DESEJO DE MATAR (1974)

É preciso ter um certo cuidado ao falar de DESEJO DE MATAR hoje em dia. A clássica história do sujeito que perde a família num violento ataque criminoso e resolve agir por conta própria, com uma arma em punho, exterminando meliantes na calada da noite, pode gerar ideias imbecis na cabeça dos proto fascistas que se transvestem de bons cidadãos. Baseado num livro de Brian Garfield, o que temos aqui é um dos conceitos mais controversos colocados em película na década de 1970, lançou o subgênero “Vigilant Movie” e capturou uma certa psique coletiva a procura de respostas fáceis para escapar do trauma infligido pelo crime desenfreado do período.

E como esse problema social perdura até hoje, ao longo dos anos vários exemplares, rip-offs, spin-offs e inspirações de DESEJO DE MATAR foram surgindo até esgotar suas possibilidades. Tivemos até recentemente um remake oficial, dirigido por Eli Roth (O ALBERGUE) e estrelado por Bruce Willis, que quase ninguém gostou, embora eu ache um filme bem ok. No entanto, é sempre bom revisitar a fonte: esta obra-prima casca-grossa e classuda de Michael Winner que transformou Charles Bronson num ícone e gerou nada menos que quatro sequências.

Bronson, aos 53 anos à época, imortalizou a figura de Paul Kersey, o símbolo máximo do cidadão comum que resolve fazer justiça com as próprias mãos, realizando aqui um de seus trabalhos mais fortes, com seu rosto de pedra impassivo, mas que esconde um indivíduo que chegou no limite entre o seu tormento pessoal, que o despe dos códigos de ética, e a psicopatia que faz agir com violência pra cima de criminosos. Kersey é um arquiteto que trabalha para uma grande empresa em Nova York e numa tarde qualquer, sua esposa e filha são atacadas por uma gangue (que tem como um dos membros um jovem Jeff Goldblum). Sua esposa, Joanna (Hope Lange), é morta e sua filha, Carol, é brutalmente estuprada e nunca se recupera psicologicamente do ataque.

A empresa de Kersey decide que seria uma boa ideia se ele saísse de Nova York por um tempo, e acaba enviado à Tucson para verificar um projeto que estão pensando em financiar. No local, Kersey conhece Ames Jainchill (Stuart Margolin), um empreendedor imobiliário excêntrico, e surge uma amizade entre eles enquanto elaboram os detalhes do desenvolvimento proposto. Ames é um entusiasta de armas e convida o protagonista para o clube de tiro local. Kersey confessa que serviu o país na Guerra da Coréia, reforçando seu surpreendente talento com uma pistola. Quando é hora de voltar a Nova York, Ames dá a Kersey um presente de despedida – um revólver calibre .32 com cabo de pérola.

Ainda traumatizado e um pouco nervoso em andar pelas ruas de Nova York, Kersey carrega o revólver consigo. E quando é confrontado por um assaltante armado, ele acaba usando o berro em sua em defesa. E a beleza de DESEJO DE MATAR é que nunca há um alvo específico na mira de Kersey, já que não demora muito para ficar óbvio que existe pouca chance dos criminosos que trouxeram desgraça a Kersey serem levados à justiça. Há até uma certa ambiguidade que não deixa claro, a princípio, se Kersey simplesmente decidiu dar suas voltas noturnas com um trabuco no bolso ou se ele realmente estava esperando encontrar assaltantes para mandar para a vala. Este ponto é deixado deliberadamente vago, presume-se que o próprio Kersey não poderia responder caso fosse perguntado…

Há uma cena mais cedo, antes de ir à Tucson, em que Kersey é abordado por um assaltante, e sua reação, meio que no desespero, é acertar uma meia cheia de moedas na cara do sujeito, que foge correndo. Mas nada que indicasse que se tornaria um vigilante psicopata. No entanto, depois de matar o primeiro meliante, Paul Kersey dá início a uma temporada de caça à bandidagem de um modo geral. Ele nunca vai atrás de vingança contra os assassinos da sua mulher. Sua vingança é mais ideológica.

Quando Kersey começa a reduzir a população de meliantes, a polícia (representada na figura de Vincent Gardenia) e a prefeitura estão em uma espécie de dilema. Eles não querem um vigilante vagando pelas ruas, mas também não querem prender alguém que está contribuindo com a diminuição da criminalidade – e sabem que o misterioso vigilante está se tornando um herói popular e, se preso fosse, se tornaria um mártir. Mas ao julgar DESEJO DE MATAR é importante colocá-lo em seu contexto histórico. O filme é um produto de sua época. Em 1974, o crime nos EUA realmente parecia estar fora de controle e as pessoas comuns tinham sérias dúvidas quanto à capacidade e disposição da polícia e dos tribunais para protegê-los de crimes violentos. Essa situação havia surgido em um período relativamente curto, não muito mais que uma década, e parecia estar se acelerando. Nova York, em 1974, era um lugar muito mais violento do que é hoje.

O filme tenta ser fiel a essa realidade. Logo no início, após chegar de suas férias numa praia paradisíaca, um colega de Kersey o atualiza dos números absurdos da criminalidade em NY no período em que esteve fora. E é de assustar até quem mora no Rio de Janeiro hoje em dia… Em outro momento, no hospital em que sua mulher e filha foram atendidas, Kersey observa um sujeito com a cabeça toda ensaguentada e comenta que ninguém vai atendê-lo…

Neste quadro específico, o filme acaba sendo de alguma maneira simpático às atividades de vigilante de Kersey, o coloca como uma espécie de “herói”, mais como uma personificação da análise social, aberto às reflexões de todo um contexto, e menos um action hero justiceiro que muitos pintam por aí.  Portanto, a coisa não é tão simplista como algumas das análises mais histéricas que surgiram na época.

Previsivelmente, grande parte da crítica odiou o filme aos gritos de reacionário e de incentivar a violência. Já o público amou, mesmo não captando a profundidade da sua análise, até porque como filme de crime, DESEJO DE MATAR é uma obra impecável. Foi um grande sucesso de bilheteria, enfurecendo ainda mais os indivíduos que só enxergam as coisas de modo literal e após o seu lançamento era até difícil encontrar um crítico dizendo uma única palavra positiva sobre o diretor Michael Winner.

Na verdade, Winner sempre fora muito bom em dirigir filmes de ação com uma dose a mais de brutalidade. Só com o Bronson chegou a realizar seis filmes em parceria e a maioria retratando o que há de mais violento no ser humano.

A sequência em que a gangue invade o apartamento de Kersey, por exemplo, é brutal, uma aula de subversão, de como criar imagens chocantes, um trabalho incrível que contrasta um primor de encenação com selvageria desenfreada. Até acho que é perfeitamente legítimo não gostar de filmes violentos, cada um tem sua sensibilidade, mas é preciso admitir que Winner é um baita diretor neste quesito, sabe construir tensão e filmar sequências que exigem estômago do espectador com muita classe, e DESEJO DE MATAR é um de seus melhores trabalhos nesse sentido.

Uma pena, portanto, que seu talento tenha sido apagado pelo teor reacionário que os críticos vêem na obra. Tá certo que Kersey mata seus adversários sem qualquer remorso, estando eles armados ou não, pela frente, pelas costas, etc… Na segunda noite em “ação”, por exemplo, Kersey adentra um beco em que um velhote está sendo espancado por três mal encarados. Eles avistam Kersey, começam a rodeá-lo, nenhum deles com arma de fogo, mas Kersey não quer nem saber, começa a disparar contra os meliantes sem pensar duas vezes, inclusive pelas costas, quando um tenta escapar e já não apresenta perigo algum. Mas faz parte do reflexo lógico de análise de Winner, de desafiar o espectador, é algo que com um olhar mais cuidadoso revelaria um filme bem mais complexo.

Quanto a Bronson, DESEJO DE MATAR certamente o estereotipou, mas trouxe-lhe o estrelato nos EUA após uma longa espera (ele já tinha um público entusiasmado na Europa). Como é habitual, Bronson tem poucas falas por aqui, o que faz parte da persona do ator, mas funciona bem em seu personagem. Se Paul Kersey fosse um homem que pudesse articular seus sentimentos verbalmente com facilidade, ele provavelmente não teria se tornado um vigilante. Embora seja bom salientar que ser uma pessoa articulada não ajuda muito quando você é confrontado por um bandido empunhando uma faca na sua direção…

DESEJO DE MATAR não é bem um filme de ação no sentido “empolgante” do gênero. As cenas de assassinato são rápidas, simples e cruas, sem nada de espetacular. Mas servem ao propósito de provocar. Uma das sequências mais marcantes, para citar mais um exemplo, é a do vagão de metrô, em que Kersey engana o meliante atirando por trás do jornal. Em seguida, atira em outro bandido e logo depois atira de novo, com os malandros já estendidos no chão, para garantir que ambos não voltem a respirar. Tudo isso para enfatizar a psicopatia do “herói”. São várias sequências assim, que fazem a rotina noturna de vigilantismo de Kersey e constrói um dos personagens mais fascinantes do cinema de gênero dos anos setenta.

Por trás de um crime movie classudo, com excelente performance de Bronson, bela trilha sonora de Herbie Hancock, DESEJO DE MATAR é um filme perturbador e confrontante. Te coloca numa posição incômoda como espectador e aborda o assunto da violência de uma maneira muito direta. E por mais que possua esse revestimento de filme de gênero, é sempre bom lembrar aos desatentos a densidade da coisa, que se trata de uma obra de ficção e os atos de seu protagonista não são um discurso fechado à favor da “justiça com as próprias mãos“. O filme é uma hipótese, levanta questões, é uma reflexão dramática de um tema cabeludo.

Seria uma estupidez achar que se trata de uma bandeira levantada convocando a população a pegar em armas para se defender. Obviamente não compactuo com a ideia de “bandido bom é bandido morto“. Não é porque sou fãs de DESEJO DE MATAR e filmes de ação da era Reagan que quero que existam policiais como Cobra e Dirty Harry ou vigilantes como Paul Kersey na vida real. Deixemos essas figuras atuarem apenas na ficção…

Texto originalmente escrito para o Action News em Agosto de 2018.

PERFORMANCE (1970)

Antes de adentrar em PERFORMANCE, filme que finalmente assisti esta semana, deixem-me  falar um pouquinho dos dois grandes responsáveis por esta maluca e psicodélica obra existir. PERFORMANCE foi o primeiro filme dirigido por dois sujeitos que viriam se tornar grandes diretores, e que aqui acabaram dividindo os créditos na função: Nicolas Roeg & Donald Cammell.

O primeiro vocês já devem conhecer, fez alguns filmes cultuados, especialmente nos anos 70, como WALKABOUT, INVERNO DE SANGUE EM VENEZA e O HOMEM QUE CAIU NA TERRA. A partir dos anos 80 seu trabalho começa a ficar meio ignorado e não tão celebrado, embora ainda tenha grandes filmes. Na altura em que realizou PERFORMANCE, Roeg já era um respeitável diretor de fotografia, tendo no currículo umas coisas bonitas como ORGIA DA MORTE, de Roger Corman, FAHRENHEIT 451, de François Truffaut, e DOUTOR JIVAGO, de David Lean. E foi para essa função, de diretor de fotografia, que Roeg fora contratado, inicialmente, em PERFORMANCE.

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Mick Jagger com Nicolas Roeg

Agora, talvez você nunca tenha ouvido falar do outro sujeito. Donald Cammell não possui o mesmo prestígio de Roeg, mais por “ignorância” da cinefilia, que nunca lhe deu a devida atenção, do que por seu talento. Quem pega para ver seus filmes nota logo de cara que o sujeito era especial. Infelizmente se suicidou em abril de 1996 deixando apenas quatro filmes finalizados (e vários clipes do U2), após uma luta inglória de décadas tentando conseguir realizar obras autorais e inovadoras, tendo seus filmes mutilados pelas produtoras… Além de PERFORMANCE, fez DEMON SEED, WHITE OF THE EYE e WIDE SIDE.

Na época, Cammell era roteirista, foi ele quem escreveu PERFORMANCE e à princípio ele seria o único diretor. Tinha em mente Marlon Brando como protagonista, um gangster americano vivendo em Londres chamado Chas que acaba se envolvendo com um astro do Rock, interpretado pelo vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger. Brando acabou não pegando o papel e sobrou para James Fox.

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Anita Pallenberg com Donald Cammell

Apesar de ser essencialmente um filme britânico, PERFORMANCE foi produzido pela Warner Bros., cujo interesse no projeto era oportunidade de lançar uma comédia ao estilo de OS REIS DO IÊ IÊ IÊ e HELP, ambos dirigidos por Richard Lester e estrelados pelos Beatles, algo que o próprio Cammell havia sugerido ao vender a ideia para a produtora. O problema é que enquanto Cammell trabalhava no roteiro, o sujeito ficou meio obcecado com temas menos tradicionais, como identidade de gênero, sexualidade, drogas e violência, o que levava o projeto para um lado bem mais sombrio.

A coisa chegou num ponto que, quando as filmagens começaram, Cammell tomou consciência de que não tinha ideia do que estava fazendo atrás das câmeras e precisava de mais alguém para ser os olhos, que cuidasse do visual, enquanto ele focava em criar a atmosfera que queria e a tensão entre os atores… Foi aí que Roeg assumiu a parceria e dividiu a responsabilidade na direção.

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As filmagens rolaram em 1968. E quando o pessoal da Warner viu o produto final, ficaram horrorizados… O filme não tinha nada a ver com o que eles esperavam  e arquivaram PERFORMANCE indefinidamente. Dois anos depois, quando a Warner mudou algumas cabeças, na renovação que foi o cinema da Nova Hollywood, o filme finalmente viu a luz do dia, no final de 1970 (após uma dramática remontagem).

