ROLLING THUNDER (1977)

Uma das primeiras lembranças que tenho de ROLLING THUNDER, e que já causaram um impacto imediato, não foi nem do filme em si. Foram as imagens que encontrei pela internet ao tomar conhecimento da existência dessa obra. Não lembro exatamente como isso aconteceu, mas me recordo nitidamente do que vi: esse sujeito com um gancho no lugar da mão, manuseando munição, preparando seu revólver. Era o tipo de imagem que dispensa legenda, contexto ou convencimento. Bastou isso. Eu soube, ali mesmo, naquele instante, que assistir a ROLLING THUNDER seria uma obrigação cinéfila.

Isso foi por volta de 2008. Eu já tinha o blog e cheguei até a escrever algumas linhas sobre minha primeira experiência com o filme. Naquela época, ROLLING THUNDER já havia sido redescoberto, em parte graças ao entusiasmo de Quentin Tarantino, mas também, e talvez principalmente, pela morte do diretor John Flynn, em 2007. Ao longo dos anos, voltei a ele algumas vezes, e recentemente fiz uma maratona completa da filmografia do Flynn. Hoje, é um daqueles filmes que fazem parte do meu imaginário pessoal de filmes favoritos, cuja grandeza só se torna mais evidente a cada revisão. É por isso que rever importa, para nunca esquecer exatamente por que amamos certos filmes. E ROLLING THUNDER ainda tem um sabor especial, o fato de ter sido injustamente esquecido logo após seu lançamento. Mesmo com sua redescoberta, ainda me pergunto se foi realmente visto pelos cinéfilos que se dispõem a olhar além dos lançamentos do momento. Fica aqui o lembrete, e a recomendação.

ROLLING THUNDER é um daqueles filmes emblemáticos da metade dos anos 70 que, direta ou indiretamente, encaram as cicatrizes deixadas pela Guerra do Vietnã. Está na mesma linhagem de obras como TAXI DRIVER (com o qual mantém uma conexão profunda), O FRANCO ATIRADOR, AMARGO REGRESSO e tantos outros títulos que traduzem, em diferentes tons, a ressaca moral e emocional de um país em frangalhos pós-Vietnã. Com roteiro originalmente escrito por Paul Schrader, depois bastante alterado e, em muitos aspectos, aprimorado por Heywood Gould, o filme caminha entre dois registros distintos: de um lado, um thriller seco, brutal, impregnado de vingança; do outro, um retrato melancólico de um tempo em que os Estados Unidos pareciam afundar num caos interior, tanto individual quanto coletivo.

A trama começa com um clima de falso otimismo. Ex-prisioneiros de guerra voltando para casa ao som de uma música sentimental. Entre eles, estão Charles Rane (William Devane) e Johnny Vohden (Tommy Lee Jones). Rane é o nosso protagonista, e logo se percebe que, por trás dos óculos escuros e da fachada de herói condecorado, há algo quebrado nele. O retorno ao lar é desconfortável, seu filho não o reconhece, e a esposa… Bom, vamos dizer que ela não esperou fielmente por ele. Um tal de Cliff (Lawrason Driscoll), que trabalha no departamento de polícia local, aparece para dar carona à família e, quando ela diz “Você se lembra do Cliff?”, o espectador já entende a situação.

A casa foi mantida exatamente como ele deixou, numa tentativa de facilitar sua readaptação. Mas o que era pra ser um gesto afetuoso acaba expondo o absurdo de tentar recriar uma realidade que já não existe mais. As coisas só pioram quando sua esposa confessa que está com Cliff e quer o divórcio. A atuação de Devane é um testemunho do talento desse ator subestimado: a confissão não provoca gritos nem desespero, apenas o silêncio e a frieza de Rane. Ele toma um gole de cerveja e diz que aquilo foi “um pouco demais” para ele.

Em outro momento, numa cena tensa e perturbadora, Cliff aparece na garagem para “conversar como homens civilizados” e até lhe oferece uma cerveja. Em vez de reagir com ódio, Rane deixa visivelmente desconfortável, não menciona a traição e em vez disso, fala sobre uma tortura específica que sofreu em Hanói. Ele entrega uma corda a Cliff e pede que a amarre em seus pulsos, atrás das costas. Rane então instrui: “puxe até ouvir os ossos estalarem.” Cliff puxa a corda, Rane revive Hanói em flashbacks. Cliff começa a suar, e Rane grita para que ele puxe mais. Cliff não aguenta e solta a corda. Rane diz que o segredo para suportar a tortura é aprender a “amar” a corda. As questões de Cliff em relação a situação deles, para Rane, é irrelevante.

