007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (1971)

Já faz um tempinho que não posto algo sobre o agente secreto mais famoso do cinema, mas quem ainda não leu, ao longo dos anos venho escrevendo sobre cada filme em ordem cronológica. E agora chegou a vez do sétimo filme oficial da franquia, 007- OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (Diamonds are Forever), de Guy Hamilton, que traz algumas peculiaridades interessantes.

A começar pelo momento borracharia do blog, já que este aqui é o primeiro e único, dentre todos os filmes do espião, em que aparecem certos atributos femininos na tela, mesmo que em um único frame, que eu fiz questão de capturar pra deixar aqui registrado:

Pronto. Feito o registro, vamos ao contexto. Até 1967, com o lançamento de COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES, Sean Connery estava desencantado com o papel de James Bond, que o tornou famoso, não queria ficar marcado pelo personagem, buscar novos desafios e blá, blá, blá… Sem Connery, os produtores consideraram vários substitutos até optarem pelo modelo australiano sem experiência em atuação, George Lazenby. O resultado foi o último filme do espião que comentei aqui no blog: 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, que é um caso controverso até hoje. Eu acho um dos melhores da série, uma autêntica obra de arte na franquia Bond.

Enfim, o problema é que Lazenby, devido aos mais diversos motivos, como descrevi no texto sobre o filme, acabou deixando a série. Com ele fora de cena, os produtores Harry Saltzman e Albert R. Broccoli voltaram à caça e cortejaram um americano, o ator John Gavin (o namorado de Marion Crane [Janet Leigh] no clássico de Alfred Hitchcock, PSICOSE), mas nunca desistiram de Connery, que aos 45 do segundo tempo acabou recebendo uma oferta boa demais para recusar. Tradução: muito dinheiro.

O retorno de Connery à série resulta, como disse, em um filme peculiar. Digamos que tá mais próximo do espírito das paródias futuras de Austin Powers do que qualquer outro filme de Bond realizado até aquele momento. É um filme meio bobo demais comparado às entradas britânicas… Não me refiro nem aos exageros acrobáticos que aos poucos foram sendo inseridos na série e já se apresentava em algum nível em SÓ SE VIVE DUAS VEZES. Falo da maneira sem vergonha de abraçar um tom mais avacalhado mesmo de tratar as coisas. E talvez por causa do desejo inicial de contratar Gavin, o filme também é mais “americanizado”, com locações nos EUA, em Las Vegas… E aí DIAMANTES SÃO ETERNOS acabou dividindo a base de fãs de 007. Há uns puristas que não gostam, há quem ame… E há público como eu, que acha divertido se abordado da maneira certa.

O filme começa com muita energia, com um 007 enfurecido espancando diversos contatos (incluindo a moça que ele puxa o biquini do registro lá de cima), enquanto ele tenta encontrar o esconderijo de Blofeld. Lembremos que o vilão consegue escapar de Bond nos dois filmes anteriores…

Na trama, Bond é chamado para investigar uma operação de contrabando de diamantes e descobre um enredo muito mais sinistro envolvendo o seu arqui-inimigo Blofeld. Mais uma vez determinado a conquistar o mundo, Blofeld desenvolveu um satélite a laser, com acessórios formados por centenas de diamantes, que aumentam o seu potencial devastador… E aí somos apresentados a um trabalho de espionagem, com Bond atuando sob disfarce e tudo mais. No entanto, como disse, a coisa é tão avacalhada que é provável que você nem se lembre disso depois que o filme termina.

Isso porque fizeram questão de enterrar todo esse trabalho cuidadoso mais sério do primeiro terço do filme sob uma montanha de fanfarronice a partir do momento em que a trama vai pra Las Vegas, com um humor cafona e lasers do espaço sideral. E tá tudo bem…

O roteiro desajeitado – uma mistura do romance original de Fleming (a parte séria do contrabando de diamantes), cultura pop e uma adição completamente desajeitada de Blofeld (ele não fez parte da história original) – são coisas muito menos importante para a experiência geral de DIAMANTES SÃO ETERNOS, do que a sensação de aventura sem vergonha que é o que realmente importa. E felizmente para os produtores (e o futuro da franquia James Bond), era esse tipo de material que salvaria a série do fracasso.

O tom caricato se estende ao próprio Blofeld em si, anteriormente interpretado por Donald Pleasence e Telly Savalas. Embora a interpretação de Pleasence seja mais lembrada por sua aparência distintiva de cabeça raspada e cicatriz no rosto, o sujeito não teve muito a fazer no papel e, na verdade, foi uma substituição de última hora para um ator alemão que ficou doente durante as filmagens. Savalas, em A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, é formidável e talvez o melhor dos Blofelds adaptados pra tela grande. Aqui temos Charles Gray, efeminado e maravilhosamente maldoso, mas raramente representando uma ameaça real à James Bond.

O auge do caricato chega quando Blofeld se disfarça de mulher – é uma cena divertida que Gray claramente aprecia, mas que faz seu personagem se tornar tão cômico que é impossível levá-lo a sério como vilão… Vale lembrar que Gray já havia trabalhado em outro filme da série, numa rápida participação em SÓ SE VIVE DUAS VEZES.

Agora, quem rouba a cena e eleva consideravelmente a qualidade de DIAMANTES SÃO ETERNOS é a dupla Bruce Glover e Putter Smith, como os assassinos Mr. Wint e Mr. Kidd. Mais lembrados por interpretar um casal gay, que são apresentados se livrando de um contato no deserto apenas para sair de mãos dadas juntos no pôr do sol. Glover e Smith dominam cada momento que têm na tela, mesmo quando estão apenas em segundo plano. Eles transformam o que facilmente poderia ter sido um papel de dupla clichê em algo muito mais forte, dando aos personagens potencialmente bobos um ar real de ameaça maquiavélica, ao mesmo tempo em que estão em sintonia com o tom debochado e fanfarrão do próprio filme. Eles são um prazer de assistir do primeiro ao último momento, e suas atuações garantem que Wint e Kidd estejam ao lado de Oddjob e Jaws como os maiores capangas na franquia James Bond.

Nenhum filme de 007 está completo sem as belas bond girls, e DIAMANTES SÃO ETERNOS certamente tem sua parcela de beleza na forma, sobretudo, de Jill St. John no papel de Tiffany Case, que é uma das primeiras mulheres de Bond a realmente se qualificar como uma protagonista ativa – atrevida, durona e determinada – que ainda precisa ser resgatada de vez em quando, mas está longe de ser um mero enfeite. Lana Wood também se destaca em seu pequeno papel como a inesquecível Plenty O’Toole (“of course you are”). A cena que ela é jogada do quarto de hotel de Bond para uma piscina apenas de calcinha pelos capangas de Tiffany é engraçada. E vale destacar que um dos capangas é ninguém menos que Sid Haig.

Quanto ao espião, Connery interpreta o papel com sagacidade, causando uma impressão melhor do que a sua versão entediada de SÓ SE VIVE DUAS VEZES. E é realmente o grande elemento que o público precisava para fazer do filme um sucesso, o Bond original, raíz. Lembremos, por exemplo, da aura cool de Connery estático no meio da tela antes que percebamos que ele está em cima de um elevador, que começa a subir pegando o público de surpresa. Ainda é uma imagem forte do ator no papel que deu tanta vida até aquele momento.

Mas no fim das contas, é evidente que, apesar de uma boa atuação, no geral Connery já não tinha o mesmo vigor, simplesmente não é mais o mesmo 007. Ao mesmo tempo também deixa claro que é possível interpretar o personagem de maneiras diferentes. Assim como o próprio filme, temos um Bond menos cínico e mais fanfarrão, no qual o seu trabalho de espionagem importa cada vez menos (por mais que esteja presente) e importa mais os absurdos cartunescos e cômicos desse universo.

Connery voltaria ao papel apenas mais uma vez como 007, em NUNCA MAIS OUTRA VEZ, um filme não oficial da série que, devido a alguns processos judiciais, conseguiu ser realizado como uma refilmagem de CHANTAGEM ATÔMICA (o que expliquei também no texto deste filme).

Fico imaginando apenas como o filme teria sido se Lazenby tivesse continuado o papel… Suponho que teria lidado com a perda climática que 007 sofreu no final de A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE e, como tal, teria sido provavelmente uma história de vingança mais sombria e dura. No entanto, recebemos o caricato em vez disso – perde-se na densidade, ganha-se na diversão. E, repito, tá tudo bem.

O diretor Guy Hamilton (que já havia realizado o melhor filme da franquia até o momento, GOLDFINGER, e ainda dirigiria os próximos dois depois deste aqui) mantém o ritmo do filme bem rápido, sempre em movimento, não há grandes set pieces de ação, mas sempre colocando Bond em situações cômicas e divertidas de acompanhar. Ajuda muito toda a aparência do filme, sempre muito competente, graças ao trabalho habilidoso do diretor de fotografia Ted Moore e o designer de produção de Ken Adam (o esconderijo penthouse de Blofeld é uma maravilha). E é preciso destacar o trabalho de John Barry na trilha sonora, juntamente com a canção-título, interpretada por Shirley Bassey, que é uma das minhas favoritas da série.

Onde acho que o filme falha é justamente no departamento de ação. O que pra um filme de 007 é algo a se considerar. A luta de Bond num elevador e alguns stunts em alta velocidade em Las Vegas é o máximo que dá pra destacar por aqui. E são realmente boas. O restante não tem muita graça… A fuga pelo deserto no carro lunar tinha potencial, tá no clima brincalhão demais, em sintonia com o filme, mas a execução é medíocre. E, ok, a sequência que Bond apanha das duas garotas, Bambi e Thumper, é clássica. Dos poucos momentos que eu mantive vivo na memória mesmo depois de mais de vinte anos sem assistir a isso aqui. Mas provavelmente foi por outros motivos, além da luta em si, se é que me entendem…

Mas o pior de tudo é o clímax a bordo da plataforma de perfuração de petróleo de Blofeld, uma bagunça mal executada, uma miscelânea de cenas jogadas e montadas de qualquer jeito, longe dos grand finale que os filmes do espião tinham até então. Até que gosto de uns efeitos especiais mais toscos que temos lá pelas tantas, o trabalho óptico pobre que mostra os resultados do satélite a laser de Blofeld e que poderiam estar em uma das aventuras de Fu Manchu de Christopher Lee dirigido pelo Jess Franco.

De qualquer maneira, um filme que transcende a ação. É preciso ressaltar isso. Não importa se a trama seja boba e desleixada e a aventura sem vergonha… A real é que DIAMANTES SÃO ETERNOS não vai encabeçar a lista de “Os Melhores Filmes de Bond” de qualquer fã sério, nem é provável que chegue sequer à metade superior. Mas ele ainda é divertido por toda a sua fanfarronice, Pelo retorno de Sean Connery no papel pela última vez num filme oficial e obviamente pela de assassinos gays que são das melhores coisas disso aqui. Temos exemplares melhores, ok, mas ainda é bom demais para dar algumas risadas.

O HOMEM PUMA (1980)

Eu já gostava de O HOMEM PUMA (The Pumaman, L’uomo puma), de Alberto De Martino, sem sequer ter assistido. Tô nem aí… Vejam esse poster (abaixo), o tal herói, o Pumaman, voando à frente da Estrela da Morte de STAR WARS! Tem como dar errado? Na verdade, depois de finalmente assistir, descobri que tem. E muito. O filme não tem absolutamente nada dessa vibe que o poster queria transmitir.

E não tem a Estrela da Morte. 😢

Mesmo assim eu continuei gostando de O HOMEM PUMA, só que agora pelos motivos errados, obviamente.

Considerando que SUPERMAN, de Richard Donner, foi lançado em 78, é fácil pensar que os italianos produziriam um filme como O HOMEM PUMA na esperança de tentar lucrar com o sucesso do clássico seminal de Donner na seara dos filmes de super-heróis, assim como outros países também o fizeram no período (lembro agora do SUPERSONIC MAN [79], de Juan Piquer Simón, que também saiu em VHS no Brasil). De fato, a Itália era conhecida por produzir imitações de franquias mais bem-sucedidas. Isso não é exatamente uma novidade e aqui no blog já dei vários exemplos disso.

Então vamos à trama d’O HOMEM PUMA, que é a seguinte: milhares de anos atrás, seres alienígenas visitaram os astecas e foram reverenciados como deuses. Eventualmente, alguns desses seres se relacionaram com humanos e geraram um filho, que recebeu incríveis poderes, que alegam ser semelhantes aos de um puma, embora muitos desses poderes não tenham nada a ver com pumas. Aumento de agilidade, força e habilidade de enxergar no escuro até fazem algum sentido. Mas quando o sujeito começa a voar e atravessar objetos sólidos dá pra perceber que os caras não tavam nem aí pra nada…

Nem mesmo sua roupa tem a ver com puma. Se olharmos para o Pantera Negra da Marvel, por exemplo, parece algo que combina com o tema de pantera. A roupa do Pumaman, no entanto, consiste em uma camisa preta com um rosto dourado no peito, uma capa preta e vermelha, calças caqui e um par de botas. Nada disso traz à mente o animal pelo qual ele é nomeado.

Enfim… O primeiro Pumaman recebeu a missão de usar esses poderes para proteger a humanidade. Seus descendentes também herdariam seu poder e continuariam a missão de seus antepassados. Seja lá por qual motivo, o povo asteca também recebeu dos visitantes uma grande máscara dourada que seria capaz de controlar a mente das pessoas.

Já nos tempos modernos, em Londres, jovens são jogados pela janela dos prédios pelos capangas do Dr. Kobras (o inigualável Donald Pleasence), que está desesperado para encontrar e matar o mais recente descendente da linhagem do Pumaman. E aparentemente jogar pessoas aleatórias pela janela é a melhor maneira de determinar se a pessoa é ou não é um super-herói…

O Professor de Antropologia Tony Farms (Walter George Alton) é o atual Pumaman, apesar dele não ter consciência disso. Até que um sacerdote asteca chamado Vadinho (Miguel Ángel Fuentes, de FITZCARRALDO) tenta lhe convencer que ele é o lendário Pumaman e lhe dá um cinto que permite que ele acesse seus poderes.

Claro, antes há toda uma discussão filosófica entre eles, um auto descobrimento, não é fácil reconhecer que você é o escolhido para proteger a humanidade. Mas não demora muito, Farms se vê voando toscamente e enfrentando o Dr. Kobras, que, aliás, já possui a máscara dourada mencionada anteriormente e planeja usá-la para conquistar o mundo.

A partir daí, somos apresentados a um festival de absurdos e bizarrices no que há de melhor – ou pior, depende do seu ponto de vista – do cinema tosco, do cinema péssimo, do cinema do “tão ruim que é bom” que os italianos sabiam bem como fazer. Os efeitos especiais, por exemplo, são tão horríveis até para a época que chego a me questionar por que eles se deram ao trabalho de fazer. Mas basta o Pumaman começar a voar que eu agradeço aos realizadores, em especial à falta de competência – e até de noção mesmo – do diretor Alberto De Martino, por não desistirem. É simplesmente uma das coisas mais ridículas e engraçadas que já colocaram em película.

Os diálogos de O HOMEM PUMA parecem escritos por uma inteligência artificial que não entende como os humanos se comportam ou comunicam entre si. A trilha sonora é uma das piores escolhas auditivas que já fizeram, não combina em nada com o tom do filme, se é que possui algum tom definido….

Algumas atuações são simplesmente constrangedoras, com destaque para Fuentes como Vadinho, que tem a mesma entonação emocional que uma porta. Em contrapartida, Donald Pleasence não precisa de esforço algum pra nos fazer sorrir. Fica bem evidente que o sujeito aceitou o trabalho pra cumprir tabela e arrancar um cheque dos produtores, mas até fazendo um papel de vilão no piloto automático demonstra porque ele foi dos grandes.

O elenco ainda tem a bela Sydne Rome, que interpreta o principal interesse amoroso do Pumaman e que está sendo controlada mentalmente pelo Dr. Kobras. Ela já teve atuações melhores, adoro ela em QUE? (1972), do Polanski. Aqui é apenas um rosto bonito sem muita expressão.

O pior do filme – ou melhor, dependendo mais uma vez do seu ponto de vista – é o desempenho do próprio Pumaman, o tal Walter George Alton. O ator é simplesmente desprovido de qualquer carisma e não consegue o suficiente pra fazer com que nos importemos com seu personagem. Sem contar que é estranho um ator caucasiano escolhido para interpretar um homem descendente dos astecas, mas esse tipo de coisa eu nem me importo. O que realmente me importo, e retomo aqui o assunto, é o seu ato de voar. Ah, isso sim eu me importo. Repito, é uma das coisas mais ridículas que eu já vi na vida e é preciso reforçar isso.

Enfim, O HOMEM PUMA é daqueles exemplares especialmente recomendado pra quem gosta de assistir a filmes de baixa qualidade, baixo orçamento, baixo tudo… Para dar boas risadas da incompetência alheia, se divertir às custas de efeitos especiais baratos, atuações terríveis e a natureza sem sentido do roteiro e tudo que deu errado na produção. Ou seja, para pessoas que sabem apreciar um legítimo filme ruim.

A PROVA DO LEÃO (1965)

O ator Cornel Wilde é um caso interessante. Talentoso pra caramba e desejando encontrar papéis mais interessantes em produções ousadas dentro de Hollywood, ele funda sua própria produtora em 1950 para ter mais liberdade. Depois disso, pra se tornar diretor foi um pulo, em 1955, com um filme chamado ÓDIO ENTRE IRMÃOS (Storm Fear).