E tudo isso revela alguns indícios que as histórias sobre a conturbada produção de PERFORMANCE são quase tão malucas e interessantes quanto o próprio filme. Alguns mitos surgiram, alguns nem são verdadeiros, outros são:

  1. Dizem que James Fox ficou tão imerso no seu personagem, que acabou indo longe demais, se envolveu com bandidos de verdade para estudar o seu papel. Ficou tão transtornado que terminou o filme como um cristão “nascido de novo”. Ficou um bom  tempo longe do cinema depois dessa experiência. Seu filme seguinte data de 1976.
  2. Uma das histórias que mais gosto é a que Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, teria ficado incomodado com as cenas de sexo que a namorada, Anita Pallenberg, filmou com Jagger, que eram, digamos, muito realistas… E há relatos que os dois realmente não estavam “atuando” e chegaram às vias de fato. Richards teve que ser banido dos sets de tanto que enchia o saco da equipe, bebendo e se drogando sem parar…
  3. Aliás, o consumo de grandes quantidades de drogas eram incentivadas pelo próprio Cammell aos atores durante as filmagens para que vivessem os personagens de forma mais autêntica, com direito à uma cena em que Pallenberg é filmada injetando heroína à vera…
  4. Algumas dessas filmagens do coito de Jagger com Pallenberg deram um problemão danado quando os negativos foram enviados pra reveleção e o laboratório se recusou a processar as imagens. Foram consideradas pornográficas. Há relatos que muito desse material foi destruído. Mas o que sobreviveu aparentemente foi editado (supostamente pelo próprio Cammell) em um pequeno filme pornô que ganhou um prêmio em algum festival pornô underground de Amsterdã…

Enfim, mesmo todos os contos mais excessivos envolvendo sexo, drogas e, bom, você sabe, rock ‘n’ roll, durante a produção, nunca eclipsou o poder visceral do próprio filme, tornando-se uma peça chave do famigerado momento final dos anos 60, tanto em forma quanto em conteúdo.

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PERFORMANCE começa como uma historinha de gângster, mas embebedada com algumas excentricidades visuais, com uma experimental, totalmente confusa e estranha montagem (algo que se repetiria no cinema de Roeg) que alterna imagens numa edição caótica com sobreposição, justaposição e cortes rápidos entre as cenas, mais especificamente de duas pessoas fazendo sexo, um Rolls Royce se deslocando pelas ruas, o discurso de um advogado num tribunal, entre outras coisas. E eu não tava entendendo um caralho!

Aos poucos a narrativa vai entrando nos eixos, embora nunca fique, digamos, normal. A trama, na superfície, é até simples: Chas (Fox) é um jovem gângster do tipo durão utilizado quando a situação necessita de força bruta e violência, que trabalha para um mafioso chamado Harry Flowers (Johnny Shannon). Harry adverte Chas para não se envolver num determinado caso: uma sala de apostas administrada por um dos antigos associados de Chas. Mas o rapaz ignora e acaba fazendo merda, causando um problemão danado para Harry. Agora, Chas se vê com a cabeça à prêmio, foge e se refugia em uma casa cujos habitantes vivem o último suspiro da ideologia hippie, entre eles, Turner (Jagger), um astro de rock recluso. Turner e suas duas amiguinhas (Pallenberg e Michele Breton) permitem que Chas fique no local e logo o fluxo constante de alucinógenos e sexualidade andrógina afetam a realidade de Chas.

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Mas os jogos constantes entre Turner e Chas vão muito além de um encontro de dois mundos. Claro, PERFORMANCE reúne dois universos insulares e incompatíveis, o submundo criminal britânico e a contracultura dos anos 60, mas uma vez que os dois mundos colidem, Roeg/Cammell dão o próximo passo para mesclar os envolvidos criando um retrato vívido da natureza mutável da identidade e dualidade, da transferência de personas, de uma estranha simbiose entre o violento mafioso e o roqueiro hippie. Chas se torna Turner e Turner se torna Chas. Tudo conduzido num estado de desordem, cuja realidade não possui mais limites.

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Enfim, PERFORMANCE é desses filmes que faz questão de deixar o público confuso e instável até finalmente chegar num ponto de se acostumar com a estranheza narrativa, com a estranheza das situações, especialmente quando a Chas finalmente se conecta com Turner. É como se Roeg e Cammell dissessem já nas primeiras imagens: “Não fique muito confortável, porque o bagulho é louco!“. Mas o filme também é dessas experiências fascinantes e hipnotizantes que o cinema desse período conseguia proporcionar, desde a edição estilizada, o visual psicodélico, aos excelentes desempenhos de Fox e Jagger. Quem estiver a fim de algo que foge completamente dos padrões, vale a pena conhecer PERFORMANCE.

FRANKENHOOKER (1990)

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FRANKENHOOKER é um dos filmes mais dementes do Frank Henenlotter, o mesmo gênio do cinema de horror/comédia de baixo orçamento que realizou a trilogia BASKET CASE e BRAIN DAMAGE, só pra ter uma noção do nível de insanidade que é isso aqui. Só fui assistir agora, era o único filme de “ficção” do Henenlotter que não tinha visto ainda (agora tenho que ver os documentários, que parecem muito bons),  mas trata-se de uma obra que ganhou, desde seu lançamento em 1990, um status cult, graças à ideia maluca de ressignificar o mito de Frankenstein às avessas, cujo “monstro” trazido à vida é formado por membros de prostitutas que explodiram ao fumar um super crack, tudo embalado no humor escrachado títpico do diretor!

Quando o filme começa, Elizabeth Shelley (Patty Mullen) está animada para dar ao pai o seu presente de aniversário, um cortador de grama poderoso, turbinado e com controle remoto construído pelo seu noivo, Jeffrey Franken (James Lorinz), um jovem gênio eletricista – que curte realizar experiências medicinais como hobbie. Elizabeth aperta o botão no controle para fazer uma demonstração aos convidados na festinha de aniversário do querido pai e antes que você perceba, ela é triturada como uma salada de repolho pela máquina…

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O tempo passa e, lidando com sua própria dor, Jeffrey começa a formular um plano para trazer de volta sua amada noiva. Usando seus conhecimentos de eletricidade e medicina, o sujeito desenha, durante os créditos de abertura, o que é a gênese do renascimento de Elizabeth. Uma das poucas coisas que sobrou da moça no acidente foi sua cabeça, que o rapaz mantém num líquido rosa na garagem de sua casa, que serve também de laboratório. O que Jeffrey precisa agora é de um corpo…

E a bizarrice se intensifica. Para dar uma estimulada no cérebro e fluir seus sucos criativos, Jeffrey cutuca seu crânio com uma furadeira elétrica e quando as sinapses inspiradoras começam a disparar, ele descobre que a melhor maneira de reconstruir sua namorada é, obviamente, contratar prostitutas e escolher as melhores partes de cada e remontar sua amada. Então ele vai até Nova York e inicia o processo de seleção no típico cenário que Henelotter adora filmar: as ruas sujas e escuras de uma NY decrépita e de atmosfera decadente como vimos no primeiro BASKET CASE.

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Depois de conhecer algumas amáveis ​​damas da noite e tentar convencê-las a ajudá-lo, Jeffrey acaba apresentado ao cafetão delas, um sujeito parrudo chamado Zorro (Joseph Gonzalez), que negocia todo o esquema dentro de um banheiro de boate lotado de crackudos. No fim,  Zorro permite que Jeffrey faça uma reuniãozinha com algumas de suas melhores mulheres numa espelunca de hotel…

É quando rola a sequência mais inacreditável de FRANKENHOOKER. Várias garotas semi nuas, com o pobre Jeffrey fantasiado de médico, analisando a massa corpórea das moças, medindo a espessura das coxas, o formato dos mamilos, os moldes das bundas, o comprimento das pernas e braços, enfim, cada centimetro que possa encaixar no quebra-cabeça que vai ser montar o corpo perfeito para sua Elizabeth. E as prostitutas sem entender direito o que está acontecendo…

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Até que elas encontram uma sacola gigante de crack que Jeffrey havia manipulado para deixá-las mais à vontade, mas que acabou resultando numa droga tão podersa que os efeitos colaterais são bem graves… Basicamente faz o usuário explodir, simples assim. A pessoa fuma a pedra e BUM! Explode. E é o que acontece, um espetáculo de corpos de prostitutas explodindo, ao som do que Jeffrey se refere à “música do demônio”, com direito ao Zorro arrombando a porta e sendo nocauteado por uma perna que voa na sua cara… Um grande momento de garbo e elegâncio do cinema de Frank Henelotter.

No fim, depois de todos os corpos explodidos, e membros femininos espalhados pra tudo quanté lado, Jeffrey reúne todas as partes que ele precisa usar e as leva para casa onde finalmente constrói um novo corpo para Elizabeth, anexado à sua cabeça decepada. Uma esperada tempestade chega bem à tempo e o corpo reconstruído recebe a voltagem necessária para reviver. Mas o resultado não sai exatamente como Jeffrey esperava…

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Grotesco e engraçado, FRANKENHOOKER é, assim como os outros filmes do diretor, um paradoxo, ao mesmo tempo inteligente e completamente idiota. Mas no fim das contas, Henelotter faz aqui algumas interessantes reflexões, um conto moral sobre a desilusão na idealização romantica que as pessoas comumente fazem da pessoa amada. E Jeffrey sabe que ao ressuscitar Elizabeth nada seria como era antes, mas ao menos ele idealiza uma alma gêmea que possa amar como no passado… Mas não é exatamente isso o que acontece à princípio. E o filme vai mais além, porque o sujeito ainda fica obcecado com uma construção detalhadamente perfeita do corpo, o que não deixa de ser uma análise curiosa sobre a ditadura da beleza. No desfecho, Jeffrey acaba provando do seu próprio remédio e definitivamente “ganhando” um corpo perfeito.

Henenlotter, um verdadeiro fã do universo do B-Movie dilui essas ideias no tom desinibido do filme e nas muitas homenagens que ele faz (FRANKENSTEIN, é claro, mas também para O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER e coisas do tipo) e nas suas próprias compulsões estéticas. No entanto, a restrição orçamentária acaba sendo um obstáculo à sua liberdade de ação e os efeitos especiais são os primeiros a sofrer.

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Mas aí que tá a graça da coisa. Até porque FRANKENHOOKER é o tipo de filme que o próprio realizador não faz questão que levemos tudo à sério. Portanto, esse aspecto dos “defeitos” especiais não é exatamente uma falha, pelo contrário, acaba fornecendo um charme a mais, especialmente na tal cena com as prostitutas explodindo, que é o tipo de sequência que exige muita trucagem e pirotecnia, onde o resultado tosco fica mais evidente… E mesmo assim, Henenlotter consegue deixar tudo lindo, com muito mais alma do que qualquer esforço gerado por computador.

No que diz respeito às atuações, a coisa deve ser encarada com o mesmo espírito. Ninguém aqui vai ganhar nenhum prêmio importante, nenhum mérito artístico por suas performances, e os atores sabem disso, mas até que funcionam bem para o que é exigido. Vale destacar, por exemplo, o desempenho adorável de Patty Mullen, em especial depois de ser ressuscitada, com toda expressão facial e corporal que a personagem requer.

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Aparentemente, Bill Murray é um grande fã de FRANKENHOOKER, que foi citado na capa do DVD do filme, lançado em 2006, dizendo “Se você for assistir só a um filme este ano, que seja FRANKENHOOKER”. Não seria uma escolha ruim… E, bom, para quem já está familiarizado com o trabalho de Frank Henenlotter, já sabe exatamente o que esperar disso aqui. Mas se você não essa familiaridade acho que este post deve dar conta. Recomendo também aos fãs do universo de Frankenstein para apreciarem a mais uma possibilidade de expansão desse universo tão vasto criado por Mary Shelley e que aqui é acrescentado alguns ingredientes que nunca decepcionam: muito sangue, nudez e motivos para boas risadas.

DA 5 BLOODS (2020)

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Quando comecei a assistir DA 5 BLOOD, novo petardo de Spike Lee, me veio logo à mente seu filme anterior, aquela maravilha chamada BLACKKKLANSMAN, que termina mostrando imagens reais das cenas lamentáveis em Charlottesville, com aquele bando de lixo humano, também conhecidos como supremacistas brancos, fazendo passeatas, carregando tochas, causando repugnância só de olhar. Spike fez questão de mostrar a tragédia que ocorreu naqueles dias quando um desses nazistas avançou de carro pra cima de um grupo manifestante anti-racista, deixando 28 pessoas feridas e tirando a vida de uma jovem que lutava por igualdade racial…

DA 5 BLOODS meio que começa onde BLACKKKLANSMAN termina, fazendo um apanhado histórico com outra colagem de imagens de arquivo, de ativistas reais em luta anti-racismo, mostrando figuras importantes deste contexto, soldados negros na guerra do Vietnã e, pronto, já pensei comigo “a pedrada vai ser da pesada!”.

São trabalhos bem diferentes como obras estéticas e filmes de gênero, mas ambos possuem a mesma energia, a mesma raiva do racismo sistêmico. É tanta raiva que dá a impressão de que poderia ter sido filmado nas últimas semanas, pós assassinato de George Floyd e tudo o que rolou como consequência, de tanta sintonia com a realidade. É claro que esse racismo sistêmico sempre existiu, e por isso Spike Lee realiza filmes tão diretos, que tocam na ferida. Ainda assim, ele não poderia prever que seu filme seria lançado num momento tão preciso, tão pontual…

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Pra quem não sabe, Spike Lee e o roteirista Kevin Willmott (que havia trabalhado também em BLACKKKLANSMAN), reformularam um roteiro já existente que provavelmente não tinha muito a ver com a carga temática que resultou em DA 5 BLOODS. O roteiro era intitulado THE LAST TOUR e havia sido escrito em 2013 pela dupla Danny Bilson e Paul DeMeo.

Esses caras começaram nos anos 80 com filmecos B cult de ficção científica, como o clássico TRANCERS, de Charles Band, antes de partirem pra coisas mais mainstream, como THE ROCKETEER, de Joe Johnston, para a Disney, e o seriado de TV baseado no personagem de HQ, THE FLASH. Bilson e DeMeo tinham afinidade com cenários de guerra, fizeram ZONE TROOPERS de 1986, que mistura ataque alienígena com combatentes da Segunda Guerra (com Tim Thomerson no elenco), e o spin-off do jogo de video game THE COMPANY OF HEROES, de 2013, um direct to video de guerra com Tom Sizemore e Vinnie Jones.

