ESCOLA NOTURNA, aka OLHOS DO TERROR (Night School, 1981)

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ESCOLA NOTURNA não é lá dos melhores slashers que eu já vi. É um exemplar bem comum de um modo geral, com algumas ideias decentes que acabam prejudicadas pela previsibilidade do roteiro, que não consegue segurar por muito tempo a identidade do assassino ou suas motivações… Mas tem algumas peculiaridades redentoras que fazem valer a pena uma conferida. Ei, é um filme que tem um assassino de capacete de motociclista com uma faca decapitando moças! Então momentos de diversão é o que não falta.

É curioso que ESCOLA NOTURNA teve o “privilégio” de constar na famigerada lista dos “Video Nasties“, filmes que foram censurados, mutilados ou proibidos, especialmente em território britânico no período; este aqui acabou tendo lançamento por lá só em 1987. Vendo hoje, me surpreende essa decisão porque ESCOLA NOTURNA está longe de ser dos mais sangrentos ou subversivos filmes de horror em comparação com vários outros exemplares da época. A quantidade de elementos sexuais e nudez é pouca e em termos de violência, a maioria dos assassinatos acontecem fora de campo… O que se vê são as consequências dos crimes. Uma cabeça que acaba em um vaso sanitário ou outra que desce lentamente entre os peixes de um aquário público, sob os olhos horrorizados dos visitantes, e por aí vai… Porque nosso assassino não apenas decepa-lhes a cabeça, mas também as mergulha na água, uma particularidade que intrigará o investigador da polícia, interpretado pelo italiano Leonard Mann.

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E essas execuções absurdas e misóginas (as vítimas são todas mulheres) são mais como rituais, e a suspeita então volta-se para um professor de antropologia libertino que não hesita em praticar “aulas particulares intensivas” com suas alunas, se é que me entendem… Além disso, ele é o único professor do sexo masculino numa faculdade para moças (na qual as vítimas eram estudantes). Descobrimos também que ele não é o único garanhão da escola. A diretora do colégio parece, er… gostar das mesmas coisas que ele, e não pretende ter competição. Mas a verdade por trás dos assassinatos será bem diferente no fim das contas…

Quem dirige ESCOLA NOTURNA é o veterano Ken Hughes, bom artesão que brinca com todos os clichês do slasher: assassino neurótico emergindo dos mais variados lugares, vítimas jovens, câmera subjetiva, enquadramentos peculiares… Para ser justo, eu curti o filme porque tem mais a cara de um Giallo do que slasher. Lembra muito os filmes italianos feito na mesma época. Desde a trilha sonora de Brad Fiedel até a presença de Leonard Mann, mais conhecido pelos papeis em Spaghetti Western, tudo contribui para dar a impressão de que estamos diante de um suspense policial italiano.

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Algumas sequências são bem interessantes e vale destacar, como a do restaurante, onde o diretor literalmente brinca de esconde-esconde com o espectador e a cabeça de uma das vítimas; na parte erótica, temos uma excêntrica cena de sexo num chuveiro em que o professor de antropologia esfrega um tolete de tinta vermelha em sua aluna/amante (Rachel Ward). No final, sobra tempo até para uma frenética perseguição de carro e moto pelas ruas apertadas da cidade… No entanto, ESCOLA NOTURNA também pode desapontar pelo fato de ter esse motociclista armado com um facão decapitando as moças, algo muito promissor, mas, como já disse, quase nunca vemos as tais decapitações de fato.

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Mas é um filme de detetive/assassino honesto, com boa atmosfera de horror em alguns momentos e alguns toques de um humor ácido (voluntários ou não). Cabeças rolando, mistério (embora fácil de resolver), lesbianismo, excentricidades antropológias… Os entusiastas do slasher vão se divertir.

DESAFIANDO O PERIGO (Game 6, 2005)

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Comprei o DVD de DESAFIANDO O PERIGO outro dia num sebo (sim, ainda coleciono mídias físicas). Não fazia muita ideia do que se tratava, mas como tinha o Michael Keaton na capa e essa aparência de filme de ação genérico dos anos 2000, não resisti. Depois descobri que a coisa era bem diferente e resolvi conferir. É um ótimo filme! Foi o primeiro roteiro do Don DeLillo, célebre autor americano de obras como Underworld e Cosmópolis… É uma pena, portanto, que DESAFIANDO O PERIGO tenha passado meio batido por aqui, nunca vi ninguém falar algo sobre, parece que foi meio ignorado. Talvez esse título nacional e a capa do DVD, que realmente parece um filme de ação genérico, tenha espantado possíveis apreciadores. Mesmo nos EUA, este trabalho do diretor Michael Hoffman andou circulando pelas cenas do cinema independente, recebeu boas críticas e tal, mas logo depois ficou esquecido.

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DESAFIANDO O PERIGO é uma fábula novaiorquina que transcorre durante um dia na vida do dramaturgo de meia-idade Nicky Rogan (Michael Keaton), cuja nova peça terá estreia na mesma noite que o lendário jogo seis da World Series de 1986. Torcedor fanático do Red Sox, o nervosismo de Nicky é incitado quando a crise de meia-idade que ele tenta ignorar começa a florescer diante de vários acontecimentos: sua filha diz que sua esposa (Catherine O’Hara) contratou uma “advogada de divórcio proeminente”, seu ator principal tem um parasita em sua cabeça que faz com que ele esqueça suas falas, enquanto o pai de Nicky começa a se afastar dele… Mas, acima de tudo, está o crítico de teatro da Broadway Steven Schwimmer, um homem tão odiado por suas críticas arrasadoras que precisa ir aos teatros armado e disfarçado.

Quem já está familiarizado com a obra de Delillo vai se sentir em casa (personagens estranhos que entram e saem, como numa peça de teatro, diálogos rápidos, filosóficos e afiados) e perceber algumas obsessões do sujeito na tela. Tem muito de Cosmópolis em DESAFIANDO O PERIGO. A ideia da relação dos personagens com os espaços e a violência das ruas que se estabelece das janelas – das cafeterias, bares e dos carros presos nos trânsitos novaiorquinos – com o personagem de Keaton atrelado ao mesmo cenário do protagonista de Cosmópolis, trocando apenas sua luxuosa limusine pelos táxis dirigidos por figuras estrangeiras. Ambos desejam cortar o cabelo e nesse processo adentram numa jornada de auto-destruição enquanto a cidade assume um ar cada vez mais sinistro e agourento.

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Mas Nicky é um personagem mais simpático e fascinante que o garoto milionário de Cosmópolis. Um pouco misantrópico, fatalista, às vezes de moral ambígua, mas com alguma doçura trágica – e Keaton tem aqui uma de suas melhores performances da carreira. DESAFIANDO O PERIGO também oferece bons papéis coadjuvantes para Griffin Dunne (de DEPOIS DE HORAS, fazendo o melhor amigo do protagonista, um dramaturgo derrotado por conta de uma crítica negativa) e Robert Downey Jr., como o crítico teatral ninja budista, temido e odiado por todos os dramaturgos de Nova York. No elenco, ainda temos o grande Harris Yulin no papel do ator que já não consegue memorizar as falas…

Talvez o espectador que não se importa muito com beisebol, como é o meu caso, simplesmente perca o interesse pelos dramas internos de Nicky no terço final do filme, quando o sujeito decide não ir mais à estreia de sua peça para assistir o sexto jogo num bar lotado de torcedores dos Mets. Mas mesmo que não saibamos muito bem o que aconteceu naquele jogo específico entre o Red Sox e o New York Mets, DeLillo e Hoffman fazem com que pareça algo épico, dramático, importante e metafórico. Nicky se propõe de alguma forma a fazer a maior aposta de sua vida – se o seu time que sempre o decepcionou ao longo dos anos puder finalmente superar sua série de derrotas, talvez ele também possa encarar sua espiral descendente.

É um filme intenso, que merecia ser mais lembrado, especialmente pela atuação de Keaton, que está sempre numa espécie de limite , seja lá do que for… O final talvez não seja o melhor possível, mas gostei, quebra um bocado as expectativas, o que é sempre bom. Vale a pena ir atrás de DESAFIANDO O PERIGO, não deve ser difícil de encontrar o DVD por aí. Por exemplo, neste link: https://www.videoperola.com.br/dvd-desafiando-o-perigo-html/p

O ESTRANHO SEM NOME (1973)

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O estranho do título nacional pode ser apenas um homem, um cowboy em busca de vingança, mas pode ser também um fantasma ou um ser demoníaco enviado para decretar a condenação de uma cidade. Como tal, O ESTRANHO SEM NOME (High Plains Drifter), segundo trabalho de Clint Eastwood como diretor, reflete a obscuridade e a paranóia da corrupção e complacência da América dos anos 70. O filme tem um tom niilista comparável a OS IMPERDOÁVEIS, que Clint ainda viria a fazer, mas mesmo neste havia muito mais homens decentes do que em O ESTRANHO SEM NOME.

A trama parece se passar em um plano totalmente diferente da realidade, como um purgatório, numa pequena cidade onde a maioria das pessoas perdeu a alma há muito tempo. O forasteiro chega para mudar algumas coisas, não sabemos de onde vem, para onde vai, porque apareceu por ali. Acaba contratado para proteger a cidade de três bandidos que acabaram de sair da prisão e que provavelmente retornarão ao local para se vingar daqueles que os colocaram no xadrez. O estranho aceita a missão e, em determinado momento, literalmente muda o nome da cidade para Hell (inferno), o que é bem mais apropriado.

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Difícil classificar o personagem de Clint, um herói ultra-antipático que em menos de dez minutos de filme limpa a cidade dos mal encarados à base de chumbo grosso para logo em seguida estuprar a primeira mulher que aparece em seu caminho. Obra grandiosa como quase todos os trabalhos de Eastwood, mas talvez seja um dos mais desagradáveis. Até porque demora um pouco para juntar todas as peças do quebra-cabeça e entender as motivações do personagem. Até então, impera uma moralidade ambígua. Quando revelado, faz desse “estranho” um dos personagens mais fortes e míticos das planícies do Western americano.

Enquanto isso, em sua jornada de vingança o estranho faz os cidadãos sofrerem vários tipos de humilhação, culpados pelo massacre de um homem que era apenas um grão de areia nos interesses econômicos dos poderosos da cidade. Sobretudo, é pela covardia de todos que se vêem condenados: como é possível deixar um homem morrer diante de seus olhos apenas porque os poderosos assim decidiram? É um filme altamente político, que aponta para a responsabilidade de cada cidadão em suas escolhas e, acima de tudo – mais forte – em sua não-escolha, em sua inação.

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Visualmente, O ESTRANHO SEM NOME também está repleto de ideias expressivas, como a cidade renomeada Inferno inteiramente pintada de vermelho… E no climax, a visão de Eastwood em uma noite iluminada pelo o fogo do inferno chicoteando seus adversários permanece gravado na memória. No fim das contas, o filme oferece tudo aquilo que esperamos de um Western de Clint Eastwood, apesar dele não estar tão interessado em emoções convencionais. Mostra também que Clint aprendeu direitinho os truques de um de seus mentores, Sergio Leone. Só que os subverte de maneira diabólica e alegórica.

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No elenco temos Verna Bloom, Billy Curtis como o simpático anão Mordecai, Geoffrey Lewis e Mitchell Ryan entre os destaques.

