5 HAWKS MENOS CONHECIDOS

20th CENTURY (1934)
Depois se dedicar a uns filmes de guerra, crime, dramas românticos, que até possuíam um tom de humor em alguns momentos, finalmente Hawks faz sua primeira comédia pura no cinema sonoro. Na trama, um temperamental produtor da Broadway (John Barrymore) toma sob sua guarda uma atriz iniciante (Carole Lombard) e se apaixona por ela. Mas a vida hiper controlada faz com que ela fuja e se torne uma das maiores estrela de cinema. Agora, todos a bordo de um mesmo trem, ele tenta reconquistá-la, o que não vai ser fácil. Hawks não decepciona, repleto de cenas impagáveis e com dois protagonistas inspirados e realmente engraçados (Barrymore sobretudo está inacreditável, entrega uma das grandes performances cômicas do período, genial até nos excessos), é uma grande festa para fãs de screwball comedies, em especial por se tratar de um dos pontos de partida do gênero e ser dirigido por um dos seus maiores mestres.

BARBARY COAST (1935)
Uma moça (Miriam Hopkins) chega do leste e descobre que o seu noivo, que lhe esperava, foi morto. Ela acaba tendo que trabalhar na casa de jogos de Luis Chamalis (Edward G. Robinson), um local turbulento da São Francisco na década de 1850. Quando ela se apaixona por um minerador poeta (Joel McCrea), as coisas começam a se complicar, porque Chamalis não vai entregá-la tão fácil… De alguma maneira, este aqui é o primeiro Western do Hawks, ainda que fora do tradicional. No centro da trama temos mais uma variação habitual do diretor no drama romântico com uma forte figura feminina dividindo as atenções de dois homens. Mas aqui me peguei mais interessado na paisagem, numa São Francisco submersa em névoa, e nas subtramas, a do jornal local, os vigilantes, os personagens secundários, como o do grande Walter Brennan… Segundo filme do Edward G. Robinson com Hawks. Ótimo como sempre.

CEILING ZERO (1936)
O cotidiano perigoso, e muitas vezes trágico, de alguns pilotos veteranos de guerra que estão trabalhando em uma companhia aérea é o tema central desse filme mais rotineiro do Hawks, apesar de ser bom de acompanhar, com os personagens hawksianos que estamos acostumados a ver, com os temas habituais do diretor. Mas tirando um ou outro momento mais inspirado, como a sequência do pouso às cegas – uma aula de tensão e atuação do elenco – o restante me parece conduzido no piloto automático, muito numa zona de conforto de Hawks. O suficiente pra fazer um bom filme, divertido, mas não para um GRANDE filme. O que tá bom também, normal para um diretor desse calibre, com uma filmografia longa. Nem todos precisam ser obras-primas. Minha única reclamação é que justamente os dois trabalhos que Hawks fez com James Cagney (este aqui e THE CROWD ROARS) resultaram em filmes menores… Essa parceria merecia ter rendido pelo menos algo do nível de PARAÍSO INFERNAL, RIO VERMELHO, HATARI! RIO BRAVO…

THE ROAD TO GLORY (1936)
A história da vida nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial através de um regimento francês. No centro da trama, à medida que os homens são mortos e substituídos, um tenente (Fredric March) torna-se cada vez mais sombrio e seu rival pelo carinho de uma enfermeira (June Lang) é o seu próprio capitão (Warner Baxter). É muito louco ver a filmografia de um diretor como a do Hawks, um sujeito tão autoral, em ordem cronológica e num curto espaço de tempo (este aqui era o décimo quinto assistido em menos de duas semanas)… Corre-se o risco de tudo parecer uma repetição de si mesmo. O que de certa forma é, mas não num mau sentido, porque é a obsessão por certos temas que faz a assinatura do cara ser tão pessoal. Aqui, é mais um filme sobre um grupo de homens lidando com a morte durante uma guerra (THE DAWN PATROL, TODAY WE LIVE), novamente temos dois homens apaixonados pela mesma mulher (TIGER SHARK, BARBARY COAST, TODAY WE LIVE, CEILING ZERO), de novo um deles fica cego (TODAY WE LIVE) e parte para uma missão suicida, um último sacrifício (praticamente todos os filmes que citei)… Mas é só tomar cuidado, que dá pra fugir dessa armadilha. Foi um prazer ver filme a filme do Hawks e sim, perceber suas “repetições”. Este aqui é um sólido filme de guerra, cuja direção de Hawks e o elenco entregam até mais do que era de se esperar do roteiro de William Faulkner. A subtrama romântica nem tem tanta força quando uma boa parte do filme vemos um grupo de personagens hawksianos tentando sobreviver em trincheiras sujas ou em meio à explosões e balas. Enfim, mais um grande filme do diretor. Esse recomendo muito mesmo.

