ALGUMAS DESCOBERTAS E REVISÕES

STEAMBOAT ROUND THE BEND (1935); de John Ford

Nunca tinha visto esse do Ford. O filme já seria uma maravilha de qualquer maneira, uma comédia cheia de personagens fascinantes e uma trama encantadora, mas aí vem o final, uma corrida maluca de barcos engraçadíssima e cheia de simbolismos – para ganhar velocidade, os tripulantes do barco jogam todas as estátuas de cera do museu no forno, figuras representativas da história americana, porque todos os símbolos e mitos devem ser eventualmente destruídos para progredir. Um dos momentos mais divertidos e geniais da carreira de Ford. E mais uma bela parceria com o ator Will Rogers.

O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES (1936); de John Ford

Mais um Ford que vejo pela primeira vez. Baseado numa história real, o filme conta a fascinante aventura do Dr. Mudd (Warner Baxter), que numa certa noite teria sido melhor não ter ajudado a tratar a perna de um homem. Acontece que o homem é John Wilkes Booth, que havia acabado de assassinar o presidente Lincoln. No dia seguinte os Yankees decidem prender todos os homens que haviam entrado em contato com o fugitivo. Após um julgamento unilateral, o Dr. Mudd escapa por pouco da forca, mas é transferido para uma ilha prisão cujas águas que cercam o local são infestadas por tubarões. Na segunda parte do filme temos uma tentativa de fuga e a possibilidade de redenção desse personagem tipicamente fordiano. Baxter provavelmente tem a melhor atuação da carreira e o filme é lindamente fotografado por Bert Glennon, que continuaria a trabalhar com Ford. A trama tem várias alternâncias de tom nessa jornada, tudo se desenrola muito rapidamente, mas ainda há alguns ótimos momentos visuais fordianos, como toda a sequência da fuga; ou o fechamento lento das portas em Fort Jefferson enquanto um corneteiro entoa o toque de recolher no centro da tela; ou o véu que desce sobre o rosto de Lincoln – uma expressão puramente visual do fechamento emocionante de um capítulo da história americana e que sempre interessou muito à Ford. Poético em sua simplicidade.

CLUB HAVANA (1945); de Edgar G. ULmer

Peter Bogdanovich: Bem, e Club Havana (1945)?
Edgar G. Ulmer: Adorei fazer – Adorei! Não tinha roteiro – de novo, fiz um Rossellini. Era um filme que eu não ia realizar; quem ia trabalhar nele eram Russell Rouse e Clarence Greene. Fromkess tinha contratado uma equipe inteira e tudo o mais, mas jogou o roteiro fora uma semana antes de começarmos a filmar. Ele me chamou e disse: “Ok, você diz que consegue fazer as coisas – filme sem roteiro – invente-o”. Assim arranjei alguns atores. Eu só dispunha de uma página – um esboço. Schüfftan também trabalhou nesse filme pra mim. Realmente me diverti com esse – todo o filme foi filmado num só set. Conseguimos um sucesso musical e tanto com aquilo: foi a primeira vez que se usou “Tico-tico”.

PB: Qual era o desafio? Apenas fazer alguma coisa?
EGU: Não! Fazer algo especial – fazer Grand Hotel (1932) num só lugar.

PB: Club Havana foi o Grand Hotel da PRC?
EGU: Sim.

Coisa linda isso aqui. No decorrer de uma hora, num único ambiente, dramas, mistérios, paixões humanas são resolvidos em meio as músicas “Bésame mucho” de Consuelo Velázquez e “Tico-Tico, no Fubá” de Zequínha de Abreu, enquanto Ulmer conduz tudo com a sua maestria habitual.

CURVA DO DESTINO (DETOUR, 1945); de Edgar G. Ulmer

Mais um filme do Ulmer. Já fazia uns vinte anos que não revia e a única coisa que eu lembrava era da personagem de Ann Savage, excelente como uma das mais devastadoras femme fatales do cinema noir. O filme continua uma belezura, filmado em seis dias, com orçamento risível, mas transbordando de pulsão criativa, uma intensidade absurda e sequências icônicas. Ficção pulp em sua forma mais visceral.

