de CÃO BRANCO, é preciso dizer que faz muito tempo que assisti (acho que na TV, nos ano 90) e não me lembro de nada! Mas tenho a impressão que depois de corrigir esse erro, esse TOP 10 deverá sofrer alguma alteração…

13 ASSASSINOS (Jûsan-nin no shikaku, 2010)

Um belo exemplar que saiu nos cinemas brasileiros recentemente e que eu assisti lá no ano passado, foi 13 ASSASSINOS, do japonês maluco Takashi Miike, dono de uma das filmografia mais interessantes e bizarras da década passada, com títulos como VISITOR Q, AGITATOR, GOZU, ZEBRAMAN, IZO, a obra prima ICHI – THE KILLER… bah, vocês sabem quem é o Miike, não preciso ficar apresentando.

O sujeito entrou numa de refilmar clássicos do cinema japonês. Um de seus mais recentes é uma versão de HARAKIRI (62), do Masaki Kobayashi, o qual, vale ressaltar, é um puta filmaço (o original, não vi ainda o remake). Neste aqui, andou rolando por aí que seria uma versão de OS SETE SAMURAIS (54). Até acredito na possibilidade de haver uma influência do filme do Kurosawa, que aliás, é uma baita influência pra muita coisa, mas 13 ASSASSINOS, oficialmente, é uma refilmagem de THE THIRTEEN ASSASSINS, de 1963, dirigido por Eiichi Kudo.

Como assisti no ano passado, não me recordo da trama detalhadamente, mas lembro que trata-se de um grupo de treze samurais, como o título indica, que une forças para enfrentar um perverso Lord feudal, que fez alguma merda grande, e todo seu exército, preparando uma tremenda armadilha em um pequeno vilarejo por onde deverão passar. No clímax final, tudo explode numa batalha épica eletrizante! Ah, isso eu me lembro muito bem! Mas até chegar a esse ponto, Miike trabalha a narrativa com a lentidão característica desses filmes clássicos de samurais.

Para quem sempre foi taxado de diretor excêntrico especialista em produtos esquisitos, 13 ASSASSINOS é um dos trabalhos mais acessíveis e bem acabados do diretor, sem desmerecer, é claro, suas maluquices de sempre. Sou um grande admirador da obra de Miike, cineasta dos mais inventivos, prolíficos e porra-loucas desta geração. Mas aqui o estilo é mais sossegado, o sujeito quis simplesmente fazer um filme de samurai bad-ass clássico, e mandou bem à beça.

(Mas que os fãs não fiquem tão preocupados. De vez em quando surge um detalhe incomum ao longo da narrativa, toque do diretor, só pra lembrar que estamos assistindo a um filme do Miike.)

Na batalha final temos tudo que se espera para este tipo de situação em um filme de samurais, especialmente, é óbvio, lutas de espada com ótimas coreografias e sangue em abundância. Miike demonstra desenvoltura para filmar as encenações de batalha, consegue transpor para a tela com clareza a ideia da dificuldade de ter apenas treze samurais contra um exército de centenas de homens e dirige com mão firme e criatividade uma gigantesca sequência de ação de uns trinta ou quarenta minutos de duração. A contagem de corpos é tão alta que chega a enjoar…

Brincadeira, não enjoa nada. Não dá pra enjoar de um troço desses… se o cinema não foi criado pra fazer coisas desse tipo, então não sei pra que foi. Gostaria de ver na tela grande, mas tenho a impressão de que não passou aqui onde moro. Mas não tem problema, fica a recomendação para ver um filme de samurai de primeira qualidade no cinema. E vou é tratar de ver logo a versão que o Miike preparou de HARAKIRI. See you soon, folks!

1.000.000 DE ACESSOS

Isso mesmo! O DEMENTIA 13 atingiu a marca de UM MILHÃO de acessos! Pode parecer pouco para um blogueiro profissional, mas para um recinto pessoal, cujo tema é tão específico, é motivo para ficar muito feliz. Obrigado pela sua companhia durante esse tempo.

DE VOLTA + DUAS RECOMENDAÇÕES

SIM! Estamos de volta à nossa programação normal. Até que foi rápido… duas semanas sem pensar nem me preocupar em postar alguma coisa foram suficientes para sentir vontade de escrever novamente. Então, me aguardem!

1ª RECOMENDAÇÃO: ESPECIAL WILLIAM FRIEDKIN

O blog HQ SUBVERSIVA, do amigo Caio, está fazendo durante esta semana um especial com este grande diretor. Cada dia um texto de uma pessoa diferente. Vale a pena prestigiar, até porque amanhã entra um texto inédito meu sobre um dos filmes policiais mais desgraçadamente geniais de todos os tempos: VIVER E MORRER EM L.A.

O EXORCISTA, por Leopoldo Tauffenbach
COMBOIO DO MEDO, por Osvaldo Neto
PARCEIROS DA NOITE, por Daniel Vargas
VIVER E MORRER EM LOS ANGELES
CAÇADO, por Leandro Caraça

2ª RECOMENDAÇÃO: BRUCE

Por falar em texto inédito, atendendo ao convite de Rafael HQ, escrevi algumas linhas para o blog do Curso de Extensão da UFRGS. O tema deste ano é “2012 E O FIM DO MUNDO: OS 13 CAVALEIROS DO APOCALIPSE”, abordando a temática do fim do mundo explorada com diferentes enfoques em treze filmes. No meu caso, fui convocado a escrever sobre o ator Bruce Willis, porque um dos filmes abordados foi ARMAGEDDON. Clique aqui para conferir.

