
O quinto capítulo da saga, LOBO SOLITÁRIO – NA TERRA DOS DEMÔNIOS (Lone Wolf and Cub: Baby Cart in the Land of Demons), marca o retorno de Kenji Misumi à direção, algo que dá pra sentir imediatamente. Depois do desvio mais “pop” do filme anterior, aqui a série reencontra um equilíbrio mais preciso entre contemplação, densidade temática e as explosões de violência. É, para muitos (e talvez pra mim também), um dos pontos mais altos de toda a franquia. A trama é uma das mais interessantes e intrincadas até aqui, com Ogami Ittō, vivido novamente por Tomisaburo Wakayama, contratado por facções rivais do clã Kuroda para resolver uma conspiração envolvendo cartas reveladoras, a substituição de um herdeiro legítimo e o risco de destruição completa do clã. No centro disso tudo tá o abade Jikei, uma figura ambígua, que opera nas sombras e mantém ligações secretas com o clã Yagyū, inimigo mortal de Ittō. Como é comum na série, a política feudal serve tanto como pano de fundo histórico quanto um labirinto moral onde lealdade, poder e traição se embaralham constantemente.
O filme já começa de forma brilhante, com cinco mensageiros testando a força e a determinação de Ittō, cada um carregando uma parte do pagamento e um fragmento da missão. A cada encontro, um desafio, físico ou psicológico, e um avanço na compreensão do trabalho. Um deles, talvez o mais memorável, entrega sua mensagem enquanto queima vivo, com uma serenidade quase sobrenatural.

O confronto com o abade Jikei introduz uma camada filosófica ainda mais explícita na jornada de Ittō. Ao tentar assassiná-lo durante um festival, o Lobo Solitário descobre que ainda não está pronto, fica estático, não consegue agir e cumprir sua missão. E ainda ouve que seu alvo “se fundiu ao nada”, só podendo ser derrotado quando ele próprio atravessar a chamada “barreira sem portões”. Seja lá o que isso significa, mas acredito que sejam ideias influenciadas por conceitos do zen-budismo, que sugere um estágio de consciência onde não há mais distinção entre intenção e ação, entre vida e morte. Para um homem que já vive como um “demônio” na Terra, resta ainda um último passo, que é esvaziar-se completamente.
Perdido pela primeira vez, o ronin vive um episódio decisivo, quando Daigorō, o pequeno companheiro de jornada, é preso e brutalmente castigado em praça pública por se recusar a denunciar uma batedora de carteiras. Em silêncio, ele suporta a dor com uma dignidade quase impossível para uma criança, demonstrando uma determinação silenciosa que inspira o pai, sua resistência funciona como catalisador para que Ittō encontre força necessária para atravessar a tal “barreira sem portões” e atingir o nível final de sua arte.


A partir daí, o filme mergulha em ação quase constante. Itto supera ninjas, soldados mascarados, agentes do clã Yagyū e finalmente cumpre as suas missões, incluindo o assassinato de Jikei e até uma criança de cinco anos, numa sequência brutal, consolidando-se como o assassino perfeito. Toda a sequência de ação final, aliás, é magistral, um trabalho preciso, visceral e belíssimo de orquestração da violência. Misumi demonstra porque era o maioral nese tipo de filme, registra a ação como um pintor expressionista, transformando um massacre em arte. E sintetiza tudo o que a série construiu até aqui. NA TERRA DOS DEMÔNIOS funciona como a afirmação de um cineasta no auge de seu domínio formal. Misumi parece totalmente confortável em equilibrar ação, contemplação e espetáculo.
E agora que só falta um filme pra terminar a saga, percebe-se um Ogami Ittō se aproximando cada vez mais de uma figura quase mitológica, não apenas um homem em busca de vingança, mas alguém disposto a atravessar o próprio vazio para cumprir seu destino.













