UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL (1990)

Daqueles filmes que fazem o indivíduo pensar duas vezes antes de pular a cerca. UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL (Body Chemistry) é o primeiro de uma série de quatro filmes picantes, thrillers eróticos que passavam na boa e velha sessão da Band, o Cine Privé, sobre tramas nas quais sujeitos impulsivos acabam entrando em enrascadas depois de cair na tentação por conta de um rabo de saia…

Na trama de UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL, temos o Dr. Tom Redding (Marc Singer), que é um pesquisador sexual, seja lá o que os roteiristas entendam no que isso signifique na prática. O filme mostra que seu dia de trabalho consiste em mostrar às pessoas clipes de filmes eróticos e analisa suas reações, o que pra trama não chega a ter nenhuma relevância narrativa. No entanto, Tom tem uma grande carreira, uma linda esposa (Mary Crosby), filho, e um melhor amigo (David Kagan) que é engraçado e lhe dá conselhos.

Mas tudo muda quando a empresa de pesquisa que Tom trabalha recebe um contrato da Dra. Claire Archer (Lisa Pescia), cujos estudos interessam os seus superiores. Que estudos? Não faço a menor ideia e o filme não faz questão alguma de abordar…

O que realmente acaba importando é que Tom não resiste aos charmes de Claire e inicia um caso tórrido com a mulher, que quer explorar alguns limites dos prazeres sexuais com o cara. Quando Tom tenta terminar a brincadeira, Claire não está pronta para desistir dele. No início, ela apenas liga para a casa do sujeito, envia pra ele uma caixa cheia com as lagostas podres que ela havia preparado pra ele, e até uma fita VHS deles fazendo sexo, cujo filho de Tom quase acaba assistindo… Mas não demora muito a coisa começa ficar realmente perigosa, pondo em risco a vida de todos os envolvidos (e até os não envolvidos).

Já deu pra perceber que a coisa é claramente projetada para ser uma cópia de ATRAÇÃO FATAL, dirigido por Adrian Lyne e estrelado por Michael Douglas. Para quem já viu esse clássico do gênero, UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL não vai ser nenhuma surpresa, mas não deixa de ser um thriller eficiente e muito bem conduzido pela diretora Kristine Peterson, que sempre arruma um jeito de prender a atenção do público. Pena que as cenas de nudez e sexo são escassas e as poucas que há não são filmadas com muita inspiração. Não é um filme que parece focar tanto nesse tipo de cena, apesar do gênero, mas nas consequências dos atos de infidelidade e na obsessão e angústia entre os personagens envolvidos…

A falta de boas cenas de sexo não chega a atrapalhar. Evidente que uma boa dose de cenas eróticas sempre fazem bem pra um filme como esse, mas tirando esse detalhe, o elenco é ótimo e a coisa se desenrola num bom ritmo. Quero dizer, não é muito difícil criar situações intrigantes a partir de um pai de família, “cidadão de bem”, que resolveu foder com sua vida ao pular a cerca. Sobretudo quando a mulher que lhe seduziu é uma sociopata tarada insaciável que vai fazer de tudo pra ter o que quer.

Com essa premissa, meus caros, é facinho se divertir com um filme como UMA PAIXÃO INCONTROLÁVEL.

Agora fiquei a fim de conferir aos outros filmes da série e comentar por aqui. Sei que tenho sido meio negligente com o blog nos últimos tempos, mas vou tentando voltar as atividades por aqui à medida em que vai sobrando tempo e disposição. E, claro, vocês podem ajudar a manter o recinto mais ativo, com MUITAS postagens. É só apoiar – se puderem/quiesrem – o blog no APOIA.SE ou até mesmo passando um PIX para ronaldperrone@gmail.com. Todas e quaisquer doações são aceitas, apreciadas e ajudarão a manter o blog atualizado com mais frequência. 🙂

OLHOS NOTURNOS (1990)

Quando se pensa nas origens do subgênero “thriller erótico“, a maioria das pessoas vão imediatamente para INSTINTO SELVAGEM, de 1992, que acabou ganhando notoriedade e créditos pelo pioneirismo no estilo. Ignoram o fato de que existiam títulos lançados direto para vídeo que são anteriores ao filme de Paul Verhoeven, que definiram várias características e estética do gênero e que foram tão copiados quanto o filme do holandês, gerando um vasto número de exemplares nos anos 90. OLHOS NOTURNOS (Night Eyes) é um desses produtos seminais a que me refiro.

