ALDRICH – FINAL: 1977 – 1981

O ÚLTIMO BRILHO DO CREPÚSCULO (Twilight’s Last Gleaming, 1977)
O próprio Aldrich considerava isso aqui um de seus trabalhos favoritos, apesar do fracasso comercial, provavelmente porque o sujeito não media esforços para refletir todo o desencanto que assombrava a sociedade americana, com um climão político extremamente pessimista. O filme se passa ao longo de um dia, quando um general idealista (Burt Lancaster) assume o controle de uma base de mísseis nucleares e chantageia o presidente dos EUA, interpretado por um fenomenal Charles Durning, para revelar ao povo americano as mentiras do governo sobre o envolvimento dos EUA no Vietnã. O que se segue são 146 minutos de uma aula de tensão implacável do início ao fim, com um domínio preciso de Aldrich, fazendo um uso excepcional de split-screen, e com um elenco afiado que inclui Richard Widmark, Paul Winfield, Burt Young, Melvyn Douglas, Joseph Cotten e uma participação pequena, mas intensa, do grande William Smith.

THE CHOIRBOYS (1977)
É meio que o M.A.S.H. do Aldrich, com estrutura de esquetes e sem uma trama tão definida, só que acompanhando policiais no seu trabalho diário em situações, digamos, cômicas, e por isso talvez um precursor dos LOUCADEMIA DE POLÍCIA. Só não digo que é o pai desses filmes, porque tá mais pro tio reacionário do churrasco… Mas é um filme que era ofensivo num período que o público entendia a ironia da coisa, da sátira e da crítica da sociedade que o filme faz. A sorte é que hoje continua sendo um trabalho pouco visto e conhecido do Aldrich, se fosse descoberto por um certo público cinéfilo de redes sociais, formado quase predominantemente por jegues, seria taxado de um monte de coisa (um filme homofóbico, misógino, racista, etc). Pelo gênero em si, nem acho o filme exatamente engraçado, ele é mais curioso, gera um certo fascínio pelo absurdo e pelas viradas mais trágicas que acontecem lá pro final. Mas é um filmaço.

O RABINO E O PISTOLEIRO (The Frisco Kid, 1979)
O penúltimo filme de Aldrich é um buddy movie de comédia e faroeste com boa química entre Gene Wilder e Harrison Ford e um ou outro momento engraçado. O rabino Avram (Wilder) chega à Filadélfia vindo da Polônia a caminho de São Francisco, onde será o novo rabino de uma congregação. Inocente e inexperiente, é enganado por golpistas. É acolhido por um estranho, Tommy (Ford), que é um ladrão de bancos, e acabam tendo muitas aventuras durante a jornada. Pela trama até poderia render algo melhor, mas o filme não ajuda muito… Longo, enfadonho, a maioria das piadas e situações não tem lá muita graça. Só não vou dizer que o Aldrich tava cansado em final de carreira porque ele ainda lançou um petardo daqueles como canto de cisne, que é o GAROTAS DURAS NA QUEDA aí embaixo. Por aqui, não sei realmente dizer o que aconteceu, mas o resultado tá bem abaixo do esperado…

