ALDRICH – PARTE 1: 1953-1955

Ando assistindo neste início de ano aos filmes do diretor Robert Aldrich. E aqui vão uns comentários sobre:

BIG LEAGUER (1953)
Primeiro filme dirigido pelo homem. Não há muita coisa a se destacar, o próprio Aldrich dizia que o material não era pessoal, não indicava muito o que queria expressar no “meio cinematográfico”. Mas também não é de se jogar fora. É um draminha decente de esportes, sobre jovens que participam das peneiras de um time de baseball com o sonho de chegar às grandes ligas; o companheirismo que surge entre os atletas nesse universo competitivo, e etc… Mas as melhores partes acabam sendo a que tem o grande Edward G. Robinson em cena, bem à vontade, como treinador com bom senso de humor, fazendo suas expressões e, num dos momentos mais inspirados, dançando ao som de uma jukebox. E o filme tem pelo menos uma cena que já indicava o talento do Aldrich, a que um dos jovens desiste de ir embora de ônibus e a câmera acompanha – num enquadramento e movimento interessante pra época – as costas da mocinha que havia tentado convencer o rapaz de ficar… Longe de estar no nível dos grandes filmes do diretor, mas como trabalho de estreia até que se sai bem.

PÂNICO EM SINGAPURA (World for Ransom, 1954)
É meio que um rascunho de A MORTE NUM BEIJO (1955) de alguma maneira. Mas pode-se dizer que a carreira de Aldrich, com suas peculiaridades, começa aqui, nessa mistura de film noir com spy movie num território exótico, em Singapura, quando um detetive particular e as autoridades britânicas estão na cola de uma gangue com planos diabólicos, o que inclui sequestrar um físico nuclear… Aldrich já demonstra seu olhar irônico e às vezes desprezível em relação ao seu herói, algo que se tornaria característico do Diretor. Aqui, esse herói é vivido por Dan Duryea, um caso interessante. Em determinado momento o filme faz questão de mostrar como o cara é durão, badass, mas no fim acaba esbofeteado pela mulher que ama, que o iludiu de várias formas e agora o despreza. É de dar pena. Mas nada mais “aldrichiano” que isso…

Filmado em apenas 11 dias, utilizando os estúdios montados para o seriado CHINA SMITH, também com o Duryea, e que Aldrich chegou a dirigir alguns episódios. Já demonstra um diretor bem consciente visualmente e do universo fílmico que desenvolveria nas próximas três décadas.

O ÚLTIMO BRAVO (Apache, 1954)
Nunca tinha visto esse, embora seja um filme até que bem conhecido pelos fãs de faroeste clássico e dos maiores sucessos do diretor no início de carreira. Me surpreendeu como é bom! Quero dizer, Aldrich com Lancaster é sempre garantia de coisa boa, mas o filme é mais interessante que isso, já possui um caráter de revisionismo histórico que só seria consolidado no faroeste americano quase vinte anos depois. Num período em que os índios eram frequentemente retratados como alvo para levar tiro de cowboy, temos aqui uma perspectiva mais simpática, sobre um Apache obstinado chamado Massai (Lancaster) que travou uma guerra solitária contra os Estados Unidos e se tornou uma lenda tribal. Mas, como estamos num filme de Robert Aldrich, não usaria o termo “herói” para descrevê-lo. É uma figura ambígua, individualista, na qual suas facas, flechas e balas frequentemente atingem soldados brancos de surpresa e até irmãos indígenas. Sem contar o tratamento violento que dá à mulher que o ama… É preciso um esforço tremendo pra amolecer o coração do sujeito. O típico “herói” aldrichiano já tava cristalizado aqui no seu terceiro trabalho como diretor.

Apesar da jornada de Massai ter suas raízes históricas, o roteiro, adaptado de um romance chamado “Bronco Apache”, entrega uma boa dose de ação, fiel à tradição dos westerns, e Aldrich já demonstra muita habilidade na condução. E é um daqueles filmes cujo final, mais otimista, foi imposto pelo estúdio, bem diferente do que era planejado inicialmente pelo diretor… Não chega a estragar a aventura, mas é meio surreal o que fizeram aqui. Mas, como disse no início, o filme foi um sucesso. Então quem sou eu pra reclamar? Lancaster e Jean Peters estão excelentes e interpretam seus papéis indígenas com compreensão, sem os estereótipos habituais. Não sou do tipo que vai entrar em discussão sobre atores brancos fazendo “brown face” num filme de 1954, já tem muito crítico de Twitter e Letterboxd por aí chorando por causa disso. É preciso entender o contexto da época pra não ficar falando bobagens e não estregar a apreciação de um belo western como este aqui.

