1990 – OS GUERREIROS DO BRONX (Enzo G. Castellari, 1982)

De volta ao Brasil para umas férias, passemos às atividades por aqui. Pelo menos nos próximos dois meses espero ter muito assunto para compartilhar antes de voltar à luta. Um deles é o já anunciado retorno do ciclo Castellari que iniciei ano passado e por diversos motivos acabei abandonando. Retomemos de onde paramos: 1990 – OS GUERREIROS DO BRONX, um dos melhores trabalhos do diretor de KEOMA.

A essa altura do campeonato, é provável que quase todo mundo saiba que certa parcela do cinema italiano no início dos anos 80 era formada por alguns dos principais picaretas da indústria cinematográfica mundial. Choviam filmes que se aproveitavam do sucesso comercial de outras produções mais abastadas. MAD MAX, por exemplo, foi responsável por gerar uma penca de filmes pós-apocalípticos carcamanos. OS GUERREIROS DO BRONX é um belo exemplar do gênero, embora não tenha nada a ver com o filme estrelado pelo Mel Gibson. Na verdade, é uma mixagem inspirada de outras duas obras de imensa influência na época: FUGA DE NOVA YORK, de John Carpenter, e THE WARRIORS, de Walter Hill.

Mas o que interessa mesmo é que apesar das óbvias referências o filme consegue ter vida própria, com toda a personalidade de Castellari impressa na tela. No entanto, OS GUERREIROS DO BRONX não ficou livre de alguns problemas que constantemente eram encontrados nestas específicas produções. É o caso do roteiro fraquíssimo, cheio de buracos e diálogos pífios, apesar da trama e do universo criado aqui serem notáveis. Cortesia do grande Dardano Sacchetti, responsável por vários roteiros clássicos do cinema italiano dos anos 70 e 80.

Além disso, tenho um bocado de problemas em levar a sério o personagem principal, Trash, supostamente o cabra durão do pedaço, interpretado pelo italiano Marco di Gregorio (aqui creditado como Mark Gregory), que não possui carisma algum. É lógico que o resultado acaba sendo mais divertido por ser um elemento de humor involuntário. Mas perto de um Kurt Russel, no filme do Carpenter, não dá nem para o cheiro.

Um fato interessante é que há rumores de que Mark Gregory é, ou tenha sido (não sei se ainda está vivo), gay. Não que isso interesse. A sexualidade de cada um pouco me importa. Mas é curioso quando isso influencia no filme. Porque há duas cenas específicas em que personagens morrem nos braços de Trash. Quando é um membro masculino de sua gangue percebe-se claramente a intesidade de sua atuação, parece que ele deu tudo de si (aliás, o falecido tem até um bigode estilo Freddie Mercury). Quando ocorrido é com uma importante personagem feminina a encenação já não é tão convincente. E a calça jeans que ele usa durante o filme deve ser a mais apertada da história do cinema e quando anda dá a impressão de que há um caroço de milho enfiado no rabo…

Er… Bom, OS GUERREIROS DO BRONX conta ainda no elenco com Vic Morrow (em seu último papel antes de morrer de forma trágica no set de THE TWILIGHT ZONE), Fred Williamson, George Eastman, Christopher Connelly, Joshua Sinclair e o próprio Castellari em um pequeno papel. Mas sua função atrás das câmeras, como criador de imagens, é que chama a atenção, especialmente nas sequências de ação, com direito a uma bela contagem de cadáveres e vários slow motions peckinpanianos. A cena em que Vic Morrow invade o esconderijo dos Riders (cujo lider é a figura que eu comentei nos dois últimos parágrafos) distribuindo bala é um primor. As cenas de luta também não são más, principalmente quando acontece um quebra pau entre Williamson e Eastman.

A diversão continua também nas situações precárias da produção que rendem algumas risadas curiosas. Um bom exemplo refere-se a um dos principais argumentos da trama: o bairro do Bronx tornou-se uma terra sem lei e sem ordem comandada por diversas gangues em disputa por territórios, mas a produção não teve permissão de fechar as ruas da região para as filmagens. Portanto, é hilário notar no fundo os carros passeando e as pessoas andando normalmente nesta suposta “terra de ninguém”, violenta, sem lei e ordem. Mas o que importa é a essência, não é mesmo? É o que torna OS GUERREIROS DO BRONX tão magnífico. Fiz uma revisão recente e é bacana notar como ainda se mantém em ótima forma em comparação com um punhado de outras produções similares daquele período de glória do cinema italiano de gênero.

SOUTHERN COMFORT (1981)

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SOUTHERN COMFORT é sobre um grupo da Guarda Nacional americana que realiza uns treinamentos de localização e navegação pelos pântanos da Louisiana, tentando encontrar um local específico, exercitando a utilização de mapas, etc. A maioria deles está levando o trabalho bem à sério, muito preocupados com as putas que vão comer quando terminar o exercício. Quero dizer, até mesmo as armas que levam em punho estão carregadas com festim. Em quem vão atirar? Estão em solo americano, não existe inimigo nesse treinamento…

Os problemas começam quando se dão conta de que estão completamente perdidos. Onde deveria haver tal objetivo, só tem água e mais água… Decidem então pegar “emprestado” algumas canoas que encontram num acampamento aparentemente abandonado à beira do rio, com alguns animais esfolados no local e tal… Mas deixam um bilhete pra quem quer que fosse. Depois de alguns minutos navegando, o pelotão descobre que está sendo observado à distância por um grupo de cajuns*, os possíveis donos das canoas. Eles gritam para que leiam o bilhete, mas os caipiras não se mexem. Um dos soldados então, decide ser o engraçadinho da turma e começa a atirar na direção dos sujeitos com uma metralhadora cheia de festim. Rá! Muito engraçado mesmo.