GAROTAS DURAS NA QUEDA (…All the Marbles, 1981)
Um dos meus favoritos do diretor, um de seus trabalhos mais bonitos. Road movie que acompanha Peter Falk como Harry, o empresário de uma dupla de atletas de “luta livre”, Iris (Vicki Frederick) e Molly (Laurene Landon), enquanto viajam pelos Estados Unidos tentando ganhar a vida. Uma dureza danada, um universo de violência, amoral, sujo e de chantagens, mas que Aldrich consegue extrair uma ternura absurda, uma riqueza de espírito que jorra da tela. O papel de Harry foi originalmente escrito para Paul Newman, mas acho que o sujeito não teria se adequado tão bem quanto Falk, cujo ar de desleixo e presença física o torna perfeito. Como muitos dos personagens mais interessantes de Falk, Harry é moralmente nebuloso e nem sempre encontra o equilíbrio entre ajudar sua equipe e explorá-la. Mas apesar de suas ocasionais falhas éticas, o coração de Harry está no lugar certo, e ele e Iris e Molly compartilham um dos relacionamentos mais bonitos que já vi. Alguns dos melhores momentos ocorrem no carro velho e precário de Harry, enquanto os três planejam o que vão comer, quanto cigarro ainda falta, possíveis jogadas de marketing, truques, e sonham por uma vida melhor que não seja uma extensão do ringue, onde levam cacetadas o tempo todo… Foi o último filme de Aldrich (ele já tava planejando uma continuação deste aqui). Deu tempo de deixar mais uma obra-prima.

Fim da maratona.

ALDRICH – PARTE 5: 1971– 1975

Provavelmente a minha fase favorita da filmografia do homem.

RESGATE DE UMA VIDA (The Grissom Gang, 1971)
A “síndrome de Estocolmo”, sob a ótica nada sutil de Aldrich. Uma moça rica é sequestrada e mantida como refém. Ao longo do tempo (provavelmente um par de anos), ela se apaixona pelo seu algoz, um sujeito doente vivido pelo Scott Wilson. Foi um fracasso na época do seu lançamento comercial e pelo que pude perceber é bem achincalhado até hoje mesmo pelos admiradores do Aldrich. Tem seus defensores ferrenhos, e agora finalmente posso me juntar a eles. Não que se trate de uma obra-prima, mas é o tipo de coisa que eu adoro, ainda mais que o filme tem aquele aspecto de filme de gangster vagabundo do Roger Corman dos anos 70. Mas é desses filmes que precisa de um pouco mais atenção pra aproveitar suas riquezas. Ele até aparenta tentar pegar uma carona no sucesso de um BONNIE & CLYDE, de Arthur Penn, e de certa forma o faz, mas também te leva a alguns lugares interessantes nessa trama simples de sequestro durante a lei seca nos EUA, que se desdobra pra um estudo de psicopatia muito interessante – e Scott Wilson tem um bom papel nisso. Há bastante força nessas imagens, nas performances e em como Aldrich trabalha esse tipo de material. O trecho final revela um aspecto mais sentimental do cinema do diretor. Transmite um belo espírito libertário na qual as instituições personificadas pelo pai da garota (enojado com a filha agora ‘impura’) não valem mais que os próprios sequestradores, a família Grissom, que ao menos têm o mérito de mostrar sua monstruosidade à luz do dia, embora paradoxalmente tenham representado a única unidade familiar relativamente coesa do filme.

A VINGANÇA DE ULZANA (Ulzana’s Raid, 1972)
Esse ainda me faltava assistir e, caramba, que petardo! Um dos melhores faroestes revisionistas dos anos 70 sem dúvida alguma. A trama é um jogo de gato e rato entre Apaches e a cavalaria americana que se desenrola na paisagem árida do Arizona, mas toda pontuada por episódios de violência gráfica que devem ter feito Sam Peckinpah orgulhoso e claramente uma alegoria mais confrontadora sobre o Vietnã, sobre hipocrisias e atrocidades coloniais. Aldrich tá implacável na representação da violência por aqui. Há uma sequência onde uma mãe e um filho atravessam um terreno hostil com um único guarda como proteção. Os apaches atacam. O guarda executa a mulher com um tiro na testa sem pensar duas vezes e foge, mas acaba tirando a própria vida com uma bala na cabeça quando seu cavalo cai. O clichê “é melhor morrer do que cair nas mãos dos índios” é levado às últimas consequências de forma explícita. E o sangue jorra como nunca. “É assim que eles são”, diz o aliado Apache da cavalaria sobre a violência de sua tribo. No entanto, o filme não faz muitas concessões ao atribuir a barbárie em nenhum dos lados, nem encontra espaço para heroísmo. É um filme sobre a estupidez humana e a inevitabilidade sinuosa da morte.

