HELL HUNTERS (1988)

De vez em quando é legal ir às cegas num filme. Já encontrei muitas pérolas desse jeito. De vez em quando encontra-se também umas porcarias que mereciam continuar no limbo. É o risco que se corre… E eu não fazia a menor ideia do que ia encontrar por aqui em HELL HUNTERS.

Nunca tinha ouvido falar desse filme, mas olhei a capinha dando sopa num streaming, aquele aspecto de filme de ação na selva dos mais vagabundos dos anos oitenta – algo que não resisto – e alguns nomes no elenco me chamaram a atenção: Stewart Granger, Maud Adams, George Lazenby, William Berger… Resolvi arriscar. Tive sorte? Um pouco… O filme não é nenhuma joia, mas também não é abominável. Não diria nem que é um bom filme, mas valeu a pena conhecer essa tralha que até tem suas peculiaridades.

Stewart Granger – que já tava nas últimas aqui, mas que fez de tudo um pouco na Hollywood clássica – interpreta um cientista nazista chamado Martin Hoffmann, fugitivo que se esconde há quatro décadas desde o final da Segunda Guerra Mundial no Paraguai. Em suas experiências locais, ele descobre aranhas cujo veneno poderia ser aplicado em indivíduos, criando um super soldado e, assim, formar um exército indestrutível.

Maud Adams – uma das poucas atrizes a se tornar Bond Girl duas vezes (em O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO e OCTOPUSSY) – vive uma caçadora de nazistas que está no encalço de Hoffman e se casa com o sobrinho dele, interpretado por William Berger, bem aqui no Rio de Janeiro, para se aproximar do nazista. E tome imagens de carnaval, moças de topless e das praias cariocas…

Quando Hoffmann descobre as reais intenções da mulher, ele bota seus capangas para eliminá-la.

Ao ficar sabendo do destino de sua mãe, morta logo após seu casamento, Ally (Candice Daly), que é a verdadeira protagonista do filme, vem para o Brasil para investigar o que realmente aconteceu. Durante sua jornada, a jovem se vê inserida nas selvas implacáveis ​​do Paraguai ao lado de Tonio (o ator brasileiro Rômulo Arantes), um caçador de nazistas arrogante, mas bom de tiro, que trabalhava com a mãe de Ally e a ajuda em sua vingança. Aí acontece o clássico “os opostos se atraem”, com os dois personagens brigando sobre suas diferenças antes de se apaixonarem loucamente.

E à medida que se aproximam da localização de Hoffman, o nazista e seu parceiro no crime, Heinrich (outra ligação do filme com 007, já que este aqui é vivido por George Lazenby, o segundo James Bond), estão planejando levar o tal soro de aranha pra Los Angeles.

Daí já dá pra perceber que foi-se por água abaixo uma das coisas que me fizeram parar pra assistir HELL HUNTERS. George Lazenby não tem lá muito tempo de tela; William Berger tem um pouco mais, mas nada muito expressivo… E Maud Adams é assassinada com menos de trinta minutos. O grande vilão da trama, Stewart Granger, cujo personagem é obviamente inspirado na figura de Josef Mengele, só aparece em alguns momentos pontuais da narrativa.

Não me levem a mal, essa rapaziada tá ótima aqui, mas eu só queria um pouco mais tempo de tela de cada um. Agora, uma coisa que realmente decepciona é que a ideia do tal exército criado fruto dos experimentos de Hoffmann com veneno de aranha acaba sendo uma oportunidade perdida. O plano do cara nunca é levado adiante, então nunca vemos o alcance total do poder do soro.

O que acompanhamos de verdade em HELL HUNTERS, no entanto, não é totalmente de se jogar fora. Candice Daly e Rômulo Arantes conseguem ter algum tipo de química e os outros personagens que vão se juntando a eles acabam criando uma galeria de figuras inusitadas.

E é o tipo de filmes que oferece uma boa dose de ação, com vários tiroteios (incluindo um no funeral da personagem de Maud), explosões e perseguições nas selvas sul americanas, o tipo de coisa que importa. Destaque para a sequência que Maud é perseguida num aeroporto do Rio pelo ator brasileiro Eduardo Conde, que faz um dos principais capangas de Hoffmann.

