MESTRES DO UNIVERSO (Masters of the Universe, 1987)

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Comprei recentemente o dvd nacional de MESTRES DO UNIVERSO, de Gary Goddard e com o Dolph Lundgren, a famigerada adaptação da Cannon do desenho animado dos anos 80, HE-MAN, que nos importunava na infância. Uma das lembranças que eu tenho quando assisti a esta versão para o cinema pela primeira vez – e isso foi ainda nos anos 80, em VHS – foi de que essa merda não tinha nada, absolutamente NADA a ver com o desenho que via todas as manhãs na globo. O que não significa muita coisa, já que abracei a causa do mesmo jeito e curti essa bizarrice brega pra cacete como se não houvesse amanhã… Ao longo dos anos fui revendo, sempre com variadas mudanças de opinião. Na maioria das vezes achava a coisa mais ridícula do mundo! Mas hoje retorno ao meu gosto de infância e me divirto à valer com essa bagaceira.

Convenhamos também que o desenho, embora fosse legal assistir com 6 anos, era muito bobo e haviam outros exemplos de aventura com muito mais profundidade, substancia e bem mais divertidos que HE-MAN, como os THUNDERCATS e o sensacional SILVERHAWKS. Quero dizer, não estamos falando de uma adaptação de um Dostoiévski ou Kafka, mas de um cartoon criado com o único objetivo de vender bonecos, ou seja, ninguém deveria estar preocupado com a maldita fidelidade na adaptação, se mudaram a história ou os personagens principais, que se dane! Contanto que seja divertido, estamos aí… E eu diria que MESTRES DO UNIVERSO consegue isso.

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Mas enfim, a trama é a mais simples possível. O Esqueleto (sempre excelente Frank Langella) finalmente conquistou o Castelo de Greyskull e seu exército toca o terror no reino de Eternia. Os rebeldes resistem liderados pelo homem de cueca, He-Man, que não dá moleza com sua espada, fonte de grande poder e que Esqueleto almeja colocar as mãos… Er… Esqueleto quer botar as mãos na espada do He-Man… Acho que isso soa meio estranho, mas basta não pensar muito, vamos levar a coisa de modo literal.

Há também um anão, chamado Gwildor, que inventa um chave cósmica que abre portais para qualquer lugar nos confins do universo. Em determinado momento, os heróis ficam encurralados e numa tentativa de escapar acabam abrindo um portal para algum lugar qualquer… Uma cidadezinha nos Estaos Unidos… Para variar. Definir que a história vai se passar quase totalmente na terra é, naturalmente, uma simples questão de orçamento. Quanto menos cenários interplanetários construídos, menos gastos em efeitos especiais e decoração. Portanto, a aventura é transportada para a Terra em 1987, com todos os aparatos visuais e sonoros que só aquele período foi capaz de nos proporcionar.

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De alguma forma, a tal chave cósmica vai parar nas mãos de um aspirante a rockstar estúpido e sua namoradinha, interpretada por uma jovem Courtney Cox. Esqueleto, que também possui uma dessas chaves, envia seus mercenários para terra para pegar a outra chave cósmica e levá-la de volta… Mas He-Man está lá com Mentor (Jon Cypher) e Teela (Chelsea Field) para atrapalhar a vida de esqueleto. E para compor ainda mais o brilhante elenco, temos Meg Foster como Maligna.

Para ser honesto, toda essa historinha de chaves cósmicas e viagens intergaláticas em portais é o que menos interessa em MESTRES DO UNIVERSO. Posso garantir pelo menos que não é uma trama chata, sempre se mantém em movimento com boa energia pra durar noventa minutos. E toda vez que se ameaça deixar a peteca cair, uma nova sequência de ação ou uma bobagem com efeitos especiais surge em cena pra nos entreter cada vez mais. E o que realmente importa em MESTRES DO UNIVERSO são os pequenos detalhes excêntricos que me fazem sorrir durante a sessão, não importa se fazem sentido ou não… Adoro, por exemplo, a cena em que os mercenários contratados para irem à Terra são apresentados:

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É o efeito sensorial e nostálgico, é ver um He-Man de carne e osso matando à vontade seus inimigos com pistolas de raio laser ou com sua espada, é a galeria de personagens em maquiagens esquisitas… E isso tudo é espetacular! Todas as cenas de ação são recheadas de lasers, faíscas e fumaça, lutas grosseiras, tudo filmado numa simplicidade, exagero e imediatismo que às vezes sinto falta no cinema de ação atual, onde só querem saber de realismo, realismo e câmeras chacoalhando…

Só a cena em que He-Man usa uma espécie de skate voador fugindo e perseguindo asseclas do Esqueleto é mais emocionante que 80% dos filmes de ação atual. A sequência final também é um deleite, com algumas sacadas de iluminação de encher os olhos, especialmente no duelo final entre He-Man e Esqueleto, com o cenário em penumbra dando destaque aos dois inimigos mortais. Sem contar que MESTRES DO UNIVERSO faz cópia descarada de vários elementos de STAR WARS, desde tiroteios com armas lasers ao uniforme dos soldados de Esqueleto, cujos capacetes são praticamente cópias do visual de Darth Vader.

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Apesar do que eu disse lá em cima sobre orçamento, o de MESTRES DO UNIVERSO não era dos piores para um filme da Cannon… Uma tentativa frustrada e arriscada da dupla Golan e Globus em salvar a produtora que no final da década de 80 já andava mal das pernas. Obviamente os fracassos de bilheteria deste e alguns outros, como SUPERMAN 4,  acabaram por levar a produtora à falência em poucos anos. No entanto, percebe-se que o dinheiro foi bem gasto por aqui em cenários, efeitos especiais, maquiagem e vestuário. Claro, tudo irremediavelmente oitentista,  uma época em que bom gosto não era nada e néon era tudo.

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Ainda bem que as modas passam e sobra o saudosismo. O filme hoje é salvo por esse encantamento nostálgico, pela energia honesta em se fazer uma aventura bem movimentada e divertida, sem muita frescura, e por ter Dolph Lundgren em seu primeiro papel de herói no cinema, a melhor personificação de He-Man que eles poderiam ter encontrado na época. E até que o sueco se sai bem, com pouquíssimas falas e boa presença, especialmente nas cenas de ação.

Outro destaque óbvio é Frank Langella como esqueleto. O próprio ator considera o personagem como um de seus favoritos, e é perceptível, por mais sinistro que esteja, o sujeito se divertindo na atuação, olhando diretamente para câmera usando uma maquiagem horrível! Langella não tá nem aí em soar ridículo e seu Esqueleto transcende ao sublime. Mas um dos personagens que mais gosto é o detetive Lubic, vivido por James Tolken, o diretor careca da escola de DE VOLTA PARA O FUTURO. O cara tá engraçadíssimo como tira durão que cai de para-quedas nessa aventura intergalática. E o melhor de tudo é vê-lo entrando na ação, com uma escopeta, atirando nos mini Darth Vaders. Simplesmente sensacional.

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MESTRES DO UNIVERSO não é nenhuma obra-prima, deixando isso bem claro, nem mesmo um clássico esquecido, até porque entendo perfeitamente quem acha o filme uma merda e decidiu colocá-lo no limbo. Mas acho divertidíssimo e faria uma bela sessão dupla com FLASH GORDON dos anos 80, outra adaptação bem legal, mas renegada e que merecia, pelo menos, uma reavaliada dos detratores. Havia uma época que rolava notícias de um projeto para um novo filme do He-Man, que seria até dirigido pelo John Woo, mas já faz um bom tempo que não se fala mais nisso… Talvez até seja melhor que continue assim.

