Notas sobre filmes recentes

A partir de anotações do meu Letterboxd.

MICKEY 17 (2025, Bong Joon Ho)

A premissa de MICKEY 17 me chamou a atenção de imediato, desde que saíram as primeiras notícias, trailer, etc… Um operário descartável, o tal Mickey 17, em uma missão de colonização espacial, condenado a morrer repetidas vezes e ser substituído por clones que preservam todas as suas memórias. É um ponto de partida cheio de possibilidades filosóficas e existenciais. Bong Joon Ho, como de costume, usa esse enredo para dar continuidade a algumas reflexões que já vêm atravessando sua filmografia, como desigualdade, exploração, relações de poder, de maneira bastante evidente. O que pesa mais pra mim é a execução, que nem sempre encontra o mesmo nível de frescor ou impacto de seus melhores trabalhos.

Pra falar a verdade, achei bem chatinho, sobretudo quando perde algumas boas oportunidades. Por exemplo, quando surge em cena o Mickey 18 e a narrativa flerta com a ideia de tensão e dualidade entre essas duas versões do mesmo ser. Só que esse conflito, que poderia ser o coração do longa, é tratado de maneira superficial, sem mergulhar de fato no que significa coexistir com a própria cópia, com a própria consciência duplicada. O filme não se interessa muito em desenvolver isso, o que é uma pena. Ainda assim, o resultado não deixa de ter seus momentos. O projeto é visualmente instigante, tem passagens divertidas e uma atmosfera curiosa, mas é Robert Pattinson quem realmente sustenta a experiência. Seu trabalho no papel duplo é o que injeta vida e carisma na trama, evitando que ela se perca de vez na própria repetição. Mas o filme fica nesse meio-termo, uma boa premissa, uma execução irregular, mas uma atuação central que vale a visita.

IN THE LOST LANDS (2025, Paul W.S. Anderson)

O filme carrega um pouco de uma vibe “Albert Pyun com orçamento”, o que por si só já desperta certa curiosidade. Ao mesmo tempo, há uma sensação de um certo desespero em colocar muitos elementos na mesma panela: temos pós-apocalipse, monstros, western, bruxaria, crítica religiosa… tudo misturado em uma salada de referências que, no fim, não consegue ser realmente satisfatória em nenhuma dessas frentes. O visual estilizado e hiper artificial até funciona em alguns momentos. Dá pra perceber o cuidado de Paul W.S. Anderson em manter-se fiel à sua própria lógica estética, aquele exagero que sempre marcou sua carreira. Algumas sequências de ação, inclusive, são criativas e mostram flashes do diretor que sabe brincar bem com ritmo, espaços e cenários, como fez nos seus melhores filmes, como RESIDENT EVIL 5: RETRIBUIÇÃO. O problema é que, desta vez, ele resolve insistir em focar no contar uma história. E é justamente aí que desmorona.

Anderson sempre é mais eficiente quando deixa o enredo em segundo plano, preferindo mergulhar em adaptações livres de videogames (no caso de IN THE LOST LANDS é baseado num livro de George R. R. Martin) e explorar seu senso de espacialidade aliado à ação pura. Era nesse território que conseguia se destacar, ainda que de maneira irregular. Aqui, no entanto, a narrativa ocupa o centro das atenções… E a história que ele quer contar simplesmente não tem força para sustentar o espetáculo. O resultado é um filme que tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo, mas que acaba não sendo memorável em nenhuma delas.

HAVOC (2025, Gareth Evans)

A abertura de HAVOC já deixa uma impressão muito errada: uma perseguição entre carros e caminhão feita praticamente toda em CGI, que até funcionaria bem como missão num GTA, mas que para um filme dessa estirpe soa artificial e esvazia o impacto logo de cara. Confesso que demorei a voltar pro filme de verdade depois disso, principalmente porque o roteiro despeja uma quantidade absurda de personagens, dificultando criar qualquer vínculo. No começo, a experiência acaba sendo mais cansativa do que envolvente. Ainda assim, havia algum interesse em acompanhar Tom Hardy mergulhando nesse inferno urbano de corrupção, violência e máfia. O ator segura a marra e traz intensidade mesmo quando o filme parece se perder no meio de tanta subtrama.

