Não sei se vocês ainda se lembram (bem, alguns sim, já que me cobraram), mas em 2013 eu comecei este especial aqui no blog que dissecaria a obra do John McTiernan e, vejam só, faltando apenas três filmes para terminar acabei deixando de lado. Acho que é hora de retomar essa bagaça, até porque tô afim de escolher outro nome pra explorar a filmografia e não quero deixar essa ponta solta. O próximo da lista então é THOMAS CROWN – A ARTE DO CRIME. Continue lendo
Arquivo da tag: Pierce Brosnan
ESPECIAL McT #1: NOMADS (1986)

Já era um “veterano” em McTiernan quando vi NOMADS pela primeira vez há pouco mais de dois anos. Revi incontáveis vezes PREDADOR (87), O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (93), DURO DE MATAR III (95), além do primeiro DURO DE MATAR (88) que é um dos meus filmes de ação de cabeceira. Tinha assistido também a outros trabalhos do homem, como CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO (90), THOMAS CROWN (99), BASIC (03) e vos garanto que toda essa experiência com os seus filmes posteriores não me preparou em nada para conferir este estranhíssimo horror movie que marcaria a estreia de McTiernan na direção.
O autor de John McTiernan: LeMaître du Cinéma d’action, Claude Monnier, lembra de uma história interessante com Howard Hawks, na época do lançamento de seu primeiro filme, de 1926, THE ROAD TO GLORY. Tendo acabado de conferir aquele dramalhão pesado e trágico, o produtor Sol Wurtzel chegou para o Hawks e disse “Pronto, você demonstrou que é capaz de realizar um filme. Mas, pelo amor de Deus, faça agora algo mais divertido!”. E, realmente, há uma diferença absurda entre NOMADS e o restante da carreira do McTiernan. Dá a impressão de que o sujeito queria exorcizar alguns demônios antes de se firmar em Hollywood.

NOMADS é aquele caso no qual falar pouco já é falar demais. O certo seria apenas recomendá-lo, “assistam a essa bagaça sem ler nada a respeito“. No entanto, já falando demais, a trama de gira em torno de um antropólogo francês, interpretado pelo Pierce Brosnan, famoso por estudos de tribos nômades ao redor do mundo. Quando chega a Los Angeles, junto com a esposa, para dar aulas numa universidade, acaba tendo problemas com uma gangue de punks barra pesada. Ao invés de chamar a polícia, ou algo assim, o sujeito decide reviver suas experiências antropológicas em pleno submundo urbano. Passa, então, a seguir, tirar fotos e observar os hábitos da gangue pelos cantos da cidade. A coisa toma contornos cada vez mais bizarros quando Brosnan descobre que, na verdade, aquele grupo é formado por espíritos, ou demônios, que vagueiam como nômades pela Terra em forma humana para espalhar o mal.
E se tudo isso já não bastasse, a maneira como McTiernan estrutura a trama contribui para manter as coisas de forma ainda mais enigmática e com certa originalidade. O próprio plot que eu descrevi aí em cima acaba acontecendo de uma maneria bem diferente do que se espera. E o filme não faz a mínima questão de entregar tudo explicado de bandeja para o espectador, o que pra mim é essencial, uma pena que isso seja cada vez mais raro no cinema atual. O roteiro é do próprio McTiernan e foi o único que escreveu em toda a carreira.

Já na direção, o sujeito demonstra uma talento raro na condução de um debut. Faz algumas experimentações estéticas, mas a maior parte do tempo mantém um estilo clássico de um mestre, com pequenos movimentos de câmera conscientes, enquadramentos bem compostos e muita noção de ritmo. As sequências noturnas, em especial, são bem bonitas visualmente, com bastante atmosfera e tensão, como nos momentos em que Brosnan espreita a corja pelas ruas escuras.
Há uma cena incrível que o protagonista se esconde das figuras que o perseguem debaixo de um carro. A câmera fica lá estática mostrando o ator deitado enquanto os pés dos seus algozes aparecem o rondando, mas não dá pra saber se eles o perderam de vista, ou se estão brincando com o sujeito. Só sei que a cena é tensa pra cacete! Outro momento que me marcou foi quando Brosnan joga um desses seres do alto de um prédio e o indivíduo cai sob o mesmo enquadramento do Hans Gruber (Alan Rickman) em DURO DE MATAR… Esse enquadramento em especial parece ser uma obsessão na carreira do McTiernan. Há também em O ÚLTIMO GRANDE HERÓI e DURO DE MATAR III.

