PANIC BEATS (1983)

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O prólogo de PANIC BEATS é uma das coisas mais absurdamente geniais que existe no cinema exploitation europeu! Uma sequência antológica e perturbadora, digna de um Lucio Fulci ou Jean Rollin, na qual um cavaleiro de armadura medieval, interpretado pelo grande Paul Naschy, persegue uma mulher completamente nua desesperada e gritando através de uma floresta nebulosa. A perseguição termina quando mulher cai por terra e é brutalmente espancada até a morte pelo cavaleiro com uma maça “estrela da manhã”. Aí vem os créditos iniciais e o resto do filme, que nunca chega ao nível do prólogo, mas que ainda possui algumas cartas na manga e vários bons momentos digno do cinema euro cult.

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Somos transportados para a moderna Paris, onde o bem-sucedido arquiteto Paul de Marnac (também interpretado por Naschy) recebe um diagnóstico médico de sua esposa,  Geneviève. Um coração fraco e doente torna imperativo que ela receba um longo descanso e evite grandes emoções. Paul sugere uma estadia prolongada em sua casa de campo, herdada de sua família, longe da cidade movimentada. Antes mesmo de chegar no local, no entanto, o casal já enfrenta algumas perturbações quando o carro fica sem gasolina e são atacados por um par de ladrões. Paul encara os vândalos numa situação meio bizarra e consegue afugentá-los e Geneviève consegue se controlar.

Finalmente o filme estabelece a ação na casa de campo. O local é cuidado por uma velha senhora, Maville, e sua jovem sobrinha fogosa Julie. E os de Marnac podem concentrar suas energias na recuperação de Geneviève e até mesmo tentar reavivar seu amor. Mas para Geneviève a paz e a tranquilidade são ilusórias. Ela acaba sempre se perturbando pela horrível lenda do antepassado de Paul, Alaric de Marnac, um cavaleiro do século XVI que assassinou sua esposa infiel e se tornou um devoto satanista, o mesmo sujeito do magnífico prólogo, obviamente…

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E aí vem o lado sobrenatural da coisa. Enterrado no cemitério local, a lenda diz que Alaric sai do túmulo a cada 100 anos para uma vingança sangrenta em qualquer noiva Marnac que não consegue cumprir os seus padrões. Uma noite, enquanto Paul está em Paris a negócios, Geneviève desmaia e quase morre de susto quando vê o fantasma de Alaric, de armadura e tudo mais, surgindo no local. Será que a lenda é real ou apenas ilusão provocada dos já desgastados nervos de Geneviève? Ou será que tem outras coisas bem mais complexas por trás de tudo?

Ainda sou um bocado neófito em termos de Paul Naschy. Assisti a pouca coisa que o sujeito fez, mas já deu pra notar porque foi um dos maiores atores do cinema exploitation. E, pelo visto, um grande diretor também. É o próprio Naschy quem dirige o ótimo PANIC BEATS e é o primeiro trabalho na função que eu parei para conferi. Naschy também escreveu o roteiro usando seu nome nome verdadeiro, Jacinto Molina, e demonstra que tem uma sólida ideia de como trabalhar com elementos estéticos e narrativos do horror gótico.

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Se não fosse pela quantidade de nudez e pelos assassinatos sangrentos que ocorrem ao longo do filme, poderia até se passar como um bom exemplar de thriller de horror old school que os italianos faziam nos anos 60, mas a violência gráfica e peitos de fora garante o toque preferencial de Naschy pelo excesso, pelo choque, pelo cinema de exploração, que particularmente eu aprecio mais… E Naschy é definitivamente um cara esperto, escrevendo um script para si mesmo em que garante uma série de cenas de pegação com mulheres nuas. Hehe!

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Obviamente PANIC BEATS é recomendado a quem já possui um certo gosto pelo exploitation europeu e sabe apreciar esse tipo de material. Temos um elenco bem afiado na medida do possível, especialmente Naschy, que é sempre um prazer poder vê-lo atuando, e que dirige habilmente a obra, sabe bem como extrair aquilo que é preciso para encher os olhos mesmo com um orçamento limitado. As sequências de tensão e suspense e até mesmo onde a violência explode na tela são muito bem cuidadas.

O filme, no entanto, tem lá seus problemas, tropeça em algumas ocasiões quando tenta se explicar demais, exagera nos diálogos expositórios e algumas sequências desnecessárias acabam por ser muito longas, quando poderiam ter simplesmente sido deixadas na sala de edição. Em suma, PANIC BEATS se arrasta em alguns momentos…

Ainda bem que os pontos positivos superam facilmente os negativos. E temos o prólogo… Só isso já vale o filme inteiro.

DIAVOLO IN CORPO (1986)

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Já tinha assistido a DIAVOLO IN CORPO, de Marco Bellocchio, há uns dez anos por recomendação de um amigo e lembro de ter ficado extasiado. Soube nesta semana que vão passar alguns trabalhos do italiano na Mostra de Cinema de São Paulo e resolvi assistir de novo. Não conheço tanto assim o cinema de Bellochio, mas é famosa sua veia política, um notório defensor da esquerda cujos filmes carregam temas socialistas de forma bastante radical, como no seu clássico mais famosinho DE PUNHOS CERRADOS (1965).

Mas aqui a ideologia política de Bellocchio fica em segundo plano numa trama que transcorre no período conhecido como “Anos de Chumbo” na Itália, marcado por uma onda de terrorismo de cunho político, mas que dá lugar, no entanto, a um relato romântico transgressivo nutrido de muita sexualidade. O que, convenhamos, é bem mais interessante do que sistemas econômicos e partidos… Especialmente quando temos cenas explícitas…

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A lindeza Maruschka Detmers e o jovem Federico Pitzalis são os pombinhos perigosamente apaixonados de DIAVOLO IN CORPO. Ele é um estudante de dezoito anos, “filhinho de papai”, entediado. É durante uma aula na escola que, pela janela, o rapaz e seus colegas assistem uma mulher aparentemente com o “Diabo no corpo” ameaçando se jogar de um telhado sob o olhar de vários curiosos na vizinhança e percebe uma dessas espectadoras, Giulia (Detmers), na qual Andrea se apaixona imediatamente e passa a persegui-la. Eventualmente os dois acabam se conhecendo, desenvolvem uma relação que rapidamente se transforma num tórrido romance.

