A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 (1993)

A VOLTA DOS MORTOS VIVOS (1985) é um clássico incontestável, cujo status icônico foi certificado com sua divertida mistura de horror e humor, a ideia de zumbis especificamente sedentos por cérebros, algo que se tornou um pilar da cultura pop, a clássica dança de Linnea Quigley no cemitério e já comentei por aqui porque adoro esse filme. Comentei recentemente também sobre a continuação muito mais cômica de 1988. E agora chegou a vez do terceiro capítulo da franquia. Na prática, tirando alguns pontos de trama, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 (Return of the Living Dead 3) é um filme independente, que deixa de lado os elementos cômicos dos dois primeiros e segue por um caminho radicalmente diferente, resultando não apenas em uma das continuações mais originais de qualquer franquia, mas também em um dos filmes mais singulares do subgênero zumbi.

Estamos entrando no território do grande Brian Yuzna, então não é qualquer coisa. Sempre foi um sujeito particularmente habilidoso em pegar franquias já estabelecidas pra transformá-las em algo quase irreconhecível e, justamente por isso, únicas. Em vez de respeitar cegamente continuidade, tom ou expectativas do público, Yuzna trata continuações como um território experimental, às vezes usando apenas o nome da série como ponto de partida para explorar obsessões muito pessoais. E A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 é o exemplo perfeito disso, ele abandona a comédia dos dois primeiros filmes e entrega um romance trágico e visceral, que funciona bem como filme único.

Um dos casos mais radicais de sua filmografia talvez seja INITIATION: SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT 4, que ignora completamente o slasher natalino dos capítulos anteriores e se reinventa como um horror ocultista, erótico e lovecraftiano, mais próximo de SOCIETY, seu primeiro trabalho como diretor, do que de qualquer “filme de Papai Noel assassino”. Em todos os casos, Yuzna demonstra pouco interesse em agradar fãs puristas. Preciso assistir logo as suas continuações de RE-ANIMATOR…

Por aqui, Yuzna pega a franquia de zumbi criada por Dan O’Bannon pra trazer à tona a tal história de amor shakespereana. Em busca de emoção, os jovens amantes Curt (J. Travor Edmond, que é a cara do Edward Furlong, só que mais velho) e Julie (Melinda Clarke) se infiltram em uma base militar onde o pai de Curt comanda um projeto destinado a transformar cadáveres em armas de guerra por meio do químico Trioxin, responsável pelo surto zumbi nos dois primeiros filmes. Mais tarde, naquela mesma noite, os dois sofrem um acidente de moto que mata Julie instantaneamente.

Lembrando-se do que viu na base, Curt, em um ato de desespero, retorna ao local e expõe o corpo de Julie ao Trioxin, conseguindo trazê-la de volta à vida. A princípio, Julie parece normal, mas logo descobre uma fome incontrolável por carne humana, que só é aplacada ao infligir dor a si mesma. E obviamente qualquer pessoa que ela morde acaba infectada. Com o exército e uma gangue de marginais latinos em seu encalço, o casal se refugia nos esgotos, ambos lutando para lidar com a condição de Julie, ajudados por um andarilho conhecido como Riverman, personagem que vai se destacar pelo seu gesto simples, um marginal que se demonstra o mais humano dentro de um filme que é o caos.

Volto a bater na mesma tecla, mas é sempre revigorante quando um filme, ainda mais uma continuação dentro de um subgênero específico, se afasta da fórmula típica e tenta algo diferente, e como podem ver A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 faz exatamente isso. A mistura de carnificina zumbi explícita com uma história de amor é, sem dúvida, uma combinação estranha, mas Yuzna a conduz com notável facilidade. E talvez o aspecto mais surpreendente do filme seja a força de sua história de amor. Com certa frequência vemos romances em filmes de gênero que parecem deslocados e artificiais, mas aqui ocorre exatamente o oposto e a relação entre Curt e Julie é a espinha dorsal do filme e, acima de tudo, soa crível.