Há também uma sequência de sexo totalmente gratuita entre os dois jovens protagonistas numa cachoeira. O que nunca é algo descartável…

HELL HUNTERS foi o último trabalho de um diretor austríaco chamado Ernst R. von Theumer, que não possui muitos filmes no currículo, mas que basicamente colocou seus esforços em cinema de gênero na Europa durante as décadas que trabalhou. Aqui, o sujeito joga na tela um pouco de tudo dentre os ingredientes do cinema de exploração só pra ver o que pega. Nem tudo funciona, mas há uma consciência de que isso aqui não tem pretensão alguma de concorrer a um Oscar. Então tem seu charme, há sempre algo maluco ou pelo menos levemente interessante acontecendo. E os momentos que os principais coadjuvantes aparecem ajudam.

É como eu sempre digo sobre esse tipo de produto, HELL HUNTERS não é um filme particularmente bom, mas tem o suficiente pra divertir o seu público definido. Não é chato, não chega a 100 minutos, é feito de forma honesta e barata, com seus vários problemas e imperfeições.

HELL HUNTERS tá disponível de graça no Tubi TV pra quem quiser dar uma chance. Não tem legendas em português, mas nem tudo nessa vida é perfeito…

007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969)

Ainda não assisti ao último James Bond, 007 – SEM TEMPO PARA MORRER, mas lembro que já comentei aqui no blog alguns filmes da série na ordem cronológica:

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO
MOSCOU CONTRA 007
007 CONTRA GOLDFINGER
007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA
e COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES

Todos esses foram estrelados por Sean Connery, vivendo o papel do espião mais famoso do cinema. O filme seguinte é este 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE, que é uma espécie de anomalia na franquia 007. Lembro que quando era moleque, acostumado com os filmes do Roger Moore que passavam exaustivamente nas tardes da TV aberta, achei este aqui muito estranho. Era como se eu não estivesse vendo um filme de 007, o que pra minha cabeça de guri era algo negativo e me sentia enganado… Mas não tenho certeza de quando começou, passei a conhecer mais a mitologia James Bond, e em um certo ponto da vida comecei a me sentir particularmente atraído por essa bizarrice aqui. Ainda assim, vamos notar que tem um bocado de coisas fora do lugar…

A começar pelo herói. Pela primeira vez na franquia oficial, James Bond não foi encarnado por Sean Connery. Mas até aí tudo bem, qualquer um poderia ter assumido o posto e dado sequência na franquia. Só que George Lazenby, a figura escolhida para substituir Connery, acabou fazendo apenas este aqui, o que contribui para o “corpo estranho” que é o filme dentro do cânone do espião britânico.

Lazenby, que foi também o único ator fora da Grã Bretanha a viver o papel (ele é australiano), foi escolhido para ser 007 após um encontro ocasional com o produtor Albert R. Broccoli, que o convidou para fazer uma entrevista e testes de cena. O sujeito era modelo, boa pinta, tinha presença, e, enfim, existe muito material que aborda a peculiar escolha de Lazenby e que vocês podem encontrar por aí para saber mais. Mas antes mesmo de À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE estrear nos cinemas, o ator recusou a sequência, 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS, cujas razões existem versões aos montes: alegou que o espião era muito anacrônico e não estava em sintonia com a contra-cultura da época; outra versão diz que o contrato era muito rígido e exigente, para sete filmes, e ele também queria tentar outros papéis… No entanto, uma das versões mais frequentes que se ouve por aí é de que os próprios produtores se desentenderam com Lazenby, e como a bilheteria de SUA MAJESTADE não foi lá grandes coisas resolveram trazer Sean Connery de volta… 

