A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985)

Após o sucesso do clássico de 1968 A NOITE DOS MORTOS VIVOS, os seus co-criadores, George Romero e o roteirista John Russo, tiveram diferentes ideias para prosseguir explorando esse universo de zombie movie que se abriu e seguiram seus próprios caminhos. Romero continuou fazendo seus filmes e uma década depois resolveu retornar ao tema quando fez mais uma de suas obras-primas, DAWN OF THE DEAD (1978). Já Russo começou a trabalhar na adaptação de um romance que ele mesmo havia escrito chamado “O Retorno dos Mortos-Vivos“, que aparentemente estava mais próximo de uma continuação do filme de 68 do que o próprio Romero em seu novo filme de zumbi. Deu-se início então ao projeto A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (The Return of the Living Dead).

Um produtor independente, Tom Fox, comprou o roteiro de Russo e ofereceu a Tobe Hooper, que rejeitou. De recusas a recusas, acabou parando nas mãos de Dan O’Bannon, que havia trabalhado majoritariamente como roteirista (ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO, DEAD AND BURIED, BLUE THUNDER) e nunca havia dirigido um filme antes. Mas seguiu em frente, fazendo algumas alterações no roteiro.

Para O’Bannon, não fazia muito sentido comandar o projeto da maneira como o script havia sido pensado. Ele sentia que era uma tentativa muito séria de fazer uma sequência de A NOITE DOS MORTOS VIVOS e não queria se intrometer tão diretamente no território de Romero, que já estava estabelecido àquela altura (inclusive lançando neste mesmo ano de 85 a terceira parte da sua série, o maravilhoso O DIA DOS MORTOS). Então O’Bannon reescreveu o roteiro para que tudo tivesse uma abordagem mais cômica do material de Russo e a história ocorresse em um universo fictício onde A NOITE DOS MORTOS VIVOS seria um filme “baseado em fatos reais”

Ou seja, na trama é suposto que o filme do Romero teria sido baseado em um evento no qual o exército americano teria lacrado todas as evidências dos acontecimentos que ocorreram na época e as enviou para alguma instalação de armazenamento de cadáveres. Mas por conta de algum erro de logística, os containers foram parar num pequeno depósito de suprimentos médicos na periferia de Louisville, Kentucky, onde permaneceu por volta de vinte anos, considerados perdidos.

Isso tudo é contado ao novo funcionário do local, Freddy (Thom Mathews), pelo já veterano Frank (James Karen). “Você viu aquele filme A NOITE DOS MORTOS VIVOS?” ele pergunta ao jovem colega de trabalho, antes de explicar que o filme foi baseado no tal incidente real. Ele lhe informa que o tal experimento médico do Exército que foi enviado por engano está armazenado exatamente no porão sob seus pés. Freddy fica cético até que descem as escadas e Frank mostra a ele vários cadáveres armazenados em cilindros fechados. Um desses containers acaba vazando um gás fétido que deixa a dupla inconsciente. Quando acordam e sobem as escadas, percebem que o gás reanimou todo o tipo de cadáver do local, de corpos humanos que seriam vendidos para faculdades de medicina à borboletas pregadas por alfinetes e cachorros espantalhos divididos ao meio… Urgh!

Em pânico, eles ligam para o chefe, Burt (Clu Gulager). Quando um dos cadáveres que estava armazenado numa sala refrigerada os ataca e, mesmo depois de esquartejado se recusa a morrer, eles o transportam para o necrotério ao lado, na esperança de que o agente funerário (Don Calfa) os deixe usar o crematório. Só que a fumaça e as cinzas são ejetadas pela chaminé e para as nuvens, causando imediatamente uma chuva em um cemitério próximo, onde os amigos punks de Freddy (incluindo a scream queen Linnea Quigley, na icônica Trash) estão farreando.