HOMEM DE GUERRA (1994)

Falta pouco mais de um mês para a estréia de OS MERCENÁRIOS 2 no Brasil, e confesso que estou bastante ansioso. Então, para ir entrando no clima, vamos com HOMEM DE GUERRA, um desses filmes de mercenários bem casca grossa dos anos noventa. Além disso, aproveito para matar a saudade do Dolph Lundgren, um dos meus action heroes favoritos, que não pinta por aqui há alguns meses e também estará no filme “do” Stallone.

Na verdade, eu conferi HOMEM DE GUERRA no início do ano, quando estava numa onda braba em assistir a exemplares do Dolph. Então, devo ter esquecido alguns detalhes, mas vou lembrando de algumas coisas à medida que vou escrevendo…

A trama, por exemplo. Dolph lidera uma equipe de soldados venais cuja missão é ir a uma ilha tropical asiática para “convencer” os habitantes locais a assinarem a venda do território para uma grande corporação americana, que quer extrair as riquezas naturais da região. Caso rejeitem a oferta, o couro vai comer. O negócio é que ao chegar ao local, a equipe de mercenários é tão bem recebida, tão bem cuidada pelos nativos, querendo apenas viver suas vidinhas simples, que chega ao ponto em que Dolph e sua turma decidem deixar a missão de lado, começam a se sentir humanos novamente, após anos de matança e violência…

É claro que alguns membros do grupo não concordam, querem realizar o trabalho e receber a grana a todo custo. E no fim, uma inevitável e épica batalha acontece, com Dolph, seus mercenários remanescentes e os nativos lutando contra um exército inteiro enviado pela poderosa corporação.

Pode parecer estranho, mas uma primeira versão do roteiro de HOMEM DE GUERRA foi escrita pelo renomado John Sayles, autor de vários filme do cenário independente americano e não sei como, diabos, surgiu este aqui na sua filmografia. Talvez sua versão fosse mais poética, mais elegante, seria dirigido pelo John Frankenheimer e provavelmente não teriam escalado o Dolph como protagonista. Acabou virando mesmo um truculento filme de ação nas mãos do diretor Perry Lang, mas é possível notar uns alguns lapsos humanos, filosóficos e introspectivos que restaram do roteiro de Sayles, com Dolph se apaixonando pela nativa interpretada por Charlotte Lewis, e as transformações que seu personagem sofre no âmago de seu ser… Ui!

Bah, mas o que estou falando? O que realmente importa aqui é ação, as frase de efeitos, alguns peitinhos asiáticos e Trevor Goddard alucinado fazendo um dos vilões mais afetados e ridículos que já vi. É como se o sujeito tivesse cheirado em tempo recorde todo estoque de pó reservado para produção inteira antes de entrar em cena! O elenco que temos aqui também é destaque, umas figuras simpáticas como BD Wong, Don Harvey, o grandalhão Tommy “Tiny” Lister, o veterano Aldo Sambrell e outros. O velho Dolph, com seu carisma de sempre, se sobressai, mas Goddard rouba a cena com seus exageros constrangedores. É tão ruim que chega a ser bom!

HOMEM DE GUERRA possui, relativamente, poucas sequências de ação. A narrativa é lenta e toma seu tempo antes de explodir com tudo nos últimos vinte minutos, quando ocorre a batalha brutal que já se espera de antemão. E Perry Lang não decepciona o fãs de cinema de ação de baixo orçamento com seu estilo grosseiro e old school, boas doses de explosão, tiroteios frenéticos, muitos dublês trabalhando pesado, contagem de corpos altíssima, violência sem frescura, do jeito que tem que ser. E sobra tempo ainda para uma trocação de porradas entre Dolph e Goddard, que é o paroxismo da truculência no cinema de ação. E tudo isso num belíssimo pano de fundo, as paisagens tropicais muito bem utilizada pelo diretor de fotografia Ron Schmidt (O NEVOEIRO).

Uma dica: encontrei o DVD de HOMEM DE GUERRA dando sopa numa Americanas daqui por uns 5 mangos. Apesar de estar fullscreen e a imagem não ser das melhores, valeu a compra.

BACK IN ACTION (1993)

O criador do Tae Bo, Billy Blanks (que aquela altura se metia a fazer filmes de porrada), encarna um ex-soldado das forças armadas americanas que agora trabalha como taxista. O problema é sua irmã, que vive se metendo (e metendo) com a escória, meliantes, gangsters e traficantes de drogas. Dividindo a tela, temos o típico policial casca grossa, vivido pelo ex-wrestler canadense “Rowdy” Roddy Pipper.

Com essas duas figuras em ponto de bala, BACK IN ACTION começa quente: O cenário é um cemitério onde ocorrerá uma negociação de entorpecentes. De um lado, a bandidagem (com a irmã do Blanks pagando de gostosa), do outro, a polícia agindo sob disfarce. E nas beiradas, Blanks tentando tirar a irmã dessa vida.

É claro que a negociação vai pelos ares e começa um tiroteio de lascar. O parceiro de Piper leva chumbo e morre, a irmã de Blanks acaba sequestrada. Piper e Blanks cruzam o caminho um do outro, trocam umas porradas num bar e mais tarde juntam forças para chutar a cara, metralhar e explodir vagabundos ao melhor estilo ação desenfreada dos anos 80/90.