Ou seja, tudo indica que o roteiro que fornece a base de DA 5 BLOODS era mais voltado para a ação/guerra escapista. A trama, de forma superficial, até deve ter se mantido intacta: Quatro veteranos da guerra do Vietnã retornam ao local nos dias atuais alegando que precisam recuperar os restos mortais de um amigo morto em combate que fora enterrado no campo de batalha. No entanto, há uma segunda razão: recuperar um tesouro, uma caixa de ouro da CIA que eles encontraram de um acidente de avião em 1971 e que também se encontra enterrado no local.

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Este “roteiro base” acabou sendo o último trabalho de DeMeo, falecido em 2018, mas que recebeu um reconhecimento especial nos créditos finais de DA 5 BLOODS. E é bacana essa homenagem porque mesmo com todas as alterações, os realizadores não negam as raízes do filme, essa premissa de filme B da Cannon dos anos 80, e mantém as impressões digitais de Bilson e DeMeo por toda parte. Mas aí entra Spike Lee, com seus personagens, texturas, temas particulares e inquietação política estridente, explorando a experiência do soldado negro no Vietnã, rastreando a fúria do ativismo negro dos anos 60 até o advento da Black Lives Matter e a Era Trump, cuja presença é sentida aqui. Então, obviamente a coisa muda de figura. E esse “a mais” de Spike casa perfeitamente com a urgência que a história transmite.

Então temos aqui quatro veteranos negros, que são Otis (Clarke Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr), Eddie (Norm Lewis) e Paul (Delroy Lindo) os habitantes principais dessa jornada. Mas embora não tenha um protagonista definido, é Paul quem se torna o centro emocional do filme, especialmente pelo desempenho soberbo de Delroy Lindo, que se destaca sobre os demais. E, claro, em se tratando de Spike Lee o personagem acaba tendo nuances bem mais profundas. Paul é uma das figuras mais complexas do cinema de Lee: negro, conservador, apoiador de Trump, paranóico, procurando confrontos em todos os lugares, uma bomba-relógio prestes a explodir antes mesmo de começar a vomitar sobre imigrantes, fake news e “construção do muro”, além de outros termos depreciativos ao povo vietnamita.

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Todos os quatro sujeitos são assombrados pela morte do amigo e líder da unidade, “Stormin ‘Norman” (Chadwick Boseman, que também está perfeito), o tal morto em ação, logo após recuperar e enterrar o ouro. Mas Paul é o único que não conseguiu seguir em frente durante todos esses anos. Isso se estende a seu relacionamento fraturado com seu filho David (Jonathan Majors), que nunca ganhou nada além de escárnio desdenhoso do pai. Apesar de não haver muito afeto entre eles, David aparece inesperadamente em Saigon, preocupado com o pai, e insiste em acompanhar os quatro velhos na jornada.

Através de Tien (Y Lan), uma ex-prostituta que Otis conheceu durante sua primeira passagem no local, eles se encontram com Desroche (Jean Reno), um lavador de dinheiro francês que concorda em converter o ouro pra eles. Com um mapa fornecido pelo guia Vinh (o astro de cinema de ação oriental Johnny Tri Nguyen), os quatro veteranos voltam para as selvas do Vietnã com Paul ostentando um chapéu vermelho “Make America Great Again” para o desdém de todos.

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A jornada começa com um lento passeio de barco acompanhado pela “Cavalgada das Valquírias“, de Wagner, que não é a primeira referência de APOCALYPSE NOW ao longo da narrativa. Um banner gigante do poster do filme de Coppola aparece em destaque na tela em uma boate em Saigon, onde as placas de neon do McDonalds, Pizza Hut e KFC ilustram como as coisas mudaram nos quase 50 anos desde a última vez que lá estiveram. Ao longo da trama há também uma óbvia referência ao O TESOURO DE SIERRA MADRE com o clássico tema da ganância que corrompe a alma diante do Ouro e no final ainda evoca um cenário que remete a Samuel Fuller em CAPACETE DE AÇO. Nos diálogos, os personagens aproveitam para zombar dos filmes de guerra dos anos 80 como RAMBO II e BRADDOCK, com aquele “Walker, Texas Ranger”, como se refere uma das figuras.

E sobre a ação, acho que Spike Lee nunca filmou sequências de batalhas, tiroteios, explosões, de forma tão bem orquestrada… Não assisti ao MILAGRE EM STA. ANNA, filme de guerra que Spike lançou em 2008, então não sei como são as sequências de ação por lá. Mas o único outro filme que pode ser classificado do gênero que o sujeito realizou foi a refilmagem de OLDBOY, que é uma lástima, muito ruim mesmo. Então, por enquanto bato o martelo que em DA 5 BLOODS estão as melhores sequências de ação que o homem já fez.

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Lee também corre alguns riscos com algumas escolhas, como as alternancias do formato das janelas ou como ter os atores Lindo, Peters, Lewis e Whitlock interpretando seus personagens nos flashbacks, sem rejuvenecê-los ou usar outros atores mais jovens. O que causa uma certa confusão no início, mas logo depois me parece funcionar perfeitamente. Já vi muita gente reclamando dessa opção, mas achei interessante como são apresentados em uma espécie de fluxo de consciência, é como rememorar o passado e ver a si mesmo do jeito que é agora, envelhecido, mesmo pensando em eventos que ocorreram há 40, 50 anos… Mas também porque acaba colocando os quatro velhos nas sombras para dar destaque em Boseman, o único personagem que não teve a oportunidade de envelhecer…

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Em alguns momentos DA 5 BLOODS não consegue equilibrar muito bem o material de Bilson/DeMeo com o que foi escrito por Lee e Willmott. E acaba propenso a alguns artifícios difíceis de engolir, como a sequência da descoberta do ouro. E o trio de ativistas que entram em zonas de guerra para encontrar e desarmar minas terrestres poderia ter sido limado do roteiro sem prejudicar praticamente nada na trama (mesmo um dos atores sendo o grande Paul Walter Hauser)… Mas depois de um certo “ponto de virada”, o filme fica mais pesado, mais carregado de ação, violência, o personagem de Lindo vai ficando mais “possuído” e o discurso de Spike cada vez mais ácido. A impressão no fim das contas é a de um filme poderosíssimo, com uma ressonância surpreendente das coisas que estão acontecendo agora. Então qualquer eventual falha fica fácil de ignorar. Ajuda muito também uma trilha sonora só com clássicos de Marvin Gaye…

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Para finalizar, é preciso detacar mais uma vez Lindo, que apresenta o melhor desempenho de sua carreira, absolutamente fascinante (num dos momentos mais intensos do filme, o sujeito faz um monólogo olhando direto pra câmera que é uma cacetada!). Como disse, é um personagem muito complexo. Li em algum lugar que aparentemente Lindo havia pedido a Spike para que seu personagem não fosse trumpista… Eu entendo o ator fazer um pedido desses, “estar na pele” de uma pessoa que apoia o Trump deve ser algo asqueroso, repugnante… Seria o mesmo que pedir pra qualquer ator brasileiro com o mínimo de caráter interpretar um apoiador do Bolsonaro. O cara deve se sentir nojento… Mas é o seu trabalho. Se tem que ser feito, que faça bem feito. E Lindo o faz com perfeição. É justamente o fato de apoiar Trump um dos detalhes que torna o personagem dele tão forte, desprezível mas ao mesmo tempo comovente. A fonte de sua agonia começa no Vietnã e retornar e encarar de perto os seus demônios não é fácil. Mas não esperem uma redenção romântica ao estilo de Hollywood. Ao mesmo tempo que Spike Lee é direto no discurso, ele subverte todas as expectativas. Por isso DA 5 BLOOD é mais uma “pedrada”. O impacto é forte mesmo que o discurso de Spike esgote-se na sua própria militância. Mas no momento em que vivemos, é preciso militar e esgotar esse tipo de discurso, nem que seja à marretada!

O filme tem distribuição da Netflix e desde o dia 12 deste mês tá disponível na grade de lá. Não deixem de ver. E vejam mais Spike Lee. O cara tem MUITO filme foda pra ser visto e revisto.

A CONVERSAÇÃO (1974)

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Fazia uns vinte anos que assisti A CONVERSAÇÃO (The Conversation), de Francis F. Coppola. A única assistida, aliás, num VHS de locadora… Não sei porque nunca mais revi, mas é desses filmes que eu senti que não precisaria de uma revisão tão cedo, tamanho foi o impacto. Mas vinte anos já é demais, então hoje resolvi revisitar e continua uma belezura…

A CONVERSAÇÃO de vez em quando é lembrado como o filme que o Coppola dirigiu entre os dois primeiros PODEROSO CHEFÃO. E talvez até tenha sido prejudicado ao sair espremido no meio desses dois mastodontes cinematográficos (saiu inclusive no mesmo ano de CHEFÃO II e ambos foram indicados a melhor filme no Oscar)… Mas não consigo ver outro momento tão ideal para o filme ser lançado. Um filme tão enraizado dentro do seu contexto, praticamente um emblema do cinema político paranóico dos anos 70, num cenário que o escândalo de Watergate estava deflagrando… E é aí que testemunhamos o trabalho diário de Harry Caul (Gene Hackman), um especialista em escutas, que atua como freelancer para espionar quem quer que seja. E o cara é realmente bom naquilo que faz. Consegue captar uma conversa particular a 200 metros e obter uma representação perfeita dos diálogos. Na sua missão atual, ele ouve uma conversa meio perturbadora.

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A CONVERSAÇÃO, assim como todo o “movimento” do cinema da Nova Hollywood, é fortemente influenciado por cineastas europeus, e neste caso específico, Michelangelo Antonioni e seu BLOW UP, de 1966 – que trata de um fotógrafo que acredita ter capturado um assassinato no fundo de uma de suas fotos. Em A CONVERSAÇÃO, Harry acredita que a conversa que ele gravou – aparentemente um caso habitual de traição – pode ser evidência de um próximo assassinato, e fica obcecado com o que ouve na fita, analisando cada inflexão vocal para tentar descobrir quais os significados por trás das palavras.

À medida que as correções de Harry são feitas no som, a imagem do casal é mostrada para nós, remontada, com ângulos ligeiramente diferentes, cada vez destacando um pequeno detalhe que nos escapou e que vai se resignificando. Lembra também John Travolta em UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma, que por sempre “assistirem a mesma cena”, constantemente ouvirem os mesmos sons, eles acabam contaminando completamente esse universo, e daí em diante surge a fantasia, o que culmina, em A CONVERSAÇÃO, num final magnífico, cuja obsessão paranóica de Caul se transforma em tortura íntima e moral. Em questionamento ético.

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A visão da sociedade, quase kafkaniana é terrível, visionária e completamente atual, no qual a sociedade está sob vigilância, que a esfera privada foi pulverizada pela obsessão pela segurança. E Coppola sabe como fazer tudo isso minar numa impressionante estrutura formal e narrativa de suspense. E isso talvez seja uma das coisas mais legais em A CONVERSAÇÃO, uma obra que trata sobre esses assuntos relevantes sem deixar de lado os aspectos do suspense. É um baita thriller atmosférico e psicológico, que não dá muitas alternativas para o seu protagonista, que acaba trancado em sua própria armadilha, afundado na paranóia que ele próprio ajudou a criar.

Acho que vale ainda destacar a construção de Harry Caul, um desses personagens que acaba se tornando o seu ofício. Mas uma das grandes sacadas de A CONVERSAÇÃO é permitir que o personagem expresse dilemas e dúvidas morais durante cenas de intimidade, no confessionário de uma igreja ou diante de uma mulher compassiva. Caul se ressente de várias coisas, sem admitir completamente, e vai-se desenhando um personagem atormentado, que tem dificuldade em assumir moralmente as consequências de seu trabalho. Especialmente para quem possui uma fé religiosa, como é o caso de Harry, que tem consciência de que tomar o lugar de um Deus onisciente é um pecado grave, e ele sente todos os espinhos.

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Gene Hackman oferece um desempenho sutil e vigorosamente internalizado, mais silencioso do que estamos acostumados. Mas com grande força nos pequenos detalhes, uma das melhores atuações do sujeito. Gosto de brincar que INIMIGO DO ESTADO, de Tony Scott, lançado vinte e poucos anos depois, seja uma espécie de continuação de A CONVERSAÇÃO e que o personagem de Hackman, um paranóico gênio de vigilância tecnológica, talvez seja uma versão envelhecida de Harry Caul… John Cazale, Robert Duvall, Frederic Forest, Harrison Ford e Teri Garr também estão por aqui, nomes que já haviam trabalhado com Coppola e outros que ainda viriam a repetir a parceria.

Coppola dirigiu nos anos 70 mais três filmes. Os dois CHEFÕES que citei e APOCALYPSE NOW. Por vários motivos A CONVERSAÇÃO acabou não sendo tão celebrado quanto esses outros. Mas merecia. É um puta filme, um dos thrillers setentistas dos mais tensos, e uma dos melhores trabalhos de direção do homem. Enfim, não pretendo mesmo ficar vinte anos de novo sem revisitar essa maravilha.

OS PROFISSIONAIS (1966)

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O diretor Richard Brooks vinha de um fracasso com sua adaptação de Joseph Conrad, LORD JIM, de 1965, e resolveu não correr muitos riscos no seu projeto seguinte. Embora o western na sua forma clássica estivesse em relativo declínio, estava na moda em meados dos anos 60 reunir astros de grande calibre para dividirem às telas em épicas aventuras. Dos filmes de guerra, como FUGA DO INFERNO, passando pelos “Men in a Mission“, como OS CANHÕES DE NAVARONE, até os faroestes, especialmente com SETE HOMENS E UM DESTINO, a ideia de aglomerar atores de peso poderia garantir o sucesso de uma produção. E foi exatamente isso que Brooks resolveu fazer por aqui, em OS PROFISSIONAIS (The Profissionals), um western de aventura que reuniu Lee Marvin, Burt Lancaster, Robert Ryan e Woody Strode na missão de resgatar Claudia Cardinale de um revolucinário mexicano vivido por Jack Palance e seu exército.

