THE LOST EMPIRE (1985)

vlcsnap-2014-05-12-20h51m46s192Antes de se tornar um dos diretores mais conspícuos do cinema classe B pós-80’s, Jim Wynorski ganhava experiência e bagagem cinematográfica trabalhando como roteirista, escrevendo artigos sobre filmes de gênero em publicações como a Fangoria e estando sempre envolvido em produções do mestre Roger Corman. Quando chegou o momento de realizar seu primeiro trabalho como diretor, juntou todos os clichês de seus filmes favoritos, se envolveu com várias pessoas ligadas ao tipo de cinema que queria fazer e misturou com com todas as suas obsessões próprias. O resultado é THE LOST EMPIRE, um sci-fi muito louco que possui ninjas assassinos, artefatos místicos, um feiticeiro decano, terras desconhecidas, mulheres peitudas com figurinos provocantes e um elenco bem batuta!

bbbbO enredo é tão divertido quanto bagunçado e acho que não valeria a pena ficar perdendo tempo explicando. Mas só prá dar um gostinho, trata-se de três beldades que vão parar numa ilha comandada por um feiticeiro chamado Dr. Sin Do para descobrir as circunstâncias do irmão de uma delas ter sido assassinado por um bando de ninjas. Lá acontece um torneio de artes marciais, ao mesmo tempo mulheres são mantidas escravas em trajes mínimos e, por fim, o tal Dr. possui planos diabólicos de combinar algumas pedras preciosas antigas que lhe darão poder para conquistar o mundo!

aaaa (1) aaaaÉ Jim Wynorski prestando homenagem às coisas que tanto ele quanto nós adoramos no cinema grind house e exploitation. Percebe-se em THE LOST EMPIRE influências do próprio Corman, mentor de Wynorski e produtor de vários de seus filmes (incluindo este aqui), Jack Hill, Russ Meyer (pelas várias cenas de peitos de fora), e até filmes de espionagem estilo 007. Jim nunca foi um diretor estiloso, mas sempre demonstrou habilidade para filmar cenas marcantes, sexys e engraçadas, além de muita personalidade para trabalhar com vários rostos famosos dos filmes B. Analisando a carreira do sujeito, percebe-se um sutil amadurecimento no trabalho de direção, especialmente nos anos 90, mas é incrível como Jim já tinha pulso firme pra fazer o que queria já nesta primeira experiência atrás das câmeras.

bbbbb ccccUm detalhe marcante neste debut é a quantidade de celebridades do cinema independente que Winorsky conseguiu reunir em THE LOST EMPIRE. Isso é que dá ter Roger Corman como padrinho. Do lado feminino, várias musas do cinema classe B que nunca tiveram receio de tirar a blusa, como Melanie Vincz, Raven De La Croix (que trabalhou com Russ Meyer), Angela Aames, Linda Shayne e a deusa exuberante Angelique Pettyjohn. Na ala carrancuda temos Blackie Dammett (também conhecido por ser pai de Anthony Kiedis, vocalista da banda Red Hot Chilli Peppers), o fortão Robert Tessier e o grande Angus Scrimm (o Tall Man, da espetacular série de horror PHANTASM), que faz o vilão Dr. Sin Do.

bbbbbbb dddddAtualmente, Jim Wynorski ainda se encontra em pleno vapor e já possui computada uma filmografia com mais de cem títulos. Nem todos são bons, muito menos obrigatórios. Mas para quem se interessa por cinema independente de gênero ou admira o trabalho do homem, THE LOST EMPIRE é imperdível.

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NA MIRA DA MORTE (Targets, 1968)

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Quando Roger Corman perguntou a Peter Bogdanovich se queria fazer um filme, lhe propôs o seguinte: de acordo com um contrato, o lendário ator de horror movies, Boris Karloff, devia à Corman dois dias de trabalho. Bogdanovich deveria nesses dois dias filmar algo em torno de vinte minutos aproveitáveis. “You can shoot twenty minutes of Karloff in two days. I’ve shot whole pictures in two days“, dizia Corman. Depois, Bogdanovich teria que utilizar mais vinte minutos de imagens de Karloff retiradas do filme THE TERROR, dirigido pelo próprio Corman, e assim, já teria quarenta minutos de película. Com outros atores, Bogdanovich poderia utilizar de dez a doze dias para filmar mais quarenta minutos e… voilá, um Boris Karloff movie de oitenta minutos de duração.

