
OPERAÇÃO DRAGÃO (Enter the Dragon) é um clássico e sobre isso eu não discuto. Sua influência no cinema de artes marciais no mundo todo é evidente. Mas eu sempre brinco dizendo que infelizmente foi logo este filme que se tornou um marco para Hollywood. “Não tinha outros filmes melhores não?” Na verdade, tinha. Existem um milhão de exemplares melhores do período que poderiam ter despertado esse “movimento”. Mas isso é só uma provocação boba. Eu amo OPERAÇÃO DRAGÃO e quero deixar isso bem claro, mesmo com suas falhas. E existe uma infinidade de coisas pra se apreciar aqui e que justificam seu status cult. A principal delas, é óbvio, a presença de um tal Bruce Lee como protagonista.
A história toda foi mais ou menos assim: em 1973, Bruce Lee já era um astro na Ásia, consequência feliz de sua, digamos, incapacidade de se destacar nos Estados Unidos (muita gente esquece que Lee era americano). Limitado à televisão com o seriado O BESOURO VERDE, afastado de um projeto que lhe era querido (a série KUNG FU, cujo papel principal foi dado a David Carradine), considerado “muito chinês” para os papeis que tentava nos EUA no fim dos anos 60… Enfim, Lee se refugiou em Hong Kong e deu início a carreira que conhecemos.

Depois de três filmes, percebendo a oportunidade que perderam, a Warner o chamou de volta para propor uma co-produção com a Golden Harvest, a produtora que o havia acolhido. O filme foi este aqui, OPERAÇÃO DRAGÃO, dirigido por Robert Clouse. Bruce Lee finalmente tinha a chance de conquistar o mercado americano, mesmo compartilhando os holofotes com John Saxon e o estreante Jim Kelly. Teve até carta branca pra cuidar das lutas e coreografias, ou seja, o coração do filme. Até mesmo sua filosofia de combate seria explorada, como por exemplo na sequência inicial, quando luta com um de seus aprendizes (um jovem Sammo Hung) e lhe passa alguns ensinamentos, da mesma forma com um garotinho logo depois… O filme é todo Bruce Lee na sua essência.
Mas aí veio a tragédia. Somado ao fato de que Bruce Lee morreu pouco antes do lançamento de OPERAÇÃO DRAGÃO, sua consagração não apenas como astro do cinema de artes marciais, mas como ícone da cultura pop mundial, ficou garantida. Assim como o sucesso do próprio filme.

Com todos os recursos à disposição, aproveitando a sinergia entre as equipes americana e de Hong Kong, OPERAÇÃO DRAGÃO foi a produção mais “profissional” da curta carreira de Bruce Lee como astro. Mesmo sendo no geral um filme com alma de B Movie, com pegada de história em quadrinhos, um filme de artes marciais com estrutura de James Bond, com uma pitada de blaxploitation… E por aí vai.
Na trama, que todos vocês já conhecem, Bruce Lee interpreta um agente chamado… Lee! Ele é contratado por uma agência de inteligência internacional para descobrir as atividades ilegais do Sr. Han, que patrocina uma competição de artes marciais numa ilha particular que usa como fachada para recrutar agentes para trabalhar no seu império das drogas e tráfico de mulheres.


Ao mesmo tempo, Lee tem outras questões pessoais para resolver na ilha do Sr. Han, já que capangas do vilão foram responsáveis pela morte da irmã do protagonista. Na sua jornada, Lee se junta a Roper (John Saxon) e Williams (Jim Kelly) para quebrar a cara de todo mundo no torneio, ter sua vingança e acabar com os esquemas da quadrilha do Sr. Han.
E é isso, basicamente. Um filme simples, uma trama excêntrica com personagens maneiros e com um bocado de pancadaria, cujo principal objetivo é divertir o seu público. Mas que de alguma forma se tornou um clássico. Bruce Lee esperava, a longo prazo, fazer filmes mais complexos, algo que inicialmente queria infundir já em JOGO DA MORTE, o filme seguinte, que Lee só filmou cerca de 25% e foi finalizado sem ele. Mas o sucesso do filme não exigia algo mais elaborado. Bastava a presença de Lee na tela, fazendo seus movimentos, que o público já estava hipnotizado.