Só que é lá pela metade, com a sequência da pancadaria na boate, que HAVOC finalmente lembra quem é seu diretor. É nesse momento que Gareth Evans, o mesmo de THE RAID e MERANTAU, entrega a brutalidade que o consagrou: lutas insanas, coreografadas com precisão e um senso de impacto físico raro no cinema de ação atual. Do meio em diante, dá pra assistir com bem mais boa vontade. O problema é que o roteiro insiste em floreios desnecessários, cheio de personagens descartáveis e complicações que só enfraquecem uma trama que poderia ser muito mais direta. O que realmente funciona está na fisicalidade pura, na câmera que não desvia do choque dos corpos e na violência estilizada, e era nesse terreno que Evans deveria ter cravado o pé.

Mas, claro, estamos falando de uma produção pré-formatada da Netflix, onde até diretores de peso precisam se ajustar às amarras de um produto pensado para consumo rápido. Sem contar que o filme teve vários problemas de produção, que por si só precisaria de um post pra relatar, mas podem ir atrás se quiserem saber mais, que a coisa aqui foi complicada. Acaba que HAVOC não chega a ser um desastre, mas também não está à altura do que Evans já mostrou ser capaz de fazer.

A WORKING MAN (2025, David Ayer)

Jason Statham faz em A WORKING MAN aquilo que já virou sua marca registrada: distribuir sopapos com a eficiência de quem nasceu para esse tipo de papel. E, ao lado de David Ayer, ele encontrou um parceiro que entende exatamente essa necessidade. Assim como em THE BEEKEEPER, do ano passado, o resultado é um filme de ação genérico, previsível e conduzido no piloto automático, mas que entrega o básico com competência. A diferença é que, enquanto THE BEEKEEPER me pareceu mais redondo, neste aqui algumas escolhas soam mais pobres. Certas situações e diálogos beiram o constrangedor, e não surpreende descobrir que o roteiro foi escrito em parceria com Sylvester Stallone, que há tempos já não tem o mesmo faro narrativo de outrora. A trama é daquelas que você sente que já viu mil vezes, sem surpresas ou grandes viradas, o que não é necessariamente um problema se o resultado final fosse mais divertido. E infelizmente não é.

SINNERS (2025, Ryan Coogler)

Este aqui foi a grande decepção do ano pra mim, até o momento. E sim, eu sei que eu sou minoria, mas todo mundo elogiou e o hype foi lá em cima. Mas definitivamente não consegui entrar na onda. Até começa bem, dando a entender que viria algo interessante, mas logo se perde nas piores escolhas narrativas, levando a história pra um caminho que não me diz nada, introduzindo personagens demais, situações soltas que vão se acumulando e não levam a lugar nenhum, e demora uma eternidade pra finalmente algo acontecer. E quando acontece, tirando uma cena ou outra, achei bem meia boca. E nesse ponto, percebi que já não tava me importando com nada nem ninguém da história. E em vez de torcer pelos personagens, a sensação era de querer que tudo acabasse logo.

Com tanta enrolação e tão pouco desenvolvimento, o suspense se perde, a tensão é quase nula, a ação é limitada e o impacto desaparece completamente. O pano de fundo tem uma reflexão nobre sobre questões raciais, que acho relevante, mas não posso passar pano pra algo que não gosto apenas pelas suas boas intenções temáticas. Uma condecendência que os cinéfilos atuais parecem não conseguir evitar… O lance com a música é bacana, e aquele plano sequência em que o passado, presente e o futuro se fundem, é a melhor coisa de SINNERS. Mas é muito pouco.