Foi a terceira parceria entre Aldrich e Burt Lancaster, que tá excepcional aqui, como não poderia ser diferente.

O IMPERADOR DO NORTE (Emperor of the North, 1973)
“You ain’t stoppin’ at this hotel, kid. My hotel! The stars at night – I put ‘em there. And I know the presidents – all of ‘em. And I go where I damn well please. Even the chairman of the New York Central can’t do it better. My road, kid, and I don’t give lessons and I don’t take partners. Your ass don’t ride this train!” (Number One)

A filmografia do Aldrich nos anos setenta é uma coisa impressionante e este filme aqui é um dos melhores. Provavelmente o filme do diretor que mais vezes assisti na vida (sim, mais até que OS DOZE CONDENADOS). E tem uma das tramas mais cascas-grossas do período: durante a época da depressão, Lee Marvin interpreta Number One, o mais famoso vagabundo caronista clandestino de trens do país; do outro lado temos Ernest Borgnine, o mais sádico e durão condutor que já existiu e que não hesita em colocar pra fora qualquer um que queira viajar sem comprar um ticket, seja na base da martelada na cabeça, no uso de correntes e os mais diversos recursos que vem a calhar, mesmo que o pobre coitado caia nos trilhos e termine partido ao meio. O confronto entre esses dois obviamente será inevitável. E quando finalmente ocorre, é como duas nuvens carregadas que se chocam, causando estrondos ensurdecedores!

Belo filme, cinematograficamente potente, tem ótima recriação do clima da época, os traços da miséria, os programas de rádio, as roupas velhas e rasgadas, um sentimento que parece saído de um livro de John Steinbeck e Jack London, mas sem perder tempo com estudos sociológicos do período em questão (embora as classes estejam obviamente demarcadas nas duas figuras centrais). O IMPERADOR DO NORTE é um filme solto, mais em clima de aventura do que um recorte fiel e chato da depressão americana, e se desenvolve mais em cima do duelo físico e psicológico desses gigantes do cinema americano. Obra-prima.

GOLPE BAIXO (The Longest Yard, 1974)
Na visão de Aldrich, o sistema e suas hierarquias sociais, militares, judiciárias são tão podres que até os degenerados tornam-se heróis. Foi assim em OS DOZE CONDENADOS e é também por aqui. Burt Reynolds (numa das minhas atuações favoritas do sujeito) é um ex jogador de futebol americano que por conta de algumas travessuras acaba preso. Agora, precisa reunir um time de futebol formado pelos prisioneiros da penitenciária para jogar contra o time dos guardas. Ao mesmo tempo em que sua alma é colocada à prova, ele promete uma chance aos seus companheiros de quebrar uns dentes dos sádicos adversários, na longa sequência do jogo de futebol, que é também das mais belas e divertidas alegorias anti-sistema do período. Mais “aldrichiano” que isso é impossível…

CRIME E PAIXÃO (Hustle, 1975)
Eu sempre achei engraçado que a capa do DVD deste filme mostra um carro explodindo, promete um filme de ação deflagrador e tal. Até que um dia decidi assistir e minha sensação se resumia a: “Que diabos é isso? Onde está o velho Burt em ação? Cadê os tiros? As explosões?” Pois é, o filme não tem nada disso, e achei uma porcaria. Deve ter mais de dez anos atrás que vi pela primeira vez…

