A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 (1988)

Apesar de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985) continuar firme como um dos grandes filme de zumbis dos anos 80, sua primeira continuação sempre carregou uma fama um bocado ingrata. A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 (Return of the Living Dead: Part II) nasceu cercado de desconfianças, rejeição e chacota, muito por não contar com Dan O’Bannon e por trocar o equilíbrio perfeito entre horror gráfico e humor ácido por algo mais cartunesco, um tom de comédia mais infantilizado. Ainda assim, revendo hoje depois de mais de trinta anos, sinto que o filme mereça uma reavaliação menos raivosa.

Uma continuação que nunca quis ser continuação

Foi dirigido por Ken Wiederhorn (já comentei filme dele aqui, UMA CASA NA COLINA, com o Michael Madsen), gosto de algumas coisas dele e, embora tenha feito um nome com filmes de horror – bom, pelo menos para os entusiastas do gênero que o conhecem – o sujeito nunca escondeu sua pouca afeição pelo gênero horror. Há uma entrevista com ele de 2013 que abre com o entrevistador surpreso por saber que ele não curte tanto filme de terror. E o sujeito responde:

Não é que eu não goste, é só que não era algo que eu queria fazer quando comecei. Aqui funciona assim: quando uma porta se abre, você atravessa. Mesmo que isso signifique fazer um filme num gênero pelo qual você não tem um interesse particular. Então, não posso dizer que eu tenha um interesse profundo por horror, mas foi o que eu consegui fazer. É o que é.

E assim, dos sete filmes que tem no currículo, quatro são de horror e o CASA NA COLINA, que é um thriller, quase flerta com o gênero. Os outros dois são comédia. Que aliás, nos traz de volta a A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2, que considerei como horror, mas também é uma comédia e que no projeto inicial nem era sequer uma continuação de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS. O roteiro já tinha uma pegada de comédia de horror, mas era independente, sobre um garoto e zumbis. Até que os produtores enxergaram ali uma chance de manter vivo o filme de Dan O’Bannon como franquia.

Daí que provavelmente vêm os remendos que surgem aqui, personagens reciclados com a sensação constante de déjà vu, reforçada pela volta de James Karen e Thom Mathews (acima), agora como Ed e Joey, basicamente versões reembaladas de Frank e Freddy do primeiro filme. É estranho, mas também faz parte do charme torto do filme. Há uma cena em que Mathews chega a comentar que está com sensação de que tudo aqui aconteceu antes. E num outro momento eles recriam o diálogo:

Cuidado com a língua, garoto, se você gosta deste emprego
Gostar deste emprego?!

O mesmo filme… Só que para outra idade

A trama tem suas diferenças, mas é quase um replay do filme original. Um daqueles cilindros que guarda os zumbis meio mumificados se perde, crianças curiosas descobrem e começam a futucar, o gás vaza perto de um cemitério, os mortos ressuscitam, militares entram em cena… Um monte de coisa parecida com o original. A grande diferença está talvez no círculo de personagens centrais. Saem de cena os punks, entra a fantasia suburbana infantil. Jesse, o protagonista mirim, ocupa o centro da história, e o filme se alinha mais a uma lógica de “criança enfrentando seus pesadelos” do que o niilismo desesperado do primeiro longa. Não por acaso, o terror aqui nunca pesa de verdade. A violência existe, os zumbis comem cérebros, mas tudo é filtrado por um humor exagerado, com uma pegada de matinê.

E aí que mora alguns pontos de discussão, o fato desta PARTE 2 abandonar um horror mais pesado em favor de um humor mais bobo, da comédia. Uma mistura que funcionava tão bem no filme de 1985 aqui há um possível e relativo desequilibro. Digo como uma possibilidade e relativizando porque existe gosto pra tudo, tem gente que adora isso aqui e muita gente detesta a maneira como humor desse filme se integra ao horror.

Mas é fato que as piadas por aqui são mais escancaradas, o tom é mais infantilizado, e muitas cenas flertam com o pastelão. De que lado eu fico no meio desse entrave? Eu acho que na maior parte do tempo funciona, especialmente se já tiver em mente que a proposta do filme é essa. Pra mim, diverte. Há bons momentos com gags que misturam violência num estilo cartunesco, como a da cabeça decapitada do zumbi mordendo o dedo de um dos personagens, ou a cena em que Suzanne Snyder soca um zumbi até ele virar um chafariz de gosma verde.

A ovelha negra da família

Agora, é evidente que nem tudo vai funcionar. Num bom dia talvez eu abra um sorriso pro zumbi imitando o Michael Jackson no clip de THRILLER no final… Mas às vezes o humor por aqui só soa preguiçoso mesmo. E o tom infantil, a falta de risco dramático esvazia qualquer tensão real que o filme poderia ter. E mesmo assim não é nada absurdo que estrague a experiência. O clima de horror leve, meio bobo, acho que funciona bem como porta de entrada pro subgênero. Inclusive, lembro de assistir quando criança, tenho quase certeza que foi o primeiro filme de zumbi que vi na vida, passava na TV aberta em plena tarde…

Acho injusto que tenha fracassado nos cinemas, foi massacrado pela crítica e jamais ganhou o status cult que outros filmes ruins, ou excêntricos, conquistaram. Mas revisto hoje, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2 é melhor do que sua reputação indica. Não é um grande filme, mas é um bastardo da franquia. Um corpo estranho que diverte mais do que deveria, especialmente se visto sem a sombra sufocante do original. Os efeitos práticos são divertidos, os zumbis animatrônicos são um barato. Ken Wiederhorn até pode não estar muito inspirado com a câmera por aqui. Mas a fotografia pelo menos é de Robert Elswit, futuro colaborador de Paul Thomas Anderson, vencedor do Oscar por SANGUE NEGRO. O sujeito dá ao filme um visual muito acima da média para uma continuação descartável dos anos 80.