A água da chuva infectada penetra no solo e rapidamente reanima os mortos, que abrem caminho para a superfície. Os punks então se dispersam, alguns encontrando refúgio no necrotério onde os primeiros paramédicos que chegam ao local informam a Frank e Freddy (ambos agora moribundos por causa do gás) que seus sintomas são consistentes com rigor-mortis. Logo, ao estilo de Howard Hawks, os sobreviventes devem se barricar no local para se proteger da horda de mortos vivos famintos que os rodeia.

Mesmo com a ideia de O’Bannon de se afastar, é inevitável que o filme acabe sendo uma valiosa peça complementar ao trabalho de Romero. Não tem muito pra onde fugir… Mas ainda assim é um trabalho independente, cheio de elementos próprios que, como uma comédia de desespero, merece ser considerado um ponto alto no panteão do cinema de terror oitentista; seu tom provou ser suficiente e distinto para inspirar outros filmes e teve várias sequências que, por sua vez, buscaram, sem o mesmo sucesso que este aqui, explorar a comédia no puro terror visceral.

A interação entre os personagens é uma das coisas que mais me fascina e se mantém tão bem depois de todos esses anos. Os adultos representados no filme por Gulager, Karen e Calfa são escolhas certeiras. A atuação de Karen, sobretudo, é absurda desde os momentos iniciais, quando se apresenta como uma figura cômica, até a sua contínua agonia à medida que seu personagem piora progressivamente. Gulager também tá perfeito, serve como o alicerce de todo o filme, e sua presença não deixa o espectador tirar os olhos da tela.

Mas quem mais me surpreende é Don Calfa como o agente funerário Ernie Kaltenbrunner. A persona básica de Calfa na tela dá a impressão de que ele vai funcionar como uma espécie de alívio cômico, mas ele inesperadamente se revela o mais sensato e engenhoso de todos. Rouba o filme pra si, e fico surpreso por ele nunca ter se tornado mais famoso.

O outro grupo no filme consiste na gangue passando o tempo no cemitério nas proximidades esperando pelo amigo Freddy. É realmente um conjunto único, com alguns personagens exibindo peculiaridades bem variadas. Linnea Quigley como Trash é possivelmente a figura mais representativa do filme. Ao longo dos anos, sempre que pensava em A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (e fazia décadas que eu não assistia) a imagem de Quigley dançando em cima de um túmulo era a primeira que habitava meus pensamentos. Obviamente que ela estar completamente nua na tela ajudou bastante nisso…

Mas cada um dos atores mais jovens deixa uma impressão favorável, especialmente Thom Matthews como Freddy. A interação dele com o velho Karen é maravilhosa, os dois gritando loucamente: “Cuidado com a língua, garoto, se você gosta deste emprego“, “Gostar deste emprego?!” sempre foi uma das minhas partes favoritas do filme, então fiquei feliz em ver como tudo isso ainda funciona. Os dois atores retornaram para a sequência, O RETORNO DOS MORTOS VIVOS PARTE II (1988), mas em personagens diferentes. Preciso rever esse aí também, não lembro absolutamente nada.

Existem momentos em que o baixo orçamento começa a aparecer, a forma como algumas sequências externas são encenadas e a sensação no final de que talvez algumas coisas não tenham sido filmadas quando a produção terminou. Mas o tom cômico impassível continua incrível, a alfinetada crítica às atitudes do governo também tá lá muito bem inserida no meios das camadas, juntamente com os momentos de horror, de tensão, a violência gráfica e o tom geral apropriadamente desagradável (“Eu te amo… e você tem que me deixar comer o seu CÉREEEBRO!!“). A sequência em que os zumbis chamam por reforços policiais e pedem mais ambulâncias para terem mais cérebros pra devorar tá dentre as situações mais significativas do conceito “humor & horror andando de mãos dadas” na história do cinema.