THE BLUE GARDENIA (1953); de Fritz Lang

Lang dizia que os seus filmes conseguiam permanecer atuais porque tratavam de temas universais, que não ficavam datados. THE BLUE GARDENIA pode não ser dos seus melhores trabalhos, mas é um bom exemplo que se encaixa nessa descrição; aborda uns tropos cabeludos como abuso sexual em situações em que a mulher se encontra embriagada e as consequências de um possível assassinato em legítima defesa, tudo filmado com a inteligência e maestria habitual do alemão…

Mas a habilidade de Lang aflora sobretudo na primeira metade, na maneira como conduz diálogos casuais, interações entre as personagens (o trio feminino central é maravilhoso, Lang deveria ter feito mais filmes sobre esse universo) e os indícios da angústia que está por vir. A tensão aumenta ainda mais quando o assassinato entra em cena. Uma pena que dá uma caída na reta final, com um desfecho bem bobo, provavelmente por imposição do estúdio, mas que não apaga o belo filme que vem antes.

MOST DANGEROUS MAN ALIVE (1961); de Allan Dwan

A premissa lembra uma história de origem de algum super-herói clássico, com o protagonista ganhando “super poderes” à partir da exposição da radiação de um teste de bomba atômica, mas ao invés de um herói padrão, o sujeito tá fadado a um destino mais apocalíptico. O roteiro é meio amalucado e é incrível como Dwan se mantém fiel ao seu estilo, filma bem pra burro, sem firula, simples, seco, com uma economia de fazer inveja, mas ao mesmo tempo criativo. Sempre existe um ou mais momentos de gênio, tudo com orçamento minúsculo, e extrai ao máximo dos personagens/atores, sobretudo quando estão envoltos por sombras.

WITCH HUNTER (1994); de Paul Schrader

Dos poucos filmes do Schrader que ainda me faltava. Produção pra TV, da HBO, sequência de um outro filmeco com o mesmo personagem, o detetive particular Phil Lovecraft (Fred Ward no primeiro e Dennis Hopper neste aqui), a trama é basicamente um (neo) noir, mas que se passa numa Hollywood de universo alternativo nos anos 1950, onde a bruxaria e magia é uma realidade comum e as autoridades são contra seu uso. Uma comissão é formada por um senador republicano (Eric Bogosian) pra descobrir usuários de magia, enquanto o tal detetive Lovecraft investiga o assassinato de um executivo de estúdio. Difícil não pensar no Macarthismo, na paranoia anti-comunista do período, mas seriam coisas que tornariam o filme mais profundo do que realmente é… A trama é no máximo divertida, acompanhar Dennis Hopper pagando de detetive nunca é tempo jogado fora, e tem seus momentos mais imaginativos pra mostrar esse universo de magia, cujos elementos mais memoráveis são os efeitos especiais, um CGI arcaico mas que tem seu charme pra um filme de TV dos anos 90. Filminho bacana e só. 

E tem uma participação bem legal do Julian Sands (RIP).

ALLUDA MAJAKA! (1995); de  E.V.V. Satyanarayana

Olha a que ponto cheguei com o vício em cinema indiano… Este é o tal filme que possui a famigerada cena que virou meme no youtube nos anos 2000, quando se brincava muito com os exageros dos filmes de ação indianos, onde um sujeito desliza com um cavalo por debaixo de um caminhão… E acreditem, talvez isso nem seja a coisa mais absurda que tenha por aqui. ALLUDA MAJAKA! é um festival de sandices, um masala insano, muito divertido e com o Chiranjeevi inspirado, fazendo o papel mais safado que já vi, dando tapa na bunda das moças, tirando o biquini delas dentro de um lago, e com muita energia nas partes dramáticas, nas danças e nas sequências de luta, que são ótimas. A trama perde um pouco a força na segunda metade, com uma brincadeira de disfarces e uma enrolação com as situações e o excesso de personagens, mas a presença de Chiranjeevi mantém as coisas vivas por todo tempo que fosse necessário… O sujeito é um fenômeno e já demonstrava perfil de herói telugo das massas há mais tempo do que eu imaginava.