ATOS DE VIOLÊNCIA (2018)

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A trama de ATOS DE VIOLÊNCIA é sobre três irmãos, um deles é Roman (Ashton Holmes), que está prestes a se casar com sua namorada, Mia (Melissa Bolona). Quando ela é sequestrada por traficantes de escravas durante sua festa de despedida de solteira, Roman pede a ajuda aos outros dois irmãos, militares veteranos (Cole Hauser e Shawn Ashmore), para recuperá-la.

Bruce Willis aparece em cena como um detetive especializado neste tipo de caso, tentando derrubar esses traficantes, mas obrigado a fazer tudo debaixo da lei, embora saiba que está de mãos atadas por conta do sistema corrompido. A capa do DVD até dá aquela destacada para Willis, vocês sabem, é o único famoso do elenco, então já colocam a cara dele na capa para atrair público. Mas uma coisa que gostei em ATOS DE VIOLÊNCIA é como o roteiro encontra uma maneira orgânica de trabalhar com o velho Bruce na história. Seu papel pode ser pequeno, mas pelo menos ele tem um personagem digno e com alguns momentos para relembrar seus dias de action hero. Apesar disso, Willis esteve no set por apenas um dia para gravar suas cenas, a maioria delas sentado atrás de uma mesa, embora nem dê pra sentir muito isso… hehe!

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Não pode faltar o famoso biquinho…

Já a história central, que envolve os três irmãos, até que me prendeu. Algumas atuações são horríveis e exageraram na dose de situações dramáticas piegas, mas curti a ideia dos irmãos badasses, com treinamento militar, tendo que utilizar suas habilidades num ambiente urbano. Destaque para Cole Hauser, figura já conhecida para quem aprecia filmes de ação DTV (recomendo especialmente THE HIT LIST, com Cuba Gooding Jr.), fazendo um personagem mais complexo, veterano de guerra sofrendo de estresse pós-traumático. Também é legal ver Mike Epps, mais conhecido por fazer comédias, encarnando o sádico e perigoso chefão da operação de tráfico de escravas.

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Alguns problemas de roteiro aqui e ali, fórmulas batidas e clichezentas suficientes para espantar o “cinéfilo brioche”, mas o filme até consegue entregar o que promete para os admiradores de um decente thriller de ação de baixo orçamento. As sequências de ação, por exemplo, se não são expressivas, ao menos são filmadas com certa competência e clareza. A direção é de um tal Brett Donowho… Nunca ouvi falar, mas o cara já tem algumas coisinhas no currículo. Alguém mais corajoso pode desbravar se tiver interesse.

ATOS DE VIOLÊNCIA é daquele jeito: não tem pretensão alguma de ganhar prêmio, mas é uma maneira divertida que um fã de ação sem grandes expectativas pode encontrar para passar 86 minutos de sua vida. Foi lançado em DVD no Brasil pela A2 Filmes, pelo selo Flashstar.

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PREMONIÇÃO (2005)

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PREMONIÇÃO até que é um suspense bem decente levando em conta o orçamento risível que teve, uma premissa preguiçosa e recheado de clichês, o elenco medíocre e os efeitos especiais toscos… Mas se as expectativas não forem muito altas e o espectador conseguir ignorar esses detalhes negativos e quiser assistir apenas um thriller vagabundo sem grandes pretensões, dá pra se divertir um bocado com essa tralha num sabadão…

A trama é basicamente uma variação de A HORA DA ZONA MORTA, aquela maravilha de David Cronenberg, com o Christopher Walken, baseado em Stephen King. Mas aqui temos Casper Van Dien como protagonista – um desses atores promissores dos anos 90 (pra mim sempre será o eterno Johnny Rico de TROPAS ESTELARES) que acabou relegado ao universo dos filmes de ação/terror lançados diretamente no mercado de vídeo. O sujeito interpreta Jack Barnes, um detetive que acaba tendo uma experiência de quase-morte no cumprimento do dever, durante uma perseguição de carro que acaba de forma trágica… E que a produção faz uso de stock footage, ou seja, utilizam imagens de uma perseguição de outro filme mais abastado – que eu não consegui identificar qual era – porque fica bem mais barato que filmar a própria sequência… É esse o nível da produção que temos aqui. hehehe!

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Bom, o fato é que Barnes volta à vida e agora passa a ter premonições de desastres que estão prestes a acontecer na cidade. Um vagão do metrô que descarrilha, o subsolo de um edifício que explode por causa de um vazamento de gás… E por aí vai. E à medida em que precisa lidar com esse dom, ou maldição, Barnes corre contra o tempo para tentar evitar as catástrofes que prevê, ao mesmo tempo em que investiga uma possível conexão desses desastres com um grupo terrorista (que no início do filme invade uma fábrica usando máscaras de George W. Bush… What a fuck?).

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Em momento algum o filme faz questão de dar algum sentido ou explicação sobre o fato do protagonista começar a ter essas visões, exceto pela experiência de quase-morte. Em determinado momento, o personagem conhece outro sujeito que teve a mesma experiência e, pimba, passou a ter visões. Então, ao que parece, uma experiência de quase-morte é suficiente para virar o próximo Nostradamus. Enfim, Barnes apenas passa a ter essas visões e pronto. Por mim, tudo bem, a última coisa que quero num filme desse tipo é ficar pensando em explicações lógicas.

A maior parte do filme seguimos os passos de Barnes nessa confusão, o que ajuda a manter o interesse, porque Van Dien até que apresenta um bom desempenho, consegue sergurar o tipo de obra que é PREMONIÇÃO. O restante do elenco é ruim de doer e alguns diálogos são terríveis. As cenas de ação são bem filmadas, com exceção da tal perseguição de carro com imagens de outro filme, que é uma bagunça (poucos sabem fazer esse tipo de “colagem” como um Jim Wynorski), mas a maioria das sequências mais excitantes são tiroteios que, se não chegam ao nível de um Michael Mann, ao menos são simples, secos e sem frescuras. O diretor é um tal Jonas Quastel, um canadense que já tem vários pequenos filmes de gênero lançados em “vídeo”.

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Não é um Michael Mann, mas tá tudo bem…

Mas o grande barato de PREMONIÇÃO são os efeitos especiais toscos e baratos. Capazes de revirar o estômago do espectador mais exigente, vulgo “cinéfilo brioche”, mas pra mim são as melhores partes do filme, renderam boas risadas. Especialmente a sequência final envolvendo um helicóptero em CGI ridículo e a cena do desastre no metrô, que é impressionante de tão mal feita.

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PREMONIÇÃO não merece um texto maior que este. Ficamos por aqui. Pode parecer um completo desastre, como nas visões do protagonista, mas definitivamente não é um filme ruim se você assistir com poucas expectativas. Tem disponível no Brasil em DVD.

BLACK DEMONS (1991)

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Há alguns anos eu comentei por aqui os dois filmes da série DEMONS, dirigidos pelo Lamberto Bava e produzidos pelo Dario Argento. Quem nunca leu, pode conferir clicando aqui e aqui. Mas o que isso tem a ver com BLACK DEMONS, de Umberto Lenzi? A princípio, nada. No entanto, como a picaretagem italiana não tem fim, resolveram lançar o filme na Itália com o título DEMONI 3, mesmo não tendo absolutamente nenhuma relação com os filmes anteriores… Só que os caras foram ainda mais longe e a série DEMONS acabou ganhando outras “continuações” sem qualquer sentido… Mas isso é assunto pra outros posts.

Hoje vamos de DEMONI 3, ou melhor, BLACK DEMONS, que é como prefiro chamar… Não é dos filmes mais lembrados do Umberto Lenzi, talvez porque não seja mesmo lá grandes coisas em comparação com a fase de ouro do horror italiano e com a própria obra do diretor, mas não deixa de ser uma dessas tralhas divertidas do gênero que foram esquecidas ao longo dos anos. A história é simples, mas eficaz: três estudantes estrangeiros vem parar aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, para pesquisar sobre religiões africanas, vodu e coisas do tipo. Dick (Joe Balogh), ao se afastar dos outros, acaba se envolvendo em um ritual de macumba e, de alguma forma, é possuído pelo misterioso poder da magia negra.

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Do Rio, o trio parte para Belo Horizonte… Só que numa estradinha de chão rodeado de matagal, porque é exatamente assim as rodovias que vão do Rio à BH, né? Mas tudo bem, a gente entende que Lenzi quer fazer o público de fora pensar que o Brasil é só mato, animais selvagens e voodoo, ao mesmo tempo em que todos os brasileiros falam inglês. Durante a viagem, o veículo do trio quebra e acabam sendo ajudados por um casal que mora nas proximidades e que lhes oferece repouso enquanto resolvem o problema do carro.

A casa é uma dessas antigas mansões de algum barão do café do século IXX que usava escravos como mão de obra. Não muito longe dalí, há justamente um cemitério com os túmulos de seis escravos que, segundo uma lenda, foram mortos por seus senhores um século antes e que em algum momento retornariam em busca de vingança. Quando Dick, possuído por seja lá o que for, é levado quase em transe a este cemitério e começa a tocar a música que gravou durante o ritual de magia negra, ele acaba tornando a lenda em realidade. Os escravos saem das tumbas e começam a realizar sua sangrenta vingança…

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Mas para chegar a até aqui não é das tarefas das mais fáceis… BLACK DEMONS tem um ritmo lento, a produção é barata e acaba não tendo tantos atrativos como outros exemplares do horror italiano. No entanto, consegui entrar na onda do filme, até porque Lenzi tem bom domínio narrativo, mesmo trabalhando com tão pouco e com roteiro e atores tão ruins. O uso que o sujeito faz das locações, das paisagens do Rio de Janeiro, das favelas e do interior são muito bons. Sem contar que a iconografia dos rituais e do universo de magia negra tornam a história genérica um pouco mais interessante.

E quando a violência finalmente acontece, Lenzi não hesita em mostrar tudo graficamente nos mínimos detalhes. Há pelo menos três mortes mais explícitas, com direito a olhos arrancados e gargantas cortadas com muito sangue. Os próprios zumbis são muito bem feitos, com feridas nojentas e a deterioração mostrada em detalhes.

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Um dos maiores problemas de BLACK DEMONS acaba sendo os atores. Joe Balogh é quem se destaca, mas o restante do elenco, principalmente os “talentos” brasileiros locais, são terríveis. A exceção é a mulher que interpreta a criada da casa, tem carisma, mesmo falando um inglês péssimo. O próprio Lenzi afirma em entrevista que os problemas de atuação foram um dos motivos de tornar o filme mais fraco do que previa que fosse. Também é divertido que o filme tenha um toque levemente político, a ideia de escravos negros, agora zumbis de pele escura, atacando pessoas brancas, é uma peculiaridade curiosa. Lenzi fala um pouco sobre isso no extras do DVD, mas ainda sente que é apenas um filme de terror sem significados mais profundos.

Mesmo com seus problemas, não achei tão ruim BLACK DEMONS. A violência é das boas, os zumbis são brutais e matam sem piedade e a direção de Lenzi é inspirada, apesar da precariedade da produção. E é só isso o que eu poderia querer de um filme como esse…

★ ★ ★

PLAY MISTY FOR ME (1971)

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Em 1971 Clint Eastwood era uma das principais figuras do cinema comercial americano, tendo construído seu nome em filmes de faroeste e ação. PLAY MISTY FOR ME, no Brasil lançado como PERVERSA PAIXÃO, foi sua primeira investida como diretor e a surpresa inicial é o fato do filme ser um crazy bitch thriller ao estilo de ATRAÇÃO FATAL, sobre um DJ de rádio que se torna o objeto de obsessão mórbida de uma fã obcecada. Um filme de romance às avessas que se torna um autêntico pesadelo. E, convenhamos, é algo que está bem longe dos filmes de ação pelos quais Clint era então conhecido.