DEATHSTALKER (1983)

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DEATHSTALKER é uma típica aventura Sword and Sorcerer oitentista, realizada para ganhar dinheiro durante o aumento da popularidade do gênero estimulado em grande parte pelo sucesso comercial de CONAN – O BÁRBARO (81), de John Milius. O que se viu realmente foi o surgimento de uma safra de exemplares que variavam tanto em qualidade quanto em orçamento. E no caso deste aqui, coitado, a coisa fica complicada em ambos contextos…  Mas quando era moleque, meu pai apareceu com o VHS de DEATHSTALKER em casa para assistirmos, embora eu tenha total convicção de que ele não fazia ideia do conteúdo da obra. Provavelmente foi enganado pela capa, que tem a belíssima arte do Boris Vallejo, ou deve ter pensado que era do nível de um CONAN, GUERREIROS DO FOGO, BEASTMASTER ou alguma outra das boas aventura Sword and Sorcerer da época… Enfim, o negócio é que o filme é uma tralha das mais vagabundas do gênero, com uma violência grotesca, bizarrices doentias e absurdas e muita, mas muita mulher pelada balançando a bunda na tela… Não era mesmo muito recomendável para um moleque na minha idade.

Mas assisti. E apesar de toda estranheza do mundo, adorei! Acabou que, de alguma forma, DEATHSTALKER, um filme praticamente esquecido atualmente, fez parte fundamental da minha formação cinéfila (a quantidade de vezes que assisti aquele VHS só pra ver tetas de fora não é brincadeira). É curioso retornar ao filme depois de tanto tempo, quase vinte anos, acompanhar novamente a jornada do anti-herói, o guerreiro aventureiro apresentado como Deathstalker (Rick Hill), que lhe é encarregado a missão de resgatar uma princesa no castelo de um perigoso feiticeiro conhecido como Munkar (Bernard Erhard). E o melhor de tudo é notar como essa porcaria continua divertidíssima!

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Mas vamos conhecer um pouco melhor quem diabos é esse tal de Deathstalker. A cena em que o sujeito nos é apresentado é bastante emblemática e resume bem toda a construção psicológica do personagem. O filme começa com um indivíduo que sequestrou uma garota e a levou para umas ruínas no meio de uma floresta, mas acaba cercado por um bando de trolls. Surge então um guerreiro de cabelos louros e braços fortes, ui!, para salvar o dia. Agora, vejamos:
1. Primeiro, o guerreiro derrota sozinho o bando inteiro de trolls. Ou seja, ele é fodão.
2. Não satisfeito, ele mata também o sequestrador de mulheres que acabou de salvar a vida. É um homem íntegro.
3. Mas ao invés de libertar a moça, agora livre dos trolls e de quem a capturou, nosso herói tenta a sorte em… Er… ele arranca a roupa da moça e começa a apalpá-la esperando uma recompensa. No seu subconsciente de paladino da justiça, não ia matar esse monte de gente por nada, ora pois…  Bem, o sujeito não é tão íntegro assim, afinal, mas tá aí o Deathstalker e já deu pra perceber o nível do “herói” que temos aqui.

Por sorte, a tentativa de Deathstalker em fazer “amor medieval” é interrompida por um velho empata-foda que o convoca numa audiência na presença do Rei local, que lhe relata uns problemas. Seu trono foi usurpado pelo tal feiticeiro Munkar e sua filha é mantida prisioneira no castelo. Então, o Rei precisa de um bravo guerreiro corajoso suficiente para encarar o usurpador e matá-lo. Simples assim. E o homem que fizer esse feito será bem recompensado. Mas, Deathstalker não está muito interessado, como demonstra no diálogo que se segue:

Um homem corajoso poderia entrar no castelo e matar Munkar! – Especula o Rei.
Você precisa de um tolo. – Responde Deathstalker.
Não! Preciso de um herói!
Heróis e tolos são a mesma coisa…

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É, Deathstalker não tem nada a ver com isso e tá cagando pro Rei, pro trono e pra filha dele – mesmo sendo interpretada pela cocota Barbi Benton, uma playmate do período. Quero dizer, o período aqui é os anos 80, não o período que o filme se passa… Acho que ainda não havia revista de mulher pelada nos tempos de DEATHSTALKER. Enfim, o sujeito sobe no cavalo, dá de ombros ao Rei e vai embora… No entanto, o filme entra num momento um bocado confuso. Deathstalker visita uma bruxa velha que lhe fala dos Três Poderes da Criação. São três artefatos que juntos podem tornar uma pessoa poderosa. Munkar já possui dois deles, o Amuleto da Vida e o Cálice da Magia. Mas ele não tem a Espada do Julgamento. A bruxa afirma que sabe onde está e propõe que o herói tente encontrá-la. “Você vai ser o poder!“, afirma a velha, seja lá o que isso significa, mas parece ser algo bom para Deathstalker… Logo depois, o sujeito se enfia numa caverna apertada onde encontra a tal espada sob a guarda de um pequeno troll, que mais parece um fantoche feito em escola primária, mas ok… O fantoche, quero dizer, o troll lhe diz que a única maneira de obter a espada mágica é libertando a si de sua maldição, transformando-o em homem de novo. “Mas eu só posso ser liberto por um menino que não é menino.” Oi?! Que porra é essa, mano? Mas antes que possamos parar pra refletir sobre essa questão transcendental que o filme propõe, Deathstalker já está no corpo de um menino, com a espada na mão, levando o pequeno troll para fora da caverna. Começo a entender melhor as raízes do meu mau gosto por filmes.

Deathstalker volta para seu corpo habitual e o troll se transforma num velhote que agora passa a acompanhá-lo. Assim, armado com essa espada com poderes misteriosos, o herói inicia sua jornada em direção ao castelo de Munkar e… Mas peralá, Deathstalker não havia recusado a missão do Rei, era contra desfiar Munkar e que os heróis eram tolos e tal? Então, de repente ele mudou de ideia, simples assim? Pelo visto é isso mesmo e ajuda muito a belíssima performance de Rick Hill para esclarecer as coisas, já que o sujeito atuando e uma porta de madeira não têm diferença alguma…

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Reunido com um ajudante velhote e inútil, que nem para alívio cômico serve, embora há essa tentativa, Deathstalker encontra ainda mais dois aventureiros para segui-lo em sua missão. Oghris (Richard Brooker, mais conhecido por ser o Jason em SEXTA-FEIRA 13 – PARTE III) e Kaira (Lana Clarkson), uma guerreira que aborda o grupo como uma figura encapuzada. Uma luta é travada, mas logo interrompida depois que se descobre que por debaixo da capa há uma guerreira com seios nus. Uma guerreira com peitos de fora! Não dá pra enfrentar um oponente com armas tão mortais! Com uma integrante feminina no grupo, a equipe está formada, como um bom e velho Sword and Sorcerer tem que ser. Se bem que o trabalho em equipe naquela noite é só entre Deathstalker e Kaira, por debaixo da capa da moça, só pra aliviar a tensão…

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Enfim, Oghris informa a Deathstalker que Munkar está realizando um torneio de lutas especial para coroar o maior guerreiro de seu reino. E Deathstalker vê nessa situação uma oportunidade de se infiltrar no castelo, libertar a princesa, matar Munkar e obter do feiticeiro os dois itens mágicos restantes, para se tornar o poder!