Quando chegou à meia-idade e passou a se preocupar menos com seu status de astro é que a carreira de diretor de Wilde realmente decola na década de 60, com o que pode ser considerado uma trilogia sobre a natureza autodestrutiva dos homens. Primeiro explorada de forma primitiva em A PROVA DO LEÃO (The Naked Prey); de forma moderna no filmaço de guerra DESEMBARQUE SANGRENTO (Beach Red, 1967); e por último de forma alarmante na ficção científica pós-apocalíptica NO BLADE OF GRASS (1970).

A PROVA DO LEÃO, portanto, inicia esse ciclo e se revela uma verdadeira obra-prima do cinema de aventura do período. Embora sua trama evoque o grande clássico de caçada humana THE MOST DANGEROUS GAME (1932), sua estética e violência inédita e extrema para a época anunciam especialmente grandes obras futuras do gênero de sobrevivência, como WALKABOUT (1970), de Nicolas Roeg, e até CANNIBAL HOLOCAUST (1980), de Ruggero Deodato. E é bem óbvio que deve ter servido de inspiração pra filmes como APOCALYPTO (2007), de Mel Gibson, quase um remake mascarado deste aqui.

A PROVA DO LEÃO se baseia numa aventura real, vivida pelo lendário John Colter (que participou da mítica expedição de Lewis e Clark, uma das maiores desbravadas pelo território americano), mas ficou mais conhecido por ter sido capturado e fugido de uma tribo indígena, os Blackfoot. Depois de matarem seu companheiro, os índios o soltaram nu na floresta para persegui-lo, e uma semana depois, exausto e deixando vários cadáveres de Blackfoot pelo caminho, ele conseguiu retornar à civilização são e salvo, e a lenda de seu feito pôde se espalhar.

Cornel Wilde retoma esse argumento e o transpõe para a África, mais precisamente para a Rodésia (hoje Zimbábue), na era colonial. Cornel Wilde (cujo nome nunca é revelado, creditado apenas como “man“) guia um safári patrocinado por um ricaço amante da caça (Gert Van den Bergh) em busca de marfim. Desde o início, a tensão se instala com a atitude imbecil do caçador. Matando por prazer sádico (um diálogo destaca que ele mata elefantes mesmo que não tenham presas de marfim apenas pelo esporte), ele também demonstra um profundo desprezo pelos nativos ao se recusar a cumprir um ritual de oferenda ao chefe de uma tribo ao atravessar seu território, para a grande consternação do personagem de Wilde, que demonstra ser mais respeitoso.

Daí vem o castigo. Não demora muito, a tribo ofendida os ataca, captura e os leva para sua aldeia. Lá, diante de nossos olhos perplexos, desenrola-se uma sequência impressionante de barbárie, de sacrifícios humanos e torturas sádicas, onde os ocidentais pagam caro por seu desprezo inicial. Fico imaginando o público da época reagindo a essas cenas…

O único que não sofre a mesma fatalidade é o personagem de Wilde, que havia demonstrado respeito e acabam lhe reservando um destino completamente diferente. Despido e humilhado, ele é solto nu na savana. Lhe dão alguma distância de vantagem e, a partir daí, passa a ser perseguido por um bando de caçadores da tribo.

A PROVA DO LEÃO adota um estilo naturalista para ilustrar essa longa caçada humana que dura o restante do filme. Ao filmar em locações reais, foge da superficialidade das recriações em estúdio que eram comuns na época e, em vez disso, nos leva a uma savana aberta, sob um sol escaldante, onde a escassez de água se iguala à falta de lugares para se esconder. Esse visual oferece aos caçadores uma vantagem, não têm dificuldade em seguir os rastros de Wilde até porque, à princípio, ele se mantém à vista no horizonte, por mais distante que esteja.

Assim, temos uma sensação de perigo constante, um sentimento reforçado pela ausência de trilha sonora tradicional, exceto pelos cantos e ritmos tribais que percorrem todo o filme, sinônimo de ameaça iminente. Para sobreviver a esse desafio, Wilde terá que assimilar e aplicar a única regra que importa nesses lugares: a lei dos mais fortes. Durante toda a sua jornada somos bombardeados por várias imagens de arquivo mostrando confrontos de animais de uma brutalidade impressionante, enfatizando esse fato por meio de associação de ideias.

E Wilde luta. A perseguição é angustiante, e em vários momentos os confrontos sangrentos são inevitáveis. O diretor sempre ousa numa abordagem crua, enquanto o personagem encara seus caçadores e os mata, um a um, sem qualquer remorso, se banhando do sangue dos seus inimigos, ilustrando bem essa perda de humanidade e a predominância dos instintos básicos. Ainda estou impressionado com o quão A PROVA DO LEÃO é visceral nesse sentido e como deve ter sido o impacto no público da época.

Antigo campeão esportivo (que quase participou das Olimpíadas de 1936 na esgrima antes de desistir por um papel no teatro), Cornel Wilde, já com mais de cinquenta anos aqui, exibe uma forma física que nem nos meus 25 anos eu conseguia ter; tem aqui uma atuação muito expressiva e determinada, passando por todas as emoções em um filme que praticamente desprovido de diálogos na maior parte do tempo.

Essa lei do mais forte e a loucura dos homens ressurgem na última parte de A PROVA DO LEÃO com a aparição de traficantes de escravos, em mais uma sequência brutal. No entanto, Wilde deixa uma centelha de esperança nesse pico de violência por meio do relacionamento afetuoso entre ele e uma criança nativa que salvou, o que revela uma possibilidade de aproximação entre os povos, baseados não na força, mas na compreensão mútua.

Até então, Wilde evita completamente qualquer tipo de maniqueísmo. Coloca o herói e seus perseguidores em pé de igualdade em seus instintos de sobrevivência e motivações. Aqueles que não respeitaram as leis da natureza (os traficantes de escravos, o caçador racista) são mais estereotipados, enquanto os demais personagens são retratados de forma minimalista, existindo através de suas ações. E o respeito mútuo entre os oponentes ainda é evidente em uma breve saudação final, mostrando que o personagem de Wilde se mostrou digno do desafio mortal lançado a ele.

Eu já deveria ter assistido A PROVA DO LEÃO antes, mas agora que finalmente vi, só posso dizer que valeu a pena. É forte, ousado, retrata uma violência que é difícil de se deparar no cinema americano do período, além de ser um dos grandes filmes de aventura já feitos. Altamente recomendado.

PIRANHA (1978)

Na esteira de TUBARÃO, de Spielberg, a segunda metade dos anos 70 viu uma série de imitadores classe B invadirem os cinemas com filmes de animais selvagens assassinos, tanto pela água quanto por terra. PIRANHA é um desses exemplares, mas que possui um toque especial. Por que? Pra começar é produzido pelo Roger Corman. Querem outra boa razão? A direção é do Joe Dante. Ponto. Impossível não ser a melhor dessas “variações” do período.

Dante já havia se aventurado na direção antes, mas em parceria com outros pupilos do Corman, e trabalhava mais como editor para a New World Pictures, a produtora de Corman, quando foi escolhido para dirigir PIRANHA, desta vez sozinho. Sem muito dinheiro ou tempo, que era o habitual nas produções de Corman, Dante elaborou um pequeno e tenso thriller drive-in habilmente reforçado com um elenco regular de TV e filmes B. Um roteiro decente (que teve envolvimento de John Sayles, o que é mais um motivo pra esse filme ser especial), servindo de amplos elementos que os amantes desse tipo de material adora (umas pessoas com pouca roupa e um bocado de sangue), com uma pitada de reflexão social, mas sem se levar à sério, deixando o absurdo que é tudo isso aqui reinar de forma plena, o que certamente ajuda bastante.

Maggie (Heather Menzies) é uma espécie de rastreadora que é contratada para encontrar um jovem casal que desapareceu no interior. O eremita misantropo Paul Grogan (Bradford Dillman) relutantemente se oferece para ajudá-la depois que o jipe da moça quebra no meio do nada. Na jornada que se segue, Maggie e Paul encontra o casal, ou pelo menos o que possivelmente sobrou, um esqueleto que pode pertencer a um deles.

Logo no início do filme, nos é mostrado que o casal havia invadido uma instalação de pesquisa aparentemente deserta e encontrou uma piscina convidativa, então decidiram dar um mergulho. Infelizmente a piscina estava cheia de piranhas!

E não eram piranhas normais. São super piranhas mutantes criadas naquele centro de pesquisa. A instalação pertencia aos militares dos EUA e as piranhas foram planejadas como uma arma biológica para uso durante a Guerra do Vietnã. A guerra acabou e o projeto foi encerrado… Oficialmente. Extraoficialmente, no entanto, um cientista, Dr. Hoak (o grande Kevin McCarthy), ficou pra trás e continuou sua pesquisa com as piranhas, que agora podem viver em água doce ou salgada.

Se as piranhas entrarem no rio próximo, vão acabar alcançando o mar e se tornarão uma ameaça global. Mas isso não deve acontecer, já que estão presas à piscina. A menos que alguém a esvazie soltando as piranhas no rio… E é exatamente isso que Maggie faz inadvertidamente.

Maggie, Paul e o Dr. Hoak agora têm que tentar desfazer o desastre.

Primeiro problema. O acampamento de verão nas margens do rio, onde centenas de crianças vão pra lá se divertir nadando, brincando na água, lugar comandado pelo sempre genial Paul Bartel… Não vale a pena pensar no que aconteceria se as piranhas se soltassem entre centenas de crianças, mas o acampamento é exatamente para onde essas piranhas estão indo. E a filha de Grogan está no local.

Segundo problema. O próximo passo no roteiro das piranhas será o novo resort construído por um consórcio liderado pelo empresário pilantra Buck Gardner (Dick Miller). Haverá carnificina quando as piranhas chegarem.

Sem transporte por terra, a única maneira do trio chegar ao acampamento de verão a tempo é de jangada. Descer um rio infestado de super piranhas será um desafio. Maggie e Paul também enfrentam o problema de que os militares estão determinados a encobrir o fiasco. E a Dra. Mengers (a musa do horror gótico italiano Barbara Steele), que foi enviada para investigar o caso, também não vê porquê o fato de algumas centenas de pessoas serem comidas por piranhas deveria atrapalhar pesquisas científicas “vitais”. Os militares dos EUA precisam de maneiras novas e criativas de matar pessoas, não é?

Produção dos anos 70, o cinismo sobre o governo e as forças armadas dos EUA estavam no auge e o filme não mede esforços pra ridicularizar figuras do tipo pelo uso irresponsável da ciência e dos experimentos genéticos, mesmo que num tom mais satírico. Os cientistas também não se saem muito bem na fita por aqui. O Dr. Hoak é um cara legal, mas não consegue ver nenhum problema moral em seu trabalho.

Sobre a produção, PIRANHA até que foi um filme caro para os padrões de Roger Corman, o que significa também que foi um filme bem barato para os padrões de qualquer outro estúdio. Mas as produções de Corman sempre conseguiram superar suas limitações orçamentárias, o sujeito tinha o dom de contratar pessoas que podiam obter bons resultados com muito pouco dinheiro. Não preciso falar muito de Joe Dante que foi mestre nisso. Mas os efeitos especiais, por exemplo, foram alcançados de forma bastante simples. As piranhas são apenas fantoches de pau. Mas parecem bastante convincentes. A cena em que eles atacam a jangada é bem eficaz e genuinamente tensa. As cenas subaquáticas são todas bem feitas.

Há até um bocado de gore de vez em quando e a contagem de corpos é alta. Essas piranhas estavam realmente com fome. E em nenhum momento você pensa que um filme desse vai nos mostrar crianças sendo comidas por peixes carnívoros assassinos. Quero dizer, não há como isso acontecer, certo? Maggie e Paul chegarão ao acampamento de verão a tempo de evitar tais horrores. Não vão? Bom, é nessas horas que você percebe porque o Roger Corman e Joe Dante são dois caras fodas e ousados, com mais colhões do que 100% dos diretores/produtores/estúdios que fazem cinema hoje em Hollywood.

A atuações são bem decentes. Bradford Dillman é um bom tipo de herói ranzinza que nunca quis ser herói, mas a necessidade o força a isso. Heather Menzies também convence no seu papel e Barbara Steele está deliciosamente má. Não tem como não rir de caras como Paul Bartel e o maravilhoso Dick Miller, que exagera de forma divertida.

PIRANHA é o que se propõe a ser. É uma imitação barata de TUBARÃO que oferece emoções e horrores eficazes, e é extremamente divertido nesse sentido, além de trazer as reflexões habituais e clichês desse tipo de filme – experimentos científicos irresponsáveis, consequências ambientais, a ganância da indústria do turismo, que coloca em risco a vida das pessoas em prol do lucro… Clássico.

Teve uma continuação, PIRANHA II: THE SPAWNING, que é erroneamente atribuído a James Cameron como seu primeiro filme. A maior parte do trabalho foi realizada, na verdade, por Ovidio G. Assonitis, o produtor do filme. Segundo consta, Cameron trabalhou nos efeitos especiais, reescreveu o roteiro, criou storyboards, fez a aferição de locações e filmou por quatro dias. No entanto, Assonitis questionava continuamente as decisões de Cameron, que demonstrou que não seria o pau mandado que o produtor esperava (mesmo num filme chamado PIRANHA II), e o demitiu no quinto dia de filmagem. Não se sabe ao certo o que restou do trabalho de Cameron, mas é notório que Assonitis reescreveu muita coisa e adicionou as doses de nudez que não estava no script originalmente.

Mas já tô me prolongando demais. O fato é que essa continuação não chega aos pés do filme de Joe Dante. Fica a recomendação pra quem não viu ainda PIRANHA (ufa, terminei o texto sem fazer nenhuma piadinha infame com o título do filme…).

OPERAÇÃO DRAGÃO (1973)

OPERAÇÃO DRAGÃO (Enter the Dragon) é um clássico e sobre isso eu não discuto. Sua influência no cinema de artes marciais no mundo todo é evidente. Mas eu sempre brinco dizendo que infelizmente foi logo este filme que se tornou um marco para Hollywood. “Não tinha outros filmes melhores não?” Na verdade, tinha. Existem um milhão de exemplares melhores do período que poderiam ter despertado esse “movimento”. Mas isso é só uma provocação boba. Eu amo OPERAÇÃO DRAGÃO e quero deixar isso bem claro, mesmo com suas falhas. E existe uma infinidade de coisas pra se apreciar aqui e que justificam seu status cult. A principal delas, é óbvio, a presença de um tal Bruce Lee como protagonista.

A história toda foi mais ou menos assim: em 1973, Bruce Lee já era um astro na Ásia, consequência feliz de sua, digamos, incapacidade de se destacar nos Estados Unidos (muita gente esquece que Lee era americano). Limitado à televisão com o seriado O BESOURO VERDE, afastado de um projeto que lhe era querido (a série KUNG FU, cujo papel principal foi dado a David Carradine), considerado “muito chinês” para os papeis que tentava nos EUA no fim dos anos 60… Enfim, Lee se refugiou em Hong Kong e deu início a carreira que conhecemos.

Depois de três filmes, percebendo a oportunidade que perderam, a Warner o chamou de volta para propor uma co-produção com a Golden Harvest, a produtora que o havia acolhido. O filme foi este aqui, OPERAÇÃO DRAGÃO, dirigido por Robert Clouse. Bruce Lee finalmente tinha a chance de conquistar o mercado americano, mesmo compartilhando os holofotes com John Saxon e o estreante Jim Kelly. Teve até carta branca pra cuidar das lutas e coreografias, ou seja, o coração do filme. Até mesmo sua filosofia de combate seria explorada, como por exemplo na sequência inicial, quando luta com um de seus aprendizes (um jovem Sammo Hung) e lhe passa alguns ensinamentos, da mesma forma com um garotinho logo depois… O filme é todo Bruce Lee na sua essência.

Mas aí veio a tragédia. Somado ao fato de que Bruce Lee morreu pouco antes do lançamento de OPERAÇÃO DRAGÃO, sua consagração não apenas como astro do cinema de artes marciais, mas como ícone da cultura pop mundial, ficou garantida. Assim como o sucesso do próprio filme.

Com todos os recursos à disposição, aproveitando a sinergia entre as equipes americana e de Hong Kong, OPERAÇÃO DRAGÃO foi a produção mais “profissional” da curta carreira de Bruce Lee como astro. Mesmo sendo no geral um filme com alma de B Movie, com pegada de história em quadrinhos, um filme de artes marciais com estrutura de James Bond, com uma pitada de blaxploitation… E por aí vai.

Na trama, que todos vocês já conhecem, Bruce Lee interpreta um agente chamado… Lee! Ele é contratado por uma agência de inteligência internacional para descobrir as atividades ilegais do Sr. Han, que patrocina uma competição de artes marciais numa ilha particular que usa como fachada para recrutar agentes para trabalhar no seu império das drogas e tráfico de mulheres.

Ao mesmo tempo, Lee tem outras questões pessoais para resolver na ilha do Sr. Han, já que capangas do vilão foram responsáveis pela morte da irmã do protagonista. Na sua jornada, Lee se junta a Roper (John Saxon) e Williams (Jim Kelly) para quebrar a cara de todo mundo no torneio, ter sua vingança e acabar com os esquemas da quadrilha do Sr. Han.

E é isso, basicamente. Um filme simples, uma trama excêntrica com personagens maneiros e com um bocado de pancadaria, cujo principal objetivo é divertir o seu público. Mas que de alguma forma se tornou um clássico. Bruce Lee esperava, a longo prazo, fazer filmes mais complexos, algo que inicialmente queria infundir já em JOGO DA MORTE, o filme seguinte, que Lee só filmou cerca de 25% e foi finalizado sem ele. Mas o sucesso do filme não exigia algo mais elaborado. Bastava a presença de Lee na tela, fazendo seus movimentos, que o público já estava hipnotizado.