* Os Cajuns são os decendentes dos Acadianos, expulsos do Canadá, que se instalaram na Louisiana. [/Wikipédia mode off]

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Só que os cajuns respondem ao fogo, e a munição deles é bem real, para azar dos pobres militares. A primeira bala já acerta a testa do lider do pelotão (Peter Coyote) e, bom, vocês já podem começar a imaginar o que teremos aqui.

Walter Hill é um dos canônes em orquestrar sequências de ação, colocou Charles Bronson pra brigar em gaiolas em seu primeiro filme, realizou uma das obras mais representativas dos anos 70 com THE WARRIORS, fez algumas das perseguições de carros mais impressionantes que eu já vi em THE DRIVER, imitou Sam Peckinpah num western, enfim é um dos grandes mestres do cinema de ação americano e… agora é o diretor de um dos melhores filmes de caipiras psicopatas que existe!

Na época, era clara a intenção de Hill em fazer referência à guerra do Vietnam, mas o filme se manteve atual e até há poucos anos era difícil ver SOUTHERN COMFORT sem pensar no Iraque e outros países do Oriente Médio. Mantém sua análise, só muda o local. Quero dizer, temos aqui um pelotão americano, alguns deles agindo como autênticos imbecis, numa região na qual não entendem porcaria nenhuma de seus habitantes, sua cultura, não falam nem sua língua. Chega sem permissão, se achando os fodões, mas descobre rapidinho que a coisa não é bem assim. O adversário conhece o território, monta armadilhas, sabe onde se esconder e como monitorá-los…

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É o simbolo perfeito para o fracasso inevitável nesse tipo de negócio que o governo americano insiste em fazer de vez em quando ao longo de sua história.  E não importa se estão apenas “pegando emprestado uma canoa”… Com toda essa substância, fica difícil não preferir SOUTHERN COMFORT em relação a outros filmes do gênero “caipiras assassinos“, como DELIVERANCE, de John Boorman, por exemplo, que é mais aclamado (e não tiro os méritos).

Mesmo suprimindo a análise política, sobra ainda um puta thriller de caçada humana (o final, na vila dos cajuns, é de ficar com o coração na boca, a contrução da tensão é absurda), o qual destaca-se desde o roteiro, escrito à seis mãos pelo próprio Walter Hill, Michael Kane e David Giler, a utilização dos cenários naturais dos pântanos da Louisiana, passando pela direção habitualmente magistral de Hill e, principalmente, o elenco com feras do calibre de Powers Boothe, Keith Carradine, Fred Ward, Peter Coyote e especialmente um Brion James tão assustador quanto os piores monstros e psicopatas dos slashers oitentistas.

13 ASSASSINOS (Jûsan-nin no shikaku, 2010)

Um belo exemplar que saiu nos cinemas brasileiros recentemente e que eu assisti lá no ano passado, foi 13 ASSASSINOS, do japonês maluco Takashi Miike, dono de uma das filmografia mais interessantes e bizarras da década passada, com títulos como VISITOR Q, AGITATOR, GOZU, ZEBRAMAN, IZO, a obra prima ICHI – THE KILLER… bah, vocês sabem quem é o Miike, não preciso ficar apresentando.

O sujeito entrou numa de refilmar clássicos do cinema japonês. Um de seus mais recentes é uma versão de HARAKIRI (62), do Masaki Kobayashi, o qual, vale ressaltar, é um puta filmaço (o original, não vi ainda o remake). Neste aqui, andou rolando por aí que seria uma versão de OS SETE SAMURAIS (54). Até acredito na possibilidade de haver uma influência do filme do Kurosawa, que aliás, é uma baita influência pra muita coisa, mas 13 ASSASSINOS, oficialmente, é uma refilmagem de THE THIRTEEN ASSASSINS, de 1963, dirigido por Eiichi Kudo.

Como assisti no ano passado, não me recordo da trama detalhadamente, mas lembro que trata-se de um grupo de treze samurais, como o título indica, que une forças para enfrentar um perverso Lord feudal, que fez alguma merda grande, e todo seu exército, preparando uma tremenda armadilha em um pequeno vilarejo por onde deverão passar. No clímax final, tudo explode numa batalha épica eletrizante! Ah, isso eu me lembro muito bem! Mas até chegar a esse ponto, Miike trabalha a narrativa com a lentidão característica desses filmes clássicos de samurais.

Para quem sempre foi taxado de diretor excêntrico especialista em produtos esquisitos, 13 ASSASSINOS é um dos trabalhos mais acessíveis e bem acabados do diretor, sem desmerecer, é claro, suas maluquices de sempre. Sou um grande admirador da obra de Miike, cineasta dos mais inventivos, prolíficos e porra-loucas desta geração. Mas aqui o estilo é mais sossegado, o sujeito quis simplesmente fazer um filme de samurai bad-ass clássico, e mandou bem à beça.