Sim, é como se fosse uma versão dos anos 60 de OS MERCENÁRIOS. E se você olhar para este elenco e não sentir a mínima vontade de ver OS PROFISSIONAIS, você deve ter sérios problemas… Melhor ir assistir um Wong Kar Wai ou Apichatpong Weerasethakul…

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Enfim, revi OS PROFISSIONAIS esta semana e continua um dos meus westerns favoritos dessa época, ficando ali meio intermediário entre a aventura divertida na tradição de SETE HOMENS E UM DESTINO ao mesmo tempo que possui uma densidade revisionista pré-MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, que foi quando Sam Peckinpah redefiniu de vez o gênero nos EUA (algo que já vinha acontecendo gradualmente, em especial com os faroestes de Monte Hellman com Jack Nicholson, DISPARO PARA MATAR e A VINGANÇA DE UM PISTOLEIRO).

A premissa de OS PROFISSIONAIS é estruturada de maneira clássica e bastante simples. Um magnata do Texas contrata quatro experientes mercenários, cada um com uma característica especializada específica, para resgatar sua esposa sequestrada por um revolucionário mexicano, que a mantém do outro lado da fronteira. Lee Marvin vai interpretar o líder do grupo, o estrategista e especialista em armas. Burt Lancaster é experiente no manuseio de explosivos. E aqui estamos falando tanto de dinamites quanto de uma mulher fogosa (a cena que apresenta o personagem é impagável nesse sentido). Woody Strode é um atirador virtuoso com seu arco e flechas e um ótimo rastreador. E Robert Ryan é o especialista em cavalos e a consciência moral da equipe.

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Apresentados os personagens e a missão, os quatro sujeitos partem para o México numa jornada cheia de perigos num cenário de desertos e os estreitos montanhosos da região. Brooks mantém o ritmo e a ação firme para deixar as coisas mais animadas. A sequência do resgate da moça, especificamente, é um espetáculo à parte, com Woody Strode atirando flechas explosivas. Enfim, a sequência é um prodígio de pirotecnia. Depois vem a peregrinação de volta para os EUA em meio a uma reviravolta que coloca uma grande interrogação na cabeça dos nossos heróis… Considerando o contexto e o período no qual OS PROFISSIONAIS foi feito, fica óbvio o subtexto sobre a guerra do Vietnã: uma unidade de combate selecionada enviada para outro país por razões problemáticas questionando seus motivos.

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Embora seja evidente que os protagonistas da trama sejam Marvin e Lancaster, os únicos que possuem um pano de fundo, um histórico que envolve outras lutas armadas durante a revolução mexicana, é preciso destacar como Woody Strode recebe igual importância no grupo, o que já é notável para um ator negro da época no meio do elenco formado por brancos em uma produção de grande estúdio. O mesmo não dá pra dizer sobre a equipe de marketing da Columbia, que não colocou seu nome nas artes de divulgação do filme…

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O restante do elenco é fenomenal. Jack Palance, como já mencionei, surge em cena como um mexicano, queimado de sol e bigodudo. E está incrível como sempre. Eleva o seu personagem imbuindo-o de dignidade, evitando qualquer clichê maniqueista óbvio. O dramático reencontro entre Lancaster e Palance, depois de um longo tiroteio para atrasar o bando do mexicano, um jogo de gato e rato entre as rochas que é um dos grandes momentos do filme, demonstra porque Palance (e Lancaster, numa performance física impressionante) foi um dos maiores de todos os tempos. Cardinale é outro caso interessante. Sua beleza descomunal chama a atenção, mas Brooks não a utiliza como mero colírio sexual (embora haja umas ceninhas bem calientes pra época). Sua personagem é provavelmente a mais forte do filme, lutando pelo homem que ama e pela causa em que acredita. E o rico rancheiro que financia a missão é retratado perversamente por Ralph Bellamy.

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A direção de Brooks não chega nem a ser um primor, mas é de uma competencia, de uma secura, coerente com o material que filma e com a jornada desses indivíduos. Com bom senso de tensão e aventura. Não é a toa que o sujeito foi indicado ao Oscar de melhor diretor naquele ano (e também de roteiro). Adiciona-se ainda a luxuosa fotografia de Conrad Hall (que também foi indicado por seu trabalho), a trilha sonora de Maurice Jarre, uma tonelada de diálogos incríveis e OS PROFISSIONAIS se torna um filme que eu admiro cada vez mais sempre que revejo.

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Uma curiosidade: na época do lançamento, o sucesso do filme levou o estúdio a considerar uma sequência, mas com a condição de que todos os quatro atores principais estivessem envolvidos. Não queria correr riscos por causa do fiasco em torno da sequência de SETE HOMENS E UM DESTINO, no qual apenas Yul Brynner havia retornado. No entanto, durante muito tempo a agenda dos atores nunca batia para que a coisa acontecesse… Quando finalmente as agendas casaram, a saúde de Robert Ryan (devido ao câncer de pulmão) tornou impossível pra ele realizar o trabalho físico necessário para o filme. Após sua morte em 1973, qualquer plano para uma sequência de OS PROFISSIONAIS foi descartado.

A GRANDE PAIXÃO (1945)

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O diretor Anthony Mann, ainda jovem na época que realizou A GRANDE PAIXÃO (The Great Flamarion), com apenas algumas pequenas produções no currículo hoje praticamente esquecidas, vai se sair melhor com os film noir na segunda metade da década de 40, com algumas jóias que o tornarão um dos mestres do gênero, antes de se debruçar sobre o Western nos anos 50. Mas em A GRANDE PAIXÃO o sujeito já começa a demonstrar traços de maestria, mesmo que não seja exatamente um grande filme, mas que vale uma conferida aos interessados em descobrir umas velharias. Conta uma dessas histórias clássicas encontradas em muitos film noir da época: Sujeito com um trauma amoroso se apaixona por uma jovem mulher com o rosto de um anjo e acaba sendo levado a um jogo de sedução e morte. Por aqui, o grande Erich Von Stroheim interpreta esse sujeito, também conhecido como “o grande Flamarion”, um franco-atirador, que se apresenta num espetáculo teatral de sucesso em que utiliza suas habilidades de pontaria para impressionar o público.

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E só pela presença de Stroheim como protagonista já algo a se considerar. É o destaque de A GRANDE PAIXÃO. O amaldiçoado cineasta, que se tornou um coadjuvante solicitado em Hollywood e na França, tem aqui uma rara oportunidade para explorar seu talento num personagem central. Aparece na primeira parte do filme com seu habitual caráter durão e carrancudo, que descobrimos vir de uma vida dedicada ao militarismo, mas aos poucos sua armadura racha, revelando uma personalidade frágil. Acho que Von Stroheim nunca foi tão exposto quanto neste filme. No elenco ainda temos Mary Beth Hughes, que se esforça para ser a femme fatale que destroça o coração do grande Flamarion, e Dan Duryea fazendo um marido traído, sempre excelente neste tipo de papel menor.

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Embora curtinho – a duração não chega a 80 minutos – A GRANDE PAIXÃO sofre de um momento ou outro mais desigual, mas chama a atenção ainda a maneira como Anthony Mann filma e resolve as coisas visualmente em alguns instantes mais inspirados. A sequência de abertura é marcante: a câmera flutuando para o interior de um teatro enquanto um tiro é disparado atrás do palco e o pânico varre o local. Daí, vemos um vulto esgueirando-se pelos corredores, para refugiar-se nos bastidores do cenário de onde observa a chegada da polícia e as reações da multidão e dos artistas. O vulto é Von Stroheim e a maneira como Mann filma (e ilumina) essa figura e sua sombra, já é a marca de um grande diretor.

O RIO DA MORTE (1989)

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Pessoal da Cannon era chegada num rip-off de INDIANA JONES e tentou explorar o tema até esgotar as possibilidades. Produziu tanto cópias descaradas, como os dois filmes de ALLAN QUATERMAIN, quanto aventuras com inspirações, digamos, mais discretas, como OS AVENTUREIROS DO FOGO, estrelado por Chuck Norris e Louis Gossett Jr. No final da década de 80, um de seus astros resolveu ter também um rip-off para chamar de seu. Estamos falando de Michael Dudikoff, que na época tinha feito bastante sucesso para a produtora com os dois primeiros filmes da série AMERICAN NINJA. Daí surgiu O RIO DA MORTE (River of Death), dirigido por Steve Carver (McQUADE – O LOBO SOLITÁRIO) e co-produzido pelo grande Harry Alan Towers.

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Aqui, Dudikoff se mete numa aventura em busca de uma cidade perdida no coração da Floresta Amazônica enfrentando nazistas, cientistas malucos, piratas do rio, tribos canibais, ou seja, para os meus padrões de diversão e tolerância para esse tipo de filme de aventura/ação, O RIO DA MORTE é obrigatório. Especialmente com o elenco que temos aqui: Donald Pleasence, Robert Vaugh, L. Q. Jones, Herbert Lom…

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O filme começa no final da Segunda Guerra Mundial, quando um oficial nazista esconde sua filha debaixo de uma mesa pouco antes de ser assassinado a tiros pelo Dr. Wolfgang Manteuffel (Vaughn). O sujeito é então informado pelo comandante Heinrich Spaatz (Pleasence) que os russos estão chegando e que precisam sair do local. Manteuffel concorda, mas como é um nazista filho da puta, atira em Spaatz antes que a fuga seja feita.

Duas décadas depois, seguimos da Alemanha para o Brasil, onde encontramos um aventureiro chamado John Hamilton (Dudikoff), que acompanha um médico e sua filha, Anna, em uma missão filantrópica no meio da selva amazônica para ajudar a inocular uma tribo nativa contra uma doença mortal. As coisas rapidamente desandam e, num ataque de uma perigosa tribo, antes que você perceba, o médico está morto, Anna foi capturada e Hamilton consegue escapar. Como ele gosta da moça, coloca na cabeça que precisa retornar ao local para salvá-la…

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Uma vez de volta à civilização, um sujeito chamado Hiller (Jones) convence Hamilton a aceitar uma oferta de um alemão misterioso que deseja seus serviços de guia para levar ele e seus homens a uma lendária cidade perdida. Hamilton concorda, sabendo que poderia lhe dar a chance de encontrar e libertar Anna. O alemão, é claro, é Heinrich Spaatz, que conseguiu se salvar dos acontecimentos de vinte anos atrás, então obviamente tudo isso está ligado à sequência que abre o filme, uma jornada de vingança envolvendo Spaatz, Manteuffel e suas experiências sinistras e profanas. E uma certa garotinha que viu seu pai ser morto debaixo de uma mesa…

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Baseado num romance escrito por Alistair MacLean (autor de Os Canhões de Navarone), O RIO DA MORTE mistura teorias de conspiração nazistas no estilo BOYS FROM BRAZIL, com aventuras na floresta inspiradas em INDIANA JONES, sem nunca atingir o nível de qualquer um desses filmes. Mas isso nem importa, o que vale é que O RIO DA MORTE é divertido o suficiente para um filme B agradável. Há momentos que cheiram a potencial desperdiçado, como a presença do cientista nazista interpretado por Vaughn, que não tem tanto tempo de tela aqui quanto gostaria. Em compensação, temos bastante de Pleasence. Seu Spaatz é um velho sujo e mulherengo e o ator parece estar se divertindo bastante, roubando pra si as atenções… Já Dudikoff talvez não tenha o carisma de um Harrison Ford, mas lida muito bem com as sequências de ação e se sai como um action hero razoavelmente arrojado.

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O orçamento de O RIO DA MORTE não era lá grandes coisas, mas a equipe de produção fez um trabalho decente com o que tinham. A fotografia é boa e as sequências nas florestas são convincentes. A cidade perdida acaba sendo um cenário perfeito também para o clímax. Temos uma boa variedade de ação, não apenas um monte de cenas de nativos perseguindo pessoas pela selva, jogando lanças mal direcionadas que quase nunca acertam, mas também uma boa dose de tiroteios e explosões, coisas que o diretor Steve Carver sabe filmar com classe e sem frescuras.

Acho que o filme peca um pouco na duração, talvez muito longo para a aventurazinha que é, passando uns bons quinze minutos do limite. Mas apesar de tudo, O RIO DA MORTE oferece entretenimento dos bons, completamente descartável, claro, mas que não deixa de divertir.

PULP (1972)

Recentemente fiz este post explicando algumas questões que envolvem o antigo blog coletivo O DIA DA FÚRIA e os dois textos inéditos que acabaram surgindo na última tentativa de ressuscitar o projeto… Postei um texto do Marcelo Valletta sobre CARTER – O VINGADOR e disse que depois postava o segundo. Bom, o “depois” é hoje. Publico aqui o outro texto, que é de minha autoria mesmo…

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Mike Hodges comparou PULP ao seu trabalho anterior, CARTER – O VINGADOR, como filmes similares: a mesma trama contada de maneira diferente. De alguma forma, é até justa essa comparação no sentido de ter mais uma vez um protagonista vivido por Michael Caine se metendo num intrincado entrecho envolvendo o assassinato e abuso de uma jovem e o receio com pessoas em posição de poder por trás do crime.

Mas é uma comparação que não se sustenta por muito tempo e basta uma conferida em ambas produções para notar o contraste de suas dramaturgias, dos cenários, dos personagens, com alternâncias na dosagem de ingredientes e no tom, principalmente no humor. Como todos os primeiros projetos de Hodges eram explicitamente relacionados a crimes densos e pesados – CARTER – O VINGADOR, por exemplo, era sombrio e niilista – não é difícil entender porque o diretor optou pelo contraste através do humor. Hodges, no entanto, permaneceu fiel ao seu amor pela ficção policial, e PULP se revela uma comédia de crime e sátira política que ironiza não apenas os antigos filmes noir e seu material original – o título já evidencia, a literatura pulp – como também a natureza de decadência dos escritores desse tipo de romance.