Dirigido pela dupla Steve DiMarco e Paul Ziller (este último fez muita coisa… digamos, que nos interessa), o enredo importa bem pouco, porque a essência está na ação desses dois brutamontes e na química que resulta dessa parceria na luta contra o crime. Blanks nunca foi um ator talentoso, mas até que está bem à vontade por aqui, o que realmente vale é a sua eficiência nas sequências de luta. E se Roddy Pipper não é nenhum Orson Welles na atuação, ao menos possui carisma de sobra. Não vamos esquecer que o sujeito é o protagonista de ELES VIVEM, um dos filmes mais geniais de um dos diretores mais geniais que existe: John Carpenter. Piper e Blanks voltariam ainda a juntar forças alguns anos depois em TOUGH AND DEADLY.

A produção evidencia o baixo orçamento, no entanto, como vários filmes B de ação desse período, nota-se que boa parte do dinheiro foi muito bem gasta para a construção de sequências de ação, especialmente no departamento de dublês. O filme inteiro é recheado de cenas de pancadaria, tiroteiros, explosões e até uma ótima perseguição de carros pelas ruas movimentadas. A contagem de corpos é bem alta. Só não esperem algo do nível dos caros exemplares de ação de um Schwarzenegger ou Stallone. BACK IN ACTION tem pretensões mais discretas,mas para os amantes de um pequeno B movie de ação, diverte na medida certa.

O IMPERADOR DO NORTE (Emperor of the North, 1973)

Sou da mesma opinião do velho amigo Osvaldo Neto, meu filme favorito estrelado pelo Ernest Borgnine, que faleceu essa semana aos 95 anos, é O IMPERADOR DO NORTE, do mestre Robert Aldrich. Mas não tinha como ser diferente. Borgnine sempre cativou o público com seus personagens simpáticos e sorridentes, mesmo em exemplares mais duros, como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Sam Peckinpah (que seria o diretor deste aqui, após Martin Ritt desistir, mas acabou não concordando com o orçamento).

“O que aquele gordinho de cara engraçada está fazendo no meio dessa corja?!” Era essa a tônica de Borgnine… Mas aqui não! Em O IMPERADOR DO NORTE essa áurea de bonzinho vai às favas, num dos personagens mais brutais e sádicos que alguém poderia imaginar sobre a figura de Ernest Borgnine! Ele vive o condutor responsável de um trem de carga, durante o climax da depressão americana, que ganhou fama por não dar moleza aos viajantes clandestinos que resolvem pegar “carona” em sua preciosa locomotiva. Apesar disso, outra grande figura surge em cena para o confronto, Lee Marvin, cujo persoangem também possui um reputação a zelar: a de maior caronista clandestino de trem que existe!

Sem perder tempo com estudos sociológidos do período em questão (embora as classes estejam obviamente demarcadas nas duas figuras centrais), O IMPERADOR DO NORTE é um filme solto, mais em clima de aventura do que um recorte fiel e chato da depressão americana, e se desenvolve em cima do duelo físico e psicológico desses gigantes, o “vagabundo” liberto e o durão empregado da ferrovia. E Aldrich é de uma inteligência impressionante, conduzindo todas as situações de modo que o confronto seja inevitável, intensamente dramático… E quando finalmente ocorre, é como duas núvens carregadas que se chocam, causando estrondos ensurdecedores!

Belo filme, cinematograficamente potente, ótima recriação do clima da época, os traços da miséria, os programas de rádio, as roupas velhas e rasgadas, um sentimento que parece saído de um livro de John Steinbeck (apesar de inspirado em Jack London). E aqui vai o meu adeus ao velho Borgnine. O bom é que o sujeito deixou alguns duzentos filmes para estarmos sempre nos reencontrando…

PROMETHEUS E CUMPRIUS!

Com o perdão da piadinha infame do título do post, mas cumpriu com folgas! PROMETHEUS é sensacional! Deve ser o melhor trabalho de Ridley Scott desde… quando? BLADE RUNNER, há trinta anos? E curiosamente marca o retorno do sujeito ao gênero que o consagrou (e ao universo ALIEN, que ajudou a criar, dirigindo o primeiro da série). Mas o que deve ser levado em consideração é que PROMETHEUS, cuja trama transcorre antes do filme de 1979, é um exemplar que caminha com as próprias pernas e não depende absolutamente em nada da franquia na qual está inserida. Utiliza de alguns elementos dos quais estamos familiarizados, mas desenvolve algo completamente novo, com seus próprios mistérios, personalidade e reflexões. E parece que isso não entra na cabeça da moçada que vem se decepcionando com o resultado. Metem o pau no roteiro, nas perguntas deixadas sem respostas (e talvez esperassem surgir na tela os famigerados aliens de dentes afiados babando aquela gosma transparente)… Tem defeitos? Tem. Mas como é bom poder conferir na tela grande um sci-fi cerebral que, ao menos em sua primeira metade, tenta  propor questões filosóficas, indagações metafísicas sobre a origem do homem, seguindo a tradição de clássicos da ficção científica existencialista, como 2001, do Kubrick, e SOLARIS, do Tarkovski, sem se preocupar em entregar respostas e soluções fáceis. Numa época em que a má vontade do público em botar a cachola para funcionar parece ser a regra, PROMETHEUS chega em boa hora para afrontar.