OPERAÇÃO DRAGÃO também é interessante como fantasia estereotipada sobre esse herói não branco, algo que já era perceptível em filmes anteriores de Lee, sobretudo pelo seu jingoísmo, o nacionalismo antinipônico em FÚRIA DO DRAGÃO, ou do confronto contra a supremacia americana em O VÔO DO DRAGÃO, com o massacre de Chuck Norris no Coliseu, um símbolo ocidental. Quase se poderia considerar um ato político a arrancada de pelos no peito de Norris por parte de Lee… E aqui a coisa vai na mesma direção, desde o comportamento sóbrio e puro de Lee, em comparação com os seus amigos americanos (que não hesitam em se fartar de tudo que Sr. Han tem pra lhes oferecer), até a humilhação pra cima de mais um lutador ocidental, vivido por Bob Wall.

Agora a parte negativa. O principal problema de OPERAÇÃO DRAGÃO pra mim é o ritmo e o contraste entre as duas metades de projeção. É um filme que acaba praticamente sofrendo de dupla personalidade. A primeira hora foca mais na trama de espionagem, apresenta esse universo, personagens, que não deixa de ter seu fascínio de um modo geral, mas que ao mesmo tempo é um convite ao sono. Principalmente depois de rever tantas vezes, já acostumado com a história, percebe-se o peso narrativo. O Sr. Han mostrando suas dependências, e os setores de fabricação de droga, à Roper é um troço bem arrastado…

Claro, o arco com o Jim Kelly continua uma maravilha, o rapaz demonstrava porque foi considerado o Bruce Lee da Blaxpoitation – guardando as devidas proporções. E eu até gosto muito da traminha pulp de espionagem que temos aqui, mas só depois de passar um bom período de marasmo, conduzido com um ritmo bem caído, que o filme se transforma num exemplar de ação completo, com os últimos 40 minutos envolvendo Lee e a turma “do bem” numa pancadaria contra uma ilha inteira de bandidos.

Outro problema, que na verdade não é bem um problema, é algo que, pessoalmente, acho que tira um pouco a chance que o filme teria de ser ainda melhor, é o fato de que em OPERAÇÃO DRAGÃO o personagem de Bruce Lee é bom demais na porrada. E não tem ninguém que esteja no mesmo nível. Não só aqui, mas em qualquer filme que isso aconteça é algo que não curto. Perde um pouco a graça. Óbvio que é legal vê-lo esmurrando um exército inteiro de capangas, mas não vai ser uma salinha de espelhos ou lâminas no lugar da mão que vai te ajudar a derrotar o herói… No fim das contas, o personagem de Lee não tem páreo e derrota todos nessa sua jornada com uma facilidade quase frustrante.

Só não chega a ser realmente frustrante porque aí entra o trabalho do Robert Clouse, que tava muito inspirado quando filmou OPERAÇÃO DRAGÃO, e consegue entregar uma boa dose de cenas de pancadaria e do uso da imagem icônica de Bruce Lee como artista marcial. Há duas cenas de destaque: primeiro, na base do vilão, depois de se esgueirar pelos seus esconderijos, temos a luta (parcialmente em câmera lenta) de Lee sozinho contra uma horda de agressores (incluindo um jovem Jackie Chan) surgindo de todos os lados do quadro. É um deleite ver Bruce Lee no centro da tela a mover e desferir seus golpes, com seu momento nunchaku… Um clássico.

Pra quem não sabia, esse moço levando porrada do Bruce Lee é o Jackie Chan.

E depois no duelo final com o Sr. Han. Sei que já reclamei que o vilão final não é páreo para o herói, mas, nossa, ainda causa impacto o uso dos espelhos e a maneira como Clouse conduz essa surra toda. Tudo bem, Bruce Lee levas uns cortes. Passa o dedo na ferida, lambe, outro momento icônico… No fim das contas é isso que importa. A imagem cristalizada de Bruce Lee fazendo poses que se tornariam objeto de culto no imaginário pop. Todo o restante é secundário, exceto a partitura de Lalo Schiffrin sempre muito elegante. E claro, a presença de John Saxon, um ator que adoro e que tá ótimo aqui (apesar de não ser ligado ao gênero, o sujeito tinha background em artes marciais), Jim Kelly mostrando potencial, um jovem Bolo Yeung quebrando a espinha de um adversário, entre outras figuras do cinema popular de Hong Kong. Mas OPERAÇÃO DRAGÃO é Bruce Lee até o talo e não seria a mesma coisa sem ele.

Assim, quando o vilão é eliminado e os créditos finais começam a rolar, OPERAÇÃO DRAGÃO não deixa dúvidas dos motivos de seu sucesso, de ter sido repetidamente copiado pelo cinema de artes marciais nas décadas seguintes, sobretudo em Hollywood, tentando recriar a sua magia original mesmo que, como disse na abertura do texto, existam filmes muito melhores nessa mesma época. Em 2023 o filme completa 50 anos e continua uma sessão obrigatória de tempos em tempos.

CORRENTES DO INFERNO (1983)

A carreira da Linda Blair certamente tomou um rumo interessante após O EXORCISTA. Filmecos de terror, aproveitando sua imagem da garotinha endemoniada do clássico de William Friedkin, mas também participou de vários exploitation barra pesada. Já comentei, por exemplo, aqui no blog sobre RUAS SELVAGENS (1984). E agora me deparei com ela fazendo a personagem central nesse petardo do cinema de mulheres em penitenciárias, os famigerados WIP (Women in Prison), CHAINED HEAT, que no Brasil tem o título genial de CORRENTES DO INFERNO, dirigido por um tal Paul Nicholas, e certamente é um dos principais representantes do gênero nos anos 80.

Carol (Blair) é condenada por homicídio culposo em um atropelamento e é enviada para a prisão por dezoito meses. Embora a novata tenha sido “adotada” pela detenta durona Val (Sharon Hughes), todos os outros indivíduos que povoam o local parecem determinados a tornar a experiência de Carol na prisão um verdadeiro inferno.

A líder da gangue de branquelas, Ericka (Sybil Danning no auge da beleza – preciso dizer mais alguma coisa?), está interessada em Carol, mas depois de uma proposta durante um banho coletivo – sequência tão icônica do cinema de exploração que mesmo antes de ver o filme eu já conhecia – Carol a rejeita e começa uma jornada difícil para nossa pequena ex-menina possuída.

Somos apresentados à Capitã Taylor, interpretada pela grande Stella Stevens, em um papel fora do seu habitual, mas que desempenha perfeitamente. Ela está envolvida em uma busca pelo poder supremo contra o diretor Bacman, interpretado por John Vernon. Bacman provavelmente é o maior pilantra de todos. Você precisa ver seu escritório na prisão para acreditar! Ele leva as jovens bonitas da prisão para a sua jacuzzi particular (sim, isso mesmo, em seu escritório), dá a elas todas as drogas que querem e as filma fazendo striptease, entre outras coisas dentro da jacuzzi. Olha, no departamento sexo e nudez, CORRENTES DO INFERNO não tá pra brincadeira. A sequência que a musa Monique Gabrielle faz um strip pro Vernon sob as lentes de sua filmadora logo no início é um dos pontos altos do filme…

Há um sério problema de tráfico de drogas ocorrendo na prisão, e Bacman quer chegar ao fundo disso – afinal, ele ainda é o diretor do local. Sua “informante” (Gabrielle) que vemos no início do filme é morta por Ericka e suas cúmplices, todas em conluio no tráfico com a Capitã Taylor e seu amante traiçoeiro Lester, interpretado por ninguém menos que Henry Silva. Sim, o elenco é só surpresas das boas!

No entanto, Lester está secretamente envolvido com Ericka sem que Taylor saiba. Enquanto tudo isso se desenrola, a líder da gangue de mulheres negras, Dutchess, interpretada pela musa da blaxploitation Tamara Dobson, de CLEOPATRA JONES, busca vingança pelo assassinato bruto e violento de uma de suas amigas. Há um nível surpreendente de cenas brutais e sangrentas nessa obra, devo alertá-los.

Mais caos se desenrola quando Ericka e Dutchess lutam com correntes no pátio. Depois que Carol, (lembram dela? é a protagonista interpretada pela Blair) é estuprada por Bacman, a maré começa a mudar na prisão. Taylor quer o cargo mais alto, então ela e sua guarda-costas durona afogam Bacman em sua jacuzzi durante suas “brincadeiras”, agora com Val, a amiga de Carol, que estava ali com o objetivo de… Ah, nem lembro mais, mas acho que era uma tentativa de roubar as filmagens das câmeras do diretor que serviriam como prova de que ele estuprou a protagonista. Mas pra manter o assassinato em segredo, Val acaba brutalmente espancada até a morte.

Para garantir sua promoção, Taylor promete às autoridades que encontrará o assassino da pobre Val, plantando evidências em Ericka. Quando o porrete ensanguentado usado em Val é encontrada na cama de Ericka, as detentas decidem que já tiveram o bastante. E como todo bom e velho filme de prisão de mulheres só fica completo depois de uma revolta sangrenta no final, cá estamos.

Não tem como errar com CORRENTES DO INFERNO. Há tanta coisa acontecendo que eu deixei alguns desenvolvimentos da trama de fora dessa descrição toda. É praticamente um seriado de dez capítulos condensados em 90 minutos. Quase todo mundo nesse filme aparece sem roupa em algum momento – o que é esperado se Sybil Danning está envolvida – é corrupto, trafica drogas, é espancado ou espanca alguém de forma bruta.

A atuação num geral é boa, apesar da temática que envolve vários “temas” do cinema de exploração, tudo bastante exagerado, com Stella Stevens especialmente saboreando suas maldades. Linda Blair cumpre bem o que lhe é proposto, tem seu arco de transformação, se torna durona no final, o que é um alívio depois de todas as suas tribulações durante o filme. Ainda temos Robert Miano no papel mais abjeto e repulsivo do filme, o guarda estuprador. Os penteados são puro suco dos anos 80 e a música é inconfundivelmente datados, o que aumenta o fator de nostalgia geral.

Se alguém aí é adepto ou curiosso sobre o subgênero W.I.P. e não assistiu ainda a CORRENTES DO INFERNO, dê uma olhada. É um clássico, uma jornada frenética pelo mundo do cinema de exploração em seu melhor estilo intransigente. Teve três continuações, sem qualquer ligação com este primeiro, a não ser pelos títulos e por se passarem em prisões femininas…

Precisamos falar sobre JOHN WICK

Aproveitei o lançamento do quarto filme da franquia JOHN WICK, estrelada pelo Keanu Reeves, para rever a trilogia inicial. E como nunca escrevi nada sobre esses filmes por aqui, trago uns comentários que fiz durante os últimos dias no Letterboxd e Instagram, onde tenho sido mais atuante, por isso recomendo que sigam, se tiverem interesse, porque esse recinto aqui anda bem abandonado, e a correria dos tempos atuais quase me obriga a fazer comentários mais curtos nas outras redes, do que posts maiores por aqui.

DE VOLTA AO JOGO (John Wick, 2014), de Chad Stahelski e David Leitch

Acho massa lembrar que na época do lançamento muito pouco sobre JOHN WICK sugeria que a gente estaria prestes a assistir a um dos melhores filmes de ação daquele período. Mesmo com suas imperfeições, foi exatamente o que assistimos e o impacto foi grande, notável pela presença de Keanu Reeves numa performance física impressionante, em sequências espetaculares de tiroteios, lutas coreografadas com capricho, filmadas e editadas com maestria e com uma construção de universo envolvendo um peculiar submundo de assassinos, cheio de regras, que tornava tudo ainda mais fascinante.

E é de certa forma admirável constatar que o filme continua um dos grandes exemplares do gênero (em se tratando de Hollywood), passados praticamente dez anos, mesmo que as suas próprias continuações tenham lhe superado. O que só engrandece essa franquia que eu tanto adoro.

Vou me estender um pouco mais nesse primeiro filme, só pra introduzir algumas premissas caso alguém tenha essa falha de não ter visto o filme ainda e porque acredito que preciso declarar meu amor a esse personagem incrível, que atende pelo nome/título de John Wick (Reeves), capaz de matar cem homens sob o pretexto de que tiraram a vida de seu adorável cachorrinho. Um beagle irresistível. Aquele que sua esposa havia deixado pra ele após sua morte como um presente póstumo. A única coisa que restava dela. A única coisa que o manteve em uma vida normal, longe de um passado carregado de morte e violência. Uma existência de paz que ele escolheu depois de muitos anos trabalhando como assassino contratado para organizações mafiosas. John Wick foi apelidado de “Baba Yaga“, algo que traduziram como o bicho-papão – embora possam dizer também que ele é a pessoa que chamariam para matar o bicho-papão. Temido por todos, ele era o assassino mais eficaz. Quando um chefão russo (Michael Nyqvist) descobre que seu filho roubou o Mustang e matou o cachorro de John, ele sabe o que está por vir. Ele sabe que seu filho despertou uma fera capaz de tudo.

É isso, simples, direto, não perde muito tempo com bobagens. E quando menos se espera, estamos diante de sequências de ação de cair o queixo. Até porque é sobre isso o filme. A trama é só um pretexto para uma sucessão de cenas de tiro, porrada e bomba. A ação – e a estética da ação – é que fala mais alto. Uma essência que vai ganhando uma proporção cada vez maior a cada continuação…

Melhor sequência de ação: A da casa noturna, Red Circle, ainda impera. É um bom exemplo da maestria dos diretores, David Leitch e Chad Stahelski, um balé de corpos, balas, golpes e violência combinado à batida da trilha sonora, à uma noção de espaço precisa, num cenário belissimamente iluminado, com trabalho de câmera refinado ao mesmo tempo nervoso, brutal, uma sequência que já nasceu clássica e dá o tom do nível da ação que estamos diante (e era difícil na época imaginar que os realizadores conseguiriam fazer coisas ainda melhores em possíveis continuações). E é onde podemos ver Keanu Reeves encarando o grande Daniel Bernhardt, um ator de ação B dos anos 90 que sempre que aparece nessas produções atuais eu abro um sorriso. Também ajuda muito, nesta sequência da casa noturna, que esta seja a primeira demonstração real do por que John Wick é um assassino tão lendário e temido, aumentando seu impacto. A sequência anterior, o ataque à casa de John, é bem boa, mas dá só um gostinho das habilidades do homem. Aqui não. Aqui John Wick convence que realmente poderia matar cem homens sozinho se precisasse.

Um adendo sobre os diretores: acho legal notar os rumos que tomaram depois deste primeiro filme. Stahelski ainda se manteve fiel ao universo JOHN WICK. Dirigiu sozinho os três capítulos seguintes e provavelmente vai continuar nos próximos (se tiver). Há alguns anos anunciaram uma refilmagem do clássico oitentista HIGHLANDER comandada por ele. Vamos ver se sai… Já Leitch seguiu um caminho diferente como diretor (ele ainda tá na produção de todos os JOHN WICK), se meteu em outras franquias, como VELOZES E FURIOSOS: HOBBS AND SHAW (19) e DEADPOOL 2 (18), e tentou desenvolver seu próprio universo em filmes com um certo autorismo, como ATOMIC BLONDE (17) e BULLET TRAIN (22), sem os mesmos resultados deste seu primeiro trabalho aqui, embora eu tenha simpatia em algum nível por todos esse filmes dele.

JOHN WICK: UM NOVO DIA PARA MATAR (John Wick: Chapter 2, 2017), de Chad Stahelski

A rapaziada realmente levou à sério a lógica das continuações: maior, melhor e MAIS, tudo MAIS, MAIS… Sobretudo quando se trata de ação e da expansão desse universo, nota-se algo bem mais complexo do que um simples submundo de assassinos, envolvendo grandes corporações criminosas, o que inclui mais regras, mais acessos exclusivos a quem está abaixo dessa sociedade. Literalmente um mundo que se expande ainda mais.

E acredito que diz muito sobre o seu nível de consciência cinematográfica quando você começa o seu filme de ação projetando imagens de Buster Keaton na tela fazendo algum de seus stunts malucos no mesmo plano em que tá rolando uma puta perseguição de carro/moto… Não é a toa que o que se segue a partir daí não é apenas um dos melhores filmes de ação dos últimos anos, mas também um filme que pensa a ação, a estética da ação, de uma forma muito peculiar. Não é a toa que o diretor disso aqui seja Chad Stahelski. Enfim, este segundo filme já é uma obra-prima do gênero.

Melhor sequência de ação: Tem pelo menos umas quatro sequências aqui dignas de antologia, mas se eu tivesse que escolher apenas uma, acho que a última, no museu e sobretudo na sala dos espelhos, seria a escolhida, acho uma das experiências mais imersivas e cinéticas que tive numa sala de cinema (e que continua bem forte na TV, na revisão), além de ser outra prova da consciência de cinema do Stahelski… Clímax com espelhos já se tornou clássico, desde Orson Welles à Bruce Lee. E aqui é tão mágico quanto.

JOHN WICK: PARABELLUM (2019), de Chad Stahelski

É um filme que além de conseguir ser mais épico em sequências de ação, consegue também tirar umas abordagens mais filosóficas e psicológicas desse universo todo e da essência do seu protagonista, embora a narrativa se mantenha cristalina na sua simplicidade. Frequentemente fala-se sobre “consequência” neste terceiro filme, sobre a epifania que surge em John Wick de que sua aptidão em matar, seus instintos assassinos, tem um impacto crucial em sua alma, sem falar nas almas de muitos outros envolvidos, embora possamos admitir que para algumas pessoas seus destinos são irrevogáveis, obviamente. Se John Wick é o Baba Yaga, então seu destino está definido. Agora, se é um homem, então ele sempre tem uma escolha. Pra nossa sorte, suas escolhas até agora têm levado a um derramamento de sangue impressionante, um imersivo festival de sequências de ação realizadas pelos caras que mais entendem e respeitam o gênero na atualidade em Hollywood. E por aqui temos John Wick cavalgando enquanto luta contra motoqueiros em alta velocidade, combates de facas violentíssimos, tiroteios deflagradores, ataques de cães, Mark Dacascos e seus capangas dando um puta trabalho pro nosso herói… E Raramente uma carnificina é filmada com tanta elegância, com um visual tão cuidadosamente elaborado, cheio de luzes bonitas. É o perfeito o encontro da high-art com a vulgaridade da ação. Uma combinação que pra mim resulta no que existe de mais sublime no cinema, e que me faz amar tanto o gênero.

