ALDRICH – PARTE 4: 1967– 1970

OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen, 1967)
Foi bom rever depois de tantos anos, sobretudo nesse contexto de maratona do Aldrich. Não é a obra-prima que eu lembrava, é um filme bem falho – em ritmo, tom em alguns momentos, decupagem – mas não dá pra deixar de citá-lo como o filme por excelência do subgênero Men on a Mission na Segunda Guerra, com seu elenco de machões fodões dos anos 60, que obviamente tem seu valor como entretenimento. E até por isso é bem provável que os críticos americanos na época não tenham entendido muito a abordagem de Aldrich e rotularam o filme como fascista, excessivamente violento, cínico. Ao contrário de ATTACK!, que é mais austero, OS DOZE CONDENADOS nunca esconde seu status de entretenimento espetacular.

Mas há muito a se pensar aqui, o filme apresenta a ideia de que a guerra não é nobre, é suja. E os motivos podem não parecer mais tão puros e honrados como eram antes. Claro que pelo tom, pela ação e atos de heroísmo, os sacrifícios dos personagens, pode-se passar batido o teor anti-guerra. Por outro lado, a atitude anti-autoritária e anti-militar exibida, uma história de criminosos condenados (que é algo tão aldrichiano) forçados a realizar um ataque contra o alto comando alemão não esconde suas reais intenções, especialmente como alegoria do Vietnam…

No mais, as atuações são notáveis e o caráter não convencional dos personagens lhes confere um carisma sem precedentes para a época, estabelecendo um novo tipo de herói, com o John Cassavetes em destaque como um rebelde individualista; Jim Brown como um soldado negro em busca de respeito – e seu ato final cheio de simbolismo; e, é claro, Charles Bronson e Lee Marvin, dois dos maiores atores de todos os tempos dividindo a tela, impecáveis.

A LENDA DE LYLAH CLARE (The Legend of Lylah Clare, 1968)
Um diretor de cinema arrogante e autoritário (Peter Finch) planeja filmar uma cinebiografia de uma estrela de Hollywood renomada (Kim Novak), mas que havia falecido uns anos antes. E contrata uma atriz desconhecida (também Kim Novak), que é sósia da personagem, para interpretar o papel principal.

Mais uma fábula ácida de Aldrich sobre Hollywood, só que agora me parece mais direcionado ao contexto do studio system daquele período, no fim dos anos 60, com todas as mudanças que estavam acontecendo no surgimento da Nova Hollywood… Só que o olhar melancólico e melodramático para os indivíduos que habitam esse universo aqui não chega a ser tão bom quanto THE BIG KNIFE. Sequer chega ao nível do camp divertido… É um dos filmes do Aldrich que menos gostei de descobrir nessa peregrinação. Até curto o Peter Finch e Kim Novak aqui, mas o filme se arrasta com longas sequências de conversas monótonas com ausência de qualquer coisa remotamente interessante acontecendo na tela na maior parte do tempo, com raras exceções.

Pelo menos tem um dos finais mais inesperados, absurdos, originais, ousados e geniais da história do cinema americano! Sério, não vou contar o que acontece, é preciso ver para crer…

TRIÂNGULO FEMININO (The Killing of Sister George, 1968)
Com o sucesso de OS DOZE CONDENADOS, Aldrich comprou seu próprio estúdio e embarcou num breve período independente, cujos dois primeiros filmes foram sérias apostas artísticas. O primeiro foi o filme acima, que não curto muito. E o outro foi este aqui, que é melhor, aborda questões mais ousadas, notório pela forma como trata lesbianismo, incluindo uma sequência perto do final que deve ter escandalizado os puritanos da época… Não à toa, foi um dos primeiros filmes a receber a classificação X sob o novo código. Antes de X se tornar sinônimo de pornografia. A trama é sobre uma atriz de novela na Inglaterra (Beryl Reid), cujo mundo começa a desmoronar quando teme que seu personagem será retirado da série, o que abala sobretudo o relacionamento com Childie (Susannah York), sua companheira bem mais jovem. Enfim, ainda não acho que Aldrich esteja na sua melhor forma como narrador nesses dois filmes pós-DOZE CONDENADOS. O sujeito já foi mais vistoso com a câmera e por aqui é tudo muito teatral (é preciso destacar pelo menos que os atores estão ótimos) e um bocado monótono, mas sem dúvida não dá pra negar que o homem continuava a ser um dos diretores mais provocadores e subversivos do cinema americano daquele período.