E como disse o amigo Leandro Caraça, “O filme começa como Kubrick e termina como uma produção zilionária do Roger Corman”. Então para quem reclama da falta de urgência, na segunda metade o filme chuta o balde e abre espaço para o bom e velho horror espacial, com direito a ataques de criaturas desconhecidas, personagens se ferrando bonito, inesperada dose de violência e sangue, suspense atmosférico de primeira qualidade, um clima tenso e crescente que culmina em deflagradoras sequências de ação… A cena que a personagem da Noomi Rapace precisa fazer uma cesária forçada, por exemplo, é de prender a respiração e se contorcer na poltrona! E quando as duas mocinhas (Noomi e Theron), ao final, tentam escapar de um esmagamento, correndo na mesma direção que a colossal nave alienigena está rolando (ao invés delas fazerem uma curva de 90º, um desvio óbvio), estava tão absorvido na ação em toda sua grandiosidade, que nem me importei com a imbecilidade das personagens (e se eu quiser realismo, vou assistir a um documentário).

Dizer que a parte técnica de PROMETHEUS é impecável, é chover no molhado. O visual é arrebatador do início ao fim; os efeitos especiais são deslumbrantes; o design de produção, de som, 3D, e o caralho à quatro, tudo em perfeita sincronia de acordo com as nossas necessidades sensoriais. No elenco (que é muito bom), destaco o desempenho da sueca Noomi, que faz uma protagonista forte e expressiva, além de ter uma beleza exótica de encher os olhos; e o Michael Fassbender, ator magnífico, que apesar de ser o andróide sem emoção da parada, consegue ser, de longe, o personagem mais tridimensional e interessante.

O veredito: Ignore por uns instantes a série ALIEN e suas baratas espaciais e aprecie PROMETHEUS sem moderação, um belíssimo sci-fi como há muito tempo não tinhamos, que te coloca para pensar e, de quebra, diverte à valer! Ridley Scott deve ter surpreendido até seus detratores com PROMETHEUS (que não fica devendo em relação às suas obras mais aclamadas, OS DUELISTAS, ALIEN e BLADE RUNNER), filmando com um rigor cinematográfico extraordinário que muita gente não esperava. Agora, quando o assunto for ficção científica, espero que o sujeito seja levado em consideração entre os grandes diretores do gênero.

THE HAUNTED SEA (1997)

Este aqui é para os fortes! Filmezinho de qualidade duvidosa que nem mesmo seu diretor quis apadrinhá-lo. O crédito foi dado a um tal de Daniel Patrick, que se trata de um pseudônimo do verdadeiro dono da criança, Dan Golden. Agora, os motivos que levaram o sujeito a renegar o próprio trabalho é algo um tanto obscuro e Golden não revela absolutamente nada. O amigo Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja, já teve contato com o homem e, na entrevista que fizeram, o sujeito disse em um trecho “… one thing probably worth mentioning is my recent reunion with the lovely Krista Allen, who I’d directed years earlier on a thing called HAUNTED SEA (I used a pseudonym for reason’s having nothing to do with Krista, who was quite good in the film).” E Osvaldo, na sua vã insistência, não conseguiu retirar mais nada.

Mas tudo bem, se não podemos saber de fato o que aconteceu nos bastidores, ao menos podemos conferir o resultado na tela e… bem, dá pra ter uma noção das causas do Golden odiar HAUNTED SEA. O troço é muito ruim!

Por outro lado, temos em cena um elenco interessante para os afccionados por cinema de baixo orçamento, como James Brolin, Don Stroud, Joanna Pacula, Duane Whitaker e, claro, a gostosíssima Krista Allen que o Dan Golden citou alí em cima, protagonizando alguns momentos bem à vontade (ver imagem abaixo… como se eu precisasse avisar). Além disso, impera durante alguns momentos o fator comédia involuntária causada por um monstro misterioso que atormenta a tripulação do navio onde a história se passa, cuja fantasia tosca e fajuta me fez soltar boas gargalhadas!

O restante é uma frustrante tentativa de ser um ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO ambientado num navio, cheio de cenas em corredores escuros e claustrofóbicos, que não passam, na verdade, de longas sequências que se arrastam e quase nada acontece de fato. De vez em quando temos umas ceninhas de ação e gore com o monstro dando o ar da graça, além de alguns toplesses da Krista, que faz a alegria da moçada. Nem preciso dizer que pelo menos isso salvou a sessão de um completo desastre, né?

THE HUMAN CENTIPEDE II (2011)

Estava discutindo com alguns amigos sobre a existência de THE HUMAN CENTIPEDE II, filme de extremo mau gosto, repugnante, absurdamente nojento. Enfim, encontrei poucas pessoas que realmente gostaram deste show de violência escatológica sem sentido que quase me fez colocar o almoço pra fora. Mas eu gostei! Como isso é possível? É simples: é exatamente o filme que eu esperava! Nojento, repugnante e de extremo mau gosto! Não é nenhuma obra prima ou algo parecido, mas é o típico filme que você recebe pelo que paga. Eu “paguei” pra ver uma centopéia humana e tive uma centopéia humana, com direito a todas as consequências que isso acarreta, por mais demente que seja!

Filmado em preto e branco, a trama é sobre Martin (Laurence R. Harvey), um sujeitinho esquisito que não solta uma palavra sequer durante todo o filme. O negócio é que ele possui uma obsessão bizarra pelo filme anterior, A CENTOPÉIA HUMANA, e simplesmente decide fazer a sua própria centopéia. Aluga um armazém e começa a coletar as vítimas que farão parte de seu experimento. A idéia é bem besta, na verdade, e vários detalhes desse processo são  questionáveis, mas e daí? Deixem o sujeito praticar seu hobby em paz.