E convenhamos que não é tarefa muito fácil fazer continuações que se igualam ao nível de um filme antecessor, mas Keanu Reeves, Chad Stahelski e toda a turma responsável por isso aqui conseguiram duas vezes com sucesso.

Melhor sequência de ação: Eu fico na dúvida entre a sequência da Halle Berry com os cachorros, que é um primor de coreografia, além de ser muito divertida, mas definitivamente o tiroteio final com aquele exército invadindo o Hotel Continental praticamente de armadura é a que gosto mais, um troço tenso e enervante. E tem a participação do falecido Lance Reddick, usando uma shotgun que faz um belo estrago.

JOHN WICK 4: BABA YAGA (John Wick: Chapter 4, 2023), de Chad Stahelski

E aí depois de tudo isso, fui assistir ao novo no cinema. Só tenho a dizer o seguinte: se a coisa terminar por aqui e este for o último filme da série, já teremos uma das franquias de ação mais extraordinárias deste século… Em termos de ação, de GRAMÁTICA DA AÇÃO, pouca coisa se compara com esses quatro singelos exemplares impecáveis de tiro na cara, perseguições alucinantes e lutas, lutas de todo tipo, com punhos livres, facas e outros objetos cortantes, até um lápis… E BABA YAGA veio pra coroar a grandeza de tudo que envolve John Wick como cinema, como personagem, como universo, como narrativa e estética de filme de ação. É uma belezura. Ou posso apenas estar empolgado momentaneamente, mas acho difícil…

Aqui, os dois primeiros atos são, em grande parte, mais do mesmo. O que não é de forma alguma algo negativo, pois o mais do mesmo em JOHN WICK é muito bom, com alguns momentos geniais: tudo que envolve a participação de Scott Adkins, por exemplo, que tá brilhante aqui. Monstro! Donnie Yen, Sanada, Mark Zaror, Bill Skarsgård, Clancy Brown, Ian McShane, Lance Reddick (RIP), Laurence Fishburne… Baita elenco e estão todos ótimos. Keanu Reeves nem preciso mencionar, o sujeito é uma força da natureza.

Mas aí vem aquele terceiro ato… E aqui entra “Melhor sequência de ação:” deste novo filme.  O arco do triunfo; a homenagem à THE WARRIORS; Paint It Black; o plano sequência com a câmera no alto, digna de um Brian De Palma, acompanhando John Wick por cômodos numa casa abandonada, tocando o terror com uma arma que cospe fogo, literalmente; a escadaria da Basílica de Sacré Cœur… O que temos aqui é simplesmente algumas das sequências de ação das mais absurdas colocadas num filme de estúdio hollywoodiano. Neste momento, não tenho dúvidas em apontar que Chad Stahelski é o principal nome do gênero na atualidade.

Só posso dizer que é um grande dia para ser fã de filmes de ação.

LADO A LADO COM O INIMIGO (2005)

Se tem uma palavra que descreve boa parte dos desempenhos do ícone do cinema de ação Steven Seagal à partir desse período, meados dos anos 2000, é “preguiçosa”. Estático, frases curtas, às vezes dublado, e com muita, mas MUITA MESMO, utilização de dublês de corpo. Até em sequências de diálogos, em contraplanos, dá pra perceber que quando o seu personagem está de costas é um dublê que está ali. Mas não tem jeito, claro que eu adoro ver essas tralhas dessa sua fase Direct to Video. Não tem como um fã de bagaceira não se divertir com Seagal na sua fase gorducha. E esse estilo dele já virou marca registrada. O filme pode ser uma porcaria, ou pode ser uma maravi… Não, nenhum filme dele desse período chega a tanto, mas temos alguns muito bons. De qualquer forma, independente do resultado da obra, quero ver o Seagal fazendo essa performance preguiçosa de sempre mesmo. Foda-se.

Mas para ser honesto com nosso querido Seagal, há uma sequência em especial aqui em LADO A LADO COM O INIMIGO (Submerged), de Anthony Hickox, que vale a pena destacar. Uma das minhas favoritas do filme, boa de forma legítima. E, mais, Seagal participa dela ATIVAMENTE. É justamente a sequência de ação final, que começa numa tensa sequência numa ópera, passa para uma perseguição de carros em alta velocidade pelas ruas de “Montevideo” (a produção foi rodada na Bulgaria), até colidir com um helicóptero que o vilão estava prestes a escapar e que logo depois adentra um recinto onde Seagal troca tiros com vários capangas, com direito a uma luta rápida com um grandalhão, que ele finaliza estourando os miolos do sujeito à queima-roupa.

O diretor Hickox também demonstra aqui seu ótimo olhar pra ação, algo que é sua especialidade, e dá um gostinho de como seria o resultado deste filme se ele fosse BOM, utilizando bem a figura de Seagal, de forma cool e badass… Pena que num geral não foi bem isso que aconteceu.

Hickox já tinha vivido dias melhores até ser escalado pra dirigir LADO A LADO COM O INIMIGO – tirando as continuações de WARLOCK e HELLRAISER que trabalhou, nunca chegou a dirigir muitas produções do mainstream, só que dentro do ciclo independente de ação e horror tem uma filmografia bem respeitável e que vale a pena conhecer. Este aqui era um projeto originalmente concebido como uma espécie de filme de monstro em um submarino, com criaturas subaquáticas à solta, até que Steven Seagal entrou a bordo e resolveu meter o dedão. O filme virou outra coisa, totalmente diferente do planejado, como veremos a seguir. Seagal mudou todo o roteiro e também começou a assumir o controle do filme, gerando problemas com outros atores e até com o próprio Hickox.

Hickox, que também é ator, fazendo aqui uma participação hitchcockiana.

O que é uma pena, porque eu pagaria pra ver essa espécie de THE THING do Seagal. E gostaria de ver também uma parceria do sujeito com um diretor do calibre de Hickox, mas que não gerasse dor de cabeça entre eles, que o resultado pudesse sair minimamente como planejado sem a interferência do astro de rabinho de cavalo (que aliás, aqui ele devia tá sem muita grana, seu cabelo tá mal cuidado pra cacete, com um mullets duro, uma coisa horrorosa). Mas com o ego que esse filho da puta tem, seria pedir demais que tudo acontecesse de forma tranquila e agradável aos envolvidos. O ego era inflado mesmo nesse período de, digamos, “decadência”, quando só fazia produções direct to video, já acima do peso e com muita preguiça de filmar qualquer coisa…

Mas pra não dizer que tudo está perdido, é preciso deixar registrado que eu gosto dessa tralha aqui do jeito que saiu. A história é bizarra, tem muita ação, tem cientista maluco, tem Vinnie Jones e Gary Daniels, tem filtros carregados e edição afetada dos anos 2000 tentando imitar o Tony Scott de DOMINO e CHAMAS DA VINGANÇA. Não tem monstros subaquáticos… Mas tudo bem. A capa do filme é Steven Seagal com uma arma! E um submarino! Esses caras sabem o que nós, fãs indiscriminados de cinema de ação de baixa qualidade desejamos! Enfim, dá pra se divertir com isso aqui. Sobretudo se você não estiver num dia muito exigente e quiser apenas 90 e poucos minutos de um filminho que entra fácil na categoria “é ruim, mas é bom“.

Apesar do título original (Submerged) e a arte da capa apontarem para um thriller ambientado em um submarino (antes de ver o filme eu pensava em algo como MARÉ VERMELHA ou CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO, ou no mínimo uma variação de A FORÇA EM ALERTA, só trocando o navio de guerra por um submarino), a trama me parece mais inspirada no clássico thriller político dos anos 60 SOB O DOMÍNIO DO MAL, de John Frankenheimer, com a ideia de um cientista que cria dispositivos para controlar a mente de indivíduos.

Mas é uma inspiração bem superficial… O filme, na verdade, se passa praticamente no Uruguai, sabe-se lá porquê, onde um drone enviado pela embaixada dos Estados Unidos descobre uma base militar escondida dentro de uma represa. Os soldados que comandam o local ficam um pouco assustados ao saber que os americanos descobriram sobre a base, mas o misterioso Dr. Lehder (Nick Brimble) não se preocupa: ele pressiona alguns botões em seu telefone celular e de repente os agentes secretos na embaixada americana abatem todos os presentes antes de atirar em suas próprias cabeças. O sujeito, na real, está criando um exército de soldados controlados mentalmente em seu laboratório. E as suas cobaias são equipes americanas que são enviadas para eliminá-lo e acabam caindo em emboscadas. É o que acontece com a equipe de Gary Daniels, logo no começo do filme.

Depois dessas missões malfadadas, só lhes resta uma última solução. E quem é a única pessoa que os militares, desesperados para parar Lehder, acreditam que pode destruir os esquemas malignos do cientista? Entra em cena Steven Seagal. Câmera lenta, guitarras elétricas ressoando na trilha sonora, vestido de preto, é claro, pra esconder um pouco a barriga, e algemado! O velho clichê: o sujeito é um ex-agente mega-ultra-hiper treinado em todo tipo de combate, mas por conta de alguma operação mal sucedida, acabou atrás das grades. Não só ele, mas todo o seu time. Mas aí o governo faz uma daquelas ofertas únicas na vida: se Seagal e sua equipe de mercenários – o que inclui o grande Vinnie Jones – conseguirem derrubar o cientista, todos receberão indultos completos e cem mil dólares cada. É óbvio que eles aceitam.

Não demora muito pra Seagal e sua turma atacarem ao laboratório subterrâneo, eliminando muitos bandidos, resgatando prisioneiros, explodindo o local… Mas o astuto Lehder já se foi. A próxima parada é roubar um submarino de fuga. Então é agora que o filme se transforma num thriller de submarino, certo? Bem, mais ou menos. A gente presume, por tudo que já mencionei, que a maior parte de LADO A LADO COM O INIMIGO seria Seagal se esgueirando dentro de um submarino, gotas de suor se acumulando em seu queixo enquanto troca tiros e socos com bandidos que estão sob controle mental e, sei lá, eventualmente assumem o comando e agora Seagal precisa salvar a tripulação.

Não acontece nada disso. Depois de uns quinze minutos de filme dentro do veículo de guerra, por “problemas técnicos” a turma do Seagal pula fora do submarino, que acaba explodido. E nunca mais um submarino aparece de novo. Mas pelo menos deu tempo de ter uma luta entre Seagal e Gary Daniels, que depois de capturado pelo cientista passa a ter a mente controlada. Quero dizer, é mais ou menos uma luta. Numa entrevista há alguns anos, Daniels diz que a peleja com Seagal foi originalmente concebida para ser mais longa e vistosa pelo coordenador de dublês. Só que Seagal resolveu assumir a coreografia no dia da filmagem e, preguiçoso pra caralho, tornou a luta muito mais curta e unilateral (óbvio que só o Seagal bate). Mas, ok, ver esses dois astros do cinema de ação juntos, numa ceninha de luta, numa tralha como essa, já me deixou feliz.

O resto do filme já entra o terceiro ato, que se resume numa longa sequência de tensão e ação, que é legitimamente boa, como já mencionei no início do texto. E no fim das contas, LADO A LADO COM O INIMIGO acaba se saindo bem, um filme bacana por seus próprios méritos. É rápido, bobo, tem o diferencial de não se levar tão a sério, o que ajuda bastante. Os limites do orçamento são evidentes (apesar de ser um dos mais altos tanto pro Seagal quanto pro Hickox no período), principalmente nos efeitos digitais. Hickox usa todos os truques de edição que era modinha nos anos 2000 para tentar manter as coisas em um ritmo frenético, apesar da imobilidade impressionante de Seagal. Muitos cortes rápidos que pontuam de vez em quando para dar ao espectador a sensação dos personagens sob o efeito do controle mental (o que gera algumas imagens bem esquisitas), além de colocar o público nesse submundo confuso de agentes duplos, alianças duvidosas e missões explosivas. Embora todo esse efeito pode apenas nos dar uma dor de cabeça daquelas…

Mas tudo isso até que confere um charme na produção. Dá pra rir e tirar sarro dos seus absurdos, do seu lado tosco e mal feito, das atuações péssimas (o elenco ainda conta com William Hope, P.H. Moriarty e, no lado feminino, Christine Adams e Alison King), do roteiro bagunçado e que não faz o menor sentido em alguns momentos, mas dá também para admirar e se divertir quando o filme apresenta coisas boas, como a participação de Vinnie Jones na segunda metade do filme, as boas sequências de ação do último ato, quando Hickox consegue impor seu talento de mestre da ação… Enfim, pode ser um filme que não agrade a todos, mas não deixa de ser uma dessas experiências únicas que o cinema de ação de baixo orçamento tem pra oferecer.

HOWARD HAWKS: FINAL

HATARI! (1962)
Hawks no seu modo tardio descontraído pós ONDE COMEÇA O INFERNO. Muito pouco a título de enredo, trama, não há antagonistas, apenas um amontoado de situações com o senso de aventura fenomenal do diretor, seu humor típico e a dinâmica entre os personagens. Um bando de marmanjos na África, à serviço de um zoológico, enchendo a cara e contando prosa, um rinoceronte ensandecido, três filhotes de elefante assanhados e uma italiana que chega pra balançar o coração do Duke. Como dizia o Carlão Reichenbach: a aventura maior do cinema.

O ESPORTE FAVORITO DOS HOMENS (Man’s Favorite Sport?, 1964)
Um renomado especialista em pesca, vivido por Rock Hudson, que sem o conhecimento de seus amigos, colegas de trabalho ou chefe, nunca lançou uma linha de pesca em sua vida. Um dia, ele cruza o caminho de uma garota irritante (Paula Prentiss) que acaba de persuadir seu chefe a inscrevê-lo em um torneio anual de pesca. A confusão está armada. Não é a comédia perfeita do diretor, mas há muito o que gostar em seu próprio jeito. Engraçado, leve, romântico e, afinal, quantos filmes de Hawks temos um urso andando de motoca? Uma despedida divertida, a última Screwball Comedy de um dos maiores mestres do gênero.

RED LINE 7000 (1975)
O filme gira em torno de corredores da Stock Car e todo um universo que os rodeia, as paixões, desilusões, relações, num turbulento retrato sobre indivíduos do mundo das corridas profissionais. Acho foda que Hawks já na reta final da carreira fez esse petardo esquisito, que mesmo sendo um filme tão hawksiano, parece mais um filme do Roger Corman produzido pela AIP. É troncho, uma grande novela da globo, tem alguns dos piores diálogos da filmografia do diretor, o próprio Hawks detestava, mas ao mesmo tempo é um dos filmes mais verdadeiros, humanos e com mais força emocional que o sujeito já fez. Lindo, o tipo de obra-prima imperfeita que eu não resisto…

EL DORADO (1966)
Hawks se reuniu novamente com John Wayne para este “remake espiritual” de seu clássico ONDE COMEÇA O INFERNO. É tipo um “copia, mas faz diferente“. O Duke faz um pistoleiro que se junta a seu velho amigo, o xerife bêbado de Robert Mitchum, para ajudar uma família de fazendeiros a lutar contra um rival que tenta roubar suas terras. James Caan também tá aqui, depois de trabalhar com o diretor em RED LINE 7000. Hawks cria mais uma mistura especializada de emoção, ação e boas risadas, apresentando os dois dos veteranos da era de ouro de Hollywood, Wayne e Mitchum, em estado de graça, entregando desempenhos divertidos de ver, embora o filme no geral não chegue no mesmo nível de seus melhores trabalhos.

RIO LOBO (1970)
Último filme que Hawks dirigiu. Após a Guerra Civil, o personagem de John Wayne procura o traidor cuja deslealdade causou a derrota da unidade de sua unidade e a perda de um amigo próximo. Durante a jornada, acaba se envolvendo numa aventura cheia de ameaças e figuras hawksianas. Embora não seja dos seus melhores westerns e colaborações com o Duke – o filme já nasce anacrônico para o período e com a trama cansada (Hawks recria pela terceira vez a mesma situação de ONDE COMEÇA O INFERNO e EL DORADO, encerrando a carreira numa espécie de trilogia com estes outros dois) – não deixa de ser divertido e ter seus momentos. Uma bela despedida de um dos maiores diretores que Hollywood já teve.

Acima, o último plano do último filme de Hawks. Fim da maratona.

A FORÇA EM ALERTA (1992)

A FORÇA EM ALERTA é o filme mais acessível para o público que não é fã de Steven Seagal. Acho que até pra quem realmente não gosta do sujeito deve funcionar. Trata-se da primeira incursão de Seagal no mundo mainstream das grandes produções hollywoodianas. Até então, seu cinema era mais “bairrista”, foram quatro exemplares de ação policial urbano. Inclusive, aqui Seagal volta a trabalhar com o Andrew Davis, que o dirigiu em seu primeiro – e bem mais modesto – filme, NICO – ACIMA DA LEI.

Estamos no início dos anos 90 aqui. A modinha dos filmes de ação americanos possuia algumas vertentes, mas há duas que eu gosto de destacar:

a) Os inspirados pelos filmes do John Woo;
b) Variações de DURO DE MATAR.