A virada da trama acontece quando Devane recebe uma homenagem de uma loja local, um dólar de prata por cada dia que passou como prisioneiro, totalizando cerca de 2.500 dólares. É aí que um grupo de criminosos ineptos decide invadir sua casa para roubar o valor. A execução do plano é tão desastrosa quanto a ideia inicial: cinco homens para roubar uma quantia que mal rende 500 dólares para cada um… E para conseguir esse dinheiro, decidem torturar justamente um veterano resistente a torturas, que passou anos sofrendo nas mãos de vietcongs. A consequência é trágica, eles matam sua esposa e filho e ainda mutilam sua mão com um triturador de pia.

No hospital, a mão de Rane é substituída pelo tal gancho que ele afia até se tornar uma arma mortal. O mesmo gancho que me deixou hipnotizado antes mesmo de eu assistir ao filme.

Recuperado fisicamente, mas quebrado emocionalmente, o protagonista inicia uma caçada silenciosa aos responsáveis pelo massacre de sua família. Com todo o seu foco voltado para isso, ele traça um caminho brutal pelo Texas ao México, e o filme nos leva mais fundo na mente de Rane, agora completamente obcecado, deixando buracos de gancho nas mãos e outras partes mais íntimas de qualquer um que se coloca em seu caminho.

Rane conta com aliados nessa jornada, como uma mulher local chamada Linda Forchet (Linda Haynes), que se vê como uma espécie de fã de Rane. Aparentemente, a cidade tinha um programa onde mulheres locais usavam um broche de soldados que estavam no exterior; Linda usou o de Rane durante todo o tempo em que ele esteve no Vietnã. É uma personagem interessante que merece destaque. Carrega, ao mesmo tempo, a doçura da empatia e a melancolia da solidão. Ao se aproximar de Rane, um herói torturado que ela admira de longe desde os tempos de guerra, Linda busca pertencer a algo maior, talvez até resgatar a si mesma através da devoção a alguém mais ferido do que ela. Seu desejo de conexão se confunde com uma atração por essa dor masculina mal resolvida, típica da América pós-Vietnã. Ainda assim, ela nunca parece ingênua, mas compreende o abismo emocional de Rane, e mesmo sem saber exatamente como alcançá-lo, tenta ficar ao seu lado, como quem escolhe acompanhar um homem prestes a desaparecer de vez dentro de si.

Além de Linda, temos o já citado amigo vivido por Tommy Lee Jones, Sargento Johnny Vohden, que esteve no mesmo campo de prisioneiros que Rane. Em determinado momento, o protagonista vai até Vohden e diz que encontrou os culpados pelas mortes da esposa e filho. O diálogo minimalista entre eles revela a conexão entre dois veteranos destruídos por dentro. Palavras secas que ecoam o conceito central de Schrader/Gould: o cinema pode (e deve) ter um efeito transcendental, tanto sobre os personagens quanto sobre o espectador. Não se trata de encher cenas com palavras, mas de deixar que olhares, gestos e silêncios falem por si. Esse estilo de diálogo minimalista em ROLLING THUNDER é potente, ainda que imbuído de masculinidade estoica:

“Achei eles,” diz Rane.
“Quem?”, pergunta Vohden.
“Os caras que mataram meu filho.”
“Vou pegar meu equipamento.”

De certo modo, ROLLING THUNDER pode ser visto como o primo bastardo de Taxi Driver. Como o roteiro foi amplamente reescrito, Paul Schrader acabou reaproveitando muitas ideias daqui no filme de Scorsese. Mas enquanto a psicose crescente de Travis Bickle (Robert De Niro) em TAXI DRIVER é difícil de decifrar, a descida do Major Rane à loucura é mais direta e visível. Sabemos que Rane está quebrado por dentro após anos de tortura como prisioneiro no Vietnã, e que, ao retornar, encontra uma vida civil à qual já não consegue mais pertencer. Até que a violência invade sua casa e o empurra para uma jornada de vingança. Com Travis, nunca temos clareza sobre o que, de fato, o consome, o que torna sua espiral ainda mais inquietante. Já ROLLING THUNDER carrega uma objetividade crua e urgente, talvez por ter sido feito para o circuito de drive-ins, um público marginal que, para o bem ou para o mal, espera sua dose explícita de loucura junto à violência. Em outras palavras, tem que fazer sentido, ou parecer que faz. Sutileza, nesse contexto, não costuma sobreviver a um engradado de cerveja barata.