Se no filme anterior, o diretor Tom Six conseguiu a proeza de ser bastante clean, elegante e mesmo assim mexeu com os nervos do espectador – além de criar um dos grandes vilões do cinema de horror da nossa geração, o médico maluco Dr. Heiter, vivido por Dieter Laser – em THE HUMAN CENTIPEDE II, o sujeito resolveu chutar o balde! Todo o sangue, visceras e excremento que ficaram de fora do primeiro filme é jogado na platéia sem concessão alguma!

Então não é muito difícil entender porque o filme ganhou tantos detratores. Além de visualmente pesado, a história é frágil e não justifica toda a violência que, realmente, só existe com a intenção de chocar gratuitamente. No entanto, ninguém pode culpar o filme por não entregar o que prometeu! Até concordo que seja um tanto doentio apreciar algo com esse nível de imbecilidade, que goza de uma fila de pessoas com suas bocas costuradas no ânus do indivíduo da frente. Só que ao mesmo tempo, é difícil pra mim não respeitar a ousadia de um diretor que tenta levar seu cinema além dos limites do que é aceitável, e que não dá a mínima para o “mimimi” do público. Um filme que causa tanto transtorno tem seus méritos, sem dúvida alguma!

E que venha logo o terceiro exemplar da série!

THE INNKEEPERS (2011)

Da nova geração de diretores de horror, Ti West surge como um dos mais interessantes com THE INNKEEPERS, filme simples de casa mal assombrada, nada muito original, mas com certa ousadia, o sujeito consegue trabalhar o tema com muito estilo, atmosfera, um elaborado clima de horror que me impressionou bastante, e com personagens tão bem construídos e desenvolvidos que dá até vontade de assisti-los em seus cotidianos e conversando entre si do que vê-los em situações aterradoras. Embora tenha ficado com o c#!$ na mão em algumas sequências assustadoras!

Sim, eu sinto medo vendo bons filmes de horror! E não tenho receio de falar, eu faço questão de sentir medo vendo um bom filme de horror. Se é esse o objetivo da fita, qual é o sentido de assistir sem “borrar as calças”? Tá certo que não é nenhum medo que vá me tirar o meu sono à noite, parece mais uma angústia passageira, mas determinados filmes conseguem trazer fortes sentimentos à tona. E THE INNKEEPERS conseguiu.

A força se concentrar na boa história e ótimos personagens, não quer dizer que as sequências de horror ficam em segundo plano! A maneira como se cria o suspense atmosférico cena a cena até a ruptura, quando o bicho pega prá valer, é de gelar a espinha! Até os sustos, explorados de maneira tão gratuita pelo cinema de terror atual, conseguem fazer sentido e aumentam o batimento cardíaco do espectador neste aqui.

A trama se passa no último fim de semana de um antigo e grande hotel que fechará suas portas por causa do baixo rendimento. Sabe-se da existência de uma alma perturbada que faz parte de uma antiga lenda que cerca o local e temos esse casal protagonista, os últimos funcionários do hotel, curiosos sobre assuntos paranormais, determinados a registrar alguma movimentação do além… é bem interessante esse lance dos personagens irem atrás de situações assustadoras para se divertirem do que fazer uma busca mais séria, mas sem descambar para o humor. Existe apenas um senso de diversão na determinação, especialmente por parte da mocinha (a excelente Sara Paxton), usando esses últimos momentos do hotel para encontrar evidências paranormais.

As sequências das descidas ao porão do hotel, por exemplo, são realmente assustadoras e dão uma sensação forte de claustrofobia. Fazem das cenas hiper-realistas de ATIVIDADE PARANORMAL um programa infantil. É a prova de que uma boa construção dramática de horror é muito mais eficaz e fascinante que essas tentativas de levar uma verdade falsa para a tela… por mais que eu não ache ruim essa série supracitada.

Enfim, não sei se THE INNKEEPERS chegou a passar nos cinemas ou foi lançado de alguma maneira por aqui, mas é um programa imperdível para quem curte exemplares que bebem da fonte sagrada do legítimo horror atmosférico.

POST SAFADO, UMA HOMENAGEM A TINTO BRASS

Recebi uma notificação por email do Google ADSENSE, departamento que coloca anúncios em blogs e sites, informando que eu estava utilizando do serviço de uma maneira que não está em conformidade com as políticas moralistas do programa deles. E deram este exemplo aqui, dizendo que não posso colocar anúncio em páginas com conteúdo pornográfico… hã?! Pornográfico?! Enfim, pediram para que eu retirasse o post e quaisquer outros que tenham o mesmo conteúdo… ou seja, uma boa porcentagem do blog.

Como essa merda nunca me rendeu um centavo e se trata de um bando de moralistas, retiro essas porcarias de anúncios e aproveitando que implicaram justamente com o post do Tinto Brass, faço uma homenagem a esse querido diretor italiano com imagens que demonstram a difícil tarefa de fazer cinema:

A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS (House on Haunted Hill, 1959)

Dizem que quando Hitchcock observou os ganhos de bilheteria de um modesto filme B de terror chamado A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS, de William Castle, decidiu que também precisava dirigir algo do gênero, com um orçamento discreto, só pra ver o que acontecia. Poucos anos depois, surgiu PSICOSE, celebrada produção que dispensa apresentações. Não tão lembrado assim, infelizmente, é o filme do Castle, um belíssimo exemplar de casa mal assombrada estrelado pelo grande ícone do horror, Vincent Price.

A trama é bem simples, possui o suficiente para criar situações atmosféricas de medo – pra época, claro – e divertir o público. Cinco pessoas com problemas financeiros são convidados a irem até uma velha mansão cuja fama de ser assombrada por espíritos é conhecida por todos. O misterioso anfitrião, Frederick Loren, vivido por Price, lhes oferece dez mil dólares para quem conseguir passar a noite na casa. Simples assim. Não demora muito para que coisas estranhas comecem a acontecer… E aí? Será que eles duram a noite toda?