O que surgiu, a partir dos anos noventa, de filmes imitando o estilo do Woo, repleto de protagonistas voando em câmera lenta com uma pistola em cada mão, descarregando os pentes em seus alvos, não é brincadeira. Mas não é o caso de A FORÇA EM ALERTA, que segue a fórmula da letra “b”. Claro, muda-se vários detalhes da trama, porque os roteiristas são extremamente criativos, e transporta a ação dentro de um navio de guerra das forças armadas americanas. E pronto, temos um autêntico rip-off de DURO DE MATAR.

Seagal interpreta Casey Ryback, um cozinheiro militar, que trabalha preparando os banquetes do seu capitão e tripulação de bordo. Sério! Steven Seagal é o cozinheiro! Qual é o problema nisso? Tá certo que no passado ele era integrante do SEALs, uma das principais forças de operações especiais da marinha dos Estados Unidos, altamente treinado e capacitado no uso de armas, explosivos e artes marciais. E numa operação liderada por ele no Panamá, toda sua equipe acabou morta, ele deu um soco no seu superior, acabou aposentado dessa vida e se tornou cozinheiro… mas é apenas um detalhe e quem já viu o filme sabe que isso não interfere muito na narrativa*.

* Spoiler: mentira, interfere sim.

A história se passa exatamente no dia do aniversário do capitão do tal navio de guerra, que está no Havaí durante eventos que relembram os ataques em Pearl Harbor. E um dos seus comandantes, Krill (Gary fucking crazy Busey), está organizando os preparativos e surpresas para a comemoração desta data. Duas delas são bem interessantes. A primeira inclui um conjunto musical, cujo membro principal é o Tommy Lee Jones encarnando uma espécie de Mick Jagger mais afetado que o verdadeiro. E a outra, bem mais estimulante, é a coelhinha da Playboy, Miss Julho, que sai do bolo pra fazer um topless pra alegria da moçada!

Outro ponto importante é que a intenção principal de Krill nesta data especial é tomar o controle do navio, matar o capitão, e fazer toda a tripulação de refém, até que suas exigências baseadas em suas causas políticas ($$$) sejam cumpridas pelo governo americano… Tudo isso, vestido de mulher, pra enfatizar ainda mais a insanidade de Gary Busey. Tommy Lee Jones se revela um ex-agente da CIA renegado, que se sente traído, que possui as mesmas intenções de Krill. Miss Julho não sabe de nada e fica esperando o momento de exibir seus atribudos… E o cozinheiro vivido por Seagal vai precisar utilizar dos seus dotes culinários para salvar todo mundo.

O trabalho de roteiro aqui é árduo: conseguir manter a narrativa em movimento e com uma certa regularidade de coisas interessantes acontecendo. Porque este tipo de filme de ação específico é frágil e qualquer divisão de cenas e situações equivocadas podem tornar o filme chato e cansativo. Temos o herói, geralmente zanzando pra lá e pra cá, bolando estratégias mirabolantes para salvar o dia, enquanto os bandidos demonstram o quão malvados podem ser, revelando suas intenções maquiavélicas. Temos os reféns, a parte burocrática das negociações, o drama do par romântico do herói, e por aí vai…

Mas o filme se sai muito bem em todas esses registros, a coisa toda transcorre numa boa, num ritmo bem divertido. E com o elenco escalado que temos aqui, fica bem mais fácil de acompanhar. Um filme cujo herói tem Gary Busey e Tommy Lee Jones como inimigos mortais é quase impossível de dar errado. Seagal já tinha enfrentado vários grandes vilões, como Henry Silva (NICO – ACIMA DA LEI), William Forsyth (FÚRIA MORTAL), William Sadler (DIFÍCIL DE MATAR) e jamaicanos feiticeiros do voodoo (MARCADO PARA A MORTE), mas nunca dois vilões de peso ao mesmo tempo, como em A FORÇA EM ALERTA. Do lado feminino, Erika Eleniak, que passa da moça sexy e frágil à mulher badass num estalar de dedos. Ainda marcam presença por aqui Damian Chapa, Troy Evans, Bernie Casey, Raymond Cruz, Colm Meaney, entre outros…

A direção de Andrew Davis é segura, apesar de salientar a intrigante teoria de que o Davis não gosta muito do rabinho de cavalo do Seagal. É a segunda parceria dos dois e em ambas o astro precisou passar a tesoura na nuca. Mas em termos de ação, não dá pra reclamar muito. Seagal faz bem o seu trabalho, alternando entre pancadaria, tiroteios bem elaborados, promovendo explosões e termina com um bom duelo de facas entre Seagal e Jones, que poderia ser melhor trabalhado, percebe-se claramente que nesse quesito o personagem de Jones não era sequer uma ameaça, e Seagal não tem lá tanta dificuldade para despachá-lo, o que é um deslize. Um bom vilão geralmente tem que dar mais trabalho pro herói, tem que ser um desafio. Aqui a dificuldade de Ryback no clímax, no duelo FINAL, foi quase zero… Mas acho a coreografia boa e o desfecho violento acaba compensando.

Primeira super produção estrelada por Steven Seagal precisava de alguns incrementos para diferenciar um pouco dos filmes anteriores mais urbanos, especialmente a persona habitual do ator. Apesar da estrutura grandiosa dos cenários e efeitos especiais de ponta pra época, Ryback é mais do mesmo em se tratando de figuras dramáticas vividas pelo Seagal, até porque não se pode ter a exigência com ele da mesma forma como teríamos com um Daniel Day Lewis, por exemplo.

Mas em A FORÇA EM ALERTA Seagal não é um policial! Um grande avanço, já que todos seus filmes anteriores ele era um homem da lei. Aqui é uma ocupação extremamente diferente: cozinheiro. O que gera uma série de diálogos sobre filosofia culinária. Além das frequentes mensagens politicamente corretas e de cultura oriental e artes marciais, que não poderiam faltar… Acho que a partir deste aqui, Seagal se tornou praticamente um ator completo e versátil!

Aqui inaugura uma nova fase na qual a carreira de Steve Seagal chegaria ao ápice em termos de qualidade, sucesso financeiro e até de autorismo (não é a toa que o próximo filme de Seagal, EM TERRENO SELVAGEM, é justamente dirigido por ele mesmo), mas começa a entrar em um lento e gradativo declínio depois de um início de carreira excelente. Calma, ele ainda faria grandes filmes no decorrer da década de 90, e ainda gosto da maioria das coisas que Seagal fez depois. Só acho que nunca mais obteve o nível de alguns trabalhos anteriores, como FÚRIA MORTAL, que é a obra-prima do homem, um dos melhores filmes de ação daquela década. Mas não vamos chorar! A FORÇA EM ALERTA continua bom pra cacete!

E teve uma continuação que se passa num trem sequestrado por terroristas. Apesar de inferior, também é legal.

Texto atualizado, publicado inicialmente no site Action News.

5 HAWKS MENOS CONHECIDOS

20th CENTURY (1934)
Depois se dedicar a uns filmes de guerra, crime, dramas românticos, que até possuíam um tom de humor em alguns momentos, finalmente Hawks faz sua primeira comédia pura no cinema sonoro. Na trama, um temperamental produtor da Broadway (John Barrymore) toma sob sua guarda uma atriz iniciante (Carole Lombard) e se apaixona por ela. Mas a vida hiper controlada faz com que ela fuja e se torne uma das maiores estrela de cinema. Agora, todos a bordo de um mesmo trem, ele tenta reconquistá-la, o que não vai ser fácil. Hawks não decepciona, repleto de cenas impagáveis e com dois protagonistas inspirados e realmente engraçados (Barrymore sobretudo está inacreditável, entrega uma das grandes performances cômicas do período, genial até nos excessos), é uma grande festa para fãs de screwball comedies, em especial por se tratar de um dos pontos de partida do gênero e ser dirigido por um dos seus maiores mestres.

BARBARY COAST (1935)
Uma moça (Miriam Hopkins) chega do leste e descobre que o seu noivo, que lhe esperava, foi morto. Ela acaba tendo que trabalhar na casa de jogos de Luis Chamalis (Edward G. Robinson), um local turbulento da São Francisco na década de 1850. Quando ela se apaixona por um minerador poeta (Joel McCrea), as coisas começam a se complicar, porque Chamalis não vai entregá-la tão fácil… De alguma maneira, este aqui é o primeiro Western do Hawks, ainda que fora do tradicional. No centro da trama temos mais uma variação habitual do diretor no drama romântico com uma forte figura feminina dividindo as atenções de dois homens. Mas aqui me peguei mais interessado na paisagem, numa São Francisco submersa em névoa, e nas subtramas, a do jornal local, os vigilantes, os personagens secundários, como o do grande Walter Brennan… Segundo filme do Edward G. Robinson com Hawks. Ótimo como sempre.

CEILING ZERO (1936)
O cotidiano perigoso, e muitas vezes trágico, de alguns pilotos veteranos de guerra que estão trabalhando em uma companhia aérea é o tema central desse filme mais rotineiro do Hawks, apesar de ser bom de acompanhar, com os personagens hawksianos que estamos acostumados a ver, com os temas habituais do diretor. Mas tirando um ou outro momento mais inspirado, como a sequência do pouso às cegas – uma aula de tensão e atuação do elenco – o restante me parece conduzido no piloto automático, muito numa zona de conforto de Hawks. O suficiente pra fazer um bom filme, divertido, mas não para um GRANDE filme. O que tá bom também, normal para um diretor desse calibre, com uma filmografia longa. Nem todos precisam ser obras-primas. Minha única reclamação é que justamente os dois trabalhos que Hawks fez com James Cagney (este aqui e THE CROWD ROARS) resultaram em filmes menores… Essa parceria merecia ter rendido pelo menos algo do nível de PARAÍSO INFERNAL, RIO VERMELHO, HATARI! RIO BRAVO…

THE ROAD TO GLORY (1936)
A história da vida nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial através de um regimento francês. No centro da trama, à medida que os homens são mortos e substituídos, um tenente (Fredric March) torna-se cada vez mais sombrio e seu rival pelo carinho de uma enfermeira (June Lang) é o seu próprio capitão (Warner Baxter). É muito louco ver a filmografia de um diretor como a do Hawks, um sujeito tão autoral, em ordem cronológica e num curto espaço de tempo (este aqui era o décimo quinto assistido em menos de duas semanas)… Corre-se o risco de tudo parecer uma repetição de si mesmo. O que de certa forma é, mas não num mau sentido, porque é a obsessão por certos temas que faz a assinatura do cara ser tão pessoal. Aqui, é mais um filme sobre um grupo de homens lidando com a morte durante uma guerra (THE DAWN PATROL, TODAY WE LIVE), novamente temos dois homens apaixonados pela mesma mulher (TIGER SHARK, BARBARY COAST, TODAY WE LIVE, CEILING ZERO), de novo um deles fica cego (TODAY WE LIVE) e parte para uma missão suicida, um último sacrifício (praticamente todos os filmes que citei)… Mas é só tomar cuidado, que dá pra fugir dessa armadilha. Foi um prazer ver filme a filme do Hawks e sim, perceber suas “repetições”. Este aqui é um sólido filme de guerra, cuja direção de Hawks e o elenco entregam até mais do que era de se esperar do roteiro de William Faulkner. A subtrama romântica nem tem tanta força quando uma boa parte do filme vemos um grupo de personagens hawksianos tentando sobreviver em trincheiras sujas ou em meio à explosões e balas. Enfim, mais um grande filme do diretor. Esse recomendo muito mesmo.

COME AND GET IT (1936), co-direção de William Wyler
Um lenhador ambicioso abandona a mulher que ama para se casar com a filha de um milionário, mas anos depois se apaixona pela filha da sua antiga paixão. Só que agora vai ter que disputar o amor dela com o próprio filho. Concordo com o próprio Hawks que diz, numa entrevista com Peter Bogdanovich, que a história é meio boba, mas é desses exemplares que mostram que um grande diretor pode dar vida até num material desse nível. Os primeiros vinte minutos são Hawks puro: grupo de homens focados num trabalho específico (no caso, lenhadores), sequências semi documentais da profissão (como em TIGER SHARK) e uma sequência de bar que termina numa briga generalizada com o humor hawksiano típico… Depois a trama dá uma caída, ainda sobra a velha situação dos dois homens apaixonados pela mesma mulher. A variação aqui é a que mencionei: os dois sujeitos são pai e filho. No final, percebe-se a mudança de tom, ritmo, cadência, já era o William Wyler quem dirigia (Hawks se demitiu, de saco cheio do produtor Sam Goldwyn, mas uns 80% do filme é dele). Filme irregular, mas bem assistível e com ótimas atuações de Frances Farmer (em papel duplo) e do bom e velho Walter Brennan, na sua segunda colaboração com Hawks, e que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante

TREM-BALA (2022)

por LUIZ CAMPOS

Este texto contém spoilers.

Muito se diz de que filmes com grandes elencos que envolvem vários personagens do submundo, de pequenos criminosos a grandes chefões, bebam diretamente do QuentinTarantino. Se levarmos em consideração CÃES DE ALUGUEL, PULP FICTION e mesmo parte do KILL BILL, é verdade, ao menos até certo ponto. Existe um outro diretor que penso eu ter tido pelo menos tanta influência quanto o “Queixada” para a fetichização desse universo, se não tiver tido ainda mais: Guy Ritchie, o ex-senhor Madonna, que atualmente está sempre com ternos bem cortados até mesmo quando vai pro banho, aparentemente. Figura oriunda da publicidade, Ritchie levou as histórias de gangsters, recheadas de humor ácido e tragédia para novos patamares, tanto no texto quanto na estética. Inclusive podemos afirmar sem receio que o mundo do crime é muito mais objeto do seu fascínio do que do Tarantino, tendo em vista que metade de sua filmografia lida diretamente com o assunto, e alguns outros, como os dois Sherlock Holmes e sua versão de Rei Arthur, são populados por essas figuras literalmente marginais. Então, se formos chamar TREM-BALA (Bullet Train), de derivativo, eu diria que ele deve mais aos bandidos do Ritchie do que os do Tarantino. E se o próprio diretor David Leitch disser que estou errado, recomendo ao mesmo rever SNATCH, ROCKNROLLA e REVOLVER e comparar com o que ele fez neste aqui.

Pra quem não tá sabendo do que se trata, uma breve sinopse: um grupo de assassinos está em um trem-bala, cada um com uma missão, mas ao longo da noite seus caminhos e missões irão se entrecruzar, gerando situações cômicas e sangrentas.

É muito curioso quando você entende porque determinado filme é odiado ou adorado. Neste aqui, por exemplo, eu consigo ver claramente o porquê do filme dividir tanto opiniões: David Leitch decidiu explorar com ainda mais força a comédia, e embora eu particularmente ache seus filmes engraçados na maior parte do tempo, ele abraça muito daquele cinismo auto-consciente que tomou conta de Hollywood nos últimos 10 anos.

Fora a decepção de muitos de ver um dos melhores coordenadores de ação de Hollywood investindo tão pouco da sua técnica para o desenvolvimento de momentos gloriosos de ação, como seu sócio Chad Stahelski faz na franquia JOHN WICK. Eu gosto muito de todas as cenas de ação, embora me pareça que o coração do Leitch está bem mais na história e nos personagens, e acho que ele foi feliz pela maioria de escolhas que tomou quanto a isso. E eu tenho a impressão que a maior piada de todas – e a que certamente me fez rir bastante – foi perceber que Brad Pitt, na trama, está substituindo o Ryan Reynolds, sendo que a personalidade do protagonista é a mesma de todos os filmes do Reynolds desde o primeiro DEADPOOL. Cabe dizer que Pitt fez ele mesmo uma breve participação em DEADPOOL 2, numa das melhores piadas do filme.

Aliás, eu consigo notar aqui o surgimento de um diretor autorreferente: as pontas feitas por figuras com quem já trabalhou – a Zazie Beets também fez DEADPOOL 2, assim como Ryan Reynolds Hiroyuki Sanada em WOLVERINE – IMORTAL, onde Leitch trabalhou como diretor de segunda unidade; Channing Tatum, quando foi coordenador de dublês em O DESTINO DE JÚPITER; além do diretor ter sido dublê do Brad Pitt no passado; a questão da sorte/má sorte vai gerar a cena do Brad Pitt sobrevivendo a colisão do trem da mesmíssima forma como funcionavam os poderes da Beets no já citado DEADPOOL 2; o Pitt utiliza livros, bandejas, laptops como JOHN WICK; tem cenas com capangas no topo do trem-bala que remetem diretamente a WOLVERINE – IMORTAL; uma trama repleta de assassinos e mafiosos, representando um mundo à parte do nosso, tal qual JOHN WICK. Eu sinto que existe, no fundo, um subtexto que critica o sistema de trabalho de Hollywood, onde homens e mulheres literalmente dão o seu sangue e correm riscos por gente metida que recebe dinheiro demais e não se importa, mas isso provavelmente sou eu lendo demais o filme.

O que acredito ser o problema maior de TREM-BALA é que esse citado cinismo do humor do Leitch acaba sabotando o que o filme tem de melhor, que é a presença dessas figuras marginais em situações crescentemente mais absurdas e, de certa forma, até trágicas. A necessidade da piada arrebenta com o peso da subtrama do Andrew Koji – um talento, aliás, desperdiçado aqui -, com algumas das perdas, como a do assassino Limão, vivido por um inspirado Aaron Taylor-Johnson, e principalmente com a figura do misterioso Morte Branca (Michael Shannon), que chega ao fim do filme menos como a encarnação do mal e mais como uma caricatura.