A paixão é vigorosa, mas logo descobrem que não basta só isso para manter um relacionamento saudável, especialmente quando uma das partes é noiva de um terrorista preso, em processo de julgamento, e que existe a possibilidade de ser solto a qualquer momento. Como se isso não bastasse, Andrea aos poucos vai descobrindo que Giulia é uma mulher totalmente instável, com uma certa tendência para violência. Entre risos histéricos e súbitas explosões de destempero, nunca sabemos exatamente o verdadeiro sentimento de Giulia em relação a Andrea. A única certeza é que parece bem improvável que o romance termine bem…

Mas o sexo entre os dois é visceral e intenso na maior parte do tempo. DIAVOLO IN CORPO inclusive ganhou certa fama por conta de uma cena em que Maruschka, que não tem problema algum em ficar sem roupa, resolve cair de boca na manjuba de Pitzalis em frente à câmera, sem qualquer remorso… A cena é bem curta, não tem sequer apelo sexual, mas não deixa de ser um boquete, o que é suficiente pra causar repulsa nos moralistas de plantão. Até mesmo os produtores italianos queriam que a cena fosse cortada, mas ainda bem que prevaleceu a vontade de Bellocchio e da senhorita Maruschka, que a princípio defendeu a ideia, mamou com vontade e se tornou uma das primeiras protagonistas a praticar sexo não simulado num filme mainstream. Mas depois de alguns anos reclamou que isso atrapalhou sua carreira e tal…

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O que não deixa de ser verdade, infelizmente… O rapazinho até que é bom ator, mas a grande força de DIAVOLO IN CORPO só poderia ser mesmo a performance de Maruschka, que rouba o show com sua beleza estonteante, desinibida e uma capacidade muito poderosa de encarnar essa figura tão descontrolada e fascinante. O lance dela com essa paixão que surge subitamente é algo tão absurdo e ambíguo, que ao mesmo tempo que parece ser sua salvação, acaba sendo também sua ruína. E quanto mais tempo seu relacionamento com Andrea continua, mais parece ser empurrada para loucura total.

Belo filme esse do Bellocchio. Preciso ver mais coisas dele. Mas este aqui é forte, desconcertante e valeu a pena rever.

Uma curiosidade sobre a Maruschka é que de musa desse brilhante filme do Bellochio ela chegou a contracenar com o bom e velho Dolph Lundgren nos anos 90 no filme de ação THE SHOOTER, do Ted Kotcheff, que eu acho um filmão… Obviamente para a grande maioria isso é sinal de decadência. Pra mim não… Recomendo ambos, dependendo das suas intenções. Mas já adianto que pelo menos em DIAVOLO IN CORPO ela aparece beeeem mais à vontade e com menos roupa.

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DELIRIUM (Le Foto di Gioia, 1987)

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Já disse por aqui que Lamberto Bava deveria ter investido seu talento mais em produções de ação, como o filmaço BLASTFIGHTER, do que tentar seguir os passos do papai Mario Bava em produções de horror… Claro, Bava filho tem seus bons exemplares do gênero no currículo, em especial quando se juntava a outro gênio, Dario Argento, e saia umas belezinhas como DEMONS, mas de uma forma geral nunca conseguiu chegar no nível de maestria dos grandes realizadores do horror italiano.

Isso ficou ainda mais claro depois que vi essa semana DELIRIUM. Quero dizer, não é um trabalho ruim, não tô falando que o Bavinha não deveria realizá-lo, mas percebe-se que o material tinha mais potencial nas mãos de um Argento, Lucio Fulci, Michele Soavi… Acaba resultando num filme sem tanta energia, sem inspiração – exceto nas sequências de tensão e assassinato mostrando a visão de um assassino perturbado. Mas na maior parte do tempo, Bava é bem burocrático com a câmera, pra não dizer preguiçoso…

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Mas pra falar a verdade, confesso que até que gostei do filme. E um dos principais motivos é o elenco. Temos a beldade Serena Grandi como protagonista, que surpreende interpretando uma editora famosa de uma revista masculina chamada Pussycat e que passa maus bocados quando um assassino à solta começa a deixar corpos de modelos espalhados no seu caminho. Serena é quem carrega o filme, com bastante presença (um mulherão desses… ai, ai), carisma e sem vergonha alguma de tirar a roupa, o que é importante… Aliás, o que faz DELIRIUM não perder o pique é justamente a boa dose de nudez, suficiente pra segurar a atenção. O que inclui outras figuras interessantes balançando os peitos na tela, como a cantora Sabrina Salerno. Tanto a cena do seu ensaio fotográfico, com as múmias se esfregando nela, quanto a sequência que é atacada por um enxame de abelhas são de encher os olhos; Daria Nicolodi e o grande George Eastman são sempre legais de se ver e estão realmente bem por aqui, mas não são os papéis pelos quais serão lembrados…

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Outro aspecto que gosto em DELIRIUM são os tais momentos de suspense e de assassinato, quando Bavinha mostra o ponto de vista doentio do serial killer, estilizando os cenários, emulando um Dario Argento na manipulação da fotografia, das cores, e mostrando as vítimas como criaturas híbridas, com cabeças monstruosas ou de inseto… Ideias inventivas que surgem no meio de uma direção que mais parece de telenovela na maior parte do tempo. O que é uma pena, porque nas cenas de suspense, Bava filho manda muito bem. Há um plano sequência no clímax que é de cair o queixo… Acaba sendo divertido de qualquer forma, pelo elenco, pela quantidade de nudez, a trama de giallo oitentista  – fazendo de tudo pra esconder a identidade do assassino do público – com uma pitada excitante de erotismo e surrealismo… Enfim, apesar de problemático, vale uma conferida. Continue lendo

MOMENTO JESS FRANCO: RESIDENCIA PARA ESPÍAS (1966)

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Se fosse realizado uma década depois, RESIDENCIA PARA ESPIAS provavelmente teria excelentes motivos para que o mestre espanhol Jess Franco explorasse a sua maior especialidade: putaria. Ele iria às favas com a trama (roteiro acabaria se tornando um objeto quase obsoleto para o diretor) e passaria o filme inteiro dando zoons em prexecas cabeludas de atrizes robustas, certamente Linna Romay, sua musa e esposa, teria um papel de destaque. Mas estamos em 1966 e Franco ainda não havia descambado para essas peculiaridades da forma como vemos em seus filmes a partir dos anos setenta.