No livro O Cemitério Perdido dos Filmes B, o meu amigo Cesar Almeida, em sua crítica sobre FORÇA DIABÓLICA (The Tingler, 1959, dirigido pelo mesmo indivíduo deste aqui), narra com precisão as famosas peripécias marketeiras do diretor e produtor William Castle para atrair público, como por exemplo, entregar apólices de seguro de vida caso o espectador morresse de medo durante a sessão do filme MACABRE (1958). No caso de A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS, um esqueleto fosforecente sobrevoava a platéia em algumas cenas mais aterrorizantes.

Mas o mais importante de tudo é que além de ótimo marketeiro, Castle também sabia fazer cinema. Possuia uma noção muito aprimorada na construção de uma atmosfera de horror, na condução engenhosa do suspense e até mesmo nos truques gratuitos com a única intenção de assustar o público – da época – e que hoje não passam de ingênuas tentativas de provocar alguma reação aterradora, mas demonstram imensa criatividade e habilidade técnica. A fotografia em preto e branco também é excelente e vale a pena assistí-lo dessa maneira, e não na versão colorizada que o DVD nacional também traz.

E não poderia finalizar sem mencionar o show à parte de Vincent Price, cujas aparições em cena, sempre expressivo e imponente, lhe garantem o devido destaque.

Em 1999, saiu uma refilmagem de A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS. Com um elenco formado por Geoffrey Rush, Jeffrey Combs, Chris Kattan, Peter Gallagher e a musa Framke Janssen, recebeu o título por aqui de A CASA DA COLINA. Nunca assisti… alguém sabe me dizer se presta?

THE KILLING MACHINE, aka THE KILLING MAN (1995)

Taí um filme boicotado pelas suas próprias ambições. É um caso estranho, alguns amigos gringos, por exemplo, elogiam a sua seriedade, a maneira como a história se constrói e a atuação do Jeff Wincott. Concordo com algumas coisas, mas pessoalmente, um longo tempo perdido com situações pretensiosas – que não envolvem sequências de ação – é algo que me aborrece… e THE KILLING MACHINE é bem irregular nesse sentido.

Um dos pontos que eu concordo plenamente com quem realmente gosta do filme é a atuação do Wincott. Estou apenas inciando no cinema do cara e, levando em conta seu desempenho, comecei com o pé direito. Na trama ele interpreta Garret, um sujeito que é salvo por um órgão misterioso do governo (chefiado pelo Michael Ironside) após ter 70% de seu corpo queimado num tiroteio. Trancado numa instalação secreta, Garret tem seu corpo e face reconstruidos, realiza treinamentos de combate corporal e armas, sobra tempo até para comer um enfermeira loura e peituda!

Como pagamento por tudo que o governo lhe fez, salvando-lhe a vida, reconstruido o corpo, além dos cuidados especiais recebidos pela enfermeira, Garret é obrigado a trabalhar para Ironside como assassino profissional. Logo, é enviado numa missão com uma lista de alvos a serem eliminados, ao mesmo tempo em que começa a questionar filosoficamente sua existência como matador.

O problema é que o diretor David Mitchell e o produtor/roteirista Damian Lee não parecem conseguir acompanhar suas próprias pretensões artísticas. E à medida em que THE KILLING MACHINE se torna uma espécie de filme de ação existencialista, torna-se também um troço extremamente chato e sem ritmo. E não tem coisa mais infeliz que filme de ação sem ação, a não ser que você seja um Walter Hill, Michael Mann, Nicolas Winding Refn, Quentin Tarantino, Johnnie To, etc…

Dito tudo isso aí em cima, e tirando esses detalhes negativos, o filme não é tão ruim assim quanto parece. Quando a trama começa com a vibe filosófica, por exemplo, a coisa fica até interessante. É uma tentativa válida. O problema é quando o roteiro insiste seguir nesse caminho por muito tempo, esquecendo dos elementos básicos dos filmes de ação de baixo orçamento. Inclusive os assassinatos que fazem parte das missões de Garret acabam sendo frustrantes.

A presença de Michael Ironside é um dos pontos fortes. Mas isso é óbvio, o sujeito é um puta ator e tê-lo num exemplar irregular como esse aqui faz com que seja um grande destaque. No climax final, temos bons tiroteios, algumas sequências de pancadaria, nada fora do comum, mas diverte tranquilamente. Se tivéssemos mais disso durante THE KILLING MACHINE, o saldo seria mais positivo.

E vá lá, o esforço de tentar fazer algo diferenciado dentro do cinema classe B de ação é nobre. Acho importante que isso aconteça de vez em quando. Infelizemente não deu muito certo por aqui e os realizadores não perceberam a tempo.

PICASSO TRIGGER (1988)

Este é o segundo filme da série criada pelo diretor Andy Sidaris que conta com as agentes secretas gostosas Donna (Dona Speir) e Taryn (Hope Mary Carlton), além de um bocado de outros personagens sobreviventes de HARD TICKET TO HAWAII. De alguma maneira, Sidaris acredita que a CIA é habitada por um bando de beldades… melhor para nós, na maioria das vezes. Mas no caso de PICASSO TRIGGER, temos uma série de desapontamentos.