COME AND GET IT (1936), co-direção de William Wyler
Um lenhador ambicioso abandona a mulher que ama para se casar com a filha de um milionário, mas anos depois se apaixona pela filha da sua antiga paixão. Só que agora vai ter que disputar o amor dela com o próprio filho. Concordo com o próprio Hawks que diz, numa entrevista com Peter Bogdanovich, que a história é meio boba, mas é desses exemplares que mostram que um grande diretor pode dar vida até num material desse nível. Os primeiros vinte minutos são Hawks puro: grupo de homens focados num trabalho específico (no caso, lenhadores), sequências semi documentais da profissão (como em TIGER SHARK) e uma sequência de bar que termina numa briga generalizada com o humor hawksiano típico… Depois a trama dá uma caída, ainda sobra a velha situação dos dois homens apaixonados pela mesma mulher. A variação aqui é a que mencionei: os dois sujeitos são pai e filho. No final, percebe-se a mudança de tom, ritmo, cadência, já era o William Wyler quem dirigia (Hawks se demitiu, de saco cheio do produtor Sam Goldwyn, mas uns 80% do filme é dele). Filme irregular, mas bem assistível e com ótimas atuações de Frances Farmer (em papel duplo) e do bom e velho Walter Brennan, na sua segunda colaboração com Hawks, e que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante

MAIS HAWKS

A essa altura, na maratona Howard Hawks que me propus a fazer, já foram 26 filmes conferidos. A velocidade com a qual tenho assistido aos filmes é muito maior do que o tempo que tenho pra parar e postar individualmente sobre cada filme, como no post anterior. Então, vamos de mini reviews mesmo, porque aí dá pra cobrir tudo aos poucos. Aqui vão mais cinco filmes do homem.

THE CRIMINAL CODE (1930)
Depois que um jovem comete um assassinato bêbado, defendendo uma garota, ele é processado por um ambicioso promotor (Walter Huston) e condenado a dez anos. Seis anos depois, esse mesmo promotor se torna o diretor da prisão e oferece ao jovem um emprego como motorista. O rapaz se mantém íntegro no local, mas às vésperas de sua liberdade condicional, um companheiro de cela o arrasta de volta ao mundo da violência, e ele enfrenta escolhas difíceis de fazer… O único problema do filme é a forçada história de amor que surge no final entre o jovem e a filha do promotor, que quase coloca tudo a perder. Mas no geral ainda é um drama prisional bem forte, um olhar duro sobre o efeito que o sistema de justiça criminal pode ter sobre os homens apanhados por ele. Hawks explora mais as possibilidades do cinema sonoro, testando o que fazer com isso. A abertura do filme, com dois detetives tendo um desacordo prolongado sobre as regras de um jogo de cartas a caminho da cena do crime e a capacidade de Huston de transformar um simples “Yeah?” em uma espécie de mantra é algo para se contemplar. Hawks conta uma história muito mais dependente de diálogos e o resultado é bem sólido. Ajuda muito ter um ator do calibre de Huston num desempenho magnífico.