RESIDENCIA PARA ESPIAS acaba soando até simpático, adjetivo estranho para elogiar um filme do prolífico diretor, mas é um bom termo para definir esta obra de início de carreira (era o décimo primeiro filme do homem, mas pra quem já fez quase duzentos não é nada). Além de ser uma leve comédia, o filme é um autêntico Eurospy – subgênero criado na esteira dos filmes do agente 007 e que gerou uma infinidade de cópias, paródias, homenagens e picaretagens no velho continente, principalmente na Itália, Espanha e França. Continue lendo

MOMENTO JESS FRANCO: VIRGIN REPORT (Jungfrauen-Report, 1972)

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A virgindade sempre foi tema de interesse na obra de Jess Franco. Vez ou outra aparece uma virgem como elemento de reflexões filosóficas e… ok, quem eu tô tentando enganar? O fato é que Franco resolveu realizar VIRGIN REPORT, o pseudo-documentário definitivo sobre o assunto, para dar vazão à uma de suas obsessões, examinar a questão da virgindade em diversas culturas diferenciadas ao logo dos séculos e em vários locais ao redor do planeta. Obviamente, tudo uma mera desculpa para filmar mulheres nuas. Continue lendo

THE WHIP AND THE BODY (La Frusta e il Corpo, 1963)

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Muitos sites famosos de cinema por aí estão dando a notícia da morte do grande Christopher Lee relembrando seus “principais trabalhos”, ou seja, Saruman, na série O SENHOR DOS ANÉIS, e o Conde Dooku na última trilogia de STAR WARS. E tem gente que ganha dinheiro escrevendo essas merdas… Como eu não ganho nada para estar aqui escrevendo, também não vou tentar fazer jus ao nome deste magnífico ator, um dos últimos ícones do cinema clássico que nos deixa e que merecia vários artigos e resenhas de seus filmes espalhados para todo canto. Mas deixo aqui as minhas impressões sobre um filme especial, um dos meus favoritos com o Chris Lee, e que dificilmente será lembrado nos obituários dos grandes veículos de comunicação: THE WHIP AND THE BODY, dirigido pelo mestre Mario Bava. Continue lendo

DEMONS 2 – ELES VOLTARAM (Dèmoni 2… l’incubo ritorna, 1986)

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O primeiro DEMONS, segundo consta nos nos bastidores do cinema de horror italiano, foi realizado com o propósito de gerar lucro rápido, porque Dario Argento, um dos produtores e roteiristas do filme, havia estourado o orçamento de seu PHENOMENA e precisava recuperar essa grana. Com dinheiro bem mais reduzido, Lamberto Bava na direção, e umas ideias originais, o filme acabou indo além do esperado. Não apenas foi um sucesso de bilheteria, como tornou-se um dos mais representativos clássicos do gênero naquele período. Os produtores, obviamente exigiram uma continuação, DEMONS 2, que veio no ano seguinte. Continue lendo

DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (Dèmoni, 1985)

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Era moleque quando vi DEMONS, acho que peguei passando em algum canal da TV aberta, por incrível que pareça… Experiência dessas que fodem totalmente a cabeça da criança e por isso agora tenho esse “bom” gosto pra filmes… Enfim, revendo hoje, continua uma lindeza, que impressiona por vários motivos, mas principalmente por uma simplicidade narrativa em proveito de uma, digamos, piscada de olho na direção dos experimentados fãs de cinema de horror europeu, o que torna DEMONS não apenas um clássico pelo seu grau de divertimento, mas por realmente ter uma representatividade simbólica dentro do gênero. Continue lendo

VIY – O ESPÍRITO DO MAL (Viy, 1967)

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Meu fim de semana passado começou com a conferida do clássico do horror russo VIY. E, nossa, finalmente… era um filme que estava no meu radar há muitos anos e não sei porquê demorei tanto pra ver. Acho incrível como é uma obra tão curta, aparentemente simples, mas que possui tanta substância e exige uma atenção aos mínimos detalhes por parte do espectador. Baseado em um conto popular escrito por Nikolai Gogol, VIY carrega o peso de um universo inteiro do folclore russo, numa narrativa ancorada num visual extremamente arrojado e efeitos especiais transgressores, muito à frente do seu tempo. É impressionante do início ao fim… principalmente o fim. Continue lendo

KERUAK – O EXTERMINADOR DE AÇO (Vendetta dal Futuro, aka Hands of Steel, 1986)

L4 HandsNão sei quantos de vocês tiveram esse privilégio, mas sou desses que pode se orgulhar de ter visto KERUAK – O EXTERMINADOR DE AÇO, de Sergio Martino, passando à tarde, no SBT, quando era moleque no início dos anos 90. Bons tempos. O filme é simplesmente um clássico da infância e quando os canais da televisão aberta ficaram caretas só me restou a lembrança, já que não consegui encontrar o filme em VHS na adolescência na região onde morava. Desde então não revi KERUAK, apesar da possibilidade que surgiu a partir da era dos torrents. Bem, resolvi matar a saudade agora e só posso dizer que valeu muito a pena. Foram 95 minutos com os olhos brilhando com o que há de mais divertido, bizarro e picareta no cinema B de ação italiano. Continue lendo

MOMENTO JESS FRANCO: O EXORCISTA DIABÓLICO (Exorcism, 1974)

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A primeira coisa que me chamou a atenção nesta obra do grande mestre espanhol do exploitation europeu, Jesús Franco, foi a presença e atuação do próprio diretor no papel principal. Eu já vi muitos filmes do Franco em que ele se coloca em pequenos papeis, personagens sem muita importância, para compor elenco, mas aqui em O EXORCISTA DIABÓLICO é a primeira vez que o vejo numa tentativa de criar um personagem com um maior destaque dramático e o resultado me impressionou muito. Continue lendo

AMUCK! (Alla ricerca del piacere, 1972)

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Apesar de não conter alguns dos elementos visuais que ajudam a fundamentar o gênero giallo, AMUCK!, de Silvio Amandi, não deixa de ser um belo exemplar. É um suspense bem construído, com alta dose de erotismo e duas das grandes musas do cinema de gênero europeu bem à vontade para nossa contemplação. Portanto, independente de rótulos, há motivos de sobra para conferir essa pequena jóia.