SUPERMAN (2025, James Gunn)

Vamos lá, mais um filme que não gostei. Só não digo que foi uma decepção porque eu realmente não pensei que fosse ser bom mesmo. Acho que James Gunn tentou, mas não deu muito certo. O novo SUPERMAN parece mais um rascunho de um bom filme do que uma obra finalizada. A sensação é de que havia ali uma ideia promissora, mas ninguém se preocupou em revisar, lapidar, pensar melhor nas escolhas narrativas e o resultado é aquela impressão de que foi tudo jogado na tela, “ah, vai assim mesmo”. Muita gente tem saído satisfeita só por ver o herói de volta aos cinemas em uma versão que se esforça em ser mais leve. Fico feliz por quem gostou. Mas, no fundo, esse “gostável” também denuncia uma questão que me incomoda muito no cinema atual. Virou o padrão de Hollywood filmes que entregam o básico para agradar, sem arriscar de verdade ou construir algo memorável. Pelo menos essa é a minha impressão…

Mas, no meio disso tudo, quem realmente conquista é Krypto, o supercão. Ele aparece quase como um respiro, roubando a cena sempre que entra em quadro. Não à toa, saí com a sensação de que preferiria ver um longa só dele, provavelmente seria mais divertido.

THE FANTASTIC FOUR: FIRST STEPS (2025, Matt Shakman)

Mais um filme de herói. Esse melhorzinho… Mas é aquilo, o filme acaba, os créditos sobem e logo bate aquela constatação incômoda de algo totalmente descartável. Você assiste, consome, joga fora, e no dia seguinte já mal lembra de nada. Não deixa marca, não gera conversa, não gruda na memória. Sendo justo, enquanto está acontecendo na tela até dá pra se deixar levar. O visual retrô-futurista tem um charme especial e realmente encanta, trazendo uma identidade que ajuda a diferenciar um pouco do mar de produções genéricas da Marvel. Algumas sequências de aventura são bem construídas e, mesmo dentro da previsibilidade, conseguem divertir. Os personagens, pelo menos, têm um certo carisma, dá pra se preocupar com eles em alguns momentos, o que já é mais do que muita produção recente conseguiu entregar.

Só acho que não é nada de extraordinário, não é o evento que vai resgatar a Marvel do buraco criativo em que se enfiou. É, no máximo, um entretenimento simpático de Sessão da Tarde, que cumpre sua função na hora, mas que dificilmente vai ser lembrado como a grande salvação do estúdio.

SMILE 2 (2024, Parker Finn)

Falando agora de horror. SMILE 2 consegue elevar a proposta do primeiro filme a um novo patamar. Se antes o conceito da maldição já funcionava bem como premissa de horror psicológico, aqui Parker Finn expande a ideia de forma mais ousada, explorando não só o medo em si, mas também o que ele representa dentro de um contexto maior. Daí que um dos pontos mais interessantes é a decisão de levar a maldição para o universo de uma cantora pop, alguém constantemente sob os holofotes, mas carregando traumas e inseguranças pessoais. Essa escolha transforma a narrativa em algo que dialoga com o culto da celebridade e o peso sufocante de ser uma estrela em um mundo que exige perfeição e… Sorrisos. O horror, portanto, não está apenas nos sustos ou na entidade maligna, mas também na pressão de viver em função da imagem, da performance e da expectativa alheia.

Vale destacar ótima atuação de Naomi Scott, que consegue equilibrar vulnerabilidade e força de maneira convincente, conduzindo o espectador por essa espiral de terror íntimo e coletivo. O maior mérito, no entanto, tá na direção de Finn. Enquanto no primeiro SMILE ele ainda parecia preso a certos clichês do gênero, aqui mostra evolução, apostando em escolhas visuais mais ousadas pra construir momentos de tensão. Há estilo, personalidade, e isso faz toda diferença.

FINAL DESTINATION BLOODLINES (2025, Zach Lipovsky e Adam B. Stein)

Consegue ser uma variação divertida dentro do conceito que a franquia já estabeleceu há mais de duas décadas. A trama é direta ao ponto, sem enrolação, a duração curta ajuda bastante e, claro, as mortes continuam sendo o grande chamariz, inventivas, engraçadas e com aquele toque macabro que sempre garantiu a identidade da série. De quebra, ainda temos uma bela homenagem, talvez até uma despedida digna, a Tony Todd, um verdadeiro ícone do horror que marca presença em seus últimos momentos de tela. Só isso já acrescenta bastante peso emocional ao filme.