O filme tinha potencial para terminar em um intenso embate entre esses peões e o grande rei que domina todo esse tabuleiro de xadrez, mas a necessidade de fazer o espectador supostamente rir implode isso. Ele também acaba tendo seu maior ápice emocional muito antes do arco final, o mesmíssimo erro que Leitch cometeu em HOBBS & SHAW. Ainda teremos muita coisa boa acontecendo, assim como no filme do The Rock com o Jason Statham, mas parece que Leitch ainda não entende porque um de seus heróis do cinema, Jackie Chan, dá o seu máximo nos últimos 30 minutos de duração.

Ainda que o filme termine com um extenso – e engraçado – set piece, a verdade é que já chegamos ao fim como convidados para uma festa que está se estendendo um pouco mais do que devia. Mas, se formos citar o lado positivo, temos o já mencionado Aaron Taylor-Johnson em estado de graça, dividindo vários momentos com um também inspirado Brian Tyree Henry, o Brad Pitt também se garante como o desajeitado “Joaninha”, que divide também excelentes diálogos com seu contato, vivido – descobriremos depois – pela Sandra Bullock, e também gostei muito da Joey King como a insidiosa Príncipe, se afastando com força de sua persona teen dos filmes da Netflix.

Leitch sempre trabalhou muito bem com cores e blocagem, e aqui temos mais uma parceria bem sucedida sua com o diretor de fotografia Jonathan Sela. Nada daquelas cores mortas ou de câmera tremida, já que o homem também chamou novamente a competente Elísabet Ronaldsdóttir para editar o filme. Para cuidar da ação, o homem chamou sua rapaziada da 87eleven, então temos aqui um nível de qualidade só rivalizado pelas equipes da Ásia.

No fim, assim como Ritchie, Leitch se mostra um artesão com talento, mas sem uma noção clara de quais são os seus pontos fortes e fracos. Vem se mostrando um autor – sim, definitivamente um autor – com uma abordagem muito particular, mas que, assim como o ex-senhor Ciccone, deve ter uma carreira recheada de filmes interessantes, mas que vão fascinar e alienar a audiência na mesma proporção com frequência. Tendo dito isto, se Guy Ritchie fez ALADDIN, quero O Corcunda de Notre Dame dirigido pelo David Leitch, assim como uma releitura do Arsène Lupin.

MAIS HAWKS

A essa altura, na maratona Howard Hawks que me propus a fazer, já foram 26 filmes conferidos. A velocidade com a qual tenho assistido aos filmes é muito maior do que o tempo que tenho pra parar e postar individualmente sobre cada filme, como no post anterior. Então, vamos de mini reviews mesmo, porque aí dá pra cobrir tudo aos poucos. Aqui vão mais cinco filmes do homem.

THE CRIMINAL CODE (1930)
Depois que um jovem comete um assassinato bêbado, defendendo uma garota, ele é processado por um ambicioso promotor (Walter Huston) e condenado a dez anos. Seis anos depois, esse mesmo promotor se torna o diretor da prisão e oferece ao jovem um emprego como motorista. O rapaz se mantém íntegro no local, mas às vésperas de sua liberdade condicional, um companheiro de cela o arrasta de volta ao mundo da violência, e ele enfrenta escolhas difíceis de fazer… O único problema do filme é a forçada história de amor que surge no final entre o jovem e a filha do promotor, que quase coloca tudo a perder. Mas no geral ainda é um drama prisional bem forte, um olhar duro sobre o efeito que o sistema de justiça criminal pode ter sobre os homens apanhados por ele. Hawks explora mais as possibilidades do cinema sonoro, testando o que fazer com isso. A abertura do filme, com dois detetives tendo um desacordo prolongado sobre as regras de um jogo de cartas a caminho da cena do crime e a capacidade de Huston de transformar um simples “Yeah?” em uma espécie de mantra é algo para se contemplar. Hawks conta uma história muito mais dependente de diálogos e o resultado é bem sólido. Ajuda muito ter um ator do calibre de Huston num desempenho magnífico.

Boris Karloff, num papel pré-Frankenstein, tem pelo menos uma cena memorável, a do assassinato do delator, que aproveita muito bem a sua fisicalidade e expressão corporal. A forma como se move pelas salas com uma graça pesada e aterrorizante é o tipo de coisa que eu não duvido que possa ter influenciado na hora de escalarem Karloff como o famoso monstro no ano seguinte.

SCARFACE (1932)
Esse aqui merecia um texto mais longo. Mas fica pra depois. Por enquanto, a gente ressalta que se trata da primeira obra-prima de Hawks. A trama é obviamente inspirada em Al Capone e é um trabalho definitivo sobre a ascensão e queda de um mafioso com fome de poder. O filme ficou famoso na época por causa da controvérsia e pela violência nessa escalada de poder do protagonista, mas resistiu bem ao teste do tempo (mesmo depois de algumas revisões, apesar de que fazia uns bons anos que não revia), por causa do forte roteiro, as ótimas atuações do elenco, sobretudo um Paul Muni explosivo, e a direção – já magistral a essa altura – de Hawks. Um filme de gangster essencial.

THE CROWD ROARS (1932)
Um famoso campeão de automobilismo (James Cagney) retorna à sua cidade natal para competir em uma corrida local e descobre que seu irmão mais novo tem aspirações de se tornar um campeão de corrida, ao mesmo tempo em que tem que lidar com uma relação amorosa complicada. É outro trabalho do Hawks que tem uma subtrama de amor cego que me tira um pouco do filme (lembram de FAZIL que comentei no outro post?). Mas, no fim das contas, é um filme de 70 minutos que não consegue se aprofundar em muita coisa, acaba sendo divertido de se ver, em especial pelas sequências muito bem feitas de corridas de carro, que tem um senso de tensão e tragédia muito forte. Primeiro filme que Hawks utiliza Cagney, que tá excelente como sempre.

TIGER SHARK (1932)
Esse aqui é um filmaço do Hawks que eu não conhecia. A trama é sobre um pescador de atum português que se casa com uma mulher cujo coração fica dividido entre ele e o seu primeiro imediato no barco. Junto com THE DAWN PATROL, provavelmente é o filme mais puro do Hawks deste período, tem muito dos seus temas habituais, os tipos de personagens e os tipos de valores que ele respeita. Uma colônia unida de homens no trabalho, arriscando a vida, tendo se acostumado com despedidas sem saber se voltam. As sequências de pesca, semi documentais, são tão boas quanto as sequências de ação que Hawks fazia até aquele momento. Mas a alma do filme é o grande Edward G. Robinson interpretando o pescador português maneta, num desempenho magnífico.

TODAY WE LIVE (1933)
Sem dúvida um belo filme. Só demora um bocado pra chegar lá. Começa como um melodraminha bobo, sobre uma moça (Joan Crawford) que se apaixona por um piloto de caça (Gary Cooper) durante a primeira guerra mundial, mas que é dado como morto, então ela vai pra guerra como enfermeira – ou algo do tipo – e se casa com o melhor amigo do seu irmão, até que descobre que o piloto, na verdade, está vivo… Enfim, uma confusão. No entanto, essa traminha de alguma forma ganha força e eventualmente se transforma em um sólido drama romântico com alguns temas habituais do Hawks: um triângulo amoroso em meio à guerra, missões que envolvem sacrifício, homens disputando pra ver quem tem o pau maior… Coisas do tipo.

Sabe-se que a personagem de Crawford foi empurrada à força na trama, os produtores a tinham sob contrato e pediram a Hawks para incluí-la (o roteiro foi escrito por William Faulkner e não tinha a sua personagem). Ela tá até bem, mas as coisas nem sempre acontecem de maneira orgânica (a forma como se apaixona pelo personagem de Cooper é muito esquisita). O filme fica realmente interessante quando os dois homens que disputam seu coração começam a se desafiar, colocando suas vidas em risco além das linhas inimigas. As cenas de ação, tanto pelo ar, quanto pela água, são de encher os olhos. Hawks voltaria a trabalhar com Gary Cooper algumas vezes ainda…

PATRULHA DA MADRUGADA (1930)

Se querem mais Hawks, teremos mais Hawks. PATRULHA DA MADRUGADA (The Dawn Patrol) foi o segundo filme sonoro do diretor (o primeiro, THE AIR CIRCUS, se perdeu). É também uma amostra fascinante do estágio de sua carreira em que não havia ainda chegado no ápice, tava aperfeiçoando seu estilo, mas já tava chegando bem perto disso. Os temas que seriam sua obsessão já começam a cristalizar melhor aqui e podemos ver em embrião as maneiras pelas quais ele abordaria esses temas repetidas vezes.

No final de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, o 59º Esquadrão do Royal Flying Corps passa por maus bocados. Seu comandante, Major Brand (Neil Hamilton, o comissário Gordon da série do Batman dos anos 60), se vê tendo que enviar jovens pilotos inexperientes direto para o meio da batalha e, inevitavelmente, muitos não sobrevivem nem mesmo à primeira missão. O estresse piora para o sujeito, já que ele próprio, como comandante, não pode voar em missões de combate e o resultado é o sentimento de um carrasco enviando homens para seu destino final.

Major Brand entra em conflito sobretudo com seu subordinado Capitão Courtney (Richard Barthelmess). Supostamente tem havido rixa entre eles desde um incidente envolvendo uma mulher em Paris, mas como o gentil ajudante do esquadrão aponta para um dos pilotos, a realidade é que eles são amigos muito próximos. Eles simplesmente acham mais fácil lidar com uma situação difícil desabafando um com o outro. A guerra avança e Major Brand é promovido. O capitão Courtney, que sempre zombou dos oficiais de escritório que enviam homens para o combate, agora se vê desempenhando exatamente esse papel.

Uma interpretação simplista seria que o filme é um comentário sobre a futilidade da guerra, mas isso não seria característico de Hawks e, de qualquer forma, o próprio filme deixa bastante claro que essa não é a intenção. Na verdade, o filme enfatiza que o perigo e a morte são sempre os inimigos e estão enraizados na vida desses homens. O filme simpatiza com os alemães que são retratados como adversários honrados e heróicos e isso é mais uma indicação de que o inimigo não é o soldado do lado oposto. O inimigo é a própria morte. Em uma cena, um aviador alemão capturado é trazido à base. Logo lhe oferecem uma bebida e não demora para estar farreando alegremente com os aviadores britânicos. Ele não é um inimigo; ele é um homem que enfrenta os mesmos perigos que os pilotos britânicos enfrentam.

De certa forma há um equilíbrio entre o sentimento anti-guerra com uma aceitação existencial mais estóica do dever e amor pelo trabalho, pela missão, ação, destruição, mesmo quando não existe muita esperança, conscientes do sacrifício. Hawks sempre foi fascinado pelo comportamento de homens confrontados com o perigo iminente e a morte. Fascinado pela maneira como grupos de homens lidavam com a morte.

Além disso, PATRULHA DA MADRUGADA nos oferece o tipo de configuração que ele usaria repetidamente, como em sua obra-prima posterior, PARAÍSO INFERNAL (Only Angel Have Wings), na forma como os homens do 59º Esquadrão parecem estranhamente isolados. Nunca vemos os oficiais superiores que dão as ordens ao comandante do esquadrão, temos poucas cenas e eventos em outros locais, praticamente todo o filme se passa no escritório do comandante, na sala de recreação do esquadrão e no ar onde acontecem as violentas batalhas. Ao isolar esse grupo de homens do mundo exterior, Hawks é capaz de se concentrar nos próprios homens e na maneira de se relacionar uns com os outros.

E os homens do 59º Esquadrão aprenderam, no clássico estilo hawksiano, que a única forma de enfrentar a morte é rindo na cara dela.

As cenas de batalhas aéreas são um destaque à parte, tão boas que foram até reutilizadas no remake de 1938, com Errol Flynn e David Niven. A assinatura de Hawks também é aparente aqui. O que importa para o diretor não é a ação, mas a maneira como os homens reagem a ela e, em várias ocasiões, Hawks mostra as aeronaves decolando e corta imediatamente para o comandante do esquadrão esperando ansiosamente pelo som das aeronaves retornando. Não precisamos ver a luta; é o custo emocional que importa. No entanto, quando as cenas de luta aérea são mostradas, o resultado é um espetáculo de ação que impressionam até hoje.

Richard Barthelmess tem uma performance taciturna e discreta que captura perfeitamente o espírito do obstinado herói Hawksiano. Douglas Fairbanks Jr é um tanto expansivo, mas se dá bem. Agora, Neil Hamilton, esse é um caso perdido. Seu desempenho destoa completamente do restante com folgas, hum mau sentido, exagerado ao estilo do cinema mudo, que Hawks evitava.

O roteiro de PATRULHA DA MADRUGADA ganhou o Oscar, creditado a John Monk Saunders, que havia escrito outro clássico de guerra e aviação, ASAS (27), também conhecido como o primeiro filme a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Mas dá pra perceber que Hawks teve peso sobre a história e dá até pra dizer o que realmente tem o dedo dele – sequências dos pilotos em bebedeira, a farra, a cantoria, a cena com o aviador alemão capturado… Coisas que se tornariam constantes no cinema de Hawks. E que vale a pena conhecer aqui em seu estágio inicial.

HOWARD HAWKS – FASE MUDA

Iniciei este ano de 2023 assistindo aos filmes do diretor Howard Hawks em ordem cronológica. Se vou conseguir ir até o fim da filmografia do homem, aí é outra história. Mas pelo menos já vi todos os filmes da fase muda. Quero dizer, os filmes que ainda existem dessa fase, porque alguns trabalhos do Hawks estão perdidos. Mas vamos lá.

FIG LEAVES (1926)
Como disse, todo o trabalho do Hawks anterior a FIG LEAVES se perdeu, então esse aqui é o seu “primeiro” filme. A história gira em torno de Adam, um encanador, que tem um casamento feliz com Eve, uma dona de casa obcecada por guarda-roupas, até que ela acidentalmente conhece um designer de moda. Por sugestão de sua vizinha, que tem seus próprios planos secretos com Adam, Eve secretamente se torna uma modelo durante o dia, sabendo que seu marido desaprovaria… Fruto da época, hoje seria impossível de fazer pela visão machista. Hawks disse pro Bogdanovich em entrevista que até pode-se zombar das mulheres, contanto que não ofenda ninguém, ou algo do tipo, o que daria um belo cancelamento ao diretor. Mas consegui me divertir com as várias situações engraçadas sobre o casal protagonista e seus problemas matrimoniais. A sacada de começar o filme levando as questões de “hoje” a um período pré-histórico, de Adão e Eva, é um toque de mestre.

THE CRADLE SNATCHERS (1927)
Já dava pra perceber desde cedo o quanto Hawks levava jeito para o humor e a trama deste aqui é um prato cheio pra isso: para curar seus maridos paqueradores de se relacionarem com outras garotas, três esposas combinam com três universitários a flertarem entre si em uma festa. Durante um ensaio da festa, chegam os três maridos, acompanhados de suas amigas melindrosas, gerando as complicações cômicas que se espera. Só é uma pena que este filme esteja incompleto. E o que sobrou, só consegui ver em imagens de condições muito precárias no youtube. Mas valeu a pena pra conhecer.

PAID TO LOVE (1927)
Hawks podia ter esperado mais uns anos e feito esse filme com som. É uma comédia que pede demais as falas dos atores e poderia estar até melhor rankeado na filmografia do homem. A trama é sobre um banqueiro americano que vai para um pequeno país dos Bálcãs procurando investir o dinheiro de seu banco e fortalecer a fraca economia do país para maximizar o retorno de seu investimento. Para esse fim, ele faz amizade com o rei do país e eles bolam um esquema para casar o príncipe herdeiro (o que ajudaria a fechar o negócio), mas algo que não é particularmente atraente para o príncipe – até que ele vê a bela atriz de cabaré que os velhos escolheram para ele se casar. É mais outro belo exemplar que prova o talento de Hawks pra um certo tipo de humor, com tensões sexuais, e bom olho para composições, câmera e metáforas visuais. Impossível não citar a cena que o primo (William Powell) do príncipe descasca uma banana assistindo a protagonista a se despir. Mostra já um diretor mais sofisticado daquele que realizou FIG LEAVES no ano anterior.

A GIRL IN EVERY PORT (1928)
Dois marinheiros com uma rivalidade em perseguir mulheres tornam-se amigos. Quando um deles decide finalmente estabelecer um relacionamento mais sério, acaba colocando em risco a amizade entre eles. A resolução do filme envolve esses dois homens considerando sua amizade mais importante do que o afeto de uma mulher. Dois homens que aprenderam a se amar através das pelejas e pelo trabalho a bordo de um veleiro e que descobrem que sempre podem contar um com o outro. Achei ousado. Pensem como quiserem, mas muito antes de RIO VERMELHO Hawks já tava abordando amizades diferenciadas entre homens. E é um filme bem bonito, muito bem feito, com vários momentos que arrancam fácil um sorriso do público. Victor McLaglen tá excelente e Louise Brooks é realmente o diabo vestido de mulher… E que mulher! Enfim, uma pequena joia divertida do início da carreira de Hawks. O melhor filme dessa lista.

FAZIL (1928)
Um príncipe árabe nascido e criado no deserto e uma bela francesa de Paris se apaixonam e se casam, mas as enormes diferenças em suas origens e culturas entre suas duas sociedades colocam tensões em seu casamento que podem ser irreparáveis. Talvez o filme mais bem dirigido pelo Hawks até aqui, com algumas composições bonitonas e trabalho de câmera realmente apurado. A sequência que mostra o harém de Fazil é digna de antologia – além de provavelmente ter deixado alguns senhores de 1928 bastante, digamos, animados. Sobre a história, o próprio Hawks dizia que não gostava e não tinha interesse em fazer, mas deu um jeito de tornar a coisa assistível, apesar das atitudes da protagonista e esse conto de amor cego exagerado me deixarem um pouco irritado.