VERA CRUZ (1954)
Gary Cooper, Burt Lancaster, Ernest Borgnine, Jack Elam e Charles Bronson entram em um saloon… É muita gente foda junta no mesmo ambiente. Aí eu não resisto. Os dois primeiros são os protagonistas da aventura, uma jornada pelo México cheia de ação durante a Guerra Franco-Mexicana. Uma relação baseada no equilíbrio entre esses dois monstros sagrados do western americano, no carisma, cada um seguindo um código de honra muito pessoal, suas fraquezas tornando-os ainda mais humanos. Há uma dose de respeito, muita traição, umas mulheres no meio e um cofre cheio de moedas de ouro numa carruagem… Isso aqui tem tanta influência em filmes que vieram depois que não vou nem me dar o trabalho de listar, mas eu não tenho dúvida alguma que Sergio Leone devia ter este filme em alta conta.

A MORTE NUM BEIJO (Kiss Me Deadly, 1955)
Agora, isso aqui é um filme foda! Acho que já tinha uns 20 anos que não assistia e sempre guardei boas lembranças. É difícil esquecer alguns momentos especiais dessa belezinha. Mesmo assim, o impacto foi gigante nessa revisão! Não apenas pela trama e seus desdobramentos catastróficos e sombrios – até mesmo para os padrões de um film noir – mas sobretudo pela forma como Aldrich conduz isso aqui, um verdadeiro trabalho de mestre, que mais uma vez influenciou uma penca de filmes que vieram depois. E certamente é um dos seus filmes mais brilhantes, modernos, surpreendente em cada detalhe, cada movimento da trama, desde sua magistral sequência de abertura até o desfecho mítico, devastador, um dos mais aterradores da história. Numa noite, Hammer (Ralph Meeker) dá uma carona pra Christina, uma moça que tá fugindo do hospício ali por perto. Uns caras ruins aparecem e fazem o carro dele bater. Quando Hammer acorda meio grogue, escuta Christina sendo torturada até a morte. Depois de finalmente recobrar a consciência, o sujeito decide ir atrás dessa trama maluca, tanto por vingança quanto na esperança de que algo bem grande esteja por trás disso tudo.

Ralph Meeker é brutal como protagonista, leva a lógica do detetive desprezível a outro nível, e a direção de Aldrich é barroca na maneira como compõe suas imagens, agressivas e frequentemente desalinhadas, no uso dos espaços e do preto e branco, que destacam a atmosfera densa e a ameaça difusa que paira sobre uma misteriosa caixa de Pandora no cerne da trama. É a essência do film noir elevada a uma incandescência inigualável. Merecia um texto maior, mas por enquanto fica assim mesmo, só pra registrar que é uma obra-prima sem equivalente no gênero.

A GRANDE CHANTAGEM (The Big Knife, 1955)
O astro de cinema Charlie Castle (Jack Palance) entra na mira do produtor de Hollywood, Stanley Hoff (Rod Steiger), quando se recusa a assinar um novo contrato. Castle tá cansado da baixa qualidade dos filmes do estúdio e quer começar uma vida nova. Enquanto sua ex-esposa o apoia na decisão, o agente de talentos de Castle insiste pra ele reconsiderar. Quando Castle continua irredutível, Hoff apela pra chantagem pra conseguir o que quer. Uma fábula ácida sobre a podridão de Hollywood, com um Jack Palance em estado de graça, vivendo esse astro que vê seu mundo desmoronar, amarrado por um contrato com o diabo – e um Rod Steiger explosivo – e pela culpa por trágicos eventos passados. Um drama anti-indústria forte, com um texto afiado e excelentes atores – e o primeiro filme produzido pela empresa independente Associates & Aldrich – que corta Hollywood até o âmago.

Em breve, volto com a parte 2.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.4 – THE SIXTEEN MILLIMETER SHRINE (1959)

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Este quarto episódio da primeira temporada de ALÉM DA IMAGINAÇÃO já se destaca por ter a maravilhosa Ida Lupino como protagonista. Num papel que remete à Gloria Swanson como Norma Desmond no clássico de Billy Wilder, CREPÚSCULO DOS DEUSES. Só que com os elementos fantásticos que são habituais da série criada por Rod Serling.