É evidente que precisamos relevar, ou pelo menos entender, o fato de que Curt é facilmente um dos sujeitos mais burros da história do cinema de horror. E a trama precisa andar à base de sua burrice. No início do filme ele vê experimentos com cadáveres, sabe que o Trioxin causou surtos zumbis anteriores, tem um pai diretamente envolvido nesse projeto militar e, ainda assim, decide invadir a base para ressuscitar a namorada morta, como se isso pudesse terminar de outra forma que não em tragédia. Ao longo do filme, o rapaz ignora TODOS os sinais evidentes de que Julie não voltou “normal”. Ele trata automutilação e fome por carne humana como meros efeitos colaterais administráveis e confunde amor com negação absoluta da realidade, colocando em risco não só a própria vida, mas a de qualquer um ao redor.

O mais grave é que Curt nunca pensa no coletivo, na contenção da infecção ou nas consequências maiores de seus atos. Tudo se resume ao seu drama romântico adolescente. Mas como disse, sua estupidez não é um erro de roteiro, não é um personagem mal escrito, mas uma escolha deliberada. É um protagonista trágico, movido por paixão cega, cuja burrice é o motor da narrativa e a razão pela qual o filme existe, para que acompanhemos as consequências inevitáveis de suas decisões. O que resulta em muita tregédia e violência, claro, mas também em vários momentos genuinamente doces, sem nunca cair no piegas, o que considerando o tipo de filme aqui é um feito e tanto.

Claro que A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 não funcionaria tão bem sem Melinda Clarke, que, para todos os efeitos, é o filme. Clarke possui uma presença avassaladora tanto em sua forma viva quanto morta, além de uma grande versatilidade. Ela lida com todos os aspectos da personagem, especialmente nos momentos mais delicados, que elevam consideravelmente o peso dramático. Em um momento estamos ali torcendo por essa zumbi em agonia, tentando controlar seus impulsos, recebendo todo o cuidado possível do seu amado, ao mesmo tempo, num instante, ela é capaz de dar uma guinada completa e arrancar o queixo de um homem com os dentes, com a mesma convicção. Baita atuação.

O visual de Julie em sua forma zumbi plena, quase cenobita, que remete a um body horror à la Clive Barker, com estilhaços de vidro saindo do rosto e dos ombros, piercings nos mamilos e nos lábios, espinhos de metal surgindo das pontas dos dedos, espirais metálicas cravadas em várias partes do corpo e feridas profundas marcando o peito, é inesquecível. A revelação da sua aparência é talvez o momento mais marcante do filme. Ainda mais impactante quando combinada com a montagem anterior mostrando Julie cravando os diversos objetos cortantes em sua própria pele. Uma sequência-chave e um exemplo notável da habilidade de Yuzna.

Em alguns momentos percebe-se as limitações de orçamento, sobretudo nas cenas que se passam na base militar, com aqueles guardinhas fazendo ronda. Uma coisa meio pobre, parece um filme do Jeff Leroy. Mas na maior parte do tempo, Yuzna consegue contornar as restrições de grana e deposita quase tudo nos efeitos especiais e maquiagem gore, transformando o filme num verdadeiro banho de sangue. O clímax é um destaque, com zumbis concebidos de forma criativa causando todo tipo de caos. E a participação do Riverman aqui é coisa de gênio. Enquanto os filmes anteriores tinham uma violência gráfica atenuada pelo tom de humor, por aqui tudo soa mais pesado, mais difícil de assistir. A cena em que Julie literalmente come pedaços de cérebro dentro da van onde um sujeito levou um tiro na cabeça confesso que me deu uma embrulhada no estômago.

Com alguns pequenos ajustes, A VOLTA DOS MORTOS VIVOS 3 poderia facilmente ter sido uma obra totalmente independente e, em essência, ele é. Ainda assim, no contexto das coisas, por ser o terceiro filme a carregar o nome RETURN OF THE LIVING DEAD, talvez esteja condenado a ser um pouco subestimado pelos puristas e sempre julgado em relação ao primeiro longa. Mesmo assim, a personagem Julie, em seu modo zombie, acabou se tornando icônica para muitos fãs do gênero, e com toda razão.

