E ontem foi o grande dia da estreia do tão aguardado MAD MAX: FURY ROAD, o quarto episódio da saga do personagem Max Rockatansky e suas desventuras no universo definitivo do pós-apocalipse. Mas, como só vou poder ver o filme hoje à noite, seguimos ainda com um dos antigos, MAD MAX – ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO, que até outro dia era responsável por fechar a trilogia com chave de ouro. Continue lendo
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MAD MAX 2: A CAÇADA CONTINUA (Mad Max 2, aka The Road Warrior, 1981)
Era para ter postado ontem sobre MAD MAX 2: A CAÇADA CONTINUA. Como se não bastasse a dificuldade que é escrever sobre meus filmes favoritos, como é o caso deste aqui, ainda apaguei sem querer um texto praticamente pronto e não consegui mais recuperá-lo. Tive que começar do zero, o que me desanimou… Mas como prometi que ia comentar sobre a saga de “Mad” Max Rockatansky, vamos tentar outra vez. Continue lendo
MAD MAX (1979)
Como todas as atenções dos fãs do bom cinema de ação estarão em cima do lançamento de MAD MAX: FURY ROAD, o quarto exemplar da franquia iniciada lá atrás, há 36 anos, achei que seria legal fazer alguns comentários sobre a série. Começando por MAD MAX, o primeiríssimo, até porque revi todos por esses dias e é sempre uma experiência incrível acompanhar as aventuras de “Mad” Max Rockatansky e a visão do diretor George Miller na criação de um dos universos mais perturbadores e definitivos do mundo pós-apocalíptico, copiado de todas as formas possíveis no cinema – especialmente o segundo, que é uma obra-prima e um dos meus filmes favoritos da vida.
Continue lendoESPECIAL DON SIEGEL #3: O CAIS DA MALDIÇÃO (The Big Steal, 1949)
THE BIG STEAL começa aos 45 minutos do segundo tempo, quando somos colocados no meio de uma trama onde todos os acontecimentos da premissa já ocorreram. “Colocados” seria muito leve. Somos arremessados no olho do furacão, com o Robert Mitchum trocando socos com um sujeito, escapando, perseguindo, a pé, de carro, trocando tiros, mais socos… Se o filme fosse mostrar sua história desde o início, o recorte que assistimos aqui seria a sequência de ação final. E acho que isso define bem o que é THE BIG STEAL: uma grande sequência de ação/perseguição, dilatada ao máximo, que fecha uma trama que nem chegamos a acompanhar. Continue lendo
ESPECIAL McT #10: ROLLERBALL (2002)
Depois de recuperar seu prestígio como diretor, refilmando um clássico de Norman Jewinson, THOMAS CROWN – A ARTE DO CRIME, John McTiernan passou para o trabalho seguinte, um remake de um filme do Norman Jew… Opa! Curiosamente, ROLLERBALL é a releitura de um filme de 1975, dirigido pelo mesmo sujeito de CROWN, O MAGNÍFICO, o que, na verdade, não importa muito. O que vale mesmo é que o seu filme de 99 é um dos grandes trabalhos da carreira de McT, enquanto este aqui trata-se, sem nenhuma dúvida, do pior de todos. Continue lendo
THE LOST EMPIRE (1985)
Antes de se tornar um dos diretores mais conspícuos do cinema classe B pós-80’s, Jim Wynorski ganhava experiência e bagagem cinematográfica trabalhando como roteirista, escrevendo artigos sobre filmes de gênero em publicações como a Fangoria e estando sempre envolvido em produções do mestre Roger Corman. Quando chegou o momento de realizar seu primeiro trabalho como diretor, juntou todos os clichês de seus filmes favoritos, se envolveu com várias pessoas ligadas ao tipo de cinema que queria fazer e misturou com com todas as suas obsessões próprias. O resultado é THE LOST EMPIRE, um sci-fi muito louco que possui ninjas assassinos, artefatos místicos, um feiticeiro decano, terras desconhecidas, mulheres peitudas com figurinos provocantes e um elenco bem batuta!
O enredo é tão divertido quanto bagunçado e acho que não valeria a pena ficar perdendo tempo explicando. Mas só prá dar um gostinho, trata-se de três beldades que vão parar numa ilha comandada por um feiticeiro chamado Dr. Sin Do para descobrir as circunstâncias do irmão de uma delas ter sido assassinado por um bando de ninjas. Lá acontece um torneio de artes marciais, ao mesmo tempo mulheres são mantidas escravas em trajes mínimos e, por fim, o tal Dr. possui planos diabólicos de combinar algumas pedras preciosas antigas que lhe darão poder para conquistar o mundo!
É Jim Wynorski prestando homenagem às coisas que tanto ele quanto nós adoramos no cinema grind house e exploitation. Percebe-se em THE LOST EMPIRE influências do próprio Corman, mentor de Wynorski e produtor de vários de seus filmes (incluindo este aqui), Jack Hill, Russ Meyer (pelas várias cenas de peitos de fora), e até filmes de espionagem estilo 007. Jim nunca foi um diretor estiloso, mas sempre demonstrou habilidade para filmar cenas marcantes, sexys e engraçadas, além de muita personalidade para trabalhar com vários rostos famosos dos filmes B. Analisando a carreira do sujeito, percebe-se um sutil amadurecimento no trabalho de direção, especialmente nos anos 90, mas é incrível como Jim já tinha pulso firme pra fazer o que queria já nesta primeira experiência atrás das câmeras.
Um detalhe marcante neste debut é a quantidade de celebridades do cinema independente que Winorsky conseguiu reunir em THE LOST EMPIRE. Isso é que dá ter Roger Corman como padrinho. Do lado feminino, várias musas do cinema classe B que nunca tiveram receio de tirar a blusa, como Melanie Vincz, Raven De La Croix (que trabalhou com Russ Meyer), Angela Aames, Linda Shayne e a deusa exuberante Angelique Pettyjohn. Na ala carrancuda temos Blackie Dammett (também conhecido por ser pai de Anthony Kiedis, vocalista da banda Red Hot Chilli Peppers), o fortão Robert Tessier e o grande Angus Scrimm (o Tall Man, da espetacular série de horror PHANTASM), que faz o vilão Dr. Sin Do.
Atualmente, Jim Wynorski ainda se encontra em pleno vapor e já possui computada uma filmografia com mais de cem títulos. Nem todos são bons, muito menos obrigatórios. Mas para quem se interessa por cinema independente de gênero ou admira o trabalho do homem, THE LOST EMPIRE é imperdível.
SOLDADO UNIVERSAL 2 (Universal Soldier II: Brothers in Arms, 1998)
Matando a saudade de UNIVERSAL SOLDIER por esses dias, resolvi conferir logo de uma vez as continuações não oficiais que saíram nos anos 90 que eu nunca tinha visto. Não estou falando daquele UNIVERSAL SOLDIER: THE RETURN, que traz o Van Damme de volta e que, aliás, ignora completamente estes aqui. Refiro-me a uns lançados diretamente para TV, UNIVERSAL SOLDIER II: BROTHERS IN ARMS e UNIVERSAL SOLDIER III: UNFINISHED BUSINESS, que na verdade eram pilotos para um seriado que nunca foi aprovado. O que é um alívio, pois tendo como base esses dois filmes, a série seria um lixo.
Comecemos pelo segundo. UNIVERSAL SOLDIER II parte exatamente de onde o filme do Emerich termina, reencenando a luta entre Luc Deveraux (Van Damme, aqui interpretado por Matt Battaglia) e Andrew Scott (Lundgren, aqui vivido por um zé mané qualquer que não lembra em nada o velho Dolph. Na verdade o Battaglia também não tem nada a ver com o Van Damme, mas como temos que aturá-lo no restante do filme, não vou reclamar desse detalhe). A trama mostra Deveraux tentando se readaptar ao mundo, especialmente nos prazeres carnais, dando umas beiçadas na repórter do primeiro filme, que agora é encarnada pela gatinha Chandra West. O filme teve também a “brilhante” ideia de inserir um irmão mais velho de Luc, Eric Deveraux, interpretado pelo grande Jeff Wincott, um soldado que também desapareceu em guerra muito antes de Luc.
Mas o negócio aqui é o seguinte: depois da merda que deu no primeiro filme com o projeto Unisol, Gary Busey assume o comando do programa com intenções desonestas, na esperança de vender os unisoldiers para quem pagar mais caro. De alguma maneira ele arranja um dispositivo que consegue controlar a mente de Luc novamente e o reintegra ao programa. Para salvar o dia, a repórter apaixonada segue o sujeito e encontra na base de operações o tal irmão, Eric, que fez parte do projeto Unisol como uma das primeiras cobaias. Então ela o desperta, os dois libertam Luc e os irmãos unem força para derrotar Busey e seu exército de Unisoldiers… que na verdade são apenas três caras… o orçamento aqui não permitiu inventar muito.
Um dos principais problemas de UNIVERSAL SOLDIER II é a quase total falta de sequências de ação. Uns tiros aqui e ali, mas nada que chegue aos pés da super produção com Van Damme e Dolph; o filme acaba empurrando momentos de Luc “tentando ser humano” de maneira constrangedora e desperdiça Jeff Wincott, ator acostumado a encarar produções de baixo orçamento demonstrando segurança com seu talento em artes marciais. Aqui o sujeito aparece pouco e quase não participa das risíveis cenas de ação. E não explorar seu personagem, um unisoldier congelado desde o início dos anos 60 e que acorda nos dias de “hoje”, é algo que vai além da minha compreensão. Resta-nos a complicada tarefa de comprar a ideia de que o Matt Battaglia é o herói. Só que o cara é péssimo e acaba tornando tudo mais ridículo ainda por causa do interesse humano do filme…
Já o Gary Busey como vilão principal é… Bem, pra quem tá se afogando, jacaré é tronco, não é? Busey é sempre expressivo em qualquer tralha que se mete e mesmo não estando tão à vontade acaba sobressaindo. E como aqui só tem merda em termos de atores, Busey passa a impressão de ser um gênio das artes dramáticas. Há uma cena no início, na qual Busey reúne os três melhores homens do exército para uma missão secreta e de repente saca uma metralhadora e fuzila os três, com lágrimas nos olhos, para que se tornem unisoldiers. Um dos pontos altos do filme, parece coisa de um Coppola ou Cimino. Brincadeira… Tá mais pra um Uwe Boll ou Albert Pyun, mesmo assim, a cena é um destaque.
Na mesma onda do Busey, gostei também da participação da repórter. Muito mais pelo fato do herói ser péssimo e não ter carisma algum do que qualquer outra coisa. E é bem melhor acompanhar a Chandra West em grande parte do filme do que o Battaglia tentando ser protagonista. Ah, e ainda tem uma pontinha cretina do Burt Reynolds que consegue ser ainda uma das melhores coisas do filme!
Mas atuações ruins eu aguento fácil. Situações constrangedoras é o charme de muito filme ruim que acaba sendo bom por motivos errados. Mas o que não suporto é um filme de ação sem ação. É o caso de UNIVERSAL SOLDIER II, que não merece nem o esforço de escrever esses parágrafos, portanto vou ficar por aqui. Mas aguardem que UNIVERSAL SOLDIER III vem aí.
SOLDADO UNIVERSAL (Universal Soldier, 1992)
É curioso voltar a SOLDADO UNIVERSAL, de Roland Emmerich, tendo em mente o que a série se tornou. Claro, eu adoro o dois últimos, especialmente o DAY OF RECKONING (2012), mas não deixa de ser estranho. Lembro-me de assistir a este aqui logo que saiu nas locadoras da pequena cidade onde morava, um evento de proporções épicas pra um moleque como eu, viciado em filmes de ação e que já acompanhava os dois astros, Jean-Claude Van Damme e Dolph Lundgren. Revendo agora, depois de tanto tempo, percebe-se lá suas fragilidades, mas ainda é um filmaço eletrizante, com toques sci-fi, que não tem como dar errado.
Vamos fingir que ninguém viu ou esqueceu da história de SOLDADO UNIVERSAL e mandar uma sinopse, até porque o conceito do filme é legal: soldados americanos mortos no Vietnã são, de alguma maneira, reanimados nos dias de hoje, passam por uma lavagem cerebral e formam um esquadrão de elite do governo americano, num programa militar secreto chamado Unisol.
Gosto da ideia do filme nunca explicar direito os detalhes por trás da experiência de reviver os corpos dos soldados. Como a coisa funciona? Acho que nem os roteiristas sabem explicar. Mas em tempos de INTERSTELLAR, onde tudo é explanado nos mínimos detalhes, tendo como base teorias da física, algo direto e objetivo como SOLDADO UNIVERSAL chega a ser um frescor.
Entre essas unidades “zumbis” está um caso especial: um soldado, Van Damme, e seu sargento, Dolph, antes de baterem as botas tiveram um pequeno desentendimento… No calor da guerra, o tal sargento surta, mata seus próprios subordinados e coloca em prática seus talentos artesanais fazendo um colar de orelhas decepadas. Van Damme e Dolph podiam ter resolvido esse problema no diálogo, mas parece que não deu… Já no programa militar, os dois começam a recordar as diferenças passadas e, como não vão muito com a cara do outro, retomam a briga de décadas atrás. SOLDADO UNIVERSAL é basicamente isso.
Na sua essência, o filme é uma grande sequência de perseguição, ou como uma montanha russa, com seus altos e baixos, mas sempre com a adrenalina injetada na veia do espectador, nos bombardeando com tiroteios alucinantes, pancadarias grosseiras, explosões, uma dose de violência que não existe mais no cinema comercial americano, perseguições de carro, caminhão, ônibus, à pé, nos mais diversos cenários… Sobra tempo até para uns toques de humor.
Em cima de tudo isso, SOLDADO UNIVERSAL consegue desenvolver um lado emocional interessante com Luc Deveraux, personagem do Van Damme, que “acorda” nessa nova época e de alguma maneira quer reconstruir seu passado, tentando retornar a casa dos pais, diferente de Andrew Scott (Lundgren), que “desperta” tão insano e com sede de sangue quanto no período da guerra. É uma situação que me toca um bocado, em meio a tantas cenas explosivas de ação gratuita.
É evidente que é preciso ignorar os sotaques, algo que nunca me incomodou, na verdade, mas ambos, Van Damme e Dolph, estão extremamente à vontade em seus personagens. O primeiro com sua simpatia característica, um lado cômico, mostrando a bunda em plano detalhe para fazer uma graça com a mulherada e outros públicos, mas carrega também uma certa vulnerabilidade que dá a impressão de que nunca vai conseguir derrotar seu oponente.
Já o Dolph está insano como o sargento psicopata artesão-de-colar-de-orelhas! O sueco encaixa muito bem no papel de vilão, já havia feito isso antes, como em ROCKY 4, mas em SOLDADO UNIVERSAL tem um dos melhores desempenhos de sua carreira. Outros brutamontes aparecem como unisoldiers, como Ralf Moeller e Tommy ‘Tiny’ Lister. Ed O’Ross e Ally Walker, que faz o par quase romântico com Van Damme na aventura, completam o elenco.
Roland Emmerich, que é um diretor com mais erros do que acertos em sua carreira, pode se orgulhar de ter criado alguns momentos que se tornaram clássicos do cinema de ação dos anos 90. A já citada cena com o Dolph e o colar de orelhas, gritando “can you hear me?“, ou Van Damme atravessando as paredes de um motel de beira de estrada sob uma saraivada de balas atiradas pelos unisoldiers. A sequência de luta no restaurante também é muito boa e há a perseguição onde o Dolph arremessa granadas no veículo ocupado pelo herói. Enfim, o que não falta é ação da boa para alegrar o dia! E nem mencionei o confronto final entre Dolph e Van Damme, que é épico, brutal e fecha a bagaça com chave de ouro.
Apesar de ser um filme que tem um lado reflexivo, com questões éticas sobre a utilização de corpos humanos para experiências governamentais e a busca de humanidade num personagem à deriva no tempo, SOLDADO UNIVERSAL não tenta fingir ser aquilo que não é. Ou seja, é honesto em tratar-se de reconhecer que é um produto de entretenimento, por vezes estúpido e inverossímil, mas que consegue divertir com todos os elementos que os admiradores de cinema de ação esperam ver num filme como esse. Menos a bunda do Van Damme… Isso eu dispenso.
FIGURES IN A LANDSCAPE (1970)