No entanto, apesar de um filme é simples na forma, mais direto, não deixa também de ser profundamente denso em subtexto. Flynn filma essa descida ao inferno fazendo um retrato sombrio da América, onde a violência parece ser a única solução pra tudo. É uma das obras mais contundentes já feitas sobre o trauma pós-guerra, e talvez o melhor exemplar do tema dentro do cinema americano. Há uma tensão constante nas entrelinhas, personagens que expressam mais o silêncio do que nos diálogos, e uma sensação de desespero contido. Schrader teria dito que em seu roteiro original não havia esposa nem filho, o protagonista era apenas um homem desfeito pela guerra. Ele considerou que a família foi uma adição “comercial”, mas ironicamente são esses vínculos criados no roteiro de Gould que tornam a dor ainda mais palpável e crível, refletindo os dramas reais de muitos ex-combatentes.

Em certo ponto, o filme entra no território de Peckinpah ao levar Rane e Vohden a uma cidade de fronteira com o México cheia de néon, prostitutas e decadência. Cães do inferno caçando os assassinos da mulher e filho de Rane. Os bares estão repletos de gringos bêbados e tipos sujos, evocando os prostíbulos poeirentos e decadentes de TRAGAM-ME ALFREDO GARCIA. A catarse da violência em Flynn tem um tom quase operístico, embora mais direto que o balé sangrento dos filmes de Peckinpah ou o pesadelo alucinado do tiroteio final de TAXI DRIVER. Mas isso não torna o clímax explosivo de ROLLING THUNDER menos impactante. O tiroteiro final que Flynn filma é objetivo, austero, mas que se torna um estudo de ultra violência, onde o peso de cada tiro, cada bucho levando chumbo grosso, deixa um gosto amargo. Apesar de extremamente satisfatório.

Acho que a força de ROLLING THUNDER, especialmente no clímax, é melhor resumida por uma troca de palavras entre uma prostituta mexicana e Vohden. Enquanto ela tira a roupa, ele se prepara num quarto imundo para o massacre planejado por Rane. Ela pergunta:

“Que porra você tá fazendo?”
“Vou matar um monte de gente,” responde Vohden, encaixando a espingarda com um estalo seco.

Flynn desenvolve o filme em um ritmo lento e metódico, com cada camada de violência sendo introduzida à conta gotas na vida de Rane, tudo antes do grande evento em que sua esposa e filho são mortos, roubando-lhe qualquer chance de recomeço. Ele perdeu sua família para a guerra, perdeu anos de vida para a guerra, agora retorna carregando cicatrizes psicológicas e físicas imensas, apenas para encontrar um mundo que ainda não terminou de chutá-lo, jogando-o ao chão mais uma vez e deixando este homem sem alma sem qualquer luz orientadora restante, exceto a violência.

E há uma frieza na violência de ROLLING THUNDER. Por mais empolgante que seja, e a entrega de Tommy Lee Jones nessas falas citadas é eletrizante em um sentido animalesco e masculinamente bruto, o filme exemplifica como esses homens foram moldados como assassinos puros. São como armas que falam, quase incapazes de verbalizar qualquer coisa em suas vidas diárias, enxergando apenas missões, combates e lealdade entre irmãos de armas.

À medida que Rane enfrenta seus próprios problemas, sua comunicação com Johnny revela que o amigo passou por muito do mesmo, com dificuldades para se readaptar e um comportamento frio e distante que só piora a situação. Quando Rane vai até a casa de Johnny para pedir ajuda em sua vingança, tudo o que consegue dizer à família de Johnny é uma mentira sobre aonde estão indo e uma despedida ao pai de Johnny, ambos entregues de forma fria e trajando o uniforme do Exército. Esses homens não tiveram sequer tempo para se “desligar” por anos, sempre usando o uniforme, literal ou figurativamente, e, quando finalmente têm a chance de vestir novamente para lutar, é impossível resistir. Se algum dia deixaram de ser assassinos, agora têm a chance de voltar a ser.