E quando comparado à atual onda de produções com zumbis, o filme ainda soa como o sopro de ar fresco que foi quando lançado. Eu ainda tenho um certo apego ao primeiro filme, diria que ainda prefiro o original. Mas este aqui não ficaria muito atrás. Sem dúvida, uma das melhores produções americanas de cinema de gênero dos anos 90.

NECRONOMICON: O LIVRO PROIBIDO DOS MORTOS (1993)

Taí um filme que nunca tinha visto e que tem vários sujeitos legais envolvidos. Pra quem não conhece, NECRONOMICON tem três diretores relativamente respeitáveis – pelo menos pra quem se interessa por cinema de gênero – cada um fazendo um episódio que forma uma antologia inspirada em H.P. Lovecraft.

Bom, na época apenas um deles era mais conhecido, Brian Yuzna, que falei dele recentemente por aqui, os outros dois eram estrangeiros em Hollywood: o francês, então iniciante, Christophe Gans, bem antes de fazer coisas como PACTO DOS LOBOS e a adaptação do jogo SILENT HILL. E o japonês Shusuke Kaneko, da trilogia GAMERA.

Temos uma história base que mantém três outras histórias conectadas, que segue a tradição das antologias de horror. Nessa trama, somos apresentados ao próprio H. P. Lovecraft, vivido por ninguém menos Jeffrey Combs (RE-ANIMATOR), carregado de tanta maquiagem que até demorei pra reconhecê-lo, em busca do lendário Necronomicon numa biblioteca cheia de mistérios e guardada por monges. Proibido de frequentar certos aposentos do local, Lovecraft dá um jeito de despistar os monges e encontra o livro escondido num cofre. E então, o sujeito começa a escrever ali mesmo as histórias que veremos durante o filme.

THE DROWNED é o primeiro e mostra um Christophe Gans como um diretor bem promissor, com talento para o visual. O rapaz só havia realizado até aquele momento um curta metragem no início dos anos 80. Na trama, Bruce Payne (o vilão de PASSAGEIRO 57) é o herdeiro de um antigo hotel caindo aos pedaços, local que guarda algumas lembranças ruins. Payne descobre que seu antepassado (interpretado por um brilhante Richard Lynch) usou o amaldiçoado Necronomicon para trazer de volta sua esposa e filho mortos, só que as consequências desse ato foram terríveis… E acontece que o personagem de Payne recentemente perdeu sua mulher amada num acidente. Como o sujeito não aprendeu com os erros do seu antepassado, ele usa o livro para trazer de volta seu amor perdido (encarnada pela musa do cinema erótico noventista Maria Ford), obviamente com resultados não lá muito agradáveis. Mas para o espectador é só alegria. Dirigido com estilo e aquela energia de iniciante, o episódio tem boa atmosfera, momentos perturbadores e ótimos efeitos especiais.

O segundo episódio é THE COLD, de Shusuke Kaneko, um conto sobre uma jovem que aluga um quarto numa casa onde um cientista solitário e recluso (interpretado por David Warner) reside no andar superior estranhamente gelado e que talvez seja mais velho do que aparenta. Quando a moça faz amizade com o triste e frágil cientista, ela descobre que ele encontrou o segredo da imortalidade. Claro, esse tipo de porcaria tem um preço… O sujeito só pode permanecer vivo aplicando constantes injeções de fluido espinhal humano fresquinho.

Ainda que eu goste da premissa e algumas ceninhas (especialmente no final quando abusam de efeitos especiais práticos, com muito sangue e gosma verde), é o episódio mais fraco de NECRONOMICON. É sabido que Kaneko não falava inglês quando filmou e provável que a barreira da comunicação deve ter sido um problema, embora em alguns momentos dá pra sentir o diretor tentando extrair uma dramaticidade considerável desta parábola sobre o preço horrível que se deve pagar por enganar o destino. Mas no geral THE COLD não é lá grandes coisas.

