ALDRICH – PARTE 3: 1961 – 1965

O ÚLTIMO PÔR DO SOL (The Last Sunset, 1961)
Talvez seja o primeiro (e único?) filme hawksiano do Aldrich. Temos um grande rebanho sendo transportado, dois homens divididos pela mesma mulher… Só faltou o companheirismo masculino, que aqui dá lugar às figuras habituais de Aldrich, homens incapazes de conviverem no mesmo espaço por muito tempo e cuja sobrevivência depende da morte do outro. É também um misto de western com tragédia grega: o enredo é simples, as motivações humanas básicas, Kirk Douglas é o pistoleiro solitário numa jornada pela mulher que amou em outros tempos, espiritualmente atormentado, que se veste de preto e filosofa poeticamente sobre a vida. O filme introduz, possivelmente pela primeira vez em um faroeste, a sugestão de incesto, com a culpa resultante levando a algo que é virtualmente um suicídio. O roteiro de Dalton Trumbo é bom, pena que é dirigido de maneira um tanto pesada pelo Aldrich, que tenta voltar às raízes depois dos fracassos que teve na Europa. Mas O ÚLTIMO PÔR DO SOL não deixa de ser bacana, tem uma série de momentos excelentes, grandes atuações de Hudson, Dorothy Malone, Joseph Cotten e Carol Lynley… Mas obviamente que o grande destaque é Kirk Douglas, que canta Cucurrucucú Paloma em espanhol, que é desses momentos que torna um filme menor como este aqui em algo sublime.

SODOMA E GOMORRA (Sodom and Gomorrah, 1962)
Lot (Stuart Granger) conduz seu povo para um vale fértil adjacente às cidades de Sodoma e Gomorra, locais de vício e corrupção governados pela impiedosa Rainha Bera (Anouk Aimée). Quando Lot ordena que uma represa seja rompida para evitar a destruição das cidades pelos atacantes helamitas, a rainha, em gratidão, permite que o povo de Lot se estabeleça em Sodoma. No entanto, em breve, o verniz da civilização começa a desmoronar à medida que Lot e os hebreus são corrompidos pelos sodomitas.

Fico imaginando se tivessem esperado uns 10 anos pra filmar, se o Aldrich não teria transformado isso aqui numa autêntica Sodoma e Gomorra, com imagens mais torpes e fesceninas… Claro, os filmes épicos já tinham saído de moda nos anos 70, mas quem sabe? Para um filme de 62, no entanto, ainda dá pra chamar de exploitation bíblico: temos uma belíssima sequência de batalha sangrenta, cenas de tortura, insinuações de incesto, homossexualidade, e a famosa passagem da destruição das duas cidades vinda dos céus, dignas dos melhores disaster movies, e que teve direção de segunda unidade de ninguém menos que o maior de todos: Sergio Leone. Tudo isso acaba fazendo valer o filme, mesmo com a longa e desnecessária duração, com vários momentos que eu não sentiria falta se tivessem dado uma enxugada no corte final…

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962)
Duas envelhecidas atrizes de cinema vivem como reclusas em uma casa de Hollywood. Jane Hudson, uma bem-sucedida estrela infantil, cuida de sua irmã paralítica Blanche, cuja carreira, nos últimos anos, eclipsou a de Jane. Agora, as duas vivem juntas, com seu relacionamento afetado por pensamentos subconscientes de inveja mútua, ódio, vingança e loucura. E colocar Bette Davis e Joan Crawford, que se odiavam fora das telas, para se odiarem também na frente das câmeras, foi uma dessas sacadas lendárias que fez esse pequeno horror psicológico do Aldrich se tornar o monumento que é. Mas foi também uma maneira das duas atrizes se manterem relativamente relevantes em Hollywood, onde já estavam se tornado figuras esquecidas. Especialmente Davis satiriza de maneira mais feroz e brilhante, não apenas sua própria persona, mas o favoritismo ao culto à juventude.