Não que o protagonista de PULP seja um derrotado na vida, mas é um sujeito que vive no fim do mundo e precisa “prostituir” seu talento nunca reconhecido, escondido sob pseudônimos variados, escrevendo livros policiais de gosto duvidoso, curtos e baratos. Mickey King (Caine) é esse cara, cuja obra inclui títulos como The Organ Grinder e My Gun is Long, só para terem a noção do nível do material… Se bem que eu gostaria de ler um romance pulp chamado My Gun is Long.

Logo no início de PULP, percebe-se o tom da coisa: o mais recente trabalho de Mickey está entregue numa editora, numa sala de digitação ocupada por filas de jovens moças que ouvem sua prosa semi-pornográfica através de fones de ouvido enquanto digitam a obra. As reações das mocinhas já são suficientes para arrancar algumas risadas do público. Entra em cena Michael Caine, enquanto os créditos surgem na tela. Cigarro no canto da boca, terno branco, óculos de aros grossos e a cabeleira loura. E é sob a ótica dessa figura, acompanhado por uma narração em off, digna dos mais esdrúxulos casos policiais, que vamos seguir a trama.

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O próximo trabalho de Mickey é escrever, como ghost writer, as memórias de um ex-astro de Hollywood de filmes de gangster, Preston Gilbert (Mickey Rooney), que vive em Malta, sob o calor do sol do Mediterrâneo. Mas durante a longa jornada para chegar ao local onde vive o tal ator, várias situações estranhas, personagens excêntricos e um assassinato misterioso entram no caminho de Mickey. Quando chega ao seu destino, o sujeito já está metido até o pescoço numa trama espinhosa. Finalmente levado à presença de Gilbert, fica intrigado pelo falar excessivo do ex-ator. E nós, o público, ficamos de queixo caído com uma das atuações mais soberbas de Mickey Rooney.

Rooney já estava fora de moda no período e Hodges teve que insistir bastante para tê-lo no elenco, “a única pessoa que poderia desempenhar o personagem“, segundo o próprio diretor. Seu personagem é um grande falastrão, nada discreto, um gigante de baixa estatura que vive no limiar entre a realidade e a ficção que protagonizava nas telas em variados papéis criminosos. Liberado ao overacting, o resultado é uma atuação monstruosa, muita coisa vindo do próprio Rooney, em momentos de ensaio ou improviso na qual Hodges mantinha sempre a câmera ligada.

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Quando Gilbert é assassinado durante uma festa, Mickey percebe que agora também se tornou um alvo por saber demais. A partir daí, a trama vai ganhando contornos mais sérios, Gilbert estava envolvido em um escândalo sexual que havia sido encoberto porque outras pessoas poderosas foram implicadas… Como em CARTER – O VINGADOR.

Ghost Writer do defunto, acredita-se que Gilbert tenha passado os detalhes do escândalo para Mickey, que começa a investigar por conta própria o mistério numa tentativa de se salvar. O protagonista encontra a verdade, mas no percurso, se depara com a podridão burguesa e se esquiva de outra tentativa de assassinato, que deixa o seu pretenso assassino morto (Mickey ainda brinca com o cadáver: “Lembre-se de que você é pulp, e para o pulp voltarás“), mas Mickey fica ferido na perna e acaba numa forçada reclusão na mansão de luxo de algum fulano da alta classe, que quer mantê-lo assim, quietinho, longe de tudo e de todos. E agora passa seu tempo escrevendo um romance pulp que ninguém vai ler… Os poderosos mais uma vez se saem melhor.

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Na obra de Hodges, seu ponto de vista político inevitavelmente acaba se expondo de alguma forma e em PULP não é diferente. Há uma cena que um carro de som, cheio de fotos de um candidato fascista em campanha, entoa um discurso vindo das suas caixas sonoras – era a voz do próprio Mussolini… Como o filme não chegou a passar na Itália na época, ninguém entendeu a “piada”. Preocupado com a autenticidade daquilo que filmava, Hodges fez muita pesquisa sobre o estado do fascismo italiano do período, visitou o túmulo de Mussolini, comprou no mercado negro LPs com discursos do ditador italiano, e toda uma atmosfera opressora acaba transparecendo em PULP de forma incômoda, ainda que não influencie diretamente, pelo menos na maior parte do tempo, no mistério que o personagem de Caine se envolve. Mas é uma forma de Hodges deixar transparecer sua aversão ao fascismo, poder, exploração e corrupção.

A ideia era filmar PULP na Itália, porque o contexto político que tanto interessa ao diretor estava acontecendo lá. Em plenos anos 70, houve um aumento significativo de votos fascistas nas eleições italianas, algo totalmente incompreensível, um retorno à imbecilidade e que reflete uma estupidez coletiva que vem perdurando. Impossível não encontrar paralelo na realidade atual do Brasil… O filme acabou não sendo rodado na península, pois todos os locais que Hodges e a produção queriam usar tinha sempre que lidar com a máfia local, uma situação que o diretor não queria levar muito adiante. Gangsters, só na ficção.

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Mas  Hodges sempre foi simpático com o fato de ter que filmar em Malta, sob o sol do Mediterrâneo, o que enfatiza ainda mais o contraste frio e sombrio dos locais que havia filmado no Reino Unido em seus filmes anteriores. O que contribui até para uma certa leveza. PULP talvez seja o filme mais leve de Hodges (mesmo tendo realizado comédias puras mais tarde). Dá para dar boas risadas, principalmente no primeiro terço de filme antes que o personagem de Caine entre de vez no mistério.

Com PULP, Hodges demonstra repertório sem deixar sua assinatura autoral em segundo plano, apesar de nunca ter alcançado uma merecida popularidade. Nem mesmo quando foi para Hollywood, onde filmou obras com mais recurso, como FLASH GORDON, por exemplo, acabou tendo resultados sem grandes expressões e os que se  lembram de seu nome ainda é pelo seu longa de estréia, CARTER – O VINGADOR. PULP é um de seus trabalhos que acabou entrando relativamente no esquecimento, nunca teve o impacto desejado, sua concepção política crítica não é tão evidente, o que remove uma certa relevância que poderia ter na época. Embora seja um filme engraçado, com bons momentos e mais uma vez Michael Caine oferecendo uma performance de alto nível.

No Brasil, recebeu o título de DIÁRIO DE UM GANGSTER.

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MIAMI CONNECTION (1987)

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Na época do seu lançamento, em meados dos anos 80, MIAMI CONNECTION passou batido. O longa foi um fracasso de bilheteria em meio a tantos filmes de ação de qualidade que o período nos proporcionava e acabou no limbo, onde permaneceu por mais de duas décadas. Y. K. Kim, que era um famoso instrutor coreano de Taekwondo que vivia em Orlando, Flórida e idealizador do projeto, quase chegou a falir com essa produção.

O sujeito escreveu o roteiro, produziu, dirigiu algumas cenas e atuou como um dos protagonistas – mesmo falando um inglês horrível. Em 2012, a Drafthouse Cinemas, sabe-se lá porque, resolveu redistribuir o filme, a recepção foi extremamente positiva e ganhou fanáticos seguidores.

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O que fez MIAMI CONNECTION ressurgir das cinzas para se tornar cult entres os fãs de filmes de ação e artes marciais, é algo que eu não tenho a mínima condição de explicar de forma racional. Mas finalmente eu me deparei com a obra, algo que já vinha adiando há algum tempo e agora posso, ao menos, especular as razões de seu culto.

Trata-se de um filme vagabundo, realizado à toque de caixa com péssimas atuações e um roteiro ingênuo e moralista que parece ter sido escrito por um pré-adolescente aficionado por filmes de luta, synth rock, ninjas e toda uma iconografia enraizada nos anos 80, mas sem qualquer noção da representação dramática das emoções humanas… Onde raios eu estou com a cabeça? Quem se interessa por dramaturgia quando temos uma gangue de NINJAS MOTOQUEIROS TRAFICANTES DE DROGAS encarando uma banda musical de lutadores de Taekwondo? Sim, MIAMI CONNECTION é uma porcaria em vários sentidos, só que o filme possui toda uma combinação de elementos desastrosos que resulta num universo muito particular dentro do gênero de ação e artes marciais e que, de alguma maneira, acaba em pura diversão cinematográfica.

Y. K. Kim, celebrando o resgate de “Miami Connection”.

A trama gira em torno de uma banda de synth rock chamada Dragon Sound, composta de amigos órfãos que lutam taekwondo e possuem etnias diferentes entre si; temos um italiano, um irlandês, um coreano, um negro, e por aí vai… Ou seja, é um filme com pluralidade inclusiva. Quando um deles começa a namorar uma mocinha, o irmão ciumento dela, que por acaso é o líder de uma perigosa gangue, acaba virando uma pedra no sapato da banda que, por este e outros motivos, entra numa guerra envolvendo traficantes de drogas e motociclistas ninjas.

É um filme muito bobo, para dizer o mínimo, que acaba tendo sua graça com seu humor involuntário, situações esdrúxulas, mas também porque não economiza em ação. Muita ação mesmo.

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A maioria delas se resume em sequências de pancadaria, onde o pequeno grupo que forma a banda (uns cinco sujeitos ao todo) encara sempre um número bem maior de oponentes. A coreografia não é nenhum primor, mas também não é de se jogar fora. E há alguns momentos sangrentos aqui e ali.

Dentre os heróis da trama, Y. K. Kim se destaca demonstrando boa habilidade na encenação das lutas. Tudo o que lhe falta em talento como ator, diretor, roteirista e seja lá mais o que tenha feito em MIAMI CONNECTION, ele esbanja competência nas cenas de luta, no uso do corpo, em movimentos que ficam bem na tela. É seu único trabalho no cinema.

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Lá pelas tantas, resolve-se criar um arco dramático com um dos personagens, Jim, que descobre que tem um pai. A coisa atinge um nível constrangedor. Há uma cena, em que Jim faz um monólogo em um longo plano, com a câmera estática, que é nível de teatrinho do ensino médio.

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Mas é o que acrescenta uma dose a mais de dramaticidade na sequência de ação final. Uma batalha difícil de definir e que acaba ficando entre algo de enternecedor e a falta de noção dos realizadores. Um troço tão ridículo e tão fascinante, tudo ao mesmo tempo.

O filme foi dirigido por Woo-Sang Park (de LOS ANGELES STREETFIGHTER, outro petardo do período), mas quando Y. K. Kim assistiu ao primeiro corte de MIAMI CONNECTION, não gostou muito do resultado. Resolveu que queria filmar mais algumas cenas para dar uma melhorada. Só que a essa altura, Park já não estava disponível e Kim meteu a mão na massa e dirigiu o que bem quis para melhorar o filme, e que acabou por ser a versão final. E se esta versão aqui ele achou que ficou boa, imagino o que deve ter sido a versão que ele achou ruim. Enfim…

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Mas acima de tudo, MIAMI CONNECTION possui uma boa energia, um típico exemplar feito com muito entusiasmado e por pessoas que claramente se divertiram muito fazendo (grande parte do elenco é formado pelos alunos de taekwondo de Kim). Só não sei se tudo isso que foi escrito aqui é suficiente para justificar o culto que surgiu pra cima do filme entre os fãs do gênero nos últimos anos. Mas ele merece ser visto, especialmente acompanhando de alguns malucos que curtem esse tipo de tralha, com algumas latinhas de cerveja, num domingo à tarde e chuvoso. Não existe programa melhor!

Os membros da “Dragon Sound”, reunidos novamente.

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Texto originalmente escrito e publicado no Action News.

ESCALADO PARA MORRER (1975)

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Não sei o que rolou na concepção do roteiro de ESCALADO PARA MORRER (The Eiger Sanction), quarto filme dirigido pelo Clint Eastwood, mas a impressão que dá é que pegaram três histórias diferentes, não conseguiram resolver nenhuma delas, e decidiram transformar tudo em um filme só, colando cada pedaço com fita adesiva… O resultado é uma bagunça, uma salada maluca que mistura ação, espionagem e aventura de alpinismo, com cenários, ritmos e tons completamente diferentes entre si. Se me dissessem que se trata de um roteiro abortado pra um 007 do Roger Moore, eu acreditava… Embora eu saiba que se trata de uma adaptação de uma novela de Rod Whitaker, que também ajudou a escrever o roteiro.

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Não quer dizer também que o filme seja um desastre completo. No meio da bagunça há muita coisa boa em ESCALADO PARA MORRER, um dos filmes mais físicos de Clint, que oferece a si mesmo um papel não muito simpático de um assassino profissional alpinista. Dá a Clint a oportunidade de se colocar em algumas impressionantes sequências de escalada, que são a principal razão do filme existir, é o que une os três blocos que formam a narrativa e que se destacam por sua diversidade e diferentes abordagens estéticas.

Na trama, Clint se passa por um professor de arte chamado Jack Hemlock, viciado em colecionar obras pintadas por grandes mestres da história da arte, mas logo se vê retornando para sua verdadeira vocação de assassino da CIA, hoje aposentado, quando é convencido pelo seu ex-chefe, o Sr. Dragon (Thayer David), um albino que não pode suportar a menor exposição à luz solar e precisa de cuidados médicos diários (típico personagem de um Bond Movie). A missão de Hemlock é matar dois sujeitos que estiveram envolvidos no assassinato de um agente americano, grande amigo de Hemlock, que lhe salvou a vida em uma ocasião. E sua participação na missão é essencial por envolver escaladas de montanhas, algo que o protagonista costumava ser muito hábil. O maior problema, no entanto, é justamente a tal montanha na qual ele deve escalar: a Eiger, de 3.970 metros de altitude, na Suíça, e que Hemlock já havia tentado escalar duas vezes e fracassado em ambas, quase perdendo a vida. Dureza.