O filme tem a estonteante Barbara Bouchet como protagonista. Ela interpreta Greta, uma secretária contratada por um escritor ricaço, Richard Stuart (Farley Granger), para datilografar seus escritos. O sujeito tem um casarão em uma ilha aos arredores de Veneza e vive com sua esposa Eleonora (a também deliciosa Rosalba Neri), ambiente perfeito para um autor de livros e muito propício para um suspense all’italiana. O problema é que Greta não está exatamente no local por causa do trabalho. Sua melhor amiga e amante Sally (Patrizia Viotti) trabalhou para Richard anteriormente e desapareceu em circunstâncias misteriosas, sem deixar rastros. E Greta quer meter o nariz para descobrir o que se passou. Não demora muito para perceber que o casal Richard e Eleonora vive uma vida sexual open-minded, com festinhas de swing, orgias e tudo mais… É numa dessas que Greta vê Sally num porn movie caseiro e entende que está muito próxima de desvendar o mistério ou acabar por fazer parte dele.

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AMUCK! é um exemplo perfeito de um enredo simples, mas muito eficaz. O roteiro do próprio Amandi é engenhoso ao contar a história sob a dialética do que é verdade ou ficção, o que é ameaça ou paranóia, trabalhando flashbacks e devaneios da protagonista. Como quando Greta desconfia, após acordar, se colocou ou não a “aranha pra brigar” com Leonora na noite anterior, ou se tudo foi apenas um sonho… Nós, espectadores, ao menos ficamos agraciado pelas duas musas trocando carícias.

E é mesmo por esse lado que o filme caminha, mais erótico do que sangrento. A contagem de corpos é mínima em comparação com outros thrillers italianos do período, especialmente no auge do giallo, mas a quantidade de cenas calientes compensam a falta de qualquer outra coisa, assim como a maneira como a história é contada é tão boa que não sentimos falta de sangue derramado. Os personagens são interessantes, os cenários ajudam a compor o clima (é basicamente os três atores principais num jogo de mistérios no casarão e arredores durante quase todo o filme) e o uso inteligente da tal dialética torna a coisa mais fácil de prender a atenção. Outro destaque é a banda sonora de Teo Uselli, que não é um Morricone, mas seu trabalho é fantástico na construção atmosférica, uma sonoridade que beneficia o tom erótico e onírico do filme.

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Farley Granger, para quem não se lembra, é um dos protagonistas do clássico PACTO SINISTRO (51), de Hitchcock, e acabou tendo uma carreira em filmes de gênero na Europa, como vários outros atores americanos também tiveram. Tem aqui em AMUCK! uma oportunidade para mostrar seu talento acompanhado das duas beldades, Bouchet e Neri. Ambas atrizes, além de belíssimas, estão bem em seus papéis, especialmente Neri, com uma certa ambiguidade nas suas intenções, na relação com outros homens/mulheres, em especial com Greta, que embora esteja numa corajosa “missão”, demonstra uma fragilidade adorável.

Gosto bastante de como AMUCK! é tão simples, tão pequeno, mas ao mesmo tempo cheio de detalhes e personagens interessantes, combinando um bom suspense com nudez e erotismo – uma mistura que quase nunca falha. Altamente recomendado aos admiradores do cinema eurocult.

ESPECIAL HALLOWEEN 2014 #03: AENIGMA (1987)

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Há um plano no início de AENIGMA que é um espetáculo. O espírito de uma jovem deixa seu corpo, põe-se a flutuar e desloca-se, com um movimento de câmera que atua como ponto de vista da alma, através dos andares do edifício até sair pra fora pelo telhado e continuar sobrevoando os arredores sobre uma paisagem feita em maquete. Uma pequena amostra da genialidade de Lucio Fulci num filme que infelizmente não consegue ter outros momentos deslumbrantes como este.

Mas veja lá, um filme ruim do Fulci está longe de ser descartável e há sempre um ou dois momentos de genialidade para nos impressionar. Mas não é sempre que dá pra fazer um THE BEYOND, onde o italiano conseguiu realizar uma das obras de horror mais inventivas, niilistas, oníricas e aterradoras de todo o cinema com um fiapo de roteiro. Em AENIGMA o sujeito não teve a mesma sorte. O filme carece de uma boa trama, bons personagens, ainda que a atmosfera densa e distinta do horror italiano esteja presente em alguns momentos.

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A trama tem um pouco de CARRIE (1976), de Brian de Palma, de PATRICK (1978), produção australiana de Richard Franklin, e uma pitada de SUSPIRIA (1977) e PHENOMENA (1985), de Dario Argento, no qual uma jovem estudante encontra-se em coma no leito de um hospital e através de poderes telecinéticos inicia uma perturbadora vingança contra aqueles que a colocaram naquela situação. Um enredo que poderia ter funcionado melhor se os personagens não fossem tão ruins e não tivesse tantos diálogos desinteressantes arrastando a narrativa. Fica difícil ter simpatia por alguém – ou pelo filme. Se ao menos Fulci focasse mais na construção atmosférica, na emoção e ação ao invés de cabeças que falam sem parar, ou até que tivesse mais peitos de fora, pois até nisso a quantidade é mínima.

O fato é que Fulci passou por maus bocados de saúde na segunda metade da década de 80, o que claramente refletiu na qualidade seu trabalho. Após um brilhante início de década, quase nada presta na sua filmografia entre 1986 e 1990, com algumas exceções. Ao menos teve fôlego depois pra fazer CAT IN THE BRAIN (1990), que é uma lindeza. Em AENIGMA temos ocasionalmente algumas ceninhas que nos fazem lembrar que estamos diante de um filme do bom e velho Lucio Fulci, como a sequência em que uma moça é ameaçada pelas pinturas e esculturas do cenário – atacada pela arte!

Mas a maior parte dos momentos de tensão não resulta do jeito que deveria e acaba atrapalhando a atmosfera de horror e suspense, como a famosa cena da garota atacada por caracóis, esses bichinhos fofinhos que nada fazem além de andar em cima da atriz. Tudo filmado e editado de forma lenta e sem inspiração. Não há efeitos sonoros repugnantes que salvem a cena. Parecia-me promissora quando soube que teria uma cena dessas, mas não chega aos pés do ataque das aranhas de THE BEYOND.