Fazendo agora essa retrospectiva de Aldrich estava até ansioso para revisitar CRIME E PAIXÃO com outros olhos, já preparado. E aí, meus amigos, não deu outra: é uma maravilha! Um desses filmes que é difícil explicar sua existência. Me deixou até desnorteado… Porque ele realmente tinha todos os ingredientes para ser mais um filme policial com investigação, perseguições e tiroteios, no estilo de OPERAÇÃO FRANÇA e PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL, e o diretor certo para isso, um dos grandes nomes do gênero ao lado de Don Siegel, Sam Peckinpah e alguns outros da época. Mas aí, Aldrich resolveu simplesmente pegar tudo isso e transformar em um estudo anti-clímax sobre indivíduos emocionalmente feridos, fragmentados, e jogar a narrativa para um campo mais abstrato. Até existe um enredo definido, uma trama a ser seguida, mas meio que tudo que envolve a investigação da morte de uma jovem é cada vez menos importante dentro das intenções de Aldrich; entra algo mais amplo em jogo, o filme meio que se constrói a partir de uma série de eventos ou circunstâncias que têm o efeito de destruir moralmente os personagens.

Eu não sei o que Aldrich estava passando naquele momento (os EUA eu sei que estavam em um estado de espírito caótico, cheio de crises, o desfecho do Vietnã, Watergate, etc.), mas o fato é que o sujeito fez o seu filme mais amargo, com um Burt Reynolds complexo, dividido entre o dever, embora seja um policial amoral com um código de ética que não vale nada, e o seu relacionamento com a prostituta de alta classe de Catherine Deneuve, com todas as implicações psicológicas que um homem pode ter nessa situação. Filme fortíssimo, um tanto cruel e que carrega um estado de melancolia que poucos filmes policiais dos anos 70 possuem.

Próximo post, vem a derradeira parte desta peregrinação pelo cinema de Robert Aldrich.

ALDRICH – PARTE 1: 1953-1955

Ando assistindo neste início de ano aos filmes do diretor Robert Aldrich. E aqui vão uns comentários sobre:

BIG LEAGUER (1953)
Primeiro filme dirigido pelo homem. Não há muita coisa a se destacar, o próprio Aldrich dizia que o material não era pessoal, não indicava muito o que queria expressar no “meio cinematográfico”. Mas também não é de se jogar fora. É um draminha decente de esportes, sobre jovens que participam das peneiras de um time de baseball com o sonho de chegar às grandes ligas; o companheirismo que surge entre os atletas nesse universo competitivo, e etc… Mas as melhores partes acabam sendo a que tem o grande Edward G. Robinson em cena, bem à vontade, como treinador com bom senso de humor, fazendo suas expressões e, num dos momentos mais inspirados, dançando ao som de uma jukebox. E o filme tem pelo menos uma cena que já indicava o talento do Aldrich, a que um dos jovens desiste de ir embora de ônibus e a câmera acompanha – num enquadramento e movimento interessante pra época – as costas da mocinha que havia tentado convencer o rapaz de ficar… Longe de estar no nível dos grandes filmes do diretor, mas como trabalho de estreia até que se sai bem.

PÂNICO EM SINGAPURA (World for Ransom, 1954)
É meio que um rascunho de A MORTE NUM BEIJO (1955) de alguma maneira. Mas pode-se dizer que a carreira de Aldrich, com suas peculiaridades, começa aqui, nessa mistura de film noir com spy movie num território exótico, em Singapura, quando um detetive particular e as autoridades britânicas estão na cola de uma gangue com planos diabólicos, o que inclui sequestrar um físico nuclear… Aldrich já demonstra seu olhar irônico e às vezes desprezível em relação ao seu herói, algo que se tornaria característico do Diretor. Aqui, esse herói é vivido por Dan Duryea, um caso interessante. Em determinado momento o filme faz questão de mostrar como o cara é durão, badass, mas no fim acaba esbofeteado pela mulher que ama, que o iludiu de várias formas e agora o despreza. É de dar pena. Mas nada mais “aldrichiano” que isso…

Filmado em apenas 11 dias, utilizando os estúdios montados para o seriado CHINA SMITH, também com o Duryea, e que Aldrich chegou a dirigir alguns episódios. Já demonstra um diretor bem consciente visualmente e do universo fílmico que desenvolveria nas próximas três décadas.