FEDERAL PROTECTION (2002); de Anthony Hickox

Perdemos o grande diretor Anthony Hickox recentemente. E aí fui rever isso aqui. A trama não é particularmente emocionante, mas homem sabia como revestir tudo numa lógica neonoir pulp que eu não resisto, bem divertida de acompanhar, nem que para isso tenha que sacrificar a história central inicial – mafioso em proteção federal após ser testemunha contra seus antigos companheiros corre o risco de ser descoberto – pra criar um plot dentro do filme com a personagem da Dina Meyer, que acaba roubando a cena pra si – a sequência no quarto do hotel, com ela vestida de dominatrix e perfurando a testa de um sujeito com o salto do sapato é um dos ápices do cinema de Hickox. Desses momentos geniais que vez ou outra aparecem em pequenos thrillers B, sobretudo se forem dirigidos por um mestre do calibre de Hickox (uma pena que poucos vão realmente alçá-lo a essa condição). No mais, temos a figura de Armand Assante pagando de fodão, boas sequências de ação e tiroteios e um humor que beira o absurdo de vez em quando. R.I.P. Hickox.

CAÇADO (2003); de William Friedkin

Revi isso aqui pra gravar um episódio do Cine Poeira (que já está no ar, inclusive). De vez em quando acontece dessas, um diretor veterano precisa chegar e mostrar como fazer as coisas direito. Não sou do tipo ranzinza nostálgico reclamão (confesso que já fui), mas no início dos anos 2000 o cinema de ação em Hollywood andava bem capenga. E aí o Friedkin chega com CAÇADO e mostra como se faz. Não que não tivéssemos bons filmes de ação no período, mas Friedkin desafia e subverte as tendências dos anos 2000, em 90 minutos cria um exercício minimalista, basicamente uma caçada humana, sem excessos, sem gordura, pontuada por alguns dos combates de facas dos mais violentos e bem filmados da história do cinema. Sério, os enquadramentos de Tommy Lee Jones e Benício Del Toro (um dueto excepcional aqui) com uma câmera nervosa e a forma como tudo é montado é praticamente uma aula de cinema. Basta ver CAÇADO pra perceber a diferença entre o verdadeiro corte cinematográfico e a punhalada de video clip que tomou conta dos filmes de ação em Hollywood no período. Filmaço demais! O último filme gigante de um dos maiores diretores americanos que tivemos. 

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA – DO PIOR AO MELHOR

Outro dia lançaram um novo filme da série O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA na Netflix, então eu resolvi ver toooodos os filmes da franquia que ainda não tinha assistido e rever os que já tinha conferido antes de encarar esse mais recente. O resultado foi esse ranking, do pior ao melhor, já incluindo o tal novo filme da Netflix:

9. Na última posição, ficou O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D – A LENDA CONTINUA (Texas Chainsaw 3D, 2013), de John Luessenhop. Na maioria das vezes eu sou a favor da desmitificação e revisionismo de padrões, ícones e cânones no cinema, mas transformar o Leatherface numa espécie de anti-herói, um tipo de protetor, e alguém que mereça algum cuidado e carinho, é algo que eu não sei ainda como lidar. Especialmente depois de ver cada filme da franquia em sequência. Talvez se o filme fosse bom, eu não ficaria me procupando muito com esses detalhes, mas é bem meia boca na maior parte do tempo, a tram demora pra engrenar, e não consegui entrar muito na dos personagens na primeira metade do filme. 

A segunda metade já vira aquele banho de sangue padrão, sem muito brilho, mas sempre divertido de acompanhar, com algumas boas mortes… E tendo ainda Alexandra Daddario como protagonista, que é uma belezinha. Enfim, tem seus momentos. Mas é bem estúpido.

8. Agora, daqui pra frente é só alegria. Não que os filmes da série sejam geniais (na verdade, dois são sim, mas vamos esperar as primeiras posições), mas no geral me divertem em maior ou menor grau. MASSACRE NO TEXAS (Leatherface, 2017), de Alexandre Bustillo & Juliem Maury, já ganha uns pontinhos por tentar contar uma história diferente de tudo relacionado ao cânone de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. A maior parte da trama se passa em meados dos anos 60, com o jovem Leatherface escapando de uma instituição mental. Há uma espécie de componente whodunnit no filme, porque é mostrado que os internos têm seus nomes alterados para evitar a associação com seu passado criminoso, então nem sabemos exatamente quem é o Leatherface no grupo fugitivo até certo momento chave. E o filme é incrivelmente violento, incluindo um tiroteio em um restaurante ao estilo ASSASSINOS POR NATUREZA.