Mas olhando hoje, quase 50 anos depois, percebe-se claramente que PLAY MISTY FOR ME trata-se de um trabalho muito pessoal de Clint, cheio de interesses e obsessões que de certa forma o acompanharam durante toda a sua carreira. Uma das principais características é o fato dele mesmo incorporar o protagonista, um apresentador de rádio responsável por um programa de jazz. O filme é, portanto, literalmente invadido pela música, onipresente, dos mais populares ritmos aos mais elegantes (Errol Garner, com a música Misty, citada no título do filme) e para quem não sabe o homem é um aficcionado por jazz e blues… Muita gente reclama do prolongamento da sequência do festival, mas acho que é a melhor exemplificação dessa lógica, esses minutos “ao vivo” do festival de Monterey, onde Eastwood filma os músicos e o público em transe, etc… Uma magnífica declaração de amor de Clint à música.

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A trama de PLAY MISTY FOR ME é sobre David Garver, este disc-jockey de fala mansa que Clint interpreta. Depois de uma noite caliente com sua fã número um, Evelyn (Jessica Walter), ele dá a ela a velha desculpa “Eu te ligo depois“. Só que ela realmente acredita nas palavras do sujeito. Logo, ela está surgindo na casa dele com compras, ligando em horários estranhos e aparecendo completamente nua em sua porta. À princípio David tolera o comportamento dela, mas quando ele resolve volta para Tobie (Donna Mills), um antigo romance, Evelyn entra no modo full-crazy bitch stalker. Invade a casa dele histérica, destrói seus móveis, estraga uma importante entrevista de emprego, até esfaqueia sua empregada antes de ir atrás da namorada de David. Ao final, por ser Clint Eastwood, ele não tem nenhum problema (SPOILER) em dar um soco na cara dela e vê-la cair com tudo e se espatifar nas pedras de uma ribanceira à beira-mar…

O legal é que PLAY MISTY FOR ME não gasta muito tempo enrolando. É bem direto no tema do “perseguidor obcecado” e alguns dos melhores momentos ilustram a facilidade com que David cai nas armadilhas de Evelyn e o quão impossível é para ele se livrar. Chega a ser angustiante… E David acaba sendo cúmplice em sua própria crise. O filme prenuncia cuidadosamente o lado sombrio de Evelyn, de um modo até exagerado no maniqueísmo, sem sutilezas, e o filme enfatiza que a única coisa que impede David de sentir o perigo é sua própria arrogância. E a luxúria, claro, já que David é um mulherengo cujo relacionamento com Tobie está sendo testado por conta de suas conquistas extracurriculares. E como o colega de David, Al (James McEachin), diz com uma piscadela: “Quem vive à espada, morre pela espada“.

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A última hora de filme compensa bem a premissa, com várias cenas tensas de suspense e violência. E Jessica Walter devora o seu papel, criando um monstro memorável, baseado em emoções críveis e perversas. Talvez falte a tal sutileza à personagem, mas dentro da proposta tão direta na qual o filme lida com o assunto, ela convence fácil com uma atuação expressiva e perturbadora. Clint também faz um bom trabalho na frente da câmera, desempenhando basicamente o mesmo que em todos os seus filmes, exceto que ele quase não mata ninguém por aqui. E transa mais (prefere usar a outra arma, se você me entende)…

Na direção, Clint se deixa guiar pelos ensinamentos de seus mestres, Sergio Leone (com vários planos detalhes dos olhos de seus personagens) e Don Siegel (e é até comovente que Clint tenha colocado Siegel para fazer um pequeno papel como o barman favorito de David). Mas muito do estilo autoral da direção de Eastwood se manifesta nesse seu primeiro trabalho, especialmente o uso da iluminação escura, no cuidado com as composições e no ritmo lânguido… Não deixa de ter falhas (pesa a mão alguns momentos melosos demais entre David e Tobie) e uma certa hesitação entre ser classicista ou Nova Hollywood… Mas o resultado não deixa de funcionar. PLAY MISTY FOR ME é uma sólida estreia, um thriller angustiante muito bem executado para o primeiro esforço de um diretor que se tornaria um dos melhores do ramo.

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O IRLANDÊS (The Irishman, 2019)

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Sei que muita gente torce o nariz pelo velho Scorsese pós-2000, com essa ideia de que ele não é mais o mesmo, que seu talento diminuiu, seus filmes pioraram, blá, blá, blá… Pra mim sempre foi um deleite todas as vezes em que parei para assistir a um novo filme do homem nas últimas duas décadas. Mas realmente há muito tempo que um filme dele não alcançava de modo tão expressivo as suas ambições como o faz O IRLANDÊS. É o ápice, um desses monumentos que vez ou outra nos aparece, cada vez mais raro, e que traz uma sensação de PURO CINEMA (apesar da ironia de ter sido produzido pela Netflix). Um filme para mostrar ao mundo um autor que ainda está pulsando, que ainda pode nos maravilhar.

E uma das principais maravilhas do filme vem na forma do testemunho representado por vários dos melhores atores da história. Robert De Niro, Al Pacino, Harvey Keitel, Joe Pesci, que foi literalmente retirado da aposentadoria voluntária para dar vida a um dos grandes papéis de sua carreira. E é fascinante perceber como o tempo passou pra esses sujeitos, agora com as caras enrugadas, velhos, frágeis, que no fim das contas é o próprio assunto d’O IRLANDÊS. O tempo que passa, as coisas pelas quais rememoramos da vida, envelhecer… Um épico que reflete as diferentes passagens da vida e o destino inevitável que nos espera. Para alguns, no entanto, por sorte ou azar, há tempo suficiente para refletir sobre o passado e as escolhas realizadas.

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Frank Sheeran (De Niro), o irlandês do título, é um desses exemplos. É o único que restou. Velho, doente, numa casa de repouso, ninguém acreditaria que fora um dia um dos maiores assassinos que trabalhou para a máfia italiana. Mas ele conta sua história, a partir da década de 1950 e vai se estendendo por mais de 40 anos. Um veterano de guerra que virou motorista de caminhão, se envolve com Russell Bufalino (Pesci) e sua família criminosa na Pensilvânia, sobe na vida para se tornar um homem de respeito, mesmo ao custo de perder o amor de sua esposa e filhas. Eventualmente, ele vai trabalhar para Jimmy Hoffa (Al Pacino), o lendário presidente do sindicato dos caminhoneiros, que na época era um dos homens mais poderosos da América. E cujo desaparecimento permanece um completo mistério, embora o filme tente trazer alguma luz para o assunto baseando-se nos relatos do próprio Sheeran (publicado no magnífico livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt), mas que não são efetivamente comprovados e talvez nunca saibamos a verdade dos fatos.

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Superficialmente, temos então Scorsese voltando ao chamado “filme de máfia” pelo qual é bastante celebrado por obras como OS BONS COMPANHEIROS e CASSINO. E O IRLANDÊS é mais um olhar definitivo e abrangente sobre esse estilo de vida marcado por crimes, violência, mas também a busca por dinheiro fácil e consagração. No caso de Sheeran é uma vida melancólica. Uma vida definida pela passividade e pela constante subserviência aos seus superiores e à falha como pai, como “chefe de família”. Um vazio personificado melhor pelo papel quase simbólico da filha, que envolve pouco mais que uma participação especial de Anna Paquin, mas que não deixa de ser uma performance crucial para o estudo sobre o personagem.

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Há uma infinidade de coisas para analisar e refletir em O IRLÂNDES… Os aspectos históricos por exemplo são curiosos, como a política da época e a corrupção criminal se confundem, ou caminham juntas (invasão da Baía dos Porcos em Cuba, o assassinato de Kennedy, etc…). Mas as questões intimistas me fascinam mais. A ideia de examinar homens violentos que são levados a um apocalipse interno, a melancolia do envelhecimento, a morte, as pessoas descartadas no caminho… Vi o filme duas vezes e até agora não cansei de pensar nessas questões…

Sobre CGI e tecnologias de rejuvenescimento, caguei. Pouco me importa se ficou tosco ou se agora já dá pra fazer um filme com o James Dean… Estava tão imerso na história que não me dei o trabalho de ficar reparando nesses detalhes. Importa pra mim é a aula de cinema de Scorsese, que dirige como o mestre que é, com a sabedoria de quem possui uma carreira repleta de várias obras-primas. Consegue alternar momentos engraçadíssimos com sequências assustadoras e sombrias. Três horas e meia de ritmo e de uma certa energia do diretor. Lento, claro, para quem não está acostumado, mas nunca chato. E sempre se movendo com altos e baixos emocionais como uma montanha russa, à medida em que o glamour e o humor vão gradativamente combinando com a realidade violenta e sombria.

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E são vários os momentos que já nasceram clássicos. Angelo Bruno (Keitel) e Russell repreendendo Sheeran no restaurante; a preparação de Sheeran para matar Joe Gallo; o encontro de Hoffa com Tony Pro na prisão; a festa de homenagem à Sheeran; são dezenas e dezenas de momentos memoráveis. E a última hora… Meu Deus… Só essa última hora de O IRLANDÊS já seria suficiente para uma obra-prima. Mas eu queria destacar mesmo toda a sequência que se inicia com a viagem de Sheeran para “encontrar” Hoffa. Fazer o que tem que fazer. Aquele suspense dramático pra cacete… BANG BANG, dois tiros na cabeça, mais um trabalho rotineiro. E a viagem de volta num silêncio sepulcral arrasador. Momentos dignos de antologia. Das melhores coisas que Scorsese já filmou na vida.

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Aliás, todos os assassinatos de Sheeran são filmados mais ou menos do mesmo modo. Com um certo distanciamento, o enquadramento pegando os atores de corpo inteiro, e o modus operandi de Sheeran geralmente é o mesmo: aproximação objetiva, dois tiros rápidos na cabeça, discreto, e a vítima não tem tempo nem de tirar as mãos do bolso. E Scorsese em nenhum momento faz dessas cenas um espetáculo. E da mesma maneira acontece com Hoffa. Muda o contexto dramático e isso basta para a cena de seu assassinato ser tão poderosa, tão devastadora. Mesmo mostrada de forma tão rápida e direta. Hoffa foi um amigo abstraído para um objetivo. Uma traição transformada em trabalho. Que filme monumental!

Importa também pra mim De Niro, Pacino e Pesci, três gigantes que agora acrescentam outras performances icônicas à história deles. E aquela última hora de filme… Meu Deus… A última hora de filme é de rasgar o coração.

O TRAIDOR (Il Traditore, 2019)

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Ok, sei que vai ser impossível não fazer piada com o nome do sujeito, mas vamos tentar… Até porque vou ter que citá-lo várias vezes por aqui. Mas Tommaso Buscetta foi o primeiro pentito, um arrependido da Cosa Nostra, que ajudou a justiça italiana na luta contra a máfia, especialmente contra o império do sanguinário Salvatore Riina. Buscetta, desiludido após a traição de um capo, e enfrentando prisão e risco de vida, trabalha com o juiz Falcone fornecendo informações sobre o funcionamento da Cosa Nostra nos anos 80. E é esse, bem por alto, o mote de O TRAIDOR, novo filme do italiano Marco Bellocchio, um dos grandes mestres do cinema ainda em atividade.

Na longa e interminável história da máfia italiana (da qual as séries GOMORRA e SUBURRA são hoje o eco contemporâneo), a traição de Buscetta e o julgamento que se seguiu por quase dois anos foi um marco. Centenas de mafiosos foram condenados nos anos 80 e 90 por causa do Buscetta… Como todo mundo sabe, Buscetta é bom, mas para alguns é motivo de prisão e morte… er… Ok, já parei.