Mas, no mundo de ROLLING THUNDER, esses homens apenas removem suas máscaras de “homens de família ajustados” para revelarem novamente suas verdadeiras naturezas. Seu país e seus inimigos os transformaram nisso; agora, eles canalizam seu treinamento a serviço de uma vingança justa contra um inimigo cruel e indiferente. É frio e brutal, mas ao mesmo tempo empolgante e eletrizante, com cada ato de violência no filme trazendo um peso a mais que realmente impacta. Estes são os homens que o mundo violento criou. Estes são os homens que foram devolvidos à sociedade e mandados agir “normalmente” enquanto suas mentes ainda estão em chamas.

No Brasil, foi lançado como A OUTRA FACE DA VIOLÊNCIA.

A FORÇA EM ALERTA (1992)

A FORÇA EM ALERTA é o filme mais acessível para o público que não é fã de Steven Seagal. Acho que até pra quem realmente não gosta do sujeito deve funcionar. Trata-se da primeira incursão de Seagal no mundo mainstream das grandes produções hollywoodianas. Até então, seu cinema era mais “bairrista”, foram quatro exemplares de ação policial urbano. Inclusive, aqui Seagal volta a trabalhar com o Andrew Davis, que o dirigiu em seu primeiro – e bem mais modesto – filme, NICO – ACIMA DA LEI.

Estamos no início dos anos 90 aqui. A modinha dos filmes de ação americanos possuia algumas vertentes, mas há duas que eu gosto de destacar:

a) Os inspirados pelos filmes do John Woo;
b) Variações de DURO DE MATAR.

O que surgiu, a partir dos anos noventa, de filmes imitando o estilo do Woo, repleto de protagonistas voando em câmera lenta com uma pistola em cada mão, descarregando os pentes em seus alvos, não é brincadeira. Mas não é o caso de A FORÇA EM ALERTA, que segue a fórmula da letra “b”. Claro, muda-se vários detalhes da trama, porque os roteiristas são extremamente criativos, e transporta a ação dentro de um navio de guerra das forças armadas americanas. E pronto, temos um autêntico rip-off de DURO DE MATAR.

Seagal interpreta Casey Ryback, um cozinheiro militar, que trabalha preparando os banquetes do seu capitão e tripulação de bordo. Sério! Steven Seagal é o cozinheiro! Qual é o problema nisso? Tá certo que no passado ele era integrante do SEALs, uma das principais forças de operações especiais da marinha dos Estados Unidos, altamente treinado e capacitado no uso de armas, explosivos e artes marciais. E numa operação liderada por ele no Panamá, toda sua equipe acabou morta, ele deu um soco no seu superior, acabou aposentado dessa vida e se tornou cozinheiro… mas é apenas um detalhe e quem já viu o filme sabe que isso não interfere muito na narrativa*.

* Spoiler: mentira, interfere sim.

A história se passa exatamente no dia do aniversário do capitão do tal navio de guerra, que está no Havaí durante eventos que relembram os ataques em Pearl Harbor. E um dos seus comandantes, Krill (Gary fucking crazy Busey), está organizando os preparativos e surpresas para a comemoração desta data. Duas delas são bem interessantes. A primeira inclui um conjunto musical, cujo membro principal é o Tommy Lee Jones encarnando uma espécie de Mick Jagger mais afetado que o verdadeiro. E a outra, bem mais estimulante, é a coelhinha da Playboy, Miss Julho, que sai do bolo pra fazer um topless pra alegria da moçada!

Outro ponto importante é que a intenção principal de Krill nesta data especial é tomar o controle do navio, matar o capitão, e fazer toda a tripulação de refém, até que suas exigências baseadas em suas causas políticas ($$$) sejam cumpridas pelo governo americano… Tudo isso, vestido de mulher, pra enfatizar ainda mais a insanidade de Gary Busey. Tommy Lee Jones se revela um ex-agente da CIA renegado, que se sente traído, que possui as mesmas intenções de Krill. Miss Julho não sabe de nada e fica esperando o momento de exibir seus atribudos… E o cozinheiro vivido por Seagal vai precisar utilizar dos seus dotes culinários para salvar todo mundo.