Como disse antes, O’Bannon teve que enfrentar a visão de Romero quando o sombrio e nada cômico DIA DOS MORTOS foi lançado no mesmo ano que A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, quase na mesma época, causando antagonismo e a competição entre os fãs que O’Bannon sempre evitou. Em retrospecto, foi considerado um sinal dos tempos que justamente o filme cômico de O’Bannon teve melhor desempenho de bilheteria do que o filme mais sério e aterrorizante de Romero. Sem entrar no mérito das comparações, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS é uma das comédias de terror mais engenhosas e cativantes que eu me lembrava de ter visto. E agora, revendo depois de uns trinta anos, confirma que se trata de uma pequena obra-prima e um dos filmes mais divertidos do gênero nos anos 80.

ROEDORES DA NOITE (1995)

Com o DRÁCULA (92) do Coppola trazendo Bram Stoker e o horror gótico novamente às atenções no início dos anos 90, uma série de filmes de baixo orçamento, dos mais variados níveis de qualidade, procurou surfar na onda e tirar proveito do hype. E obviamente o rei dos B Movies, Roger Corman, não ia ficar de fora dessa. ROEDORES DA NOITE (Burial of the Rats), produzido pelo sujeito e dirigido por um cara legal chamado Dan Golden, é o resultado da empreitada.

Produção para TV, filmado na Rússia, nos estúdios Mosfilm – quando estavam praticamente falidos após a queda da União Soviética – ROEDORES DA NOITE não é lá um filme que eu classificaria como “bom” no sentido tradicional, mas é aquele tipo de produto que acabo gostando, e até me surpreendendo de alguma maneira, pelos motivos errados. O tipo de porcaria que pode ser muito divertido quando realizado por pessoas que realmente sabem o que estão fazendo. E que têm muita força de vontade pra fazer algo legal…

A “força de vontade”:

A trama de ROEDORES DA NOITE é inspirada num conto de Bram Stoker e protagonizada pelo próprio escritor. Em algum lugar na França do século IXX, o jovem Stoker (vivido por Kevin Alber) é sequestrado por um culto de mulheres guerreiras, que usam pouquíssimas roupas, odeiam homens e se auto intitulam “Rat Women“. Uma das integrantes é a bela Madeleine, interpretada por uma das habituais aqui do blog, Maria Ford. As “Rat Women” são lideradas por uma Rainha, que é encarnada por ninguém menos que a ex-Senhora John Carpenter, Adrienne Barbeau. Com ela à frente, essas mulheres guerreiras comandam hordas de ratos famintos e carnívoros para se vingar de todos os homens misóginos da região. E é nessa situação que o pobre Stoker foi parar…

Enquanto isso, o pai do futuro escritor enfrenta a indiferença da polícia local na busca por seu filho. Mas Stoker consegue dar seus pulos, sobrevive à tortura num pêndulo balançando sobre um poço de ratos, e ainda consegue atrair a atenção da bondosa Madeleine, apesar da desconfiança e ciúmes de uma colega, Anna (Olga Kabo). Além disso, seu talento para a escrita convence a rainha a deixá-lo viver e participar de algumas missões para documentar seus grandes feitos, registrar ao restante do mundo esse universo de mulheres peculiares. Aos poucos também, o mancebo Stoker conquista o coração (e outras coisas mais) de Madeleine… A situação do sujeito melhorou, não é mesmo?

ROEDORES DA NOITE lembra um pouco os filmes do ciclo Edgar Allan Poe, produções baseadas nesse escritor que o Corman dirigiu nos anos 60 e que resultou em alguns dos melhores filmes de horror do período. O tipo de produto que, realizado nos anos 90 com orçamento reduzido, feito nos moldes clássicos, já não fazia o menor sentido, exceto se os realizadores explorassem aquilo que não podiam trinta anos antes. E aqui exploram. Podem ter certeza disso… Aquela “força de vontade” a qual me referi ali em cima…

No entanto, nem só de molecagem e safadeza vive ROEDORES DA NOITE. Não que seja um daqueles filmes que se transformam em obras místicas transcendentais, nada disso. Mas me peguei prestando atenção em como o filme se torna em algum momento numa aventura realmente divertida, que me prendeu, com uma agradável veia romântica… Claro, não dá pra exigir muito do tal do Kevin Alber, que não é lá muito talentoso, além de ser feio pra burro, mas Maria Ford consegue fazer o seu lado com graciosidade e honestidade. Uma heroína exemplar: espirituosa, boa de esgrima e escassamente vestida.