Na trama de THE SIXTEEN MILLIMETER SHRINE, temos a velha atriz que não se dá conta de que seu momento já passou, que não tem mais idade para papeis de mulheres jovens e bonitas, ou não quer acreditar nisso… Barbara Jean Trenton (Lupino) descarta totalmente a realidade e vive agora enfurnada na sua sala de projeção, vendo e revendo seus antigos filmes românticos de trinta anos atrás, tentando reviver sua juventude. Seu agente (vivido pelo grande Martin Balsam) teme pela sanidade da mulher, assim como sua criada (Alice Frost), e faz de tudo para trazê-la de volta à realidade, que ela se aceite como a grande atriz que fora e siga em frente como uma artista mais madura, com mais gabarito…

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Mas essa é a vida que ela quer, quando todos eram bonitos e românticos, onde ninguém a confundiria com um estrela de cinema obsoleta. Ela continua assistindo a seus antigos filmes e o mundo continua tentando esmagar seus sonhos, mas tudo o que lhe resta são os sonhos, e então, bem… estamos ALÉM DA IMAGINAÇÃO por aqui, onde coisas estranhas acontecem e os sonhos se tornam reais nos limites dessa fronteira.

Mais uma vez escrito por Serling, o episódio obviamente não possui a sátira ácida do filme de Billy Wilder, embora ambos tenham temas similares. Mas não deixa de ser eficiente nas questões que propõem, como viver do passado ou num mundo de fantasia ao invés de aceitar a dolorosa realidade. Ajuda muito ter uma Ida Lupino sublime como Barbara Jean Trenton, evitando a tentação de imitar o desempenho exagerado de Gloria Swanson, mas fazendo uma estrela do cinema tão obsessiva quanto Norma Desmond em CREPÚSCULO DOS DEUSES. Uma curiosidade, Lupino foi a única pessoa a protagonizar um episódio da série e também a dirigir um outro. Na quinta temporada ela realizou THE MASKS.

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Martin Balsam fazia aqui sua primeira participação em ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Voltaria à série em 1963, na quarta temporada, no episódio THE NEW EXHIBIT.

A direção de THE SIXTEEN MILLIMETER SHRINE ficou por conta de Mitchell Leisen, que é segura e elegante, mas nada especial. Não que o episódio precisasse também… Basta as atuações de Lupino e Balsam para a coisa funcionar. Leisen ainda viria a dirigir mais dois episódios em ALÉM DA IMAGINAÇÃO: ESCAPE CLAUSE e PEOPLE ARE ALIKE ALL OVER, ambos da primeira temporada.

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SEU ÚLTIMO REFÚGIO (High Sierra, 1941)

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Vi outro Raoul Walsh por esses dias, HIGH SIERRA, um filmaço com elementos noir e estrelado pelo Humphrey Bogart, talvez o maior ator que o gênero já teve. Cínico como sempre, mas fazendo um anti-herói, um habilidoso ladrão ao invés do habitual detetive que o consagrou em filmes como O FALCÃO MALTÊS e À BEIRA DO ABISMO, impressiona muito seu desempenho por aqui, na pele de Roy “Mad Dog” Earle. E, convenhamos, companhar um Bogart inspirado torna qualquer filme uma experiência única.

A trama de HIGH SIERRA começa quando Earle sai da cadeia e já tenta emendar um novo golpe: um assalto a um hotel cheio de milionários. Contando com a ajuda de dois cúmplices inexperientes e uma dançarina que se apaixona por ele (Ida Lupino), Earle aguarda instruções em uma cabana nas montanhas, planejando se endireitar após este último assalto. É interessante olhar para Earle, perceber a sua complexidade e peculiaridades. Apesar da “profissão”, o sujeito não é um mal intencionado – embora utilize violência quando precisa. O passado sugere que Earle seja vítima do sistema e por isso se vê obrigado a ajudar uma família que passa necessidades, após perder tudo e tentar a sorte na cidade grande. Um reflexo da própria vida do protagonista, uma maneira de se reconectar com o que realmente gostaria de ser. O filme é sobre Earle tentando aceitar sua identidade, aceitar o fato de que é um bandido e tentar mudar isso é impossível. Continue lendo