O trabalho de roteiro aqui é árduo: conseguir manter a narrativa em movimento e com uma certa regularidade de coisas interessantes acontecendo. Porque este tipo de filme de ação específico é frágil e qualquer divisão de cenas e situações equivocadas podem tornar o filme chato e cansativo. Temos o herói, geralmente zanzando pra lá e pra cá, bolando estratégias mirabolantes para salvar o dia, enquanto os bandidos demonstram o quão malvados podem ser, revelando suas intenções maquiavélicas. Temos os reféns, a parte burocrática das negociações, o drama do par romântico do herói, e por aí vai…

Mas o filme se sai muito bem em todas esses registros, a coisa toda transcorre numa boa, num ritmo bem divertido. E com o elenco escalado que temos aqui, fica bem mais fácil de acompanhar. Um filme cujo herói tem Gary Busey e Tommy Lee Jones como inimigos mortais é quase impossível de dar errado. Seagal já tinha enfrentado vários grandes vilões, como Henry Silva (NICO – ACIMA DA LEI), William Forsyth (FÚRIA MORTAL), William Sadler (DIFÍCIL DE MATAR) e jamaicanos feiticeiros do voodoo (MARCADO PARA A MORTE), mas nunca dois vilões de peso ao mesmo tempo, como em A FORÇA EM ALERTA. Do lado feminino, Erika Eleniak, que passa da moça sexy e frágil à mulher badass num estalar de dedos. Ainda marcam presença por aqui Damian Chapa, Troy Evans, Bernie Casey, Raymond Cruz, Colm Meaney, entre outros…

A direção de Andrew Davis é segura, apesar de salientar a intrigante teoria de que o Davis não gosta muito do rabinho de cavalo do Seagal. É a segunda parceria dos dois e em ambas o astro precisou passar a tesoura na nuca. Mas em termos de ação, não dá pra reclamar muito. Seagal faz bem o seu trabalho, alternando entre pancadaria, tiroteios bem elaborados, promovendo explosões e termina com um bom duelo de facas entre Seagal e Jones, que poderia ser melhor trabalhado, percebe-se claramente que nesse quesito o personagem de Jones não era sequer uma ameaça, e Seagal não tem lá tanta dificuldade para despachá-lo, o que é um deslize. Um bom vilão geralmente tem que dar mais trabalho pro herói, tem que ser um desafio. Aqui a dificuldade de Ryback no clímax, no duelo FINAL, foi quase zero… Mas acho a coreografia boa e o desfecho violento acaba compensando.

Primeira super produção estrelada por Steven Seagal precisava de alguns incrementos para diferenciar um pouco dos filmes anteriores mais urbanos, especialmente a persona habitual do ator. Apesar da estrutura grandiosa dos cenários e efeitos especiais de ponta pra época, Ryback é mais do mesmo em se tratando de figuras dramáticas vividas pelo Seagal, até porque não se pode ter a exigência com ele da mesma forma como teríamos com um Daniel Day Lewis, por exemplo.

Mas em A FORÇA EM ALERTA Seagal não é um policial! Um grande avanço, já que todos seus filmes anteriores ele era um homem da lei. Aqui é uma ocupação extremamente diferente: cozinheiro. O que gera uma série de diálogos sobre filosofia culinária. Além das frequentes mensagens politicamente corretas e de cultura oriental e artes marciais, que não poderiam faltar… Acho que a partir deste aqui, Seagal se tornou praticamente um ator completo e versátil!

Aqui inaugura uma nova fase na qual a carreira de Steve Seagal chegaria ao ápice em termos de qualidade, sucesso financeiro e até de autorismo (não é a toa que o próximo filme de Seagal, EM TERRENO SELVAGEM, é justamente dirigido por ele mesmo), mas começa a entrar em um lento e gradativo declínio depois de um início de carreira excelente. Calma, ele ainda faria grandes filmes no decorrer da década de 90, e ainda gosto da maioria das coisas que Seagal fez depois. Só acho que nunca mais obteve o nível de alguns trabalhos anteriores, como FÚRIA MORTAL, que é a obra-prima do homem, um dos melhores filmes de ação daquela década. Mas não vamos chorar! A FORÇA EM ALERTA continua bom pra cacete!

E teve uma continuação que se passa num trem sequestrado por terroristas. Apesar de inferior, também é legal.

