
Muitas vezes citado como um dos primeiros filmes de horror da Warner, Svengali, de Archie Mayo, só se enquadra nesse rótulo num sentido mais amplo da coisa. Até tem bastante elemento em comum com os filmes do gênero, sobretudo pela influência do cinema expressionista alemão, repleto de sombras profundas, enquadramentos angulares, de fortes contrastes, e cenários estilizados. Mas curiosamente há bastante humor, que se mistura numa trama de thriller psicológico, com a primeira metade concentrando a maior parte da comédia e as tensões ficando mais para a parte final.
John Barrymore, que vive o personagem título, teve voz ativa no tom do filme, exigindo que o personagem não fosse apenas um vilão unidimensional. Svengali deveria ter um humor sarcástico e uma veia cômica no início da história pra criar um contraste ainda mais aterrorizante quando suas obsessões se tornam trágicas. O sujeito brilha do início ao fim, mas é mais eficaz no começo, onde reside a maior parte do humor. É uma atuação exagerada, mas extremamente eficaz. Marian Marsh, que tinha apenas 17 anos na época, está bem no papel da jovem dominada pelos poderes hipnóticos de Svengali. Ele utiliza esses poderes para conceder a ela a habilidade de se tornar uma cantora aclamada e bem-sucedida, mas também para que ele se beneficie desse “talento”.
Há pelo menos um momento sublime, a cena em que Svengali exerce seu poder para atrair a jovem até ele, com a câmera saindo de um close da face expressiva de Barrymore passando pelas frestas de uma janela no mesmo plano, nos conduzindo por um panorama surrealista de telhados da cidade, de uma Paris expressionista, que parece saída de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), até o quarto da moça. Fenomenal.
Vale mencionar que trata-se de uma produção da era Pre-Code, então não tem muito pudor ao retratar o assédio moral do protagonista sobre a jovem, sua dominação psicológica e arrematar tudo num final nada otimista. Além de alguns momentos mais ousados, como na cena em que a jovem serve de modelo para um grupo de alunos de pintura, completamente nua. Não se vê praticamente nada, obviamente, mas para o período deve ter deixado alguns expectadores bem animados. Svengali não foi um fenômeno gigantesco de bilheteria, mas a recepção foi relativamente boa, e a atuação barroca de Barrymore foi tão entusiasmada que a Warner imediatamente escalou ele e Marian Marsh para estrelarem outro horror psicológico logo em seguida, O Gênio do Mal (The Mad Genius, 1931), de Michael Curtiz.