Bogdanovich não era exatamente um fã de Roger Corman, muito menos de filmes de horror – embora a fase das adaptações de Edgar Allan Poe lhe interessasse. Palavras do próprio diretor, que antes de se envolver na realização de filmes era um conceituado crítico de cinema, tanto que quando se mudou para Los Angeles foi o Corman – com seu instinto de caça-talentos – que foi atrás do rapaz perguntando se estaria interessado em escrever alguns roteiros.

Roteirista, produtor, diretor de segunda unidade e quebra-galhos, Bogdanovich fez de tudo um pouco na Corman Factory. No entanto, embora tenha aceitado de boa a proposta de Corman para este seu primeiro trabalho como diretor, o sujeito ficou um bocado desconfortável com a ideia de escrever uma história de horror ao estilo gótico, aporveitanto-se de imagens de um filme do gênero como outros tantos que surgiram nos anos anteriores. Como disse, Bogdanovich não gosta de horror… Foi então que o homem se lembrou que um editor da Esquire havia lhe dado a ideia de fazer um filme sobre um atirador maluco que mata diversas pessoas com um rifle. Uma história verídica que aconteceu no Texas nos anos sessenta.

Quando Corman leu o roteiro, disse que foi um dos melhores que já tinha lhe chegado em mãos. Aumentou o orçamento do filme e até conseguiu mais dias com o Karloff. E foi por esse caminho que TARGETS tomou forma, um filme que estabelece, com subtextos sobre o próprio cinema de horror, a relação do gênero com o público.

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O que fazer então com o Karloff? Bogdanovich resolveu seguir sua intuição cinéfila: o velho seria um ator de filmes de horror que resolve se aposentar, cansado da vida que leva, das pessoas que tem de lidar e por perceber que seus filmes já estão ultrapassados, ingênuos e não assustam mais ninguém. O próprio Bogdanovich interpreta o diretor que tenta convencer Byron Orlock (Karloff) em não desistir de sua carreira e estrelar seu próximo filme. Em determinada cena, Bogdanovich e Karloff assistem a um trecho de THE CRIMINAL CODE (31), de Howard Hawks, no qual Karloff fez um personagem e rasgam elogios a Hawks, um dos diretores favoritos de Bogdanovich.

Em contrapartida, temos a outra trama, aterradora, de um rapaz que arruma um arsenal, mata sua família e sai pelas ruas atirando em pessoas aleatoriamente em plena luz do dia, como um sniper em um campo de batalha. A sequência em que o jovem deixa uma carta com letras em vermelho e realiza um banho de sangue em casa é digna de antologia.

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O roteiro de Bogdanovich, que aparentemente possui contribuição não-creditada de Samuel Fuller e Orson Welles, equilibra as duas narrativas de uma forma sofisticada. O encontro entre as duas histórias não poderia ser num cenário mais propício para as intenções do diretor/roteirista: um drive-in onde acontece a sessão de estreia do último filme de terror de Orlock, com a presença do ator. O atirador se coloca atrás da tela de projeção e enquanto passa o filme que não causa mal a ninguém os tiros que “saem da tela” ferem mortalmente os espectadores. Choca quando o horror da ficção se revela insignificante diante o verdadeiro horror, aquele que ocorre diariamente na realidade. TARGETS, portanto, valida um pensamento sobre o cinema de horror americano, que começava a dar sinal de vida naquela época, à medida em que estabelece de forma clara essa relação entre o horror ficcional e o real, a banalidade de um e a evidente brutalidade do outro, mas sem soar como uma crítica ao lado fantasioso do cinema clássico do gênero.