Vou continuar vendo mais uns filmes do Hawks, agora já no período sonoro. E talvez coloque mais impressões por aqui.

PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA (1991)

Esse aqui é a continuação de um filme que postei outro dia,976-EVIL, ou FORÇA DEMONÍACA, ou como o amigo leitor Anselmo Luiz prontamente lembrou nos comentários, que o filme foi exibido por aqui no Cine Trash da Band como LINHA DIRETA PARA O INFERNO. Enfim, o que importa agora é que eu finalmente assisti a PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, ou FORÇA DEMONÍACA – LINHA DIRETA PARA O INFERNO 2 (976-Evil II), que apesar de não ser melhor que o filme original, é uma boa brincadeira.

Não tinha como dar errado, já que o diretor é o Jim Wynorski (como frisei no post do primeiro filme), mestre dos filmes B nos anos 80 e 90, que dirigiu clássicos como CHOPPING MALL (1986), filme sobre robôs assassinos vagando por um shopping e que, prometo, ainda vou escrever algumas coisas por aqui, e NOT OF THIS EARTH (1988), remake estrelado por Traci Lords do original de Roger Corman de 1957 e que já postei por aqui há alguns bons anos. depois cliquem aqui, porque eu já escrevi sobre vários filmes do Wynorski no blog. E pretendo escrever mais…

Eu gosto demais do Wynorski, como já devem ter notado, e já nos primeiros primeiros dois minutos de PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA dá pra perceber alguns motivos… Temos de cara algumas assinaturas de Wynorski impressas na tela: MOMENTO BORRACHARIA.

Nudez gratuita, uma moça no chuveiro, depois vestindo uma camiseta molhada sendo perseguida em corredores escuros por um indivíduo sobrenatural maligno. Sim, é um pouco insípido, mas é do Wynorski que estamos falando aqui. E também de terror do início dos anos 90… Então, por favor, não me venham com moralismo.

Pra compensar, a sequência termina com a moça de pouca roupa sendo assassinada no teatro da faculdade, onde o cenário de uma peça de Fausto está preparado… Então temos aqui o melhor dos dois mundos wynorskiano resumidos em uma cena. A essência do cinema de Wynorski: a mistura perfeita do Wynorski diretor de filmes de arte com o Wynorski diretor safado.

O enredo dessa continuação gira em torno do reitor (René Assa) dessa faculdade onde aconteceu essa abertura fantástica, que acaba se tornando a tal figura maligna, que mencionei ali em cima, depois de começar a fazer ligações para a mesma linha direta do Horrorscope do primeiro filme. Como resultado, desenvolve alguns poderes sobrenaturais, incorporando algum tipo de demônio, que o leva a matar alguns alunos. Não demora muito para acabar atrás das grades, mas nem isso segura o sujeito. Enquanto seu corpo físico está na prisão, seu espírito (ou algo assim) atravessa as grades da cela para continuar tocando o terror.

Temos o retorno de Spike, o jovem sobrevivente do primeiro filme, novamente interpretado por Patrick O’Brien (ainda fazendo uma imitação de um James Dean oitentista fajuto), que reúne forças com Robin (Debbie James), a filha do delegado da cidade e estudante da faculdade dirigida pelo reitor dos infernos. Os dois passam o filme inteiro mantendo alguma tensão sexual e, claro, tentam descobrir como capturar, matar, destruir – ou seja lá o que se faça com os espíritos do mal – o reitor possuído.

PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA não é um filme perfeito, mas eu só tenho elogios a fazer. Wynorski realizou um filme muito melhor do que precisava. É como se ninguém dissesse à ele que isso aqui deveria ser apenas uma sequência descartável de um filme que ninguém mais lembrava para ser exibida na TV a cabo tarde da noite. E o que o Wynorski faz? Bom, é um sujeito que eu já disse antes que tem talento para além da safadeza e tosquice que são seus filmes, que sabe trabalhar com criatividade nas mais adversas produções, com baixíssimos orçamentos… Quero dizer, claro que aqui não deixa de ter um pouco de tosquice e safadeza (algo que tá até bem abaixo da média dos filmes do diretor) mas também há uma direção genuinamente criativa e muitas coisas interessantes acontecendo na tela.

Há uma perseguição de carros no meio do filme que é muito maior e melhor do que eu esperaria de uma produção com esse orçamento. Foi aqui também que Wynorski, que é um sujeito esperto, filmou uma sequência na qual Spike com sua motocicleta explode um caminhão com dinamite e que o diretor reaproveitou as imagens para inserir neste outro filme que já comentei aqui. Gênio da picaretagem.

E de alguma forma, alguém deu a Wynorski os direitos de usar cenas do clássico A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, do Frank Capra, numa das sequências mais incríveis de PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, quando a amiga de Robin é sugada para sua televisão e se vê participando de uma mistura bizarra entre A FELICIDADE NÃO SE COMPRA e A NOITE DOS MORTOS VIVOS, do Romero. Sério, é uma ideia legitimamente boa e criativa. Em algum lugar, o Capra deve estar se contorcendo no seu túmulo, mas tudo bem…

Algumas aparições de figuras notáveis do cinema B do período também tornam as coisas mais divertidas em PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, como Monique Gabrielle, uma das musas scream queen dos anos 80 fazendo uma advogada; George ‘Buck’ Flower, que tem uma morte terrível por aqui; e numa das melhores sequências do filme, Spike vai a uma livraria de ocultismo chamada Lucifer’s e descobrimos que ela é administrada por ninguém menos que Brigitte Nielsen.

Se alguém por aí é, de alguma forma, o público deste tipo de tralha, admira o trabalho do Jim Wynorski, então fica a recomendação. PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA é curto, bobinho, barato, o ritmo é bom, as mortes são frequentes e algumas bem sangrentas – repito: fiquem de olho na morte do ‘Buck’ Flower. Os efeitos especiais são pobres, mas funcionam, possuem o charme que só esse tipo de filme proporcionava. Quase nunca o filme cai em momentos de tédio. É tudo o que poderia querer da continuação de um filme que ninguém se lembra e que ninguém pediu, feita com baixo orçamento por um mestre do B Movie americano no início dos anos 90.

AVATAR (2009)

Só tinha assistido AVATAR uma única vez nos cinemas na época do lançamento, no final de 2009. Então, agora que finalmente vamos ter a tão aguardada continuação resolvi rever. Naquela época não saí do cinema com a mesma empolgação de algumas pessoas. Tinha curtido, mas considerei o filme o “menos bom” do Cameron. Como eu adoro tudo que o cara fez, obviamente não queria dizer que eu não tivesse gostado. Ao contrário. Inclusive cheguei a elogiar bem o filme aqui no blog na época (quando ainda atualizava no blogspot e o blog se chamava Dementia 13). Depois da revisão de agora, continuo com a opinião de que se trata do mais “fraco” do diretor (aliás, eu cheguei a revisitar toda a filmografia do Cameron este ano), mas essa revisão de AVATAR só confirma a minha admiração pelo filme. Muito mais que a primeira vez que vi.

Não vou entrar muito na questão técnica “revolucionária” do filme. Quero falar da experiência de rever a obra. Até porquê esse ponto já foi tratado à exaustão na época do lançamento, em como Cameron sempre se propõe a profundas alterações no aspecto técnico da sétima arte, e trabalha quase como um engenheiro desenvolvendo novas tecnologias para poder filmar (motivo pelo qual o segundo filme demorou tanto para ser produzido). Utilizou, portanto, tecnologia de ponta para renderizar esse universo, personagens e imagens num 3D que realmente encheu os olhos lá em 2009… Passado mais de uma década, o legado de AVATAR está aí, para o bem e para o mal, nos efeitos especiais, sobretudo no cinema blockbuster americano. A coisa ficou tão saturada que ver AVATAR pela primeira vez hoje talvez nem tenha tanto impacto de caráter de surpresa e inovação.

No entanto, e mais importante, o filme ainda deve ter impacto de caráter poético visual. Porque, afinal, o mundo criado por Cameron continua um negócio simplesmente espetacular, de uma exuberância quase subversiva. Nesse sentido AVATAR funciona muito até hoje.

Tá tudo tão intacto que até mesmo as ressalvas de 2009 as tenho em alguma medida: os diálogos piegas, o enredo pouco sutil, tudo é mastigadinho e vários personagens são o cúmulo do arquétipo e estereótipo que remete a uma porção de filmes, obras literárias, quadrinhos na qual o protagonista se bandeia para o lado do “selvagem”. Reciclar obras alheias e fazer essa mistura de referências nem é um problema pra mim, mas discorrer tudo isso numa longa e desnecessária duração que não traz nenhuma novidade narrativa também me leva a considerar AVATAR um nível abaixo do restante da filmografia de Cameron…

E, no entanto, tudo isso fica ofuscado pelas qualidades do filme. Foi uma experiência fascinante estar envolvido novamente pela exuberância de AVATAR; em como num nível mais superficial continua sendo uma ótima aventura de ficção realmente empolgante, com momentos de tirar o fôlego; e como ainda fico maravilhado com um cineasta que dirige bem, que tem total domínio do espetáculo, e deposita tanta paixão e energia para a criar esse universo, com esse esplendor visual imponente, para contar essa história com tanto amor… Cameron pode não ser o mais original dos diretores, mas sabe como elaborar um grande evento cinematográfico autoral que não sacrifica o prazer do entretenimento. Vamos torcer para que Cameron não tenha perdido isso…

Alguns momentos continuam notáveis. A batalha final, por exemplo, eu nunca me esqueci, com aquele plano do cavalo em chamas, ou o clímax que rola o confronto entre o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e Jake (o protagonista do filme, vivido por Sam Worthington). Mas não lembrava como a sequência da destruição da Árvores das Almas é tão poderosa. Um espetáculo visual sem precedentes, com o coronel comandando a destruição em uma das naves, tomando uma caneca de café quentinho, assistindo a gigantesca árvore indo abaixo e uma raça inteira alienígena, os Na’vi, fugindo desesperada. Stephen Lang, aliás, é uma das melhores coisas do filme. Apesar do clichê de militar truculento, é um vilão fantástico, entregando algumas pérolas na sua performance, genuinamente ameaçador.

Sobre alguns temas, a abordagem política do filme é sentida de forma palpável, sem muita sutileza: o retrato sombrio da ganância corporativa; preocupação com a natureza; mostra-nos o homem que procura alargar o seu campo de ação e riqueza, e as catástrofes que daí advêm, já que é incapaz de respeitar os ambientes que o acolhem. Tudo bem óbvio, mas que funciona. Há também uma boa reflexão sobre gameficação. E embora haja um exotismo na representação dos Na’vi que permanece até hoje, acredito que eles possuem mais texturas, com uma cultura e uma ideia real sobre as coisas, que eu já não lembrava. O que deixa tudo mais interessante.

E é um bom presságio para as sequências de AVATAR. Uma expansão de mundo com um senso de detalhes não apenas de quem são os Na’vi, mas de como todo esse ecossistema funciona, sua flora e fauna e a curiosa ciência que governa o planeta Pandora. A obsessão do diretor serve bem à AVATAR; ele tenta expandir tanto esse universo, criando desde um pequeno inseto até o seu aparelho respiratório, que dá até pra ignorar a fórmula genérica e clichê de sua narrativa. Quero dizer, eu consegui ignorar, por isso achei o filme tão fascinante nessa revisão. Mas não tenho dúvidas de que muitas pessoas vão acabar achando AVATAR tão ruim quanto naquela época, ou até pior, numa revisão.

Enfim, essa foi uma maneira – mais longa do que eu tinha planejado – de dizer que estou bastante animado com a sequência, em retornar ao universo tão vívido criado por Cameron, agora em AVATAR: O CAMINHO DA ÁGUA. Recomendo uma revisão deste aqui, caso estejam interessados em ver a continuação e também estavam na mesma situação que eu, que só havia assistido na época do lançamento. Reafirmo que sempre gostei de AVATAR, mas acabei descobrindo um filme bem melhor do que lembrava nessa revisão. Ainda que esteja no final da fila da filmografia do diretor. Tudo bem, o sujeito até hoje não errou e tem várias obras-primas no currículo. Talvez AVATAR: O CAMINHO DA ÁGUA também seja. Vamos descobrir em breve.

O FUGITIVO (1993)

Sabe aquela máxima que usamos quando relatamos uma história interessante que aconteceu e percebemos que o relato nunca vai ser suficiente pra deixar, seja lá quem for, tão fascinado quanto nós, que vivenciamos o fato? Dizemos algo do tipo: “Você tinha que estar lá pra ver“… O mesmo vale para filmes. Vocês simplesmente tinham que estar lá quando tal filme foi lançado nos cinemas, ou nas locadoras – antes que seu impacto fosse diluído pela repetição e imitação – para entender porquê aquele tal filme foi bem sucedido, ou foi um fenômeno, até hoje se fala dele, etc…

Isso tudo me remete ao caso de O FUGITIVO (The Fugitive), de Andrew Davis, que finalmente revi depois de mais de vinte anos…

Assistí-lo hoje pela primeira vez pode até dar a impressão de um filme banal e repetitivo, mas se vocês estiveram lá na época do lançamento, lembram que se tratou de um dos grandes acontecimentos do cinema blockbuster da primeira metade dos anos 90, com uma massiva campanha de marketing, cartazes e revistas estampando o Harrison Ford correndo de alguma coisa, e o trailer passando até na TV aberta… O FUGITIVO foi um enorme sucesso de bilheteria, foi bem elogiado pela crítica, teve o Tommy Lee Jones ganhando o Oscar de ator coadjuvante, e o próprio filme foi indicado para a categoria principal de Melhor Filme (perdeu para A LISTA DE SCHINDLER). O filme em si, apesar de não ter nada de original, foi um dos exemplares responsáveis por modelar a estética do thriller de ação dos anos 90, influenciando uma penca de filmes a partir dali. Então acho que dá pra ter uma noção do que foi O FUGITIVO. Do seu impacto. Mas “Você tinha que estar lá pra ver“…

A trama, acredito, todo mundo conhece. Até quem nunca viu. Baseado numa série de TV dos anos 60, temos uma trama meio Hitchcockiana sobre Richard Kimble (Ford), um médico que se vê fugindo da lei após o assassinato brutal de sua esposa, tentando provar sua inocência ao mesmo tempo em que precisa encontrar o real assassino. E como na série de TV, o público nunca duvida da inocência do sujeito ou mesmo de sua crença de que o verdadeiro perpetrador é um “homem de um braço”.

Kimble é o herói perfeito – combinando inteligência com notável resistência física e um toque de compaixão – e o fato de ser interpretado por Harrison Ford, ator que sempre teve o dom de causar o nível certo de empatia, para não mencionar um astro já alojado na cultura pop com personagens como Han Solo e Indiana Jones, ajuda muito. Então acabamos comprando a perfeição do bom Dr. Kimble sem muita dificuldade. E Ford tá realmente ótimo no papel.

Mas, como um bom filme de policial, um bom filme de perseguição, a coisa realmente prospera quando o herói tem a contraparte certa como desafio. Sam Gerard de Tommy Lee Jones, o US Marshall que passa o filme inteiro obstinado no rastro de Kimble, é um adversário digno, tão afiado e tão duro quanto sua presa. Talvez seja o indivíduo mais mais humano do filme, um homem dividido entre o dever e a crença pessoal. Jones é tão bom que (além de ter ganhado o Oscar, como já mencionei) o personagem chegou a assombrar sua carreira. Ele o reprisou oficialmente no filmaço US MARSHALS, de 1998, mas esse tipo de personalidade o seguiu durante muito tempo em filmes como MIB – HOMENS DE PRETO (97), o petardo de William Friedkin CAÇADO (03), que é quase um terceiro capítulo espiritual deste aqui, e já mais envelhecido em ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (07).

A relação que se estabelece entre Gerard e Kimble é bem mais interessante do que aquela entre Kimble e a figura do vilão real do filme (seja o homem de um braço ou o verdadeiro mandante que a trama revela), o que pode ser o motivo pelo qual o clímax do filme, a troca de socos entre herói e vilão permaneça menos na mente do que muitos dos momentos compartilhados entre Kimble e Gerard ao longo da caçada, como por exemplo a já clássica sequência dos túneis da represa, onde ocorre o primeiro contato dos dois e que culmina com Kimble se jogando de uma altura considerável…

Ui, ui, mas era pra ele ter morrido na queda, ninguém sobrevive pulando de uma altura assim, blá, blá, blá”… O tipo de coisa que eu passei décadas ouvindo. Mas a minha resposta é sempre a mesma. Meu amigo, se você quiser realismo, eu posso indicar uns bons documentários.

Já elogiei por aqui no blog o trabalho do diretor Andrew Davis. Um sujeito que faz filme com Chuck Norris e dois dos melhores veículos de Steven Seagal merece sempre meu respeito. Aqui consegue se sair muito bem, demonstrando suas habilidade sob a batuta de um grande estúdio, onde tudo é super controlado e é difícil deixar alguma impressão pessoal. Mas o Davis nunca foi um diretor autoral, então tá em casa. De todo modo, Davis tava inspirado: tudo em O FUGITIVO é filmado e editado com uma intensidade para desgastar os nervos e aumentar o pulso. A câmera sempre se move, enfatizando a emoção da perseguição e as relações de poder entre a presa e o predador.

Sequências como a fuga de Kimble depois que o ônibus da prisão capota na floresta e vai parar em cima da linha do trem e o sujeito precisa pular pela janela um segundo antes de uma locomotiva acertar em cheio o veículo é praticamente uma aula de tensão… Dessas imagens do cinema de ação que permeia sempre meu imaginário do gênero nos anos 90.

