Com a Maldade na Alma (1964)

Quase inevitável falar de Com a Maldade na Alma (Hush… Hush, Sweet Charlotte) sem citar O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962). Mas quando este último estourou na bilheteria e ressuscitou a carreira de Bette Davis e Joan Crawford, o diretor Robert Aldrich percebeu duas coisas. Ele havia praticamente inventado, ou ao menos popularizado comercialmente, um subgênero, o Psycho-biddy ou Grand Dame Guignol, thrillers psicológicos estrelados por grandes divas da Era de Ouro de Hollywood em papéis grotescos/decadentes. A outra coisa que ele percebeu é que Hollywood queria mais disso imediatamente.

Então lá foi ele voltar ao mesmo território, ao terror psicológico envolvendo duas personagens interpretadas por atrizes veteranas. Mas sem se limitar a repetir a receita anterior. Quero dizer, não repetiu até onde foi possível. Para Com a Maldade na Alma, Aldrich recorreu novamente a Henry Farrell, autor do livro original de Baby Jane, que escreveu um conto inédito chamado, vejam só, “What Ever Happened to Cousin Charlotte?”, pensando justamente em atender a demanda de Aldrich.

Para diferenciar até onde pudesse, a ideia era amplificar a escala das coisas, aumentando o orçamento, usando o cenário do sul gótico e tornando as coisas ainda mais violentas e barrocas. A trama se passa quase toda numa mansão decadente cercada pela atmosfera abafada da Louisiana pra contar a história de Charlotte (Bette Davis), uma mulher isolada do mundo, assombrada pelo assassinato não resolvido do seu amante na juventude.

O plano de Aldrich de juntar novamente Davis e Crawford, o que deu origem a vários episódios infames nos bastidores, quase destruiu o filme e levou o orçamento às alturas. Sabe-se que ela e Davis se odiavam e mesmo em Baby Jane as coisas eram tensas. No fim, Crawford acabou substituída. Davis entrega mais uma vez uma atuação impressionante, que oscila o tempo todo entre a fúria e o desespero. Mas se em Baby Jane era ela que brilhava, quem rouba a cena desta vez é Olivia De Havilland, num papel cheio de nuances que escondem sua verdadeira face. Deixa de lado a imagem doce que a consagrou em Hollywood e constrói uma figura mais fria e calculista. O embate entre a histeria de Davis e a calma artificial de De Havilland cria um jogo de manipulação psicológica constante. Não tão forte quanto em Baby Jane, que acho uma das obras-primas de Aldrich. Um dos filmes mais tensos que já vi.

Em compensação, temos por aqui o filme mais violento do diretor até aquele momento. Para além do domínio da atmosfera do horror, da tensão, temos alguns momentos bem chocantes, com direito à mão de um jovem Bruce Dern sendo decepada por um cutelo de forma explícita na tela. E toda a condução de Aldrich e a fotografia em preto e branco reforçam uma sensação de claustrofobia bem forte, com jogos de sombra bem marcados e quadros fechados no rosto das personagens, que fazem o espectador quase sentir a paranoia da protagonista.

Apesar de todo o caos durante o período em que Crawford ainda estava no set (várias cenas com ela já haviam sido rodadas), a aposta de Aldrich se pagou. Com a Maldade na Alma foi um sucesso enorme, é um belíssimo exemplar de um Psycho-biddy ou Grand Dame Guignol, um retrato amargo sobre a decadência e isolamento, mas também é um thriller bem eficiente sobre como a loucura se torna a única saída para quem foi encurralado pela realidade.

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