Em termos de direção, é notável a maneira segura com a qual Bogdanovich conduz seu filme, com muita noção de timing, enquadramentos bem sacados, habilidade para a construção de tensão, driblando os entraves do baixo orçamento. As cenas com o Karloff são simpáticas e demonstram respeito e gratidão pelo grande ícone do horror que ainda é até hoje, mas é nas sequências com o atirador que o diretor estreante mostra inteligência e originalidade.

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Nunca é revelado de forma clara os motivos que fazem o sujeito entrar num frenesi de violência contra todos à sua volta, mas há um desenvolvimento gradativo sendo pontuado: o personagem aponta um rifle na direção de seu pai num campo de tiro, senta-se no escuro fumando lentamente com um olhar sinistro, pequenos detalhes que insinuam um comportamento estranho do rapaz até culminar na já citada sequência do massacre da família e, logo depois, no alto de uma torre distribuindo chumbo nos motoristas numa rodovia, também daqueles momentos de pura maestria, onde o suspense é criado simplesmente pela decupagem, economia e composição das imagens quase documentais, sem trilha sonora e firulas.

Após TARGETS a carreira de Bogdanovich deslanchou. Desvencilhou-se de Corman e ganhou as graças da crítica e público com A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (71) prosseguindo como um dos diretores mais relevantes do período da Nova Hollywood, no fim dos anos 60 e início dos 70. Ainda que A ÚLTIMA SESSÃO seja sua obra-prima na minha opinião, TARGETS permanece firme e forte como um dos seus trabalhos mais selvagens, interessantes e divertidos, além de ser uma bela homenagem a Boris Karloff e um ótimo estudo sobre o horror e medo dos nossos tempos.

MACHINE GUN KELLY (1958)

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Já devo ter comentado sobre o Roger Corman num dos primeiros posts do blog, mas vale a pena relembrar. Corman foi um dos grandes mestres do cinema B americano, prolífico produtor e diretor de cinema fantástico, western, policial e exploitation de todas as espécies, além de ter revelado vários cineasta como Scorsese, Coppola, Monte Hellman, Joe Dante, e uma lista infindável. Uma de suas principais características é a velocidade na qual realiza suas produções. MACHINE GUN KELLY, por exemplo, teve apenas oito dias de filmagens e faz parte de uma série de gangster movies que realizou na época.

O filme é livremente inspirado na vida de George Kelly – conhecido como Machine Gun Kelly pelo fetiche que tem por sua metralhadora – um perigoso bandido da década de 30, que foi impulsionado pela mulher ambiciosa a trilhar o caminho do crime. Quem encarna o sujeito é ninguém menos que Charles Bronson; e quem pensa que ele era um iniciante naquela época está enganado. MACHINE GUN KELLY era seu vigésimo segundo filme (embora tenha sido seu primeiro com maior importância) e sua interpretação está entre as melhores que o ator já compôs, principalmente no que se refere aos detalhes da construção de personagem, como a fobia pela morte, por exemplo.

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A direção de Corman é inspirada. Com uma simples cena ele resume toda a essência do personagem de Bronson, aquela em que o ator brinca de bater palma com a criança sequestrada. Além disso, a criatividade do diretor para driblar o baixo orçamento é absurda, como no primeiro assalto logo no início, onde mostra apenas a sombra do policial que é baleado pela metralhadora de Kelly numa solução bem simples e muito funcional; isso sem contar os diálogos muito bem colocados no roteiro de R. Wright Campbell (roteirista de várias produções do Corman e de HELLS ANGELS ON WHEELS, de Richard Rush).

Mas MACHINE GUN KELLY possui algumas irregularidades narrativas que decorrem por causa da pressa da produção, do baixo orçamento, o que afeta o ritmo. O filme começa muito bem, mas tem suas decaídas, não preza muito por cenas de ação e tudo isso não permite que o filme saia do limbo preconceituoso que a crítica “séria” tem com os filmes B, pois na verdade nenhum destes detalhes atrapalha a diversão. O fato é que é um ótimo filme e a forma como Corman trata psicologicamente seu personagem é digna de um cinema inventivo muito além de seu tempo.