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AENIGMA é terceiro filme que comento no especial halloween deste ano (provavelmente o último filme a ser comentado, já que o mês praticamente acabou e não tive tempo de escrever mais, o que não me impede de escrever sobre outros filmes de horror, o que transforma esse especial em algo um tanto estúpido e inútil) e todos os três não tiveram nada de especial. Ao menos não foi indicação de nenhum leitor desta vez, mas me lembrei que havia assistido há algum tempo e me apeteceu escrever.

Repito que um filme do Fulci é sempre um filme do Fulci, por pior que seja. Vale uma conferida, mas apenas se já tiver visto THE BEYOND, ZOMBIE 2 (1979), NEW YORK RIPPER (1982), NON SI SEVIZIA UN PAPERINO (1972) e uma porrada de obras poderosas que o homem possui no currículo. Se já estiver calejado com o Fulci, AENIGMA não vai aborrecer ninguém.

BLASTFIGHTER (1984)

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“YOU WANT TO KNOW WHO I AM? I’M A SON OF A BITCH… who wants to be left alone.”

A frase acima extraída de BLASTFIGHTER, de Lamberto Bava, condiz tanto com o personagem principal do filme quanto com o próprio ator que o interpreta, o americano Michael Sopkiw. O sujeito atuou em apenas quatro filmes na Itália nos anos 80, demonstrou certo talento e características de um autêntico herói de ação da época e, de repente, largou mão do cinema. Em entrevistas, Sopkiw diz que após estrelar essas produções italianas, resolveu retornar aos EUA com a ideia de trabalhar como ator em Hollywood, mas infelizmente fazer apenas quatro filmes de gênero na Itália não ajudou muito. Após dois anos tentando e totalmente quebrado financeiramente, o sujeito decidiu tentar outra carreira. Foi estudar e trabalhar com remédios naturais, montou uma empresa e hoje importa e distribui nos Estados Unidos um tipo de garrafa de vidro que protege o conteúdo (os tais remédios) dos raios solares…

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Um dos melhores filmes que Sopkiw fez foi BLASTFIGHTER, um baita filmaço de ação onde o sujeito dá um show como action hero, o que me fez ficar ainda mais encucado pelo homem abandonar a carreira tão precocemente. Até porque dos quatro filmes que fez, vi três, e são todos ótimos! Primeiro foi 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK (1983), um divertido rip-off de FUGA DE NOVA YORK dirigido pelo Sergio Martino; depois foi trabalhar com Lamberto Bava num filme de tubarão, SHARK: ROSSO NELL’OCEANO (1984), este eu não vi ainda; repetiu a parceria com o Bava filho neste aqui e finalizou a carreira com o clássico filmado no Brasil PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS (1985), de Michele Massimo Tarantini, completando cerca de três anos trabalhando no cinema.

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O projeto inicial de BLASTFIGHTER era de um sci-fi pós-apocalíptico, gênero que pintava aos montes naquele período, e a direção estava nas mãos do Lucio Fulci. Mas em algum momento da pré-produção acabou virando um filme de ação florestal, rip-off de FIRST BLOOD. E não se trata daquelas produções carcamanas com roteiro meia boca, que vale mais pelo visual, o humor involuntário e cenas de ação. A história e os personagens de BLASTFIGHTER são muito bem escritos e a produção, cujas filmagens aconteceram nas belas paisagens da Geórgia, EUA, é bem caprichada.

Sopkiw, com um bigode estilo Mauricio Merli e Franco Nero, interpreta Tiger Sharp, um ex-policial que acabou de sair da prisão por ter agido por vingança ao invés de fazer seu trabalho seguindo as regras da lei. Agora retorna à pequena cidade onde cresceu para tentar viver uma vida de forma pacata. Sem procurar muito contato social, acaba tendo que reencontrar a sua filha, que não vê há muitos anos e agora já é uma moça adulta; além do seu velho amigo de infância, vivido por George Eastman.

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Não demora muito o jeitão fechado de Tiger acaba atraindo alguns jovens da cidade, que começam a implicar com o sujeito. O problema é que a coisa foge do controle e ultrapassa todos os limites do respeito pela vida humana. De repente estamos assistindo a um exército de caipiras armados com rifles de caça em punho perseguindo o protagonista e sua filha pela floresta adentro. E após uma tragédia, Tiger se vê na posição de revidar, e seu contra-ataque é simplesmente brutal!

Vale comentar que o herói possui uma arma avançada tecnologicamente, com munição especial, que deve ser remanescente do projeto inicial de ficção científica e que é interessante vê-la em atividade, até porque há toda uma preparação para a ação do personagem, uma lenta construção do inferno que ele cria para cima de seus inimigos com a utilização dessa arma. Confesso que fiquei impressionado com a sequência final, um tiroteio explosivo daqueles de encher os olhos! Com direito a ossos quebrados, facadas sangrentas, carros e corpos explodindo, membros decepados, uma boa dose de gore. E é por isso que dá uma pena saber que Sopkiw fez uma quantidade risível de filmes e que o Bavinha retornou ao horror ao invés de aprontar outros exemplares no estilo de BLASTFIGHTER.

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Lamberto Bava, aliás, assina como John Old Jr. e confesso que não sei quantos filmes de ação ele fez, mas um sujeito que realiza BLASTFIGHTER deveria ter se dedicado mais no gênero. Aposto que se daria bem melhor do que na carreira de diretor de horror. Bava tem alguns filmes excelentes, como DEMONS (85), mas de uma maneira geral sua carreira não tem tanta expressividade como a de um Fulci, Soavi, Argento, Freda, Deodato, e, claro, o papai Mario Bava. Acho que carregar esse sobrenome não deve ter sido mole…

Algumas curiosidades para finalizar. Há uma versão do cartaz de BLASTFIGHTER que parece demais com as artes feitas para os filmes pós-apocalípticos daquele período (abaixo à esquerda). Imagino que seja uma arte conceitual ainda da fase em que o projeto seria um sci-fi. Além disso, utilizaram essa mesma arte, cuja figura representa o Sopkiw para copiar no cartaz brasileiro de outro filme estrelado por ele, PERDIDO NO VALE DOS DINOSSAUROS (abaixo à direita). Da mesma forma, a ótima trilha sonora de BLASTFIGHTER também foi reaproveitada no filme de Tarantini, provando mais uma vez que a zoeira desses italianos não tem limites.