Longe de ser perfeito, surpreende pela visão brutal do horror da dupla francesa Bustillo e Maury (L’INTÉRIEUR e LIVIDE), que conduz com segurança um filme agressivo, macabro (a cena de sexo com o cadáver é um troço bizarro), com bons personagens e atuaçõs fortes (Stephen Dorff e Lily Taylor estão muito bem), excelentes efeitos de gore práticos, belo clima e até mesmo uma história convincente de origem, bem respeitosa ao personagem do título.

7. Olha o novo filme aí. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO DE LEATHERFACE (Texas Chainsaw Massacre, 2021), de David Blue Garcia, tem uma sequência em um ônibus de festa, com um monte de influenciadores digitais sendo cortados em pedaços pelo Leatherface que é simplesmente uma delícia e já vale o filme. Que aliás, só tem cerca de 80 minutos de duração. Então, por mais bobo e descartável que seja, é difícil até culpá-lo por desperdiçar seu tempo, porque ocupa tão pouco… E a contagem de corpos é altíssima, tem várias mortes legais, uns momentos bem tensos, umas sacadas visuais interessantes – como Leatherface no meio dos girassóis. Que venham mais filmes da franquia, mesmo que sejam massacrados pela crítica, mas tão divertidos como este aqui.

6. LEATHERFACE: O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3 (Leatherface: The Texas Chainsaw Massacre III, 1990), de Jeff Burr. A década de 80 ficou marcada pela ascensão do slasher, não apenas como um subgênero, mas como uma fonte de criação de ícones de terror na cultura popular. A New Line, estúdio que trouxe Freddy Krueger ao mundo, resolveu colocar as mãos numas outras franquias, como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, com a ideia de que Leatherface precisava ser o próximo grande ícone do gênero. Então, o terceiro filme da série colocou seu nome no título, um tempinho a mais de tela, com o personagem confeccionando uma de suas máscaras de pele humana, e até mesmo presenteou-o com uma motosserra mais épica, de aço inoxidável com a frase “The Saw Is Family” gravadas na lâmina.

A intenção também era desviar-se do humor de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 e devolvê-la às raízes do horror mais puro do filme original; contrataram David J. Schow pra isso, um pioneiro da literatura “splatterpunk” para escrever o roteiro, e na direção, Jeff Burr, que não é um Tobe Hooper, mas sempre mandou bem em produções pequenas, embora aqui tivesse que lidar com vários problemas durante as filmagens, além da série de cortes da MPAA, que meteu tanto a tesoura nas cenas de violência que até a versão unrated é branda.

O resultado, convenhamos, não é lá grandes coisas, mas ao longo do tempo se tornou um “filme do coração”, um pequeno e belo exemplar do horror noventista, que muitos odeiam, eu sei, mas que tenho um carinho especial. Acho divertidíssimo, é direto, não chega a 90 minutos de duração e consegue entregar um certo nível de insanidade que a franquia precisa.

O problema é que a trama é basicamente uma recauchutagem do filme original e o casal protagonista, interpretados por Kate Hodge e William Butler, são muito chatos. Temos novamente uma sequência que recria o jantar, sem a mesma força dos dois filmes anteriores, mas, vejamos, temos a mocinha com as mão pregadas à marteladas numa cadeira, um jovem Viggo Mortensen como um dos canibais, chamado Tex, um sujeito pendurado de cabeça para baixo pronto para ser abatido com uma martelada, Leatherface com sua nova motosserra cromada, personagens da família canibal nunca visto antes. E de quebra, a presença de Ken Foree como herói badass que surge nesta mesma cena metralhando todo mundo, para logo depois encarar Leatherface no mano a mano dentro de um mangue cheio de pedaços de corpos. Cacete, não tem como não se divertir com essa porcaria…