Assim como o filme, não sei nem se esse texto ainda está fazendo algum sentido, mas vamos lá. Corta para Munkar, um sujeito muito mau. Só pra ter uma noção, ele captura princesas alheias, permite que sejam abusadas sexualmente em seu harém, destrona reis, comanda seus guardas e alimenta seu monstrinho de estimação com globos oculares fresquinhos de seus criados e ainda por cima faz a vítima assistir o processo de alimentação com o outro olho que restou… O sujeito é muito mau! Mas é óbvio, com o “herói” que temos aqui, o vilão precisava ser o diabo em pessoa.

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Antes do início do torneio, é natural rolar uma festinha. Vamos conferir algumas atrações: Anões? Confere! Escravas nuas? Confere! Briga de mulheres na lama? Claro que sim! Além disso, temos uma ótima galeria de convidados, como os nossos quatro heróis e várias figuras estranhas que vão participar do torneio, como um sujeito musculoso com a cabeça porco. E não pode faltar a Barbi Benton, com um vestido todo transparente, acorrentada à uma rocha e com o sujeito de cabeça de porco lhe aliciando. De repente eu me lembrei de novo que vi esse filme com uns doze anos de idade… É um troço meio perturbador, até para os meus padrões. Uma das cenas mais marcantes nesse sentido é a que Munkar tenta assassinar Deathstalker transformando seu capanga, um homem todo machão, na princesa Codille (Benton), toda gostosa em trajes mínimos, para seduzir o nosso herói antes de matá-lo… Surreal do nível de um Luis Buñuel…

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No restante de DEATHSTALKER rola o tal torneio, numa montagem ao estilo OPERAÇÃO DRAGÃO, com batalhas violentíssimas, além do confronto final entre o protagonista, com sua espada mágica, e o poderoso feiticeiro Munkar. Tudo muito tosco, pra manter a coerência com o resto do filme, mas também pra fechar com chave de ouro uma tralha das mais divertidas do gênero.

O filme foi dirigido por James Sbardellati, que trabalhava como assistente de direção em produções do Roger Corman. DEATHSTALKER (que também tem o dedo de Corman) é a sua primeira tentativa de assumir o comando e infelizmente não é dos pontos mais elogiáveis do filme, que poderia ter resultados melhores com um diretor mais talentoso. Mas também não compromete o roteiro de Howard R. Cohen, este sim, o grande responsável pelas qualidades que temos aqui, por todo esse universo que criou e os detalhes absurdos e involuntariamente engraçados.

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Uma pena, no entanto, que DEATHSTALKER seja um daqueles filmes em que a grande maioria vai dizer que a melhor coisa sobre ele é a arte do cartaz. O orçamento baixíssimo não permite grandes cenários e efeitos especiais de ponta, as atuações são péssimas e as cenas de ação são toscas ao extremo. Sim, o “público normal” vai achar uma coisa terrível…

Mas isso não significa que não seja divertido. Especialmente por aqueles cinéfilos de “paladar refinado” que sabe apreciar uma bela tralha. No meu caso, é evidente que os elogios que faço e o grau de divertimento que DEATHSTALKER me proporciona estão muito enraizado na minha relação nostálgica com o filme. Quando era moleque eu já percebia que estava diante de uma obra torta e estranha, e até de má qualidade, mas que de alguma maneira me fascinava e ainda me causa esse efeito. Claro que a quantidade de nudez ajudava bastante naqueles tempos, mas o filme não é só isso. É uma obra que possui ideias, fantasias pessoais de um roteirista e que um sujeito como Roger Corman resolveu bancar e transformar em película. Acabaram criando um universo tosco, de mau gosto, que logo se tornou obscuro, mas que ainda possui sua mágica.

DEATHSTALKER acabou tendo três continuações. Não vi nenhuma ainda e vou corrigir isso em breve. Bagaceiras eu tenho certeza que são (o segundo é dirigido pelo Jim Wynorski), mas só espero que sejam tão divertidos quanto este aqui.

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THE HOT BOX, aka HELL CATS (1972)

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Há poucos dias postei sobre ANGELS HARD AS THEY COME (1971), primeira investida do diretor Jonathan Demme no cinema, ainda sob a batuta do Roger Corman e tendo seu parceiro de produção publicitária, Joe Viola, na direção. Aqui em THE HOT BOX a coisa se repete. Neste período, Corman entrava numa de enviar seus pupilos às Filipinas onde várias produções exploitation estava aparecendo – Jack Hill, por exemplo, filmou no local THE BIG DOLL HOUSE e THE BIG BIRD CAGE, dois belos exemplares de WIP (Women in Prison) na selva – e a dupla Demme e Viola não perderia a oportunidade. Meteram-se nas Filipinas para fazer também um WIP.

A trama, no entanto, se passa em algum país da América Latina, onde um grupo de enfermeiras americanas fazem um trabalho de socorro no local que vive em guerra, dominado por um tirano qualquer e com revolucionários querendo derrubar o poder. O problema começa quando os tais revolucionários sequestram essas enfermeiras e as obriga a ensinarem técnicas de primeiro socorros aos guerrilheiros. Apesar disso, as moças conseguem simpatizar pelos ideais de seus captores e até mesmo acabam lutando com armas em punho pela causa…

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Não, THE HOT BOX não é um bom filme como aparenta. Mas eu gosto. Gosto de tralha cinematográfica de mau gosto, portanto gosto de THE HOT BOX. Principalmente porque ele possui todos os elementos que não podem faltar num bom WIP. Tá certo que o plot é um bocado diferente dos tradicionais filmes do gênero, mas toda vez que alguma das moças sai da linha, acaba enviada a uma cela para sofrer as consequências, o que inclui alguns itens básicos do gênero, como o excesso gratuito de humilhação feminina* e grande dose de peitos de fora.

O que realmente atrapalha um pouco THE HOT BOX é que apesar da pouca duração, o filme consegue ser lento e chato em alguns momentos e nunca conseguimos criar identificação suficiente com alguns personagens para acompanhá-los com a devida animação, nem entre as enfermeiras, que esperamos apenas que tirem a roupa, e muito menos com os revolucionários. O filme termina com uma bela sequência de batalha, o que deixa as coisas mais interessantes. Destaque para a presença de Charles Dierkop, que já havia me chamado a atenção em ANGELS HARD AS THEY COME, e aqui novamente surpreende na pele de um comandante do exército local que faz jogo duplo para acabar com guerrilheiros.

* Antes que eu seja acusado de misógino, quero deixar claro que apoio causas feministas e sou totalmente contra a qualquer tipo de violência contra a mulher.

MAIS FORTE QUE A VINGANÇA (Jeremiah Johnson, 1972)

E continua a onda de westerns de aventura setentistas por aqui. No último post, esqueci de citar o belo MAIS FORTE QUE A VINGANÇA. Então republico aqui o que escrevi há uns três anos no blog antigo.

O que dizem os escritos sobre o verdeiro Jeremiah Johnson, um sujeito que decidiu abdicar-se do mundo civilizado para descobrir os mistérios da vida na natureza, caçando animais e enfrentando índios, frio e solidão, é que acabou se tornando um bárbaro assassino comedor de fígados de peles-vermelhas… Lenda ou não, daria um bom exploitation que explorasse essa característica. Ou, nas mãos de um poeta da violência como Peckinpah, poderia render uma obra, digamos, diferenciada. E, de fato, o diretor de STRAW DOGS realmente foi cotado para dirigir MAIS FORTE QUE A VINGANÇA, cujo roteiro é do grande John Milius e teria Clint Eastwood no papel de Johnson.