Mesmo com a qualidade visual, NOMADS foi massacrado pela crítica na época. Mas há mesmo algumas questões que realmente podem espantar a clientela: a narrativa se torna confusa em determinada altura, o experimentalismo da gramática do horror, a falta de explicação, até o sotaque do Brosnan, que é irlandês, mas interpreta um francês, que se muda para L.A. Depende do nível de tolerância de cada um. Essas questões, para mim, não são nada e simplesmente embarquei na trama, no visual onírico, na atmosfera inquietante de sonho, na trilha sonora oitentista, ignorei os pontos discutíveis e, longe de ser uma obra-prima, NOMADS resultou num mix de estranheza e encantamento.
Não é um PREDADOR ou DURO DE MATAR, mas é surpreendentemente sólido como filme de horror, especialmente vindo de um estreante. Aliás, há um ator que disse em sua biografia que ficou tão hipnotizando com o clima do filme que convenceu os produtores a contratarem o diretor para sua próxima empreitada. O ator é o Arnold Schwarzenegger e o filme acabou se tornando o segundo trabalho de McTiernan, que nem preciso dizer qual é…
O ESCRITOR FANTASMA (2010)

Vi este novo trabalho do Polanski, O ESCRITOR FANTASMA (The Ghost Writer), um thriller político sobre um escritor (Ewan McGregor) que recebe uma oferta lucrativa para concluir a autobiografia – como Ghost Writer – do ex-primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Adam Lang (Pierce Brosnan), que agora vive numa ilha nos Estados Unidos, rodeado de poucas pessoas e passando por sérias acusações políticas.
O problema é que o tal escritor foi contratado para substituir um outro autor que morreu de forma suspeita enquanto trabalhava nos mesmos escritos. E à medida em que vai descobrindo os podres do ex-primeiro ministro, mais o escritor percebe que está se envolvendo numa trama perigosa e que pessoas poderosas querem enterrar e esquecer certas verdades.


É uma trama simples, mas que Polanski dirige com precisão, dá um ritmo excelente: lento, reflexivo, sem muita pressa, mas com momentos de tensão realmente de roer as unhas. Todo o filme se baseia em climas e na construção atmosférica de puro suspense. Sim, o filme é anacrônico, mas para quem está de saco cheio das mesmas fórmulas de como se faz suspense atualmente, O ESCRITOR FANTASMA é um deleite.
E, bom, estamos falando de uma das maiores autoridades no assunto. REPULSA AO SEXO, O BEBÊ DE ROSEMARY, BUSCA FRENÉTICA e O INQUILINO são apenas alguns exemplos que provam a genialidade de Polanski na condução do suspense/horror de maneira correta.

E como se não bastasse filmar um thriller com maestria arrepiante, Polanski faz em O ESCRITOR FANTASMA alguns dos mais belos planos que vi recentemente numa sala de cinema. Ajuda muito o cenário peculiar que a trama se passa.
No campo das atuações, McGregor, ator sóbrio, cumpre muito bem suas responsabilidades como protagonista. Mas todo o elenco é um destaque. Tom Wilkinson está sinistro em sua participação, temos Eli Wallach e James Belushi apontando rapidamente e Pierce Brosnan, que surpreende num de seus melhores desepenhos. Kim Cattrall e Olivia Williams completam o time no lado feminino.
O ESCRITOR FANTASMA é o melhor Polanski em muitos anos. E isso quer dizer muita coisa. Se qualquer um da grande maioria dos diretores da atualidade fizesse um filme baseado nesse roteiro, seria um thriller genericão, mas por causa da criatividade e senso de arte de Polanski, o que temos é uma joia.
Curioso que o filme me lembrou outro trabalho do homem, O ÚLTIMO PORTAL, o qual foi bastante maltratado na época do lançamento, apesar de ser muito bom também. Preciso rever. Este aqui vem recebendo elogios da “crítica séria”, mas nada que realmente apresente a importância que o filme merece.