Ainda assim, não acho que o grande trunfo de O FUGITIVO seja a ação, mas sim a força do seu elenco e a capacidade de contar uma boa história. Temos participação de figuras como Julianne Moore, Joe Pantoliano, Jeroen Krabbé, mas são mesmo os gigantes Harrison Ford e Tommy Lee Jones que definem as coisas por aqui por meio de puro carisma, atuando numa narrativa clássica que realmente funciona e que tem peso dramático e atenção aos detalhes. E que ao mesmo tempo entrega emoções.

O FUGITIVO não chega a ser nenhuma maravilha, mas é o tipo de filme que, apesar da influência no período, é cada vez mais raro de se encontrar nos dias de hoje… Uma produção grandiosa à sua maneira, mas não inchada de trocentas horas; um thriller inteligente e eficaz, embora com algumas conveniências de roteiro, mas de tirar o fôlego do início ao fim e que consegue atrair a atenção de um grande público, sem dar a impressão de que os realizadores pensam que o espectador é idiota. Em suma, um filmaço que valeu a pena rever, do tempo em que contar boas histórias era regra básica para se fazer um filme em Hollywood.

30 anos de DRÁCULA DE BRAM STOKER

Outro dia tava revendo esse filme do Coppola que já tá completando três décadas. E, mais uma vez, fiquei maravilhado como da primeira vez que vi, quando era moleque, mais ou menos na metade dos anos 90… Essa sequência de abertura em especial simplesmente me deixa sem chão.

Podem dizer o que quiser, eu sei que quando se discute a carreira do Coppola, muita gente já enche a boca pra destacar a trilogia O PODEROSO CHEFÃO e APOCALYPSE NOW como as obras primordiais do homem. E provavelmente essas pessoas estão certas. Sobretudo APOCALYPSE NOW e O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III são dois dos maiores filmes já feitos na história.

No entanto, é DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker’s Dracula, 1992) que certamente está entre as maiores realizações pessoais do diretor.

Na edição de novembro de 1992 da Fangoria – cuja capa se refere ao filme em questão como “O evento de horror da década!” – apresenta uma entrevista com o Coppola, que fala sobre sua tentativa de fazer um filme experimental a partir do romance de Bram Stoker, enquanto o estúdio queria um grande e luxuoso filme de terror de primeira linha. Coppola vinha de uma década de fracassos, não podia ficar de molecagem, mas o próprio filme demonstra que ele conseguiu algo. Ao final da entrevista, ele conclui:

A ironia é que mesmo que este filme não tenha sido tão experimental como eu planejei originalmente – eu consegui talvez 40 % do que eu queria – ainda não é um filme convencional. Certos aspectos dele escaparam de mim, ficaram maior do que eu pretendia; eu estava pensando em fazer uma versão menor, estranha e artística, e o que eu consegui é uma versão grande, estranha e artística.

Caso familiar de eventos na carreira de Coppola: a intenção de fazer um filme menor fugir de seu controle e se transformar em algo muito mais extravagante, épico e suntuoso… Nesse caso, porém, DRÁCULA acabou sendo um raro sucesso de sua carreira pós anos 70, em grande parte graças ao conceito estético da coisa. O homem de alguma forma convenceu um grande estúdio a trazer à vida uma visão experimental do horror para um público então desavisado, que achava que receberia uma super produção tradicional do gênero (e que foi bombardeado na época com uma massiva campanha de marketing), mas que acabou se deparando com um triunfo de vanguarda estética das mais radicais, barrocas, revolucionárias e inventivas no cinema mainstream americano.

E acho que é exatamente isso que mantém DRÁCULA tão vivo até hoje. Mesmo para quem nunca o assistiu e o ainda fará pela primeira vez (e por favor, se alguém aí ainda não viu, faça imediatamente), o que salta aos olhos de maneira instantânea são os mesmos elementos formais pelos quais o filme foi aclamado e premiado há trinta anos.

O sucesso é antes de tudo visual com uma das estéticas góticas mais extravagantes já vistas, um primor de direção de arte, fotografia, exuberância de cores, cenários, figurinos, composições visuais meticulosamente trabalhadas, montagem complexa, efeitos visuais ópticos à moda antiga, buscando mais pureza nas trucagens, na arte de fazer um cinema mais artesanal, com maquetes, teatro de sombras, maquiagens, sobreposição de imagens estilizadas… Ou seja, o que mantém a grandeza de DRÁCULA é esse esforço de Coppola em contar essa história em termos puramente visuais. São duas horas de um festival sensorial que sintetiza o cinema de horror como arte.

Coppola teria ainda delegado bastante responsabilidade ao seu filho Roman Coppola, que teria sido um dos cabeças dos efeitos especiais e também diretor de segunda unidade e que quase poderia ser descrito como um diretor não oficial de DRÁCULA. Tudo isso depois que Coppola demitiu a equipe original de efeitos especiais, que não conseguiu acompanhar as ideias artesanais que o homem queria pro seu filme.

Toda essa ideia de fazer efeitos especiais arcaicos é claramente uma forma de homenagear o próprio cinema e transcender suas inspirações, as outras grandes obras que adaptaram o mito de Drácula para a tela grande, desde os clássicos da Universal aos filmes da Hammer, mas também da poesia fantástica francesa com A BELA E A FERA, de Jean Cocteau. E, claro, NOSFERATU, de Murnau. Apesar de que ao mirar nesse filme do Murnau, Coppola parece ter acertado mais em FAUSTO. Quem assistiu aos filmes do alemão vai perceber…

Uma coisa que não lembrava tanto aqui é como o filme é intensamente erótico. Sexo e morte sempre andaram de mãos dadas no cinema de horror (especialmente quando se trata do subgênero “filmes de vampiro”), mas Coppola trabalha num nível quase fetichista de fantasias libidinosas. O encontro inicial de Jonathan Harker (Keanu Reeves) com as Noivas do Conde (entre elas uma jovem Monica Bellucci) é de matar um idoso do coração, com o leito dando lugar a corpos emergentes que se entrelaçam; bocas, línguas, braços, pernas, seios se encontram antes de Drácula enxotá-los, reivindicando para si o rapaz desnorteado.

A personagem de Lucy (Sadie Frost) nessa versão também dá uma alegrada, toda sapeca, rindo com Mina (Winona Ryder) depois de deixar cair uma cópia do Kama Sutra, antes de acariciar a faca de um de seus pretendentes, dizendo a ele que não pode acreditar o quão grande é. Na verdade, todos os principais temas que geralmente são suprimidos ou mascarados em versões antigas do mito de Drácula adaptadas para o cinema estão aqui de forma mais explícita: a estreita relação da maldição do vampiro com o sexo, AIDS, drogas, além do progresso da medicina, espiritualidade, religião, etc.

É fácil esquecer, dado o número de mudanças em centenas de adaptações que Drácula teve ao longo da sua existência, que não há uma única interação romântica entre o personagem título e Mina Harker no romance de Stoker. O Conde não tem nenhum interesse nela, além do desejo de se banquetear com seu sangue e transformá-la em uma de suas noivas. Ela é apenas a vítima de um predador;

Mas aqui o olhar de Drácula é a de um amante. De repente, não estamos mais assistindo as façanhas de um monstro sem alma, mas sim um espírito assombrado, alimentando desesperadamente sua jornada através de épocas para alcançar o destino de possuir aquela que ele perdeu há muito tempo.

E a história de amor entre Drácula e Mina, apesar de cafona, até que é boa de acompanhar, com alguns momentos tocantes, como o primeiro encontro dos dois, seguido da cena no cinema; ou a sequência em que Mina se entrega ao sujeito e bebe seu sangue. Coppola realmente conseguiu fazer do personagem um indivíduo trágico através desta história e causar um sentimento misto, no qual queremos tanto vê-lo perecer por seu lado maligno quanto em reencontrar o seu amor.

Sobre o elenco, A primeira coisa que as pessoas costumam lembrar para difamar o filme é, claro, a atuação de Keanu Reeves como Harker. Sabe-se que Coppola queria Johnny Depp para o papel, mas o estúdio não achava que ele tinha o nome forte o suficiente na época. O próprio Reeves diz que não gosta de sua atuação aqui, vinha de uma série exaustiva de trabalhos e quando filmou DRÁCULA estava esgotado, não conseguiu entregar algo melhor. Mas não acho que chega a prejudicar, embora não seja mesmo das suas melhores performances.

Mas para além disso, curto praticamente todos os rostos que aparecem por aqui, especialmente Anthony Hopkins, obviamente, no papel de um Van Helsing divertido e astuto.

Outros destaques do elenco incluem Tom Waits interpretando Renfield como um comedor de insetos, e Sadie Frost, que, como já falei, assume o papel de Lucy, personagem tipicamente ingrato da melhor amiga da protagonista, que Drácula seduz primeiro, mas que aqui acaba tornando algo especial. É uma das minhas personagens favoritas do filme.

E enquanto isso, a própria personagem Mina não exige tanto de Ryder na maior parte do tempo. Ela tá ótima, mas acho suas outras performances do período muito mais interessantes…

É Gary Oldman, porém, quem rouba o filme e seus talentos camaleônicos são perfeitos para o Drácula como concebido aqui. Conseguindo atuar de forma convincente através dos vários designs complexos de maquiagem, Oldman é igualmente expressivo como um Drácula idoso decrépito, um jovem galã vitoriano ou um morcego de 1,80 m de altura. Suas cenas românticas com Ryder lembram aqueles livretos de banca, Harlequin, A Paixão de Jéssica, O Moinho do Amor, coisas do tipo, mas ele é persuasivo o suficiente para que, quando expõe seu peito e rasga um teco para Mina beber seu sangue, seja possível perceber que ela realmente tá a fim do cara.

É provável que DRÁCULA tenha sido um dos primeiros de uma onda de filmes de vampiros dos anos 90, como ENTREVISTA COM O VAMPIRO, que adotaram uma abordagem gótica, sombria, mas ao mesmo tempo romântica, que atraíam o público jovem do período.

Anos depois, é fácil traçar uma linha desse tipo de filme até, sei lá, a série CREPUSCULO, embora os fãs de DRÁCULA provavelmente zombem dessa comparação. A verdade é que eles exploram as mesmas fantasias. Porém, é muito provável que em comparação com a sexualidade casta de Stephanie Meyer, o filme de Coppola é praticamente pornográfico… Pessoalmente, nunca vi esses filmes dessa saga.

Enfim, a única parte negativa disso tudo é notar é que este aqui foi o último grande filme do diretor. Coppola até possui vários ótimos trabalhos depois, como TETRO, mas nada que chegue aos pés de DRÁCULA. E lá se vão trinta anos…

FORÇA DEMONÍACA (1988)

Já tinha assistido a FORÇA DEMONÍACA (976-Evil) antes, já faz alguns bons anos, e queria ver a continuação, que é dirigido pelo Jim Wynorski. O que pra mim é obrigatório. Nem sei porque ainda não vi. Só que eu não lembrava de quase nada deste primeiro filme. Então, cá estou, resolvi compartilhar essa revisão com meus caros cinco leitores… “Mas que raios de filme é esse?” alguém deve estar se perguntando.

Escrito por Brian Helgeland e Rhet Topham, FORÇA DEMONÍACA deveria gerar algum interesse dos fãs de terror simplesmente porque é a estreia na direção de um certo Robert Englund. Sim, o próprio Freddy Krueger arranjou um tempinho entre as continuações de A HORA DO PESADELO e se meteu atrás das câmeras.

Aparentemente, Robert Englund dirigiu FORÇA DEMONÍACA simplesmente porque queria fazer, foi o filme que surgiu da sua mente. Não tem nenhuma ligação com produtores de A HORA DO PESADELO, não teve nenhum acordo do tipo “aparecer em mais um filme como Freddy Krueger e em troca poder dirigir um filme”… Nada. Englund conhecia os roteiristas, vomitou todas as ideias que tinha e assim foi surgindo FORÇA DEMONÍACA.

No entanto, como não poderia ser diferente, após alguns anos encarnando um dos maiores ícones pop do horror dos anos 80, sua estreia na direção acaba tendo uma dose de influência da série de filmes criada por Wes Craven… A inspiração em A HORA DO PESADELO é bem óbvia.

A história gira em torno de Hoax (Stephen Geoffreys), um tipo nerd, deslocado, que ainda dorme de pijama e não pode comer chocolate no sofá da sala, totalmente dominado por sua mãe fanática religiosa, vivida por Sandy Dennis – Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1967 por QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?. Além disso, o moleque é impiedosamente intimidado pelos bad boys do ensino médio da escola. A única luz na sua vida é seu primo rebelde Spike (Patrick O’Bryan), uma espécie de James Dean oitentista, que anda pela cidade numa Harley, aumentando suas dívidas nos círculos de poker underground.

Tudo que Hoax quer é ser como seu primo, ou pelo menos tê-lo sempre por perto, lhe protegendo… Depois de se humilhar na frente da namorada de Spike, Suzie (a maravilhosa Lezlie Deane), quando ela descobre que ele roubou suas roupas íntimas, Hoax recorre a uma linha telefônica de auto ajuda chamada Horrorscope, que utiliza o tal 976 do título para fazer as chamadas (nos anos oitenta esse tipo de prefixo “9 alguma coisa” era extremamente popular nos Estados Unidos), para obter algum consolo. Depois de seguir o conselho da misteriosa linha de apoio, o rapaz lentamente começa a se transformar em uma poderosa criatura demoníaca e assim começa sua busca por vingança.

Começando um pouco inseguro de si mesmo, meio sem saber definir o tom, o filme eventualmente se transforma num produto de terror bastante agradável, que se eleva acima do pequeno orçamento e diverte com esse conceito tão batido. Sim, o tema “nerd-on-revenge” já foi feito um milhão de vezes antes e Englund sabe disso, ele apenas quis requentar uma historinha que ainda pode render bons frutos, adicionando temas que até podem soar clichês e derivativos em alguns momentos, mas que possui personalidade, uma visão pessoal de Englund – agora como criador de imagens de horror – e um bocado de humor.

E ele se sai muito bem. De vez em quando dá uma derrapada no ritmo, algo normal para um estreante… Em termos visuais, o sujeito demonstra boa noção de composições, de como trabalhar a câmera, há aquele charme sombrio do horror oitentista marcado por neons que o sujeito explora de forma belíssima. Gosto bastante dos cenários, tudo tem uma qualidade exagerada. E embora não seja um filme muito sangrento, os efeitos especiais de maquiagem do mestre Kevin Yagher são ótimos. A sequência do massacre no cinema, com direito a um bocado de gore, e o final em que a casa de Hoax se transforma na porta de entrada para o inferno, são particularmente especiais.

Tirando esses momentos, não é um filme que há grandes cenas que permanecerão na memória. Como disse antes, eu já tinha apagado da mente 90% do filme… Mas revendo agora é interessante notar uma agradável atmosfera crescente de desconforto à medida que Hoax se torna mais atraído pelo tal serviço telefônico. Nunca é explicado de onde surgiu o número demoníaco, como Spike obteve o cartão, há apenas uma revelação no desfecho, mas que também não diz muita coisa. E em duas ocasiões mostra outras vítimas que acabam tendo um destino cruel por estarem envolvidas com o Horroscope… Há até a presença de um detetive que investiga essas mortes misteriosas ligadas ao serviço, que gera alguns momentos curiosos, mas o que importa mesmo é Hoax e sua jornada diabólica de vingança.

O paralelo com A HORA DO PESADELO torna tudo ainda mais interessante. FORÇA DIABÓLICA é quase um primo distante da franquia de Freddy Krueger, com sequências de terror e clima de pesadelo inspiradas e ambiciosas, cuja produção talvez não tivesse o orçamento suficiente para realizar de forma mais eficiente, mas que vale pelo esforço. Hoax até se transforma, no fim, num monstro brincalhão com unhas afiadas que é impossível não se lembrar de Freddy. Sem contar os temas em comum, sobretudo com A HORA DO PESADELO 2 – A VINGANÇA DE FREDDY, com subtexto gay e tudo, mas neste enredo de possessão satânica juvenil.

O elenco é um destaque à parte. Stephen Geoffreys tá muito bom como Hoax. Um bocado irritante no início, mas funciona. Outro papel famoso de Geoffreys é como o vampiro Evil Ed no clássico do horror oitentista A HORA DO ESPANTO. Depois disso, além de um ou outro trabalho mais conhecido, o sujeito trocou o viés do cinema que vinha fazendo e começou uma carreira longa e bem sucedida como ator de filme pornô gay, usando pseudônimos como Sam Ritter e Stephan Bordeaux. Nunca assisti nada dessa fase, mas fica a dica pra quem tiver interesse…

Sandy Dennis está bem divertida como a mãe de Hoax e rouba a cena quando aparece. Patrick O’Bryan não é lá muito expressivo, mas Englund consegue extrair o suficiente do rapaz. Lezlie Deane tem boa presença na tela; e há um pequeno papel para o grande Robert Picardo que é muito bem-vindo.

Certamente FORÇA DIABÓLICA não está no mesmo nível dos melhores exemplares do horror de baixo orçamento dos anos 80, mas é uma maneira agradável de passar o tempo e mostra que Robert Englund pode se sair quase tão bem atrás da câmera quanto na frente dela. Pena que além deste aqui, ele acabou fazendo só mais um filme, já nos anos 2000… FORÇA DIABÓLICA é um filme meio estranho, muito bobo em alguns momentos, mas não deixa de ser divertido na maior parte do tempo e que de alguma forma consegue ser mais notável e gratificante do que eu lembrava.

E agora sim, posso assistir sem peso na consciência a continuação, 976-EVIL II, lançada no Brasil como PERSEGUIÇÃO DEMONÍACA, de 1991, dirigido pelo grande Jim Wynorski… Até!