Provavelmente por conta do álcool e outros entorpecentes, Bloody Sam acabou de lado – como vários outros projetos que o mestre não conseguiu se firmar – e Sydney Pollack ocupou a cadeira de diretor. Robert Redford, no fim das contas, foi quem encarnou o personagem do título original. O roteiro de Milius se manteve, mas aposto que o filme acabou suavizado… Não que isso seja um problema. MAIS FORTE QUE A VINGANÇA segue outra linha. É uma aventura contemplativa e reflexiva, um belíssimo western histórico que conta com um personagem magnífico, cuja vida retratada aqui, independente do grau de violência mostrada na tela, é simplesmente fascinante.

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Nunca sabemos os motivos que levaram Johnson a abandonar tudo. Sabemos apenas que foi soldado e há indícios de desilusões com o ser humano, mas seu passado é misterioso. Acompanhamos o protagonista a partir do momento que decide encarar a hostilidade da natureza. Mas seus primeiros passos como homem das montanhas não é fácil e é interessante vê-lo passando maus bocados em situações que dialogam com os clássicos embates “homem vs natureza”, na qual diretores como Werner Herzog transformariam em temas fundamentais. Continue lendo

FÚRIA SELVAGEM (Man in the Wilderness, 1971)

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Ainda na toada de O REGRESSO resolvi rever MAN IN THE WILDERNESS, de Richard C. Sarafian pra ver o que dava. Que filme sensacional! É muito melhor do que eu lembrava e bem diferente do filme do Iñarritu… Mas numa estúpida comparação das versões, este aqui ganharia de lavada. O filme me fez pensar um bocado na carreira de Sarafian, diretor de talento gigante mas extremamente subestimado e pouco lembrado. E quando o fazem é por VANISHING POINT, lançado no mesmo ano deste aqui. É um baita filmaço que ganhou seu status de filme cult com merecimento, mas não consigo ver lógica para que MAN IN THE WILDERNESS não tenha virado um clássico entre os westerns de aventura setentistas, ao lado de O PEQUENO GRANDE HOMEM, O HOMEM CHAMADO CAVALO, O GRANDE BUFALO BRANCO, e outros…

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E Sarafian estava em estado de graça quando filmou a história de Zach Bass, vivido por Richard Harris, num de seus melhores desempenhos, um desbravador do velho oeste que, após ser atacado por um urso selvagem, é deixado para morrer no meio do nada. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros, entre eles o diretor John Huston. Como disse no texto de O REGRESSO, o plot do filme de Iñarritu é exatamente a mesma coisa, mas os desdobramentos a partir desses eventos é que distanciam uma obra da outra. A começar pelo lado alegórico que contempla a obra de Sarafian, e que é justamente a parte piegas do filme de Iñarritu. Na verdade, não tinha intenção de ficar fazendo comparações, mas é difícil num momento em que O REGRESSO está tão em voga e tão fresco na cabeça… Vocês sabem, gosto dessa nova versão como um grande filme de aventura, mas está longe de ser a jornada mística e espiritual que Iñarritu gostaria que fosse em comparação com o que Sarafian realiza em MAN IN THE WILDERNESS. O processo de ressurreição e transformação, tanto na recuperação física, quanto psicológica, de Harris é arrebatador na sua perfeita comunhão com a natureza, na sua busca pela sobrevivência, encarando fome, frio, animais e o caralho e transcendendo seu desejo de vingança à outro nível espiritual… Continue lendo

O REGRESSO (The Revenant, 2015)

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2016, o ano em que gostei de um filme de Alejandro Gonzales Iñarritu. E gostei mesmo. Não que eu ache o sujeito dos piores diretores da atualidade, até tenho boas lembranças de 21 GRAMAS, por exemplo… Mas acho que AMORES BRUTOS não se segura numa revisão e BABEL e BIUTIFUL não fedem nem cheiram, na minha opinião. Meu problema era mais com BIRDMAN, uma punhetagem visual e egocêntrica pra lá de chata, que quase me causou úlcera no estômago… Não fosse a bela atuação do Michael Keaton, eu teria me jogado pela janela do meu apartamento… Ainda bem que moro no primeiro andar… Enfim, um ano depois, ou seja, agora, Iñarritu me aparece com O REGRESSO, um filme de aventura que, pelo trailer, já me enchia os olhos. A impressão que dava é que todo o estilo, ou seja, a masturbação visual, de BIRDMAN poderia trazer algo interessante à uma narrativa mais estimulante, como um filme de aventura, por exemplo. E de certa forma isso acabou acontecendo. 

O REGRESSO foi inspirado na mesma obra que deu origem a MAN IN THE WILDERNESS (1971), de Richard C. Sarafian, com Richard Harris interpretando um membro de um grupo de desbravadores do velho oeste que é deixado para morrer depois de ser atacado por um urso selvagem. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros. O plot do filme de Iñarritu, é exatamente a mesma coisa. Troca-se alguns detalhes, Harris por DiCaprio e a tecnologia atual que permite Iñarritu trabalhar um visual dentro daquilo que é sua verdadeira intenção com o filme. O fato é que O REGRESSO, assim como BIRDMAN, não deixa de ser mais uma demonstração de exibicionismo do diretor, que chega e diz “Olha, mamãe, o que sei fazer!” e começa a punhetagem e fazer acrobacias com a câmera para ser chamado de gênio e logo depois colocar a mão em mais um Oscar. Continue lendo

BEAST OF BLOOD (1970)

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A série Blood Island chega ao fim de um jeito bem diferente se comparado ao seus antecessores. BEAST OF BLOOD até consegue manter o mesmo clima, elementos, ambientações, mas desta vez assume uma postura mais de filme de ação e aventura em detrimento do horror, do monster movie, que era a tona dos dois primeiros episódios.

Outro detalhe curioso é sobre as minhas suspeitas de que cada filme da série era independente um do outro. Eu não estava totalmente correto. Apenas o primeiro exemplar, BRIDE OF BLOOD, não possui relação narrativa com os demais, enquanto BEAST OF BLOOD é uma continuação direta de MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND. É o que fica claro logo no prólogo, com o Dr. Foster (novamente John Ashley, a prova definitiva de que o ator realmente decidiu aproveitar ao máximo sua passagem pelas Filipinas) indo embora da Ilha exatamente após os eventos de MAD DOCTOR. Mas o monstro ainda está vivo! E ataca todos na embarcação com um machado, causa uma enorme explosão e o único que sobrevive é o pobre Dr. Foster, boiando em alto mar… E, claro, o monstro, que volta à ilha em que foi criado. Continue lendo

MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND (1968)

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Como suspeitei no post anterior, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND, o segundo exemplar da série Blood Island, não possui qualquer ligação com BRIDES OF BLOOD. Mas também não faz qualquer esforço para alterar a fórmula do seu “antecessor”, utilizando dos mesmos elementos visuais e narrativos, reciclando cenários e o elenco, como é o caso do americano John Ashley, que marca presença novamente encarando os monstros absurdamente toscos e mal feitos das Filipinas.