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A primeira parte de ESCALADO PARA MORRER adota um visual típico de filme de espionagem (um pouco como em FIREFOX, outro filme que tem elementos do gênero, que Eastwood viria a dirigir nos anos 80). O personagem de Clint vai parar na Europa onde precisa exterminar seu primeiro alvo, um espião do serviço secreto russo. A imagem desse primeiro bloco é fria, acinzentada, bem diferente do cenário do bloco central do filme: Clint vai para o calor do espetacular Monument Valley para entrar em forma e treinar alpinismo ao lado de seu velho amigo George Kennedy (e de uma bela nativa que incentiva o personagem de Clint a continuar seu treinamento de maneira bastante entusiasmante…). E é onde também encara um de seus nêmesis, Miles Mellough, vivido brilhantemente por Jack Cassidy.

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Esse esforço todo é para a missão que acontece no último bloco, quando Clint precisa escalar a perigosa Eiger, nos Alpes suíços, com três outros companheiros, sendo que um deles é o seu alvo. Só que ele não sabe quem deve matar, a informação deverá chegar a qualquer momento durante a subida. Portanto, eles escalam a montanha…

Só que a intriga rapidamente entra em segundo plano. Eastwood parece mais interessado em filmar seus personagens o mais próximo possível dos cenários impressionantes e reais durante o ato de escalar. O próprio Clint não utiliza dublê em boa parte das sequências e podemos ver o sujeito em grandes alturas pendurado por algumas cordas… Funciona. No meio de toda patuscada que é o roteiro, temos um espetáculo de imagens dos Alpes e vários momentos que são verdadeiras aulas de tensão. A cinematografia é ótima, especialmente durante essas sequências climáticas de escalada, que acaba sendo o destaque definitivo do filme. E temos ainda um John Williams arrebentando na trilha sonora, o que deixa tudo ainda mais divertido.

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No geral, o filme não é muito memorável, mas é interessante observar como Clint resolve visualmente essa aventura, mesmo trabalhando com um roteiro tão capenga. As sequências de escalada são certamente algumas das melhores coisas que o suejeito já filmou na vida. Impressionantes para a época e ainda funcionam lindamente hoje. Obviamente as pessoas mais sensíveis às tendências atuais de problematizar qualquer coisa fora do lugar não vão deixar de reclamar de certas posturas machistas do personagem de Clint. Fruto de sua época… Até existe uma certa vulgaridade e cinismo em Hemlock, que é tipo de coisa que deixa tudo mais engraçado… Mas não vou ficar entrando nesse mérito. Realmente não me interessa.

10 MINUTOS PARA MORRER (1983)

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10 MINUTOS PARA MORRER é o filme que o Charles Bronson sai à caça de um assassino peladão. O filme que meu pai dizia que “terminava com o Bronson dando um tiro na testa de um bandido“…

Bronson interpreta Leo Kessler, um detetive veterano, mais de 20 anos de carreira na força policial, mas cansado de ver o sistema de justiça trabalhar contra ele. Agora, em busca de um perigoso assassino, Kessler e seu jovem pareceiro, o novato Paul McCann (Andrew Stevens), começam a se aproximar de Warren Stacy (Gene Davis), o principal suspeito por violentas mortes. O problema é que seus elaborados álibis e métodos quase impecáveis de cometer tais crimes sem deixar rastros impedem que os policiais encerrem o caso com provas definitivas de que ele seja o assassino. Sobra a intuição e a experiência do velho Kessler, que tem absoluta convicção que Stacy é o homem por trás das mortes.

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10 MINUTOS PARA MORRER não é um daqueles filmes em que temos que adivinhar quem é o assassino. Sabemos quem é o maluco desde o início e que Kessler está certo no seu “palpite”. Enquanto isso, o assassino desfruta de sua liberdade, deixando mais corpos espalhados e perseguindo a filha do protagonista, instaurando um perigoso jogo de gato e rato. Kessler, que em determinado momento acaba sendo demitido da polícia por suas ações ilegais na tentativa de incriminar Stacy, agora é um agente livre que decide permanecer na cola do assassino 24 horas por dia. O filme termina de forma pesada, quando Stacy pratica uma carnificina no dormitório cheio de enfermeiras onde mora a filha de Kessler. E quando o ex-policial encurrala o assassino, Stacy faz um monólogo explicando seus atos como uma “doença”, como uma insanidade: “A sociedade terá que lidar comigo para sempre!“. Mas Kessler resolve tomar medidas para garantir que isso nunca aconteça.

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Dirigido com a classe e segurança de J. Lee Thompson, que colaborou em quase todos os filmes do Bronson nesse período, e produzido pela Cannon, 10 MINUTOS PARA MORRER se destaca como um dos melhores filmes do velho Bronson nos anos 80. Um eficaz thriller policial, com atmosfera suja, desprezível, cheio de nudez e violência. Pode ser um pouco chocante, visto hoje, devido ao viés conservador, uma reflexão sobre a pena de morte numa parábola sobre um policial cuja a experiência na aplicação da lei se mostra, repetidamente, que o sistema não funciona. E quando o sistema não funciona, só lhe resta meter uma bala na cabeça de bandido…  Bolsominions vão ejacular com esse filme, obviamente, pois não tem capacidade mental de perceber o contracenso, o paradoxo de sua ideologia. Mas com a perda de seu idealismo, o homem da lei de Kessler simplesmente se cansa dessa merda toda. Seu único objetivo era impedir que mais mulheres fossem assassinadas e quando a justiça falha, o resultado é mais mortes violentas…

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É aquela coisa, como ser humano eu detesto reacionários e fascistas. Como cinéfilo, eu admiro o cinema radical que levanta esse tipo de reflexão. Trata-se de repelir a hipocrisia. E 10 MINUTOS PARA MORRER, mesmo que não tivesse essa consciência reflexiva, consegue isso. Ideologias à parte, sobra ainda um filmaço de “polícia à caça de um maníaco assassino”. E temos ainda uma cena fantástica, na qual Bronson questiona o suspeito sobre um determinado acessório de masturbação, segurando o objeto em mãos, que é simplesmente genial, deveria estar entre os grandes momentos da carreira do homem!

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Vale destacar Gene Davis como o assassino sádico e calculista Warren Stacy, um dos mais pervertidos e violentos assassinos a serem retratados na tela no início dos anos 80, junto com Joe Spinell, em MANIAC, de William Lustig (sem a mesma profundidade psicológica, no entanto). Obviamente a característica mais marcante é o fato do sujeito estar sempre peladão na hora de cometer seus crimes. Ele tira toda sua roupa antes de matar, mesmo que precise andar um pouco até chegar à vítima. O que seria especialmente horrível ver um homem nu vindo em sua direção balançando o pau e uma faca… E enquanto a maioria dos personagens acha Stacy assustador, um creepy, sua boa aparência e educação o ajuda a se misturar na sociedade e a adicionar um certo nível de suspense ao seu comportamento, o que é agravado pelas grandes mudanças de estado mental do personagem ao longo do filme.

Enfim, para um thriller policial do início dos anos 80, 10 MINUTOS PARA MORRER oferece tudo o que você esperara de uma produção da Cannon estrelada pelo Bronson. Para os fãs do homem, é imperdível.

X312 – FLIGHT TO HELL (1971)

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O início da década de 70 foi um ponto de virada na carreira do diretor Jesus Franco. No espaço de pouco tempo ele interrompeu sua colaboração de alguns anos com o produtor Harry Alan Towers e, acima de tudo, houve a trágica morte da atriz Soledad Miranda, musa do diretor. É nesse período também que Franco parte para a Alemanha e conhece o grande produtor Artur Brauner, que topa realizar os seus projetos, dentre os quais alguns dos mais famosos filmes de Franco, como VAMPYROS LESBOS e SHE KILLED IN ECSTAZY (ambos ainda filmados com Soledad). Um dos últimos filmes que resultou dessa colaboração foi este X312 – FLIGHT TO HELL, que assisti recentemente.

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A trama é sobre um grupo de passageiros que sobrevive à queda de um avião, vindo do Chile para o Rio de Janeiro, em plena floresta amazônica. Entre os sobreviventes estão o jornalista (Thomas Hunter) que narra a história, um comissário de bordo sem escrúpulos, um banqueiro e outros indivíduos aleatórios. Acontece que o banqueiro saiu às pressas do Chile com uma maleta cheia de milhões de dólares em diamantes, o que desperta muitas suspeitas, especialmente de Paco (vivido pelo ator espanhol Fernando Sancho), o comissário de bordo, que rapidamente percebe que o banqueiro esconde um verdadeiro tesouro.

Ao mesmo tempo que a sobrevivência na selva para essas pessoas consiste em se unir para poder sair dessa, cada um pensa em seus interesses pessoais, especialmente quando descobrem o que contém na famigerada maleta. Além disso, um grupo de guerrilheiros que se esconde nas proximidades, cujo lider é interpretado pelo Howard Vernon, eterno colaborador do diretor, também resolve colocar as mãos nas pedras. E como se isso tudo não bastasse, Franco ainda joga no meio da selva uma tribo de índios caçadores de cabeças no caminho dos sobreviventes… Portanto, a jornada promete… Ou talvez não.

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Apesar desse saladão todo, X312 – FLIGHT TO HELL nem é tão excessivo quanto aparenta. É até bastante classicista para um diretor como o Franco. Para quem conhece seu trabalho, sabe que o homem se destaca sobretudo em excesso e excesso… E não é bem o que acontece por aqui. A jornada desse desse punhado de personagens pela selva acaba parecendo mais como um circuito em um parque ornitológico do que uma aventura cheia de ideias absurdas brotando na tela… Na maior parte do tempo, Franco não consegue tirar o espectador de um certo estado de letargia. Até os atores favoritos do diretor são pouco aproveitados e reduzidos a papéis mínimos: Vernon como lider de guerrilheiros nas selvas brasileiras merecia um filme só pra ele, e Paul Muller acaba tendo apenas tem duas ceninhas.

Quem está muito bem e aproveita o momento é o protagonista, o galã Thomas Hunter (americano, que acabou fazendo filme de gênero na Europa), e o renomado Fernando Sancho, mais conhecido pela contribuição para o ciclo de Spaghetti Western. Para não se afastar da regra, Franco maliciosamente consegue colocar algumas ceninhas eróticas para fazer a alegria dos cuecas. E quem se destaca é a atriz Esperanza Roy (de EL ATAQUE DE LOS MUERTOS SIN OJOS, de Amando de Ossorio) que revela seus encantos em algumas ocasiões.

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Mesmo assim, suponho que Jess Franco ainda não tivesse se recuperado totalmente da morte de sua musa, Soledad, e se contentou em seguir as instruções de seu produtor, que provavelmente queria um produto mais “formatado”. Mas não chega a ser nenhum desastre, tem várias cenas curiosas, principalmente as que envolvem o personagem de Vernon (a sequência que sua amante e Esperanza Roy “colocam as aranhas para brigar” e ele assiste tudo com um sorriso na cara é uma das melhores do filme e um aperetivo do que poderia ter sido todo o restante caso Franco estivesse mais inspirado). Um bocado de nudez gratuita e alguns tiroteios também ajudam, são sempre divertidos de se ver e não vai faltar por aqui. Mas de uma forma geral, X312 – FLIGHT TO HELL não é dos melhores trabalhos do diretor…

DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL (1973)

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Um dos poucos filmes que a atriz Edwige Fenech fez com o diretor Sergio Martino que não era um giallo foi este DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL (Giovannona Coscialunga disonorata con onore).

A história começa quando um juiz está pescando e encontra o rio onde ele esperava largar a linha completamente poluído. Algumas pesquisas rápidas apontam para uma fábrica de queijos administrada pelo Comendador La Noce (o grande Gigi Ballista). Para evitar acusações e ter o bom nome de sua empresa manchado aos olhos do público, La Noce tenta descobrir como ele poderia entrar nas boas graças de um político local e impedir que alguma desgraça lhe aconteça. Seu assistente, o Sr. Albertini (Pippo Franco), descobre que o tal político tem uma fraqueza: o sujeito gosta de dormir com mulheres casadas.

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As ideias começam a pipocar na cabeça de La Noce e ele imagina que, como sua própria esposa não é exatamente a coisa mais atraente da cidade, nem sua estrita educação católica romana a tornaria uma candidata ideal para esse empreendimento, mesmo que ela tivesse a melhor das aparências, ele resolve contratar uma prostituta.

É aí que entra em cena a bela Cocò (Fenech) – uma adorável dama da noite que La Noce contrata para fingir ser sua esposa e jogar para cima do calcanhar de aquiles do político. Ela aceita o trabalho e parece perfeita para o que é necessário, mas obviamente as coisas não vão sair exatamente conforme o planejado, como toda boa comédia italiana, e logo todos, incluindo o cafetão de Cocò, acabam caindo em maus lençóis…

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DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL Tem boa direção do Sergio Martino, mais conhecido por filmes de horror, giallo e ação, mas que era pau pra toda obra… Quero dizer, para todos os gêneros populares do cinema italiano. O sujeito possui, portanto, algumas boas comédias no currículo. Este aqui é particularmente muito bem filmado, os cenários e paisagens são bem utilizados, mas obviamente o que Martino tem de melhor para apontar suas câmeras é o charme e beleza de sua atriz principal. Stelvio Massi (notório diretor de polizieschi, os filmes policiais italianos) foi o diretor de fotografia por aqui e fez um ótimo trabalho enquadrando tudo muito bem, com algumas composições visuais bastante impressionantes… Especialmente essa aqui abaixo, um dos grandes enquadramentos da história do cinema:

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Apesar da imagem acima, o filme não explora tanto a pele de suas atrizes como em outras comédias sexy italianas do mesmo período. Mas há alguns momentos mais calientes por aqui, porque é isso que é a verdadeira atração para quem vai parar e assistir a um filme desses… Mesmo que esses momentos sejam utilizadas mais em contextos de humor. E no que diz respeito ao valor cômico do filme, há várias situações divertidas, mas tudo bem leve, dentro dos padrões do humor popular italiano, talvez ligeiramente acima da média, na melhor das hipóteses. O grande atrativo é mesmo Fenech.