5. Se O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O INÍCIO (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning, 2006), de Jonathan Liebesman, é um filme que não justifica tanto sua existência – a de ser um prequel do remake de 2003, mostrando como os Hewitts (a nova família) se tornaram canibais assassinos e contando as origens de Leatherface – ao menos se justifica como um filme de horror muito eficiente, mais direto, sujo, violento pra cacete e com um trabalho de tensão bem muito competente, de fazer o espectador pregar na poltrona durante um bom tempo. Não deixa de ser descartável, mas para quem quer ver uma boa dose de matança, com Leatherface fazendo bom uso de sua motosserra, este aqui é altamente recomendável… R. Lee Ermey, que já havia brilhado no filme de 2003, continua um destaque. E para o roteiro trouxeram mais uma vez o pioneiro “splatterpunk” David J. Schow, que já havia trabalhado no filme acima, MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3.

4. Eu não diria que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chainsaw Massacre, 2003), de Marcus Nispel, seja um filme obrigatório, não é nada lá muito memorável. Mas uma coisa que eu não lembrava e que foi uma grande revelação pra mim nessa revisão é o fato de ser um remake que não tenta ser o original e muda tudo aquilo que lhe convém – trama, situações, personagens… Não que isso o torne melhor, mas pelo menos lhe dá alguma autenticidade dentro de sua proposta conceitual, mesmo que o resultado geral seja genérico em tom e visual. O problema é que o Marcus Nispel filma mal, com um ou outro momento de destaque. Um diretor mais talentoso teria transformado isso aqui num clássico do horror dos anos 2000. Mas ok, ainda assim, tudo funciona pra mim de alguma maneira, sobretudo no terceiro ato quando o filme se torna só uma frenética – e realmente tensa – perseguição de Leatherface à final girl de Jessica Biel, com alguns momentos bem inspirados e violentos. No fim, fiquei bem satisfeito. Me parece um filme que se arrisca mais, o que acaba adicionando uns pontos à seu favor, mesmo que falhe em algumas coisas no percurso.

Mas aí entra o xerife de R. Lee Ermey, que é o que o filme tem de mais desconcertante, e uma das melhores coisas da franquia inteira. Tudo sobre a presença do sujeito é simplesmente aterradora, tensa e desagradável de assistir – uma performance que merecia ser mais lembrada. O sujeito era foda.

3. O quarto filme da franquia, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA: O RETORNO (The Texas Chainsaw Massacre: The Next Generation, 1995), foi escrito e dirigido por Kim Henkel – que é o co-criador do primeiro filme, o clássico de 74, junto com Tobe Hooper. Henkel considera o filme uma paródia da franquia (ele até recria algumas cenas do original), mas o público na época não achou muita graça e foi um fracasso nas bilheterias. Desde então, vem ganhando um status cult e agora eu entendi porquê (esse foi um dos que eu nunca tinha assistido antes)… Trata-se de um dos filmes mais surtados, bizarros, anarquistas, doentios, com um humor debochado dos mais absurdos que eu já vi dentro de uma franquia de horror mais conhecida. Em determinado momento eu pensei que tava vendo um filme do David Lynch… As atuações de Matthew McConaughey e Renée Zellweger, os dois nomes que acabaram ficando famosos, acompanham toda a loucura com a mesma intensidade de suas performances; e o filme também apresenta um Leatherface travestido, o que é simplesmente genial. Toda vez que lembro desse filme, gosto ainda mais.

2. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 (Texas Chainsaw Massacre 2, 1986) foi produzido pela Cannon Group como parte de um acordo com Tobe Hooper, que poderia dirigir este aqui contanto que fizesse mais dois filmes para o estúdio. Foi inicialmente planejado como uma continuação muito maior, mais épica e bizarra, com uma cidade inteira de canibais. De certa forma, continua sendo um filme “maior”, mais épico e bizarro, porém o orçamento foi reduzido durante a produção e algumas ideias foram deixadas de lado. Não sei se estava no projeto inicial, mas Dennis Hopper está aqui como um Texas Ranger obcecado, parente de vítimas do primeiro filme. Ele quer se vingar e vai usar motosserras para atingir seu objetivo! E só por isso, já dá pra colocar o filme num pedestal.