Dirigido novamente pela dupla Eddie Romero e Gerardo De Leon, MAD DOCTOR inicia inesperadamente com uma sequência promocional, na qual incita o público a tomar um líquido verde a fim de evitar uma transformação em monstro gosmento com cara de alface e sangue verde. Na verdade, tratava-se de mais uma campanha de marketing em que eram distribuídos esse líquido aos espectadores na entrada dos cinemas e drive in para que fosse ingerido durante determinado momento do filme. Seja lá qual o fosse o sabor, a ideia é simplesmente genial. Continue lendo

BRIDES OF BLOOD (1968)

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BRIDES OF BLOOD é o primeiro exemplar de uma trilogia bizarra realizada nas Filipinas pelo produtor e diretor de filmes B local, Eddie Romero, em parceria com Gerardo DeLeon. Pelo que entendi, os três filmes não têm qualquer ligação narrativa (ainda não assisti aos outros, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND e BEAST OF BLOOD), mas como possuem essa ambientação pitoresca em comum e foram realizados praticamente num curto espaço de tempo pelos mesmos diretores, acabaram interligados e conhecidos como Blood Island Films.

Na verdade, apesar de não fazer parte “oficialmente” desses filmes, Romero já havia rodado um exemplar de horror ambientado no mesmo local, quase dez anos antes de BRIDES OF BLOOD. O filme era TERROR IS A MAN, de 1959, também conhecido como BLOOD CREATURE e que de certa forma é o precursor da série Blood Island. Pelo visto um local propício para contar histórias de horror bem antes do que se imagina. Continue lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #14: CONTRABANDO DE ARMAS (The Gun Runners, 1958)

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CONTRABANDO DE ARMAS é baseado no mesmo conto do bom e velho Ernest Hemingway que Howard Hawks usou para realizar UMA AVENTURA NA MARTINICA (To Have and Have Not, 1944) e Michael Curtiz em REDENÇÃO SANGRENTA (The Breaking Point, 1950). Chega a ser constrangedor da minha parte (especialmente sendo um grande admirador de Hawks), mas nunca assisti a nenhum dos dois, ao contrário do diretor Don Siegel antes de dirigir este aqui: “Me arrependi muito de tê-los assistidos, porque percebi como era totalmente absurdo que eu fizesse (mais uma versão)”. 

Siegel ainda completa: “(…) ambos contaram com elencos melhores, argumentos melhores, mais dinheiro e mais tempo.” Bom, Siegel sempre conseguiu se sair bem com pouco tempo e orçamentos apertados. Agora, sobre argumentos, não tenho como comparar, mas mesmo não tendo assistido às versões anteriores, deve ser difícil não concordar com o sujeito sobre o seu elenco. Especialmente em se tratando do protagonista, o herói do filme, a não ser que alguém aí seja fã do Audie Murphy… Herói de guerra que acabou virando ator, Murphy conseguiu relativo sucesso nos anos 50. Tanto que CONTRABANDO é o segundo filme que estrelou sob a direção de Siegel. O primeiro foi o western ONDE IMPERA A TRAIÇÃO, já comentado aqui no blog.

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O fato é que Murphy nunca foi lá um dos meus atores de ação favoritos desse período. Longe disso, aliás… Seu rostinho de bom moço não se encaixa bem aos papeis durões que tentava fazer. E comparando com as outras versões do conto de Hemingway, temos um John Garfield, na versão de Curtiz, e Hawks tinha a sua disposição ninguém menos que o gigante Humphrey Bogart. Quem é Murphy perto de Bogart? Continue lendo

MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA (Mad Max: Fury Road, 2015)

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Divagações rápidas sobre este novo episódio, pra fechar a série de comentários que fiz na semana passada. Estava aqui pensando… Trinta anos separam ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO de MAD MAX: FURY ROAD e, durante esse tempo, o cenário do cinema de ação foi de mal a pior. Tirando, claro, as raras exceções que ainda encontramos a cada ano, frequentemente soltamos um “não se faz mais filmes de ação como antigamente…”, lamento quase unânime entre os fãs de ação old school. E aí precisou vir esse senhor de setenta anos, que atende pelo nome de George Miller, retornando ao universo que criou há quase quatro décadas, para mostrar à maioria dos diretores atuais do gênero que, na verdade, eles não têm a mínima noção do que fazem. Continue lendo

MAD MAX – ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO (Mad Max Beyond Thunderdrome, 1985)

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E ontem foi o grande dia da estreia do tão aguardado MAD MAX: FURY ROAD, o quarto episódio da saga do personagem Max Rockatansky e suas desventuras no universo definitivo do pós-apocalipse. Mas, como só vou poder ver o filme hoje à noite, seguimos ainda com um dos antigos, MAD MAX – ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO, que até outro dia era responsável por fechar a trilogia com chave de ouro. Continue lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #6: AVENTURA NA CHINA (China Venture, 1953)

Don Siegel fala muito “bem” sobre CHINA VENTURE: “Mas, como sempre, a praga parece me perseguir – e, em última análise, a culpa deve ser minha – a história era fraca”. Ok, o roteiro não era mesmo dos melhores, o orçamento não ajuda muito e o elenco – com exceção de três ou quatro nomes mais famosos – não deve ter pesado nos bolsos dos produtores, mas, de qualquer forma, reserva bons momentos, especialmente quando se trata de sequências de ação. Percebam que venho batendo nessa tecla a cada filme comentado neste especial, em como Siegel evolui na construção da ação e, bem, se estamos falando sobre um filme de guerra, não poderia faltar uns tiros e explosões, e aqui temos pelo menos três sequências excelentes que provam o talento do homem no assunto. Continue lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #3: O CAIS DA MALDIÇÃO (The Big Steal, 1949)

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THE BIG STEAL começa aos 45 minutos do segundo tempo, quando somos colocados no meio de uma trama onde todos os acontecimentos da premissa já ocorreram. “Colocados” seria muito leve. Somos arremessados no olho do furacão, com o Robert Mitchum trocando socos com um sujeito, escapando, perseguindo, a pé, de carro, trocando tiros, mais socos… Se o filme fosse mostrar sua história desde o início, o recorte que assistimos aqui seria a sequência de ação final. E acho que isso define bem o que é THE BIG STEAL: uma grande sequência de ação/perseguição, dilatada ao máximo, que fecha uma trama que nem chegamos a acompanhar. Continue lendo

THE LOST EMPIRE (1985)

vlcsnap-2014-05-12-20h51m46s192Antes de se tornar um dos diretores mais conspícuos do cinema classe B pós-80’s, Jim Wynorski ganhava experiência e bagagem cinematográfica trabalhando como roteirista, escrevendo artigos sobre filmes de gênero em publicações como a Fangoria e estando sempre envolvido em produções do mestre Roger Corman. Quando chegou o momento de realizar seu primeiro trabalho como diretor, juntou todos os clichês de seus filmes favoritos, se envolveu com várias pessoas ligadas ao tipo de cinema que queria fazer e misturou com com todas as suas obsessões próprias. O resultado é THE LOST EMPIRE, um sci-fi muito louco que possui ninjas assassinos, artefatos místicos, um feiticeiro decano, terras desconhecidas, mulheres peitudas com figurinos provocantes e um elenco bem batuta!

bbbbO enredo é tão divertido quanto bagunçado e acho que não valeria a pena ficar perdendo tempo explicando. Mas só prá dar um gostinho, trata-se de três beldades que vão parar numa ilha comandada por um feiticeiro chamado Dr. Sin Do para descobrir as circunstâncias do irmão de uma delas ter sido assassinado por um bando de ninjas. Lá acontece um torneio de artes marciais, ao mesmo tempo mulheres são mantidas escravas em trajes mínimos e, por fim, o tal Dr. possui planos diabólicos de combinar algumas pedras preciosas antigas que lhe darão poder para conquistar o mundo!