O filme volta nos trilhos com WHISPERS de Yuzna. É o meu favorito, o mais surtado e absurdo de NECRONOMICON. Yuzna realmente mostrou pros outros dois colegas como se faz! A história se passa, curiosamente, em um ambiente moderno, urbano; uma policial segue um suspeito até uma instalação aparentemente abandonada que abriga horrores inimagináveis e os monstros mais antigos da humanidade. Atraída para as profundezas, a policial é empurrada para dentro de um buraco que na verdade são as entranhas de um monstro e tem que lidar com criaturas sugadoras de medula óssea e até o corpo oco reanimado do seu parceiro num cenário saído de um filme do Mario Bava. Yuzna, que é um grande fã do bizarro e surreal, preenche seu segmento com imagens “porraloucas” e um banho de sangue daqueles, que vai satisfazer os fãs de um horror mais visceral.

Depois o filme retorna à história base, com Lovecraft agora tentando fugir da biblioteca. Acho que não disse ainda, mas essa parte também é dirigida pelo Yuzna. E Jeffrey Combs arrasa até o último minuto. Vale destacar alguns nomes responsáveis pelos efeitos especiais old school de NECRONOMICON, elemento fundamental por aqui, artistas soberbos do nível de Tom Savini, Todd Masters e Screaming Mad George.

Mas NECRONOMICON é bem mais que efeitos especiais e imagens grotescas, violentas, ou monstros com tentáculos que sugam o sangue de suas vítimas. É também uma meditação provocativa e interessante sobre o domínio do homem em relação à sua realidade, à um submundo assustador que, se invadido por nós, indivíduos estúpidos e curiosos, pode se tornar uma jornada fascinante, mas também mortal.

Infelizmente, NECRONOMICON não conseguiu ser lançado nos cinemas nos EUA, sabe-se lá porquê. Mas como teve dinheiro investido por produtores japoneses e franceses, os caras lançaram o filme nos cinemas em seus territórios para recuperar o investimento. Em seguida, a New Line adquiriu os direitos de distribuição, mas decidiu que era mais seguro lançar direto em vídeo do que arriscar dinheiro em uma campanha para lançar nos cinemas. Três anos depois, acabou chegando nas prateleiras das locadoras. Até hoje tenho a impressão de que é um filme pouco visto. Não é nenhum marco obrigatório do cinema de horror, mas é um filme que merecia uma conferida.

PROGENY: O INTRUSO (1998)

Essa semana vi esse pequeno filme do produtor/diretor Brian Yuzna que não tinha assistido ainda. Boa descoberta. O Yuzna é um cara que respeito e sempre que paro pra ver umas coisas dele, saio no mínimo agraciado com uma boa diversão.

Depois de produzir alguns trabalhos de Stuart Gordon, como o clássico oitentista RE-ANIMATOR e FROM BEYOND, Yuzna rapidamente conquistou uma reputação como cineasta com seu petardo SOCIETY, de 1989 (no Brasil: SOCIEDADE DOS AMIGOS DO DIABO). O sujeito, ao longo da carreira, conseguiu criar um universo original e certo senso de eficiência no horror, com algumas belezinhas nos anos 90, como O DENTISTA, NATAL SANGRENTO 4: A INICIAÇÃO e as continuações de RE-ANIMATOR. Rapidamente se tornou uma figura cult, embora alguns de seus filmes sofressem com um orçamento limitado que o impedia de prosperar como um Carpenter, Craven, Romero, Tobe Hooper… E um desses trabalhos que sofre com isso é justamente PROGENY: O INVASOR, uma fita de baixíssimo orçamento sobre abdução alienígena, que não tem nada de original, mas que se destaca pela forma na qual Yuzna conduz as coisas, pelo elenco afiado e, bom, por não tentar ficar inventando a roda e deixar de ser aquilo que é: um bom horror sci-fi noventista.

Mais uma vez Yuzna se reúne com o já citado parceiro de longa data, Stuart Gordon, que aqui atua como roteirista, junto com Aubrey Solomon, fazendo um belo trabalho de pesquisa, estudando casos “reais” de abdução, para chegar num enredo rigoroso e personagens mais, digamos, realistas. Temos, portanto, muitos elementos habituais deste tipo de evento (luzes estranhas no meio da noite, perda da noção de tempo durante o fenômeno, paranóia e crises de identidade, etc.), de forma que a história às vezes remete muito ao livro Communion, de Whitley Streiber (e à sua adaptação pra cinema, que tem o título no Brasil de ESTRANHOS VISITANTES), considerado uma autêntica bíblia da ufologia.