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Quanto às performances, Fenech não tem muito o que fazer aqui, exceto ficar em pé e com boa aparência – e ela o faz muito bem, mesmo que nada no filme a exija particularmente como atriz, o que ela já demonstrou em várias ocasiões talento para tal. Mas aqui não é tão necessário. O desempenho de Pippo Franco é que acaba se destacando, mostrando um talento especial para o timing cômico e a comédia física e, embora o filme não seja tão forte quanto, por exemplo, NO TEMPO DO CINTO DE CASTIDADE (Quel gran pezzo della Ubalda tutta nuda e tutta calda, 1972), outra parceria entre Fenech e Pippo, o desempenho por aqui do sujeito é bem mais interessante.

Embora DESONRADA, PORÉM RESPEITÁVEL não apele para um grande público e não seja nenhum clássico marcante do cinema europeu, aqueles que gostam de comédias italianas ou que apreciam o considerável garbo, elegância e presença de tela de Edwige Fenech (seja vestida ou não) vão acabar apreciando um bocado.

007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (1965)

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Após o sucesso de GOLFINGER, a febre do espião 007, James Bond, estava nas alturas. O crescente êxito comercial da série obviamente estava destinado a um quarto filme e a escolha foi a adptação do romance Thunderball, que Ian Fleming, o criador do personagem, escreveu no início da década de 60, que já era, na verdade, uma adaptação meio polêmica que gerou um enrolado processo judicial. O problema é que os roteiristas Kevin McClory e Jack Whittingham alegavam que Fleming havia baseado seu romance num script que os três escreveram em conjunto para a primeira tentativa frustrada de dar vida a James Bond na tela grande ainda nos anos 50.

Isso não faz muita diferença pra 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (Thunderball) no fim das contas. Mas no início da década de 80, a dupla conseguiu os direitos da história e acabou fazendo a sua versão, um remake chamado NUNCA MAIS OUTRA VEZ, com Sean Connery reprisando seu papel como 007… Pela última vez. O filme acabou não sendo considerado como exemplar oficial da saga Bond, pois os produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman, que vinham produzindo a série, não tiveram nenhum envolvimento. E este aqui, que era para ter sido, à princípio, o filme de estreia da série, acabou sendo o quarto.

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Em 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA, Bond (mais uma vez interpretado por Sean Connery) é enviado às Bahamas para recuperar duas bombas atômicas da OTAN que foram roubadas pela organização terrorista SPECTRE, cujas intenções é usá-las para destruir uma grande cidade nos Estados Unidos ou no Reino Unido caso suas demandas não sejam atendidas. Uma verdadeira… chantagem atômica!

Em Nassau, Bond fica frente à frente com o agente “número Dois” da SPECTRE, Emilio Largo (Adolfo Celi), que está por trás de toda a pilantragem do roubo das bombas. Durante as investigações e investidas e escapadas de seus inimigos, Bond também encontra tempo para dar umas beijocas na amante de Largo, Domino (Claudine Auger), que ainda não sabe que o facínora havia tirado a vida de seu irmão, membro da equipe de transporte aéreo das ogivas roubadas. Um bocado de ação, explosões, pancadria e perseguições, o filme culmina em uma impressionante sequência de batalha subaquática na qual Bond une forças com um grupo de Navy SEALs para encarar os homens de Largo e recuperar as ogivas.

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Tudo em 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA foi intencionalmente expandido na tentativa de ser mais grandioso, mais épico, que os filmes pregressos da série (teve um orçamento maior ainda que o de GOLDFINGER): mais cenários, mais atores, mais explosões, mais tudo. Maior não é necessariamente melhor, é claro, e há momentos em que o filme parece se afundar naquelas águas caribenhas com o seu próprio peso. As suas mais de duas horas de duração entregam tanto momentos espetaculares de suspense e ação quanto sequências de marasmo total…  Mas não há como negar que o filme é visualmente impressionante e seus momentos mais movimentados compensam as cenas chatinhas.

Os pré-créditos, por exemplo, que envolvem um funeral, uma briga com um homem vestido de mulher e uma fuga utilizando um jetpack é um desses momentos mágicos que guardo na memória desde a primeira vez que assisti ao filme no SBT quando ainda era moleque. O final, além da épica batalha subaquática, ainda tem uma luta maluca e frenética entre Bond e Largo dentro de seu barco em alta velocidade que é incrível também… E no meio disso tudo, várias sequências que fazem de 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA memorável.

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O tom exagerado e os excessos da fantasia do cinema de ação tão característicos da série e que começaram a criar forma em GOLDFINGER se tornam ainda mais proeminentes e expostas por aqui. Terence Young, que dirigiu os thrillers de espionagens mais sérios e realistas com o personagem, que são os dois primeiros exemplares de 007, retorna pela última vez no comando de um Bond movie e também entra na dança trabalhando a ação de forma lúdica e exagerada, com sequências que abusam dos equipamentos tecnológicos de Q e outros momentos excêntricos como Bond ficando preso numa piscina cheia de tubarões, ou a grandiosa execução do roubo das ogivas nucleares e a extravagante batalha subaquática… São tantos momentos cuidadosamente produzidos que o filme acabou ganhando o Oscar de melhores efeitos especiais.

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Como sempre, Sean Connery é magistral como Bond, ainda que seu desempenho comece a dar indícios de cansaço. A essa altura, Connery era um dos astros do cinema mais famosos do mundo e a repetição com o personagem parece ter diminuído um pouco seu entusiasmo. Não foi à toa que o sujeito foi se arriscar em projetos de diretores como Hitchcock e Sidney Lumet. Adolfo Celi como Emilio Largo é um grande vilão, meio subestimado, mas que consegue lançar um espectro ameaçador em toda as suas cenas.

Ainda no elenco, Claudine Auger faz uma bond girl adorável, assim como a mortal Luciana Paluzzi. Rik Van Nutter interpreta o agente da CIA/amigo de Bond, Felix Leiter, o terceiro dentre tantos atores que desempenharam o papel ao longo das décadas. Desmond Llewelyn, como sempre, rouba as atenções como Q, e Lois Maxwell (Miss Monneypenny) e Bernard Lee (M) são presenças reconfortantes nas cenas de Londres.

A música tema, uma das minhas favoritas da série, desta vez é cantada por Tom Jones.

Ainda prefiro GOLDFINGER e MOSCOU CONTRA 007, mas 007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA é dos obrigatórios Bond movies com o Connery.

O NÃO-RETORNO DO DIA DA FÚRIA

Os últimos textos publicados no projeto DIA DA FÚRIA (um site coletivo criado em 2009 que eu editava) foi em 2018, com o especial Walter Hill. Ficou incompleto e, enfim, pouca gente se importou de fato em manter as publicações. Um tempo depois, conversando com um ou dois membros, resolvemos fazer uma última tentativa e escolhemos o diretor Mike Hodges para ser o homenageado. Só iríamos publicar alguma coisa depois que todos os textos estivessem prontos. Daí não teria a chance de mais um projeto ficar incompleto no site… A coisa não foi pra frente mais uma vez e acabou sendo o último suspiro do DIA DA FÚRIA, que realmente não tem a mínima possibilidade de retorno.

No entanto, essa última tentativa gerou dois textos inéditos, um do Marcelo Valletta e outro meu. Como o DIA DA FÚRIA não vai ver mais a luz do dia, publico aqui no blog mesmo. Primeiro, o texto do Marcelo e em breve coloco o meu por aqui também.

CARTER, O VINGADOR (Get Carter, 1971)

por Marcelo Valletta

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Após alguns anos trabalhando na TV, Mike Hodges estreou no cinema com CARTER, O VINGADOR, graças a um convite do produtor Michael Klinger. Dispostos a revitalizar o filme de criminosos ingleses, gênero que nas décadas anteriores teve exemplares excelentes, como THEY MADE ME A FUGITIVE (dirigido pelo influente brasileiro Alberto Cavalcanti) e BRIGHTON ROCK, Klinger, Hodges e o coprodutor e estrela Michael Caine aproveitaram o relaxamento da censura, uma das consequências dos Swinging Sixties, para entregar uma obra especialmente brutal.

Essa brutalidade vem de sua maior qualidade: o naturalismo, em especial pelas escolhas de não glamourizar o crime nem espetacularizar a violência. Para interpretar o protagonista do romance “Jack’s Return Home“, recém-lançado por Ted Lewis, Caine, filho de faxineiros que abandonou a escola aos 15 anos, diz ter se baseado em bandidos que conheceu na juventude. Além disso, Hodges e sua equipe pesquisaram a atividade criminal em Newcastle upon Tyne, onde a história se passa.

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Isso resultou em um personagem principal obstinado, taciturno e amoral, sem características redentoras nem apelação para momentâneos alívios cômicos. Em busca dos assassinos de seu irmão, Jack Carter não demonstra nenhum tipo de remorso, mesmo quando seus eventuais aliados se machucam. Diante dos diretamente envolvidos com o crime, deixa escapar uma raiva contida, nos momentos mais intensos. É uma das interpretações mais marcantes de Caine.

O ritmo da obra, cujo enredo se passa em apenas um fim de semana, também causa bastante impacto. São poucas sequências, nas quais os muitos personagens são apresentados a conta-gotas. Os acertos de contas que formam o clímax começam a menos de meia hora do final, quando se inicia uma cadeia de assassinatos, sem grande sofisticação. Não à toa, o primeiro deles é o mais chocante: Carter esfaqueia duas vezes um informante, aos gritos de “Eu sei que você não matou meu irmão!“.

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CARTER, O VINGADOR também acerta ao deixar de lado alguns clichês do cinema noir, como a voz over que desnuda os pensamentos do protagonista e o uso de flaskbacks (estes existem no livro e mostram as relações de Carter com o irmão e outros personagens).

Outro ponto de destaque é o modo como o filme retrata o sexo. Além de exibir nudez ou seminudez de algumas das atrizes principais, a primeira cena mostra uma curiosa reunião em uma residência luxuosa, na qual Carter, seus chefes e outros convidados assistem a uma sessão de slides pornográficos. Prostituição e aliciamento de menores de idade para atuar em filmes caseiros também são abordados, o que ajuda a explicar a inicial classificação X (apenas para adultos), depois rebaixada para R. Mas, apesar de duas das personagens que Carter encontra em Newcastle passarem pela sua cama (a segunda sequência desse tipo faz uso de montagem paralela, alternando entre o casal no carro e na cama), a cena mais erótica, cortada pela censura em vários países, é um telefonema sensual que o protagonista faz à sua amante (interpretada pela linda Britt Ekland, o principal nome feminino nos créditos, apesar de aparecer muito pouco), diante de sua inquilina.

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Entre outros destaques do elenco estão Geraldine Moffat, ótima como a interessante Glenda, que tem um destino irônico, e Dorothy White como a prostituta Margaret. Dos homens, chama especial atenção o celebrado dramaturgo John Osborne, autor de “Look Back in Anger“, que interpreta o chefe dos bandidos de Newcastle como um homem de fala suave, mas implacável nas suas decisões – no livro, o personagem é bem mais grosseiro.

A marcante sequência final, numa praia com céu encoberto onde carvão é naturalmente depositado, carrega bastante na ironia ao mostrar o destino dos principais antagonistas. Um projeto mais comercial concluiria de forma distinta.

CARTER, O VINGADOR foi recebido pela crítica com ambivalência: em geral a qualidade da produção, da direção e das atuações foi elogiada, mas o conteúdo revirou os estômagos mais sensíveis. O sucesso de público também foi moderado, numa época em que o campeão de audiência era o drama LOVE STORY. Ainda assim, foi suficiente para que as edições futuras do romance de Lewis fossem rebatizadas como o filme e que os dois livros seguintes, com histórias ocorridas em períodos anteriores, trouxessem o nome do protagonista nos títulos.

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A MGM, que estava em crise, fechando suas subsidiárias na Europa, resolveu refazer o filme para as plateias ianques, em vez de divulgar o original britânico. Curiosamente, o remake de George Armitage se tornou um blaxpoitation, estrelado pelo jogador de futebol americano Bernie Casey e a futura musa Pam Grier (cuja personagem tem o curioso nome de Gozelda).

No fim das contas, o original de Hodges não alcançou a qualidade de POINT BLANK, com o qual costuma ser comparado, mas ainda assim é o que meu tio que me levava para alugar VHS na infância chamava de “filmão“. Esta porrada cinematográfica ficou esquecida por quase três décadas, até ganhar status de clássico ao ser citada como influência por diretores como Quentin Tarantino e Guy Ritchie – o que acabou desaguando no segundo remake, estrelado por Sylvester Stallone. Mas isso é uma outra história.

007 CONTRA GOLDFINGER (1964)

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Se existe um filme da série 007 que se qualifica como um clássico imortal, este filme é 007 CONTRA GOLDFINGER (Goldfinger), de Guy Hamilton. Terceirto capítulo da série sobre o espião à serviço secreto da coroa britânica, James Bond, ganhou importância para a franquia porque, de certa maneira, foi o exemplar que estabeleceu uma ideia, para a maioria das pessoas, sobre o que de fato é um filme de James Bond.

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO, o primeiro, que apresentou o personagem e sua famosa música tema, e MOSCOU CONTRA 007, o segundo, eram basicamente thrillers de espionagem ao espírito dos livros escritos por Ian Fleming, enraizado mais em intrigas palpáveis e de contextos reais, como a Guerra Fria. GOLDFINGER pegou elementos essenciais desses dois e deu um toque especial. Construiu um ícone maior que a vida, apresentou várias marcas registradas e tudo o que torna o personagem tão reconhecível e memorável.

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É aqui que começam também a explorar os limites entre a realidade e os excessos da fantasia do cinema de ação, uma das principais características da série. Um exemplo temos logo no início, quando Bond enxerga, através do reflexo da íris de uma moça, um bandido espreitando por trás prestes a atacá-lo. PELO REFLEXO DA ÍRIS!!! É pra isso que o cinema foi inventado… Temos também o famoso capanga que arranca a cabeça de estátuas arremessando seu chapéu-côco forrado de aço… Praticamente uma história em quadrinhos.