O ÚLTIMO BRAVO (Apache, 1954)
Nunca tinha visto esse, embora seja um filme até que bem conhecido pelos fãs de faroeste clássico e dos maiores sucessos do diretor no início de carreira. Me surpreendeu como é bom! Quero dizer, Aldrich com Lancaster é sempre garantia de coisa boa, mas o filme é mais interessante que isso, já possui um caráter de revisionismo histórico que só seria consolidado no faroeste americano quase vinte anos depois. Num período em que os índios eram frequentemente retratados como alvo para levar tiro de cowboy, temos aqui uma perspectiva mais simpática, sobre um Apache obstinado chamado Massai (Lancaster) que travou uma guerra solitária contra os Estados Unidos e se tornou uma lenda tribal. Mas, como estamos num filme de Robert Aldrich, não usaria o termo “herói” para descrevê-lo. É uma figura ambígua, individualista, na qual suas facas, flechas e balas frequentemente atingem soldados brancos de surpresa e até irmãos indígenas. Sem contar o tratamento violento que dá à mulher que o ama… É preciso um esforço tremendo pra amolecer o coração do sujeito. O típico “herói” aldrichiano já tava cristalizado aqui no seu terceiro trabalho como diretor.

Apesar da jornada de Massai ter suas raízes históricas, o roteiro, adaptado de um romance chamado “Bronco Apache”, entrega uma boa dose de ação, fiel à tradição dos westerns, e Aldrich já demonstra muita habilidade na condução. E é um daqueles filmes cujo final, mais otimista, foi imposto pelo estúdio, bem diferente do que era planejado inicialmente pelo diretor… Não chega a estragar a aventura, mas é meio surreal o que fizeram aqui. Mas, como disse no início, o filme foi um sucesso. Então quem sou eu pra reclamar? Lancaster e Jean Peters estão excelentes e interpretam seus papéis indígenas com compreensão, sem os estereótipos habituais. Não sou do tipo que vai entrar em discussão sobre atores brancos fazendo “brown face” num filme de 1954, já tem muito crítico de Twitter e Letterboxd por aí chorando por causa disso. É preciso entender o contexto da época pra não ficar falando bobagens e não estregar a apreciação de um belo western como este aqui.

VERA CRUZ (1954)
Gary Cooper, Burt Lancaster, Ernest Borgnine, Jack Elam e Charles Bronson entram em um saloon… É muita gente foda junta no mesmo ambiente. Aí eu não resisto. Os dois primeiros são os protagonistas da aventura, uma jornada pelo México cheia de ação durante a Guerra Franco-Mexicana. Uma relação baseada no equilíbrio entre esses dois monstros sagrados do western americano, no carisma, cada um seguindo um código de honra muito pessoal, suas fraquezas tornando-os ainda mais humanos. Há uma dose de respeito, muita traição, umas mulheres no meio e um cofre cheio de moedas de ouro numa carruagem… Isso aqui tem tanta influência em filmes que vieram depois que não vou nem me dar o trabalho de listar, mas eu não tenho dúvida alguma que Sergio Leone devia ter este filme em alta conta.

A MORTE NUM BEIJO (Kiss Me Deadly, 1955)
Agora, isso aqui é um filme foda! Acho que já tinha uns 20 anos que não assistia e sempre guardei boas lembranças. É difícil esquecer alguns momentos especiais dessa belezinha. Mesmo assim, o impacto foi gigante nessa revisão! Não apenas pela trama e seus desdobramentos catastróficos e sombrios – até mesmo para os padrões de um film noir – mas sobretudo pela forma como Aldrich conduz isso aqui, um verdadeiro trabalho de mestre, que mais uma vez influenciou uma penca de filmes que vieram depois. E certamente é um dos seus filmes mais brilhantes, modernos, surpreendente em cada detalhe, cada movimento da trama, desde sua magistral sequência de abertura até o desfecho mítico, devastador, um dos mais aterradores da história. Numa noite, Hammer (Ralph Meeker) dá uma carona pra Christina, uma moça que tá fugindo do hospício ali por perto. Uns caras ruins aparecem e fazem o carro dele bater. Quando Hammer acorda meio grogue, escuta Christina sendo torturada até a morte. Depois de finalmente recobrar a consciência, o sujeito decide ir atrás dessa trama maluca, tanto por vingança quanto na esperança de que algo bem grande esteja por trás disso tudo.