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LES DÉMONIAQUES (1974)

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Tem como não amar uma obra que começa com um letreiro escrito “Un film expressionniste de JEAN ROLLIN“? E tem como não amar a beleza da vestal Joëlle Coeur? Jean Rollin é um realizador essencial para os admiradores do eurohorror pela maneira poética de conduzir suas histórias e o visual exuberante, mas também pelo tom erótico que move seus filmes. Portanto uma das principais razões para que LES DEMONIAQUES seja um dos meus favoritos da carreira do homem é a presença libidinosa da atriz francesa deslumbrante Joëlle Coeur, que já havia colaborado com o diretor em outros filmes e que vive aqui uma das vilãs mais sensuais e sórdidas do cinema eurocult. Além de bela e talentosa, é daquele tipo de atriz que só fica de roupa quando o roteiro exige. Como o roteiro de LES DEMONIAQUES não é lá muito exigente…

Aqui o roteiro exige.

Aqui o roteiro exige.

Aqui nem tanto...

Aqui nem tanto…

Aqui o roteiro não exige mais nada.

Aqui o roteiro não exige mais nada.

Um grupo de perversos piratas, ao saquear um navio naufragado, descobre duas jovem moças sobreviventes no local. Como são os vilões da história, os piratas não vão levá-las a um hospital ou algo parecido. A única coisa que lhes vem à mente é estuprá-las e abandoná-las à beira da morte. De volta ao vilarejo onde vivem, na comemoração regada à bebedeiras pelos saques noturnos, o líder da gangue começa a ter alucinações com as duas jovens. Encucado com isso, convence o grupo de voltar ao local para dar cabo de vez das pobres senhoritas.

As duas realmente estavam vivas, mas desta vez conseguem fugir para um mosteiro em ruínas, quase abandonado. “Quase” porque lá encontram algumas entidades e o próprio Diabo, que lhes propõe poderes sobrenaturais para se vingarem em troca de favores sexuais. Os tais poderes não são lá muito expressivos. Mas são coerentes com a narrativa lenta e poética que Rollin imprime. As moças passam a atormentar o bando com aparições insólitas, não são mais vulneráveis a qualquer tipo de arma, e acabam provocando o suficiente para o processo de vingança. A única imune a tudo isso é a deliciosa Tina The Wrecker (Joëlle Coeur), o “membro” feminino da trupe pirata, que na verdade é quem comanda, manipulando os corações dos facínoras, principalmente do suposto líder. E do espectador também… Eu quase fui parar no pronto-socorro.

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Em termos visuais, LES DÉMONIAQUES oferece o que há de melhor da estética de Rollin, um diretor com noção única de composição e de apelo visual. Quando o mundo for um lugar justo para se viver, Jean Rollin terá o respeito que merece. Até lá, continuamos a guerrilha… As cenas que se passam no mosteiro, por exemplo, são de prender a respiração pela força pictórica, seja com ou sem mulheres peladas interagindo com o ambiente. Da mesma maneira as sequências noturnas na praia, com os piratas procurando as duas garotas entre as grandes carcaças de barcos naufragados, uma mistura de tensão atmosférica sufocante com um fascínio pela beleza das imagens. O final, do mesmo modo, trágico, surreal e antológico, comprova toda a noção precisa da poética de Rollin. Mas claro, se todo o lirismo visual ainda não for suficiente pra vocês, ainda tem a Joëlle Coeur desfilando na tela em trajes mínimos.

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INVENTÁRIO EUROCULT #15

Esta semana temos mais uma lista especial de filmes europeus adicionada ao Inventário Eurocult. Quem nos agraciou desta vez foi o grande parceiro Sergio Andrade, editor do Kino Crazy, um dos primeiros blogs que passei a acompanhar na blogosfera, há quase 10 anos. Sergio também foi contribuidor da Revista Zingu! e manteve por muito tempo o Indicações do Biáfora, que republicava as resenhas dos anos 70 e 80 do famoso crítico Rubem Biáfora. O vasto conhecimento cinematográfico, ecletismo e bom gosto deste grande sujeito reflete na relação de filmes que nos enviou. Portanto, vamos a ela:

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Sinto-me honrado em participar desse inventário criado pelo Ronald Perrone. Tentei o máximo possível selecionar títulos que ainda não foram citados pelos meus antecessores. Quanto mais opções para os leitores, melhor.

O TIGRE DA ÍNDIA/O SEPULCRO INDIANO (Der Tiger Von Eschnapur/Das Indische Grabmal, Alemanha/França/Itália, 1959).
Dir. Fritz Lang, com Debra Paget, Paul Hubschmid, Walter Reyer.

OS FILHOS DO TROVÃO (Arrivano i Titani, França/Itália, 1962).
Dir. Duccio Tessari, com Giuliano Gemma, Pedro Armendáriz, Antonella Lualdi.

O DIABÓLICO DR. HICHCOCK (L’Orrible Segreto del Dr. Hichcock, Itália, 1962);
Dir. Riccardo Freda, com Barbara Steele, Robert Flemyng, Silvano Tranquilli.

LA FRUSTA E IL CORPO (França/Itália, 1963);
Dir. Mario Bava, com Christopher Lee, Daliah Lavi, Tony Kendall.

BLOW-UP: DEPOIS DAQUELE BEIJO (Blow-up, Itália/Reino Unido/EUA*, 1966); Dir. Michelangelo Antonioni, com David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles.

Observação: a princípio Blow-Up não poderia estar na lista por ter co-produção americana, mas decidi incluir porque é difícil encontrar um filme com espírito mais europeu que esse!

ARMADILHA DO DESTINO (Cul-de-sac, Reino Unido, 1966);
Dir. Roman Polanski, com Donald Pleasence, Françoise Dorléac, Lionel Stander.

O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO (La Voie Lactée, França/Itália, 1967);
Dir. Luis Buñuel, com Paul Frankeur, Laurent Terzieff, Michel Piccoli.

A HORA DO LOBO (Vargtimmen, Suécia, 1968);
Dir. Ingmar Bergman, com Max Von Sydow e Liv Ullmann

O VINGADOR SILENCIOSO (Il Grande Silenzio, Itália/França, 1968); Dir. Sergio Corbucci, com Jean-Louis Trintignant, Klaus Kinski, Frank Wolff e Vonetta McGee.

