
A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985) é um clássico incontestável, cujo status icônico foi certificado com sua divertida mistura de horror e humor, a ideia de zumbis especificamente sedentos por cérebros, algo que se tornou um pilar da cultura pop, a clássica dança de Linnea Quigley no cemitério e já comentei por aqui porque adoro esse filme. Comentei recentemente também sobre a continuação muito mais cômica de 1988. E agora chegou a vez do terceiro capítulo da franquia. Na prática, tirando alguns pontos de trama, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 (Return of the Living Dead 3) é um filme independente, que deixa de lado os elementos cômicos dos dois primeiros e segue por um caminho radicalmente diferente, resultando não apenas em uma das continuações mais originais de qualquer franquia, mas também em um dos filmes mais singulares do subgênero zumbi.
Estamos entrando no território do grande Brian Yuzna, então não é qualquer coisa. Sempre foi um sujeito particularmente habilidoso em pegar franquias já estabelecidas pra transformá-las em algo quase irreconhecível e, justamente por isso, únicas. Em vez de respeitar cegamente continuidade, tom ou expectativas do público, Yuzna trata continuações como um território experimental, às vezes usando apenas o nome da série como ponto de partida para explorar obsessões muito pessoais. E A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 é o exemplo perfeito disso, ele abandona a comédia dos dois primeiros filmes e entrega um romance trágico e visceral, que funciona bem como filme único.

Um dos casos mais radicais de sua filmografia talvez seja INITIATION: SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT 4, que ignora completamente o slasher natalino dos capítulos anteriores e se reinventa como um horror ocultista, erótico e lovecraftiano, mais próximo de SOCIETY, seu primeiro trabalho como diretor, do que de qualquer “filme de Papai Noel assassino”. Em todos os casos, Yuzna demonstra pouco interesse em agradar fãs puristas. Preciso assistir logo as suas continuações de RE-ANIMATOR…
Por aqui, Yuzna pega a franquia de zumbi criada por Dan O’Bannon pra trazer à tona a tal história de amor shakespereana. Em busca de emoção, os jovens amantes Curt (J. Travor Edmond, que é a cara do Edward Furlong, só que mais velho) e Julie (Melinda Clarke) se infiltram em uma base militar onde o pai de Curt comanda um projeto destinado a transformar cadáveres em armas de guerra por meio do químico Trioxin, responsável pelo surto zumbi nos dois primeiros filmes. Mais tarde, naquela mesma noite, os dois sofrem um acidente de moto que mata Julie instantaneamente.

Lembrando-se do que viu na base, Curt, em um ato de desespero, retorna ao local e expõe o corpo de Julie ao Trioxin, conseguindo trazê-la de volta à vida. A princípio, Julie parece normal, mas logo descobre uma fome incontrolável por carne humana, que só é aplacada ao infligir dor a si mesma. E obviamente qualquer pessoa que ela morde acaba infectada. Com o exército e uma gangue de marginais latinos em seu encalço, o casal se refugia nos esgotos, ambos lutando para lidar com a condição de Julie, ajudados por um andarilho conhecido como Riverman, personagem que vai se destacar pelo seu gesto simples, um marginal que se demonstra o mais humano dentro de um filme que é o caos.
Volto a bater na mesma tecla, mas é sempre revigorante quando um filme, ainda mais uma continuação dentro de um subgênero específico, se afasta da fórmula típica e tenta algo diferente, e como podem ver A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 faz exatamente isso. A mistura de carnificina zumbi explícita com uma história de amor é, sem dúvida, uma combinação estranha, mas Yuzna a conduz com notável facilidade. E talvez o aspecto mais surpreendente do filme seja a força de sua história de amor. Com certa frequência vemos romances em filmes de gênero que parecem deslocados e artificiais, mas aqui ocorre exatamente o oposto e a relação entre Curt e Julie é a espinha dorsal do filme e, acima de tudo, soa crível.