É claro que não está livre de problemas. O elenco, de maneira geral, não chega a impressionar, e a protagonista em especial é bem fraca. O personagem do tatuador, pelo menos, rende boas risadas. O filme não tenta reinventar nada, e nem precisa. Ele joga seguro, entrega exatamente o que os fãs da franquia esperam e aproveita o carinho que o público do gênero ainda tem por essa fórmula de horror e tragédia cômica. Pode não ser memorável, mas cumpre sua função: divertir e lembrar por que PREMONIÇÃO continua sendo uma das sagas mais queridas do horror pop.

MISSION IMPOSSIBLE – THE FINAL RECKONING (2025, Christopher McQuarrie)

Algumas coisas boas inevitavelmente chegam ao fim, e às vezes com uma certa melancolia. Eu lembro bem do Ronald de 12 anos, lá em 96 ou 97, completamente hipnotizado pelo primeiro MISSÃO: IMPOSSÍVEL. O filme juntava duas paixões que já me fascinavam: ação e Brian De Palma (sim, eu já sabia quem era o homem naquela idade). De lá pra cá, acompanhei cada novo capítulo com a mesma empolgação e continuo achando que essa é uma das melhores franquias de ação das últimas décadas. Agora, em 2025, chega provavelmente o último, e é estranho pensar em se despedir de algo que sempre esteve por perto.

E aqui surgem dois motivos pra melancolia. O primeiro é perceber que THE FINAL RECKONING representa também o fim de um certo tipo de blockbuster que Hollywood já não sabe mais fazer, salvo raras exceções. O segundo é notar que essa própria despedida não chega a ser grandiosa: embora termine com estilo e dignidade, o filme está distante dos melhores momentos da franquia. É um mastodonte de quase três horas, cheio de excessos, quando poderia ser algo mais enxuto e sublime.

Mas que fique claro, THE FINAL RECKONING está longe de ser ruim. Pelo contrário, se comparado ao que o cinema de ação americano tem produzido recentemente, é quase uma joia. No meio de tanta verborragia, de uma trama que se complica sem necessidade e de alguns tropeços de ritmo, o que realmente importa continua lá: as cenas de ação insanas e Tom Cruise. O sujeito é a alma da franquia. Impressiona não apenas por assumir acrobacias absurdas, mas por ter moldado a identidade de MISSÃO: IMPOSSÍVEL. Ele deu a Ethan Hunt uma mistura rara de intensidade física e vulnerabilidade emocional: não é só o herói invencível, é alguém que sofre, hesita, mas mergulha de cabeça (às vezes literalmente) nas situações mais impossíveis. E claro, tem a dedicação física que virou sua marca registrada. Cada novo filme passou a ser esperado não apenas pela trama, mas pela pergunta: “qual será a loucura que o Tom Cruise vai fazer agora?” Escalar o Burj Khalifa, segurar-se num avião decolando, pular de moto de um penhasco… tudo isso virou parte do mito.

Foi assim que ele transformou Missão: Impossível em um cinema de ação de altíssimo nível, capaz de abrigar diretores muito diferentes (De Palma, Woo, Abrams, Bird, McQuarrie) sem perder consistência. Sua obstinação, carisma e entrega física fizeram da série algo único no gênero. E em THE FINAL RECKONING isso continua presente. A sequência do mergulho no submarino, por exemplo, é absurda, uma das melhores de toda a franquia e uma das coisas mais tensas que vi recentemente. Por um momento, parecia um filme do Tony Scott. Sim, como último capítulo de uma série que eu acompanhei de perto, eu esperava algo mais cuidadoso. O clímax, por exemplo, é um espetáculo, mas quase repete o final de FALLOUT. Ainda assim, é um belo filme. Não dá pra exigir muito mais de Hollywood em 2025. O que entregaram já foi suficiente para fechar a franquia com dignidade. E, no meio disso tudo, Tom Cruise prova mais uma vez que é ele quem faz as coisas acontecerem e ainda nos presenteia com algumas das melhores sequências de ação recente. Isso, convenhamos, já é bastante coisa.