O AÇOUGUEIRO (Le Boucher, França/Itália, 1970);
Dir. Claude Chabrol, com Stéphane Audran e Jean Yanne

UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (Una Lucertola con la Pelle di Donna, Espanha/França/Itália, 1971).
Dir. Lucio Fulci, com Florinda Bolkan, Stanley Baker, Jean Sorel.

O MÉDICO E A IRMÃ MONSTRO (Dr. Jekyll and Sister Hyde, Reino Unido, 1971);
Dir. Roy Ward Baker, com Ralph Bates, Martine Beswick, Gerald Sim.

A CASA DA NOITE ETERNA (The Legend of Hell House, Reino Unido, 1973);
Dir. John Hough, com Pamela Franklin, Roddy McDowall, Gayle Hunnicutt.

LOVE LETTERS OF A PORTUGUESE NUN (Die Liebesbriefe Einer Portugiesischen Nonne, Alemanha/Suiça, 1977);
Dir. Jess Franco, com Susan Hemingway, William Berger, Herbert Fux.

ARREBATO (Espanha, 1980);
Dir. Iván Zulueta, com Eusebio Poncela, Cecilia Roth, Will More.

OS OLHOS DA CIDADE SÃO MEUS (Angustia, Espanha, 1987);
Dir. Bigas Luna, com Zelda Rubinstein, Michael Lerner, Talia Paul.

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O PROFISSIONAL (Le Professionnel, 1981)

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CARTAS DE AMOR DE UM BADASS #03
POR GUSTAVO SANTORINI

– Eu vou morrer?
– Sim. Está com medo?
– Não… Por quê?
– Se fosse eu, teria.
– Isso é porque você vai para o inferno.

O diálogo acima, travado entre dois homens que acabaram de escapar da prisão, e cujas palavras soariam grosseiras se não estivessem imbuídas de uma sinceridade tocante, ocorre logo nos primeiros vinte minutos de filme. O primeiro homem fora baleado gravemente durante a fuga e agora se encontra as portas da morte, a cabeça apoiada no colo do segundo, que escapara ileso. A cena é poderosa por revelar o único instante de genuína afeição do protagonista por outra pessoa, além de ressoar como um acorde sombrio durante a projeção. Seu destino final é tristemente previsível, mas isso é o que menos o preocupa.

LE PROFESSIONNEL, ou O PROFISSIONAL, título que em português pode confundir com o badalado filme de Luc Besson de 1994 (ambos guardam vagas semelhanças, a começar pelo personagem principal, um francês exímio matador), é uma daquelas joias pouco comentadas que, ao desencavarmos quase que ao acaso, sentimos um misto de orgulho e gratidão por tê-las conosco. Durante os créditos iniciais, quando surgem as primeiras notas da esplêndida canção composta pelo maestro Ennio Morricone, pontuadas por imagens esparsas que ao final se revelarão momentos importantes dentro do filme (um recurso que seria copiado a exaustão em outras obras), temos a sensação de que estamos em boas mãos e dificilmente iremos nos decepcionar. O enredo, co-escrito por Jacques Audiard, que no futuro faria sucesso dirigindo dramas criminais, como O PROFETA (2010), é simples como um saboroso pão com mortadela. Joss Baumont (Jean Paul Belmondo) é um agente secreto enviado para uma republiqueta qualquer da África, a fim de matar o presidente Njala. Entretanto, no ultimo momento a situação política muda e o serviço secreto francês entrega o agente de bandeja às autoridades africanas, fazendo com que ele seja condenado a prisão. Abandonado a própria sorte, Baumont consegue escapar, e então retorna a França para concluir o serviço, o qual talvez seja o último. Ele faz questão de avisar seus ex-chefes sobre sua presença, prometendo matar Njala, que está em visita oficial ao país. Assim que o alarme é soado, a alta cúpula do serviço secreto fica em polvorosa, conforme expressa um dos funcionários ao ministro: “Olha para nós, senhor. Essa é apenas a nossa primeira noite sem dormir. Haverá outras.” Um jogo de gato e rato se inicia, e o ex-agente passa boa parte do filme se divertindo com o embaraço de seus algozes que chegamos a desconfiar de suas verdadeiras intenções.

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Ao reencontrar a esposa após um hiato de dois anos, ambos tiram o atraso. Passado o gozo, ela o interpela: “E agora, o que vai ser de nós?”. Os modos gentis de Baumont não suavizam a aspereza da resposta: “Enquanto certas pessoas estiverem vivas, não haverá nós”. Se em ACOSSADO, seu papel mais emblemático, Belmondo faz um tipo presunçoso que finge ser mais fodão do que é, em LE ROFESSIONNEL ele não perde tempo fingindo. A fim de comprovar sua astúcia sobre os demais, o ex-agente não hesita em usar a própria esposa, como vemos na sequencia magistral em que, após chegar ao apartamento da mulher, ele liga para seus perseguidores e se esconde a um canto, aguardando a chegada deles, que mordem a isca. Uma agente arrasta a esposa até a banheira e a afoga, a fim de forçá-la a dar o paradeiro do marido, enquanto o inspetor aguarda na sala. Beumont sai do esconderijo e salva a esposa, lançando a agente na banheira. Os ruídos e soluços chegam ao outro cômodo, e dão a entender que se trata da esposa sendo torturada. Quando esta reaparece na sala, sozinha e incólume, o inspetor ergue os olhos em assombro. Trata-se de um momento impagável, e como esse há dezenas. Difícil é escolher o melhor. Quer outro? Então aqui vai: enquanto um algoz faz um lanche numa padaria, Baumont chega por trás do sujeito e mergulha o croissant em seu cappuccino, mordendo em seguida. Sobressaltado, o homem ergue os braços e começa a se desculpar: “Eu não quis bater em sua esposa, é que me pediram.” A resposta vem com um soco potente no nariz, acompanhado de um argumento: “Eu também não quis te bater. Foi minha esposa que pediu.