aaaa (1) aaaaÉ Jim Wynorski prestando homenagem às coisas que tanto ele quanto nós adoramos no cinema grind house e exploitation. Percebe-se em THE LOST EMPIRE influências do próprio Corman, mentor de Wynorski e produtor de vários de seus filmes (incluindo este aqui), Jack Hill, Russ Meyer (pelas várias cenas de peitos de fora), e até filmes de espionagem estilo 007. Jim nunca foi um diretor estiloso, mas sempre demonstrou habilidade para filmar cenas marcantes, sexys e engraçadas, além de muita personalidade para trabalhar com vários rostos famosos dos filmes B. Analisando a carreira do sujeito, percebe-se um sutil amadurecimento no trabalho de direção, especialmente nos anos 90, mas é incrível como Jim já tinha pulso firme pra fazer o que queria já nesta primeira experiência atrás das câmeras.

bbbbb ccccUm detalhe marcante neste debut é a quantidade de celebridades do cinema independente que Winorsky conseguiu reunir em THE LOST EMPIRE. Isso é que dá ter Roger Corman como padrinho. Do lado feminino, várias musas do cinema classe B que nunca tiveram receio de tirar a blusa, como Melanie Vincz, Raven De La Croix (que trabalhou com Russ Meyer), Angela Aames, Linda Shayne e a deusa exuberante Angelique Pettyjohn. Na ala carrancuda temos Blackie Dammett (também conhecido por ser pai de Anthony Kiedis, vocalista da banda Red Hot Chilli Peppers), o fortão Robert Tessier e o grande Angus Scrimm (o Tall Man, da espetacular série de horror PHANTASM), que faz o vilão Dr. Sin Do.

bbbbbbb dddddAtualmente, Jim Wynorski ainda se encontra em pleno vapor e já possui computada uma filmografia com mais de cem títulos. Nem todos são bons, muito menos obrigatórios. Mas para quem se interessa por cinema independente de gênero ou admira o trabalho do homem, THE LOST EMPIRE é imperdível.

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ESPECIAL McT #8: O 13º GUERREIRO (The 13th Warrior, 1999)

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Após o lançamento de DURO DE MATAR: A VINGANÇA, John McTiernan entrou numa furada chamada O 13º GUERREIRO. Filmado em 1997, o filme só chegou aos cinemas em 1999, demonstrando que desde a sua produção alguma coisa estava errada, e foi um fracasso de crítica e público. O pior é que tinha tudo para ser uma fascinante aventura épica, uma releitura de OS SETE SAMURAIS no universo Viking, sob o olhar de um árabe, interpretado pelo Antonio Banderas, com batalhas grandiosas e os efeitos especiais charmosos da época. E ainda evocaria alguns elementos do cinema de McTiernan, que explorava aqui novas possibilidades, um épico histórico, talvez para não ficar tão estigmatizado como diretor de ação, após ter redefinido o gênero com DURO DE MATAR (88), brincado com as suas estruturas em O ÚLTIMO GRANDE HERÓIS (93), e levado o conceito de ação às últimas consequências em DURO DE MATAR: A VINGANÇA (95). McTiernan, naquele período, possuía um certo prestígio em Hollywood. Era dos poucos auteurs, no sentido mais cahiers possível, a conseguir trabalhar no studio system sem sofrer grandes interferências, mantendo sua visão de cinema e de mundo intacta.

Até que um dia resolveu encarar O 13º GUERREIRO

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O filme é baseado num livro de 1974 de Michael Crichton, que além de romancista era produtor, roteirista e diretor de filmes. Fez até alguns exemplares de ficção científica obrigatórios, como WESTWORLD (73), precursor de O EXTERMINADOR DO FUTURO (84), com o Yul Brynner fazendo papel de andróide com “defeito” que resolve exterminar indivíduos inocentes. Filmaço! Enfim… o fato é que Crichton é um dos produtores de 13º GUERREIRO, e entregou a sua criação literária nas mãos do McTiernan. Nunca li o tal livro, não posso fazer nenhum tipo de análise detalhada, mas o que se sabe é que McT e os roteiristas fizeram todo o tipo de modificações que bem entenderam. Crichton não gostou do resultado e, após umas sessões de testes negativas, o próprio Crichton resolveu retornar aos sets para filmar e refilmar algumas sequências. E deu no que deu…

Com a qualidade da obra já comprometida, restava apostar na figura do Banderas estampando os materiais promocionais do filme para atrair publico. O espanhol estava em alta em meados dos anos 90, pagando de herói galã após encarnar o Mariachi matador em A BALADA DO PISTOLEIRO e personificar o lendário Zorro, na superprodução A MÁSCARA DO ZORRO. Aqui ele vive Ahmed, um poeta árabe que se apaixona pela esposa de seu rei e, por conta disso, é enviado numa missão cujo propósito é simplesmente afastá-lo da amada. Podia ter sido pior, o rei poderia ter ordenado sua cabeça ou que cortassem os seus bagos… Mas não, o sujeito pôde pegar seu conselheiro, o veterano Omar Sharif, e rumou para o norte onde acaba se reunindo com um grupo de guerreiros escandinavos. Em determinado momento, um pedido de socorro de um vilarejo Viking é enviado e faz com que treze guerreiros sejam escolhidos para enfrentar a ameaça. Ahmed é destinado a ser o 13º e inicia uma jornada de transformações pessoais.

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Os filmes de McTiernan costumam ser mais do que simples exemplares de gênero. Para cada grande sequência de ação de um PREDADOR, há um estudo de personagem, há um detalhe que é trabalhado para suscitar a reflexão. Portanto, é natural esperar que a aventura de Ahmed pudesse render algumas lucubrações, e realmente há uma tentativa de colocar o personagem em momentos de inquietações e conflitos espirituais e psicológicos que uma jornada dessas poderia render. Mas é frustrante perceber que o filme acaba desistindo desse caminho e não vai a fundo no estudo do personagem. É tudo muito superficial e genérico.

Há certos momentos, detalhes e algumas boas sacadas, no entanto, que me chamaram a atenção nesta revisão. Percebe-se a mão de McTiernan em alguns casos, como a sequência que mostra Ahmed aprendendo o idioma de seus novos companheiros, que me lembrou a forma que o diretor utilizou para resolver a questão da língua falada em A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO. A invasão dos guerreiros Vikings à caverna onde a tribo inimiga se esconde é outro ponto alto, com boa dose de tensão e um trabalho atmosférico bem cuidado. Mas momentos com esses quesitos são raros, já que a maioria das cenas de ação no decorrer do filme decepciona, apesar da violência gráfica e extrema. A “grande” batalha final, por exemplo, mostrada numa câmera lenta tosca, sem emoção alguma, fecha com chave de ouro o desperdício de tempo que é uma sessão de O 13º GUERREIRO.

Não dá pra colocar a culpa toda no McTiernan, já que não veremos a sua versão pra saber se era realmente pior ou se era uma obra-prima destruída pelo Crichton, que ficou encucado com as mudanças realizadas em sua criação. Mas se um dia McT conseguir lançar a sua director’s cut eu seria o primeiro da fila para conferir.

ESPECIAL McT #5: MEDICINE MAN (1992)

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Embora o clima eurocult tenha invadido o blog durante este mês, é preciso lembrar que ainda estou fazendo a peregrinação pelo cinema do John McTiernan, assistindo e comentando todos os seus filmes. Então é preciso voltar um pouco a atenção para o cinema das Américas de novo. E neste caso, estamos falando da América do Sul. Do Brasil, especificamente! Sim, MEDICINE MAN, o quinto filme do homem, é uma aventura que se passa em terras tupiniquins e, apesar de se um filme menor na filmografia do diretor de DURO DE MATAR, possui alguns momentos fascinantes. Algo normal em se tratando de McTiernan.