EDDINGTON (2025, Ari Aster)

Depois daquela coisa horrorosa chamada BEAU IS AFRAID, Ari Aster parece se reencontrar de alguma forma em EDDINGTON. Não é um filme perfeito, mas pelo menos é divertido de assistir. Há um prazer imediato em acompanhar o que acontece na tela, desde a construção do clima, algumas situações, até o banho de sangue que fecha a trama. Nesse sentido, a experiência de cinema é satisfatória, Aster mostra que ainda sabe orquestrar imagens e provocar reações no público. O problema é quando o filme tenta se levar mais a sério. EDDINGTON toca em temas importantes, ligados a um período histórico recente, mas nunca encontra a nuance necessária para realmente confrontá-los. A impressão é de que havia a intenção de criar um comentário mais profundo, mas isso não se traduz em algo consistente. O resultado é uma obra que, embora envolvente em sua superfície, não sustenta a própria ambição e auto-importância.

Quem ajuda bastante a manter o interesse é Joaquin Phoenix, mais uma vez impecável. Sua atuação é curiosa e dá densidade até às passagens mais arrastadas. Só que nem mesmo ele consegue salvar a sensação de que, no fim, estamos diante de um “grande nada” embalado em duas horas e meia. Os últimos 10 ou 15 minutos, em particular, estão entre as coisas mais desnecessárias do cinema recente, prova de que Aster realmente não sabe a hora de encerrar um filme. Talvez esse seja o maior problema de parte da geração atual de diretores autores, a falta de autocrítica. Existe uma ânsia desmedida de transformar cada ideia em tratados definitivos sobre tudo, como se a ambição artística fosse suficiente para sustentar a obra. EDDINGTON tinha potencial para ser uma obra-prima relevante, capaz de refletir seu tempo de forma contundente. Mas, ao não abraçar de verdade o que é, um western moderno, thriller político/policial com a pandemia e protestos pós-George Floyd como pano de fundo que descamba pra violência, pra um horror intenso, acaba preso na própria grandiloquência. Ainda assim, acho o saldo positivo. É um bom filme, só não entrega a grandeza que insiste em prometer.

F1 (2025, Joseph Kosinski)

As sequências de corrida de F1 são um espetáculo sensorial, com imersão rara, quase hipnótica. Só o design de som já é suficiente pra colocar a gente em transe. Houve momentos em que me arrependi de não ter visto no cinema, porque claramente esse é o tipo de experiência que ganha muito na tela grande. Mas esse arrependimento passa rápido quando penso no resto do filme que envolve essas cenas. Na primeira hora, até dá a impressão de que a coisa vai driblar alguns clichês. O personagem de Brad Pitt funciona bem como fio condutor e segura o interesse. Só que, com suas duas horas e meia, o roteiro não demora a cair na previsibilidade e na mesmice de sempre. A narrativa perde fôlego, convida ao sono… E aí só mesmo as corridas conseguem despertar de novo a atenção.

Ainda assim, é preciso elogiar Joseph Kosinski. Se no drama ele não escapa do lugar-comum, no quesito ação vem mostrando evolução. Ele sabe mexer com a adrenalina do público, e é nisso que F1 encontra sua força. Um filme decente, que entrega bons momentos. Mas nunca, jamais, será um DIAS DE TROVÃO.

BALLERINA (2025, Len Wiseman)

Esse me surpreendeu. Confesso que estava com o pé atrás e enrolei bastante pra assistir. Com tantos atrasos no lançamento e a notícia de refilmagens comandadas por Chad Stahelski (diretor dos JOHN WICK), achei que seria só mais uma decepção. Mas, no fim, não foi. A trama pode soar genérica, e definitivamente não carrega o peso filosófico dos filmes da série principal. Ainda assim, há pontos interessantes. Ana de Armas tem uma presença física marcante, mesmo que o roteiro não lhe ofereça grandes oportunidades de aprofundar a personagem. Como a narrativa é mais direta, praticamente costurando um set piece de ação ao outro dentro de uma história simples de vingança, ela acaba funcionando como uma versão feminina do Wick: não tão complexa, mas igualmente sombria, atormentada e com um toque de fragilidade que cai muito bem.