Começando pela trama. Um chefão do crime, Salazar (John Aprea), também conhecido por um apelido que dá nome ao filme, é assassinado logo após doar para um museu em Paris um valioso quadro de um peixe cujo nome também é o título do filme. De alguma forma que eu até agora procuro entender, esse acontecimento possui relação com uma série de mortes de agentes secretos. Os agentes remanescentes, ou seja, os personagens do filme anterior, montam uma equipe para desvendar o caso e impedir algo terrível que os vilões planejam, er… que eu não faço idéia do que seja.

Além de faltar um pouco mais de cuidado em alguns detalhes, essa espécie de sinopse aí em cima se transforma numa narrativa extremamente bagunçada e chata. Eu ficava o tempo inteiro tentando me lembrar porque tal personagem fazia isso em determinado momento, porque fazia aquilo em outra cena, até que me lembrei que eu não havia esquecido. Eu realmente não sabia… É tanta situação, lugares diferentes e personagens borbulhando que eu acabei perdido.

 

 

No entanto, se for parar para analisar, os filmes anteriores do diretor que eu comentei por aqui não eram muito diferentes nesse sentido. O negócio eram os elementos característicos do Sidaris que compensavam o péssimo roteiro: peitos e ação. Em PICASSO TRIGGER também temos esses artifícios, só que não funcionam muito bem ou são insuficientes. Tirando a divertida ação final, com bastante tiros, explosões, armas de tecnologia anos 80, e um pouquinho de kung fu, não sobra muita coisa que beneficie o ritmo do filme. E as cenas de nudez gratuitas, que surgiam naturalmente nas fitas anteriores, aparecem aqui forçadas, quase que obrigadas, além de esporádicas durante a narrativa. A primeira teta só é mostrada numa rápida ceninha já com quase 20 minutos de filme…

 

 

 

 

 

PICASSO TRIGGER é mesmo fraco ou eu que estou assistindo a muito Walter Hill e ficando exigente? Vou descobrir quando assistir a SAVAGE BEACH, próxima pérola do Sidaris a ser comentada por aqui.

THE WARRIORS – OS SELVAGENS DA NOITE (1979)

Estava revendo outro dia o DVD de THE WARRIORS que eu havia comprado há séculos, mas NUNCA tinha botado no aparelho para conferir. E, para minha surpresa, felizmente, descobri que a versão que eu tenho não é a director’s cut! Como eu não faço idéia do ano que essa versão do diretor foi lançada, julgo que a minha cópia veio antes. O filme foi relançado há uns dois anos por aqui e não sei também qual versão colocaram. A principal diferença é que a director’s cut possui uns efeitos de história em quadrinhos na edição de algumas transições que eu, particularmente, achei brega pra cacete. Prefiro a montagem original.

Mas isso não importa, THE WARRIORS é uma experiência obrigatória de qualquer jeito. E se alguém aí estiver lendo este comentário sem ter assistido ainda, recomendo que pare tudo agora e vá assistir! Se já passou mais de cinco anos que você viu, reveja! É impressionante a riqueza de detalhes que este filme possui. A cada revisão, novas descobertas.
Mas nem sempre foi tão fácil assistir ao filme. Nunca chegou a ser uma raridade, ou nada disso, especialmente aqui no Brasil foi bastante reprisado na TV e o acesso a ele nunca gerou algum tipo de complicação. Mas na época do lançamento, THE WARRIORS conseguiu fama de filme polêmico após confusões e quebra-quebra em alguns cinemas onde o filme era projetado. Em alguns países, como a Suécia, por exemplo, chegou a ser proibido.

Tá certo que é uma obra que faz um retrato perfeito sobre a onda devastadora das gangues nos anos 70 (embora seja baseado num livro da década de 60), tem um belo cartaz mostrando uma multidão de delinquentes com caras de poucos amigos, armados com bastões, e dizeres insinuantes. Então imaginem vocês assistindo a projeção na época do lançamento, dividindo o local com uma horda de membros de gangues, animados com um filme que fala sobre… eles!

Mas o que realmente me chama a atenção é a maneira na qual o diretor Walter Hill constrói sua fábula a partir de uma idéia tão simples. Os Warriors são uma gangue do sul de Manhattan que comparecem ao Bronx para participar de uma reunião com quase todas as tribos que planejam uma união para dominar a cidade.

You’re standing right now with nine delegates from 100 gangs. And there’s over a hundred more. That’s 20,000 hardcore members. Forty-thousand, counting affiliates, and twenty-thousand more, not organized, but ready to fight: 60,000 soldiers! Now, there ain’t but 20,000 police in the whole town. Can you dig it?” É o que diz Cyrus, o líder da mais poderosa gangue da cidade e o cabeça da “rebelião”.

No entanto, Cyrus é assassinado à tiro enquanto ainda fazia o seu discurso no palanque. A culpa cai, injustamente, sobre os pobres Warriors. O resto do filme é a odisséia do grupo de volta ao seu território, tentando cruzar uma Nova York sombria e cheia de contratempos, esgueirando-se pelos becos e metrôs, correndo pelas ruas driblando policiais e trocando sopapos com os mais diversos membros de gangues.

Sem discursos morais, mensagens políticas ou temas complexos. Apenas uma aventurazinha superficial. É mais que suficiente para que Hill transforme isso aqui num pequeno clássico!

 

Mas não é, exatamente, um filme de ação. Na verdade, é até bem anticlimax… o fato é que toda a narrativa possui uma carga de tensão muito forte que compensa a ação, que acaba se concentrando no olhar dos personagens, nos seus atos, no mais simples diálogo… tudo se torna “ação” no contexto dramático construído em THE WARRIORS. É claro que temos algumas belas sequências de pancadaria que não poderiam faltar de forma alguma! A cena no banheiro é uma delas, além de ser uma prova da maestria de Walter Hill. Uma aula de montagem e cinema físico.