Sean Connery, provavelmente satisfeito com o trabalho realizado por McTiernan em A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO, resolveu bancar na produção de MEDICINE MAN, filme que lhe serve mais uma vez de veículo para demonstrar seu talento, mas também permite que McTiernan retorne ao ambiente de PREDADOR, agora sem alienígena assassino, sem mercenários parrudos, sem a mesma tensão, mas com o mesmo vigor cinematográfico, fazendo aqui o seu trabalho mais “hawksiano”.

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Lorraine Bracco é Rae Crane, uma cientista que chega ao Brasil para vistoriar o trabalho do Dr. Robert Campbell (Connery) e acaba encontrando uma espécie de Coronel Kurtz hippie, de rabo de cavalo, no meio de uma tribo indígena no coração da Amazônia. É nesse cenário que o filme assume-se como uma aventura tendo essa forte presença feminina e situações e diálogos dignos das screwball comedies que Howard Hawks fazia com Cary Grant e Katharine Hepburn.

Percebe-se um McTiernan mais light, confortável, embora não esteja filmando tiroteios e explosões, que é onde já provou que se sai melhor. Um McTiernan que consegue imprimir o ritmo ideal e trabalhar alguns elementos clássicos dos filmes de aventura. Sem contar que é um prazer para os olhos acompanhar os movimentos de câmera no meio das árvores da floresta brasileira. Uma cena simples, Connery e Bracco sobem na copa de uma árvore para olhar a vista, se torna facilmente numa autêntica aula de direção.

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Ainda assim, mesmo com todo esse background clássico e inúmeros momentos absolutamente emocionantes, a sensação final é que falta ao filme alguma coisa. Parece haver um certo conflito de intenções com MEDICINE MAN. Se por um lado temos um bom roteiro, escrito por Tom Schulman, em que sentimos a mensagem ambiental, por outro temos o olhar de McTiernan, mais interessado na relação entre os dois protagonistas e que acaba por não ter material suficiente para chegar a altura de seus filmes anteriores. De qualquer maneira, ainda há os belíssimos desempenhos de Connery e Bracco, além da participação curiosa de José Wilker.

MEDICINE MAN era um dos poucos filmes do diretor que ainda não tinha visto quando iniciei a peregrinação. É mais um itinerário de revisões, na verdade. Confesso que as expectativas estavam bem baixas com este aqui e quando me deparei com essa aventura simpática, acabei surpreendido. Pode ser que isso tenha influenciado meu juízo. Mas mantenho, por enquanto, a posição. É um filme que merece ser visto.

INFERNO IN DIRETTA (aka Cut and Run, 1985)

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INFERNO IN DIRETTA fecha uma espécie de trilogia da selva do diretor Ruggero Deodato, se considerarmos ULTIMO MONDO CANNIBALE e CANNIBAL HOLOCAUST como trabalhos da mesma, digamos, natureza. Mas é curioso saber como o filme surgiu. O primeiro tratamento do roteiro foi escrito (e seria dirigido) pelo Wes Craven e carregava o título provisório MARIMBA. Quando a busca de financiamento fracassou, reza a lenda que os produtores decidiram que não devolveriam o script para o Craven. Outro detalhe é que na mesma época já tentavam convencer o Deodato de realizar uma continuação de CANNIBAL HOLOCAUSTO, mas o sujeito se interessou mesmo pelo tal roteiro engavetado, que acabou resultando neste filme aqui.

Embora CANNIBAL HOLOCAUSTO seja, merecidamente, o trabalho mais notório da carreira do diretor, INFERNO IN DIRETTA consegue ser bem mais bizarro e absurdo pela miscigenação de gêneros e estilos colocados num único filme. Deodato consegue equilibrar terror, ação, aventura com a mesma atmosfera de seus cannibal movies, e ainda encontra inspiração em APOCALYPSE NOW, do Coppola, com direito a um coronel maluco comandando nativos no meio da selva.

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Se funciona essa mistureba? Depende muito de cada espectador, mas ajuda bastante se você for fã do diretor. O negócio é que é impossível ficar indiferente com o poder das imagens concebidas por um sujeito como Ruggero Deodato atrás das câmeras. O cara não tem piedade com o público e suas aventuras na selva nunca serão experiências simples e banais. O diretor possui criatividade, talento e coragem suficiente para realizar um filme forte, singular, e que não fosse mais um rip-off de CANNIBAL HOLOCAUST como os que surgiam aos montes na época, embora utilizasse os os mesmos elementos de outrora. Ou seja, temos aqui um menu bem recheado para satisfazer os apreciadores de um bom cinema extremo, como violência explícita, decapitações, corpos abertos ao meio, torturas, crocodilos devorando cadáveres, nudez gratuita e claro, o trabalho da mídia sem escrúpulos… da mesma forma que em CANNIBAL HOLOCAUST, só que retrabalhado de diferentes maneiras, mantendo o frescor das ideias.

Após uma abertura chocante para habituar os espectadores com o nível de violência, a trama inicia com uma repórter (Lisa Blount) e seu cameraman em meio a uma investigação jornalística sobre tráfico de drogas em Miami. Em um dos locais investigados, todos os traficantes foram mortos misteriosamente e quando a dupla chega, encontra os corpos, o quarto revirado, e uma foto onde aparece Tommy, o filho do editor do programa para quem os dois repórteres trabalham e que estava desaparecido! Que puta coincidência! Na foto ele se está no meio da selva amazônica junto com o coronel Horne (Richard Lynch), sujeito dado como morto há anos. Convencendo o editor a financiar uma expedição e mais um pouco de enrolação, a dupla parte para o coração das trevas da floresta Amazônica em busca de Tommy e de uma boa matéria sobre o lance das drogas. Chegando lá, dão de cara com o terror que só mesmo um mestre do cinema extremos como Ruggero Deodato saberia proporcionar.

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Além da grande variedade de elementos que Ruggero dispõe para manter o público ligado do início ao fim, outro grande destaque é o elenco formado com alguns nomes americanos como Karen Black, o genial Richard Lynch e o grande Michael Barryman, protagonizando algumas das sequências mais brutais de INFERNO. Barryman, que já havia trabalhado com o Wes Craven em QUADRILHA DE SÁDICOS, foi um dos remanescentes do projeto inicial. Também vale mencionar a excelente trilha sonora do ítalo-brasileiro Cláudio Simonetti, que auxilia na ambientação com seus sintetizadores, além da fotografia caprichada das belezas naturais da selva venezuelana.

Mas a grande sacada dos roteiristas é a referencia a APOCALYPSE NOW, ou melhor, a O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, muito bem representado no papel do coronel Horne e magnificamente desempenhado por Richard Lynch. A cena em que o ator discursa deitado numa rede tem a mesma força que as sequências de Marlon Brando no filme de Coppola… guardando as devidas proporções, obviamente. De qualquer maneira, são grandes momentos que eleva INFERNO IN DIRETTA à outro nível.

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Deodato esteve envolvido há alguns anos com um projeto ligados a canibais, selva, etc, que não sei exatamente que fim levou, mas tudo indica que nunca vai acontecer… E não sei também se isso é bom ou ruim, tendo em vista CARIBBEAN BASTARDS, uma porcaria que o Enzo G. Castellari realizou após muitos anos sem filmar. Por enquanto, prefiro ficar com as dezenas de filmes que o sujeito realizou ao longo da carreira e que eu ainda não vi, mas já adianto que uma das experiências mais divertidas concebidas por Ruggero Deodato é, sem dúvida alguma, INFERNO IN DIRETTA!