(Mas que os fãs não fiquem tão preocupados. De vez em quando surge um detalhe incomum ao longo da narrativa, toque do diretor, só pra lembrar que estamos assistindo a um filme do Miike.)

Na batalha final temos tudo que se espera para este tipo de situação em um filme de samurais, especialmente, é óbvio, lutas de espada com ótimas coreografias e sangue em abundância. Miike demonstra desenvoltura para filmar as encenações de batalha, consegue transpor para a tela com clareza a ideia da dificuldade de ter apenas treze samurais contra um exército de centenas de homens e dirige com mão firme e criatividade uma gigantesca sequência de ação de uns trinta ou quarenta minutos de duração. A contagem de corpos é tão alta que chega a enjoar…

Brincadeira, não enjoa nada. Não dá pra enjoar de um troço desses… se o cinema não foi criado pra fazer coisas desse tipo, então não sei pra que foi. Gostaria de ver na tela grande, mas tenho a impressão de que não passou aqui onde moro. Mas não tem problema, fica a recomendação para ver um filme de samurai de primeira qualidade no cinema. E vou é tratar de ver logo a versão que o Miike preparou de HARAKIRI. See you soon, folks!

THE WARRIORS – OS SELVAGENS DA NOITE (1979)

Estava revendo outro dia o DVD de THE WARRIORS que eu havia comprado há séculos, mas NUNCA tinha botado no aparelho para conferir. E, para minha surpresa, felizmente, descobri que a versão que eu tenho não é a director’s cut! Como eu não faço idéia do ano que essa versão do diretor foi lançada, julgo que a minha cópia veio antes. O filme foi relançado há uns dois anos por aqui e não sei também qual versão colocaram. A principal diferença é que a director’s cut possui uns efeitos de história em quadrinhos na edição de algumas transições que eu, particularmente, achei brega pra cacete. Prefiro a montagem original.

Mas isso não importa, THE WARRIORS é uma experiência obrigatória de qualquer jeito. E se alguém aí estiver lendo este comentário sem ter assistido ainda, recomendo que pare tudo agora e vá assistir! Se já passou mais de cinco anos que você viu, reveja! É impressionante a riqueza de detalhes que este filme possui. A cada revisão, novas descobertas.
Mas nem sempre foi tão fácil assistir ao filme. Nunca chegou a ser uma raridade, ou nada disso, especialmente aqui no Brasil foi bastante reprisado na TV e o acesso a ele nunca gerou algum tipo de complicação. Mas na época do lançamento, THE WARRIORS conseguiu fama de filme polêmico após confusões e quebra-quebra em alguns cinemas onde o filme era projetado. Em alguns países, como a Suécia, por exemplo, chegou a ser proibido.

Tá certo que é uma obra que faz um retrato perfeito sobre a onda devastadora das gangues nos anos 70 (embora seja baseado num livro da década de 60), tem um belo cartaz mostrando uma multidão de delinquentes com caras de poucos amigos, armados com bastões, e dizeres insinuantes. Então imaginem vocês assistindo a projeção na época do lançamento, dividindo o local com uma horda de membros de gangues, animados com um filme que fala sobre… eles!

Mas o que realmente me chama a atenção é a maneira na qual o diretor Walter Hill constrói sua fábula a partir de uma idéia tão simples. Os Warriors são uma gangue do sul de Manhattan que comparecem ao Bronx para participar de uma reunião com quase todas as tribos que planejam uma união para dominar a cidade.

You’re standing right now with nine delegates from 100 gangs. And there’s over a hundred more. That’s 20,000 hardcore members. Forty-thousand, counting affiliates, and twenty-thousand more, not organized, but ready to fight: 60,000 soldiers! Now, there ain’t but 20,000 police in the whole town. Can you dig it?” É o que diz Cyrus, o líder da mais poderosa gangue da cidade e o cabeça da “rebelião”.

No entanto, Cyrus é assassinado à tiro enquanto ainda fazia o seu discurso no palanque. A culpa cai, injustamente, sobre os pobres Warriors. O resto do filme é a odisséia do grupo de volta ao seu território, tentando cruzar uma Nova York sombria e cheia de contratempos, esgueirando-se pelos becos e metrôs, correndo pelas ruas driblando policiais e trocando sopapos com os mais diversos membros de gangues.

Sem discursos morais, mensagens políticas ou temas complexos. Apenas uma aventurazinha superficial. É mais que suficiente para que Hill transforme isso aqui num pequeno clássico!

 

Mas não é, exatamente, um filme de ação. Na verdade, é até bem anticlimax… o fato é que toda a narrativa possui uma carga de tensão muito forte que compensa a ação, que acaba se concentrando no olhar dos personagens, nos seus atos, no mais simples diálogo… tudo se torna “ação” no contexto dramático construído em THE WARRIORS. É claro que temos algumas belas sequências de pancadaria que não poderiam faltar de forma alguma! A cena no banheiro é uma delas, além de ser uma prova da maestria de Walter Hill. Uma aula de montagem e cinema físico.

Também é curiosa a caracterização das gangues. Cada uma possui seu estilo próprio, seu vestuário, sua essência. É tudo tão bem definido nesse universo que algumas tribos urbanas poderiam ganhar filmes próprios! Eu seria o primeiro da fila para conferir um exemplar estrelado pelos The Baseball Furies, por exemplo, que é o grupo que usa uniforme de baseball e os membros pintam as caras!