Além disso, PROGENY adiciona uma pegada de O BEBÊ DE ROSEMARY misturado com ARQUIVO X na trama, deixando as coisas ainda mais interessantes. Devo dizer que o filme não é lá uma obra-prima, mas armado com todo esse trabalho de pesquisa, as influências, mais o talento natural de Gordon/Yuzna, o resultado não é nada mau. PROGENY é redondinho e bem escrito, demonstra hábil na arte de detalhar a degradação de um casal em crise, personagens oprimidos por eventos estranhos, diante do horror e do inexplicável, e que funciona também como boa alegoria do casal diante do “horror” do primeiro filho.

O filme começa quando o cirurgião Craig Barton (Arnold Vosloo) faz amor com sua esposa Sherry (Jillian McWhirter) e uma luz azul ofuscante surge do nada e clareia o aposento. O casal recupera a consciência duas horas depois, sem nenhuma memória do que aconteceu. Craig então começa a sofrer de insônia, problemas de comportamento, agressividade… Sherry fica grávida e começa a sentir dores estranhas no abdômen. Em sessões de hipnose o casal relembra o que aconteceu naquela noite e a revelação não vai ser das melhores para eles. Mas para o público, é só alegria, já que se trata de abduções, nave espacial, alienígenas cheios de tentáculos roçando no corpo nu de Sherry e, obviamente, o que cresce na barriga da mulher é puro terror.

Yuzna faz umas escolhas interessantes, abraça a narrativa, no drama e paranoia dos protagonistas, sendo mais comedido do que o normal em cenas de choque e violência, deixando a atmosfera tomar conta e a tensão aumentar. E faz com que as sequências mais apelativas, com um bocado de gore, quando chega a hora, se mostrem mais imprevisíveis e especiais. Um bom exemplo é a sequência do flashback de Sherry, que mostra o que rolou durante aquelas duas horas, dentro da nave alienígena, um dos momentos mais angustiantes do filme. Assim como o final, quando a coisa descamba de vez pra uma violência mais gráfica, com tripas e sangue rolando na tela. E tudo muito bem feito. Os efeitos especiais de PROGENY são bastante satisfatórios, na maior parte do tempo, para uma produção de orçamento tão curto. O visual dos aliens pode decepcionar, mas é curioso como Yuzna faz a coisa dar certo de alguma maneira. Cortesia também do grande mestre Screaming Mad George, que já havia realizado os efeitos especiais de outros filmes do diretor.

Yuzna também aproveita para apoiar as câmeras no seu elenco, que é de qualidade. Vosloo ficou marcado interpretando o papel título em A MÚMIA, de 99, sempre demonstrou talento fazendo outros vilões, como em O ALVO, mas aqui prova que conseguia carregar um filme como protagonista e se sai muito bem. McWhirter acaba se destacando mais, num papel corajoso, com muitas sequências de nudez, e bastante expressividade corporal. Em várias entrevistas ela conta como foi difícil, tanto físico e emocional, o seu trabalho por aqui. O resultado na tela é fascinante.

Outras figuras aparecem por aqui pra acalentar o coração dos fãs de cinema B, como o grande Brad Dourif em papel pequeno, como um especialista em ufologia, que vale a pena acompanhar; e Wilford Brimley, que é sempre divertido.

Longe de ser dos melhores filmes de Yuzna, PROGENY teve lançamento limitadíssimo nos cinemas em poucos países, após circular em alguns festivais especializados no gênero. No fim, acabou tendo lançamento no mercado em vídeo, com até relativo sucesso. Hoje anda esquecido, mas foi um prazer redescobrir essa jóia. Boas referências, belo clima, boas atuações. Mais do que se vê em muitos filmes de horror lançados nos últimos anos. PROGENY é certamente um dos trabalhos obrigatórios para conhecer mais do diretor.

SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT 5: THE TOY MAKER (1991)

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Ho, ho, ho! Hoje é natal e finalizamos a série SILENT NIGHT DEADLY NIGHT com o quinto exemplar. O diretor e produtor Brian Yuzna, do capítulo anterior, resolveu tomar conta da franquia e produziu já no ano seguinte SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT 5: THE TOY MAKER, dirigido por Martin Kitrosser. Não sei se ele tinha planos de fazer a série prosperar, o fato é que a coisa toda acabou neste aqui.

A ideia do Papai Noel assassino segurando um machado já havia sido deixada de lado desde o terceiro filme. Contanto que o horror se passasse durante o natal, qualquer coisa estava valendo. O que aprontariam os realizadores nesse quinto capítulo? Com um roteiro assinado pelo Yuzna e o tal de Kitrosser, a ideia brilhante que tiveram foi, vejam só, uma releitura do famoso personagem criado por Carlo Collodi, o Pinóquio (ou Pinocchio, em italiano). Temos um velho fabricante de brinquedos decadente chamado Joe Petto (Hahaha!), vivido por ninguém menos que o velho Mickey Rooney, e seu filho, que é meio virado da cabeça, chamado Pino (!!!). Quando percebi esses nomes, matei a charada que estava por vir…

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Mas a trama de THE TOY MAKER segue um moleque que, numa noite perto do natal, recebe um misterioso presente deixado na porta de sua casa. Seu padastro percebe a movimentação e interrompe o coito com a mulher para mandar o guri pra cama. E é até bem grosso com o menino, por isso não ficamos muito sensibilizados quando o sujeito resolve abrir o presente, é “atacado” pelo brinquedo e bate as botas sob o olhar assustado do garoto. A vida segue, o moleque desde então não consegue falar, só faz cara de bunda o resto do filme, e sua mãe (Jane Higginson) tenta manter as coisas em ordem depois da morte do marido.

As coisas começam piorar para mãe e filho quando o tal Pino resolve se meter misteriosamente na vida deles, perseguindo e invadindo a casa, até culminar numa sequência final na qual descobrimos que Pino não é exatamente o que, a princípio, imaginamos. A não ser que você tenha se ligado na referência do Pinocchio…

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Apesar de um tanto ridícula na prática, essa contextualização dos personagens de Collodi neste filmeco de horror é interessante. O problema é que THE TOY MAKER custa a engrenar. A primeira hora de filme é muito chata, sem clima e várias boas ideias são desperdiçadas. Uma delas são os tais brinquedos com os aparatos mortais. As melhores sequência do filme só acontecem praticamente no climax final. Numa delas, a babysitter do garoto resolve fazer bobiças com o namorado e o quarto é invadido por brinquedos programados para matar! E aqui percebe-se o potencial que o filme teria se tivessem elaborado mais momentos com os brinquedos. Na verdade, há, mas é pouco e nem se comparam com a cena do quarto. Aposto que um Charles Band não desperdiçaria a oportunidade. Por outro lado, temos Mickey Rooney marcando presença e pagando mico com seu Geppetto de araque. E olha como são as coisas. Dizem que Rooney escreveu uma carta de repúdio quando o primeiro filme da série foi lançado, dizendo que a produção difamava o espírito natalino… Teve que aceitar participar de uma das continuações pra receber um cheque e pagar as contas no fim do mês. Rooney, não custa lembrar, ainda vive, está com 93 anos.

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THE TOY MAKER vale uma conferida para quem estiver interessado em assistir a série inteira. Como filme de horror independente, já que não tem qualquer ligação com os outros filmes exceto pelo título, é fraco, apesar da última meia hora, com brinquedos assassinos, efeitos especiais criativos e um Pinocchio macabro com complexo de Édipo.

Para finalizar, em questão de preferência, coloco os filmes da série na seguinte ordem:

5. SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT III: BETTER WATCH OUT! (89), M. Hellman
4. SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT V: THE TOY MAKER (91), Martin Kitrosser
3. SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT II (87), Lee Harry
2. SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT (84), Charles E. Sellier
1. INITIATION: SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT IV (90), Brian Yuzna

Feliz natal!