OPERAÇÃO DRAGÃO também é interessante como fantasia estereotipada sobre esse herói não branco, algo que já era perceptível em filmes anteriores de Lee, sobretudo pelo seu jingoísmo, o nacionalismo antinipônico em FÚRIA DO DRAGÃO, ou do confronto contra a supremacia americana em O VÔO DO DRAGÃO, com o massacre de Chuck Norris no Coliseu, um símbolo ocidental. Quase se poderia considerar um ato político a arrancada de pelos no peito de Norris por parte de Lee… E aqui a coisa vai na mesma direção, desde o comportamento sóbrio e puro de Lee, em comparação com os seus amigos americanos (que não hesitam em se fartar de tudo que Sr. Han tem pra lhes oferecer), até a humilhação pra cima de mais um lutador ocidental, vivido por Bob Wall.

Agora a parte negativa. O principal problema de OPERAÇÃO DRAGÃO pra mim é o ritmo e o contraste entre as duas metades de projeção. É um filme que acaba praticamente sofrendo de dupla personalidade. A primeira hora foca mais na trama de espionagem, apresenta esse universo, personagens, que não deixa de ter seu fascínio de um modo geral, mas que ao mesmo tempo é um convite ao sono. Principalmente depois de rever tantas vezes, já acostumado com a história, percebe-se o peso narrativo. O Sr. Han mostrando suas dependências, e os setores de fabricação de droga, à Roper é um troço bem arrastado…
Claro, o arco com o Jim Kelly continua uma maravilha, o rapaz demonstrava porque foi considerado o Bruce Lee da Blaxpoitation – guardando as devidas proporções. E eu até gosto muito da traminha pulp de espionagem que temos aqui, mas só depois de passar um bom período de marasmo, conduzido com um ritmo bem caído, que o filme se transforma num exemplar de ação completo, com os últimos 40 minutos envolvendo Lee e a turma “do bem” numa pancadaria contra uma ilha inteira de bandidos.

Outro problema, que na verdade não é bem um problema, é algo que, pessoalmente, acho que tira um pouco a chance que o filme teria de ser ainda melhor, é o fato de que em OPERAÇÃO DRAGÃO o personagem de Bruce Lee é bom demais na porrada. E não tem ninguém que esteja no mesmo nível. Não só aqui, mas em qualquer filme que isso aconteça é algo que não curto. Perde um pouco a graça. Óbvio que é legal vê-lo esmurrando um exército inteiro de capangas, mas não vai ser uma salinha de espelhos ou lâminas no lugar da mão que vai te ajudar a derrotar o herói… No fim das contas, o personagem de Lee não tem páreo e derrota todos nessa sua jornada com uma facilidade quase frustrante.
Só não chega a ser realmente frustrante porque aí entra o trabalho do Robert Clouse, que tava muito inspirado quando filmou OPERAÇÃO DRAGÃO, e consegue entregar uma boa dose de cenas de pancadaria e do uso da imagem icônica de Bruce Lee como artista marcial. Há duas cenas de destaque: primeiro, na base do vilão, depois de se esgueirar pelos seus esconderijos, temos a luta (parcialmente em câmera lenta) de Lee sozinho contra uma horda de agressores (incluindo um jovem Jackie Chan) surgindo de todos os lados do quadro. É um deleite ver Bruce Lee no centro da tela a mover e desferir seus golpes, com seu momento nunchaku… Um clássico.

E depois no duelo final com o Sr. Han. Sei que já reclamei que o vilão final não é páreo para o herói, mas, nossa, ainda causa impacto o uso dos espelhos e a maneira como Clouse conduz essa surra toda. Tudo bem, Bruce Lee levas uns cortes. Passa o dedo na ferida, lambe, outro momento icônico… No fim das contas é isso que importa. A imagem cristalizada de Bruce Lee fazendo poses que se tornariam objeto de culto no imaginário pop. Todo o restante é secundário, exceto a partitura de Lalo Schiffrin sempre muito elegante. E claro, a presença de John Saxon, um ator que adoro e que tá ótimo aqui (apesar de não ser ligado ao gênero, o sujeito tinha background em artes marciais), Jim Kelly mostrando potencial, um jovem Bolo Yeung quebrando a espinha de um adversário, entre outras figuras do cinema popular de Hong Kong. Mas OPERAÇÃO DRAGÃO é Bruce Lee até o talo e não seria a mesma coisa sem ele.


Assim, quando o vilão é eliminado e os créditos finais começam a rolar, OPERAÇÃO DRAGÃO não deixa dúvidas dos motivos de seu sucesso, de ter sido repetidamente copiado pelo cinema de artes marciais nas décadas seguintes, sobretudo em Hollywood, tentando recriar a sua magia original mesmo que, como disse na abertura do texto, existam filmes muito melhores nessa mesma época. Em 2023 o filme completa 50 anos e continua uma sessão obrigatória de tempos em tempos.