Também é curiosa a caracterização das gangues. Cada uma possui seu estilo próprio, seu vestuário, sua essência. É tudo tão bem definido nesse universo que algumas tribos urbanas poderiam ganhar filmes próprios! Eu seria o primeiro da fila para conferir um exemplar estrelado pelos The Baseball Furies, por exemplo, que é o grupo que usa uniforme de baseball e os membros pintam as caras!

 

 

Na vida real seriam ridicularizados, obviamente. Ser atormentado numa ruela escura à noite por uns carinhas de cara pintada? Certamente eu iria perder a carteira, mas não ia conseguir ficar sem tirar um sarro. Se bem que eu correria sério risco de levar uma paulada na nuca. Mas aqui é apenas um filme! Mesmo assim, é engraçado ver estampado uma seriedade absurda na cara dos persoangens enquanto vestem modelitos esquisitos.

Os Warriors inicialmente seriam formado apenas por negros, mas os produtores não aceitaram. Eles são bem discretos, o uniforme é apenas um colete básico. E vale comentar que na sequêcia da reunião logo no início, várias gangues reais estavam presentes, vestidos à carater com seus uniformes, o que gerou até uma certa tensão a mais nas filmagens.

Aliás, não vou nem entrar nos méritos das filmagens, que mereceria um post à parte. É notória a série de problemas que Hill e sua equipe tiveram para realizar THE WARRIORS. Mas é assim que nascem os clássicos, não? O filme deu início a uma série de exemplares sobre grupos de delinquentes, cheios de mensagens sociais e morais, algo que não existe por aqui. Mas também influenciou outras obras que também se assumiram como boa diversão de aventura/ação, como os clássicos italianos GUERREIROS DO BRONX e FUGA DO BRONX, ambos de Enzo G. Castellari.

O ÚLTIMO TUBARÃO, aka L’ultimo Squalo (1981)

Todos conhecem bem a fama de picaretas de uma certa parcela de realizadores no cinema italiano, com seus rip-offs baratos e populares, imitando na cara dura produções abastadas e celebradas. E o nosso estimado Enzo G. Castellari não foi exceção com O ÚLTIMO TUBARÃO, uma cópia tão descarada do filme do Spielberg de 1975 que até uma vítima de Alzheimer poderia apontar as similaridade entre as obras.

Um grande tubarão branco aparece para desfrutar o menu recheado de banhistas de todo tipo em uma cidade costeira. O ótimo e subestimado ator James Franciscus interpreta um escritor e não um policial como Roy Scheider, mas age da mesmíssima maneira tentando avisar a todos sobre a ameaça, impedindo que as pessoas entrem na água; Vic Morrow é o especialista em tubarões e faz uma boa imitação de Robert Shaw; temos também o político ganancioso que resolve manter um evento esportivo sem se importar com as consequências de ter um tubarão branco à solta… Só não duplicaram o Richard Dreyfuss! Fora os personagens, existe ainda muita coisa em comum entre os dois filmes que nem vale a pena ficar descrevendo.

Mas esse xerox todo não significa que o filme seja ruim… bom, pelo menos pra mim. As duas produções podem ser idênticas na essência – com a visível diferença no orçamento deste aqui – mas até que Castellari consegue se sair bem. Quem já viu alguns dos principais trabalhos do homem nos anos setenta sabe que o cara tem estilo. O ÚLTIMO TUBARÃO é muito divertido, possui momentos de pura tensão e consegue até emular algumas características “spielberguianas”, como a relação pai e filha. Mas estamos falando de Castellari aqui, então mesmo num filme de tubarão assassino, o sujeito consegue encaixar alguns planos em eu habitual slow motion… Castellari é mestre até filmando tralhas!

Mas voltando a falar do elenco, é curiosa a presença do ator Vic Morrow por aqui, pois logo após o lançamento nos cinemas americanos, O ÚLTIMO TUBARÃO precisou ser retirado, pois a Universal (e lógico, o Spielberg) não gostou nada da cópia cara de pau que a italianada aprontara. Dois anos depois, Morrow aceitou trabalhar numa produção de… Steven Spielberg, NO LIMITE DA REALIDADE. E o que acontece? Simplesmente a morte mais trágica que um set de filmagem já presenciou. Pra quem não sabe, Vic Morrow foi decapitado por uma hélice de helicóptero enquanto segurava no colo duas crianças (que obviamente tiveram o mesmo fim) e tudo com as câmeras ligadas, filmando todo o ocorrido. Seria uma vingança de Spielberg?!?! Muahahaha!

Humor negro à parte, falemos então de humor de verdade. O que são as cenas dos ataques de tubarão?! Sei que não era a intenção do Castellari, mas são de rachar o bico! Exageraram no uso de stock footage, parecem tiradas de um documentário qualquer da “Semana do Tubarão” do Discovery Channel e foram editadas de qualquer jeito, nunca se encaixam com as cenas realmente filmadas… é ridículamente constragedor, mas ao mesmo tempo muito cômico! E quando surge em cena o tubarão “real” a coisa fica ainda mais hilária! Mas eu acho muito legal. A cena que o tubarão derruba um helicóptero é simplesmente o máximo! Percebe-se que o material do tubarão não é dos melhores, todo duro, mas algumas sequências são tão boas que você até releva esse tipo de detalhe.