INITIATION: SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT 4 (1990)

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Vamos recapitular: o primeiro SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT era sobre um garoto que viu seus pais sendo assassinados por um sujeito fantasiado de Papai Noel. Anos depois enlouquece e começa a tirar a vida das pessoas vestido de bom velhinho. No segundo, é a vez do irmão caçula desse maluco seguir seus passos. O terceiro, de alguma maneira, força uma continuação direta e traz novamente o assassino do segundo para tocar o terror. Agora, chegou a vez de INITIATION – SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT 4, de Brian Yuzna.

A abordagem deste aqui me lembrou o caso do excelente HALLOWEEN III. Para quem não sabe, a ideia de John Carpenter era transformar a sua série em filmes independentes para serem lançados no período de Halloween, cada um com sua trama, seus personagens, deixando o serial killer Michael Myers enterrado no segundo filme. Infelizmente, o público não gostou da proposta e no quarto HALLOWEEN trouxeram o personagem de volta do mundo dos mortos. Ainda que HALLOWEEN 4 seja muito bom, a série só foi decaindo daí pra frente…

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Enfim, em INITIATION a coisa funciona da mesma maneira que o terceiro HALLOWEEN, no sentido de não possuir relação alguma com os filmes anteriores da série a qual pertence. Na verdade, a coisa vai ainda mais além… Não apenas não tem relação como a história não tem absolutamente NADA a ver com o próprio Natal! Sim, o clímax transcorre numa noite de natal, há decorações natalinas em alguns cenários, uma cena de reunião familiar em volta da árvore de natal, mas a impressão que dá é a de que o roteiro foi escrito para ser um terror qualquer, independente de datas comemorativas. Suponho que em algum momento da pré-produção, resolveram que poderiam vender melhor o filme inserindo-o na série SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT, acrescentando os devidos elementos de natal e pronto. Mas, querem saber? Isso pouco importa, porque INITIATION é muito bom!

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Outro filme que INITIATION me lembrou vagamente foi O BEBÊ DE ROSEMARY, do Polanski. Trata-se de uma história de bruxaria, com rituais obscuros, mas com um subtexto de emancipação feminina que poderia se passar em qualquer época do ano. O filme começa com uma mulher que despenca do alto de um edifício em inspontânea combustão, sob o olhar do bizarrento Clint Howard. Depois, somos apresentados à protagonista, a belezinha Neith Hunter, uma aspirante a jornalista que quer mostrar serviço e começa a investigar esse estranho acontecimento para impressionar seu chefe (Reggie Bannister, da série PHANTASM) e tentar se igualar profissionalmente ao seu namorado, também jornalista. No entanto, a cada descoberta a moça se afunda num perigoso universo e acaba descobrindo que, na verdade, corre o risco de se tornar a próxima vítima de uma seita de bruxas, que tem Clint Howard como capanga.

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Nada de muito original, mas nem tão óbvio quanto parece… algumas soluções são interessantes e gostei muito da direção do Yuzna. Confesso que preciso ver muita coisa dele ainda, só vi SOCIETY e este aqui por enquanto (pois é, nunca vi as continuações de RE-ANIMATOR), mas até agora tem se revelado um diretor notável, uma mente criativa do gênero do horror nos anos 80/90. O sujeito sabe como criar um climão bem elaborado, atmosférico, como nas cenas em que a mocinha tem alucinações pertubadoras com insetos – o enquadramento da barata gigante é de arrepiar – ou a tensa sequência em que Clint Howard entra em ação para raptar a protagonista . Além disso, é simplesmente sensacional os planos que Yuzna consegue criar tirando proveito dos efeitos especiais repugnantes criados pelo genial Screaming Mad George.

INITIATION não é uma obra prima, quero deixar bem claro que possui falhas, algumas coisas de roteiro mal explicadas, mas é terror dos bons! Algo que pode prejudicar (na verdade, nem me importo) é o fato de carregar o nome SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT no título (a única referência que se faz à série é quando Howard liga a TV e está passando um dos filmes anteriores). Ignorando esse detalhe, temos um exemplar que merece ser redescoberto pelos fãs do gênero.