Texto atualizado, publicado inicialmente no site Action News.

O FUGITIVO (1993)

Sabe aquela máxima que usamos quando relatamos uma história interessante que aconteceu e percebemos que o relato nunca vai ser suficiente pra deixar, seja lá quem for, tão fascinado quanto nós, que vivenciamos o fato? Dizemos algo do tipo: “Você tinha que estar lá pra ver“… O mesmo vale para filmes. Vocês simplesmente tinham que estar lá quando tal filme foi lançado nos cinemas, ou nas locadoras – antes que seu impacto fosse diluído pela repetição e imitação – para entender porquê aquele tal filme foi bem sucedido, ou foi um fenômeno, até hoje se fala dele, etc…

Isso tudo me remete ao caso de O FUGITIVO (The Fugitive), de Andrew Davis, que finalmente revi depois de mais de vinte anos…

Assistí-lo hoje pela primeira vez pode até dar a impressão de um filme banal e repetitivo, mas se vocês estiveram lá na época do lançamento, lembram que se tratou de um dos grandes acontecimentos do cinema blockbuster da primeira metade dos anos 90, com uma massiva campanha de marketing, cartazes e revistas estampando o Harrison Ford correndo de alguma coisa, e o trailer passando até na TV aberta… O FUGITIVO foi um enorme sucesso de bilheteria, foi bem elogiado pela crítica, teve o Tommy Lee Jones ganhando o Oscar de ator coadjuvante, e o próprio filme foi indicado para a categoria principal de Melhor Filme (perdeu para A LISTA DE SCHINDLER). O filme em si, apesar de não ter nada de original, foi um dos exemplares responsáveis por modelar a estética do thriller de ação dos anos 90, influenciando uma penca de filmes a partir dali. Então acho que dá pra ter uma noção do que foi O FUGITIVO. Do seu impacto. Mas “Você tinha que estar lá pra ver“…

A trama, acredito, todo mundo conhece. Até quem nunca viu. Baseado numa série de TV dos anos 60, temos uma trama meio Hitchcockiana sobre Richard Kimble (Ford), um médico que se vê fugindo da lei após o assassinato brutal de sua esposa, tentando provar sua inocência ao mesmo tempo em que precisa encontrar o real assassino. E como na série de TV, o público nunca duvida da inocência do sujeito ou mesmo de sua crença de que o verdadeiro perpetrador é um “homem de um braço”.

Kimble é o herói perfeito – combinando inteligência com notável resistência física e um toque de compaixão – e o fato de ser interpretado por Harrison Ford, ator que sempre teve o dom de causar o nível certo de empatia, para não mencionar um astro já alojado na cultura pop com personagens como Han Solo e Indiana Jones, ajuda muito. Então acabamos comprando a perfeição do bom Dr. Kimble sem muita dificuldade. E Ford tá realmente ótimo no papel.

Mas, como um bom filme de policial, um bom filme de perseguição, a coisa realmente prospera quando o herói tem a contraparte certa como desafio. Sam Gerard de Tommy Lee Jones, o US Marshall que passa o filme inteiro obstinado no rastro de Kimble, é um adversário digno, tão afiado e tão duro quanto sua presa. Talvez seja o indivíduo mais mais humano do filme, um homem dividido entre o dever e a crença pessoal. Jones é tão bom que (além de ter ganhado o Oscar, como já mencionei) o personagem chegou a assombrar sua carreira. Ele o reprisou oficialmente no filmaço US MARSHALS, de 1998, mas esse tipo de personalidade o seguiu durante muito tempo em filmes como MIB – HOMENS DE PRETO (97), o petardo de William Friedkin CAÇADO (03), que é quase um terceiro capítulo espiritual deste aqui, e já mais envelhecido em ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (07).

A relação que se estabelece entre Gerard e Kimble é bem mais interessante do que aquela entre Kimble e a figura do vilão real do filme (seja o homem de um braço ou o verdadeiro mandante que a trama revela), o que pode ser o motivo pelo qual o clímax do filme, a troca de socos entre herói e vilão permaneça menos na mente do que muitos dos momentos compartilhados entre Kimble e Gerard ao longo da caçada, como por exemplo a já clássica sequência dos túneis da represa, onde ocorre o primeiro contato dos dois e que culmina com Kimble se jogando de uma altura considerável…

Ui, ui, mas era pra ele ter morrido na queda, ninguém sobrevive pulando de uma altura assim, blá, blá, blá”… O tipo de coisa que eu passei décadas ouvindo. Mas a minha resposta é sempre a mesma. Meu amigo, se você quiser realismo, eu posso indicar uns bons documentários.