ASSIM NASCEM OS HERÓIS (Too Late the Hero, 1970)
OS DOZE CONDENADOS é um clássico absoluto do Aldrich, um de seus trabalhos mais famosos, além de ter um dos elencos mais fodas da história. Mas dentre seus men on a mission, meu favorito é este menos conhecido ASSIM NASCEM OS HERÓIS. Até tem algumas semelhanças com OS DOZE CONDENADOS, com um pelotão formado para uma missão suicida durante a segunda guerra, só que aqui a trama se passa numa ilha dominada por japoneses.

O negócio é que tudo é mais bem resolvido, mais direto, mais cínico, violento e até mais divertido que o filme de 67. Há uma situação tensa que se estabelece a partir da metade que é de tirar o fôlego, com os soldados em fuga e se escondendo na selva, e os japoneses na cola, um drama de sobrevivência conduzido com habilidade pelo Aldrich. Cliff Robertson tá longe de ser um Lee Marvin ou Charles Bronson, mas o filme compensa com quem realmente rouba o filme pra si, que é o grande Michael Caine, fazendo uma figura moralmente ambígua e que é também um dos personagens mais fascinantes da filmografia do Aldrich.

ALDRICH – PARTE 2: 1956-1959

FOLHAS MORTAS (Autumn Leaves, 1956)
A carreira de Aldrich possui algumas inserções, em meio a tantos filmes masculinos, de exemplares que exploram o universo feminino com protagonistas fortes. FOLHAS MORTAS foi o primeiro, um drama que começa como um estudo sobre solidão antes que a datilógrafa interpretada por Joan Crawford receba a proposta de casamento de um homem muito mais jovem (Cliff Robertson), desencadeando a segunda metade do filme impregnada de confusão edipiana e neuroses esquizofrênicas. Aldrich, com uma câmera inventiva, eleva um conto de desejo feminino a uma obsessão histérica e tensão hitchcockiana. Não é perfeito, acho que esse material renderia mais nas mãos de um Sam Fuller (sobretudo como as coisas se desenrolam no desfecho), mas é bom pra ver como Aldrich evoluiria em relação a esse universo feminino em filmes futuros. E as atuações de Crawford e Robertson são tão boas que até passo pano pra alguns detalhes…

MORTE SEM GLÓRIA (Attack, 1956)
Eu nunca tinha visto, então estava esperando uma aventura de guerra escapista e divertida, como tantas outras do período, e o Aldrich vai lá e entrega um dos melhores e mais amargos manifestos anti-guerra produzido em Hollywood durante os anos 50, transcende até o drama de guerra convencional. Na verdade, acho que já dá pra perceber até aqui que nada em Aldrich é convencional, tudo é mais complexo e humano. 

A produção não teve a habitual cooperação do exército dos EUA, que não gostou da representação de seus oficiais no filme, então Aldrich foi forçado a realizá-lo com um orçamento pequeno em pouco mais de um mês de filmagens. Acabou sendo uma lição pro diretor, ainda que tivesse que aprendê-la outras vezes, constantemente se vendo em conflito com algumas cabeças de estúdio que não gostavam dos temas que ele escolhia filmar. Ao londo da carreira, Aldrich encontraria a incompetência nos estúdios da mesma maneira que a retrata o exército americano em MORTE SEM GRÓRIA – guardando as devidas proporções – e sofreu por isso, perdendo sua própria companhia de produção em mais de uma ocasião. Mas continuou lutando e encontrou sucesso ao parecer seguir as regras enquanto na verdade as desmantelava – quer blockbuster popular mais ácido e cínico do que OS DOZE CONDENADOS? Seu ataque à complacência, incompetência e corrupção em MORTE SEM GRÓRIA é tão forte quanto o de Kubrick em GLÓRIA FEITA DE SANGUE e eu diria até mais afiado e menos sentimental. Um filme que diz tanto sobre o exército americano e a ineficiência da hierarquia militar quanto da própria visão desprezível do diretor em relação a figuras de autoridade. Vale destacar as atuações maravilhosas de Jack Palance – SPOILER expressivo até fazendo papel de cadáver FIM DO SPOILER – e Lee Marvin que consegue engolir o cenário nos poucos momentos que aparece. E tem algumas das cenas de batalhas mais violentas do período.