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Bom, Marco Bellocchio se interessa bastante na jornada do protagonista ao longo desse período, desde sua fuga para o Brasil (quando a gangue de Riina estava começando o derramamento de sangue) até sua prisão (seguida de torturas e tentativa de suicídio) e depois a extradição à Itália com sua decisão de colaborar com o sistema de justiça e ganhar uma nova vida nos Estados Unidos com sua família, cuja esposa era brasileira e em O TRAIDOR é interpretada pela Maria Fernanda Cândido. Chama a atenção o fato de Buscetta nunca se considerar um traidor, mas de ter sido traído, por vários motivos, pela Cosa Nostra, o que dá ao personagem uma complexidade de herói assombrado por certo espírito de justiça, ainda que seja difícil de enxergar quando se trata de alguém que passou a vida como um “soldado” na máfia…

Uma grande parte do filme é dedicada aos julgamentos, aos tribunais que se transformam em um teatro de bufonaria, onde a máfia se coloca como vítimas em confrontos verbais que oscilam entre retaliação, lamento e ridículo. Se não houvesse tantas mortes por trás de todo esse circo poderíamos até rir, mas a triste visão desses assassinos prontos para qualquer coisa (fingir demência, costurar a boca, mostrar o pau) para economizar tempo e tentar se safar demonstra o cinismo e frieza dignos de psicopatas. As travessuras dos gangsters presos lembram bastante algumas cenas de DIAVOLO IN CORPO, que Bellocchio realizou em 1986, e que representava julgamentos de estudantes ativistas. Já comentei sobre esse filme aqui.

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Bem distante da tradição mítica dos filmes de Mafia (como O PODEROSO CHEFÃO), O TRAIDOR parece mais um filme ensaio com inclinações documentais. Bellocchio faz um trabalho denso e didático, que raramente excede seu status de “arquivo”, com direito a nomes, número de mortes, informações e fatos expostos na tela em detrimento de emoções, mas que confere um realismo quase palpável para tratar desse lado sombrio e silencioso da Itália. Mesmo as várias sequências de assassinatos são frequentemente vistas com uma crueza de gelar a espinha. A exceção talvez seja no plano filmado de dentro de um carro que é arremessado pelos ares numa explosão. Desses momentos que prova a maestria de um veterano como Bellocchio. E quando há emoções, é especialmente no rosto maciço de Pierfrancesco Favino, formidável na pele de Buscetta, um retrato ao mesmo tempo frágil e determinado, que é um dentre tantos motivos de fascínio por O TRAIDOR. Sem dúvida mais um pra lista “melhores de 2019”.

FOI DEUS QUE MANDOU (1975)

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FOI DEUS QUE MANDOU (God Told Me To) poderia ter sido o que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA foi para Tobe Hooper, ou o que HALLOWEEN foi pro Carpenter. Produções relativamente pobres que renderam muito mais que o esperado. Infelizmente Larry Cohen não teve a mesma sorte. Até que é um filme bem realizado, cheio de idéias e reflexões filosóficas que transcende gêneros, que dialoga e propõe um olhar social. É uma pena, portanto, que tenha sido condenado ao limbo, onde só mesmo interessados por cinema grind house e produções de baixo orçamento de gênero têm o devido contato.

A abordagem de Cohen aqui é de um pessimismo quase poético. Em seu nível superficial, FOI DEUS QUE MANDOU é uma história de investigação policial, que se passa em Nova York. O filme começa com um atirador, empoleirado em uma torre de água no alto de um prédio, usando pessoas aleatórias nas ruas como alvo. Cohen filma com uma câmera na mão, no meio da multidão, num estilo seco e documental de fazer um Cassavetes se encher de orgulho, enquanto os tiros ecoam entre os prédios e os corpos começam a se acumular.

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Tony LoBianco (OPERAÇÃO FRANÇA) é o detetive Peter Nichols, que sobe a torre para confrontar o atirador e obtém uma resposta ao caos sofrido por esse homem. Quando perguntado a razão dele estar atirando nas pessoas, e antes de mergulhar em sua morte suicida, o atirador diz ao detetive que Deus lhe disse para fazê-lo. Um olhar desesperado atravessa o rosto de Nichols. As palavras “foi Deus que mandou” são poderosas o suficiente para afastá-lo de sua complacência e abrir o seu tormento psicológico há tanto tempo reprimido. Talvez palavras poderosas o suficiente para sacudir sua perda de crença religiosa e se tornar um ímpeto para a autodescoberta.

Em relação à religião, FOI DEUS QUE MANDOU não é uma jornada cheia de redenção ao estilo do que Martin Scorsese fazia na época. A cidade de Cohen em Nova York é tão suja e decadente quanto em CAMINHOS PERIGOSOS e TAXI DRIVER, mas Cohen não oferece a oportunidade para o resgate de Nichols como Scorsese faz com seus personagens. Para Travis Bickle (Robert De Niro em TAXI DRIVER), a redenção vem através de uma jornada de escuridão neurótica e uma explosão de violência. Já Cohen resolve impor à Nichols uma excursão às trevas do misticismo ou infiltração alienígena, mas cujo resultado não deixa de ser perturbador em sua abordagem à falibilidade humana e à perda da conexão com Deus.

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Nichols, em certo sentido, segue os passos de Travis Bickle, mas Cohen também se recusa a aceitar a realidade como base para sua história. Onde Travis sai do controle em um pano de fundo real, Cohen intercala o deslizamento de Nichols com o fantástico. O mistério para Nichols não é apenas descobrir quem está por trás dessa série de assassinatos realizados por pessoas que o fazem “à mando de Deus”, mas uma jornada existencial de autodescoberta. Os assassinatos são um catalisador para Nichols descobrir onde ele próprio se insere nessa trama. Todas as mortes levam à ele, que por sua vez levam a um homem chamado Bernard Philips (Richard Lynch), que se diz Deus, mas que acaba por ser uma espécie de mistura reencarnada de Cristo e do Diabo.

O discurso apocalíptico de Philips de alguma forma leva Nichols para sua mãe, que está em uma casa de repouso. Ao que parece, ela foi sequestrada por alienígenas quando era jovem e algum tempo depois concebeu Nichols, embora fosse virgem na época. Isto, naturalmente, alude à Virgem Maria e ao nascimento de Jesus Cristo. No universo de Cohen, não é despropositado fazer essas conexões.

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FOI DEUS QUE MANDOU funciona bem como complemento para outros trabalhos talvez mais conhecidos de Larry Cohen, como I’TS ALIVE (74) e Q (82). Todos os três filmes são visões apocalípticas que evidenciam a ira de Deus em resposta às desilusões da estrutura familiar (IT’S ALIVE), um Deus que envia uma serpente alada contra a humanidade (Q) e, no mais emblemático, FOI DEUS QUE MANDOU, acentua a incapacidade do homem de discernir o poder de Deus, especialmente o do antigo testamento, vingativo, que usa o homem como peão para sua própria destruição.

BLU-RAY REVIEW: VÁ E VEJA (1985); CPC UMES FILMES

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VÁ E VEJA (Idi i Smotri) acabou de sair do forno, agora em novembro, numa versão em Blu-Ray pela CPC UMES Filmes. A distribuidora já havia lançado o filme em DVD há alguns anos, numa belíssima edição, mas agora é possível sentir o poder devastador de VÁ E VEJA em alta definição. É provável que essa obra-prima perturbadora do diretor Elem Klimov seja o filme de guerra – ou anti-guerra – mais expressivo já feito. Acima de tudo, é um olhar que combina imagens surreais com uma enxurrada ininterrupta de barbárie, que mostra o pior lado que a natureza humana tem a oferecer.

Na trama, seguimos as andanças de Florya (Aleksei Kravchenko), um adolescente que quer se juntar à frota de resistência anti-nazista em 1944 na Bielorrússia e acaba sendo testemunha de todo tipo de atrocidade que uma guerra pode proporcionar. Na primeira hora, no entanto, VÁ E VEJA é um filme onírico, à beira do surrealismo, a maior parte do tempo se passa numa floresta filmada como um mundo paralelo, onde o jovem Florya emerge ainda ingênuo e inocente dessa visão da natureza. Existe até uma certa dose de humor na energia desse garoto, sempre pronto para lutar. Mas acaba deixado para trás quando as tropas partem para o combate.

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Gradualmente, VÁ E VEJA vai descendo às profundezas. A menina que acompanha Florya percebe de relance um amontoado de cadáveres fuzilados e ocultos da vista de Florya; fazem a travessia de um lamaçal que definitivamente enterrará a ingenuidade do garoto, mergulhando-o em outra realidade; vem à seguir a cena da vaca (na qual munições reais foram utilizadas e que passavam a dez centímetros da cabeça do ator). E finalmente, estamos mergulhados no inferno total. A segunda parte de VÁ E VEJA é uma jornada exaustiva, radical, quase sem diálogos, que nega o tipo de delírio visual da primeira parte: Flyora será confrontado com a crueldade humana, testemunha de várias abominações, incluindo o massacre de homens, mulheres e crianças.

Em nenhum momento Klimov apela para uma violência gráfica na tela, mas a encenação e as imagens que surgem a partir daí são brutais. E Flyora se afunda cada vez mais num estado de letargia e descrença do mundo que se decompõe diante dos olhos. (enfatizados pelos closes expressionistas em seu rosto devastado e agora envelhecido).

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Não é tarefa das mais fáceis colocar em palavras o nível de tensão que VÁ E VEJA proporciona em seu ápice. E o choque vem tanto das situações que o filme mostra como também pelo trabalho formal de Klimov, quase uma anomalia artística que surge num filme cheio de momentos pesados e aterradores. Mise en scène, direção dos atores (magníficos, frequentemente atuando com os olhos voltados diretamente para a câmera), o uso da música, a criação de uma atmosfera angustiante, tudo incrível… E deve ter sido desses trabalhos extremamente difíceis emocionalmente de elaborar, realizar, decupar… Acabou sendo o último filme do diretor, que morreu em 2003.

Truffaut é habitualmente citado (Roger Ebert, por exemplo) dizendo que não seria possível fazer um filme “anti-guerra”, porque a energia e senso de aventura acabam fazendo as batalhas parecerem divertidas. Não sei se acredito que Truffaut tenha dito isso exatamente com esse significado, mas caso seja verdade, se tivesse vivido mais um pouquinho para ver VÁ E VEJA, é bem provável que mudasse de opinião. Até porque o filme não se concentra no campo de batalha, tem mais intenção de retratar a vida de pessoas comuns confrontadas pela guerra. Só que o faz com uma maestria, brutalidade e intensidade rara. Uma obra perfeita em todos os sentidos.

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Embora VÁ E VEJA tenha ganhado popularidade nas últimas décadas, não dá pra deixar de mencionar também o filme A ASCENÇÃO (77), que comentei aqui recentemente, outro filme de guerra soviético essencial, dirigido por Larisa Shapitko – que era esposa Klimov, falecida em 79. É uma obra-prima que merece ser redescoberta. Foi lançado em DVD pela A CPC UMES filmes há poucos meses. Agora, VÁ E VEJA chega ao Brasil em outro patamar e pode ser contemplado em alta resolução, em Blu-Ray. Já se encontra disponível nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora.

Não deixe também de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar por dentro das novidades, especialmente do cinema soviético, e os seus próximos lançamentos em DVD e Blu-Ray.