Lembro da decepção que foi ver esse filme pela primeira vez. Provavelmente porque não esperava a total mudança de tom, mais carregado no humor, e é tudo ainda mais exagerado, mais colorido, em muitos aspectos o oposto do primeiro filme. Mas com várias revisões que fui fazendo ao longo dos anos passei a apreciá-lo cada vez mais. Hoje considero uma obra-prima. sobretudo por compreender melhor a ideia de Hooper em fazer uma continuação que reagisse aos anos 80, numa sátira autoconsciente do próprio produto que criou e também pelo contexto daquela época, de uma América oitentista cheia de traumas e ressaca das últimas décadas…

Certamente não era a continuação que os fãs do primeiro filme queriam, há uma recusa em atender as expectativas, um grande foda-se pra tudo isso. Mas ainda assim estamos falando de Tobe Hooper, então, para quem embarca na loucura, vai se deliciar com alguns dos momentos mais antológicos do horror nos anos 80. Como Leatherface descobrindo o “amor” e usando sua motosserra como extensão de seu… Bom, vocês sabem. Ou Dennis Hopper encarando Leatherface num duelo de motosserras, que é algo para se ver de joelhos. E apesar de Hopper estar maravilhoso, é preciso destacar Bill Moseley, que dá uma “roubada de cena” quando aparece. Pode não estar no mesmo nível do primeiro (óbvio, até porquê pouquíssimos filmes estão), mas de alguma maneira acabou sendo uma continuação perfeita de um filme perfeito.

1. Obviamente que o primeiro lugar seria do clássico de 1974. Não tinha como ser diferente. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (Texas Chain Saw Massacre, 1974), de Tobe Hooper, continua uma das experiências mais perturbadoras mesmo depois de tantas revisões, e permanece na mente como um pesadelo. Ok, “pesadelo filmado” é uma daquelas expressões que acabaram banalizadas pelo seu uso excessivo, mas aqui não existe definição mais perfeita. Tobe Hooper tira toda a gordura habitual do gênero, concentra-se no essencial e nos serve um filme aterrador, sublime e revolucionário; horror na sua forma mais pura e cristalina: um pesadelo filmado.

A antológica sequência do jantar com a família de canibais é um é uma das coisas mais absurdas e subversivas que existe no gênero até hoje; a mise-en-scène de Hooper, os ângulos oblíquos dos enquadramentos, a luz desorientadora, o pandemônio auditivo potencializados pelos gritos desesperados de Marilyn Burns, possui todos os ingredientes daquilo que é feito um… pesadelo. E convenhamos: só a ideia de um psicopata brutamontes, com uma máscara feita de pele humana, portando uma motosserra perseguindo uma garota inocente é algo simplesmente genial. Com isso em mente, o filme culmina numa das sequências mais inesquecíveis da minha vida, uma perseguição final que tem desfecho na icônica imagem cristalizada de Leatherface (Gunnar Hansen), perfilado contra o sol fumegante, agitando sua motosserra como numa dança macabra. Obra-prima, clássico, etc, qualquer termo desse tipo é pouco pra classificar isso aqui.

THE OTHER SIDE OF THE WIND EM VENEZA

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Saiu na semana passada o line up do Festival de Veneza deste ano e, fora de competição, teremos THE OTHER SIDE OF THE WIND. Nunca ouviu falar? Então prepare-se: Trata-se do último filme do gigante Orson Welles nunca completado, talvez a mais lendária e não vista produção de todos os tempos.

Na época, Welles prometeu que THE OTHER SIDE OF THE WIND seria o seu grande retorno triunfal, reuniu um elenco de figurinhas carimbadas, como os diretores John Huston e Peter Bogdanovich, mas também Susan Strasberg, Lilli Palmer, Edmond O’Brien, Cameron Mitchell, Dennis Hopper e por aí vai… As filmagens aconteceram entre 1970 e 1976 e segundo Huston, em sua autobiografia, o set era dos mais pirados que ele já pisou e que Welles simplesmente não tinha roteiro definido, portanto uma desorganização criativa pairava no ar ao mesmo tempo em que andava de mãos dadas com a poesia fílmica de seu diretor. Mas as fontes independentes de financiamento eram diversas e não muito confiáveis, a produção do filme se arrastou por muitos anos e Welles ainda tentava completá-lo quando morreu em 1985.