Já elogiei por aqui no blog o trabalho do diretor Andrew Davis. Um sujeito que faz filme com Chuck Norris e dois dos melhores veículos de Steven Seagal merece sempre meu respeito. Aqui consegue se sair muito bem, demonstrando suas habilidade sob a batuta de um grande estúdio, onde tudo é super controlado e é difícil deixar alguma impressão pessoal. Mas o Davis nunca foi um diretor autoral, então tá em casa. De todo modo, Davis tava inspirado: tudo em O FUGITIVO é filmado e editado com uma intensidade para desgastar os nervos e aumentar o pulso. A câmera sempre se move, enfatizando a emoção da perseguição e as relações de poder entre a presa e o predador.

Sequências como a fuga de Kimble depois que o ônibus da prisão capota na floresta e vai parar em cima da linha do trem e o sujeito precisa pular pela janela um segundo antes de uma locomotiva acertar em cheio o veículo é praticamente uma aula de tensão… Dessas imagens do cinema de ação que permeia sempre meu imaginário do gênero nos anos 90.

Ainda assim, não acho que o grande trunfo de O FUGITIVO seja a ação, mas sim a força do seu elenco e a capacidade de contar uma boa história. Temos participação de figuras como Julianne Moore, Joe Pantoliano, Jeroen Krabbé, mas são mesmo os gigantes Harrison Ford e Tommy Lee Jones que definem as coisas por aqui por meio de puro carisma, atuando numa narrativa clássica que realmente funciona e que tem peso dramático e atenção aos detalhes. E que ao mesmo tempo entrega emoções.

O FUGITIVO não chega a ser nenhuma maravilha, mas é o tipo de filme que, apesar da influência no período, é cada vez mais raro de se encontrar nos dias de hoje… Uma produção grandiosa à sua maneira, mas não inchada de trocentas horas; um thriller inteligente e eficaz, embora com algumas conveniências de roteiro, mas de tirar o fôlego do início ao fim e que consegue atrair a atenção de um grande público, sem dar a impressão de que os realizadores pensam que o espectador é idiota. Em suma, um filmaço que valeu a pena rever, do tempo em que contar boas histórias era regra básica para se fazer um filme em Hollywood.

ENTREGA MORTAL (The Package, 1989)

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Houve um tempo em que Gene Hackman ensaiou uma de se transformar num herói de ação badass. Isso aconteceu especialmente nos anos 80 e início dos 90. Nada muito exagerado como fora sua “concorrência” no período, como Stallone, Schwarza, Van Damme… Também não foram muitos filmes assim, mas temos DE VOLTA PARA O INFERNO, O ALVO DA MORTE, DE FRENTE PARA O PERIGO, COMPANHIA DE ASSASSINOS, tem até a comédia de ação UM TIRO QUE NÃO DEU CERTO. Como Hackman era um baita ator, hoje gozando de sua merecida aposentadoria, vou dar uma debruçada nessa fase action hero dele a pedido de um leitor. Começando pelo thriller político ENTREGA MORTAL.

Hackman é Johnny Gallagher, um oficial do exército americano encarregado de transportar um soldado prisioneiro (Tommy Lee Jones) de volta aos EUA para a corte marcial. Já em solo americano, o soldado escapa e Gallagher descobre da pior maneira possível que se meteu numa encrenca daquelas, numa trama internacional intrincada envolvendo espiões, mercenários, polícia, o próprio governo e até mesmo uma conspiração com planos terroristas.

Tommy_Lee_Jones_as_Thomas_Boyette_in_The_Package_(1989)

Contando com a ajuda de sua ex-mulher, Eileen (Joanna Cassidy), e de um detetive de Chicago, Delich (Dennis Franz), Gallagher precisa agora encontrar de volta o seu “pacote”, ou seja, o soldado que escapou (o package do título original), no qual ele descobre se tratar de um assassino profissional contratado que precisava entrar nos EUA sem um passaporte para realizar sua missão – o assassinato do presidente dos Estados Unidos. Continue lendo