Ralph Meeker é brutal como protagonista, leva a lógica do detetive desprezível a outro nível, e a direção de Aldrich é barroca na maneira como compõe suas imagens, agressivas e frequentemente desalinhadas, no uso dos espaços e do preto e branco, que destacam a atmosfera densa e a ameaça difusa que paira sobre uma misteriosa caixa de Pandora no cerne da trama. É a essência do film noir elevada a uma incandescência inigualável. Merecia um texto maior, mas por enquanto fica assim mesmo, só pra registrar que é uma obra-prima sem equivalente no gênero.

A GRANDE CHANTAGEM (The Big Knife, 1955)
O astro de cinema Charlie Castle (Jack Palance) entra na mira do produtor de Hollywood, Stanley Hoff (Rod Steiger), quando se recusa a assinar um novo contrato. Castle tá cansado da baixa qualidade dos filmes do estúdio e quer começar uma vida nova. Enquanto sua ex-esposa o apoia na decisão, o agente de talentos de Castle insiste pra ele reconsiderar. Quando Castle continua irredutível, Hoff apela pra chantagem pra conseguir o que quer. Uma fábula ácida sobre a podridão de Hollywood, com um Jack Palance em estado de graça, vivendo esse astro que vê seu mundo desmoronar, amarrado por um contrato com o diabo – e um Rod Steiger explosivo – e pela culpa por trágicos eventos passados. Um drama anti-indústria forte, com um texto afiado e excelentes atores – e o primeiro filme produzido pela empresa independente Associates & Aldrich – que corta Hollywood até o âmago.

Em breve, volto com a parte 2.

OS PROFISSIONAIS (1966)

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O diretor Richard Brooks vinha de um fracasso com sua adaptação de Joseph Conrad, LORD JIM, de 1965, e resolveu não correr muitos riscos no seu projeto seguinte. Embora o western na sua forma clássica estivesse em relativo declínio, estava na moda em meados dos anos 60 reunir astros de grande calibre para dividirem às telas em épicas aventuras. Dos filmes de guerra, como FUGA DO INFERNO, passando pelos “Men in a Mission“, como OS CANHÕES DE NAVARONE, até os faroestes, especialmente com SETE HOMENS E UM DESTINO, a ideia de aglomerar atores de peso poderia garantir o sucesso de uma produção. E foi exatamente isso que Brooks resolveu fazer por aqui, em OS PROFISSIONAIS (The Profissionals), um western de aventura que reuniu Lee Marvin, Burt Lancaster, Robert Ryan e Woody Strode na missão de resgatar Claudia Cardinale de um revolucinário mexicano vivido por Jack Palance e seu exército.

Sim, é como se fosse uma versão dos anos 60 de OS MERCENÁRIOS. E se você olhar para este elenco e não sentir a mínima vontade de ver OS PROFISSIONAIS, você deve ter sérios problemas… Melhor ir assistir um Wong Kar Wai ou Apichatpong Weerasethakul…

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Enfim, revi OS PROFISSIONAIS esta semana e continua um dos meus westerns favoritos dessa época, ficando ali meio intermediário entre a aventura divertida na tradição de SETE HOMENS E UM DESTINO ao mesmo tempo que possui uma densidade revisionista pré-MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, que foi quando Sam Peckinpah redefiniu de vez o gênero nos EUA (algo que já vinha acontecendo gradualmente, em especial com os faroestes de Monte Hellman com Jack Nicholson, DISPARO PARA MATAR e A VINGANÇA DE UM PISTOLEIRO).