A CASA DO DRÁCULA (1945)

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Mais um adendo à peregrinação dos filmes de Frankenstein da Universal que tenho feito aqui no blog. Depois de A CASA DE FRANKENSTEIN, o monstro retorna agora, ainda que minimamente, em A CASA DO DRÁCULA (House of Dracula).

Descrever a trama deste aqui é um exercício praticamente inútil, especialmente se você tem acompanhado as postagens recentes sobre o tema… A fórmula é basicamente a mesma dos últimos filmes, os personagens também são exatamente os mesmos – Drácula, monstro de Frankenstein, Talbott/Lobisomem – os mesmos temas… E existe ainda o risco de começarmos a procurar coisas que façam sentido nessas bagunças que misturam monstros, mas será tudo em vão. De qualquer maneira, vamos lá…

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O personagem que vai conduzir o fio desta vez, em A CASA DO DRÁCULA, é o Dr. Franz Edelmann (Onslow Stevens), um médico idealista, especializado, aparentemente, no tratamento de monstros, já que sua sala de espera está cheia de vampiros, lobisomens e o Monstro de Frankenstein… Na verdade, a trama começa quando o Conde Drácula (John Carradine) aparece. Ao que tudo indica, o vampirão está entediado com a vida eterna e quer se tornar um humano normal. E o Dr. Edelmann tem um tratamento revolucionário para isso, que envolve transfusão de sangue e algo a ver com glândulas, cirurgia craniana e, bom, não vale a pena se apegar nesses detalhes…

Larry Talbott, o Lobisomem, novamente encarnado por Lon Chaney Jr., também aparece por aqui com seu eterno desejo de morrer. Como as coisas não correm bem, o sujeito tenta tirar a vida se jogando de um penhasco. Felizmente, há uma caverna subterrânea na qual Larry acaba indo parar. O médico o resgata, e quem eles encontram soterrado no local? Claro… O Monstro de Frankenstein. Eu sei que isso vai ser difícil de acreditar, mas a partir daqui o enredo consegue ficar ainda mais bizarro. Cenas de transfusões de sangue com o Drácula, tentativas de reviver o monstro de Frankenstein, assassinatos misteriosos e, claro, a multidão de aldeões portadores de tocha empenhados em destruir tudo. Como vimos em todos os filmes anteriores…

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Lon Chaney Jr. repetindo a mesma performance como Larry Talbott/Lobisomem já deu, né? O sujeito até tenta dar alguma dignidade à sua atuação, mas é uma causa perdida a essa altura. John Carradine prova ser o Drácula mais chato da história. As únicas duas atuações que merecem destaque são a de Onslow Stevens como Dr. Edelmann, com uma pegada meio “O Médico e o Monstro”, e Jane Adams, que faz a enfermeira assistente do doutor e que, para não perder o costume, é corcunda.

De resto, não há uma construção muito boa de suspense ou mistério. Na verdade, a impressão que dá é de desespero da Universal em manter sua audiência interessada em filmes de monstro, realizando qualquer porcaria pra ver se dava certo… E olha que eles nem tinham feito ainda ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN. Mas apesar da bobagem, eu até gosto deste, me divirto com a dupla de comediantes se metendo em confusão com os ícones do horror. Já A CASA DO DRÁCULA, é só um desperdício de celuloide…

A CASA DE FRANKENSTEIN (1944)

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A CASA DE FRANKENSTEIN (House of Frankenstein), lançado um ano depois de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM, foi um dos infames (mas comercialmente bem-sucedido) filmes de crossover de monstros da Universal. Aqui temos Drácula, Lobisomem e o Monstro de Frankenstein, embora talvez curiosamente seus papéis não sejam realmente centrais. Não é lá um filme muito bom, mas tem seus momentos e é estranhamente agradável de se assistir. Até porque possui uma variedade formidável de ícones do horror do período em seu elenco: Boris Karloff retornando à serie, John Carradine, Lon Chaney Jr e J. Carrol Naish.

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Na trama, o Dr. Gustav Niemann (Boris Karloff) continua o trabalho do famoso Dr. Frankenstein e, como resultado, agora está apodrecendo na prisão. Ele ainda sonha em retomar o trabalho, mas parece improvável que seja capaz de fazê-lo encarcerado. Então o destino intervém – a prisão é atingida por um vendaval que destrói os seus muros, permitindo que Niemann e um outro prisioneiro, o corcunda Daniel (J. Carrol Naish), escapem.

Agora, Niemann pode voltar às suas experiências. Mas há duas tarefas que ele precisa realizar primeiro: encontrar os cadernos do Dr. Frankenstein e se vingar dos homens cujo testemunho o colocou na prisão. Então, com Daniel como seu fiel assistente, ele tem uma série de atividades ambiciosas para colocar em prática. E a partir daqui o filme vira uma bagunça de monstros surgindo pra todo lado…

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Na fuga, um encontro casual com um show itinerante da Câmara dos Horrores dirigido por um tal professor Lampini (George Zucco) oferece a Niemann a oportunidade útil de disfarce perfeito, permitindo que viaje pelos campos sem ser reconhecido ou atraindo suspeita. Uma das exposições de Lampini é o esqueleto de Drácula. É claro que ninguém acredita que é o esqueleto do famoso vampiro, mas quando Niemann remove a estaca do esqueleto, descobre que é realmente o Conde Drácula, que volta à vida.

Encerrado o arco com o Drácula, Niemann está ansioso para voltar ao seu laboratório, especialmente depois de encontrar não apenas os preciosos cadernos do Dr. Frankenstein, mas também os corpos congelados do Lobisomem e do Monstro de Frankenstein. O cientista tem um interesse particular em transplantes de cérebro e agora ele tem muitos cérebros e muitos corpos para brincar. E obviamente, como se trata de um filme horror, você não pode sair por aí ressuscitando mortos e transplantando cérebros de monstros sem que algo dê errado. E nesse caso, o que dá errado é um trágico triângulo amoroso entre o corcunda, o lobisomem e uma cigana…

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Talvez o grande problema de A CASA DE FRANKENSTEIN seja justamente essa combinação desnecessária de vários monstros… Quero dizer, claro que eu adoro a ideia de juntar esses ícones do horror num mesmo filme, mas que seja de uma maneira bem pensada. Por aqui, a trama do Dr. Niemann com seu fiel ajudante, o corcunda Daniel, já tinha material suficiente para um grande filme. Mas resolveram entuchar de monstros sem exatamente uma conexão lógica com o enredo.

O roteiro de Edward T. Lowe Jr (baseado na história de Curt Siodmak) não consegue resolver essa dificuldade. O trecho de Drácula, por exemplo, acaba sendo como um curta-metragem dentro do filme. A história do Lobisomem apaga totalmente a presença do Monstro de Frankenstein, que acaba desempenhando apenas um papel insignificante no final. Como disse, o principal foco da trama é a história da obsessão de Niemann por superar as conquistas de Frankenstein, combinada com os trágicos envolvimentos românticos causados ​​pela chegada da bela cigana Ilonka (Elena Verdugo) no pobre corcunda Daniel. E isso bastava.

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Se os vários aspectos da trama nunca se juntam com muito sucesso, é preciso destacar pelo menos que o filme é tecnicamente bem executado. O diretor Erle C. Kenton mantém um ritmo frenético e oferece muitas emoções ao longo dessa bagunça. Alguns toques visuais são bem interessante (como a cena do assassinato do morcego-vampiro visto apenas em silhueta). A Universal sempre teve a proeza de conseguir fazer com que seus filmes de terror menores, sem grandes orçamentos, parecessem produções mais ricas e aqui não é exceção. Os cenários são impressionantes, especialmente a caverna de gelo onde Frankenstein e Lobisomem são encontrados. As cenas de transformação de monstros são bem feitas, especialmente a do Drácula que vai do estágio de esqueleto até chegar a um vampiro de carne e osso.

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E as atuações, como sempre, variam de boas à excelentes. O desempenho de Karloff é interessante, com seu Dr. Niemann sempre afável, falado em voz baixa e até gentilmente, mas basta alguém se colocar em seu caminho e ele os descarta com crueldade de tirar o fôlego. É como se ele estivesse tão obcecado por seu trabalho que matar é apenas uma pequena irritação. Só é meio estranho vê-lo de volta à série sendo que ele fora o primeiro monstro de Frankenstein, nos três filmes maids marcantes. Portanto é meio bizarro vê-lo contracenando com o monstro (desta vez interpretado por Glenn Strange, que se tornaria oficialmente o monstro nos filmes seguintes produzidos pela Universal).

Lon Chaney Jr. poderia ter interpretado Larry Talbott/Lobisomem até de olhos fechados a essa altura, mas ele adiciona seus toques característicos de pathos, a tragédia, a vontade morrer, o que é sempre bom de ver. John Carradine é um Drácula sinistro e eficaz, uma pena que aparece tão pouco, mas no filme seguinte, A MANSÃO DE DRÁCULA, ele retorna ao personagem. J. Carrol Naish é quem acaba se destacando por aqui como o corcunda Daniel, um assassino de sangue frio, um fiel ajudante e uma vítima de um amor que deu errado.

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A CASA DE FRANKENSTEIN pode até ser desconjuntado, é um pouco mais do que um amontoado de idéias não muito originais e de acumulação de monstros sem qualquer sentido, mas tudo é tão  bem executado visualmente que não se pode deixar de perdoar seus defeitos. E é sempre divertido vê-los tentando espremer ainda mais de uma fórmula tão desgastada. Acaba por ser mais um filme de monstro da Universal que recomendo uma conferida.

FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (1943)

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (Frankenstein Meets the Wolf Man) foi o primeiro dos grandes crossovers de monstros da Universal. O que na verdade faz parte de uma tentativa desesperada de açoitar um cavalo morto. Já que o filme anterior do Monstro de Frankenstein já demonstrava o desgaste da fórmula*. Embora nos anos 40 ainda surgissem coisas interessantes, como O LOBISOMEM, que comentei no post anterior, ou passatempos patetas, como este aqui, que apesar da bobagem inerente da ideia, é um filme que acaba sendo bem mais divertido do que tinha o direito de ser…

*Quando me refiro a “desgaste da fórmula”, falo especificamente dos “filmes de monstros”… Frankenstein, Drácula, Homem Invisível, personagens que ganharam várias continuações na Universal. No entanto, de um modo geral, a Universal continuava fazendo filmes brilhantes de Horror.

Grande parte de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM é mais uma continuação de O LOBISOMEM do que de FANTASMA DE FRANKENSTEIN. A trama se passa quatro anos após os eventos que levaram a Larry Talbot, o Lobisomem, mais uma vez encarnado por Lon Chaney Jr., à derrocada. Ladrões de túmulos invadem a cripta da família Talbot, acreditando que dinheiro e jóias foram enterrados com o corpo de Larry, mas quando abrem o caixão, com a lua cheia no céu, o Lobisomem volta à vida.

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Alguns dias depois, Larry acorda num hospital em Cardiff, bem longe do local onde estava seu túmulo. Sua surpresa por estar vivo logo dá lugar ao desespero quando percebe a terrível verdade: que não pode morrer. E tudo o que o sujeito quer é exatamente isso, morrer. Portanto, vai à procura de alguém que possa ajudá-lo. Ele encontra a cigana Maleva, a mãe de Bela, o homem que o transformou em um lobisomem no filme anterior. Maleva diz que há alguém que pode ajudá-lo: o famoso Dr. Frankenstein. Só que quando encontram o castelo de Frankenstein, descobrem que os moradores o incendiaram para destruir o Doutor e seu monstro, como vimos em FANTASMA DE FRANKENSTEIN. Mas no local, procurando os diários do cientista, Larry encontra o monstro envolto de gelo, vivo!