Joseph Losey disse em alguma oportunidade que achava que as ambientações de seus filmes são como atores. As casas e apartamentos em SECRET CEREMONY (68), ACCIDENT (67) e O CRIADO (63) eram como personagens e influenciavam de forma imersiva a ação dos indivíduos que colocava ali. O mesmo pode ser dito sobre os cenários de FIGURES IN A LANDSCAPE, um survivor movie, aparentemente bem atípico na obra do diretor.
O filme é sobre dois sujeitos que, com as mãos atadas e perseguidos constantemente por um helicóptero, fogem milhas e mais milhas à pé, enfrentando os mais diversos tipos de cenários que na lógica de Losey se tornam autênticos vilões: vegetações selvagens, deserto, lama, chuva, montahas, neve. Ocasionalmente, balas são disparadas em suas direções. Os dois sujeitos são interpretados por Robert Shaw (também responsável pelo roteiro, baseado num livro de Barry England), o experiente e presunçoso da dupla, e Malcom McDowell, o ingênuo e assustado garoto da cidade.
Um detalhe que realmente se destaca em FIGURES IN A LANDSCAPE é o fato desses dois personagens existirem apenas para a ação mostrada na tela. Quem são esses indivíduos fora da ideia de que são “fugitivos de um helicóptero tentando sobreviver”? Obviamente são prisioneiros, mas por quais razões? São presos de guerra, políticos, criminosos? Como escaparam? Que país a história transcorre? Quem os persegue?
Nada disso é respondido ou importa muito. É apenas na essência da ação que Losey retira o que é necessário para trabalhar a narrativa: Como roubam comida, a maneira que arranjam um rifle, o modo que desviam de um batalhão que fazem um pente fino para encontrá-los no meio de um matagal, o conflito de personalidades que surge entre os dois protagonistas e, especialmente, o duelo psicológico e concreto de Shaw com o helicóptero negro, que me fez lembrar em alguns momentos de DUEL (71), de Steven Spielberg.

Eventualmente a dupla protagonista expõem um pouco de background pessoal; falam de si, do passado, das famílias, compartilham alguns momentos de intimidade, seja fumando um cigarro ou defecando após tomarem leite condensado. Afinal, são seres humanos, os únicos num filme no qual todos os outros personagens são figuras camufladas, fantasmas sem face definida ou expressão. Nunca vemos os rostos dos pilotos do tal helicóptero e os soldados em solo sempre aparecem distantes ou com óculos escuros e visores. Apenas Shaw e McDowell possuem faces e aproveitam-se bem delas, com atuações expressivas.
A direção de Losey é tão magistral quanto se podia esperar. Tão econômica quanto a busca pela essência do enredo. O homem filma somente o necessário, recorrendo a longos planos, tomadas abertas dos protagonistas interagindo com as paisagens-personagens e faz surgir, com isso, belíssimas imagens – o trabalho de fotografia é de tirar o fôlego. Além, é claro, da habilidade do diretor na construção de sequências de tensão e ação, sempre procurando a maneira mais cinematográfica possível. FIGURES IN A LANDSCAPE é conhecido no Brasil como NO LIMIAR DA LIBERDADE.
BLASTFIGHTER (1984)
“YOU WANT TO KNOW WHO I AM? I’M A SON OF A BITCH… who wants to be left alone.”
A frase acima extraída de BLASTFIGHTER, de Lamberto Bava, condiz tanto com o personagem principal do filme quanto com o próprio ator que o interpreta, o americano Michael Sopkiw. O sujeito atuou em apenas quatro filmes na Itália nos anos 80, demonstrou certo talento e características de um autêntico herói de ação da época e, de repente, largou mão do cinema. Em entrevistas, Sopkiw diz que após estrelar essas produções italianas, resolveu retornar aos EUA com a ideia de trabalhar como ator em Hollywood, mas infelizmente fazer apenas quatro filmes de gênero na Itália não ajudou muito. Após dois anos tentando e totalmente quebrado financeiramente, o sujeito decidiu tentar outra carreira. Foi estudar e trabalhar com remédios naturais, montou uma empresa e hoje importa e distribui nos Estados Unidos um tipo de garrafa de vidro que protege o conteúdo (os tais remédios) dos raios solares…

Um dos melhores filmes que Sopkiw fez foi BLASTFIGHTER, um baita filmaço de ação onde o sujeito dá um show como action hero, o que me fez ficar ainda mais encucado pelo homem abandonar a carreira tão precocemente. Até porque dos quatro filmes que fez, vi três, e são todos ótimos! Primeiro foi 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK (1983), um divertido rip-off de FUGA DE NOVA YORK dirigido pelo Sergio Martino; depois foi trabalhar com Lamberto Bava num filme de tubarão, SHARK: ROSSO NELL’OCEANO (1984), este eu não vi ainda; repetiu a parceria com o Bava filho neste aqui e finalizou a carreira com o clássico filmado no Brasil PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS (1985), de Michele Massimo Tarantini, completando cerca de três anos trabalhando no cinema.
O projeto inicial de BLASTFIGHTER era de um sci-fi pós-apocalíptico, gênero que pintava aos montes naquele período, e a direção estava nas mãos do Lucio Fulci. Mas em algum momento da pré-produção acabou virando um filme de ação florestal, rip-off de FIRST BLOOD. E não se trata daquelas produções carcamanas com roteiro meia boca, que vale mais pelo visual, o humor involuntário e cenas de ação. A história e os personagens de BLASTFIGHTER são muito bem escritos e a produção, cujas filmagens aconteceram nas belas paisagens da Geórgia, EUA, é bem caprichada.
Sopkiw, com um bigode estilo Mauricio Merli e Franco Nero, interpreta Tiger Sharp, um ex-policial que acabou de sair da prisão por ter agido por vingança ao invés de fazer seu trabalho seguindo as regras da lei. Agora retorna à pequena cidade onde cresceu para tentar viver uma vida de forma pacata. Sem procurar muito contato social, acaba tendo que reencontrar a sua filha, que não vê há muitos anos e agora já é uma moça adulta; além do seu velho amigo de infância, vivido por George Eastman.
Não demora muito o jeitão fechado de Tiger acaba atraindo alguns jovens da cidade, que começam a implicar com o sujeito. O problema é que a coisa foge do controle e ultrapassa todos os limites do respeito pela vida humana. De repente estamos assistindo a um exército de caipiras armados com rifles de caça em punho perseguindo o protagonista e sua filha pela floresta adentro. E após uma tragédia, Tiger se vê na posição de revidar, e seu contra-ataque é simplesmente brutal!
Vale comentar que o herói possui uma arma avançada tecnologicamente, com munição especial, que deve ser remanescente do projeto inicial de ficção científica e que é interessante vê-la em atividade, até porque há toda uma preparação para a ação do personagem, uma lenta construção do inferno que ele cria para cima de seus inimigos com a utilização dessa arma. Confesso que fiquei impressionado com a sequência final, um tiroteio explosivo daqueles de encher os olhos! Com direito a ossos quebrados, facadas sangrentas, carros e corpos explodindo, membros decepados, uma boa dose de gore. E é por isso que dá uma pena saber que Sopkiw fez uma quantidade risível de filmes e que o Bavinha retornou ao horror ao invés de aprontar outros exemplares no estilo de BLASTFIGHTER.
Lamberto Bava, aliás, assina como John Old Jr. e confesso que não sei quantos filmes de ação ele fez, mas um sujeito que realiza BLASTFIGHTER deveria ter se dedicado mais no gênero. Aposto que se daria bem melhor do que na carreira de diretor de horror. Bava tem alguns filmes excelentes, como DEMONS (85), mas de uma maneira geral sua carreira não tem tanta expressividade como a de um Fulci, Soavi, Argento, Freda, Deodato, e, claro, o papai Mario Bava. Acho que carregar esse sobrenome não deve ter sido mole…
Algumas curiosidades para finalizar. Há uma versão do cartaz de BLASTFIGHTER que parece demais com as artes feitas para os filmes pós-apocalípticos daquele período (abaixo à esquerda). Imagino que seja uma arte conceitual ainda da fase em que o projeto seria um sci-fi. Além disso, utilizaram essa mesma arte, cuja figura representa o Sopkiw para copiar no cartaz brasileiro de outro filme estrelado por ele, PERDIDO NO VALE DOS DINOSSAUROS (abaixo à direita). Da mesma forma, a ótima trilha sonora de BLASTFIGHTER também foi reaproveitada no filme de Tarantini, provando mais uma vez que a zoeira desses italianos não tem limites.
O PROFISSIONAL (Le Professionnel, 1981)
CARTAS DE AMOR DE UM BADASS #03
POR GUSTAVO SANTORINI
– Eu vou morrer?
– Sim. Está com medo?
– Não… Por quê?
– Se fosse eu, teria.
– Isso é porque você vai para o inferno.
O diálogo acima, travado entre dois homens que acabaram de escapar da prisão, e cujas palavras soariam grosseiras se não estivessem imbuídas de uma sinceridade tocante, ocorre logo nos primeiros vinte minutos de filme. O primeiro homem fora baleado gravemente durante a fuga e agora se encontra as portas da morte, a cabeça apoiada no colo do segundo, que escapara ileso. A cena é poderosa por revelar o único instante de genuína afeição do protagonista por outra pessoa, além de ressoar como um acorde sombrio durante a projeção. Seu destino final é tristemente previsível, mas isso é o que menos o preocupa.
LE PROFESSIONNEL, ou O PROFISSIONAL, título que em português pode confundir com o badalado filme de Luc Besson de 1994 (ambos guardam vagas semelhanças, a começar pelo personagem principal, um francês exímio matador), é uma daquelas joias pouco comentadas que, ao desencavarmos quase que ao acaso, sentimos um misto de orgulho e gratidão por tê-las conosco. Durante os créditos iniciais, quando surgem as primeiras notas da esplêndida canção composta pelo maestro Ennio Morricone, pontuadas por imagens esparsas que ao final se revelarão momentos importantes dentro do filme (um recurso que seria copiado a exaustão em outras obras), temos a sensação de que estamos em boas mãos e dificilmente iremos nos decepcionar. O enredo, co-escrito por Jacques Audiard, que no futuro faria sucesso dirigindo dramas criminais, como O PROFETA (2010), é simples como um saboroso pão com mortadela. Joss Baumont (Jean Paul Belmondo) é um agente secreto enviado para uma republiqueta qualquer da África, a fim de matar o presidente Njala. Entretanto, no ultimo momento a situação política muda e o serviço secreto francês entrega o agente de bandeja às autoridades africanas, fazendo com que ele seja condenado a prisão. Abandonado a própria sorte, Baumont consegue escapar, e então retorna a França para concluir o serviço, o qual talvez seja o último. Ele faz questão de avisar seus ex-chefes sobre sua presença, prometendo matar Njala, que está em visita oficial ao país. Assim que o alarme é soado, a alta cúpula do serviço secreto fica em polvorosa, conforme expressa um dos funcionários ao ministro: “Olha para nós, senhor. Essa é apenas a nossa primeira noite sem dormir. Haverá outras.” Um jogo de gato e rato se inicia, e o ex-agente passa boa parte do filme se divertindo com o embaraço de seus algozes que chegamos a desconfiar de suas verdadeiras intenções.