E falando em ação, que é o que realmente importa aqui, algumas sequências estão no mesmo nível da franquia principal, o que já é muita coisa, considerando que JOHN WICK é uma das melhores séries de ação do século. Por aqui a ação é farta e de qualidade. Destaco a cena explosiva na loja de armas, o embate no restaurante do vilarejo (com direito a Ana enfrentando Daniel Bernhardt) e, claro, o insano duelo com o lança-chamas no clímax, que consegue ser tão absurdo quanto visualmente belo. Deus abençoe Stahelski por ter consertado as cagadas deixadas por Len Wiseman. Mas fica a dica, Chad, da próxima vez, entrega o projeto pra um cineasta de verdade e poupa o trabalho de refilmar tudo. Sugestões não faltam: Gareth Evans, Timo Tjahjanto, Kensuke Sonomura, Veronica Ngô…

Quanto ao Keanu Reeves e à participação do próprio John Wick, honestamente, não acho que fosse necessária. Mas já que está lá, acaba elevando alguns momentos a outro patamar.

Pra uma produção que enfrentou tantos problemas nos bastidores, BALLERINA é bem sólido e bem acima do esperado.

THE SHROUDS (2024, David Cronenberg)

“Her body was… The world. The meaning and the purpose of the world”

O que ainda me atrai no cinema de Cronenberg é esse universo tão particular que parece inesgotável. São mais de 50 anos trabalhando os mesmos temas – corpo, tecnologia, paranoia, desejo – e, mesmo assim, a cada novo filme ele encontra formas de se renovar. Aqui, ele transforma o luto em espetáculo tecnológico. Vincent Cassel vive Karsh, um empresário que cria a GraveTech, um sistema que permite às famílias monitorarem a decomposição dos corpos de seus entes queridos dentro dos túmulos. Quando um desses cemitérios é violado, Karsh mergulha em uma investigação paranoica que logo esbarra em conspirações. É o terreno perfeito para Cronenberg levar sua obsessão pelo corpo a outro nível.

Dá pra reclamar que o filme se entrega demais a explicações, diluindo parte do mistério e da ambiguidade, elementos que sempre fizeram parte do charme da sua filmografia. Mas, honestamente, estamos falando de um diretor com mais de 80 anos, em fim de carreira, que não precisa provar mais nada pra ninguém. Então ele já começa a abrir as pernas pro Saïd Ben Saïd pra poder continuar tendo financiamento. Não é o melhor dos mundos, mas é o que tem pra hoje. E ainda assim, não deixa de ser hipnotizante de alguma forma, o modo que Cronenberg conduz as coisas sempre me fascina.

INFILTRADO (2021)

Existem dois diretores Guy Ritchie na minha opinião, aquele que surgiu lá nos anos 90 como uma imitação britânica de Quentin Tarantino, fazendo crime movies envolvendo o univero da máfia e o submundo das gangues na Inglaterra, e temos aquele que pro final dos anos 2000 começou a fazer super produções sob a batuta de grandes estúdios. Não acho nenhum dos dois grandes diretores, mas o “primeiro” Guy Ritchie pelo menos me agrada, faz um trabalho bacana, rendendo uns filminhos divertidos como SNATCH, PORCOS E DIAMANTES, REVOLVER e, mesmo tendo Tarantino como influência óbvia, era autoral. Enquanto o “segundo” Guy Ritchie só entregou produtos genéricos e/ou medíocres como a franquia SHERLOCK HOLMES e REI ARTHUR (o seu ALLADIN eu não quis nem arriscar). A exceção talvez seja THE MAN FROM U.N.C.L.E., que é legalzinho.

INFILTRADO (Wrath of Man) é o novo trabalho do homem. Do, ainda bem, “primeiro” Guy Ritchie. O que não quer dizer que temos um filme genial ou algo parecido. Mas é um thriller de ação decente, pra sentar no sofá com os pés pra cima, tomando aquela coca-cola gelada enquanto assiste de boas… Trata-se do remake de um filme francês de 2004 chamado LE CONVOYEUR, que menciono só pela informação. Não vi, então nem me proponho a fazer comparações.