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Acreditando que o monstro pode lhe dizer onde os escritos do Dr. Frankenstein estão escondidos – que contêm o segredo da vida e da morte – Larry libera o monstro. Mas não conseguem encontrar os documentos.

Larry não desiste e encontra a filha do Dr. Frankenstein, que eventualmente ajuda a encontrar o diário do cientista. Na sua busca pela morte, Larry acha outro aliado, o médico que o tratou no hospital, o Dr. Frank Mannering, que restaura o laboratório de Frankenstein no castelo demolido para livrar o protagonista de sua agonia, mas os resultados não são exatamente o que Larry esperava.

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O fato de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM funcionar de certa maneira tem muito a ver com as pessoas talentosas envolvidas na produção. Curt Siodmak havia escrito o belo roteiro de O LOBISOMEM, e mesmo que aqui a coisa não saia tão certo – a história é extremamente forçada e alguns diálogos são terríveis – dá pra perceber que contém algumas idéias interessantes. Roy William Neill era diretor de vários filmes de Sherlock Holmes da Universal e tinha jeito para suspense, para a construção de uma atmosfera gótica e sombria que ajuda a tornar o filme visualmente atrativo.

Além disso, temos mais uma vez Jack Pierce fazendo as maquiagens. As cenas de transformação do Lobisomem, por exemplo, são até melhores do que a do filme anterior do personagem. Tecnicamente, FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM acaba se revelando um filme muito bom, com vários ótimos momentos isolados. A revelação do monstro atrás da parede de gelo é um destaque, assim como o confronto maluco entre os dois personagens título perto do fim… Que poderia ter uma duração um pouco maior. Mas dá pro gasto.

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No elenco, Lon Chaney Jr mais uma vez apresenta uma performance sensível como o trágico Larry Talbot. E Bela Lugosi, depois de tentar o papel de monstro de Frankenstein desde o primeiro filme, lá em 1931, finalmente consegue encarnar o personagem. Não é das suas melhores atuações (ele está muito melhor como Ygor), mas o faz com certa personalidade. Claro, nem parece o mesmo monstro dos filmes anteriores, mas isso acaba não importando… Até porque esses filmes de monstros da Universal não estão nem aí para a lógica. No FANTASMA DE FRANKENSTEIN, por exemplo, haviam colocado o cérebro de Ygor no corpo do monstro. Mas ao acordar aqui, isso é totalmente ignorado e o personagem age como o monstro estúpido de sempre. Como disse, isso pouco importa.

No fim das contas, apesar dos realizadores estarem claramente espremendo as últimas gotas da laranja, FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM é feito com um grau de habilidade que o material talvez nem merecesse… Mas é uma bobagem bem agradável de se assistir.

O LOBISOMEM (1941)

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Tive que acrescentar um adendo à maratona de filmes sobre Frankenstein que venho postando aqui no blog. O Adendo é O LOBISOMEM (The Wolf Man) e vou explicar o porquê. Depois de FANTASMA DE FRANKENSTEIN, o personagem só retorna em FRANKENSTEIN MEETS THE WOLF MAN, que é o primeiro crossover do personagem com outro monstro clássico da Universal. Então, nada mais justo que apresentar este outro monstro e falar um pouquinho deste seu primeiro filme.

Só que estamos falando de um Lobisomem específico, cujo protagonista é Larry Talbot, vivido por Lon Channey Jr. Porque O LOBISOMEM não foi, obviamente, o primeiro filme de lobisomem… Não foi nem o primeiro filme de lobisomem da Universal, que ainda na década de 30 havia lançado THE WEREWOLF OF LONDON (1935). Mas este aqui foi o filme responsável por colocar lobisomens no mapa, definindo o modelo no qual a maioria dos futuros filmes com o personagem seria inspirado.

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Larry Talbot é o segundo filho de um barão inglês, Sir John Talbot (Claude Rains). Como não é o primogênito, não podia herdar a propriedade ou nenhum título e, sentindo que seu pai pouco se importava com ele, fez as malas e se mudou para os Estados Unidos. Como resultado da morte inesperada do filho mais velho de Sir John, tudo mudou. Larry voltou ao seio da família após dezoito anos, embora talvez mais por um vago senso de dever familiar do que por qualquer outra coisa. No entanto, quando Sir John sugere que eles devem esquecer o passado e reatar os laços, Larry aceita sua posição como herdeiro.

Quando Larry conhece Gwen (Evelyn Ankers), o sujeito começa a se sentir mais animado no local. Embora esteja noiva do chefe de guarda de Sir John, a moça também parece demonstrar algum interesse no protagonista. Tudo está indo bem até a fatídica noite em que Larry e Gwen visitam um campo cigano, acompanhado por Jenny, amiga de Gwen, que deseja ler sua sorte. Mas o cigano Bela (Bela Lugosi) fica meio agitado quando olha para a palma da mão dela e vê um pentagrama. Momentos depois, Larry vê Jenny sendo atacada por um lobo e vai salvá-la. Acaba mordido, mas consegue matar o animal. Os únicos corpos encontrados, no entanto, são o de Jenny e de Bela. Nenhum lobo… Bela era, naturalmente, um lobisomem, e agora esse também será o destino de Larry.

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O roteiro original de Curt Siodmak tinha o personagem de Larry como um americano chamado Larry Gill, que não tinha qualquer relação com Sir John Talbot. Ele simplesmente veio à Inglaterra para instalar um telescópio para o velho. Mais importante, essa primeira versão sugeria que Larry simplesmente acreditava que ele era um lobisomem, mas a questão da transformação física ficava ambígua. Ainda há vestígios dessa versão no filme quando Sir John acredita que seu filho está sofrendo de uma ilusão provocada por algum choque, e que o lobisomem é uma metáfora para o lado sombrio da personalidade humana. Uma metáfora que teria se tornado real na mente de Larry.

Embora essa versão tenha ideias interessantes, e de fato é a base para o excelente CAT PEOPLE, de Jacques Tourneur e produzido por Val Lewton no ano seguinte. A Universal, no entanto, tomou a decisão de pedir a Siodmak que reescrevesse o script para tornar o lobisomem um monstro real, sem ambiguidade. Afinal, é o que o público da Universal esperaria. Os filmes de Lewton/Tourneur adotaram uma abordagem diferente de se fazer horror, mas ambas aproximações são válidas à sua maneira.

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Em O LOBISOMEM, Lon Chaney Jr. tem a sua melhor performance. Ele faz de Larry Talbot um personagem dramático e complexo que talvez seja a chave para o grande sucesso do filme. Ele é o mais trágico de todos os monstros da Universal, um homem que não fez nada para merecer seu destino. E Chaney consegue transmitir tudo isso sem recorrer a um sentimentalismo barato. Outro ator que vale destacar é Claude Rains como Talbot pai, excelente como sempre. Bela Lugosi brilha no seu breve tempo na tela, mas é  vergonhosamente subutilizado. Merecia muito mais…

O diretor George Waggner pode não ter sido o realizador mais inspirado do mundo, mas é bom o suficiente para trabalhar os elementos de horror com competência, consegue criar uma atmosfera densa e ainda dá uma boa atenção ao estado psicológico do protagonista. A fotografia e direção de arte se combinam para tornar O LOBISOMEM visualmente aterrorizante, especialmente nas cenas noturnas, nas florestas e pântanos envoltos de névoa, todos cenários construídos em estúdio. Acabam parecendo artificiais, mas num bom sentido, dando ao filme a sensação de um conto de fadas sombrio. E ainda temos a maquiagem de lobisomem criada por Jack P. Pierce (o mesmo da série de FRANKENSTEIN), que mais uma vez torna icônico o visual de um monstro clássico.

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Posso dizer com toda certeza que O LOBISOMEM é um dos grandes filmes de monstro do período e sua estrutura de tragédia grega é fascinante, que funciona maravilhosamente bem como um filme de horror, mas com um impacto emocional maior do que a maioria dos filmes do gênero que a Universal produzia.

OS BONS COMPANHEIROS (1990)

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Mais um para o esquenta do THE IRISHMAN, novo filme de Martin Scorsese que está aproximando cada vez mais da estreia na Netflix. Na verdade, acho que essa semana já teremos cinemas passando o filme, se não estou enganado. Bom, enquanto não tenho certeza, vamos de OS BONS COMPANHEIROS (Goodfellas), que foi o segundo grande filme de máfia do Scorsese depois daquela lindeza que é CAMINHOS PERIGOSOS, que eu comentei aqui na semana passada.

Gosto de fazer um paralelo de OS BONS COMPANHEIROS com os filmes de máfia do Coppola, a saga d’O PODEROSO CHEFÃO, que é uma visão mais romantizada do crime organizado, representando a nata da máfia que governa como monarcas. Enquanto o filme de Scorsese é uma espécie de refutação, que retrata os bandidos e soldados que povoam o submundo da máfia e a fragilidade de suas próprias existências. Não os bandidinhos ralé de CAMINHOS PERIGOSOS, mas criminosos que chegam a atingir certo status, mas ainda estão longe do topo. Isso não quer dizer que uma abordagem é melhor que a outra, apenas são diferentes. Em vez de ver homens honoráveis, quase míticos, como Don Corleone, em OS BONS COMPANHEIROS somos levados a ver como a coisa funciona para aqueles que estão tentando sobreviver no submundo: assaltos, brigas, tráfico de drogas, a violência que deflagra completamente sem sentido…

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OS BONS COMPANHEIROS foi baseada no livro Wiseguy do jornalista Nicholas Pileggi, que conta a vida do gângster, que se torna informante, Henry Hill. O sujeito é um meio-siciliano meio irlandês que cresceu no Brooklyn e desde novo idolatra os gangsters que trabalham do outro lado da rua. Vendo-os indo e vindo como bem entenderem, Hill fica determinado a ser um deles. Isso acaba o levando a trabalhar para Tuddy (Frank DiLeo), cujo irmão, Paul (Paul Sorvino), é o chefe do bairro. Ignorando os apelos de sua família, que tenta mantê-lo longe dos bandidos, o jovem Henry (Christopher Serrone) decide que essa é a vida que ele levará. Não tem mais necessidade de estudos, trabalho “normal” ou outras atividades comuns dos adolescentes. Ele só quer aprender a ganhar dinheiro.

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A história avança e Henry (agora encarnado por Ray Liotta) cresce, unindo forças com os compatriotas Jimmy Conway (Robert De Niro) e Tommy DeVito (Joe Pesci). Em Jimmy, Henry encontra um mentor. Um criminoso experiente e um homem que realmente gosta do crime e da política do submundo. Mas como ele é irlandês, nunca poderá ser um “homem feito” oficialmente, ou seja, nunca vai subir os níveis na “cadeia alimentar” da Cosa Nostra. Mas Jimmy tem bastante poder trabalhando para Paulie, supervisionando os vários esquemas de Henry e Tommy. Este último é a dinamite prestes a explodir. Um psicopata que rotineiramente rompe em fúria assassina.

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A vida dos caras se resume em fazer todo tipo de crime – desde simples assaltos de caminhões de carga à um complexo roubo em um aeroporto – e desfrutar de um certo prestígio que essa vida lhes dá, ganhando “respeito” no submundo e frequentando os melhores restaurantes da cidade. Após assassinatos indevidos, passagens pela prisão, o movimento nos 70 para o mundo do narcotráfico, o caminho de todos começa a mudar, para o bem ou para o mal. Mais para o mal, na verdade… Até o ponto em que Henry precisa fazer a escolha da sua vida: arriscar a sobrevivência nesse mundo ou testemunhar contra seus amigos.