É evidente que precisamos relevar, ou pelo menos entender, o fato de que Curt é facilmente um dos sujeitos mais burros da história do cinema de horror. E a trama precisa andar à base de sua burrice. No início do filme ele vê experimentos com cadáveres, sabe que o Trioxin causou surtos zumbis anteriores, tem um pai diretamente envolvido nesse projeto militar e, ainda assim, decide invadir a base para ressuscitar a namorada morta, como se isso pudesse terminar de outra forma que não em tragédia. Ao longo do filme, o rapaz ignora TODOS os sinais evidentes de que Julie não voltou “normal”. Ele trata automutilação e fome por carne humana como meros efeitos colaterais administráveis e confunde amor com negação absoluta da realidade, colocando em risco não só a própria vida, mas a de qualquer um ao redor.
O mais grave é que Curt nunca pensa no coletivo, na contenção da infecção ou nas consequências maiores de seus atos. Tudo se resume ao seu drama romântico adolescente. Mas como disse, sua estupidez não é um erro de roteiro, não é um personagem mal escrito, mas uma escolha deliberada. É um protagonista trágico, movido por paixão cega, cuja burrice é o motor da narrativa e a razão pela qual o filme existe, para que acompanhemos as consequências inevitáveis de suas decisões. O que resulta em muita tregédia e violência, claro, mas também em vários momentos genuinamente doces, sem nunca cair no piegas, o que considerando o tipo de filme aqui é um feito e tanto.

Claro que A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 não funcionaria tão bem sem Melinda Clarke, que, para todos os efeitos, é o filme. Clarke possui uma presença avassaladora tanto em sua forma viva quanto morta, além de uma grande versatilidade. Ela lida com todos os aspectos da personagem, especialmente nos momentos mais delicados, que elevam consideravelmente o peso dramático. Em um momento estamos ali torcendo por essa zumbi em agonia, tentando controlar seus impulsos, recebendo todo o cuidado possível do seu amado, ao mesmo tempo, num instante, ela é capaz de dar uma guinada completa e arrancar o queixo de um homem com os dentes, com a mesma convicção. Baita atuação.
O visual de Julie em sua forma zumbi plena, quase cenobita, que remete a um body horror à la Clive Barker, com estilhaços de vidro saindo do rosto e dos ombros, piercings nos mamilos e nos lábios, espinhos de metal surgindo das pontas dos dedos, espirais metálicas cravadas em várias partes do corpo e feridas profundas marcando o peito, é inesquecível. A revelação da sua aparência é talvez o momento mais marcante do filme. Ainda mais impactante quando combinada com a montagem anterior mostrando Julie cravando os diversos objetos cortantes em sua própria pele. Uma sequência-chave e um exemplo notável da habilidade de Yuzna.

Em alguns momentos percebe-se as limitações de orçamento, sobretudo nas cenas que se passam na base militar, com aqueles guardinhas fazendo ronda. Uma coisa meio pobre, parece um filme do Jeff Leroy. Mas na maior parte do tempo, Yuzna consegue contornar as restrições de grana e deposita quase tudo nos efeitos especiais e maquiagem gore, transformando o filme num verdadeiro banho de sangue. O clímax é um destaque, com zumbis concebidos de forma criativa causando todo tipo de caos. E a participação do Riverman aqui é coisa de gênio. Enquanto os filmes anteriores tinham uma violência gráfica atenuada pelo tom de humor, por aqui tudo soa mais pesado, mais difícil de assistir. A cena em que Julie literalmente come pedaços de cérebro dentro da van onde um sujeito levou um tiro na cabeça confesso que me deu uma embrulhada no estômago.
Com alguns pequenos ajustes, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 poderia facilmente ter sido uma obra totalmente independente e, em essência, ele é. Ainda assim, no contexto das coisas, por ser o terceiro filme a carregar o nome RETURN OF THE LIVING DEAD, talvez esteja condenado a ser um pouco subestimado pelos puristas e sempre julgado em relação ao primeiro longa. Mesmo assim, a personagem Julie, em seu modo zombie, acabou se tornando icônica para muitos fãs do gênero, e com toda razão.
E quando comparado à atual onda de produções com zumbis, o filme ainda soa como o sopro de ar fresco que foi quando lançado. Eu ainda tenho um certo apego ao primeiro filme, diria que ainda prefiro o original. Mas este aqui não ficaria muito atrás. Sem dúvida, uma das melhores produções americanas de cinema de gênero dos anos 90.

