Outra característica deste sexto filme da franquia que o torna uma anomalia é que ele se esquiva de alguns elementos habituais e dos exageros acrobáticos que a série vinha se definindo ao longo de cada filme até aquele momento. COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES já dava pra perceber que o tom de aventura pitoresca, exagerada e fantasiosa já tinha se estabelecido, com suas vastas sequências de ação cartunescas e tramas mirabolantes. Mas sabe-se lá porquê, parecem ter decidido que SUA MAJESTADE precisava ser um pouco mais sério. E é evidente que ao tentar reduzir os absurdos bondnianos, acaba reduzindo também o que torna filmes 007 o que eles realmente são. Uma das coisas mais significativas pra mim é a falta da música tema durante os créditos iniciais. Temos a canção “We Have All the Time in the World“, que foi a última que Louis Armstrong gravou – e viria a falecer dois anos depois – mas foi a primeira vez na franquia que não incluíram a música nos créditos de abertura (exceto, claro, DR. NO que é tocado basicamente o tema oficial de James Bond).

A própria trama do filme é mais, digamos, intimista, sem grandes ameaças de escala global, como nos filmes anteriores. Bond salva uma mulher que tenta se suicidar em uma praia deserta e acaba se envolvendo com ela. Mais tarde, descobre que ela é a notória Condessa Teresa di Vicenzo , ou simplesmente Tracy (interpretada por Diana Rigg), como gosta de ser chamada, filha do criminoso Marc Ange Draco, que passa a ser um aliado do espião britânico para combater a organização secreta Spectre e, ao mesmo tempo, localizar o paradeiro do chefe dessa organização, Blofeld (aqui vivido de forma maravilhosa por Telly Savalas), que escapou de 007 no filme anterior. Bond se disfarça de genealogista com o pretexto de se infiltrar e investigar a clínica de pesquisa de alergia de Blofeld, no alto dos Alpes suíços. E é basicamente nesse cenário exótico que o enredo transcorre.

Bom, quer goste ou não desse estilo mais pé no chão de Bond, ou do Lazenby no papel principal, definitivamente isso acaba não influenciando o meu gosto pelo filme e pelo personagem em SUA MAJESTADE. Neste universo mais “realista”, o espião se torna mais identificável e, de certa forma, mais carismático pra mim. Acho que, a essa altura, seria complicado explorar de maneira mais próxima a persona de Bond com Sean Connery cansado de viver o personagem, como já era visível em SÓ SE VIVE DUAS VEZES, o que o transformava em apenas um herói acidental. Aqui, com Lazenby, parece ter um certo frescor. Tudo sobre o personagem de James Bond e que tipo de pessoa ele é devido ao que faz é melhor trabalhado. Vê-se claramente suas motivações na trama: encontrar seu arquiinimigo Blofeld e casar com a bond girl Tracy, por quem se apaixona. O que nos leva a outro detalhe bizarro por aqui que o diferencia do que era visto até então, que é o súbito interesse de Bond pela monogamia. O que não impede de realizar a difícil tarefa de ir pra cama com várias mulheres, obviamente. No entanto, por estar apaixonado por Tracy, o filme desenvolve um maior sentido de consequência emocional em comparação aos episódios anteriores nos relacionamentos de Bond. Sobretudo com o desfecho trágico e dramático que o filme possui. Certamente o momento mais sombrio de toda a franquia 007.

Mas além de ser um dos Bonds mais emocionalmente fortes, SUA MAJESTADE também tem algumas das melhores sequências de ação da série. Tiroteios, algumas ceninhas de luta, e MUITAS perseguições. Uma das minhas favoritas é a perseguição noturna de esqui, com Bond descendo pela encosta da montanha onde fica a clínica de Blofeld. O vilão e seus homens o perseguem e Bond tem de suar pra sair vivo do local, matando vários capangas no processo. Não é uma sequência tão extravagante. Como já ressaltei, este filme é um bocado mais “realista”. Mas a ação é ótima, tem um sentido de escala e energia cinematográfica que ainda faz funcionar mesmo mais de meio século depois. Simples, bem filmada e sem frescuras. Essa sequência vai parar num outro cenário onde a ação continua frenética, quando Bond encontra Tracy numa cidadezinha, mas os homens de Blofeld ainda estão atrás dele. Tracy acaba dirigindo no meio de uma corrida de carros e acaba causando um caos na pista. Pra mim, uma das melhores cenas de ação em qualquer Bond Movie.