O filme fez bem para as carreiras de ambas naquele momento, Davis inclusive teve mais uma indicação ao Oscar com este trabalho, a sua décima primeira. Sua atuação, exagerada, insana e colossal é realmente a melhor coisa de um filme que já seria ótimo só pela forma como Aldrich conduz o que se passa aqui, um estudo de como deixar o espectador agoniado… É definitivamente um dos filmes mais tensos e nervosos que existe e eu revi roendo as unhas do início ao fim.

OS QUATRO HERÓIS DO TEXAS (4 for Texas, 1963)
Com a diligência destruída, mas recheada com $100.000 em dinheiro e moedas de ouro, os passageiros rivais Zack Thomas (Frank Sinatra) e Joe Jarrett (Dean Martin) formam uma aliança instável depois de sobreviverem a uma emboscada do impiedoso bandido Matson e seus fora da lei. No entanto, na movimentada cidade de Galveston, Texas, as coisas estão prestes a tomar um rumo pior, já que ambos os rivais têm como objetivo administrar o mesmo cassino decadente à beira do rio. Não é dos melhores trabalhos que vamos encontrar na carreira do Aldrich. O ritmo é meio caído, o diretor não parece muito disposto em gastar muita energia nisso aqui (talvez por não ter se dado bem com o Sinatra)… Mas até que valeu a pena conhecer, em especial pelo elenco, impossível não se divertir com Frank e Dino no provável único filme que fizeram juntos que não são amigos na trama. Ursula Andress e Anita Ekberg são estonteantes e ainda temos Charles Bronson como bandido. Há até uma pequena sequência na qual os Três Patetas participam… Tá certo que o filme depende um pouco da aceitação do público pelo tipo de material que o Rat Pack produzia. Eu gosto, então tá bom pra mim. Como trabalho do Aldrich, até pode ser um filme menor, mas como um veículo pra dupla Frank & Dino, funciona.

COM A MALDADE NA ALMA (Hush… Hush, Sweet Charlotte, 1964)
Uma senhora reclusa, atormentada por uma horripilante tragédia de família, mergulha na loucura após a chegada de uma parente que há muito não a via. O filme “irmão” de BABY JANE. Tem várias coisas similares em ambos, é outro thriller psicológico estrelado por duas atrizes mais experientes e reviravoltas que seguem o mesmo padrão… Mas se em BABY JANE era Bette Davis que brilhava – e aqui ela continua maravilhosa – quem rouba a cena desta vez é Olivia De Havilland, num papel cheio de nuances que escondem sua verdadeira face. Também é o filme mais violento de Aldrich até aquele momento que, para além do domínio da atmosfera do horror, da tensão, temos alguns momentos bem chocantes, com direito à mão de um jovem Bruce Dern sendo decepada por um cutelo de forma explícita na tela.

O VÔO DA PHOENIX (The Flight of the Phoenix, 1965)
Uma aeronave de carga cai em uma tempestade de areia no Saara com alguns homens a bordo. Um dos passageiros é um projetista de aviões que tem a ideia de arrancar a asa não danificada e usá-la como base para uma aeronave de reposição que eles precisam construir antes que alimentos e água se esgotem.