Ao reencontrar a esposa após um hiato de dois anos, ambos tiram o atraso. Passado o gozo, ela o interpela: “E agora, o que vai ser de nós?”. Os modos gentis de Baumont não suavizam a aspereza da resposta: “Enquanto certas pessoas estiverem vivas, não haverá nós”. Se em ACOSSADO, seu papel mais emblemático, Belmondo faz um tipo presunçoso que finge ser mais fodão do que é, em LE ROFESSIONNEL ele não perde tempo fingindo. A fim de comprovar sua astúcia sobre os demais, o ex-agente não hesita em usar a própria esposa, como vemos na sequencia magistral em que, após chegar ao apartamento da mulher, ele liga para seus perseguidores e se esconde a um canto, aguardando a chegada deles, que mordem a isca. Uma agente arrasta a esposa até a banheira e a afoga, a fim de forçá-la a dar o paradeiro do marido, enquanto o inspetor aguarda na sala. Beumont sai do esconderijo e salva a esposa, lançando a agente na banheira. Os ruídos e soluços chegam ao outro cômodo, e dão a entender que se trata da esposa sendo torturada. Quando esta reaparece na sala, sozinha e incólume, o inspetor ergue os olhos em assombro. Trata-se de um momento impagável, e como esse há dezenas. Difícil é escolher o melhor. Quer outro? Então aqui vai: enquanto um algoz faz um lanche numa padaria, Baumont chega por trás do sujeito e mergulha o croissant em seu cappuccino, mordendo em seguida. Sobressaltado, o homem ergue os braços e começa a se desculpar: “Eu não quis bater em sua esposa, é que me pediram.” A resposta vem com um soco potente no nariz, acompanhado de um argumento: “Eu também não quis te bater. Foi minha esposa que pediu.”
Seguindo o padrão dos filmes europeus, aqui temos uma exuberância de mise em scene, os enquadramentos elegantes, mas quando se trata de afundar o pé no acelerador, o filme demonstra extrema habilidade, sem perder a direção momento algum. Prova disso é a sequência de fuga, conduzida de forma crua pelo diretor George Lautner, que nos faz sentir como se estivéssemos realmente na linha de fogo. Em que pese o saudosismo, é impossível não assistir a cena e compará-la com o anêmico cinema de ação atual, contaminado por maneirismos de câmera tremida e floreios de edição que só mascaram ausência de estilo. Tais diretores ignoram que, ao distorcer as imagens e impedir a imersão do espectador nas cenas, acabam por cometer um delito ainda maior, que é o de quebrar a comunhão entre o publico e os personagens, uma vez que é nos momentos de conflito que eles têm nossa completa atenção, e sem isso não há empatia. Consideremos outra sequencia monumental, uma perseguição de carros em plena Champ de Mars, onde o protagonista passa de presa a caçador e empurra o veiculo do oponente escadaria abaixo, com a Torre Eiffel em último plano. O embate frenético confere um ar selvagem à “Cidade da Luz”, tornando o cartão postal ainda mais atraente.
É divertido ver os franceses saindo de sua finesse habitual e proferir sentenças no mínimo rudes, como o inspetor diante da prostituta que se recusa a cooperar em sua cruzada contra Baumont: “Se você não me ajudar, vai sofrer um acidente. Dentro do elevador, por exemplo. O cabo irá partir e vão achá-la seis andares abaixo, com os saltos altos cravados na garganta…”. O filme ainda nos brinda com um duelo final entre Baumont e o mesmo inspetor casca grossa, emulando o clímax de western spaguetti, e dilatando a tensão em níveis agudos ao inserir um desavisado em cena. O sujeito vai pedir informação (!) aos dois homens postados um diante do outro, e ao tropeçar, sua queda acaba servindo de estopim aos disparos. Essa é a referida cena de abertura dos créditos. Vencedor do duelo, Baumont vira as costas e segue seu caminho. Ele já não parece se divertir tanto assim.
Ícone da nouvelle vague, Jean Paul Belmondo jamais se deixou limitar aos experimentalismos do movimento, aproveitando para demonstrar sua versatilidade em obras de forte apelo popular. Aqui ele tem a atuação mais despojada de sua carreira, e olha que estamos falando de alguém que em matéria de desempenho cool só encontrava rival em Steve McQueen. Inconfundível pela estatura elevada e um rosto anguloso perfeito para cartunistas, o astro francês não é o que se pode chamar de um sujeito “boa pinta”, embora compense a falta de atributos físicos com um tipo de carisma singular, transitando entre a elegância e a vulgaridade. É até crível o fato de as duas mulheres mais belas do filme caírem de amores por ele.
Uma grande questão a perpassar a obra é porque diabos Beumont arriscou a própria vida para levar a cabo um plano que fora abortado pelos próprios superiores e do qual não lhe traria beneficio algum, sendo que poderia simplesmente pegar sua graciosa esposa ou a amante estatuesca (ou ambas) a tiracolo e sumir do mapa. A exemplo dos samurais clássicos, estaria ele movido por um código de honra, no sentido de terminar o que começou, ou o motivo seria menos nobre, uma simples sanha vingativa? Creio que ambas seriam justificativas demasiado simplistas. É óbvio que a trama se move nos trilhos de uma necessidade dramática, de modo que se não houvesse a tal obsessão do protagonista, não haveria filme. No entanto, sob essa camada se deslinda uma outra, e sem querer emprestar ao filme uma ressonância maior do que lhe é devido, enxergamos na figura do hitman alguém que no curso de seu oficio fora desumanizado a ponto de virar uma bomba relógio pronta para implodir o estado de coisas que o moldara.
O desfecho comprova que, quando isso acontece, é impossível neutralizá-la.
O ÚLTIMO BOY SCOUT (The Last Boy Scout, 1991)
CARTAS DE AMOR DE UM BADASS #02
por GUSTAVO SANTORINI
Joe Hallenbeck não vive seus melhores dias.
Ex-agente do serviço secreto americano, o agora detetive pé de chinelo passa os dias chafurdando no álcool, é odiado pela filha rebelde e ainda chega ao cúmulo de aceitar uma oferta de trabalho do homem a quem acabara de flagrar dentro do armário da esposa. Descobrir que o tal sujeito era seu melhor amigo não lhe motiva a recusar o serviço, afinal de contas, “quinhentos dólares são quinhentos dólares”, ele justifica, embora saiba que, no fundo, esse está longe de ser o verdadeiro motivo. Ocorre que o próprio Joe Hallenback não vê a si com bons olhos, e sufocar o orgulho diante de seu traidor é a forma mais abjeta de autopunição ao alcance. O serviço, aliás, também não é grande coisa. Sua função é proteger Cory (Halle Barry, apetitosa), uma stripper que vem sofrendo ameaças de morte. Ela afirma desconhecer os autores, mas é provável que esteja encobrindo algo. A despeito dos riscos envolvidos, o maior desafio de Joe será lidar com o namorado insuportavelmente irritante da moça, Jimmy Dix (Damon Wayans, canastrão na medida certa), um ex-jogador de futebol americano que poderia ter sido grande, caso não tivesse se envolvido no esquema ilegal de apostas. Quando Cory é assassinada, ambos resolvem unir forças para investigar a autoria do crime, e entre trocas de sopapos e insultos, as pistas os levarão a alta cúpula do esporte e da política de Los Angeles. E isso, caro leitor, é apenas o bilhete de entrada para uma montanha russa de intrigas, humor corrosivo e muita, muita ação de altíssima voltagem.
Mas não só isso.
Os buddy movies, como são chamados os filmes cujo cerne temático é a convivência indesejada entre duas pessoas de personalidade opostas, constitui um subgênero dos mais férteis no cinema americano. Entre alguns exemplos de duplas icônicas, seria uma heresia não mencionar Bud Abott & Lou Costello, Jerry Lewis & Dean Martin (16 filmes juntos!), Walter Matthau & Jack Lemmon, Paul Newman & Robert Redford, Richard Pryor & Gene Wilder. A narrativa que envolvia essas duplas explorava com humor as situações antagônicas, e mesmo quando flertava com outros gêneros, raramente fugia do tom predominantemente escapista (uma exceção que me vem à mente é ACORRENTADOS, 1958, de Stanley Kramer). Em 1969 o conceito ganharia uma reinvenção com o denso PERDIDOS NA NOITE, o único de censura 18 anos a vencer o Oscar de melhor filme, a reboque das magníficas atuações de Dustin Hoffman e John Voight. A ruptura permitiu que outras variações começassem a surgir (OPERAÇÃO FRANÇA ganhou o Oscar dois anos depois), e o caso mais emblemático são os buddy cop movies dos anos 80. Pérolas como 48 horas, MÁQUINA MORTÍFERA, TOCAIA, INFERNO VERMELHO e FUGA A MEIA NOITE fizeram a alegria de toda uma geração de cinéfilos, sendo reprisadas a exaustão no saudoso Domingo Maior, da Rede Globo. No final da década, porém, a fórmula já se mostrava desgastada, vide o fracasso de TANGO & CASH (1989), o que contribuiu para a fria recepção de O ÚLTIMO BOY SCOUT. É uma pena, pois para mim esse é o exemplar mais rico que o subgênero apresentou.
A primeira razão disso identificamos no eixo narrativo. A rigor, o filme tem consciência de que pertence a um nicho de arcabouço rígido, com começo, meio e fim muito bem delineados, e ainda assim não tem o menor pudor em remexê-lo numa argamassa extravagante. O tom deliciosamente histérico já nos pega na abertura, um clipe de futebol americano com uma explosão de fogos e cores vivas, onde atletas indômitos dividem a arena com voluptuosas cheerleaders de sorriso fácil, a bandeira americana ao fundo, e um cantor alucinado a esgoelar uma balada pop fanfarrona. Passado o espalhafato do inicio, somos jogados no meio de uma tensa partida de futebol, sob uma chuva abundante. Durante o intervalo do jogo, Billy Cole, um dos astros em campo – interpretado por Billy Blanks, um dos maiores badass de videolocadora dos anos 90, aqui numa rara aparição em blockbuster – recebe uma ligação em que é ameaçado de morte caso não decida a partida em favor de seu time. A pressão causa um abalo emocional no jogador, que sai com a bola em disparada pelo campo e, num touchdown insano, saca um revolver da cintura e baleia o rosto do jogador adversário, acerta outros dois pelo caminho, e ao final, antes de atirar contra a própria têmpora, exclama a seguinte frase: “Puta que pariu, que vida estúpida!”. A sequência é pintada como um pesadelo noir, e então o filme corta para a cena de apresentação do personagem de Bruce Willis largado no carro após uma noite de bebedeira. Roncando, Joe Hallenbeck é alvo das travessuras de um grupo de crianças. Quando abre os olhos, a raiva não é tanto por ser incomodado, mas por ainda estar vivo para se deixar incomodar. Dele passamos para o personagem de Damon Wayans, ridicularizado por um colega de farra. Ele até consegue revidar a ofensa, mas não sem o custo de expor sua fissura emocional. A mensagem no subtexto é simples: estamos diante de dois Billy Coles, tão esmagados pela letargia quanto o primeiro. Porém, um acerto do roteirista Shane Black – o qual deu ao mundo o já citado MÁQUINA MORTÍFERA, filme síntese dos buddy cop movies, e cuja estreia na direção se deu com BEIJOS E TIROS, outra variação do subgênero – é evitar adoçar o caldo de mea culpa. Pelo contrário, o estranhamento entre a dupla rende momentos cômicos de rachar o bico, como na sequência em que os personagens se encontram pela primeira vez, numa boate. Jimmy Dix se arde em ciúmes ao ver Joe na cola de sua garota, e o confronta: “Se minha namorada está precisando de ajuda, eu deveria ter sido informado”. Joe o responde com polida desfaçatez: “A água é clara, o céu é azul e as mulheres têm segredos. E daí?”. Mais adiante, há outro diálogo surreal, quando Joe adverte o parceiro sobre os riscos da investigação: “Isso não é brinquedo, garoto. Armas de verdade, balas de verdade, é perigoso.” “Perigo é meu nome”, responde Jimmy. Além de hilária, a conversa é extremamente eficaz por existir somente no universo peculiar do filme, e quando isso acontece, mal sabemos que já fomos inteiramente fisgados por ele.
Embora seja eficiente na tarefa de oferecer pão e circo, o filme também se mostra interessado em desnudar o caráter ambíguo dos personagens, e em momento algum os perde de vista, mesmo nas sequencias de alívio cômico. A cena em que Wayans imita os trejeitos andróginos de Prince enquanto dirige, por exemplo, caminha na linha tênue entre a graça e o ridículo, e só não a ultrapassa porque enxerga-se na pantomima não apenas uma tentativa de sociabilidade, como uma forma de abstrair a tensão do perigo iminente. A sua maneira cínica, Joe poderia tê-lo rechaçado, e só não o faz porque compartilha dessa mesma necessidade. No final das contas, é seu sorriso amarelo que sela a camaradagem tácita entre os dois. Mais adiante, Jimmy descobre que Joe era um fã seu, e que desistiu de acompanhar os jogos da Liga de Futebol após sua aposentadoria precoce; Joe percebe que Jimmy só ostenta a fachada de arrogante em autodefesa, e dessa equação resulta a regra de ouro dos buddy movies, isto é, a ideia de que todo antagonismo só sobrevive na superfície, uma vez que quanto maior for a convivência entre indivíduos distantes entre si, tanto menor se revelarão as diferenças.
Se num primeiro momento o triste fim de Billy Cole se anunciava como o paradigma que a dupla estava fadada a seguir, eles acabam por descobrir a si próprios como merecedores de um epílogo mais honroso. Em meio a um salceiro de explosões e hematomas, ambos se revezam na tarefa de salvar a pele um do outro com tanta frequência que o fato de estarem com a cabeça a prêmio até ganha um contorno fraternal. Vê-los sofrer nas mãos dos bandidos pode ser tão divertido quanto angustiante, e há uma sequencia em especial que exemplifica essa dualidade: capturado no covil do chefão, Joe pede um cigarro a um dos capangas, e é atendido. Na hora de pegar o isqueiro, recebe um soco certeiro no rosto. Sangue esguichando, Joe torna a pedir o “fogo”, e após ser novamente esmurrado, é ele quem dá o troco, e o faz tão bem que coloca o sujeito pra dormir. Um engomadinho então aparece em cena, e quando vai se apresentar ao detetive, este o interrompe: “Que diferença faz a porra do seu nome? eu já sei que você é o vilão”. A piada metalinguística é divertida, mas Joe está equivocado. O verdadeiro Bad Guy surge logo depois, mergulhando o corpanzil na piscina da sala. Trata-se de Sheldon Marcone, um magnata do futebol americano. Surpreso, Joe o reconhece: “Oh, Shelly Marcone em pessoa”. A ameaça incutida na resposta do vilão só não é maior que sua espirituosidade: “Cuidado, filho. Só amigos me chamam de Shelly”… E o pobre Joe é submetido a novas surras. Antes que o pior aconteça, Jimmy consegue chegar a tempo.
A dupla descobre que a stripper fora apenas mais uma vitima do esquema de corrupção no esporte. Os criminosos são rigorosamente punidos, ainda que tudo se encaminhasse para o contrário. A filha de Joe toma consciência de que é o espelho do pai a quem pensava odiar, e o ajuda no momento mais crítico. A mulher infiel tem sua chance de se redimir. Assim, o caos serve de reparo às fendas da família Hallenback, que agora recebe Jimmy Dix como novo integrante. Previsível, certo? Não necessariamente. É a forma como esses elementos são depurados, e não uma pretensa quebra de linguagem sob um truque inovador, que elevam O ÚLTIMO BOY SCOUT a um patamar acima de sua categoria.
É verdade que Bruce Willis já se encontrava numa certa zona de conforto action hero, o que não significa que o desempenhasse no piloto automático. Sua atuação possui o frescor de um novato. Ele e Damon Wayans parecem se divertir horrores. Por ironia, Willis lograria êxito comercial com um filme semelhante em DURO DE MATAR: A VINGANÇA, ao pegar um personagem já querido pelo público e adicionando Samuel L. Jackson a mistura, ambos recém-saídos do Big Bang chamado PULP FICTION, ele transformou o terceiro exemplar da franquia em um autentico filme de camaradas, o que não tinha como errar. Foi o canto de cisne da série, que depois seguiria ladeira abaixo com duas sequências sofríveis. Wayans também tentou repetir a fórmula em A PROVA DE BALAS, dessa vez acompanhado pelo mala do Adam Sandler. O filme é um festival de exageros e até diverte em alguns momentos, mas o maior atrativo é ver James Caan compor uma figura malévola digna de um episódio de Scooby doo.
O diretor Tony Scott já prenunciava o estilo hiperativo com o qual se notabilizaria na década seguinte, em petardos como CHAMAS DA VINGANÇA e DOMINO. É curioso analisar sua carreira à luz do irmão Ridley, pois mesmo tendo este ultimo gozado da benevolência dos críticos, é na filmografia de Tony que reconhecemos um DNA autoral. Ridley padece de uma certa esquizofrenia temática que o faz atirar em todas as direções. Se por um lado realizou obras mais notáveis que o irmão caçula (ALIEN, BLADE RUNNER, PERIGO NA NOITE…), por outro deixou um numero maior de obras ruins. Sim, porque a favor de Tony pesa o fato de jamais ter torturado o espectador com uma iguaria do porte de um ATÉ O LIMITE DA HONRA, ou uma fábula canhestra como A LENDA, só pra citar dois exemplos. E foi justamente num momento de consolidação estética, quando até parte da intelligentsia começava a reavaliá-lo, que o cineasta pôs fim a própria vida, em agosto de 2012. As circunstâncias que o levaram ao ato continuam nebulosas. Ao contrário dos personagens com potencial trágico de O ÚLTIMO BOY SCOUT, é provável que os fantasmas o tenham finalmente alcançado. O que fica, porém, é o registro de uma filmografia robusta, recheada com momentos de pura cinefilia inflamável, e cuja ausência deixou uma lacuna irreparável no cinema de ação mainstream.
ESPECIAL McT #7: DURO DE MATAR: A VINGANÇA (Die Hard: With a Vengeance,1995)
Prosseguindo com o Ciclo John McTiernan, para falar de DURO DE MATAR – A VINGANÇA convidei um dos maiores admiradores do filme que conheço e que inicia aqui uma espécie de colaboração oficial no blog. De vez em quando, o sujeito vai pintar por aqui com alguns textos especialíssimos. E acho que já começou muito bem!
por DANIEL VARGAS
Quando Bruce Willis retornou ao seu icônico papel de John McClane pela terceira vez, algumas coisas já haviam mudado bastante na vida do astro desde o primeiro filme. Para começar, o próprio fator “astro”. Bruce Willis não só já havia se tornado um, como provavelmente era o maior do mundo naquela época (Com Stallone e Schwarzenegger já meio que desgastados). O próprio diretor do DURO DE MATAR original, John McTiernan que retomava a série, já era considerado um dos mais respeitados diretores de ação de Hollywood. E se já no segundo filme as pessoas meio que engoliram com certa dificuldade a frase do McClane: ““Como é que a mesma merda pode acontecer com o mesmo cara duas vezes?”, aqui no terceiro a estigma que o homem comum já havia se transformado em mais um “super action hero” era inevitável. E mesmo Willis interpretando o personagem com os mesmos aflitos, a mesma humanidade de sempre, (errando, hesitando, se alterando, como uma pessoa perfeitamente normal) o público já enxergava McClane como um Rambo urbano.
Então com o fator “homem comum em situação extrema” fora do baralho para o Willis, como contornar isso? Colocando o Samuel L. Jackson para fazer o pobre coitado da vez, é claro! Os dois recém saídos do surpreendente sucesso de PULP FICTION, mas sem nunca se encontrarem em cena uma vez sequer, dessa vez aqui eles se grudam do começo ao fim mostrando excelente química e criando um improvável buddy-cop movie, onde um dos personagens nem policial é, e solucionando o principal ingrediente que fez o primeiro filme ser tão especial.
Como odeio escrever sinopses quando estou escrevendo sobre um filme, deixa eu ir direto ao ponto: O campo de batalha da vez aqui não é um local fixo como no prédio Nakatomi Plaza em Los Angeles ou o aeroporto de Washington, e sim a inteira cidade já caótica de Nova York, a “homeland” do nosso herói. Lançado em 1995, pré-11 de Setembro, (lembro com exatidão como cenas do filme foram usadas anos depois a exaustão para demonstrar a terrível semelhança entre Hollywood e a vida real que acontecia no fatídico dia. Engraçado que no próprio filme tem uma menção, como alívio cômico, ao atentado terrorista no World Trade Center anterior ao 11 de Setembro em 1993) McClane aceita a participar de um joguinho que um terrorista que acionou diversas bombas em locais diferentes pela cidade, propondo em troca poupar vidas de civis. Logo em sua primeira “missão”, o azarado policial é mandado andar em pleno Harlem vestindo apenas uma placa escrito:

Da hora a vida, né?
“Simon diz: Sr. Wayne, seu chá está pronto”
O tal terrorista conhecido apenas como “Simon” obviamente nutre um rancor específico por McClane, querendo o colocar em situações constrangedoras, perigosas e até mortais. Mas por quê? Então você que não viu o filme, por favor pare de ler o texto porque vou tirar isso a limpo agora: o Tal de Simon terá a identidade completa revelada como Simon Gruber. Sim, o irmão do “terrorista” Hans Gruber (Alan Rickman), morto por McCLane no primeiro filme e que agora busca vingança. Vendo por esse ponto de vista chega até ser comovente a história de amor de uma família de terroristas tão unida. Mas assim como no primeiro filmes, as coisas não são bem o que parecem. Mas essa revelação, que considero bem mais importante do que a relação de Simon com Hans, não vou deixar escapar. Fique apenas sub-entendido que justamente o que fez falta para o segundo filme em termos de um vilão fodão (acho o uso tanto de William Sadler quanto de Franco Nero, desperdiçados. O que é um pecado) o terceiro supre com uma composição sinistra genial de Jeremy Irons, que não deixa nada a desejar ao personagem de Alan Rickman. Muito pelo contrário, ele até mesmo possui o mesmo talento para “dissimular”. Aliás, não lembro de outro filme de ação puro depois desse, além da dobradinha Travolta/Cage em A OUTRA FACE que tivesse um vilão tão icônico e carismático. Estou me referindo apenas a filmes cujo o gênero “ação” se sobressai aos demais no filme em si, ou seja, não me refiro a personagens de dentro de temáticas mais divididas como “aventura” ou “policial”, deixando claro. O último que me chamou atenção nesse sentido foi Van Damme em OS MERCENÁRIOS 2 e ainda sim talvez muito mais por saudosismo do que pelo personagem em si. Não é a toa que Sean Connery, cujo papel foi o primeiro a ser oferecido, recusou por achar se tratar de um personagem maligno demais para ele (E realmente seria uma surpresa ver ele nesse perfil, apesar de achar que ele mataria a pau tanto quanto Irons)
Willis: “Você é racista! Você não gosta de mim porque eu sou branco!”
Jackson: “Eu não gosto de você porque você matou meu camarada Vince em PULP FICTION!”
Mas voltando a história, depois de escapar de um possível linchamento de uma gangue local do Harlam com ajuda de Zeus Carver (O já citado Sam Jackson), um vendedor local boa-praça mas com um pouco de complexo de Malcolm X demais da conta (um personagem cuja a verborragia parece ter saído de um filme do Spike Lee, mas que o deixa ainda mais divertido) que acabou se metendo nessa furada por puro acidente. McClane, agora obrigado a trabalhar com o pobre civil contra sua vontade por Simon que mantem contato com eles por ligações misteriosas (onde ele parece estar sempre a par de tudo que acontece com a dupla em detalhes, dando-lhe um aspecto ainda mais misterioso e divino), os mandando de ponta a ponta pela cidade, tentando desvendar pequenas charadas afim de impedir que ele acione as bombas espalhadas pela a Grande Maça. O que se segue é uma direção frenética (literalmente) de McTiernan com nossa dupla tentando chegar nos locais designados por Simon a tempo, seja por corridas alucinadas de carro pelo tráfico infernal da cidade ou mesmo de bicicleta ou a pé. (de maneira que eles até conseguem chegar mais rápido ao locais desejados devido ao trânsito caótico) Mas não pensem que Zeus está ali apenas para ser alívio cômico como o cidadão comum. É um personagem inteligente e corajoso que salva a pele de McClane diversas vezes no filme.
Originalmente escrito por Jonathan Hensleigh, especializado em roteiros de filmes de ação/aventura de grande orçamento, a história inicialmente era para ser outro terceiro filme de outro clássico do gênero, MÁQUINA MORTÍFERA e o personagem de Zeus seria uma mulher (?!), o que faria mais sentido se nessa versão da série o Murtaugh (Danny Glover) estivesse enfim aposentado e Riggs (Mel Gibson) trabalhando sozinho (será?). E de fato o filme é nada mais que um clássico “corrida contra o tempo”. Quase um “chase-movie” cujo a motivação do personagem é mera desculpa para perseguições, conflitos e explosões. Muitas explosões. Mas tudo isso é muitíssimo bem encaixado para a saga de McClane e orquestrado por quem entende do riscado, com personagens cativantes, que você realmente se importa e torce. E se estressa junto pela tensão. Sem nunca deixar de admirar a maneira como o vilão arquiteta seu plano de maneira genial e colocando a cidade sob seu domínio utilizando apenas sua voz. (Irons só vai aparecer de fato depois de quase uma hora de filme rolando)
Dá para se dizer que DURO DE MATAR – A VINGANÇA é o tipo de blockbuster milionário que o cinema produziria em massa se o mundo fosse perfeito. Aquele blockbuster que vale cada centavo gasto. Uma sequência que nada deve ao original. Sem nunca se comprometer para atingir um público maior nos cinemas (além de uma cena de tiroteio violenta e brutal no elevador, McTiernan incluiu uma cena de sexo gratuita apenas porque já sabia que o filme receberia censura 16 anos) e ao mesmo tempo saber incluir perfeitamente o humor no filme. E aqui não há lugar para Greedo atirar primeiro. McClane é Eastwood aqui, atirando primeiro enquanto deixa a cautela para os vilões acharem que estão por cima da situação. Um grande filme que talvez tenha sido prejudicado apenas pelo estigma do “terceiro filme é sempre o pior” das diversas trilogias que tivemos até então. Talvez isso explique o motivo do porque a cotação do filme é tão baixa no Rotten Tomatoes e, pasmem, a do horrendo quarto filme ser superior. Ou talvez pelos seus 10 minutos finais onde tudo parece ser solucionado em um passe de mágica onde eles conseguem fazer o que não conseguiram em 1:50 de filme. E ainda trazem o personagem do Zeus junto, arriscando sua vida depois que ele já estava são e salvo. Pra quê?! Eu juro que acharia lindo se o Simon Gruber saísse vitorioso, e nem precisaria matar o herói pra isso! (e assim até retornando a humanidade do McClane do primeiro filme, que fecharia perfeitamente o ciclo) Mas acho que isso já é pedir demais para um blockbuster desse tamanho.
Agradecimentos ao Ronald pelo convite!
DURO DE MATAR 2 (Die Hard 2,1990)