Depois disso, os filmes de Bond não se levaram muito a sério e, pessoalmente, fico feliz que isso tenha acontecido. Parte do que torna a série 007 tão fascinante pra mim é exatamente o tom exagerado, uma fórmula que começaram a desenvolver por aqui em GOLDFINGER. Uma fórmula que não vemos em DR. NO ou MOSCOU CONTRA 007

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Na trama, a preocupação com a estabilidade dos preços do ouro ao redor do globo coloca James Bond (mais uma vez interpretado por Sean Connery) na trilha de um contrabandista internacional de ouro, o excêntrico Auric Goldfinger (Gert Fröbe). Tendo encontrado o sujeito pela primeira vez em um hotel em Miami, Bond está ciente de que o homem é um adversário peculiar e muito perigoso. Goldfinger revela ser obcecado por duas coisas: ouro e levar vantagem a qualquer custo, seja numa partida de golfe ou até mesmo num amigável jogo de cartas à beira da piscina de um hotel.

Em relação ao “perigoso”, Bond descobre do pior jeito: Goldfinger não demonstra muito remorso em matar sua acompanhante quando ela o trai com o espião. Acaba assassinada de maneira única, asfixiada com seu corpo completamente coberto com tinta dourada. Uma das imagens clássicas da franquia.

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Bond visita Q, interpretado por Desmond Llewelyn, que ficou famoso entre os fãs da série por fazer esse personagem durante décadas. Suas engenhocas tecnológicas acabaram se tornando elemento essencial da franquia. E é aqui que Bond é apresentado pela primeira vez ao Aston Martin, seu veículo oficial e que utiliza logo em seguida para ficar na cola de Goldfinger. Ao se infiltrar em um complexo do vilão, Bond descobre o método engenhoso que seu adversário contrabandeia grandes remessas de ouro. Também descobre que Goldfinger tem algo maior planejado, uma operação com o codinome Grand Slam. Mas antes que ele possa sair do local, 007 é capturado. Só mais tarde ele realmente descobrirá quão grandioso é o Grand Slam

Mais momentos clássicos: Bond capturado, é amarrado a uma mesa com um cortador a laser em direção à sua “arma mais preciosa”. Como a cena do corpo coberto de tinta dourada, essa é outra das mais icônicas de toda a franquia. A paródia/homenagem dos Simpsons, no episódio You Only Move Twice, é evidência de seu poder na cultura pop.

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Tudo parece funcionar em GOLDFINGER – os personagens; o roteiro com um equilíbrio quase perfeito de humor irônico e convenções do thriller de espionagem, carregados de diálogos incríveis; o ritmo; a música tema de Shirley Bassey e John Barry… Continua sendo uma aventura atemporal, com o espião cínico, malandrão e mulherengo que adoramos. Claro, Bond dos anos 60 é um dinossauro sexista e misógino para os padrões chatos de hoje, mas Sean Connery é cool o suficiente para se safar. Falando nisso, não dá pra esquecer a bela Pussy Galore. Basta esse nome para garantir que seu papel seja lembrado entre a maiores Bond Girls. Mesmo com tão pouco tempo em cena…

Temos Goldfinger, um dos melhores vilões de toda a série, e seu capanga, o brutamontes Oddjob, o tal com o chapéu letal, que dá uma canseira ao nosso herói. A sequência de luta entre ele e Bond nas entranhas do depósito de ouro em Fort Knox é um dos grandes momentos do filme.

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Aliás, as cenas de ação de GOLDFINGER são de alto nível. O diretor Guy Hamilton era desses que sabia criar um bom espetáculo no gênero, com destaque para a perseguição de carros pelos bosques e no complexo de Goldfinger, no qual Bond utiliza vários acessórios que Q preparou em seu Aston Martin. E obviamente o deflagrador final, um tiroteio explosivo de grandes proporções e alta contagem de corpos. Hamilton voltaria a dirigir mais três exemplares do espião: 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, COM 007 VIVA E DEIXE MORRER e 007 CONTRA O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO. Esses dois últimos com Roger Moore no papel de Bond.

Todos esses elementos se combinam para tornar GOLDFINGER um clássico do cinema de ação e dos melhores e mais influentes filmes da série 007. Mesmo não sendo o meu favorito… Que aliás, não sei ainda exatamente qual é. Talvez A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, ou O ESPIÃO QUE ME AMAVA, ou A CHANTAGEM ATÔMICA, que mal lembro, mas que me marcou muito quando era moleque… Enfim, comecei a rever novamente a série depois de uns vinte anos e até o final dessa “retrospectiva” eu descubro qual é o que mais gosto. Se calhar, acaba sendo mesmo GOLDFINGER. Sem dúvida vai estar entre os primeiros.

Os outros filmes do espião já comentados aqui no blog:

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO
MOSCOU CONTRA 007

BREEZY (1973)

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Não costumo postar sobre filmes românticos, mas não resisti a este terceiro filme dirigido pelo Clint Eastwood (já que comentei recentemente sobre os dois primeiros, nada mais justo que continuar). Era um dos poucos filmes dele que ainda me faltava…

Em BREEZY o sujeito volta a deixar de lado o cinema de gêneros mais truculentos, como foi o anterior, e oferece um dos seus trabalhos mais delicados. Habitualmente lê-se por aí que o reconhecimento artístico e crítico de Clint como diretor veio a partir de HONKYTONK MAN, ou até mais tarde, com BIRD. Onde estavam esses críticos quando BREEZY apareceu?

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Desta vez, Clint resolve ficar atrás das câmeras para nos oferecer uma história de amor inusitada e de rara ternura. William Holden é Frank, cinquentão solitário que tenta manter o amor à distância para evitar certos transtornos e sofrimento, acaba conhecendo a jovem de espírito livre, Breezy (Kay Lenz, que se apropria da personagem título de corpo e alma) e, de um jeito ou de outro, vão construindo uma relação.

E por se tratar da paixão de um homem “bem vivido” por uma garota de 18 anos, acaba sendo um assunto mais desafiador que Eastwood aborda. Dúvidas, felicidade, amargura, perguntas sobre si mesmo, o olhar dos outros, sabemos até de antemão quais etapas terão que passar para o assunto ser abordado; e Clint realmente passa por todas. Bom, não é na originalidade que o sujeito quer nos tocar. Mas na maneira como trata tudo com franqueza, explorando o tema com plenitude, observando os pequenos detalhes sem muita extravagância, até porque o filme não apresenta taaantos conflitos dramáticos assim. É apenas um olhar preciso dos sentimentos humanos. E Clint é muito verdadeiro com esses personagens.

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A dupla central, obviamente, destrói em nas atuações: Holden alcança uma veracidade incrível. Um exemplo de rigor e sensibilidade; e Kay Lenz brilha até chegar ao sublime.

A direção de Eastwood é discreta, mas sempre com o olhar no lugar certo. A cena que Holden senta na cama pensando que Breezy havia deixado o local e das sombras surgem as mãos dela acariciando seu corpo é um dos momentos mais antológicos da carreira de Clint como diretor:

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Já as duas cenas introdutórias dos personagens centrais são verdadeiras aulas de direção de atores. Em poucos segundos, em uma ou duas linhas de diálogo simples, entendemos TUDO do caráter de Breezy, sua leveza, sua sede de vida e ingenuidade. Logo em seguida, o personagem de Frank é escovado em uma única situação: dispensando uma mulher com quem passou a noite, revelando o sujeito amargo, solitário e duro… Clint mantém todas as sequências de BREEZY nesse tom e é incrível como consegue criar tanta emoção de coisas tão simples. Ao final, quando os personagens se reencontram (“Olá, meu amor / Olá, minha vida”) eu já estava completamente devastado. A canção tema de Michel Legrand, ao mesmo tempo melancólica e serena, traz um último toque a esta bela história.

O título de BREEZY no Brasil é INTERLÚDIO DE AMOR.

[CAGESPLOITATION] 211 (2018)

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211 começa com uma longa sequência no Afeganistão, mostrando um fraudador emboscado por um grupo de mercenários que exige um pagamento de alguns milhões de dólares. Daí inicia um monte de lenga-lenga envolvendo uma investigação da Interpol para pegar os mercenários… E há ainda uma subtrama já nos EUA com o policial vivido por Nicolas Cage, sua filha grávida e o seu genro, também policial, se preparando para a paternidade.

Demora uns bons vinte minutos antes que tudo isso se conecte e a história oficial de 211 comece a tomar forma: Um adolescente entra em uma briga na escola e, como punição, é enviado para fazer uma ronda junto com uma dupla policial, Cage e seu parceiro, que é justamente seu genro. Andam de um lado para o outro dentro da viatura até que os mercenários tentam assaltar um banco onde o fraudador do início do filme escondeu a grana. E os primeiros a chegarem ao local é jutamente o trio.

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Um monte de personagens e subtramas vão surgindo e se amontoando a partir daí e nada de Nicolas Cage realmente demonstrar seus talentos… Na verdade, leva un dez minutos para ele aparecer na tela pela primeira vez e quando diz sua primeira linha de diálogo, o filme já está bem adiantado. Quando finalmente rola o assalto e pega Cage, seu genro e o garoto no fogo cruzado, a coisa melhora um bocado, a ação é intensa e temos muito Cage trocando tiros com os mercenários. Mas o filme nunca consegue ajustar o foco e 211 acaba parecendo mais um piloto para uma série de TV abarrotado de personagens cujo interesse por parte do público é zero. Talvez se tivéssesmo um enredo mais centrado em Cage, o resultado fosse melhor…

Para quem estiver só interessado num filmeco de ação de baixo orçamento sem grandes pretensões, 211 até que diverte, tem bastante tiro e explosões filmadas com uma competência que me surpreendeu. Sequências como a da explosão da cafeteria e vários momentos das trocas de tiro entre a policia e os mercenários dão a impressão de uma produção bem mais abastada. A direção é de um tal York Shackleton… nunca ouvi falar. Já os admiradores de um Cagesploitation podem acabar saindo da sessão desapontados. Só para não perder viagem, há um breve momento que o sujeito entra no modo Crazy Cage, soltando uns berros surtados, que vai fazer qualquer fã do homem abrir um sorriso. Não é muito, mas já é alguma coisa…

NARC (2002)

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Para quem descobriu o diretor Joe Carnahan lá em 2002 com essa porrada chamada NARC, é até bizarro notar as escolhas que o sujeito fez ao longo da carreira. Não acho ruim os seus trabalhos seguintes (pelo menos os que cheguei a assistir – inclusive adoro THE GREY, com Liam Neeson) mas NARC me fez pensar na época que Carnahan seria um diretor ao estilo do que um David Ayer e James Gray foram por um tempo e Craig S. Zahler vem sendo hoje. Ou seja, um realizador de obras mais sombrias e pesadas do universo policial, adaptando autores como James Ellroy… Carnahan acabou deixando uma espécie de lacuna. E NARC se tornou, ao longo dos anos, um pequeno cult movie para os amantes de um bom e velho filme policial.

NARC segue a tradição dos grandes filmes de tiras corruptos e investigadores infiltrados dos anos 80 e 90, com a mesma crueza e o realismo duro de filmes como e COP, de James B. Harris, O PRÍNCIPE DA CIDADE, de Sidney Lumet, VÍCIO FRENÉTICO, do Ferrara, DONNIE BRASCO, de Mike Newell, COPLAND, de James Mangold, JUSTIÇA CEGA, de Mike Figgs… Em resumo, Carnahan nos oferece um mergulho na vida cotidiana de policiais incapazes de lidar com uma vida “normal”, que vivem apenas para o seu trabalho, e acabam afetados de todas as formas possíveis pela imersão em universos dos quais não fazem parte.

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Quando o filme começa, Nick Tellis, o policial interpretado (com intensidade inesperada) por Jason Patric, tenta se reconstruir com sua esposa e filho, alguns meses após uma investigação que deu errado e durante o qual ele acabou causando a morte de um inocente. Portanto, nada o levaria a aceitar a nova missão que lhe é oferecida: investigar o assassinato de um policial acompanhado do ex-parceiro da vítima. Nada o obriga a sair de volta às ruas, à violência das ruas… Mas ele tem isso encravado na alma: ser policial é mais que um trabalho, é a sua vida.

Aos poucos Nick vai voltando às atividades e quando se dá conta, já está completamente absorvido pela investigação. Obviamente, a descida ao inferno é total. Mais profunda do que podemos imaginar, especialmente depois da sequência devastadora dos primeiros minutos de filme. Aliás, que puta começo! A sequência de abertura de NARC é antológica, tensa pra cacete. O espectador é simplesmente arremessado na situação em que Nick, ainda sob disfarce, persegue um criminoso a pé, sem nenhum contexto, com uma câmera chacoalhando freneticamente que faria os caras do Dogma 95 se morderem de inveja, mas que se justifica de tão bem utilizada. E a coisa toda termina de um jeito trágico e violento. Uma violência que prenuncia o resto do filme.

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O outro policial de NARC é Henry Oak, encarnado por um Ray Liotta assombroso. Oak é um sujeito dedicado da velha escola que usa força bruta pra cima dos criminosos e acredita que o departamento de policia deseja enterrar as investigações sobre o seu parceiro assassinado e por isso precisa agir por fora do livro de regras para solucionar o caso. De vez em quando Liotta encontra papeis dignos de seu imenso talento, como é o exemplo de NARC. Com o rosto todo esculpido, os olhos alucinados e uma raiva incandescente, Liotta devora o filme evocando, com a mesma determinação inabalável, uma espécie de Popeye Doyle de OPERAÇÃO FRANÇA.

O próprio Friedkin elogiou pra caramba NARC, chegando a dizer que era melhor do que seu próprio filme. Uma modéstia, claro, não chega a tanto, mas o filme de Carnahan não tem nada do que se vergonhar da comparação.