A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO (Ten Seconds to Hell, 1959)
Um rascunho de OS DOZE CONDENADOS, com o conceito fatalista de “grupo de homens em missão” que depois seria expandido para o filme de 1967, com orçamento maior, astros mais famosos e mais ação… Mas Aldrich costumava ser o primeiro a descer a lenha em A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO, sobretudo na maneira como o retalharam no corte final, tirando mais de meia hora de uma introdução que daria mais sentido para os personagens agirem como agem. Muitos dos próprios admiradores de Aldrich admitem que é um trabalho falho. Nunca tinha assistido, só conhecia essa reputação desfavorável, mas apesar de não ser mesmo dos meus favoritos do diretor, achei excelente… Pode não cumprir a empolgação prometida no título, mas captura um lugar, um tempo, um estado de espírito com uma precisão quase documental, a Berlim pós-guerra, que era um terreno baldio de prédios destruídos por bombas, pobreza extrema, cidadãos desmoralizados e o mercado negro à todo vapor. E é nesse cenário que Aldrich traz à vida um melodrama existencial sombrio que fascina em vários níveis, desde o contraste nos estilos de atuação entre Jack Palance e Jeff Chandler (que estão geniais) até a excelente cinematografia em preto e branco de Ernest Laszlo. As sequências dos desarmamentos de bombas são verdadeiras aulas de tensão.

COLINAS DA IRA (The Angry Hills, 1959)
Das poucas coisas que salva por aqui, é uma ceninha em que Mitchum e mais um sujeito vão para um bar na Grécia e assistem a uma dançarina exótica de topless. Isso mesmo, em 1959 temos um filme do Aldrich, estrelado pelo Mitchum, com uma mulher de seios à mostra… Cheguei a fazer um post por aqui de tão surpreso que fiquei na época que assisti pela primeira vez. Depois fiquei sabendo que o Aldrich nem filmou a cena, mas o produtor Raymond Stross. A cena foi incluída apenas em algumas versões. Provável que na época nem tenham visto a moça de topless… Na verdade, havia muito pouco que Aldrich gostava em COLINAS DA IRA. Ele teve sérios conflitos com a Columbia Pictures por causa de um trabalho anterior, THE GARMENT JUNGLE, no qual fora demitido e substituído por Vincent Sherman, que recebeu o crédito de direção. Isso levou Aldrich a buscar uma maior liberdade artística na Inglaterra, onde fez o belo thriller de desarmamento de bombas que comentei acima. E logo depois iniciou essa nova empreitada, um thriller de espionagem em tempos de guerra, baseado num romance de Leon Uris, ambientado entre partisans gregos e informantes da Gestapo. Parecia um projeto ideal para Aldrich e também tinha o que parecia ser o herói perfeito nos moldes do diretor, o maior ator de todos os tempo, Robert Mitchum.

Mas no fim, o que prometia ser um exemplar emocionante, acabou resultando em algo enfadonho, com uma trama cheia de escolhas erradas, triângulos amorosos aborrecidos e um final totalmente insatisfatório… Há pouca coisa pra se aproveitar nessa aventura. Óbvio que os seios da dançarina exótica, como já disse, é um destaque e que surpreende não pela nudez em si, mas por ser quase um ato simbólico de ousadia e subversão pro tipo de produto de estúdio que é COLINAS DA IRA. Pena que foi logo no pior filme do Aldrich que vi até agora.

Parte 3 em breve.