TUAREG – O GUERREIRO DO DESERTO (1984)

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Depois de filmar tralhas divertidas como O ÚLTIMO TUBARÃO e se dedicar a uma trilogia de filmes de ação futuristas e de roteiros bobos, mas que renderam alguns de seus melhores trabalhos, Enzo G. Castellari resolveu encarar o projeto mais caro e ambicioso da carreira. TUAREG – O GUERREIRO DO DESERTO foi inspirado num best seller, escrito por Alberto Vázquez Figueroa, e é o retorno do diretor a uma abordagem mais séria, contemplativa e poética, que remete aos seus melhores filmes como KEOMA e JOHNNY HAMLET.

O que não o impede, claro, de jogar na tela as habituais sequências de ação que, na seara do cinema italiano, Castellari era o maior. Não é a toa que TUAREG foi considerado como uma mistura de LAWRENCE DA ARÁBIA com RAMBO. Uma combinação interessante que transforma o visual árido e as belezas do deserto num campo de batalha protagonizado por um Tuareg badass que conhece todos os segredos de sobrevivência da região, toca o terror pra cima do governo, bebe sangue de camelo para matar a sede e ainda pede mais.

Os Tuaregues, como são conhecidos os habitantes do Sahara, além de agricultores e comerciantes, servem também de guias para quem resolve encarar uma travessia pelo deserto. Mas isso não importa muito, aqui são representados como autênticos guerreiros ninjas, capazes de realizar as mais inacreditáveis façanhas que os italianos poderiam pensar para um filme de aventura e ação.

Só para ter uma noção do que o herói, Gacel Sayah (Mark Harmon), é capaz, o filme abre com o relato de um ancião sobre uma perigosa região do deserto,  na qual ninguém, aparentemente, havia sobrevivido ao tentar atravessar. No mesmo instante surge Gacel interrompendo o velhote só para dizer que não atravessou apenas uma vez, mas duas vezes tal pedaço de terra!

A aventura do personagem começa por causa da forte relação com a cultura do seu povo. Dois homens misteriosos aparecem em sua propriedade no meio do deserto precisando de cuidados e Gacel lhes oferece abrigo e lhes toma como hóspedes. Nas leis dos tuaregues um dos mandamentos mais sagrados é a hospitalidade. Portanto, quando um pelotão do exército liderado por ninguém menos que Antonio Sabato chega para prender os dois sujeitos (um deles acaba executado no próprio local), Gacel se sente ofendido ao ponto de abandonar mulher e filho e iniciar uma guerra contra quem quer que seja para salvar seu hóspede.

E a coisa toma enormes proporções. O país em crise, vivendo uma onda de protestos contra o atual presidente e o exército inteiro precisa se preocupar com um único Tuareg, que acaba se tornando um herói popular. Sem contar que o Tuareg, a princípio, nem imagina o grau de importância que seu hóspede, um preso político, possui para o país.

Sobre a ação de TUAREG, destaco duas sequências. A primeira, o duelo de espadas com o Tuareg que serviu de guia para que o pelotão adentrasse as terras do protagonista. Depois, o frenético tiroteio que o herói arranja contra todo um pelotão para libertar seu hóspede dentro de uma base militar. E o sujeito é um monstro. Não sobra alma viva para contar a história. E aqui é o momento em que Castellari deixa sua marca registrada, põe de lado a poesia da obra e contextualiza o filme entre os exemplares de ação da época, cujas cenas exageradas e explosivas não fazem feio a clássicos como COMANDO PARA MATAR, INVASÃO USA e DESEJO DE MATAR 3.

No entanto, é a única sequência nesse estilo, até porque Gacel não luta apenas contra seres humanos, mas também com os desafios do deserto, o calor infernal, a falta de água… Um dos pontos altos de TUAREG é justamente uma sequência de ação sem ação, na qual Gacel vai para o meio de uma área do deserto e realiza uma loga batalha psicológica contra seus adversários.

E só mesmo o Castellari para convencer que o americano Mark Harmon, com seus olhos azuis e pele branquinha, é um guerreiro beduíno. Olho azul por olho azul, o Franco Nero, que já trabalhou com o diretor por diversas vezes, não estava disponível? Mas até que Harmon consegue se sair muito bem em todos os aspectos, especialmente como herói de ação. Além dele e Sabato, outros rostos familiares também entram em cena por aqui, como Paolo Malco, Aldo Sambrell e Romano Puppo.

Outro destaque é a trilha sonora de Riz Ortolani que entra em perfeita sintonia com as paisagens deslumbrantes do deserto. O que reforça a ligação de TUAREG com LAWRENCE DA ARÁBIA, mas acrescentando a violência deflagradora do cinema de ação dos anos 80 faz com que ganhe uma outra dimensão. Uma Belíssima fotografia, boa história, ótimas atuações, situações inusitadas que só mesmo o cinema italiano desse período poderia proporcionar e a elegante direção de Castellari fazem dessa belezinha um dos maiores trabalhos desse estimado diretor italiano.

O IMPERADOR DO NORTE (Emperor of the North, 1973)

Sou da mesma opinião do velho amigo Osvaldo Neto, meu filme favorito estrelado pelo Ernest Borgnine, que faleceu essa semana aos 95 anos, é O IMPERADOR DO NORTE, do mestre Robert Aldrich. Mas não tinha como ser diferente. Borgnine sempre cativou o público com seus personagens simpáticos e sorridentes, mesmo em exemplares mais duros, como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Sam Peckinpah (que seria o diretor deste aqui, após Martin Ritt desistir, mas acabou não concordando com o orçamento).

“O que aquele gordinho de cara engraçada está fazendo no meio dessa corja?!” Era essa a tônica de Borgnine… Mas aqui não! Em O IMPERADOR DO NORTE essa áurea de bonzinho vai às favas, num dos personagens mais brutais e sádicos que alguém poderia imaginar sobre a figura de Ernest Borgnine! Ele vive o condutor responsável de um trem de carga, durante o climax da depressão americana, que ganhou fama por não dar moleza aos viajantes clandestinos que resolvem pegar “carona” em sua preciosa locomotiva. Apesar disso, outra grande figura surge em cena para o confronto, Lee Marvin, cujo persoangem também possui um reputação a zelar: a de maior caronista clandestino de trem que existe!

Sem perder tempo com estudos sociológidos do período em questão (embora as classes estejam obviamente demarcadas nas duas figuras centrais), O IMPERADOR DO NORTE é um filme solto, mais em clima de aventura do que um recorte fiel e chato da depressão americana, e se desenvolve em cima do duelo físico e psicológico desses gigantes, o “vagabundo” liberto e o durão empregado da ferrovia. E Aldrich é de uma inteligência impressionante, conduzindo todas as situações de modo que o confronto seja inevitável, intensamente dramático… E quando finalmente ocorre, é como duas núvens carregadas que se chocam, causando estrondos ensurdecedores!

Belo filme, cinematograficamente potente, ótima recriação do clima da época, os traços da miséria, os programas de rádio, as roupas velhas e rasgadas, um sentimento que parece saído de um livro de John Steinbeck (apesar de inspirado em Jack London). E aqui vai o meu adeus ao velho Borgnine. O bom é que o sujeito deixou alguns duzentos filmes para estarmos sempre nos reencontrando…