Boris Karloff, num papel pré-Frankenstein, tem pelo menos uma cena memorável, a do assassinato do delator, que aproveita muito bem a sua fisicalidade e expressão corporal. A forma como se move pelas salas com uma graça pesada e aterrorizante é o tipo de coisa que eu não duvido que possa ter influenciado na hora de escalarem Karloff como o famoso monstro no ano seguinte.

SCARFACE (1932)
Esse aqui merecia um texto mais longo. Mas fica pra depois. Por enquanto, a gente ressalta que se trata da primeira obra-prima de Hawks. A trama é obviamente inspirada em Al Capone e é um trabalho definitivo sobre a ascensão e queda de um mafioso com fome de poder. O filme ficou famoso na época por causa da controvérsia e pela violência nessa escalada de poder do protagonista, mas resistiu bem ao teste do tempo (mesmo depois de algumas revisões, apesar de que fazia uns bons anos que não revia), por causa do forte roteiro, as ótimas atuações do elenco, sobretudo um Paul Muni explosivo, e a direção – já magistral a essa altura – de Hawks. Um filme de gangster essencial.

THE CROWD ROARS (1932)
Um famoso campeão de automobilismo (James Cagney) retorna à sua cidade natal para competir em uma corrida local e descobre que seu irmão mais novo tem aspirações de se tornar um campeão de corrida, ao mesmo tempo em que tem que lidar com uma relação amorosa complicada. É outro trabalho do Hawks que tem uma subtrama de amor cego que me tira um pouco do filme (lembram de FAZIL que comentei no outro post?). Mas, no fim das contas, é um filme de 70 minutos que não consegue se aprofundar em muita coisa, acaba sendo divertido de se ver, em especial pelas sequências muito bem feitas de corridas de carro, que tem um senso de tensão e tragédia muito forte. Primeiro filme que Hawks utiliza Cagney, que tá excelente como sempre.

TIGER SHARK (1932)
Esse aqui é um filmaço do Hawks que eu não conhecia. A trama é sobre um pescador de atum português que se casa com uma mulher cujo coração fica dividido entre ele e o seu primeiro imediato no barco. Junto com THE DAWN PATROL, provavelmente é o filme mais puro do Hawks deste período, tem muito dos seus temas habituais, os tipos de personagens e os tipos de valores que ele respeita. Uma colônia unida de homens no trabalho, arriscando a vida, tendo se acostumado com despedidas sem saber se voltam. As sequências de pesca, semi documentais, são tão boas quanto as sequências de ação que Hawks fazia até aquele momento. Mas a alma do filme é o grande Edward G. Robinson interpretando o pescador português maneta, num desempenho magnífico.

TODAY WE LIVE (1933)
Sem dúvida um belo filme. Só demora um bocado pra chegar lá. Começa como um melodraminha bobo, sobre uma moça (Joan Crawford) que se apaixona por um piloto de caça (Gary Cooper) durante a primeira guerra mundial, mas que é dado como morto, então ela vai pra guerra como enfermeira – ou algo do tipo – e se casa com o melhor amigo do seu irmão, até que descobre que o piloto, na verdade, está vivo… Enfim, uma confusão. No entanto, essa traminha de alguma forma ganha força e eventualmente se transforma em um sólido drama romântico com alguns temas habituais do Hawks: um triângulo amoroso em meio à guerra, missões que envolvem sacrifício, homens disputando pra ver quem tem o pau maior… Coisas do tipo.

Sabe-se que a personagem de Crawford foi empurrada à força na trama, os produtores a tinham sob contrato e pediram a Hawks para incluí-la (o roteiro foi escrito por William Faulkner e não tinha a sua personagem). Ela tá até bem, mas as coisas nem sempre acontecem de maneira orgânica (a forma como se apaixona pelo personagem de Cooper é muito esquisita). O filme fica realmente interessante quando os dois homens que disputam seu coração começam a se desafiar, colocando suas vidas em risco além das linhas inimigas. As cenas de ação, tanto pelo ar, quanto pela água, são de encher os olhos. Hawks voltaria a trabalhar com Gary Cooper algumas vezes ainda…