Aqui temos Jason Statham interpretando H, um homem que é contratado para dirigir carros-fortes cheios de dinheiro que estão constantemente sendo roubados. Ele posui um background violento que vai sendo revelado aos poucos no decorrer de uma narrativa cuja estrutura é toda costurada, cheio de flashbacks e personagens secundários, como é característico do diretor, mas para todos os efeitos é um filme mais centrado numa trama de vingança protagonizada pelo personagem de Statham. É também uma obra mais sombria e moralmente ambígua na maior parte do tempo, deixa de lado o humor peculiar pelo qual os filmes de Ritchie também são geralmente conhecidos.

A medida que INFILTRADO avança, a coisa vai ficando mais interessante, com algumas boas sequências de ação e um clima tenso que se constrói no último ato, uma sequência de assalto à central dos carros-fortes. Embora tenha um bocado de gordura que poderia ser eliminada e não acrescente nada ao gênero, é um filme sólido e que conseguiu ao menos me prender. Gosto do Statham, ainda que fazendo mais do mesmo por aqui, o elenco ainda tem Josh Hartnett, Holt McCallany, uma pequena participação de Andy Garcia e vários rostos reconhecíveis. O destaque vai para o filho do Clint, Scott Eastwood, que já provou que nunca vai chegar aos pés do pai, mas que em determinados tipos de papéis pode funcionar muito bem, como é o caso aqui.

Enfim, INFILTRADO tá longe de ser o meu favorito do diretor, mas fico feliz que aos poucos Guy Ritchie tem priorizado ser aquele “primeiro” diretor que mencionei lá em cima, fazendo esses filmes menores de ação e crime… Inclusive, seu trabalho anterior, THE GENTLEMEN, não é nada especial, mas também não foi nada mal. Claro que o primeiro estúdio que balançar uns milhões de dólares na sua frente o sujeito não vai resistir de fazer uma super produção, mas espero que não deixe de continuar voltando às origens de vez em quando.

Agora fiquei com vontade de conferir o filme original…

Infelizmente, não faço ideia se INFILTRADO já tá diponível em algum streaming por aqui…

O DESTINO DOS FURIOSOS

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Trailer do próximo FAST AND FURIOUS, que vai se chamar THE FATE OF THE FURIOUS. Vejam bem, eu não era muito fã dessa bagaça até ver o quinto episódio. Aquele em que os caras arrastam um cofre pelas ruas do Rio de Janeiro e que a ponte Rio-Niterói ganha um milhão de quilômetros a mais que seu tamanho real. Desde então a série ganhou uma proporção épica em termos de ação exagerada brucutu que de alguma forma me fascina. Na verdade foi o quarto filme que começou a transformar a franquia numa espécie de obra overdose expressionista do excesso, do exagero, do surreal na ação… Preciso escrever algo a respeito.

Só sei que posso dizer honestamente que curto as aventuras de Toretto e sua turminha. Até os primeiros filmes acabaram ganhando minha simpatia numa revisão. Enfim, o trailer deste oitavo capítulo tá espetacular e já aguardo ansiosamente. Se liga nessa:

EM NOME DO REI (In the Name of the King: A Dungeon Siege Tale, 2007)

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Resolvi fazer uma revisão de EM NOME DO REI antes de conferir a continuação, lançada recentemente lá fora no mercado de DVD, estrelado por um dos action heroes favoritos do blog, Dolph Lundgren. Mas mantenham a ansiedade por mais alguns dias, em breve faço o post de EM NOME DO REI 2, que aparentemente não possui qualquer ligação com este aqui. Por enquanto, fiquemos com o filme de 2007 que se revelou uma bela surpresa! Na minha cabeça, era uma tralha ruim de doer, mas divertido à beça pelos motivos errados. Na verdade, continua sendo isso mesmo, mas as suas virtudes se destacaram com mais ênfase dessa vez.