Enquanto isso, temos Adrienne Barbeau, que praticamente passa o filme inteiro sentada no seu trono de rainha, maravilhosa, sob sua enorme peruca. E com um bando de ratos em seus pés. E o animal que não lhe agradar pode sofrer um terrível fim, como na cena em que Barbeau ordena que um dos ratos seja decapitado numa mini-guilhotina, seja lá por qual motivo… Só sei que é dos momentos mais bizarros – e engraçados – de ROEDORES DA NOITE.

Aliás, falando sobre os ratos, eles acabam tendo uma participação bem menor do que o esperado, já que os títulos, tanto no original quanto na nossa tradução nacional, remetem a eles. No entanto, sempre que aparecem, vale a pena. Em quinze segundos, esses dóceis animais são capazes de devorar um corpo deixando só o esqueleto de suas vítimas. A sequência final, quando Barbeau escolhe deixar seu destino cruel nas mãos desses ratinhos, é algo a se destacar…

Ainda no elenco, temos as participações especiais de Linnea Quigley e Nikki Fritz. As duas deviam estar perdidas nos sets na Rússia, fazendo sabe-se lá o que, e o Dan Golden deve ter chamado pra filmar alguma coisa. Juntas, as duas participações não dura nem dez segundos.

Aliás, que final! Uma batalha de proporções épicas – calma, estou considerando para o tipo de produção que temos aqui – com o exército francês invadindo o castelo das “Rat Women” e sendo recebidos pelas guerreiras em lutas de espadas frenéticas. Por mais risível que seja a encenação e o óbvio baixo orçamento da produção, Corman e Dan Golden conseguiram criar um espetáculo minimamente divertido que remete aos clássicos filmes de espadachim dos anos 40 e 50…

E enterrado sob a fartura de bobagens, mulheres com pouca roupa e muita luta de espada, existem lá no fundo algumas ideias bastante interessantes sobre a escrita/literatura como uma força de libertação ideológica e um discurso feminista de mulheres que procuram vingar os erros de uma sociedade dominada por homens. Mas os roteiristas de ROEDORES DA NOITE – e acredito que o público também – não estavam muito interessados em explorar com grande profundidade esse tipo de coisa num filme como esse.

Aqui é mais Corman garantindo que tudo funcione como um bom exploitation, com o elenco tirando a roupa com a maior frequência possível, uma boa dose de sangue, descolando cenários inusitados e bem legais lá na puta que pariu pra dar aquele ar de produção bem mais cara do que a realidade. A direção de Dan Golden (NAKED OBSESSION e HAUNTED SEA) também ajuda. Não é nada magistral, mas ele sabe onde colocar sua câmera.

Vejamos um exemplo e analisemos o talento do homem na direção:

Continue lendo

NEW YORK NINJA

De vez em quando, alguns milagres acontecem… Em 1984, um filme chamado NEW YORK NINJA teve sua produção iniciada. E só pelo nome já daria vontade de assistir. O problema é que nunca foi finalizado. Inicialmente dirigido e estrelado por John Liu (THE INVENCIBLE ARMOUR) e produzido pelo lendário produtor de exploitation nova iorquino Arthur Schweitzer (BIOHAZARD e MUTANT WAR), o projeto foi abandonado ao fim das filmagens, seja lá por qual motivo. Nunca foi editado, todos os materiais de som se perderam, nem o roteiro existe mais.

