Esta é uma daquelas resenhas que são meio que impossíveis de escrever, ou se escreve no piloto automático só jogando o óbvio. O que eu poderia dizer sobre CIDADÃO KANE (Citizen Kane), o clássico de Orson Welles, que já não tenha sido dito? Mas, depois de fazer uma revisão, me propus a deixar umas palavras aqui no blog. Só por diversão. Vamos ver o que sai…
Até porque mais do que uma simples obra cinematográfica, isso aqui deixou um legado, um feito imponente que mudou a arte e o ofício da produção cinematográfica. Não que tenha inventado o cinema moderno, ou algo parecido, como muita gente acredita, mas certamente mostrou algumas possibilidades, tanto técnicas quanto de linguagem, tanto narrativa quanto formais, que não haviam sido devidamente exploradas como Welles fez por aqui. Talvez nenhum outro filme na história tenha sido tão analisado, discutido, debatido e reverenciado. Inúmeros textos e livros foram escritos sobre o que Welles foi capaz de realizar. E embora eu pessoalmente prefira algumas outras obras do homem – diria que hoje meu favorito é SOBERBA (The Magnificent Ambersons) – ainda fico impressionado com CIDADÃO KANE toda vez que paro pra rever.


Se alguém, por acaso, ainda não viu, o filme relata a vida do magnata da imprensa Charles Foster Kane. A base de tudo tem como pretexto as últimas palavras do homem no seu leito de morte, “Rosebud“, e se desenvolve pelas inúmeras tentativas em descobrir o significado dessa palavra, com entrevistas aos amigos, associados comerciais e ex-esposas… O filme salta entre vários momentos da vida do personagem, sua infância, uma juventude promissora em que ele inicia um jornal sensacionalista, o crescimento de seu império empresarial e sua ascensão ao poder, seus casamentos, uma carreira política fracassada e a construção posterior e decadência de sua propriedade, Xanadu.
Obviamente muito há que se destacar pela maneira inovadora que Welles e seu diretor de fotografia, Gregg Toland, trabalham o visual, os espaços e a ação da câmera, incluindo o uso de foco em profundidade e tomadas em ângulo baixo, revelando tetos que anteriormente não eram mostrados nos filmes; a incrível trilha sonora de Bernard Herrmann, o uso de som e técnicas de montagem de rádio, e assim por diante. Há também o excelente trabalho de edição de Robert Wise, que se tornaria um grande diretor futuramente. Mas nada que seja o equivalente à invenção da roda. Só que realmente impressionam pela maneira perfeita como fazem.

Mas se tem algo de inovador em CIDADÃO KANE, algo que realmente possa ter chacoalhado com as bases do cinema enquanto linguagem, seriam alguns detalhes colocados na estrutura narrativa. Welles se juntou ao roteirista Herman J. Mankiewicz para criar um conto complexo, multifacetado e não linear, entrelaçando entrevistas, flashbacks, noticiários, manchetes, o que já seria até aqui algo pouco visto até aquele momento. Mas aí veio o toque de gênio: o filme é narrado a partir de histórias de múltiplos pontos de vista, utilizando narradores diferentes, em diferentes períodos ao longo das vidas dos personagens, com diferente versões das mesmas histórias. Obviamente não sou eu que tô descobrindo isso, os teóricos franceses já apontavam pra essas coisas há décadas, mas aqui está a grande inovação que CIDADÃO KANE traz, que faz o filme ter um alcance épico, quase mítico, tanto para a narrativa em si, quanto para a história do cinema.

É notório que o filme foi inspirado na vida do magnata da mídia William Randolph Hearst, que ficou tão enfurecido com o resultado que tentou destruir as cópias. Apesar de Welles não esconder muito a referência de Hearst, ele não foi a única inspiração para Kane, que é uma mistura de figuras públicas conhecidas, principalmente empresários e importantes magnatas da imprensa, o que transformou o diretor em persona non grata e consequentemente aquilo que todos sabem: Welles precisava mendigar pra conseguir levar adiante seus projetos, nunca mais conseguiu total liberdade criativa e muito menos o mesmo orçamento que teve aqui. Mas como um gênio maldito que era, conseguiu se virar e continuar a fazer filmes tão bons e até melhores que CIDADÃO KANE.
Nem mesmo sucesso financeiro o filme conseguiu fazer na época e acabou num limbo durante um bom tempo, até que os críticos ajudaram a revivê-lo e ser lembrado como o clássico que é desde os anos 50 e 60, sempre figurando em posições privilegiadas nas listas de melhores filmes de todos os tempos. Pessoalmente, não acho que seja pra tanto, não tá nem no meu top 100 pessoal atual (talvez entre agora com essa revisão, quem sabe?), mas faz total sentido essa adoração por CIDADÃO KANE ao longo das décadas. É realmente um filmaço pra se rever sempre.