O fato de DURO DE MATAR 2 não ter sido dirigido pelo John McTiernan não é motivo para deixarmos de fora desta peregrinação pela carreira do diretor. Serve de anexo ao ciclo, cujo próximo da lista seria exatamente a terceira parte da “trilogia” (vamos fingir só um pouquinho que aqueles dois últimos filmes não existiram). Uma curiosidade é que McT até tinha planos para comandar a produção, mas acabou se envolvendo com A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO e os produtores decidiram não esperar. Foram em busca de sangue novo e escalaram o finlandês Renny Harlin que, até então, demonstrava grande talento para a coisa.
É verdade que Harlin nunca tenha atingido o potencial que lhe era esperado e hoje possui um currículo bem irregular, com várias porcarias e alguns exemplares bem divertidos, como RISCO TOTAL, com o Stallone. Mas é em DURO DE MATAR 2 que o sujeito realiza o seu melhor trabalho. Tá certo que o filme não chegue aos pés do primeiro em termos de grandeza cinematográfica, aliás, nenhum outro filme de ação americano jamais chegou, mas é uma continuação eficiente, repleto de cenas de ação espetaculares e bem filmadas, efeitos especiais de primeira qualidade e um elenco de encher os olhos.
O mais difícil seria colocar o herói novamente numa situação extrema que rendesse uma nova aventura. Em determinado momento de DURO DE MATAR 2, John McClane, outra vez interpretado por Bruce Willis, pergunta para si mesmo: “Como a mesma merda pode acontecer com o mesmo cara duas vezes?“. Considerando que a fórmula da aventura anterior fora um sucesso e se tornou um marco do cinema de ação, não se importaram em te colocar nessa situação de novo, meu caro McClane… A trama desta vez se passa num aeroporto, de novo às vésperas do natal, onde terroristas trabalham um plano mirabolante para libertarem um preso político, o General Ramon Esperanza (Franco Nero), que está sendo extraditado. Como a mulher de McClane está num dos vôos rumo ao aeroporto, o sujeito se mete de novo em todo tipo de enrascada para salvar o dia.
Além do astro italiano de DJANGO (66) em cena, a galeria de vilões é formada por John Amos e William Sadler. Ambos excelentes, mas este último está especialmente insano, surgindo no filme completamente nu, praticando exercícios de artes marciais, se concentrando para entrar em ação. No elenco ainda temos Dennis Franz, Fred Dalton Thompson, Tom Bower e até uma participação de John Leguizano e Robert Patrick. Mas o grande destaque e um dos principais motivos para encarar essa nova aventura é Bruce Willis, que repete o papel com muito carisma e consagra-se de vez como um ícone do cinema de ação.
Embora tenha uma premissa interessante, o roteiro de DURO DE MATAR 2 é desnivelado, com alguns excessos, detalhes que entravam a narrativa numa tentativa besta de complicar o simples ou tornar o filme mais longo do que deveria. A quantidade de takes para explicar todo o lance da munição de festim ou o retorno do repórter do primeiro filme, que surge aqui de maneira forçada, desnecessária e quebra o ritmo em alguns momentos, são alguns exemplos de como tudo poderia ser mais enxuto.
Nada que chegue a incomodar, no entanto, até porque se torna irrelevante quando a ação toma conta da tela em sequências absurdas, tensas e bastante violentas. Entre tiroteios bem orquestrados e a alta contagem de corpos, McClane é quase atropelado por um avião; é lançado ao céu no assento ejetável da cabine segundos antes do jato explodir, criando um dos enquadramentos mais icônicos da série; e no grand finale precisa trocar porradas com os bandidos na asa de um avião em movimento! É simplesmente de tirar o fôlego!
DURO DE MATAR 2 ainda apresenta uma daquelas cenas que não têm mais espaço para o cinema de ação bunda-mole atual: refiro-me aos terroristas derrubando um avião aleatório matando centenas de passageiros inocentes sem qualquer remorso. Só este detalhe já o colocaria acima da média do que é feito no gênero atualmente. Mas o legal é que o filme vai muito além. Claro, nas mãos de um McTiernan poderia render mais uma obra-prima do gênero, mas o resultado aqui é um action movie que cumpre aquilo que se propõe.
ESPECIAL McT #6: O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (Last Action Hero, 1993)
O ÚLTIMO GRANDE HERÓI foi um dos filmes mais importantes da minha pré-adolescência, que me fez compreender, ainda muito cedo, sobre questões que envolvem a magia do cinema, sobre a linha que separa a fantasia da realidade, sobre os heróis de ação que fizeram minha cabeça quando era moleque, como Stallone, Van Damme, Steven Seagal, e claro, Arnold Schwarzenegger. E o mais legal é que esta aula de cinema não soa chata nem pretensiosa, mas diverte a valer com uma narrativa embalada à doses de ação, muito humor, trilha sonora esperta, referências cinematográficas, enfim, é sempre um prazer rever essa joia dos anos 90.
Um dos motivos que me fazia gostar tanto de O ÚLTIMO GRANDE HERÓI era a condução narrativa através do ponto de vista de um garoto, com seus 13/14 anos, movie geek, apaixonado pelo bom e velho cinema de ação da mesma forma que muitos de nós éramos na mesma época. Que garoto não gostaria de vivenciar a libertação dos reféns em DURO DE MATAR acompanhado de John McClane, ou ter ido à Marte em uma aventura sensacional com Douglas Quaid em O VINGADOR DO FUTURO? É esse tipo de sensação que o filme proporciona, mais ou menos da mesma forma que O EXTERMINADOR DO FUTURO II, que não deixa de ser um bom exemplo também, apesar do tom mais pesado, melancólico, e não o faça como análise, mas como elemento dramático.
Na trama, o tal garoto recebe um bilhete mágico que misteriosamente o transporta para dentro do filme de ação cujo personagem principal é o famoso Jack Slater (vivido pelo Arnie), um policial durão bem ao estilo STALLONE COBRA. E todo o conceito do filme é trabalhado com o garoto tentando convencer Slater que aquele universo é, na verdade, uma mentira, um filme, gerando situações antológicas, como a sequência da vídeo locadora, onde Stallone é o ator estampado numa peça promocional de O EXTERMINADOR DO FUTURO II. Mas uma das minhas cenas favoritas é como o garotinho imagina a adaptação de Hamlet, de Shakespeare, com o Schwarzenegger no papel título, soltado a célebre “ser ou não ser?” para, logo depois, sair atirando com armas de fogo e lançando granadas para vingar a morte de seu pai, o rei da Dinamarca… Hahaha!
Arnie, aliás, está ótimo com seu personagem, muito à vontade, a todo momento soltando frases de efeito, brincando com a essência e a mitologia do herói dos filmes de ação. O sujeito consegue imprimir de maneira exata aquilo que o filme propõe: ser uma brincadeira das mais inteligentes sobre o mundo do cinema. O garotinho também contribui com isso, e os vilões são um conjunto de todos os estereótipos desta espécie. Aliás, O ÚLTIMO GRANDE HERÓI vai buscar alusões, elementos e fundamentos dos filmes do gênero para enriquecer o discurso, como os exageros intencionais em sequências de ação, personagens extremamente caricatos, e se alguém aí não entender a piada, fica difícil gostar (e se você não gosta de filmes de ação, então esqueça).
O elenco é um destaque à parte, em especial na galeria dos bandidos, os quais inclui Anthony Quinn, Charles Dance, Tom Noonam e F. Murray Abraham (“Ele matou Mozart!”). Ainda temos Art Carney como o velho lanterninha do cinema com o ticket mágico e Ian McKellen encarnando a Morte que sai do filme O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman, e começa a vagar pelas ruas de Los angeles. A sequência que se passa na premiere do novo filme de Jack Slater é uma delícia, cheia de participações especiais, como Van Damme, Chevy Chase, James Belushi…
A direção de O ÚLTIMO GRANDE HERÓI não poderia ser melhor. Claro que ajuda muito ter um mestre do cinema de ação como John McTiernan, o homenageado atual do blog, comandando a produção. Um sujeito que faz PREDADOR, e revoluciona o gênero com DURO DE MATAR, tem total consciência no que estava realizando aqui. Por isso engana-se quem acha que o filme é apenas um action movie exagerado e sem cérebro dos anos 90. Penso que O ÚLTIMO GRANDE HERÓI talvez seja até perspicaz em demasia para seu público alvo, embora um moleque de 13 anos consiga entender tranquilamente, ou pelo menos sentir a experiência divertidíssima que é, embora a “crítica séria” da época, ao que parece, não entendeu muito bem a piada.
INFERNO IN DIRETTA (aka Cut and Run, 1985)