Um dos filmes mais famosos do Aldrich, que não acho que seja dos seus melhores, apesar de ser sempre bom rever isso aqui. Desses filmes clássicos de desastre/sobrevivência, todo correto, bem feito, divertido e mais uma aula de Aldrich, com seu talento para retratar a violência das relações humanas, como faz na maioria de seus filmes. O truque aqui reside nos personagens, grupo de homens sujos, feios e moralmente questionáveis… Temos lutas por poder, discussões enlouquecidas, más decisões e, acima de tudo, a habitual descida à insanidade. Dava pra gastar um bom tempo analisando os personagens, mas destaco o piloto teimoso e pessimista de Stewart – uma das suas atuações que mais gosto – amargurado por não conseguir manter o avião no ar e muito determinado a contradizer a maioria dos planos sugeridos; o personagem do capitão do Exército de Peter Finch, relutante em abrir mão de sua posição de comando e seu entrave com um subordinado covarde; e o alemão misterioso (Kruger) que torna-se megalomaníaco quando percebe que seu plano mestre para a sobrevivência depende inteiramente dele – o que o torna o homem mais importante do grupo, mas cuja autoridade desperta em alguns lembranças de uma guerra não tão distante… E assim o filme avança para uma mistura cativante de luta pelo poder, conto episódico de sobrevivência e saga do triunfo do espírito humano. Sim, eu sei, é muita coisa pra lidar num único filme, especialmente sem cenas mais movimentadas de ação para animar as coisas. E reconheço que talvez falte um tempero especial por aqui do nosso amigo Aldrich. Já o vimos ser mais ousado, mais explosivo. No entanto, a ação reside inteiramente na interação dos personagens, e as performances desse elenco mantêm o filme divertido do início ao fim.

ESPECIAL DON SIEGEL #27: O ÚLTIMO PISTOLEIRO (The Shootist, 1976)

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Tinha convidado alguém pra escrever sobre O ÚLTIMO PISTOLEIRO, mas isso já faz mais de um ano, acabou que a pessoa não me enviou nada e eu também não lembro quem era, então tanto faz. O importante é dar prosseguimento à peregrinação do cinema de Don Siegel, que chega neste western que carrega, digamos, uma certa importância peculiar. O fato é que três anos depois de protagonizar O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o maior ícone do western americano, John Wayne, bateu as botas por conta de um câncer fodido no pulmão e estômago. Este filme aqui, portanto, acabou por ser sua derradeira performance. E não poderia ser mais melancólico que o último filme do “Duke” fosse sobre um velho pistoleiro em fim de carreira chamado J. B. Booker, que descobre que tem um câncer terminal.

Booker só quer viver seus últimos dias da melhor maneira possível. Para confirmar a suspeita sobre sua saúde, visita um velho amigo médico, Dr. Hosteler, interpretado por por outro gigante, James Stewart, e obtém o diagnóstico que confirma seu câncer incurável. Em seguida, aluga um quarto em uma pensão administrada por uma viúva (Lauren Bacall) e seu filho adolescente (vivido por um jovem Ron Howard). Uma vez que Booker é reconhecido pela sua fama, as notícias se espalham pela pequena cidade de Carson City, incluindo sobre a doença, e percebe que não vai conseguir viver o pouco tempo que  lhe resta tão pacificamente como gostaria. Há tanto pessoas que tentam tirar proveito da presença do sujeito, como o agente funerário (John Carradine) que pretende embalsamar seu corpo, ou o jornalista que quer publicar um livro sobre suas façanhas, quanto, obviamente, outros pistoleiros desfrutando da situação para ganhar fama num possível duelo com Booker. Como o sujeito não quer “partir dessa para uma melhor” em agonia, deitado numa cama, a ideia de morrer trocando tiros com quem quer que seja até que não é tão ruim…

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John Wayne, como não poderia ser diferente, é o tour de force de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, está simplesmente sensacional. O sujeito reúne toda a essência da persona que desenvolveu ao longo da carreira vivendo centenas de personagens para transcender em Booker, o cowboy em fim de carreira definitivo. Wayne nunca esteve tão carismático e singelo como aqui, sem perder o jeito durão que o transformou num dos maiores casca-grossas do velho oeste. Mas são os momentos bucólicos e simples que dão força ao filme: os diálogos entre Wayne e Bacall, a relação fraternal que surge entre o protagonista e o jovem Ron Howard e principalmente Wayne contracenando com James Stewart, num desses momentos dignos de antologia.