Não é lá um bom filme, é preciso dizer. Mas, independente da sua qualidade, possui um valor histórico imprescindível. Claro, valor sobretudo para os amantes de um erotic thriller do tipo que passava aos sábados nas madrugadas da Bandeirantes (e ainda passa, mas sem a mesma graça) na famigerada sessão Cine Privé. Para essa rapaziada, essa pequena produção dirigida por Jag Mundhra e estrelada por Andrew Stevens e Tanya Roberts tem lá sua importância. Agora, se você não se interessa por isso, pode viver sua vida tranquilamente sem ter contato com OLHOS NOTURNOS.

O Night Eyes do título original é o nome estranhamente pervertido da empresa de segurança privada administrada pelos irmãos Griffith, Will (Stevens) e Ernie (Cooper Huckabee). Na trama, um astro do rock, Brian Walker (Warwick Sims), contrata os serviços dos irmãos para vigiar sua esposa, Nikki, que ele acredita ser infiel e está pedindo divórcio. O que não faz o menor sentido. Já que eles estão se separando, já não moram nem na mesma casa, a mulher pode dar pra quem ela quiser sem que isso caracterize infidelidade… Mas, na lógica do filme, flagrar a mulher na cama com outro homem ajudaria o roqueiro no processo de divisão de bens. Sendo que logo na apresentação do casal, o filme mostra que quem pula a cerca, na verdade, é justamente o roqueiro…

Enfim, como a esposa é interpretada pela belezura Tanya Roberts, a eterna SHEENA – A RAINHA DAS SELVAS, obviamente a espionagem do pobre Will se transforma em voyeurismo, que então se converte em um caso ardente entre os dois. O problema é que ao mesmo tempo em que aproveita da parte boa dessa situação, Will agora se vê envolvido num plot cheio de perigos e mistérios…

Como thriller, NIGHT EYES até consegue se estruturar de forma decente. O diretor Jag Mundhra, que acabou se especializando nesse tipo de filme, tenta manter as coisas em movimento, tenta manter o interesse de alguma maneira, apesar de não ser eficiente a todo instante. Há vários momentos em que o ritmo é bem zoado, nada parece acontecer. A abertura e o desfecho do filme até possuem um climinha de suspense, uns tiros, luta, mas nada que impressione muito.

Mas, pelo menos o elenco oferece algumas boas atuações, principalmente Tanya Roberts, como uma femme fatale ambígua e sedutora. Andrew Stevens, que também produziu e escreveu o roteiro de OLHOS NOTURNOS, se esforça como protagonista e até que consegue dar um pouco de carisma ao seu personagem. Não deixa de ser interessante ver o sujeito ao longo da trama sendo lentamente tragado para os braços da mulher que ele deveria espionar.

Agora, como um exemplar de Cine Privé, ou seja, o quesito erótico, a coisa complica. Nudez e cenas de sexo são escassas, reduzidas ao mínimo por aqui. Tudo filmado com certa distância, apressada, sem explorar muito os padrões de imagem que o público desse tipo de produto gosta de ver. Como ressaltei, OLHOS NOTURNOS era o começo de uma nova safra, ajudou a dar o pontapé inicial no subgênero “erotic thriller“, então ainda estavam em fase de teste, tentando encontrar o tom que realmente interessava. E o que interessava, aparentemente, à Mundhra e Stevens neste primeiro momento era explorar mais os aspectos do thriller do que a pele dos atores. Algo que foi se invertendo ao longo tempo: mais peitos de fora e roteiros cada vez mais fracos.

Mas não se preocupem, porque o filme não deixa o espectador sem ao menos o básico:

Existem alguns exemplares icônicos do período que conseguiram equilibrar as duas coisas – suspense e teor erótico – e são autênticos clássicos do Cine Privé, como CONVITE À TRAIÇÃO (96), de Gary Graver, PRIVACIDADE OBCENA (1995), de Lee Frost, OBSESSÃO FATAL (1997), de Fred Olen Ray, e outros…

OLHOS NOTURNOS, apesar de não chegar aos pés de nenhum desses, foi um dos responsáveis por moldar seus estilos. Esses filmes devem muito mais a este aqui do que um INSTINTO SELVAGEM, CORPO EM EVIDÊNCIA, etc… Além disso, OLHOS NOTURNOS teve relativo sucesso na TV à cabo, VHS, e acabou ganhando três continuações ao longo dos anos 90, todas estreladas por Andrew Stevens. Então, para quem é fã do gênero, acho que vale uma conferida. Só não esperem muita coisa.