
Também conhecido como NIGHT SIEGE: PROJECT SHADOWCHASER II e novamente dirigido pelo John Eyers. À primeira vista, parece repetir a mesma fórmula do primeiro filme, que comentei aqui outro dia, aquela mistura descarada entre DURO DE MATAR e O EXTERMINADOR DO FUTURO. O que na verdade, não vamos nos enganar… Realmente repete a mesma fórmula. Mas reduzir o filme a um simples exercício de cópia seria ignorar aquilo que ele realmente é, mais um produto típico do cinema direto para vídeo dos anos 1990 que encontra sua identidade nos exageros e numa relação honesta com seus próprios limites. Mas sim, mantém a espinha dorsal do original, apesar de trocar qualquer resquício de ambição narrativa por um conceito ainda mais enxuto.
Quem conhece, sabe. O primeiro é mais pitoresco, com aquela trama absurda cheio de comédia involuntária e um herói improvável na pele de Martin Kove. Já a trama por aqui neste segundo filme existe apenas como pretexto. Temos um espaço fechado, agora deslocado pra um cenário ainda mais simbólico e paranoico, uma instalação nuclear; terroristas invandindo, chantageando Washington com um missel nucelar e novamente um herói improvável (um zelador, que era a ideia original do primeiro filme). O líder dos terrorisstas mais uma veze é um sujeito praticamente indestrutível, com Frank Zagarino retornando, agora não mais como Romulus, mas simplesmente como “o Androide”, que deixa de carregar qualquer verniz mitológico ou existencial e passa a funcionar como uma força bruta, quase abstrata, uma presença destinada exclusivamente a avançar, atirar e resistir. E tirar a camisa pra mostrar o peitoral na primeira oportunidade…

E nessa lógica de ser mais objetiva e direta é que PROJECT SHADOWCHASER II revela sua verdadeira vocação. O filme não tenta desenvolver ideias, apenas quer colocar seus personagens em movimento. As explosões são maiores, o número de corpos aumenta e a encenação da violência é mais espalhafatosa do que no primeiro capítulo, com várias cenas de luta com uma pegada de kickboxer movie, que tava em voga no período. Eyres filma tudo com uma urgência nervosa, e o resultado é um espetáculo de destruição contínua, com explosões, tiros e squibs disputando espaço na tela com os atores.
Essa entrega total ao excesso flerta, em vários momentos, com a autoparódia. O filme é até ambientado durante o Natal e não hesita em transformar símbolos de inocência em alvos, como um papai noel sendo metralhado no ataque inicial dos terroristas, deixando claro que nenhum detalhe é sagrado demais para escapar da carnificina. Existe algo de quase satírico nessas escolhas, como se o diretor estivesse rindo do próprio absurdo da situação enquanto empurra as situações.
Por outro lado, essa simplicidade radical tem seu preço. De vez em quando o filme se aproveita daquela espinha dorsal do primeiro filme e que serve de base por aqui e… Digamos que a sensação de déja vu é inevitável. Diversas situações, resoluções e até o confronto final ecoam de certa forma o filme anterior. A maneira como o Androide é derrotado reforça essa impressão de reciclagem, como se o roteiro estivesse menos interessado em reinventar soluções e mais preocupado em cumprir uma checklist de expectativas do gênero. Expõe uma certa preguiça criativa, mas não chega a comprometer o ritmo e a diversão. Por exemplo, o confronto final entre o zelador e o ciborgue já é recheado de chutes altos ao estilo Van Damme em câmera lenta. Bem mais épico que Martin Kove vs Zagarino no primeiro.

E talvez a maior contradição de PROJECT SHADOWCHASER II esteja justamente no tratamento dado ao seu vilão. Apesar de ser apresentado como uma máquina, o aspecto ciborgue é quase irrelevante. Se não fossem alguns diálogos expositivos e breves planos em ponto de vista digitalizado, nada o diferenciaria de um mercenário musculoso qualquer. Inclusive os chutes do zelador causam o mesmo dano que em um homem normal… Isso esvazia qualquer leitura mais filosófica sobre a relação entre homem e máquina, tão cara às obras que o filme imita. Aqui, a tecnologia não simboliza ameaça ou desumanização, é apenas um detalhe estético.
Ainda assim, seria injusto cobrar profundidade de um filme que nunca se propôs a isso. PROJECT SHADOWCHASER II funciona porque entende seu lugar. Ele é direto, bem fotografado, explora bem os cenários industriais cheios de vapor. É montado com certa precisão e sustentado por uma trilha sonora funcional, que sabe quando acelerar e quando dar espaço ao impacto visual. Bryan Genesse é quem faz o nosso herói por aqui, o herói improvável. Um ex-atleta decadente reduzido à função de zelador do local, que curiosamente luta kickboxer, e que incorpora até bem essa lógica do cinema de ação B, um sujeito comum que, pressionado pelas circunstâncias, revela coragem e habilidades extraordinárias.
Mas sejamos claros por aqui. Ele não é um Martin Kove. É, acho que é isso, falta um elemento Martin Kove por aqui… A trama ainda envolve uma cientista do laboratório dentro da instalação e seu filho adolescente que possuem alguma ligação com o zelador. Mas, não vale a pena comentar por aqui, acho que já deu pra ter uma noção do que é o filme.
PROJECT SHADOWCHASER II até pode ser menos interessante como narrativa e mais revelador como produto de uma época. Um cinema feito sem pudor, preocupado antes em entregar espetáculo do que coerência. Filmes pra compor prateleiras de locadora, e que encontra no excesso sua forma mais sincera de expressão. Pode não avançar muito além do que o primeiro filme já havia estabelecido, mas compensa isso com ação e muito barulho. E a convicção quase admirável de que, às vezes, tudo o que um filme precisa fazer é divertir com uma boa dose de chute na cara.