Don Siegel aproveita todo esse material humano da melhor maneira possível, sem nunca soar piegas pelos temas delicados e nem cair na tentação de transformar a coisa toda num dramalhão sentimental. O filme é até bastante leve e divertido, embora não tenha a energia de outros trabalhos do homem, que foca mais nas performances do elenco. E apesar de atores talentosos, que é realmente o melhor de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o filme não deixa de ter alguns problemas. Depois de um começo sólido, que te cativa, o ritmo começa a cair um bocado, enrola demais e me peguei bocejando lá pelas tantas.

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Rola algumas histórias de que Siegel e Wayne não teriam se dado muito bem durante as filmagens e era comum o ator tentar querer dirigir o filme, atravessando Siegel, reclamando que o projeto merecia um tom mais épico, totalmente fora do estilo mais seco do diretor. Inclusive chegou a queixar e palpitar no tiroteio final, dizendo que seu personagem nunca poderia atirar em alguém pelas costas, que  nunca tinha feito isso na vida, e esse tipo de baboseira. Acho que o “Duke” já estava perdendo a noção, mas O ÚLTIMO PISTOLEIRO volta a melhorar justamente perto do final, quando Books parte na iminência de encarar os seus inimigos à base de chumbo-grosso. E ação do clímax talvez não seja das melhores sequências de tiroteio que o Siegel já filmou na vida, mas é classuda, tensa e sangrenta suficiente pra prender a respiração.

De qualquer forma, o saldo final é muito positivo. O ÚLTIMO PISTOLEIRO pode não ser a melhor despedida, mas não deixa de ser um bom reflexo da mudança dos tempos para um pistoleiro old school adentrando no século XX, e um interessante estudo sobre a aproximação da morte. E vale muito a pena aproveitar o “Duke” numa atuação daquelas!

WINCHESTER 73 (1950)

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Quando estava assistindo ao novo 007 outro dia, em alguns momentos eu me lembrava de WINCHESTER 73, que eu havia conferido um tempinho antes. Os dois não têm nada em comum, obviamente. Só que o primeiro me decepcionou um bocado por causa das cenas de ação e o segundo é praticamente uma aula de direção sobre o assunto. Um Western dos mais originais que eu já vi, dirigido pelo grande Anthony Mann e com o sempre competente James Stewart no elenco, vivendo um sujeito marcado pelo desejo de vingança, caçando o assassino de seu pai. O filme ainda tem em seu elenco Shelley Winters, além de Rock Hudson e Tony Curtis no início de suas carreiras.

Na trama, Stewart é um excelente atirador, mas seu oponente também não deixa a desejar, como é mostrado logo no início numa disputa de tiro ao alvo na festa de uma pequena cidade, cujo vencedor leva como premio a belíssima winchester que dá nome ao título. A grande sacada do roteiro é colocar a winchester como protagonista de uma jornada pelo oeste americano. O personagem de Stewart ganha o prêmio que disputou no início, mas logo em seguida sua recompensa é roubada e a arma vai passando nas mãos de bandidos, índios, cowboys, casacas azuis, em vários locais e situações, sempre causando sentimentos de cobiça e espalhando a morte como um verdadeiro personagem de carne e osso. A narrativa escolhe sempre acompanhar o caminho que a arma faz ao invés de seguir os atores de maneira definida. Acaba transformando-os em meros coadjuvantes.

A forma como Anthony Mann se preocupa com um projeto deste tipo demonstra uma segurança exemplar. O único outro filme do diretor que eu havia visto é Um Certo Capitão Lockhart, também com Stewart, e não tão bom quanto este aqui, mas vale a pena. Mann parece ser um desses diretores para se pegar a filmografia inteira e assistir tudo. Em WINCHESTER 73, ele transforma os planos mais simples ou pequenos movimentos de câmera em cinema puro, como no genial duelo final entre Stewart e seu oponente. Um dos grandes momentos do western, sem sombra de dúvida. Se for sempre assim, Mann corre o risco de se tornar um dos meus diretores de cabeceira.