A premissa de OS PROFISSIONAIS é estruturada de maneira clássica e bastante simples. Um magnata do Texas contrata quatro experientes mercenários, cada um com uma característica especializada específica, para resgatar sua esposa sequestrada por um revolucionário mexicano, que a mantém do outro lado da fronteira. Lee Marvin vai interpretar o líder do grupo, o estrategista e especialista em armas. Burt Lancaster é experiente no manuseio de explosivos. E aqui estamos falando tanto de dinamites quanto de uma mulher fogosa (a cena que apresenta o personagem é impagável nesse sentido). Woody Strode é um atirador virtuoso com seu arco e flechas e um ótimo rastreador. E Robert Ryan é o especialista em cavalos e a consciência moral da equipe.

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Apresentados os personagens e a missão, os quatro sujeitos partem para o México numa jornada cheia de perigos num cenário de desertos e os estreitos montanhosos da região. Brooks mantém o ritmo e a ação firme para deixar as coisas mais animadas. A sequência do resgate da moça, especificamente, é um espetáculo à parte, com Woody Strode atirando flechas explosivas. Enfim, a sequência é um prodígio de pirotecnia. Depois vem a peregrinação de volta para os EUA em meio a uma reviravolta que coloca uma grande interrogação na cabeça dos nossos heróis… Considerando o contexto e o período no qual OS PROFISSIONAIS foi feito, fica óbvio o subtexto sobre a guerra do Vietnã: uma unidade de combate selecionada enviada para outro país por razões problemáticas questionando seus motivos.

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Embora seja evidente que os protagonistas da trama sejam Marvin e Lancaster, os únicos que possuem um pano de fundo, um histórico que envolve outras lutas armadas durante a revolução mexicana, é preciso destacar como Woody Strode recebe igual importância no grupo, o que já é notável para um ator negro da época no meio do elenco formado por brancos em uma produção de grande estúdio. O mesmo não dá pra dizer sobre a equipe de marketing da Columbia, que não colocou seu nome nas artes de divulgação do filme…

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O restante do elenco é fenomenal. Jack Palance, como já mencionei, surge em cena como um mexicano, queimado de sol e bigodudo. E está incrível como sempre. Eleva o seu personagem imbuindo-o de dignidade, evitando qualquer clichê maniqueista óbvio. O dramático reencontro entre Lancaster e Palance, depois de um longo tiroteio para atrasar o bando do mexicano, um jogo de gato e rato entre as rochas que é um dos grandes momentos do filme, demonstra porque Palance (e Lancaster, numa performance física impressionante) foi um dos maiores de todos os tempos. Cardinale é outro caso interessante. Sua beleza descomunal chama a atenção, mas Brooks não a utiliza como mero colírio sexual (embora haja umas ceninhas bem calientes pra época). Sua personagem é provavelmente a mais forte do filme, lutando pelo homem que ama e pela causa em que acredita. E o rico rancheiro que financia a missão é retratado perversamente por Ralph Bellamy.

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A direção de Brooks não chega nem a ser um primor, mas é de uma competencia, de uma secura, coerente com o material que filma e com a jornada desses indivíduos. Com bom senso de tensão e aventura. Não é a toa que o sujeito foi indicado ao Oscar de melhor diretor naquele ano (e também de roteiro). Adiciona-se ainda a luxuosa fotografia de Conrad Hall (que também foi indicado por seu trabalho), a trilha sonora de Maurice Jarre, uma tonelada de diálogos incríveis e OS PROFISSIONAIS se torna um filme que eu admiro cada vez mais sempre que revejo.