Há ainda outro momento clássico de perseguição que envolve Bond na cola de Blofeld em um trenó num clímax deflagrador. Enquanto os dois voam numa pista de gelo, Bond tenta atirar em Blofeld e este arremessa granadas de seu próprio trenó. O negócio é que, elogiar a ação de SUA MAJESTADE, é elogiar também seu diretor, Peter H. Hunt, que fazia sua estreia na função por aqui, embora para esse tipo de sequência mais movimentada o sujeito já fosse um mestre, tendo atuado como editor, assistente de diretor ou diretor de segunda unidade em TODOS os 007 anteriores. O cara era bruto! O cinéfilo que aprecia um bom filme de ação old school vai lembrar de um dos maiores clássicos de Hunt, PERSEGUIÇÃO MORTAL (81), um filmaço classudo em que Lee Marvin persegue Charles Bronson num cenário coberto de neve…

Mesmo nos momentos sem ação, Hunt sempre parece saber onde colocar sua câmera para manter as coisas atrativas, seja enquadrando as cenas mais íntimas entre Bond e Tracy ou seja a viagem de helicóptero para os Alpes, na qual ficamos acompanhando tudo o tempo todo com Bond, vendo as imagens das várias estações de esqui próximas de sua perspectiva. Por falar em gente foda, a fotografia de Michael Reed é excelente. Facilmente um dos filmes mais bonitos do espião até aquele momento. Desde a sequência inicial, uma cena de luta na praia, com suas sombras densas e escuras, até as maravilhas das paisagens dos Alpes Suíços, há muito para se olhar por aqui e admirar. John Glen foi o editor, outro cabra foda, que depois também viria a dirigir alguns filmes da série já na fase com Roger Moore e Timothy Dalton. E manda muito bem por aqui, é o Bond Movie mais freneticamente editado até então, muitas vezes utilizando várias câmeras simultâneas para cortar rapidamente entre os planos, especialmente na ação, o que o torna visualmente empolgante. Glen também exibe sua habilidade em montar sequências mais tensas, como a do escritório do advogado Gumbold, bem ao estilo Hitchcock de fazer suspense.

Eu preciso de um pequeno parágrafo que seja para falar do grande Telly Savalas como Blofeld. O sujeito é um vilão e tanto. Segurando seus cigarros do seu jeito característico, exala esse mal diferente de qualquer outro vilão de Bond – certamente diferente de um Donald Pleasance, o Blofeld do filme anterior, que também está genial, mas que não deixa ser uma caricatura. Aqui Savalas faz um trabalho dinâmico, adicionando uma leve camada de ameaça até mesmo numa conversa casual. O primeiro encontro de Blofeld com Bond é um desses momentos especiais do filme. E vale destacar Tracy de Diana Rigg, para além de sua importância no cânone. Ela também parece ser a mais empoderada de todas as Bond Girls do período. É evidente que na ação final acabe de fora, mas ela chega a derrotar um brutamontes sozinha, sem ajuda de ninguém, e ainda é ela quem está ao volante na sequência de perseguição na pista de corrida. O que já é um avanço.

Existem alguns problemas menores em SUA MAJESTADE. O ritmo desacelera um pouco durante um bom tempo na clínica de Blofeld, e a duração do filme acaba parecendo um pouco longa demais. Mas nada que impeça de SUA MAJESTADE ser um dos meus Bond Movies favoritos de toda a franquia. Pode ter lá suas peculiaridades, ser uma anomalia, e até não ter o melhor Bond nele – eu não cheguei a falar muito sobre isso, mas deixo claro que eu até gosto do Lazenby, ele tem presença, um certo charme e é bom nas sequências de ação, mas convenhamos que não chega aos pés de Connery. Entretanto, no que diz respeito ao thriller de espionagem que o filme é e o que representa à mitologia de James Bond, definitivamente 007 À SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE tá numa posição privilegiada no meu ranking 007, um lugar especial onde poucos outros filmes da franquia habitam (um dia eu posto meu top 10 James Bond por aqui)… E olha que eu gosto praticamente de todos os filmes da série do espião britânico. Mas, como dizem os jovens, este aqui é top.