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Seguindo o padrão dos filmes europeus, aqui temos uma exuberância de mise em scene, os enquadramentos elegantes, mas quando se trata de afundar o pé no acelerador, o filme demonstra extrema habilidade, sem perder a direção momento algum. Prova disso é a sequência de fuga, conduzida de forma crua pelo diretor George Lautner, que nos faz sentir como se estivéssemos realmente na linha de fogo. Em que pese o saudosismo, é impossível não assistir a cena e compará-la com o anêmico cinema de ação atual, contaminado por maneirismos de câmera tremida e floreios de edição que só mascaram ausência de estilo. Tais diretores ignoram que, ao distorcer as imagens e impedir a imersão do espectador nas cenas, acabam por cometer um delito ainda maior, que é o de quebrar a comunhão entre o publico e os personagens, uma vez que é nos momentos de conflito que eles têm nossa completa atenção, e sem isso não há empatia. Consideremos outra sequencia monumental, uma perseguição de carros em plena Champ de Mars, onde o protagonista passa de presa a caçador e empurra o veiculo do oponente escadaria abaixo, com a Torre Eiffel em último plano. O embate frenético confere um ar selvagem à “Cidade da Luz”, tornando o cartão postal ainda mais atraente.

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É divertido ver os franceses saindo de sua finesse habitual e proferir sentenças no mínimo rudes, como o inspetor diante da prostituta que se recusa a cooperar em sua cruzada contra Baumont: “Se você não me ajudar, vai sofrer um acidente. Dentro do elevador, por exemplo. O cabo irá partir e vão achá-la seis andares abaixo, com os saltos altos cravados na garganta…”. O filme ainda nos brinda com um duelo final entre Baumont e o mesmo inspetor casca grossa, emulando o clímax de western spaguetti, e dilatando a tensão em níveis agudos ao inserir um desavisado em cena. O sujeito vai pedir informação (!) aos dois homens postados um diante do outro, e ao tropeçar, sua queda acaba servindo de estopim aos disparos. Essa é a referida cena de abertura dos créditos. Vencedor do duelo, Baumont vira as costas e segue seu caminho. Ele já não parece se divertir tanto assim.

Ícone da nouvelle vague, Jean Paul Belmondo jamais se deixou limitar aos experimentalismos do movimento, aproveitando para demonstrar sua versatilidade em obras de forte apelo popular. Aqui ele tem a atuação mais despojada de sua carreira, e olha que estamos falando de alguém que em matéria de desempenho cool só encontrava rival em Steve McQueen. Inconfundível pela estatura elevada e um rosto anguloso perfeito para cartunistas, o astro francês não é o que se pode chamar de um sujeito “boa pinta”, embora compense a falta de atributos físicos com um tipo de carisma singular, transitando entre a elegância e a vulgaridade. É até crível o fato de as duas mulheres mais belas do filme caírem de amores por ele.

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Uma grande questão a perpassar a obra é porque diabos Beumont arriscou a própria vida para levar a cabo um plano que fora abortado pelos próprios superiores e do qual não lhe traria beneficio algum, sendo que poderia simplesmente pegar sua graciosa esposa ou a amante estatuesca (ou ambas) a tiracolo e sumir do mapa. A exemplo dos samurais clássicos, estaria ele movido por um código de honra, no sentido de terminar o que começou, ou o motivo seria menos nobre, uma simples sanha vingativa? Creio que ambas seriam justificativas demasiado simplistas. É óbvio que a trama se move nos trilhos de uma necessidade dramática, de modo que se não houvesse a tal obsessão do protagonista, não haveria filme. No entanto, sob essa camada se deslinda uma outra, e sem querer emprestar ao filme uma ressonância maior do que lhe é devido, enxergamos na figura do hitman alguém que no curso de seu oficio fora desumanizado a ponto de virar uma bomba relógio pronta para implodir o estado de coisas que o moldara.

O desfecho comprova que, quando isso acontece, é impossível neutralizá-la.

INVENTÁRIO EUROCULT #14

O Daniel Vargas edita o blog Top Bad Dates with De Niro, já é um colaborador oficial por aqui (na verdade, só escreveu este texto, mas vem mais por aí) e enviou uma lista com seus filmes europeus favoritos para ser anexada ao Inventário Eurocult:

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A ÚLTIMA GARGALHADA (Der letzte Mann, Alemanha, 1924);
Dir. F. W. Murnau, com Emil Janning, Maly Delschaft e Max Hiller

Poderia muito bem ser chamado também de “O Último Suspiro” ou “A Morte de um Porteiro”.

M – O VAMPIRO DE DÜSSELDORF (M, Alemanha, 1931);
Dir. Fritz Lang, com Peter Lorre

Em tempos de linchamento público, um clássico mais do que atual.

MORANGOS SILVESTRES (Smultronstället, Suécia, 1957);
Dir. Ingmar Bergman, com Victor Sjöström, Bibi Andersson e Ingrid Thulin

Os eternos fantasmas das decisões da vida que tomamos no passado.

OS INCOMPREENDIDOS (Les quatre cents coups, França, 1959);
Dir. François Truffaut, com Jean-Pierre Léaud

A dor da necessidade de ser notado e amado.

LAWRENCE DA ARÁBIA (Lawrence of Arabia, Reino Unido, 1962);
Dir. David Lean, com Peter O’Toole, Omar Sharif, Alec Guinness e Anthony Quinn

O homem que queria ser o rei de outro mundo.

AGUIRRE: A CÓLERA DOS DEUSES (Aguirre, der Zorn Gottes, Alemanha, 1972);
Dir. Werner Herzog, com Klaus Kinski,

O homem que queria ser o rei do seu PRÓPRIO mundo.

MEANTIME (Reino Unido, 1984);
Dir. Mike Leigh, com Tim Roth, Gary Oldman e Alfred Molina

Classe operária britânica não vai ao paraíso.

A FRATERNIDADE É VERMELHA (Trois couleurs: Rouge, França/Suíça/Polônia, 1994); Dir. Krzysztof Kieslowski, com Irène Jacob e Jean-Louis Trintignant

Um coração solitário também.

A AGENDA (L’emploi du temps, França, 2001);
Dir. Laurent Cantet, com Aurélien Recoing e Karin Viard

Neto de “A Última Gargalhada” e o eterno fantasma da incerteza em pleno século 21.

LILYA 4-EVER (Lilja 4-ever, Suécia/Dinamarca, 2002);
Dir. Lukas Moodysson, com Oksana Akinshina e Artyom Bogucharskiy

O começo até o fim da destruição completa de um ser humano perante nossos olhos impotentes.

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