 

 

Na vida real seriam ridicularizados, obviamente. Ser atormentado numa ruela escura à noite por uns carinhas de cara pintada? Certamente eu iria perder a carteira, mas não ia conseguir ficar sem tirar um sarro. Se bem que eu correria sério risco de levar uma paulada na nuca. Mas aqui é apenas um filme! Mesmo assim, é engraçado ver estampado uma seriedade absurda na cara dos persoangens enquanto vestem modelitos esquisitos.

Os Warriors inicialmente seriam formado apenas por negros, mas os produtores não aceitaram. Eles são bem discretos, o uniforme é apenas um colete básico. E vale comentar que na sequêcia da reunião logo no início, várias gangues reais estavam presentes, vestidos à carater com seus uniformes, o que gerou até uma certa tensão a mais nas filmagens.

Aliás, não vou nem entrar nos méritos das filmagens, que mereceria um post à parte. É notória a série de problemas que Hill e sua equipe tiveram para realizar THE WARRIORS. Mas é assim que nascem os clássicos, não? O filme deu início a uma série de exemplares sobre grupos de delinquentes, cheios de mensagens sociais e morais, algo que não existe por aqui. Mas também influenciou outras obras que também se assumiram como boa diversão de aventura/ação, como os clássicos italianos GUERREIROS DO BRONX e FUGA DO BRONX, ambos de Enzo G. Castellari.

RUAS DE FOGO (1984)

Antes mesmo de me preocupar em saber o nome de diretores, eu já gostava do trabalho de Walter Hill. Alguns de seus principais filmes passavam exaustivamente na TV e durante a minha infância pude conferir várias belezinhas, como 48 HORAS I e II, INFERNO VERMELHO, THE WARRIORS, EXTREME PREJUDICE, etc…

No entanto, o curioso é que mesmo tendo visto apenas uma parcela de seu trabalho, adorando o cinema do sujeito, tendo-o, na minha opinião, como um dos pilares do cinema de ação moderno (junto com Woo, Flynn, Castellari, Mann e, claro, Peckinpah), grande parte da sua obra só fui parar para conferir há pouco mais de dois anos: LUTADOR DE RUA, CAVALGADA DOS PROSCRITOS, THE DRIVER, O IMBATÍVEL… Pra piorar (ou não, já que vou ter o prazer de assistir pela primeira vez), me falta conferir um bocado de coisa do homem ainda (SOUTHERN COMFORT, TRESPASS, JOHNNY HANDSOME, WILD BILL, etc).

E RUAS DE FOGO entra na categoria das descobertas recentes. Tive uma relutância boba, não sei explicar a razão por não ter assistido antes e me arrependo profundamente por tê-lo conferido agora. Não, não achei o filme ruim, ou algo parecido, pelo contrário, é uma obra muito estilosa, sonoricamente magnífica e visualmente hipnotizante, tem boa ação (não poderia ser diferente, já que estamos falando do Hill), enfim, é mais que uma simples diversão! Mas eu fico imaginando assistir com o olhar de menino… teria sido, no mínimo, mágico!

 

 

 

Situado em um universo paralelo em um período indefinido, um mundo mítico saído da mente de Hill – talvez o mesmo universo de THE WARRIORS – que mistura a década de 50 com a de 80, RUAS DE FOGO narra a simples fábula na qual Cody (Michael Paré), retorna para casa, após o chamado de sua irmã, para resgatar sua antiga namorada, agora uma cantora de sucesso, Ellen (Diane Lane), das garras de Raven (Willem Dafoe), líder de uma gangue de motoqueiros. Assim eles poderão tentar dar uma segunda chance ao amor, ou não, e ela poderá continuar cantando músicas bacanas como Tonight Is What It Means To Be Young, uma das tantas canções que fica grudada na cabeça:

 

*Este vídeo contém spoiler!

 

Ah, sim! Esqueci de dizer que o filme é meio que um musical… mas não do tipo convencional, desses que as pessoas substituem diálogos com cantoria, como nos desenhos da Disney. A narrativa é pontuada com trechos de shows da mocinha e outros músicos, e o filme inteiro acaba possuindo um ritmo alucinante no encadeamento das cenas. A sequência do resgate de Ellen é um bom exemplo, quando a edição entrecorta planos de Cody se preparando para distribuir sopapos, tiros, explodir motocicletas, com a apresentação de Rock’n’Roll dentro de um bar. O efeito sonoro-visual é simplesmente incrível!

 

 

 

Michael Paré demonstra ser um canastrão de rostinho bonito que prometia ser um astro, mas acabou entrando em cada furada… Nem mesmo o Hill conseguiu tirar muita coisa do sujeito, mas até que não se sai tão mal por aqui fazendo pose de herói de ação, com seu modelito cowboy, estilo ERA UMA VEZ NO ESTE. Já Diane Lane, apesar de ser de dublada nas cenas que aparece cantando, está admirável e tem bastante química com Paré. E ainda temos Willem Dafoe fazendo vilão com aqueles olhos esbugalhados e assustadores. Sujeito possui talento de sobra! O elenco se completa ainda com Bill Paxton, Rick Moranis, Deborah Van Valkenburgh e Amy Madigan, que é uma das personagens mais interessates, autêntica mulher-macho, que chuta a bunda dos marmanjos e faria Stallones e Schwarzeneggers pensarem duas vezes antes de mexer com ela.

