Pacto de Sangue (1944)

Não estou exatamente com hiperfoco em film noir, mas fazendo algumas revisões calhou que andei me deparando com alguns clássicos do gênero que já faziam mais de vinte anos que não assistia. Há poucos dias postei por aqui sobre O Falcão Maltês, por exemplo. Acho um período fascinante, obviamente, pode-se dizer que os anos 1940 são a era de ouro do film noir. Mas dizemos isso hoje com facilidade justamente porque temos o distanciamento histórico e os clássicos todos já realizados. Mas em 1944 ainda havia muito a se desenvolver por aqui. E aí entra Billy Wilder com Pacto de Sangue, que parece apresentar uma espécie de síntese definitiva do film noir.

Wilder se reuniu com o escritor Raymond Chandler pra adaptar um romance de James M. Cain. Não preciso entrar em detalhes da trama, né? Um crime perfeito, um sujeito que cai nas garras de uma femme fatale, sendo tragado pra um perigoso jogo de sedução, traição e morte. Uma narrativa precisa, que se tornou clássica, construída com a dose milimetricamente calculada da narração em off, com seu visual noturno, uma parte considerável gravada em locação, algo que não era preferência de Wilder, muitas sombras, um suspense impecável, erotismo sugestivo e generosas doses de álcool em ambientes enfumaçados. A estrutura é em flashbacks, então desde os primeiros momentos do filme, sabemos que toda a história terminará muito mal. Assim como sabemos, desde o primeiro olhar de Barbara Stanwyck, que aquela mulher, que aparece apenas de toalha em sua bela mansão, traz consigo um destino cruel. E, desde o primeiro contraplano de Fred MacMurray olhando pra ela, percebemos que ele não vê a hora de deixar se arrastar por esse caminho fatal.

Wilder parece se deliciar ao escalar MacMurray, dono de uma imagem imaculada, pra integrar a galeria de idiotas wilderianos, gente vulgar e medíocre. o Jack Lemmon de Avanti! antes de se libertar graças à influência afetuosa de Juliet Mills, por exemplo; Néstor Patou (novamente Lemmon), que ainda não sucumbiu aos encantos de Irma la Douce; ou Bogart, deslocado e decadente, em Sabrina. Pessoas que nos dão vontade de socar o nariz pra ver se finalmente mudam de vida. A diferença é que MacMurray, assim como William Holden em Crepúsculo dos Deuses, pra citar outro filme de Wilder, já está condenado de antemão, é incapaz de mudar, como sabemos desde os primeiros minutos de filme.

E o melhor de tudo é que toda a decadência moral e o jogo de traições ao longo do filme vai acontecendo de maneira natural, como se fossem inevitáveis, não são tão absurdas a ponto de se tornarem implausíveis. E aos poucos, o espectador percebe, junto com MacMurray, que ele não era tão esperto quanto imaginava e que Barbara Stanwyck o manipulava desde o instante em que ele entrou pela porta. Stanwyck se torna instantaneamente num ícone. Inicialmente é apresentada como uma dona de casa entediada, presa a um casamento infeliz, permanece uma figura ambígua e difícil de decifrar, mas que não demora pra se revelar uma presença ameaçadora. Mas aí já é tarde demais pro pobre MacMurray, que enquanto ficava travando diálogos de duplo sentido sexual (como a famosa cena sobre o “limite de velocidade”), nem percebia o que estava por vir. É uma questão de tempo. É a troca do suspense de “quem fez?” pela tensão de “quando que vai dar merda?“. Um jogo de perversidades, expresso por ações conduzidas com maestria por Wilder (a sequência que executam todo o plano de assassinato ainda é capaz de me deixar grudado na poltrona), pelos seus diálogos, mas também pela encenação, vide a forma como o casal de cúmplices é filmado no minimercado, discutindo horrores no meio de produtos de consumo banais.

Vale destacar o personagem de Edward G. Robinson, como detetive brilhante e honesto da companhia de seguros que MacMurray trabalha. E melhor amigo, uma espécie de mentor, do protagonista. A relação entre os dois talvez seja o coração do filme, afinal. E provavelmente é aquilo que conectará com mais força Pacto de Sangue ao restante da obra de Wilder. E se Billy Wilder não inventa o film noir, outros antes dele já haviam contado as histórias desses homens marcados por um destino implacável, ao menos acabou fazendo um dos “filmes-símbolo” de tudo aquilo que o noir representa. Nunca deixará de ser uma referência. E eu não vou deixar passar mais de vinte anos novamente sem assistir a isso aqui…

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