Para um filme de duas horas e meia de duração, OS BONS COMPANHEIROS se move num ritmo frenético e vertiginoso que é simplesmente uma delícia de se acompanhar. Scorsese tem o completo domínio de seu filme, que é um bom exemplo para se recorrer quando se pensa no virtuosismo de Scorsese como diretor. Há sequências que são verdadeiras aulas de cinema, como os famosos planos com a câmera deslizando pelas boates enquanto os personagens interagem entre si. Ou então na sequência em que os corpos dos membros da equipe do assalto da Lufthansa começam a aparecer por toda a cidade. A câmera se move graciosamente e vai revelando corpos em Cadillacs, caminhões de lixo ou pendurados em congeladores de carne, com as tensões do piano da clássica “Layla” tocando ao fundo.

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São várias sequências clássicas. Como o arco que envolve o assassinato brutal de Billy Batts (Frank Vincent), e o trio principal se livrando do corpo. Mas um dos momentos que mais me impressionou nessa revisão – e que já não lembrava da sua intensidade – é o capítulo próximo ao final do filme, quando a vida de Henry fica completamente fora de controle. O sujeito sabe que já não pode contar muito com Jimmy e Paulie e depende cada vez mais da venda de cocaína como sua única renda. E em um dia específico, Scorsese mostra os malabarismos de Henry em realizar várias tarefas – entregar silenciadores de armas para Jimmy, encontrar seu contato do tráfico, pegar seu irmão, organizar a próxima viagem de contrabando para uma garota – enquanto vai ficando cada vez mais surtado, estressado e paranoico além do seu limite. Especialmente por conta de um helicóptero que o protagonista acredita de pés juntos que está o seguindo aonde quer que vá.

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E Scorsese retrata sensorialmente esse sentimento de paranoia e estresse apenas pela maneira como filma e edita. Em parceria com sua colaboradora de longa data, a editora Thelma Schoonmaker, a montagem é cheia de cortes rápidos para mostrar o ritmo frenético em que a mente de Henry funciona, à mil por hora, e realmente sentimos o cara à ponto de explodir a qualquer momento. Além disso, a trilha sonora de toda essa sequência é perfeita, pulando entre estilos e humores, como “Monkey Man”, dos Rolling Stones, “What Is Life”, de George Harrison e “Manish Boy”, de Muddy Waters… Tudo embalado de forma descontrolada, como deve ser.

O elenco é uma das forças de OS BONS COMPANHEIROS. Não consigo pensar em nenhuma outra performance na carreira de Ray Liotta que seja tão expressiva quanto seu desempenho como Henry Hill. Robert De Niro certamente tem melhores atuações, inclusive trabalhando com Scorsese, mas seu Jimmy, com a natureza calculista e insensível necessária para o personagem é sem dúvida mais um dos destaques de sua carreira. Lorraine Bracco também merece reconhecimento como Karen Hill, a esposa de Henry que também é consumida pelo estilo de vida dos mafiosos. É interessante observar sua progressão de dona de casa ingênua para basicamente uma comparsa nas operações de drogas do marido. Além dos já citados, o filme ainda tem uma participação bacana de Samuel L. Jackson, Michael Imperioli e algumas pontinhas ao fundo de Vincent Gallo.

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Mas o grande destaque, o tour de force de OS BONS COMPANHEIROS, é Joe Pesci. Ele é a versão moderna dos personagens vividos por James Cagney nos dias dourados de Hollywood. O homem é um psicopata e suas repentinas e inesperadas explosões de violência são realmente chocantes. Cenas como o assassinato à sangue frio do jovem Spider (Imperioli) por não lhe trazer uma bebida causa certa impressão até mesmo a quem já está acostumado com filmes de máfia. Ao mesmo tempo, Tommy é um sujeito leal e que pode ser incrivelmente engraçado. Todo mundo lembra da famosa cena “Funny how? What’s funny about it?” entre Tommy e Henry, mas há outros momentos que sempre me fazem rir. Coisas como Tommy tentando convencer Henry a ir a um encontro de casais, ou depois que ele atira em Spider e Henry declara que o garoto está morto e Tommy responde com naturalidade: “Good shot. What do you want from me? Good shot. Fuckin’ rat anyway.

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Enfim, é um filme muito rico, com vários momentos marcantes e imagens icônicas e eu não saberia como continuar abordando tudo o que gostaria sem que soasse chato e repetitivo e uma punhetagem (que é o que este texto já virou há muito tempo)… Ficaria dias falando sobre tudo pelo qual sou apaixonado em OS BONS COMPANHEIROS. Pelo que me lembre, foi o primeiro filme de Scorsese que assisti, quando ainda era moleque nos anos 90 e nunca me canso de rever. Richard Linklater diz que este filme só se revela mesmo como obra-prima lá pela terceira ou quarta vez que você o vê. Como eu já perdi as contas de quantas vezes já vi, “obra-prima” é pouco pra ele. Até hoje me impressiona como OS BONS COMPANHEIROS é um filme que pode ser tão popular e divertido e, ao mesmo tempo, atingir o nível mais alto de sofisticação das maiores obras de arte do cinema.

PS: Apesar de tantos elogios, ainda prefiro CAMINHOS PERIGOSOS.

FANTASMA DE FRANKENSTEIN (1942)

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FANTASMA DE FRANKENSTEIN (Ghost of Frankenstein) é o quarto filme da série do monstro de Frankenstein que a Universal produziu e, não surpreende em nada, é o mais fraco até então. Mas ainda é divertido por vários motivos.

E uma das coisas que mais me alegra nesses filmes é como os realizadores forçavam a barra na cara dura para continuar a história. Personagens mortos voltam sem qualquer explicação, conveniências caem no colo do espectador, que simplesmente tem que aceitar e se divertir com tanta bobagem. Mas que no fim das contas tem seu charme. FANTASMA DE FRANKENSTEIN, por exemplo, começa quase imediatamente após os eventos de O FILHO DE FRANKENSTEIN, que comentei recentemente. Descobrimos que mesmo cravado de balas, Ygor (Bela Lugosi) sobreviveu. Os moradores da região decidem que queimar o Castelo Frankenstein e matar de vez Ygor é o único jeito de levar paz ao local. Infelizmente, para eles, não apenas falham em matar Ygor, como também ao usarem explosivos no castelo trazem o monstro (agora encarnado por Lon Chaney Jr.), que havia caído num poço de enxofre fervente, de volta à vida.

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Agora, numa dessas demonstrações de que a Universal estava espremendo as ideias forçadas até a última gota, Ygor e o monstro partem para uma cidade vizinha em busca de OUTRO filho do Dr. Frankenstein, o também doutor Ludwig Frankenstein (Cedric Hardwicke), que convenientemente é um especialista em doenças da mente…

Mal chegam ao local e imediatamente começa a confusão. O monstro tenta ajudar uma menina, mas acaba matando duas pessoas da cidade no processo. Acaba preso, mas é claro que a polícia não pode segurá-lo por muito tempo. Depois de escapar, Ygor e o monstro se abrigam na casa de Ludwig, que é chantageado para ajudá-los a tornar o monstro mais forte. Ludwig propõe um plano: substituir o cérebro da criatura por um saudável (lembrando que lá no primeiro filme, o monstro recebe o cérebro de um psicopata). Felizmente, Ludwig tem em mãos o cérebro de seu jovem assistente, convenientemente morto pelo monstro. Só que Ygor tem seu próprio plano, que é utilizar o seu cérebro, e assim ele e a criatura se tornariam um só.

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Bela Lugosi em FANTASMA DE FRANKENSTEIN mais uma vez rouba a cena interpretando Ygor. O desempenho um bocado sem vida de Cedric Hardwicke como Ludwig Frankenstein e o monstro inexpressivo de Lon Chaney Jr, que não consegue substituir Boris Karloff à altura, facilita para que Lugosi se destaque. O sujeito estava ainda em plena forma e o roteiro faz seu personagem dominante, da mesma maneira que em O FILHO DE FRANKENSTEIN. Lionel Atwill – que fez outro papel no filme anterior – retorna agora como assistente-chefe de Ludwig Frankenstein, Dr. Bohmer, que é um personagem muito mais interessante e complexo do que o próprio Ludwig. Bohmer foi o mentor científico de Ludwig até que um erro infeliz destruiu sua carreira. Suas ambições de restaurar sua reputação estão associadas às maquinações de Ygor.

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Ainda sobre o elenco, A ausência de Karloff obviamente é uma grande perda. O ator não se interessou muito em reviver o monstro e usar a pesada maquiagem de Jack P. Pierce. E é também lamentável que Basil Rathbone, que tinha feito o excelente Wolf Frankenstein no filme anterior, não estivesse disponível.

Como era habitual nos filmes de monstros da Universal, o roteiro de FANTASMA DE FRANKENSTEIN passou por várias reescritas, mas o diretor Erle C. Kenton era, na melhor das hipóteses, um artesão habilidoso que conseguiu pelo menos manter o ritmo e não deixar a coisa se transformar num tédio. E o filme tem pouco mai de uma hora, passa voando. O FILHO DE FRANKENSTEIN, em 1939, havia sido a última tentativa da Universal de continuar sua tradição de filmes de terror com uma produção abastada. Fizeram obviamente bons filmes de terror depois disso, mas eram B movies, com orçamentos mais discretos, como é o caso de FANTASMA DE FRANKENSTEIN. O filme não possui cenários suntuosos e imaginativo em comparação aos filmes anteriores, mas até que não são ruins. E a fotografia é excelente, como em todos os filmes de monstros da Universal. Sombria e recheada de elementos góticos.

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FANTASMA DE FRANKENSTEIN marcou uma desaceleração significativa no ciclo de filmes com o universo Frankenstein pela Universal. Foi a última produção, por exemplo, a ter o Monstro de Frankenstein numa “aventura” solo. Todos os filmes seguintes o personagem dividiu a tela com outros monstros da produtora, como DRACULA e WOLF MAN… De qualquer maneira, FANTASMA DE FRANKENSTEIN vale uma conferida. Os roteiristas já estavam tirando leite de pedra para trazer um novo parente de Frankenstein e poder continuar a história, mas não significa que seja um filme ruim. É legal para quem já está acostumado com esse tipo de produção e ainda tem o Lugosi mais uma vez demonstrando porque é um dos maiores ícones do horror clássico.

PARASITA (2019)

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Vi PARASITA já faz um tempinho, mas como o filme tá estreando nos cinemas pelo Brasil acho que vale a pena fazer uns comentários. Até porque é um dos grandes filmes de 2019. E também porque adoro o trabalho do Bong Joon-ho, esse diretor coreano que possui o talento de aproximar como poucos o riso, o cômico, ao grito de horror. E é exatamente o que acontece por aqui em PARASITA, que levou a Palma de Ouro em Cannes deste ano e que proporciona ao mesmo tempo um prazer extraordinário e um profundo mal-estar. O tipo de filme que você se sente tanto revigorado (pelo poder cinematográfico de Bong) quanto nocauteado (pela acidez como aborda o lado podre da sociedade).