 

 

 

 

O projeto inicial de Hill seria realizar uma trilogia com o personagem de Paré, mas como RUAS DE FOGO foi um desastre completo nas bilheterias, acabaram desistindo da idéia. Mas é um filme fascinante que já encontrou o seu público e ganhou status de cult, merecidademente. Ainda este ano ou no próximo (nunca se sabe), o diretor Albert Pyun, que é fã confesso de RUAS DE FOGO, pretende lançar uma espécie de continuação não oficial, ROAD TO HELL, estrelado pelo Paré. Vamos ver o que vai dar…

EXTREME PREJUDICE (1987)

Começando a entrar no clima do próximo filme do diretor Walter Hill, BULLET IN THE HEAD, o primeiro trabalho do diretor em dez anos, acho que é um bom momento para fazer um ciclo de revisões e descobertas com as obras desse gigante mestre do cinema de ação. Um dos seus principais exemplares, e que fazia muitos anos que eu não via, é o western contemporâneo EXTREME PREJUDICE, um daqueles típicos action movies brutos que parece impossível pintar na seara do cinema de ação da atualidade, além de ser uma apaixonada declaração de amor ao cinema de seu mentor, o gênial Sam Peckinpah.

Escrito pelo diretor de CONAN – O BÁRBARO, John Milius, a trama oferece o que há de melhor da mais pura truculência e testosterona em termos cinematográficos. Nick Nolte é um xerife durão do Texas, cujo melhor amigo da infância, vivido por Powers Boothe, escolheu o lado oposto da lei e se tornou o traficande de drogas número um da região, o que representa um conflito muito complexo quando ambos não abrem mão de suas intenções. Ao mesmo tempo, um grupo de mercenários formado por ex-militares “mortos” em combate, liderado por Michael Ironside, surge na região com um misterioso plano de, aparentemente, derrubar o império do tal chefão das drogas numa subtrama quase paralela.

O personagem de Nolte é um dos policiais mais interessantes do cinema de ação oitentista, um sujeito com aquele tratamento humano característico de Walter Hill, ao mesmo tempo em que personifica o herói cinematográfico do velho oeste que não recua diante do perigo, não hesita em meter uma bala nos miolos de seu adversário, quem quer que seja…

Da mesma maneira, Boothe está excelente como vilão, completamente desagradável e vestindo sempre branco, contrastando com a poeira do deserto e fazendo alusão ao personagem de Warren Oates em TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, de Sam Peckinpah. E para demonstrar o nível de insanidade maquiavélica do bandido (e do próprio Boothe), o sujeito surge em cena esmagando um escorpião vivo, de verdade, na mão! Vai ser macho assim na p@#$%&*!!!

 

Michael Ironside, com aquele olhar demente e expressivo não fica muito atrás neste que é um de seus melhores papéis, cheio de ambiguidade. O elenco sensacional se completa com William Forsyth, Rip Torn, o fortão Tommy “Tiny” Lister, Clancy Brown e Maria Conchita Alonso (a peça central de um triângulo amoroso que bota mais lenha na fogueira na situação entre o xerife e o traficante).

Além deste all star cast formado por badasses de alto calibre, algo que merece grande destaque são as sequências de ação. É claro que se estamos falando de um filme de Walter Hill, as cenas de ação serão sempre pontos altos! Duas delas, então, merecem bastante atenção. A primeira, numa espécie de posto de gasolina abandonado no deserto, com Nolte distribuindo bala, utilizando uma caminhonete como escudo, enquanto um grupo de meliantes pratica tiro ao alvo em nosso protagonista. Filmado e editado com a elegância e precisão de quem realmente sabe filmar tiroteios. A outra é o gran finale, que estabelece uma fascinante ligação com o tiroteio derradeiro de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, uma frenética e violenta sequência, com dieito à sangue espirrando em slow motion, que deixaria Peckinpah orgulhoso.

 

 

 

O belo título foi retirado de uma linha do roteiro que, primeiramente, apareceria em APOCALYPSE NOW, de Francis Ford Coppola, também escrito por Milius. Como a frase não foi utilizada, o roteirista acabou colocando no script deste aqui e aproveitou para intitular esse filmaço. No Brasil, atende pelo título de O LIMITE DA TRAIÇÃO e até onde eu sei, ainda não foi lançado em DVD por aqui.

Mais filmes do Walter Hill no blog:

O IMBATÍVEL (2002)
THE DRIVER (1978)
LUTADOR DE RUA (1975)

MATADOR DE ALUGUEL (Road House, 1989)

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Em homenagem ao Ben Gazzara, que partiu dessa para “melhor” há alguns dias, resolvi escolher um título especial no qual os leitores mais assíduos do blog e fãs de filmes de ação iriam curtir à beça, porque ROAD HOUSE (vamos esquecer o título nacional) é um dos exemplares mais interessantes do “cinema de macho” americano dos anos 80. Mais cedo ou mais tarde eu teria que escrever algumas linhas sobre essa obra-prima, mesmo que Gazzara, o vilão do filme, não tivesse falecido recentemente.