INFERNO IN DIRETTA fecha uma espécie de trilogia da selva do diretor Ruggero Deodato, se considerarmos ULTIMO MONDO CANNIBALE e CANNIBAL HOLOCAUST como trabalhos da mesma, digamos, natureza. Mas é curioso saber como o filme surgiu. O primeiro tratamento do roteiro foi escrito (e seria dirigido) pelo Wes Craven e carregava o título provisório MARIMBA. Quando a busca de financiamento fracassou, reza a lenda que os produtores decidiram que não devolveriam o script para o Craven. Outro detalhe é que na mesma época já tentavam convencer o Deodato de realizar uma continuação de CANNIBAL HOLOCAUSTO, mas o sujeito se interessou mesmo pelo tal roteiro engavetado, que acabou resultando neste filme aqui.
Embora CANNIBAL HOLOCAUSTO seja, merecidamente, o trabalho mais notório da carreira do diretor, INFERNO IN DIRETTA consegue ser bem mais bizarro e absurdo pela miscigenação de gêneros e estilos colocados num único filme. Deodato consegue equilibrar terror, ação, aventura com a mesma atmosfera de seus cannibal movies, e ainda encontra inspiração em APOCALYPSE NOW, do Coppola, com direito a um coronel maluco comandando nativos no meio da selva.

Se funciona essa mistureba? Depende muito de cada espectador, mas ajuda bastante se você for fã do diretor. O negócio é que é impossível ficar indiferente com o poder das imagens concebidas por um sujeito como Ruggero Deodato atrás das câmeras. O cara não tem piedade com o público e suas aventuras na selva nunca serão experiências simples e banais. O diretor possui criatividade, talento e coragem suficiente para realizar um filme forte, singular, e que não fosse mais um rip-off de CANNIBAL HOLOCAUST como os que surgiam aos montes na época, embora utilizasse os os mesmos elementos de outrora. Ou seja, temos aqui um menu bem recheado para satisfazer os apreciadores de um bom cinema extremo, como violência explícita, decapitações, corpos abertos ao meio, torturas, crocodilos devorando cadáveres, nudez gratuita e claro, o trabalho da mídia sem escrúpulos… da mesma forma que em CANNIBAL HOLOCAUST, só que retrabalhado de diferentes maneiras, mantendo o frescor das ideias.
Após uma abertura chocante para habituar os espectadores com o nível de violência, a trama inicia com uma repórter (Lisa Blount) e seu cameraman em meio a uma investigação jornalística sobre tráfico de drogas em Miami. Em um dos locais investigados, todos os traficantes foram mortos misteriosamente e quando a dupla chega, encontra os corpos, o quarto revirado, e uma foto onde aparece Tommy, o filho do editor do programa para quem os dois repórteres trabalham e que estava desaparecido! Que puta coincidência! Na foto ele se está no meio da selva amazônica junto com o coronel Horne (Richard Lynch), sujeito dado como morto há anos. Convencendo o editor a financiar uma expedição e mais um pouco de enrolação, a dupla parte para o coração das trevas da floresta Amazônica em busca de Tommy e de uma boa matéria sobre o lance das drogas. Chegando lá, dão de cara com o terror que só mesmo um mestre do cinema extremos como Ruggero Deodato saberia proporcionar.

Além da grande variedade de elementos que Ruggero dispõe para manter o público ligado do início ao fim, outro grande destaque é o elenco formado com alguns nomes americanos como Karen Black, o genial Richard Lynch e o grande Michael Barryman, protagonizando algumas das sequências mais brutais de INFERNO. Barryman, que já havia trabalhado com o Wes Craven em QUADRILHA DE SÁDICOS, foi um dos remanescentes do projeto inicial. Também vale mencionar a excelente trilha sonora do ítalo-brasileiro Cláudio Simonetti, que auxilia na ambientação com seus sintetizadores, além da fotografia caprichada das belezas naturais da selva venezuelana.
Mas a grande sacada dos roteiristas é a referencia a APOCALYPSE NOW, ou melhor, a O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, muito bem representado no papel do coronel Horne e magnificamente desempenhado por Richard Lynch. A cena em que o ator discursa deitado numa rede tem a mesma força que as sequências de Marlon Brando no filme de Coppola… guardando as devidas proporções, obviamente. De qualquer maneira, são grandes momentos que eleva INFERNO IN DIRETTA à outro nível.

Deodato esteve envolvido há alguns anos com um projeto ligados a canibais, selva, etc, que não sei exatamente que fim levou, mas tudo indica que nunca vai acontecer… E não sei também se isso é bom ou ruim, tendo em vista CARIBBEAN BASTARDS, uma porcaria que o Enzo G. Castellari realizou após muitos anos sem filmar. Por enquanto, prefiro ficar com as dezenas de filmes que o sujeito realizou ao longo da carreira e que eu ainda não vi, mas já adianto que uma das experiências mais divertidas concebidas por Ruggero Deodato é, sem dúvida alguma, INFERNO IN DIRETTA!
12 FILMES DE AÇÃO DE 2013
Do panorama atual do cinema de ação, eis uma relação de doze filmes que mais me chamaram a atenção em 2013. Alguns mais, outros menos, e nem todos são exatamente ação, mas representaram bem o gênero. A margem vai apenas até 2012, com os filmes que não pude ver ano passado. Em ordem alfabética:
BULLET TO THE HEAD (2012), de Walter Hill
DRUG WAR (2012), de Johnnie To
ENEMIES CLOSER (2013), de Peter Hyams. Os protagonistas são fracos e a história é boba, mas a ação é bem feita e tem o Van Damme como vilão, que tá tão caricato que o personagem se perde entre a construção de trejeitos e o senso do ridículo. Acaba sendo uma aberração, mas que pra mim é o charme do filme…
ESCAPE PLAN (2013), de Mikael Håfström
GANGSTER SQUAD (2013), de Ruben Fleischer. Este aqui foi bastante massacrado pela crítica e público. Esperavam o que? Um novo OS INTOCÁVEIS? Achei divertido pacas como um filmeco de ação com clima de matinée…
HOMEFRONT (2013), de Gary Fleder. E que venham mais roteiros do Stallone.
HOMEM DE FERRO 3 (Iron Man 3, 2013), de Shane Black
JACK REACHER (2012), de Christopher McQuarrie
THE LAST STAND (2013), de Jee-Woon Kim
MOTORWAY (2012), de Pou-Soi Cheang
NINJA – SHADOW OF A TEAR (2013), de Isaac Florentine
OLYMPUS HAS FALLEN (2013), Antoine Fuqua
ESPECIAL McT #3: DURO DE MATAR (Die Hard, 1988)
Dizem que DURO DE MATAR é o pai do cinema de ação moderno feito em Hollywood. Não vou discordar, mas se for mesmo, não deve estar se sentindo muito orgulhoso com o resultado atual. Em algum momento em meados dos anos 90 algo deu errado no percurso e hoje 90% do que é produzido em termos de filmes de ação nos Estados Unidos pode ser considerado lixo, puro e simples. Mas não tenho intenção agora de ficar ressaltando a mediocridade do cinema de ação Hollywoodiano atual. O que quero aqui é prosseguir minha peregrinação pelo cinema de John McTiernan, especialmente agora que chegamos em sua obra-prima máxima, também conhecida como – e não tenho receio algum de afirmar isso, mesmo que alguém possa discordar – o melhor filme de ação americano de todos os tempos.
Acho que nem precisava me preocupar em descrever a trama, mas vamos lá. John McClane (Bruce Willis) é um policial de Nova York que vai a Los Angeles visitar sua esposa e filhos na véspera de natal. O casamento não anda lá essas coisas, a mulher mora em outra cidade por conta de um emprego numa multinacional, e o sujeito acha que é um bom momento de tentar uma reaproximação. Os planos de McClane vão por água abaixo quando um grupo de terroristas internacionais, liderado pelo maquiavélico Hans Gruber (Alan Rickman), decide invadir o local, manter todo mundo como refém e roubar 600 milhões de dólares em títulos trancados num cofre do prédio. Para a nossa sorte, McClane consegue escapulir das vistas dos bandidos e passa o filme inteiro sendo “o pior pesadelo” de Hans e sua turma.

O filme segue a mesma linha de O PREDADOR, trabalho anterior de McTiernan, em termos de ação, na qual toda a trama se estrutura como um grande thriller, mais focado nas situações de tensão do que em lutas e tiroteios. Só a ideia de ter um cara sozinho no mesmo ambiente que um monte de criminosos armados e as mais variadas situações que podem surgir a partir daí já é meio caminho andado para segurar o espectador na poltrona. Um dos grandes êxitos de DURO DE MATAR é conseguir segurar um estado de tensão constante e amplificar a sensação caótica que McClane se encontra. Ou seja, o filme possui um ritmo alucinante independente da situação mostrada. Mesmo os momentos de conversa são tão apreensivos quanto os instantes mais urgentes de ação.
Funciona especialmente pela ideia do protagonista vulnerável, do herói humanizado, talvez o tópico mais importante de DURO DE MATAR. E a escolha de Bruce Willis é fundamental. O filme nasceu como um projeto de continuação para COMANDO PARA MATAR (85), estrelado pelo Arnold Schwarzenegger. Não sei se no primeiro tratamento do roteiro o plano era colocar John Matrix (Arnie) num prédio cheio de terroristas, ou se a história já era baseado no livro de Roderick Thorp. Só sei que a coisa começou a desandar quando o Arnoldão abandonou o barco. Mudanças aqui e acolá, passaram-se alguns anos e finalmente os roteiristas Jeb Stuart e Steven E. de Souza conseguiram chegar em algo que agradasse o produtor Joel Silver e ao McTiernan.