O filme permaneceu incompleto até que a distribuidora Vinegar Syndrome encontrou o negativo original e comprou os direitos de NEW YORK NINJA. Num esforço que durou dois anos de trabalho, a empresa deu aquela caprichada na restauração da imagem, mixaram um novo áudio, contrataram até um especialista em leitor labial para decifrar os diálogos e o produtor/editor Kurtis Spieler terminou o filme com o elenco de dubladores mais inesperado da história do cinema. Entre eles, Don “The Dragon” Wilson, Michael Berryman, Cynthia Rothrock e Linnea Quigley.

O fato é que agora temos um novo acontecimento nos aguardando, um filme de ninja filmado nos anos 80 e finalizado em 2021. O inédito NEW YORK NINJA verá a luz do dia e em breve poderemos assistir a essa pepita, que parece ser uma belezura nos moldes de clássicos como SAMURAI COP, ACTION USA e MIAMI CONNECTION! Ah, Vinegar Syndrome, como eu amo vocês…

Confiram o trailer:

RUAS SELVAGENS (1984)

O diretor Danny Steinmann é provavelmente mais conhecido por SEXTA-FEIRA 13 – PARTE V: UM NOVO COMEÇO, que acabou sendo seu último trabalho, não fez mais nada desde então. O que é uma pena, porque eu gosto desse capítulo da série SEXTA-FEIRA 13, acho que ele manda bem, é um cara que veio do cinema underground do fim dos anos 60, dirigiu um filme pornô nos anos 70, então é um cara que tem uma certa bagagem pra trabalhar elementos de cinema de exploração, que não é bem o cenário de SF13 – PARTE V, mas é o caso deste seu filme anterior, RUAS SELVAGENS (SAVAGE STREET). Um petardo oitentista, rip-off das continuações de DESEJO DE MATAR marcado pela presença de Linda Blair, a menininha possuída de O EXORCISTA, fazendo uma espécie de Charles Bronson de saia, em busca de vingança pra cima de uma gangue.

Blair vive uma garota durona chamada Brenda. Estudante honesta, que come pão na chapa com café com leite pela manhã e não se deixa intimidar por qualquer otário que mexa com ela, suas amigas, e sua irmã mais nova, Heather, a musa scream queen Linnea Quigley, mas que aqui faz um papel de muda, e Brenda tem o maior cuidado por ela. Numa noite de diversão em uma boate, Brenda e sua turma acabam se metendo em problemas com uma gangue chamada The Scars, composta por quatro sujeitos bizarros que só existem nesse universo para praticar crimes, roubo, estupro e assassinatos, tudo de boa, na molecagem. Apesar de atacarem e violarem mulheres indefesas, eles não parecem ligar muito para definições de sexualidade, e estão constantemente se tocando, beijam na boca entre si, o que torna a gangue, digamos, singular…

Mas ao mesmo tempo, esses caras não estão muito a fim de levar desaforo pra casa. Sobretudo de garotas empoderadas como Brenda. O clima vai esquentando entre eles ao passar dos dias, até que a pobre Heather é pega desavisada no colégio e carregada à força pra dentro do vestiário, onde é brutalmente espancada e estuprada pelos quatro meliantes, numa sequência bem desagradável. Assim que Brenda fica sabendo do ocorrido, decide mostrar aos punks que a vingança é plena sim, mesmo que “mate a alma e a envenene”. Armada com uma besta, vestida com um macacão de couro, Brenda dá uma de Paul Kersey e começa a caçar um a um noite adentro.

Linda Blair está realmente ótima em RUAS SELVAGENS, num papel que foi originalmente planejado para Cherie Currie (a vocalista do The Runaways). De fato ela parece deslocada em alguns momentos, mas isso não a impede de se jogar na personagem mesmo que seja num filme que provavelmente não merecesse tanto esforço assim em primeiro lugar. Estamos naquele terreno cinematográfico que importa mais a quantidade de sangue e peitos na tela do que uma boa demonstração de dramaturgia… Mas ela e Quigley resolveram atuar, o que deixa a coisa mais interessante.