Dirigido pelo pouco conhecido Howdy Herrington, ROAD HOUSE é a síntese de todo um gênero em sua fase áurea, com cada elemento disposto de maneira bem definida. Em se tratando de cinema físico americano exacerbado dos anos 80, ROAD HOUSE possui méritos suficientes para se manter no mesmo nível de alguns exemplares sempre lembrados como paroxismos do gênero: DESEJO DE MATAR III, COMANDO PARA MATAR, INVASÃO USA, e alguns outros…

Mas para quem tem Charles Bronsom, Chuck Norris, Schwarzenegger, Stallone, fica obviamente mais fácil deixar a marca desejada. Essas figuras exalam truculência em qualquer produção que estivessem envolvidos naquela época. À princípio, para quem ainda não teve o prazer de ver ROAD HOUSE, aceitar Patrick Swayze como herói de ação é mais complicado. O cara era conhecido como o dançarino de DIRTY DANCING, depois ficou eternamente ligado ao fastasminha apaixonado de GHOST, e nunca lembrado como herói de ação.

Minha relação com ROAD HOUSE é estranha por causa disso. Assisti quando era pequeno, na TV, e depois de um tempo esqueci da sua existência. Quando me lembrei do filme, já na adolescência, tive preconceito porque não comprava a idéia de que Swayze realmente quebrava o pau em cima dos arruaceiros… Resumindo, acabei revendo CAÇADORES DE EMOÇÃO dezenas de vezes até me convencer a dar uma nova chance a ROAD HOUSE.

Isso só aconteceu de fato há poucos anos, mas fez um belo estrago na minha cabeça e de lá pra cá, devo ter revisto pelo menos umas cinco vezes. Só não consigo entender as razões do filme não me marcar na época que vi, como os filmes do Van Damme, Stallone e Seagal faziam… porque depois que se assiste a ROAD HOUSE você tem plena confiança de que Patrick Swayse é um durão de primeira linha. Um autêntico herói de faroeste ou um samurai com um tremendo senso de justiça que nasceu na época errada, quando esse tipo de sujeito perdera seu espaço para uma sociedade submissa e passiva como a que temos hoje. Swayze vai ser sempre assimilado a Dalton, seu personagem aqui, o leão-de-chácara mais casca grossa da história do cinema!

Ok, era pra ser uma homenagem ao Gazzara, mas acalmem-se. O Swayze também morreu e eu não fiz uma homenagem dessa pra ele. Então, antes tarde do que nunca… e se existe um motivo para ROAD HOUSE ser extraordinário, é por causa de Swayze e a maneira como o roteiro, escrito por David Lee Henry, desenvolve seu personagem e sua visão de mundo. Um misto de John Wayne com Bruce Lee, o sujeito tem sua carga de mistérios que vai se revelando aos poucos. É educado, formado em filosofia, praticante de Tai Chi, destemido, valente e puta merda, sabe socar os adversários quando é preciso. Possui um lado casca grossa em contraste com outro lado sensível, o paradgma exato do badass perfeito.

O filme também dá boas dicas para quem quiser seguir a profissão de Leão-de-chácara. Basta observar os mínimos detalhes da “cartilha” que Dalton segue à risca tanto no cotidiano quanto na hora de executar o trabalho prático. Por exemplo, o que fazer com seu carro quando vários baderneiros foram jogados pra fora do bar aos socos e chutes por você e não lhe restam outra opção que não seja furar o pneu ou quebrar os vidros do seu veículo como vingança? Não se preocupem, pois o filme ensina como se precaver. Prestem bastante atenção também à cena na qual Dalton explica as regras de como agir quando o bar “pega fogo”… “Be nice”. E ande sempre com sua ficha médica na mochila. “Economiza tempo”, como diria  Dalton. E você já está pronto para seguir carreira.

Um elemento que nunca envelhece em filmes como este, são as adoráveis brigas de bar. Como isso é habitual na profissão do nosso herói, não poderia faltar algumas por aqui. Quem não gosta de uma confusão comendo solta, garrafas voando, mesas quebrando e vidros estilhaçando em um local como esse? Steven Seagal que o diga! A trama, para quem não conhece, é a seguinte: Dalton é um lendário segurança profissional de bares, casas de show, boates, etc, contratado para transformar o Double Deuce num lugar frequentável e de respeito. A situação no local é desprezível, toda noite se transforma num verdadeiro caos. Algumas atitudes do protagonista para botar tudo em ordem acabam batendo de frente com o chefão da cidade, Brad Wesley – Ben Gazzara. Da mesma maneira que uma típica premissa de western.

Durante o percurso, Dalton ainda tem tempo para o amor e se apaixona por uma médica, interpretada pela Kelly Lynch, por quem Wesley também sofre de amores. Isso me faz lembrar de mais um elemento essencial que torna ROAD HOUSE tão especial… temos um protagonista fodão, pancadaria à rodo e… ah, sim! Peitos! Apesar de magrela, Lynch faz o favor de ficar bem à vontade em frente às câmeras em uma cena, mas podemos contar com diversos peitos aleatórios que vão surgindo de vez em quando. Minha cena preferida: o strip-tease de Julie Michaels.

Outro elemento básico para o sucesso de um bom filme truculento dos anos 80 são as frases de efeitos. E nota-se logo de cara que o departamento de diálogos não estava de brincadeira. Em uma cena, a médica questiona Dalton a razão dele não querer anestesia antes de lhe costurar um corte provocado por uma lâmina. “A dor não machuca”, ele responde. Caramba! É o tipo de frase que você pode carregar para sempre na sua vida, soltar no momento certo entre os amigos e estes vão pensar “putz, esse cara é cool”… ou vão apenas lembrar que você é um nerd que fica encaixando citações de filmes em situações forçadas.

