LOBO SOLITÁRIO 3: CONTRA OS VENTOS DA MORTE (1972)

O terceiro capítulo, LOBO SOLITÁRIO 3: CONTRA OS VENTOS DA MORTE (Lone Wolf and Cub: Baby Cart to Hades, 1972), dirigido novamente por Kenji Misumi, começa com um grupo de bandidos pervertidos atacando mulheres indefesas. Rapidamente são colocados em seus devidos lugares por um ronin mercenário. É uma abertura que segue o que já tava estabelecido na série, o tom brutal e direto, e que introduz uma figura interessante que funciona como espelho de Ogami Ittō. Quando os dois finalmente se encontram, há um reconhecimento silencioso entre iguais, mas o duelo é evitado, Ittō opta por um “empate”, acompanhando a decisão com reflexões que tocam no coração filosófico da série. Nas palavreas do próprio Lobo Solitário, ele e seu filho caminham como demônios pelo mundo, já mortos em vida, apenas cumprindo o percurso inevitável rumo ao inferno, ou algo do tipo… Não é a toa que o título internacional cita Hades, deus grego do submundo e dos mortos, governante do reino subterrâneo onde as almas residem.

Essa dimensão quase espiritual ou fatalista é algo que tá sempre presente nas histórias do Lobo Solitário, seja nesses filmes ou na obra original, o mangá Lone Wolf and Cub, de Kazuo Koike e Goseki Kojima. Aqui, no entanto, ela parece ganhar ainda mais espaço. Logo em seguida à abertura, o filme apresenta uma sequência na qual uma prostituta arranca a língua do cafetão com uma mordida, um gesto de violência desesperada que sintetiza o mundo degradado em que esses personagens habitam. Quando as autoridades surgem para prendê-la, Ittō e o pequeno Daigorō reconhecem nela algo familiar, como se compartilhassem a mesma condição de marginalidade. O que se segue é talvez o trecho mais revelador do código moral do protagonista. Para proteger a mulher, Ittō se submete a um teste de resistência, é suspenso de cabeça para baixo, mergulhado na água e espancado repetidamente.

Há algo de profundamente contraditório e fascinante na escolha desse mesmo homem capaz de massacres quase sobre-humanos e que agora aceita a humilhação e a dor quando isso significa preservar a dignidade de alguém mais frágil. Um código que mistura honra samurai com uma ética própria, deslocada, que reforça a ideia de que Ittō já não pertence ao mundo dos vivos nem ao dos mortos, mas a um limbo moral muito particular.

No miolo, o filme desacelera. É talvez o episódio mais introspectivo da série até aqui, menos interessado em acumular corpos e mais em observar seus personagens. Os momentos de Daigorō interagindo com a natureza funcionam como contraponto à violência constante, lembrando que, no centro de tudo, ainda existe uma criança atravessando esse inferno ao lado do pai. Essa estrutura mais pausada também reflete a própria lógica do material original, que alternava episódios de ação intensa com passagens mais meditativas, muitas vezes carregadas de referências ao budismo e à ideia de impermanência, com Ittō aceitando o caminho que escolheu.

Mas, como de costume, a calmaria é apenas temporária. O desfecho mergulha de volta no excesso com uma carnificina que eleva a série a um novo patamar de exagero. É aqui que surge um dos elementos mais icônicos e absurdos de toda a franquia, o carrinho de bebê equipado com armas de fogo! O que já era uma imagem poderosa se transforma em algo que beira o surreal. A batalha final entrega tudo o que se espera, cabeças decepadas, jorros de sangue avermelhados, e o retorno do ronin mercenário apresentado no início. Desta vez, não há recuo possível e Ittō enfrenta seu igual como se estivesse finalmente aceitando o inevitável.

Talvez não seja o filme mais explosivo da série até aqui, mas é certamente um dos mais densos. Entre momentos de contemplação e violência, CONTRA OS VENTOS DA MORTE aprofunda o mito de Ogami Ittō, reforçando a ideia de que sua jornada não é apenas uma busca por vingança, mas um mergulho consciente rumo ao inferno.

Uma ideia sobre “LOBO SOLITÁRIO 3: CONTRA OS VENTOS DA MORTE (1972)

  1. Outra curiosidade esse filmes que você esta publicando de forma extraordinario na sua resenha é que ” LOBO SOLITÁRIO” tambem foi uma serie de TV feita no japão nos 70 ,por aqui essa serie foi exibida na TVS (atual SBT) lá na decada de 80 ,intitulado ” Samurai Fugitivo ” .Um abraço de Anselmo Luiz.

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