Quigley, em especial, apresenta uma performance corajosa que surpreende bastante. Não apenas na tal cena do estupro, que é realmente forte pelo seu desempenho corporal expressivo, mas ela e Blair compartilham alguns momentos críveis e ternos. Seu relacionamento e sentimento entre irmãs são bem convincentes e ajuda bastante em fazer com que a gente se importe de forma legítima com elas e seus destinos.

Já o elenco masculino, especialmente os The Scars, parece estar se divertindo com suas performances, já que são mais estereótipos exagerados e ameaçadores de gangues dos anos 80, com seus trajes ridículos e diálogos cafonas. E eles têm que funcionar o suficiente para alimentar a fúria de Brenda em sua jornada de vingança e conseguem isso com muita eficiência. Destaque para o grande John Vernon, fazendo o diretor do colégio (e que havia trabalhado com Linda Blair um ano antes em CORRENTES DO INFERNO).

Gealmente, quando eu vejo um filme desse tipo, eu consigo relevar furos de roteiro, atuações péssimas, efeitos especiais toscos, problemas técnicos de várias espécias… Mas uma coisa que não suporto em um exploitation é que ele seja enfadonho. RUAS SELVAGENS está longe de ser um filme chato, mas é preciso dizer que tem seus momentos que convidam o espectador ao sono, deixam a impressão que as coisas demoram demais pra acontecer. Mas quando acontecem, já esquecemos que o ritmo tava fraco e tudo volta a funcionar muito bem. E Steinmann faz um trabalho sólido por trás das câmeras quando chega a hora de lidar com os “bens” do bom e velho cinema de exploração: o estupro, garotas em chuveiros coletivos, brigas de moças rasgando blusas, Linda Blair de topless numa banheira, de forma totalmente gratuita, refletindo sobre a vida, e o final, a caçada noite adentro com Brenda eliminando seus desafetos.

Tá certo que no caminho ela deve ter parado para gravar algumas fitas dela rindo loucamente, porque no armazém de tecidos onde os bandidos se escondem ela coloca gravadores cuidadosamente em vários pontos do local para enganar os meliantes com o som da risada. Não é curioso pensar em Brenda sentada com seu gravador rindo como uma louca por uns bons minutos para gravar tudo isso? Claro, o filme não mostra essa parte – assim como nunca mostram o Batman aplicando seu delineador antes de botar a máscara. Também não mostra Brenda fazendo seu “penteado de vingança”, que é um permanete que deve ter dado um puta trabalho pra fazer antes de sair à caça…

E aí é só alegria, ver Brenda matando sem dó nem piedade, com flechadas e usando armadilhas de urso (!!!) os estupradores de sua irmã funciona lindamente. Porque, vocês sabem, todos nós sentimos a necessidade ou desejo, bem lá no fundo, de dar um murro na cara de alguém quando somos injustiçados. Mesmo que isso nunca vá acontecer na vida real… Pelo menos no meu caso, afinal, sou pacifista. Mas a vontade de socar a cara de alguém é grande de vez em quando, sobretudo bolson… Ops, melhor deixar pra lá. Enfim, filmes como RUAS SELVAGENS exploram nosso anseio e quando a coisa funciona, é preciso elogiar.

Então temos aqui um sucesso. Quero dizer, eu não diria que RUAS SELVAGENS é realmente um bom filme no sentido tradicional, mas certamente para o tipo de cinema que faz é diversão pura, cumpre o que promete. Há um bocado de nudez gratuita, brigas de garotas, gangues de rua fazendo maldades, imagens de uma Los Angeles oitentista cheia de neons, pessoas com roupas e penteados malucos aparecendo na tela, trilha sonora típica do período e Linda Blair numa jornada de vingança praticada com flechadas e armadilhas para ursos. Elementos que compensam o ritmo desequilibrado e fazem disso aqui um pequeno clássico do cinema B exploitation americano.

HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS (1988)

4e7gz0s

Começando as atividades de 2017 com um dos filmes que me fez apaixonar pelo cinema B de uns caras como Jim Wynorski, Fred Olen Ray, Charles Band e outras figuras dessa mesma laia: HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS, de Fred Olen Ray! Um clássico do cinema exploitation oitentista divertidíssimo, curto e cheio de mulher pelada, filmado em cinco dias com um orçamento abaixo dos 50 mil dólares.

O filme já começa de forma sensacional, com esse aviso:

2

Depois, temos a majestosa Michelle Bauer fazendo um strip tease e, totalmente nua, destroça um sujeito com uma motosserra! Os efeitos gore, se é que podemos chamar assim, são tão ridiculamente baratos que não podem ser levados a sério… Aliás, o filme inteiro não deve ser levado assim.

vlcsnap-2016-12-01-16h10m27s215vlcsnap-2016-12-01-16h10m45s140

Na trama, temos Jack Chandler (Jay Richardson), um detetive obviamente inspirado em Raymond Chandler, com direito a narração de Film Noir, cansado do mundo, sem dinheiro, fodido trabalha na procura de uma moça desaparecida, Samantha (a lindeza Linnea Quigley), nos arredores de Los Angeles.

vp7B9.png

Enquanto ele segue as pistas da moça, a polícia local vem investigando uma bizarra série de assassinatos cujas vítimas são feitas picadinho por motosserras, como é mostrado na cena de abertura… Entre uma investigação e outra, Jack encontra um paralelo entre os assassinatos com a sua garota desaparecida, o que o leva a Mercedes, a prostituta interpretada por Bauer. Jack arranja um encontro com Mercedes num bar de strip tease e ao mesmo tempo em que investe na prostituta ele vê Samantha girando no palco. Pouco depois desta revelação Jack cai inconsciente por causa de uma droga que Mercedes colocou em sua bebida.

vlcsnap-1293401-1.png

Jack desperta para encontrar-se numa situação bem bizarra, amarrado e na presença de Mercedes, Samantha e um terceiro sujeito chamado de “The Master” numa espécie de seita misteriosa. E o filme vai ficando cada vez melhor. “The Master” (que é encarnado pelo próprio Leatherface do original O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, Gunnar Hansen) explica um bocado sobre a as propriedades sagradas da motosserra. WTF!!!

kexd6

O lance é que Samantha foi parar nesse culto da motosserra formado por prostitutas e stripers. O tal Mestre explica que a motosserra é a ligação cósmica que une todas as coisas no universo, num culto secreto que se originou há muito tempo no antigo Egito… Naturalmente! haha! Prestes a ser sacrificado e virar picadinho, Jack consegue escapar quando uma das serras fica sem gasolina e foge com Samantha.

De volta a seu escritório, os dois arranjam tempo para um pequeno romance, que serve também para preencher o tempo do filme, que já é breve demais. Logo, Samantha e Jack descobrem a localização secreta do templo cerimonial do culto de motosserra (ajuda muito que haja um cartaz de papelão apontando o caminho) e antes que você perceba, terá testemunhado um duelo de motosserras e o espetáculo cultural que é A Dança Virgem das Serras Elétricas Duplas!!!

0s26dwxlinnea-quigley-hollywood-chainsaw-hookers-2_1

Dá pra perceber que o diretor e roteirista Fred Olen Ray não tem absolutamente nenhuma pretensão com HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS, a não ser nos divertir com essa historinha besta, uma boa dose de humor pastelão e de um elenco feminino lascivo que não tem receio de mostrar alguns pares de peitos, que é o grande e verdadeiro atrativo do filme. Os fãs das rainhas do VHS, como Michelle Bauer e Linnea Quigley, vão desfrutar bastante disso aqui. Principalmente quando estão com pouca roupa empunhando motosserras… Um fetiche estranho, mas que o filme entrega com perfeição.