O elenco de ROAD HOUSE também não é de se jogar fora. Além de Swayze, Lynch e Gazzara, temos Sam Elliott desempenhando um veterano leão-de-chácara, parceiro de Dalton de longa data, que chega em determinado momento para lhe dar uma ajuda. Elliott é desses atores subestimados cujo carisma faz com que toda a atenção seja voltada para ele, roubando cada minuto que aparece. O diretor aproveita muito dessa vantagem e o filme ganha uma força a mais com sua presença. Marshall R. Teague, muito antes de estrelar filmes do Isaac Florentine, faz o capanga de Wesley que também tem conhecimento de artes marciais, um páreo duro para Dalton. E Keith David faz uma ponta simpática.

Ben Gazzara já estava rodado, com 59 anos quando trabalhou em ROAD HOUSE. É óbvio que não teria a mínima chance num corpo a corpo com o jovem e atlético herói, mas idade não significa muito para quem tem os meios necessários para foder com a vida de quem quiser. Sua composição vilãnesca é brilhante, tem estilo e Gazzara parece se divertir bancando o bandido rico e excêntrico que desperta o temor dos pobres cidadãos.

É um personagem complexo, na verdade, e Gazzara consegue transmitir no olhar o prazer de ser mau sem apresentar motivos para ser. Na verdade, o sujeito vive numa bosta de cidadezinha que não tem porra nenhuma para fazer (a não ser ir ao Double Deuce), embora tenha tudo o que o dinheiro pode comprar, menos a doutora Kelly Lynch. É, acho que temos motivos suficientes para o cara ter tanta maldade no coração. A situação beira o surreal quando Wesley ordena que um de seus capangas entre com seu monster truck dentro da concessionária de automóveis porque o dono atrasou o pagamento das tarifas impostas pelo facínora.

E é curioso ver um grande ator do porte de Gazzara entrando na brincadeira das frases de efeitos. Na sequência final, por exemplo, quando Dalton se esconde na sala de “troféus de caça” dentro da mansão de Wesley, cheio de animais empalhados. Gazzarra adentra empunhando uma pistola e diz “I see you found my trophy room. The only thing missing is your ass.”!!!

E eu disse que o vilão não teria chance alguma na porrada com Dalton, mas isso não significa que ele não tenha ao menos tentado! Sim, Dalton dá uma coça em Wesley, assim como dá em um monte de gente. As sequências de luta são excelentes, muito convincentes, com a direção segura de Howdy. Swayze parece ter praticado bastante também, pois seus movimentos e golpes são fantásticos! Sam Elliot dá umas porradas, mas fica mais no gingado do boxe, enquanto Swayze e Teague demonstram muita habilidade na ação de suas performances. O confronto entre os dois é o ponto alto de ROAD HOUSE, até porque o diretor faz um belo trabalho de preparação. Cada encontro entre os personagens durante o filme é detalhado como uma operação cirúrgica, acentuando cada olhar e gesto. Quando chega a hora, o diretor não decepciona e entrega uma luta brutal, longa e com um desfecho graficamente violento.

O filme recebeu o título aqui no Brasil de MATADOR DE ALUGUEL. Não sei onde a criatura que teve a brilhante ideia de colocar esse nome estava com a cabeça, porque não existe nenhum “matador” na trama. Muito menos algum que fosse “alugado”. Já assisti ao filme umas cinco vezes e não consegui encontrar o tal matador de aluguel do título…

ROAD HOUSE teve uma continuação, lançada diretamente no mercado de vídeo, em 2006. ROAD HOUSE 2: LAST CALL. Eu não assisti ainda e, para ser sincero, não parece grandes coisas, apesar de ter uns coadjuvantes interessantes como Richard Norton, Jake Busey e Will Patton. E pelo que li no imdb, o protagonista é o filho de Dalton que se tornou policial e blá, blá, blá… Como eu me conheço, sei que sou masoquista, devo assistir a essa tralha qualquer hora dessas.

Mas o que eu queria mesmo é que o Swayze estivesse vivo para reprisar o papel de Dalton em uma nova “aventura”… Poderiam chamar o Darren Aronofsky para dirigir. Seria algo dramático como O LUTADOR, com o Mickey Rourke, misturado com o climão divertido de ROAD HOUSE original, com o velho Dalton precisando botar um bar infernal em ordem, ao mesmo tempo em que tem problemas de relacionamento com o filho e essas coisas clichês que a gente gosta…

Enfim, acho que era tudo que eu tinha para dizer sobre ROAD HOUSE. Deve ter sido o maior texto que já escrevi para o blog. Então, se alguém teve saco para ler até aqui, já me sinto recompensado. Vale a pena descascar, no bom sentido, um filmaço como este, especialmente para que curte filme de ação e pancadaria dos anos 80, apesar da estranheza inicial de ter Patrick Swayze como herói de ação. Mas faço um alerta para quem não assistiu e ainda está com o pé atrás: o filme é obrigatório e o sujeito arrebenta. Podem confiar!