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Uma curiosidade: na época do lançamento, o sucesso do filme levou o estúdio a considerar uma sequência, mas com a condição de que todos os quatro atores principais estivessem envolvidos. Não queria correr riscos por causa do fiasco em torno da sequência de SETE HOMENS E UM DESTINO, no qual apenas Yul Brynner havia retornado. No entanto, durante muito tempo a agenda dos atores nunca batia para que a coisa acontecesse… Quando finalmente as agendas casaram, a saúde de Robert Ryan (devido ao câncer de pulmão) tornou impossível pra ele realizar o trabalho físico necessário para o filme. Após sua morte em 1973, qualquer plano para uma sequência de OS PROFISSIONAIS foi descartado.

AMEI UM ASSASSINO (1948); CLASSICLINE

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Vi mais essa pérola, em DVD, lançada pela ClassiclineAMEI UM ASSASSINO, de Norman Foster, veste uma roupagem iconográfica de film noir, com todos os elementos visuais característicos, para narrar um melodrama denso e muito interessante. O filme é um realização da Norma Productions, que tinha o ator Burt Lancaster, que é o protagonista aqui, como um dos fundadores. Foi ele quem lutou para manter o título original da fita, o belíssimo KISS THE BLOOD OFF MY HANDS, que é homônimo ao romance que fora adaptado. Com esse título irresistível, fica difícil não dar um conferida.

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Ambientado numa Londres pós-Segunda Guerra Mundial, Lancaster é um típico outsider à deriva ferrado na vida. Ex-combatente, vive à margem tentando viver um dia de cada vez. A coisa piora pro sujeito quando acaba se metendo numa briga em um pub. Após acidentalmente matar um homem, parte em fuga e cruza o seu caminho com o da enfermeira interpretada por Joan Fontaine. Adicionado ao tempero, temos ainda um Robert Newton inspirado, como um bandido lowlife, que testemunhou o crime do protagonista e tenta o manter sob o seu controle.

O legal é que AMEI UM ASSASSINO sempre vai brincando com as expectativas, com um enredo que tece de formas inesperadas o seu desenvolvimento particularmente surpreendente. Nunca se sabe o que vai acontecer a seguir e o filme vai sempre se renovando, especialmente na relação amorosa que surge entre Lancaster e Fontaine. Ainda em início de carreira, Lancaster começa meio travado, mas aos poucos vai se soltando e ao final, temos mais uma grande atuação do sujeito. O filme faz um bom trabalho ao mostrar suas ações como resultado dos efeitos da guerra. Na verdade, o filme possui essa relação sombria e evidente do trauma e desilusão do pós-guerra na Europa.

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AMEI UM ASSASSINO até pode ser considerado do gênero noir, possui alguns elementos gráficos e temas que o coloquem como tal, embora no fim das contas a coisa vá desaparecendo de certa maneira, tomando outra forma, mais ligada à herança do melodrama, restando apenas essa roupagem estética da cinematografia de Russell Metty, que é expressiva e que traz toda a nebulosidade da Londres pós-guerra para a tela. Os becos escuros e apertados, um trabalho de sombras fantástico digno dos melhores noirs

A perseguição que acontece no início, com Lancaster fugindo da polícia pelas ruelas escuras, é um bom exemplo, além de ser uma aula de enquadramentos e movimentos de câmera. Prova que o diretor Norman Foster aprendeu tudo direitinho como assistente de Orson Welles. A sequência em que envolve a personagem de Joan Fontaine, Robert Newton e uma tesoura também é um primor em como se trabalhar o suspense utilizando apenas luzes, sombras e close-ups.

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AMEI UM ASSASSINO foi lançado pela Classicline em dezembro do ano passadoO disco é apresentado em uma excelente edição de imagem, no formato de tela e áudio originais. Acompanha trailer de cinema e uma galeria de fotos e cartazes como extra. O DVD pode ser adquirido nas melhores lojas ou na loja virtual da própria distribuidora.

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