Nunca vai superar e nem chega perto do primeiro. Até porque o original, como já disse, é um dos melhores filmes de zumbi dos anos 80, então acho que é compreensível. No entanto, como toda ovelha negra decente, ele sobrevive quando abandonamos a má vontade e o encaramos pelo que realmente é: um filme errado, curioso e melhor acabado do que muitos cadáveres dos anos 80. Já nos anos 90, teve A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 (1993), do grande Brian Yuzna, e em 2005, já na era direct to video, vieram RETURN OF THE LIVING DEAD: NECROPOLIS e RETURN OF THE LIVING DEAD: RAVE TO THE GRAVE. Esses dois últimos nunca vi, mas tem cara de bomba…

UMA CASA NA COLINA (1993)

Fui assistir a esse filme pelo Michael Madsen, do qual sou grande admirador e acho um talento desperdiçado, mas acabei curtindo UMA CASA NA COLINA (A House in the Hills), pequeno thriller do diretor Ken Wiederhorn (já falo dele mais adiante), mais pela protagonista, Helen Slater.

Quando ela aparece na tela fiquei com a quela impressão na mente “onde já vi essa atriz?“. Fui ao google e pimba, é a Supergirl dos anos 80. Já tinha apagado da memória esse filme, mas quando eu era moleque nos anos 80, devo confessar que a Slater naquele collant azul, a mini saia vermelha, aquele cabelo esvoaçante, combatendo o crime com super poderes, já despertava algumas fantasias precoces…

Eu sei, eu sei, essa provavelmente não é a melhor maneira de começar um texto, sobretudo na época atual em que vivemos, mas eu acho que ainda posso olhar para uma atriz num filme e admirar sua beleza sem parecer um tarado, certo? É difícil, mas dá. Mas não vou transformar isso aqui numa defesa sobre o assunto. O cinema me faz olhar pra essas beldades, como a Helen Slater, num estado de fascinação e contemplação. Mas se você achar que eu sou machista ou sexista pelo fato de uma das razões de ver UMA CASA NA COLINA é a chance de assistir a Supergirl de topless na frente de um espelho por uns trinta segundos, você deve ser um homem melhor do que eu.

Foda-se, vamos ao filme. Slater interpreta uma atriz de Los Angeles que está cansada de trabalhar como garçonete para sobreviver. Com uma audição para o papel numa novela chegando, uma amiga oferece a ela a oportunidade de tomar conta da casa de um casal rico no fim de semana, pra que ela possa ter paz e sossego.

Só que ela não é informada de que um assassinato aconteceu na casa ao lado na noite anterior. E quando os donos da casa vão embora, eles acidentalmente levam a bolsa de Slater com eles, o que significa que ela tem que subir as escadas até o quarto e experimentar algumas de suas roupas… Ei, é um trecho crucial do enredo!

Enfim, o fim de semana da nossa protagonista dá uma guinada para pior quando ela deixa entrar um exterminador de cupins (Michael Madsen) apenas para descobrir que ele é um criminoso querendo, à princípio, extorquir dinheiro do casal rico (a coisa é bem mais complicada que isso). E como ela está vestida com roupas de madame, o sujeito pensa que ela é a dona da casa. Mas à medida que a história se desenrola entre bandido e refém, a situação começa a ficar um bocado romântica, é claro.

Não querendo dizer que a trama realmente melhora, mas para o meu gosto pessoal, que adora umas tralhas sem noção com cara de “Super Cine”, é preciso dizer que ao menos as coisas ficam mais intrigantes quando surge em cena um vizinho pedindo um vinho pra uma festinha. Na verdade, o sujeito se revela o serial killer que está degolando as madames ricas da região. E tudo fica ainda mais caótico quando o casal rico retorna pra casa, gerando uma confusão danada…

A atuação de Slater é bem boa, expressiva, e, como disse, acabei curtindo o filme por conta dela. Mas em termos de talento dramático, obviamente Michael Madsen é quem sabe das coisas. Digo que é um dos atores mais desperdiçados porque sua carreira nunca andou de acordo com o nível do seu talento. Foram os raros momentos em que esteve em produções que realmente lhe exigiam algo a mais (graças, na maior parte das vezes, ao Tarantino) e acabou relegado ao cinema B em centenas de filmes. O que pra mim é algo positivo, porque eu devoro esse tipo de material. Mas o cara merecia mais. É um dos grandes herdeiros do Robert Mitchum ao lado de Mickey Rourke e aqui, se não tem lá uma atuação digna de Oscar (e não tem mesmo), pelo menos ele demonstra bem porque é digno dessa herança Mitchuniana.

Como o filme é basicamente esses dois personagens e a relação que estabelecem nesse único ambiente, o resultado foi divertido de acompanhar.

Sobre o diretor, esse cara de nome estranho, Ken Wiederhorn, surgiu como um talento por trás de obras de terror e suspense como SHOCK WAVES (1977) e EYES OF A STRANGER (1981). Também dirigiu A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 2. Enfim, tem uma filmografia curta, mas com algumas coisinhas bacanas… UMA CASA NA COLINA foi seu último longa e não é exatamente um canto de cisne pra se orgulhar. O filme não tem nada de espetacular. Longe disso. Não é tenso o suficiente, não tem atmosfera, o aspecto é de filme barato feito pra TV, não tem absolutamente nada de mais. Mas tem esses dois atores que eu gosto, tem a Supergirl de topless (e a bunda do Madsen, pra não me acusarem de nada, vou até colocar uma imagem abaixo), então tem pra todo mundo… E pra quem curte um thrillerzinho B, de curta duração, pra passar um tempinho, vale conhecer.