LA VIA DELLA DROGA, aka Heroin Busters (1977)

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LA VIA DELLA DROGA é o último poliziottesco dirigido por Enzo G. Castellari na década de 70. A esta altura, não restavam dúvidas de que o diretor era um dos grandes mestres do cinema de ação de todos os tempos, mesmo que tenha copiado muita coisa de Sam Peckinpah para desenvolver seu próprio estilo. THE BIG RACKET e KEOMA estavam lá para tirar a prova. E LA VIA DELLA DROGA não fica muito atrás neste quesito. Mas é preciso ter um pouco de paciência. A primeira metade do filme é lenta e burocrática, embora nunca seja chata, apresentando os personagens e o desenrolar de uma trama intrincada, que gira em torno de uma operação policial que possui o objetivo de acabar com uma rota específica das drogas na Itália.

No elenco temos David Hammings (BLOW UP) vivendo um inspetor britânico que comanda toda a operação e Fabio Testi, retomando a parceria com o Castellari após THE BIG RACKET, encarnando aqui o típico herói de ação do policial italiano. Uma dos grandes destaques de LA VIA DELLA DROGA, sem dúvida, é justamente poder observar esses dois grandes atores contracenando. Ambos estão brilhantes, fazendo o contraponto extremo do outro.

Quando a ação finalmente começa, já na segunda metade, segue frenética e ininterrupta até o desfecho. Às favas com qualquer tipo de estrutura, o filme se transforma num festival de tiroteios em diversos cenários (construções, metrôs, fazendas, laboratórios), fugas espetaculares, perseguições em alta velocidade de carros, motos, até culminar no climax, um duelo mortal, extravagante e exagerado de aviões em pleno ar. Apesar dos indícios de insanidade que parecem ter acometido Castellari na elaboração dessas sequências, tudo é filmado com a notável competência e habilidade habitual do diretor e sublinhado pela magnífica trilha sonora do Goblin. Ou seja, LA VIA DELLA DROGA é um filmaço que precisa ser conferido urgentemente.

DEMENTIA 13 no feriadão: MISTURA DE GÊNEROS

JONES, O FAIXA PRETA (Black Belt Jones, 1974):

Jim Kelly é o cara! No clássico OPERAÇÃO DRAGÃO, estrelado por Bruce Lee, era apenas um rosto desconhecido que conquistou a atenção do público com carisma, ótimos movimentos em cenas de lutas e um black power super cool. O diretor Robert Clouse percebeu algo no rapaz e em JONES, O FAIXA PRETA, seu trabalho seguinte, o escalou como protagonista, expandindo ainda mais o potencial do ator, que se tornou um ícone do ciclo blaxploitation!

A trama de JONES, O FAIXA PRETA não é lá grandes coisas, mas é lógico que isso não conta. O que vale é a quantidade de sequências em que Jim Kelly arrebenta a fuça de vários bandidos – bem ao estilo Bruce Lee, com direito a gritinhos e tudo mais – e os pequenos detalhes e personagens que tornam o filme imperdível. Vale lembrar que o diretor possui experiência com filmes de artes marciais, então os fãs não tem do que reclamar. Já nos créditos iniciais somos brindados com uma pequena obra-prima dos filmes B: Kelly lutando contra vários meliantes enquanto as imagens congelam para o texto dos créditos surgirem na tela. A cena onde Gloria Hendry desabotoa a saia de forma sexy para logo depois botar vários marmanjos a nocaute também é um achado. E no final temos ainda a clássica luta no sabão!

Hoje, a figura de Jim Kelly é kirtsh e vista de maneira gozada. Mas uma olhada em JONES, O FAIXA PRETA percebe-se um bom filme, híbrido de blaxploitation e artes marciais, com alguns momentos impagáveis e uma trilha sonora bacana que ajuda na climatização do estilo. Não chega ao nível de um SHAFT, SWEETBACK, COFFY, mas é diversão certeira para o público iniciado nos gêneros marginais dos anos 70.


CORRIDA COM O DIABO (Race With The Devil, 1974):

É outro filmaço que faz uma deliciosa bagunça de gêneros. Mas o enredo é bem simples, sobre dois casais que partem juntos num grande trailer para suas merecidas férias. Certa noite, eles testemunham um ritual satânico com sacrifício humano. Após serem descobertos, passam o filme inteiro pelas estradas tentando sobreviver aos ataques dos insanos integrantes do grupo, bem como a paranoia que toma conta de suas mentes.

Essa mistura de horror com ação era para ser dirigida por Lee Frost, especialista em filmes baratos daquele período, mas acabou substituído por Jack Starrett, outra figura que contribuiu bastante com o cinema de baixo orçamento. Frost chegou a receber crédito como roteirista, ao lado de Wes Bishop, mas todas as cenas que rodou foram refilmadas por Starrett.

As sequências de ação, com os carros trombando em alta velocidade são perfeitas e lembram muito o que George Miller faria no seu maravilhoso MAD MAX II, oito anos depois. Não ficaria surpreso se houvesse algum tipo de influência deste aqui sobre a obra do australiano. Mas a atenção do espectador também é voltada completamente aos momentos macabros da narrativa, como a cena do ritual, cujos figurantes eram compostos por membros reais de seitas, conforme afirma o diretor em entrevistas. Se é verdade, eu não sei, só garanto que o filme é uma experiência angustiante e muito divertida.

Embora seja um autêntico B movie, CORRIDA COM O DIABO se beneficia muito também por ter dois dos mais representativos atores daquela geração, Warren Oates e Peter Fonda, em excelentes atuações.