O livro de Thorp que serviu de inspiração para DURO DE MATAR chama-se Nothing Lasts Forever, que é uma continuação de outra obra do autor chamada The Detective. Esta já havia sido adaptada para o cinema no fim dos anos 60, com Frank Sinatra, que, aliás, mesmo aos 73 ano de idade, foi lhe oferecido o papel de John McClane por conta de uma clausula de um contrato referente ao filme anterior. Seria, no mínimo, estranho o Blue Eyes velhinho enfrentando terroristas. E o Bruce Willis? Ainda demorou a ser encontrado. O personagem foi oferecido aos dois maiores astros do cinema de ação na época, Schwarzenegger e Stallone, e também a Burt Reynolds, Richard Gere, Harrisson Ford, Mel Gibson e outros… Todos rejeitaram.
No fim das contas, calhou de ser aquele sujeitinho mais conhecido pelo seriado A GATA E O RATO, que fazia sucesso na época. É interessante fazer um exercício de imaginação e pensar como seria Burt Reynolds pendurado na mangueira de incêndio com aquele bigodão, ou Harrisson Ford soltando um Yippie-kai-yai motherfucker, mas não dá para negar que a escolha de Bruce Willis foi perfeita, embora ninguém acreditasse que pudesse carregar um filme de ação. A melhor escolha? Nunca se sabe, mas perfeita acho que podemos garantir. Qualquer outro ator no lugar de Willis e teríamos um DURO DE MATAR absurdamente diferente.

Mas o que o homem tem que outros não têm? Basta olhar pra ele. Bruce é a representação do sujeito comum e o extremo oposto dos musculosos e indestrutíveis action heroes que povoavam os anos 80. E esse é um dos principais motivos que faz DURO DE MATAR ser o grande marco no cinema de ação americano e o policial John McClane um dos personagens mais revolucionários do gênero.
É o herói cinematográfico com atributos de um ser humano normal: Seus músculos não são volumosos, seu corpo e mente vulneráveis e em certas circunstâncias não sabe nem o que fazer. Sujeira, suor e sangue se acumulam e o simples fato de estar com os pés descalços torna-se um elemento narrativo. McClane precisar salvar o prédio tomado por terroristas e ainda tem questões conjugais a resolver. Estávamos acostumados em ver Stallone costurando seus próprios ferimentos no meio do mato, ou Schwarzenegger carregando tranquilamente uma tora pesada no braço, enquanto McClane age como se tivesse saído da vida real e poderia ser qualquer um de nós.

Claro, basta assistir ao filme para perceber que, na verdade, não. Não poderia. Vamos ser honestos, ninguém teria colhões de pular do terraço de um arranha-céu prestes a explodir apenas com a mangueira de incêndio amarrado na cintura. É um “herói de carne e osso”, mas ainda estamos diante de um filme de ação exagerado da década de 80. De qualquer maneira, há uma identificação por parte do público muito maior com McClane do que o personagem “exército de um homem só” que monopolizava o gênero naquele período.
E não vamos esquecer que se o desenvolvimento de um bom herói eventualmente depende de um grande vilão, vale destacar o desempenho magistral de Alan Rickman, que compõe um Hans Gruber frio e calculista, que age de maneira extremamente racional. A relação que desenvolve com McClane é outro ponto forte de DURO DE MATAR e cria um equilíbrio narrativo interessante. Se assemelha a uma partida de xadrez: De um lado o herói improvisando diversas maneiras de sobreviver e salvar o dia e do outro um adversário cauteloso que pensa com cuidado antes de realizar qualquer movimento com seus peões.

É curiosa também a relação de McClane com o sargento Al Powell, interpretado por Reginald VelJohnson, que o ajuda na jornada em conversas por rádio. Powell é o contato externo de John McClane e, mesmo sem compartilhar o mesmo ambiente, há uma química forte entre os dois. Uma maneira inusitada que o filme trabalha a ideia de sidekick. O encontro dos dois ao final, que nunca haviam se visto antes, é tocante.
Graças ao excepcional roteiro de Stuart e Souza, outros coadjuvantes ganham uma dimensão bem maior que o de costume. É o caso da esposa do homem, Holly (Bonnie Bedelia); Argyle, o motorista da limousine; Harry Ellis (Hart Bochner), que é um do personagens mais babacas que já pintou nos filmes de ação; além de outros que têm participações menores, mas conseguem de alguma maneira “deixar sua marca”, como o eterno capanga, Al Leong, roubando chocolate e Robert Davi na cena em que sobrevoa o Nakatomi Plaza de helicóptero e solta a minha frase favorita do filme: “Just like fuckin’ Saigon!“. E olha que estamos diante de um filme em que a cada quinze segundos os personagens soltam frases que se tornaram memoráveis.

Além disso, DURO DE MATAR é repleto de pequenos toques geniais. Desde o início, a descoberta de McClane em esfregar os dedos dos pés no carpete após um longo vôo (obrigando o personagem a andar descalço o restante do filme), o poster de uma garota pelada na parede que serve como guia para o herói se localizar no labirinto de Nakatomi, até o uso de Beethoven na trilha sonora quando os terroristas adentram o cofre, acabam por criar uma experiência das mais ricas e fascinantes do cinema americano dos últimos trinta anos.
John McTiernan, diretor classudo, moderno e detalhista, realmente conseguiu reunir todos os elementos que precisava para fazer um verdadeiro épico do cinema de ação, uma obra-prima do gênero sem antecedentes. Orquestra cada cena, cada fragmento de filme, com uma excelente noção de ritmo e de arquitetura da ação, além de inteligência (o fato do protagonista utilizar mais o cérebro do que balas para se livrar dos apuros é sinal disso). O filme ainda cresce absurdamente sob um olhar estético, cortesia do holandês Jan de Bont na direção de fotografia, abusando de lens flare bem antes de virar modinha com J.J. Abrams.

E em matéria de ação, alguns momentos já se tornaram clássicos: o tiroteio na cobertura do edifício que culmina no fosso do elevador e nos dutos de ventilação; a S.W.A.T. tentando invadir o local; o confronto entre o herói e Karl, o “braço direito” de Hans, um alemão brutamontes querendo vingar a morte do irmão (a primeira vítima de McClane); a já citada mangueira de incêndio e vários outras cenas pontuais que transformaram DURO DE MATAR num dos mais representativos filmes de ação daquele período.
Logo, dizem que é o pai do cinema de ação moderno… Ok, agora que chegamos aqui, preciso concordar com essa afirmação. Hollywood mudou a maneira de trabalhar o gênero após a existência de DURO DE MATAR – trazendo junto mais de um milhão de exemplares com o selo DIE HARD plot, como A FORÇA EM ALERTA, com Steven Seagal, PASSAGEIRO 57, com Wesley Snipes, e, claro, DURO DE MATAR 2, dois anos depois. O problema é que ninguém no cinema americano pós-88 chegou perto de fazer algo tão magnífico com um filme de ação como DURO DE MATAR. É uma pena, portanto, que hoje pouquíssimos “filhos” façam esse “pai” se orgulhar.
Vale lembrar, já que estamos em dezembro, que DURO DE MATAR é um filme natalino. Nada melhor que rever ou apresentar para alguém que ainda não tenha visto. Bem melhor do que aquelas produções piegas onde as pessoas descobrem o significado do natal e blá blá blá… O verdadeiro significado do natal é Bruce Willis descalço pisando em caco de vidro pra livrar a carcaça! Ho-Ho-Ho!
ENTER THE NINJA (1981)

Fui convidado pelo companheiro Karl Brezdin, do blog Fist of B-List, para participar do NINJAVEMBER 2013, um especial que reúne em seu blog textos sobre filmes de ninja espalhados pela blogosfera. Como ele disse que não havia problema o texto ser em português, resolvi contribuir com ENTER THE NINJA. Não faço ideia se outro blog vá escrever sobre o filme, mas isso pouco importa. O fato é que se existe um subgênero chamado, digamos, “ninja movie“, esta fita aqui pode ser considerada uma das mais importantes.
Filmes de ninja sempre existiram, mas AMERICAN NINJA, de Sam Firstenberg, talvez tenha sido o principal responsável por popularizar a figura do guerreiro encapuzado no cinema ocidental. Mas se voltarmos um pouco no tempo para conferir a origem da febre nos Estados Unidos, provavelmente chegaremos em ENTER THE NINJA. Produzido pela Cannon Group, da dupla Golan-Globus, e dirigido pelo próprio Menahem Golan, o filme estabelece a ideia do ocidental que se torna um mestre da arte ninjitsu. No caso deste aqui, temos ninguém menos que o italiano Franco Nero, com bigode e tudo mais, dentro de um pijama branco.

Após completar seu treinamento no Japão e se tornar um mestre ninja, Nero vai para as Filipinas ajudar um amigo de longa data (Alex Courtney, que é a cara do James Caan na época do PODEROSO CHEFÃO), que possui um rancho no local e passa por alguns problemas com um grande empresário que quer comprar suas terras. A mulher do sujeito, Susan George, ama o local e não pretende vender de maneira alguma. E a coisa vai complicando, porque a oferta do inescrupuloso businessman é “irrecusável”, do tipo “ou vende, ou algo ruim pode acontecer“.
E o recém formado “ninja branco” resolve ajudar da melhor forma possível: distribuindo pancadas em capangas que tentam persuadir seu amigo. Finalmente, o vilão, que é interpretado por Chistopher George, decide utilizar dos mesmos recursos de seu adversário e contrata um ninja diretamente do Japão para bater de frente com Franco Nero. E por pura coincidência e originalidade do roteiro, o cara escolhe justamente um desafeto do protagonista da época dos estudos ninja, vivido por Shô Kosugi.

Ok, já dá pra ter uma noção do que teremos aqui. Sim, o filme é bobo e até um bocado constrangedor em alguns momentos, mas acaba divertindo justamente por isso. Por exemplo, tá certo que todos nós admiramos Franco Nero como o casca-grossa do Spaghetti Western e do cinema Polizieschi, o sujeito que interpretou Keoma e o Django original. No entanto, convenhamos, como mestre ninja não convence nem a minha avó. Mas a graça de ENTER THE NINJA está exatamente na ideia absurda de ter alguém do calibre de Franco Nero como um ninja, por mais ridícula que seja. É daquelas alegrias que só o cinema dos anos 80 poderia proporcionar.
Como Nero não percebe nada de artes marciais, em TODAS as cenas de luta nota-se claramente o uso de dublê, independente do personagem estar vestido de ninja ou não. Mas a grande sacada é que entre um golpe e outro em plano aberto com o dublê, corta para um close do Franco Nero fazendo cara de quem realmente estava enfrentando uns vinte sujeitos de uma vez. É simplesmente genial. Há uma outra cena que entrega de bandeja a total falta de habilidade do ator. Nero pega um nunchaku e começa a manuseá-lo em um momento de treino, tentando fazer aqueles movimentos estilo Bruce Lee, e o resultado é extremamente tosco! Hahaha! Belo mestre ninja esse aí…
De qualquer forma, esta questão foi alterada na continuação, REVENGE OF THE NINJA, que traz de volta o Shô Kosugi como herói. No papel de vilão até que manda bem por aqui, só que o filme é tão bobinho que em momento algum sentimos que ele é uma ameaça para o Nero. O confronto final entre os dois, por exemplo, é bem curto e o herói não tem grandes dificuldades para derrotá-lo.

Quem se destaca é Christopher George que faz um dos vilões mais estereotipados dos anos 80. Seu personagem ficou famoso nesta era do youtube por conta da cena em que é morto pelo herói, com um video cujo título é Best Death Scene Ever. Como podemos perceber, Nero manda uma estrelinha ninja em cheio no peito do sujeito, que desmunheca, solta um gritinho estranho e faz umas caras impagáveis… Uma performance corporal artística muito expressiva, eu diria. De fazer inveja a Marlon Brando ou Lawrence Olivier. Susan George também tem muita presença, especialmente porque se nota que está sem sutiã durante o filme inteiro e os peitos ficam balançando debaixo da blusa.
A ação de ENTER THE NINJA é basicamente composta por pancadaria, só que conduzida sem muita inspiração. Até que há o suficiente pra manter o espectador entretido, mas são rápidas e não chegam a empolgar muito. São má dirigidas, má coreografadas, má decupadas. Mas valem pela presença do Franco Nero inserido nos close-ups. Alguns momentos que tentam aproveitar mais da essência do ninjitsu, especialmente as armas e as habilidades especiais que só os ninjas possuem, acabam se tornando mais interessantes. Mas, no fim das contas, são outros detalhes, ridículos ou não, que importam e que fazem ENTER THE NINJA o clássico que é.