Ok, falar em virtudes num filme do Uwe Boll talvez seja um exagero, mas eu gosto de EM NOME DO REI! A história é simples, os diálogos são de rachar o bico de tão ridículos, tem muita ação, um elenco impressionante de rostos famosos fazendo cara de “que roubada que eu me meti!” e, claro, a direção do alemão maluco, pretensiosa até o talo, achando que está filmando um episódio da série O SENHOR DOS ANÉIS! Porra, Boll, coloque-se no seu lugar! Isso aqui é muito MELHOR que o O SENHOR DOS ANÉIS!!!

In The Name Of The King (2007)

Baseado em um jogo de video game, pra variar, a trama é uma típica aventura de fantasia comum, sem nenhuma complexidade, com um Rei precisando defender seu reino de uma mago maléfico e seu exército de Krogs, criaturas semelhantes aos Orcs, abalando a vida de um simples fazendeiro, que entra na situação para se tornar herói, mudar o seu destino e se descobrir como alguém muito mais importante do que esperava. Relevando a desnecessária longa duração, o negócio é meio que desligar o cérebro e embarcar neste universo criado pelo Boll e, naturalmente, observar os sub-astros de Hollywood pagando mico…

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Começando pelo protagonista, vivido pelo Jason Statham, que na verdade até que se sai bem como herói de ação, com aquela mesma expressão facial de todos os seus filmes. Ainda assim, acho o Statham um bom herdeiro das truculentas figuras de ação dos anos 80 e 90. Falta-lhe um pouco de carisma de vez em quando, mas gosto do trabalho dele em algumas coisas. Prosseguindo ainda com a lista de atores que o Boll, milagrosamente, conseguiu reunir aqui, temos Ron Perlman, Leelee Sobieski, John Rhys-Davies, Claire Forlani, Matthew Lillard, e as cerejas do bolo: Burt Reynolds, encarnando o Rei, e Ray Liotta, vivendo o mago malvado que deseja o trono.

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Estes dois últimos merecem um parágrafo à parte. Quando Reynolds surge em cena, vemos um ator deixar claro o quão empolgado ele está por fazer parte do filme. O sujeito mal se mexe na cadeira e cospe as falas com um desânimo subversivo… é de dar pena! A maior parte do tempo, Reynolds fica sentado ou deitado, mas até que participa um pouco de umas sequências de batalha. Aliás, sua participação é até maior do que eu esperava, especialmente depois da primeira aparição, com o olhar de arrependimento, mas louco pra receber o cheque logo e voltar pra casa. Mas a canastrice rola solta mesmo é com Ray Liotta! O sujeito está engraçadíssimo e muito à vontade! Diferente de Reynolds, percebe-se que Liotta se diverte com seu personagem, soltando aquelas gargalhadas que só ele faz… não tem como não se divertir com ele.

In The Name Of The King (2007)

Eu só não consigo entender de onde tiraram que o Uwe Boll é, ou foi, o pior diretor do mundo! Tá certo que fez ALONE IN THE DARK e HOUSE OF THE DEAD, mas pera lá! O cara também fez BLOODRAYNE, TUNNEL RATS, POSTAL e outros, que não são obras primas, mas demonstram um diretor com colhões e que sabe o que faz. Existem vários diretorezinhos de estúdios americanos que não chegam aos pés do Boll. São tão sem personalidade que nem são lembrados na hora de apontar o pior diretor da atualidade.

As sequências de guerra e confronto corpo a corpo de EM NOME DO REI, por exemplo, não fazem feio diante das realizadas pelos grandes estúdios. São bem elaboradas e executadas, embora não tenha muito sangue. Mas é realizado à moda antiga e sem frescuras, quase não se vê CGI sendo desperdiçado… No meio da batalha na floresta, há um longo travelling que mostra a extensão da batalha, com vários figurantes e muita noção de espaço e arquitetura de ação. Perto de algumas coisas que vi no cinema nos últimos anos, isso aqui é uma aula de direção.

Vamos ver agora como o Dolph Lundgren se sai sob a direção do Boll. Se for tão divertido quanto este aqui, já fico muito satisfeito.