E Cannes parece ter confirmado um certo apreço por filmes que retratam famílias à margem, como no vencedor do ano passado, ASSUNTO DE FAMÍLIA (Shoplifters), de Hirokazu Koreeda. Em PARASITA temos um pai, mãe, filha e filho, que vivem juntos em certa harmonia, mas em condições miseráveis, no subsolo de um edifício, no qual a única janela se abre para um beco sujo onde os bêbados usam para mijar. O filho acaba contratado como professor particular de inglês por uma família rica (que vive em uma bela casa, grande, arquitetura moderna, com vista para a cidade), falsificando um diploma. Em seguida, organiza para que sua irmã seja contratada como terapeuta de educação artística. Ela arruma um jeito de fazer o motorista dessa família ser demitido para que seu pai seja contratado no lugar. E o pai reserva o mesmo destino à fiel governanta, para que sua esposa seja contratada…

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Em determinado momento, quando a família está sozinha nesta casa, desfrutando de uma viagem de seus chefes, apossam-se de boa comida, fartura, bebida e conforto. Ficam totalmente bêbados e sentimentais… E é quando começamos a sentir Bong brincando de fazer suspense, revelando a verdadeira face de PARASITA. É quando a sátira transcende e toma uma forma mais obscura e aterradora. Quase um filme de horror sobre luta de classes, sem qualquer tipo de condescendência. E o mais incrível, sem perder o humor.

Não há espaço para “vilões” e “mocinhos” no olhar de Bong. Os chefes ricos têm seus defeitos, seus lados doentios e ridículos. Mas também são pessoas boas e atenciosas. Quanto à família pobre de golpistas, existe uma sinceridade e um desespero que faz seus membros lutarem para sair da situação que se encontram. Mas ao mesmo tempo, são isso mesmo: golpistas. A única solução que encontram para sair do subterrâneo é a farsa. Mas PARASITA não é filme de ficar fazendo julgamentos moralistas pra cima dos personagens, que os utiliza em prol de uma inteligente sátira sobre as classes da sociedade. Que é curiosamente cômica, mas não deixa de causar um abalo perturbador.

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Para finalizar, um elogio. Fiel ao diretor desde MEMÓRIAS DE UM ASSASSINO, Song Kang-ho, que faz o papel do pai da família golpista, confirma mais uma vez que é um dos grandes atores da atualidade.

O FILHO DE FRANKENSTEIN (1939)

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Em 1938, a Universal relançou nos cinemas as suas duas primeiras produções do ciclo de filmes de Monstros: DRÁCULA, de Tod Browning, e FRANKENSTEIN, de James Whale, que comentei aqui no blog recentemente. Foi um sucesso. Parecia que o apetite do público por filmes de terror estava mais forte do que nunca. Então, a Universal tomou a sábia decisão de fazer um terceiro exemplar com o monstro de Frankenstein – sem a direção de James Whale, mas com um sujeito talentoso no comando, Rowland V. Lee, e uma escala generosa de cenários e direção de arte. O resultado veio no ano seguinte, o excelente O FILHO DE FRANKENSTEIN (Son of Frankenstein).

O estúdio decidiu ainda que o elenco seria encabeçado por seus dois maiores astros do gênero. Boris Karloff voltaria a encarnar o seu icônico monstro e Bela Lugosi, mais conhecido com seu papel em DRÁCULA, contracenaria com seu “rival”. Peter Lorre faria o filho do infame Dr. Frankenstein, mas recusou, então foram atrás de Basil Rathbone, uma decisão acertadíssima.

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Rathbone é o Dr. Wolf Frankenstein, que não é o típico cientista louco como seu pai. É um educado professor universitário que passou sua carreira nos EUA vivendo a reputação infame de seu pai, o Dr. Frankenstein, que deu vida ao notório monstro feito de pedaços de cadáveres. Como herdou o Castelo de seu pai, do outro lado do Atlântico, achou que seria uma boa ideia morar lá com a esposa e o filho pequeno. Porque achou que seria uma boa, permanece um mistério… Obviamente, depois do que vimos nos dois filmes anteriores, os moradores da região ficaram ressabiados com a ideia de um novo Dr. Frankenstein vivendo novamente no local. Até porque tem havido uma série misteriosa de assassinatos por aquelas plagas.

Wolf Frankenstein, já no local, aproveita para investigar o laboratório de seu pai, que vimos que fora quase todo destruído no segundo filme. Lá ele encontra Ygor (Lugosi), ferreiro que costumava ganhar dinheiro extra roubando túmulos para o antigo Dr. Frankenstein. Ele foi enforcado por seus crimes, mas sobreviveu. Seu pescoço quebrou mas a medula espinhal ficou intacta e ele agora tem um osso saliente no pescoço, dando-lhe a aparência bizarra e curvada típica dos personagens clássicos filmes de horror. Legalmente o sujeito está morto, portanto, mesmo vagando normalmente pela região, Ygor está fora do alcance da lei. Só que ele não esqueceu os oito homens do júri que o condenaram.

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E Ygor não é o único indivíduo que “retornou” dos mortos. O monstro ainda vive, aparentemente em uma espécie de coma. Ygor implora ao novo Dr. Frankenstein para trazê-lo de volta à vida. A curiosidade científica de Wolf é despertada com a ideia de que ele poderia recuperar a reputação de seu falecido pai continuando seu trabalho. E bota a mão na massa, sem muito sucesso. Alguns dias depois, no entanto, seu filho menciona um gigante perambulando e Wolf percebe que o Monstro caminha novamente.

Só que seus problemas se acumulam. Mais assassinatos vão acontecendo e o chefe da polícia, o inspetor Krogh (Lionel Atwill, genial), está começando a ficar cada vez mais desconfiado que um mal do passado pode ter retornado ao local. Krogh perdeu um braço para o monstro na infância, então ele tem um interesse pessoal nos trabalhos científicos da família Frankenstein.

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Boris Karloff novamente interpreta o Monstro com bastante força, mas com Bela Lugosi se destacando no papel de Ygor, um personagem bem mais interessante e substancial do que o do Monstro em O FILHO DE FRANKENSTEIN. Lugosi ganha muito tempo de tela e, de fato, domina o filme. É uma das raras ocasiões de sua carreira, depois de interpretar o personagem título em DRACULA, que Lugosi tirou o melhor proveito da Universal. E aproveita a oportunidade apresentando uma performance poderosa que é um dos destaques de sua carreira.

O Wolf Frankenstein de Rathbone é um homem que, desde o início, se encontra numa situação pela qual está irremediavelmente mal preparado e começa a perder o controle. O desempenho de Rathbone se aproxima cada vez mais da histeria e lá pelas tantas, o sujeito dá um espetáculo de atuação. Mas quem realmente rouba a cena é Lionel Atwill, excelente como um sujeito cumprindo seu dever conjuntamente tentando não deixar seus sentimentos pessoais atrapalharem. E Atwill se diverte bastante com o seu braço mecânico, que adiciona um toque engraçado, ao mesmo tempo grotesco.

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O roteiro de O FILHO DE FRANKENSTEIN foi escrito duas vezes. E o produtor-diretor Rowland V. Lee não gostou de nenhuma das duas versões e começou ele mesmo a reescrever. Ainda estava reescrevendo-o quando as filmagens começaram e nunca houve realmente um roteiro final. Ainda assim, Lee manda bem na direção, o filme tem bom ritmo e alguns momentos atmosféricos. E mesmo assim continuou reescrevendo o roteiro enquanto prosseguia com as filmagens. Surpreendentemente, as coisas acabam se encaixando bem, mesmo com a longa duração de quase 100 minutos, o que é um exagero em comparação aos outros filmes de monstro do período. A direção de arte também contribuiu enormemente para o sucesso do filme, com alguns dos melhores cenários que eu já vi nesses filmes de horror da Universal.

O filme foi um triunfo retumbante nas bilheterias e gerou um bom lucro para a produtora. Seja lá por quais motivos, os filmes de horror seguintes da Universal não tiveram o mesmo orçamento, sempre menor, mesmo O FILHO DE FRANKENSTEIN provando que um filme de terror bem feito, bem produzido, é ouro nas bilheterias. Visualmente, fica no mesmo nível dos filmes de Whale, FRANKENSTEIN e A NOIVA DE FRANKENSTEIN. Possui uma história sólida, cenários incríveis, personagens complexos e ótimas performances (especialmente de Lugosi e Atwill). E eu não poderia pedir mais que isso. Altamente recomendado para quem gosta dos filmes anteriores e do ciclo de filmes de monstro da Universal.

CAMINHOS PERIGOSOS (1973)

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Comecei um “esquenta” para o THE IRISHMAN, próximo filme de Martin Scorsese que está a estrear logo ali em poucas semanas pela Netflix. CAMINHOS PERIGOSOS (Mean Streets), que já não assistia há uns quinze anos, foi o primeiro da lista a rever, porque primeiro eu queria voltar à essa trilogia de “máfia italiana” que o Scorsese fez. Os outros filmes são OS BONS COMPANHEIROS e CASSINO.

Não sei se vou conseguir escrever algo a tempo sobre os outros dois, mas queria postar pelo menos sobre este aqui, porque nessa revisão meu ardor pelo filme foi reacendido. Vocês sabem, passam os anos e o distanciamento torna a relação com certos filmes um bocado nebulosa, embora eu sempre tenha gostado de CAMINHOS PERIGOSOS desde a primeira vez que vi. Por isso a importância de rever, de lembrar exatamente porque amamos os filmes. E por que eu amava CAMINHOS PERIGOSOS? Não lembrava mais com tanta clareza…

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Certamente é o trabalho mais autobiográfico do diretor. Charlie (Harvey Keitel) é quase um alter ego de Scorsese, habitante da Little Italy, em NY, imerso no mundo da criminalidade da região. Mas também torturado pela santidade, redenção, necessidade de perdão pelos pecados e que vai à igreja, aproxima sua mão nas chamas das velas debaixo da cruz de Cristo para sentir um resquício do calor que lhe espera no inferno… Em sua sede de redenção, ele se põe como protetor de um bandidinho local, o maluco Johnny Boy (Robert De Niro trabalhando pela primeira vez com Scorsese), como se protegendo esse delinquente sua salvação estaria garantida.

Mas Johnny não parece se importar muito. Prefere sair com garotas, encher a cara, explodir caixas de correio, se meter em brigas… gosta dos jogos do submundo e aumentar suas dívidas com pequenos mafiosos. Como salvar alguém que não quer ser salvo? E podemos nos redimir salvando os outros? Redenção e fé: dois temas constantes de Scorsese que reflete num filme doloroso, mas dotado de energia impressionante e um certo bom humor. O universo de Scorsese ocasionalmente tem essa de estar entre o burlesco e a violência. Algumas situações realmente merecem boas risadas (“Whats a mook?“), mas no final tudo é brutal e sem esperança, tudo têm consequências e, no apagar das luzes, uma bala pode atravessar o teu pescoço.

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Na direção, Scorsese cria um verdadeiro caos de som e imagens encenadas de maneira muito expressiva: câmera na mão, edição frenética, estética de documentário ao estilo John Cassavetes, cores saturadas, close-ups apertados de rostos e corpos – tem até uma cena que a câmera fica acoplada à Keitel – diálogos afiados, tudo embalado numa trilha sonora da moda (The Ronettes, Rolling Stones, Clapton…).

Tanto no nível temático quanto no visual, tanto na direção dos atores quanto no tom muito pessoal na criação desse universo, mesmo com as referências da Nouvelle Vague europeia, mas também pelo gosto pelo cinema americano, enfim, o filme se impõe como algo nunca visto na sua época. Sua influência ao longo das décadas é absurda. Ou seja, motivos suficientes para amar CAMINHOS PERIGOSOS é o que não falta… Que venha THE IRISHMAN!