ESPECIAL McT #2: O PREDADOR (Predator, 1987)
O legal de fazer uma peregrinação pelo cinema de John McTiernan é que sua filmografia não possui má fase. Tá certo que 13º GUERREIRO não é lá grandes coisas – preciso rever, só lembro que não gostei – mas a carreira do homem é coerente no seu excelente nível de qualidade. E logo após a estreia com NOMADS, o sujeito já ataca com O PREDADOR, daqueles filmes que representa tudo que há de melhor no cinema de ação truculento dos anos 80. E ainda acrescenta um elemento sci-fi para deixa a coisa ainda mais interessante.
McTiernan tem a capacidade de fazer filmes que se tornam mais sublimes a cada novo contato. Pelo menos os principais têm essa proeza de nunca perderem a força: DURO DE MATAR (88), O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (93), DURO DE MATAR III (96) e, claro, este aqui, que revi pela milésima há poucos dias e, não teve jeito, permanece a belezura de sempre.
Na trama, o major Dutch, vivido pelo Arnold Schwarzenegger, comandante de um grupo de veteranos do Vietnam especializado em missões especiais, é convocado para resgatar militares que, possivelmente, foram sequestrados por guerrilheiros nas selvas de algum país latino-americano após a queda do helicóptero que os transportavam. Em pouco tempo de busca, os militares são encontrados… mortos. Com os corpos totalmente esfolados, pendurados nas árvores de cabeça para baixo. A partir daí, a busca passa a ser dos assassinos dos companheiros pela floresta adentro, já que ninguém pode sair impune de tamanha barbárie.
No entanto, Dutch e seus homens, aos poucos, começam a perceber, da pior maneira possível, que seu inimigo não é um guerrilheiro, não é nem sequer humano, mas algo desconhecido, com habilidades notáveis e um poder de fogo assustador. A coisa vai esquentando e a tensão subindo à medida em que cada personagem é abatido de forma brutal, até chegar num inevitável confronto, o embate derradeiro e arrasador do homem vs criatura.
Podem não acreditar, mas a gênese de O PREDADOR surgiu como uma brincadeira entre os roteiristas, os irmãos Jim e John Thomas, do tipo “e se rolasse o encontro entre Rambo e E.T. – O EXTRATERRESTRE?“. Claro que a coisa precisou se desenvolver bastante até se transformar nesta espécie de WILD BUNCH com anabolizantes. Especialmente em relação ao visitante do espaço. E não deve ter sido fácil controlar os egos de todos os brutamontes que conseguiram reunir por aqui.
Uma das proezas dos roteiristas foi exatamente conseguir criar um conjunto preciso de características para cada personagem, o que deve ter ajudado a manter os egos controlados. Mesmo que alguns sejam um bocado estereotipados, todos têm uma personalidade singular e, enquanto não sobra apenas o Arnoldão no final, TODOS têm praticamente a mesma importância na aventura e possuem seus momentos de protagonismo.
Além do Arnie, o elenco parrudo é formado por Bill Duke, Carl Weathers, Sonny Landham, e Jesse Ventura, que tenta roubar a cena. Embora seja um dos primeiros a vestir o terno de madeira, seu personagem, arrogante ao extremo, foi agraciado com algumas das falas mais legais de O PREDADOR. “I ain’t got time to bleed” é uma das minhas favoritas. Landham também faz uma figura legal, com toda a mística indígena, trazendo elementos de faroeste para o filme. Curioso que no seu contrato o ator deveria estar sempre acompanhado de um guarda-costas. Mas não era para protegê-lo, mas sim proteger os outros do Landham, que tinha fama de brigão. Do lado menos robusto temos Shane Black, o roteirista criador de MÁQUINA MORTÍFERA, fazendo o papel do cara de óculos menos musculoso do grupo, e Richard Chaves, que não possui tanta presença física, mas consegue se destacar entre os fortões.
No entanto, dentre os brutamontes reunidos aqui, incluindo o próprio Predador, quem se sobressai mesmo é o bom e velho Schwarzenegger. Dutch é um de seus melhores personagens, o primeiro que uniu toda a áurea do action hero com um jeitão totalmente cool. Seja com o charuto no canto da boca e a polo vermelha no início do filme ou com o corpo coberto de lama, segurando uma tocha e gritando à plenos pulmões para atrair o Pedrador para suas armadilhas estilo Rambo. Poucos atores conseguiram chegar no seu nível de presença física, de caracterização do herói cinematográfico, de maneira tão contundente a partir dos anos 80.
Um dos elementos essenciais de O PREDADOR em relação aos atores se estabelece logo no início, quando Dutch reencontra um velho companheiro de guerra, Dillon (Carl Weathers). Conan/John Matrix encontra Appolo Creed/Action Jackson! Ambos se vêem, trocam piadas, um chama o outro de filho da puta e dão as mãos para se cumprimentarem. Nesse ato de tocar as mãos, inicia uma pequena disputa de queda de braço e a câmera foca nos músculos avantajados de ambos, especialmente do ex-miss universo que possuía um baita muque.
O físico, a força bruta, dos atores funciona como componente dramático-visual. Esses caras, pelo menos a maioria, desempenham seus papeis não apenas através do gesto corporal, das expressões faciais, da fala e suas entonações, mas também na maneira como o bíceps aparece na tela, como os músculos do pescoço se comportam no enquadramento, como as veias sobressaltam na pele somando valor estético, o que torna O PREDADOR um dos filmes mais físicos que existe.
E ver como esse bando de machões musculosos começa a demonstrar fragilidade e medo diante da ameaça desconhecida é uma das ideias mais incríveis do filme. Há uma cena em que Landham diz, com toda frieza do mundo, que está com medo. E Chaves retruca “Bullshit. You ain’t afraid of no man.“. “There’s something out there waiting for us, and it ain’t no man. We’re all gonna die.“, arremata Landham. Ainda assim, na hora do “vâmo vê”, o sujeito larga a metralhadora, e pega uma faca para esperar uma morte honrosa enfrentando o adversário de frente.
Quando o Predador finalmente aparece em cena, percebe-se que os personagens realmente tinham motivos para temer. A ideia da camuflagem é ótima, bem feita com os efeitos especiais da época, mas é em seu estado natural, e sem a máscara, que a coisa impressiona. E pensar que tudo poderia ser diferente, no mau sentido… Sim, aquela história de que Jean-Claude Van Damme havia sido escalado para ser o Predador é verdadeira. O belga chegou a participar de algumas filmagens, mas sua participação foi interrompida e, aparentemente, suas cenas não chegaram a ser utilizadas. O problema foi quando a fantasia de alienígena, na concepção original (foto abaixo) chegou à locação para as filmagens. A produção percebeu que o visual era absurdamente inapropriado. Parecia um besouro gigante, um monstro de ficção científica dos anos 50. No papel funcionava, mas na prática não.

Acreditem. Dentro daquela roupa está JCVD.
Após algumas tentativas, decidiram que atitudes drásticas deveriam ser tomadas. Contrataram o mestre Stan Winston, que em tempo recorde criou o visual do alien que aparece no filme. Trocaram o dublê (Van Damme) que vestiria a fantasia, pegaram um sujeito de dois metros de altura, e voilà, estava pronto um guerreiro das estrelas, com visual badass, dreads, e uma imponência de dar calafrios. Além disso, Van Damme é baixinho, não fazia muito sentido tê-lo como um perigoso alienígena. O que ele faria no confronto com o Arnie? Daria um chute rodado?
O Predador não possui qualquer de background nesse primeiro filme. Sabemos que é um visitante de outro planeta porque logo na abertura uma nave espacial chega à Terra. Em PREDADOR 2 é possível conhecer alguns detalhes a mais. No entanto, o que importa aqui é a ameaça ele representa. É a perfeita personificação do mal, um colecionador de crânios humanos querendo aumentar seu mostruário. E isso basta para embarcar na aventura de Arnie e seus companheiros. El Diablo cazador de hombres, como bem define Elpidia Garrillo, a única mulher no filme.
E parece que o Predador se diverte bastante com essa sua atividade, brincando de “quem eu vou matar primeiro?“. Claro que ele facilita as coisas para o seu lado com seus aparatos alienígenas de última geração pra cima de indivíduos inferiores como nós, terráqueos. Deve ser para não correr muitos riscos. Mas não desperdiça a chance de uma boa briga de mãos limpas, como no final, quando tira o capacete, as armas e decide encarar o Shwarza no mano a mano.
Dentre todos os envolvidos em O PREDADOR, talvez o mais casca-grossa mesmo seja o McTiernan, cuja carreira de diretor estava dando ainda os primeiros passos, mas encarou o projeto, pegou vários brutamontes, jogou todos no meio do mato e filmou como gente grande. Após essa experiência o sujeito estava pronto pra outra. E não foi a toa que no ano seguinte revolucionou o cinema de ação com DURO DE MATAR.
Toda a trama de O PREDADOR é uma grande aventura, um grande thriller, com tiros e explosões pontuais distribuídas pela narrativa, mas bastante focado no suspense, na ideia do monstro que pode atacar a qualquer instante. Um dos grandes momentos do filme faz exatamente essa mistura de suspense e a ação exacerbada típica dos anos 80:
Após a tensão de um iminente encontro com a criatura, Bill Duke chega ao local onde Ventura fora atingido por um laser e só dá tempo de ver o Predador piscando os olhos para ele. Num ato de desespero instintivo, o sujeito pega a minigun e começa a cuspir fogo na direção que o nariz aponta. Aos poucos, os outros companheiros vão chegando e, mesmo sem fazer a mínima ideia em quem ou o que o Duke está atirando, não pensam duas vezes e começam a atirar também! E quando a munição do pente acaba, eles trocam e continuam atirando! São 64 segundos da mais pura dose de truculência cinematográfica!
Ação urgente e frenética, com troca de tiros, facadas e pirotecnia, ao estilo COMANDO PARA MATAR, só acontece em um momento, o ataque ao acampamento dos guerrilheiros. Mas é para arregaçar! McTiernan conduz o espetáculo de maneira clássica e artesanal, com muito domínio da gramática da ação, filmando apenas o essencial. O resultado não poderia ser mais expressivo, classudo e fisicamente exagerado. Especialmente quando temos Jesse Ventura com sua minigun! É de encher os olhos dos aficcionados pelo gênero, graças, também, ao trabalho excepcional do coordenador de dublês, Craig R. Baxley, que dirigiu alguns filmes interessantes, como ACTION JACKSON, STONE COLD e I COME IN PEACE.
A verdade é que com o elenco que temos aqui, a construção dos personagens e a trama estilo jungle war, não precisaria nem de um alienígena assassino na jogada para termos um bom filme de ação oitentista. Mas, como temos um ingrediente que torna o filme mais especial do que já seria, ao final rola o confronto épico entre Arnold e a criatura do espaço para arrematar um filme perfeito, simples e sem excessos. O estilo aqui é diferente da ação anterior, mais cadenciada, atmosférica e estratégica, mas não menos física. Quando os dois personagens partem para a trocação, o austríaco leva a maior surra de sua carreira, mas McTiernan cria algumas das imagens mais emblemáticas do cinema de ação e ficção científica dos anos 80.
Como todo clássico instantâneo daquele período que se preze, O PREDADOR, numa original mistura de gêneros, também influenciou algumas produções menos abastadas, que aproveitavam as principais ideias de filmes de sucesso, gerando os famigerados rip-off’s. Da mesma maneira que MAD MAX II, FUGA DE NY e O SEGREDO DO ABISMO, PREDADOR foi responsável por imitações como ROBOWAR, de Bruno Mattei, BANGIS, DNA, com Mark Dacascos, e vários outros.
Também vieram as continuações. PREDADOR 2, dirigido por Stephen Hopkins, acontece na cidade grande, na selva urbana, e temos Danny Glover como policial tentando resolver a situação. Gosto dessa sequência, só não vi tantas vezes quanto o original. E já está meio que na hora de rever… PREDADORES, de 2010, é bem fraco. Agora, os crossovers do universo ALIEN com PREDADOR, confesso que nunca tive interesse algum em conferir. Prefiro continuar revendo de vez em quando esta maravilha aqui.


















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