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Rymsza inventariando os rolos de THE OTHER SIDE OF THE WIND

Com a ajuda da Netflix, ano passado houve um esforço de crowdfunding que arrecadou 400 mil dólares para concluir essa obra final de Welles. O gerente de produção original do filme, o produtor Frank Marshall, supervisionou a conclusão do projeto, trabalhando em conjunto com o cineasta Filip Jan Rymsza, que foi um dos principais nomes na captação de recursos para esta finalização. Peter Bogdanovich, que era amigo de Welles, trabalhou diligentemente por muitos anos para completar THE OTHER SIDE OF THE WIND, mas sempre encontrou obstáculos e agora serviu de consultor no projeto Netflix. As poucas pessoas que chegaram a ver alguns trechos que Welles conseguiu completar na época de sua morte, apresentaram opiniões contraditórias, alguns dizendo que é um filme estranho e desanimador, enquanto outros o proclamam uma obra de gênio.

THE OTHER SIDE OF THE WIND passa então em setembro no Festival de Veneza e logo depois deve entrar na grade do Netflix. E se não entrar no Netflix Brasil, pelo menos já teremos outros meios de conseguir… Provavelmente, a melhor notícia do ano.

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THE LAST MOVIE (1971)

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THE LAST MOVIE foi uma bomba que explodiu na universal em 1971, o filme maldito de Dennis Hopper. Era uma daquelas obras que eu sempre morria de curiosidade, mas acabava adiando e adiando, especialmente depois do livro do Biskind, o maravilhoso “Como a Geração Sexo-drogas-e-rock’n’roll Salvou Hollywood“, cuja parte que fala do filme me deixou salivando.

As histórias que cercam a produção são simplesmente geniais e complementam a experiência de assistir de fato a obra. O filme em si é um trabalho realmente fascinante e conceitualmente forte na sua desconstrução estrutural, narrativa e formal, que reflete muita coisa do próprio cinema e, de certa forma, reverencia uma mística cinematográfica… Infelizmente, o público e crítica da época não conseguiu entrar na onda do Hopper, acabou sendo um fiasco e quase destruiu a carreira do homem como diretor. Ainda hoje não é uma tarefa muito fácil digerir THE LAST MOVIE, menos ainda escrever qualquer coisa a respeito, imagine então há quase cinco décadas… Mas vamos começar pelo começo.

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Após o sucesso do clássico SEM DESTINO, Hollywood estava em polvorosa com o Hopper e Peter Fonda, estava de lua-de-mel com uma turma de diretores cheios de novas ideias e com possibilidades de encher os bolsos dos grandes estúdios de dinheiro, mas que davam total liberdade para diretores como Francis Ford Coppola, Hal Ashby, Robert Altman, Bill Friedkin e muitos outros. A chamada “Nova Hollywood”, aparentemente, era um sucesso. E Hopper, então, era um dos mais cotados pelos estúdios a estourar como o grande nome dessa geração. Executivos brigavam para contratá-lo, não importa o projeto que o sujeito tivesse em mente, porque tinham certeza que iria fazer dinheiro, tendo em vista o que havia sido seu filme de estreia.

Mas já em EASY RIDER, Hopper havia demonstrado o tipo de artista difícil de lidar que era. As histórias de bastidores deste icônico filme são tão incríveis quanto as de THE LAST MOVIE. O fato é que os rumores sobre a falta de confiabilidade de Hopper, sem contar o seu apetite excessivo por drogas e álcool, se espalharam pelos quatro cantos de Hollywood, e o sujeito, cuja carreira estava em tão alta cota, de repente viu os estúdios retirarem suas ofertas. Mas foi nessa que a Universal resolveu fazer uma jogada arriscadíssima, apostando em Hopper, mesmo sabendo que estavam se metendo numa enrascada, dando a ele carta branca e um milhão de dólares para fazer THE LAST MOVIE.

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Era um projeto antigo de Hopper, mais de uma década tentando realizar. Como era muito jovem e não havia nenhuma experiência à frente de uma produção, era impossível alguém bancar o intento do sujeito, que já no papel devia ser totalmente indescritível e absurdamente maluco. No entanto, tendo EASY RIDER no currículo, cedo ou tarde iria aparecer algum trouxa para financiar seu projeto. Continue lendo